in Bird Magazine, 27/11/2016
Porventura e por ventura, o silêncio do que falo é tudo o que consigo fazer ouvir.
Lamento que o quanto de tudo que recolho na vida seja inaudito, fica a bailar nos olhos, nalguma contracção muscular que faça erguer um sorriso ou na maré que, momentaneamente, possa trazer uma ondícula salgada até onde a minha parca vista alcança.
Habito-me sem me sentir em casa, habituo-me sem me fazer quotidiano, os dias rimam apenas porque tombam e se penduram na armação invisível que se ergue em redor do que escrevo.
Coroam-se as palavras, porque lhes louvo a ventura e ousadia de lavrarem o espaço que separa o meu sopro dos teus campos férteis, no entanto, nem bom vento, nem bom advento provém da atmosférica fronteira que me separa do que habito e de onde moro.
Calcorreio por entre estrepes aguçadas o percurso, desencantado, por não saber de cor o nome das estrelas embora me faça por estrelar a cada sorriso de uns petizes, esses, sim, que não o sabem e por isso são felizes.
Há um e outro, ao redor de uma e outra, gravitando as tardes porque o que educam não é o que aprendem, mas sim o que desencontram quando se soltam da pederneira as pequenas faíscas que os fazem arder brandamente no acampamento da vida.
Um dia, quando não me calar, vou levar alforge onde caibam os estilhaços dos espelhos que fui partindo, porque no reflexo de uma taça deve luzir o nome de quem à vida e na vida se alcança.
Todos clamam pelo sol, esquecendo o imenso calor que irrompe do esforço da chuva em se fazer sentir.
Pouco mais que o dinheiro, deixo a pobreza acompanhar-me.
Só assim consigo ter os bolsos suficientemente vazios para lá caberem todos os sonhos em formas de maias floridas que não colho.
Em tudo há o valor, inavaliado, de se ser uma pequena fragmentada porção de pó cósmico aglomerado num só corpo, num só pensamento, com saudades de ser praia e areal, terra e pinhal.
Acredito que um dia, um momento, possamos ver-nos como uma frágil fatia de um elaborado bolo cujo condimento é o sorriso que podemos fazer crescer numa outra fatia.
Todos parte de um e um que se parte quando nos esquecemos de nos abraçar de encontro ao que somos, um corpo de cada vez, até não sabermos distinguir por livre e espontânea vontade a etiqueta que nos separa do que nós somos do que nos fazem.
Tenho as mãos cansadas de tanto procurarem, no espaço que permeia a distância que me separa de amanhã, aquele momento em que me sei semeado pelo sol, colhido pela chuva.
Que me desculpem as palavras se as obrigo a serem aquilo apenas que sei ser, enfim, criança homem sem dimensão ou universo onde nascer.
2016-11-27
2016-11-22
São nuvens
in Correio do Porto, em 23/11/2016.
Saberemos sorrir, porque nos turva o céu, mas entre o sorrir e o caminhar sobram espaços onde se escondem caminhos que por nunca percorridos, jamais foram trilhos.
São uma espécie de meio termo entre a partida e a chegada.
Um pouco como o silêncio a que nos remete a ausência, seja ela qual for ou de que espécie desejar.
Vai-se sendo, ausente, até se desaparecer.
Para mim qualquer final de recta de um par de carris bastaria, ou uma pequena ermida, erigida saberá deus a quem, bem longe das pequenas serpenteadas estradas por íngremes socalcos e gentes socalcadas, poderia até ser sempre noite, para vivermos para sempre maravilhados pela luzidia e trémula claridade que fica gravada na íris quando olhamos para uma estrela.
Saboreio, ainda, cada sentimento que consigo compactar numa letra.
Não fico admirado pelas palavras parecerem desconexas, não conseguiria fazer uma letra com apenas um sentimento, cada uma, letra, traz com ela várias impressões subjacentes, assemelham-se à ponta do icebergue, um pequeno estilete que tem raízes profundas na profundidade máxima de mim até onde consigo mergulhar sem respirar, como poderia uma palavra falar por si se por mim apenas o silêncio se manifesta?
Agradeço a cada sentido que me faz, redundantemente, sentir.
Por eles vou fazendo de conta que o fim de tarde é passado com os pés enfiados numa poça de água quente enquanto um ou outro caranguejo me faz cócegas, por eles o Sol fica ali pendurado e periclitante entre o horizonte e o vácuo do espaço sideral, pendendo à minha vontade de ser peixe e dar um sermão à água, que vai falando comigo também nas suas formas imensas quando se deixa cair de costas, feliz, em espuma na praia.
Consegues ouvir?
Um dia virá, talvez, em que o que aprendemos será o que seremos, letra a letra, palavra a palavra e o dia cairá em nós como túnicas num fantasma já sem rememoração de corpo, até sem sentidos, para que nasçam outros, sentidos e corpos, dignos mais de mundano menos.
E, já agora, em que o tempo fale por nós e se reflicta num longo lago seco com um fundo de terra gretada. E se alguém, por descuido, perguntar pela água, que outrem possa responder, são nuvens.
Por entre as folhas de tília
onde os teus passos molhados saciavam a tarde
havia um vazio musicado,
as goteiras solitárias cantavam no misto de silêncio
de tudo que não vejo,
talvez me tenha cultivado na cegueira
e as raízes que o solo sustenta me levem devagar,
devagarinho,
para que não me ouçam
no grito escuro de um sonho,
sozinho.
onde os teus passos molhados saciavam a tarde
havia um vazio musicado,
as goteiras solitárias cantavam no misto de silêncio
de tudo que não vejo,
talvez me tenha cultivado na cegueira
e as raízes que o solo sustenta me levem devagar,
devagarinho,
para que não me ouçam
no grito escuro de um sonho,
sozinho.
2016-11-20
Possivelmente possível
in BirdMagazine, 20/11/2016
“Possivelmente
possível”
Por
entre os pingos da chuva, na infinidade de espaços onde a água não
se liquidificava, raiava o silêncio como se a estrada que nos levava
lá fosse toda ela feita de soluços, como as sandálias a
comprimirem o cascalho ou a túnica sacudida num vai e vem de
gotículas a salpicar todas as outras que caíam.
Quando
o tempo se sobra e se permite a veleidades veladas a quem não se
dispõe ao acaso, tudo sobra para que até as tardes de Outono
saboreiem sossegadas o aroma tépido de uma mão cheia de castanhas
e, depois, o enfarruscado abanar das palmas, uma na outra, a modos de
corpos de gente que se degusta.
Não
há muito a redigir para quem, talvez como eu, uma ensolarada
crepuscular idade basta para enternecer a visão gasta e os sentidos
desapurados.
Talvez
por isso me perca um pouco a saborear o ruído do solo que se
esmigalha a cada passo que dou pelo monte.
Desconstruo
as estradas por onde passo, faço por nem piscar os olhos, não me vá
fugir paisagem quando as pálpebras se dedicam a claquear o horizonte
como dando ordem ao cérebro gritando “acção!”.
Desconstruo,
também, o futuro.
Voto-me
à solidão como se apenas no calar da voz ouvisse e houvesse aquela
miríade de possibilidades que se soltam de uma inspiração, de uma
expiração, onde a sinceridade e honestidade típica do vazio
prevalecesse.
Rio-me
com o desequilibrar típico de quem se desvia de carreiros de
formigas ou de gafanhotos que, garbosamente, exibem diferentes
tonalidades como tontos e desconexos arco-íris monocolores
precipitando-se entre mim e o verde acastanhado das folhas que se
deixam outonar.
Há
uma ou outra sardanisca, osga para os leigos, que corre assustada por
entre dois ou três restos de ramos de pinheiros, pedras, por debaixo
da caruma quem sabe imaginando-se de onde tal adamastoreidade possa
surgir.
Detenho-me
num ou noutro pinheiro, sem as histórias que me suportam ou as
palavras retratadas nos olhares de quem não se lê, para por
momentos sentir na face a aspereza subtil e cuidada da casca resinada
e resignada de quem vê o tempo passar e sorri, caruma ao vento,
pelas intempéries que assolam a orla marítima de quem se observa
por entre o mar e o mundo.
Os
dias pequenos correm lestos, primeiro pela madrugada madrugadora,
depois ao subir do calor possível que o Universo catatónico
permite, para vir depois por aí abaixo até se deter no alaranjado
atonado céu, onde as nuvens brincam aos padrões e se esgrimam em
rendilhados pedaços de imaginação que me fazem, agora com frio,
sentir que o dia se vive quando se deixa ser, dentro da
possibilidade, possivelmente possível ou, matematicamente falando,
reciprocidade de uma hipótese sem tese.
A
Lua viu-se e desejou-se para nascer a poente de um horizonte, mas
destinou-se que, como o caos, as palavras se permitam orbitar o cerne
de um parágrafo crucificado.
Assim
foi o desfocado ocaso, na cruz ou apedrejado, por entre pares e
ímpares. mantenho-me aquecido no istmo que separa o falado e o
calado.
Não
havia espaço para mais, a metáfora terá que servir para o espaço
incólume que deixou pendente porque, como sempre, não se sabia
escrever e quem o poderia fazer, não o sabia ler.
2016-11-13
O corpo come, mas é a alma que se alimenta.
Crónica na Bird Magazine 13/11/2016
Escondi-me sem grande necessidade, não me viu chegar acorrentado que estava à pressa de fugir dos pingos que engrossavam a cada passo. Encostou-se ao primeiro muro que lhe deu garantia de protecção adicional contra este aguaceiro de chuva caduca e aninhou-se no chão, puxou dois renegados paralelos soltos da escravatura do solo e improvisou um banco. Abriu o enorme colorido guarda-chuva que lhe amparava os passos e, nestes dias farruscos, o abrigavam da sublimação que é caminhar em estado sólido sem se saber gasoso.
Sentado, o guarda-chuva preso entre os joelhos, as varetas a tinirem quando o vendo se lembrava de açoitar um braço em redor de um vazio ainda não soprado. Todo ele, agora, parecia um acampamento, lateral à margem da morte ou da vida, aqui ao lado do portão forjado com letras de arcaísmos e números agrupados na memória de outras temporadas vazam já em dois séculos atrás. Quando o vento soprava, ao abrigo da distração da chuva, e o guarda-chuva oscilava em pequenos arcos, na vaidade de ser ser visto de cima como um arco-íris rotativo de centro o e raio r, ele fazia por alinhar as varetas nos espaços de terra por entre o granito dos paralelos, prendendo-o.
Sorrindo, inclinou-se sobre o seu lado direito e espreitou a chuva que caía, agora, copiosamente na despreocupação de ser outra coisa que não a chuva.
[Ah, a liberdade de se ser quem se é.]
Fechou os olhos, molhou o rosto, sorriu agora um pouco mais e endireitou-se no chão, sentado degustando, deduzo eu, a alcalinidade líquida das moléculas que, apenas porque sim, se agrupam aos pares de hidrogénio e aos ímpares de oxigénio.
[Não me bastasse a inquietação das respostas para as quais não tenho perguntas, ainda me perco a comiserar porque razão a água é água e não poesia que se acumula na goteira do que não vejo.]
Inclina-se para a frente, encosta a testa ao frio metal do guarda-chuva e abre a mochila (era de cor azul, já o tinha dito?) tirando um saco grande de plástico. Senta-se hirto, como a chuva que teima em não abrandar de intensidade e pousa a saca no chão. Pareceu-me ouvir um tilintar. Quando começa a tirar o conteúdo sorrio.
[Aqui a narrativa apressa-se e com ela surgem as falhas na grafia, próprias de quem se inventa entre dois aguaceiros ou, vá, duas vidas. Talvez deva abrigar-me melhor, a chuva parece cair-me na cara ou, talvez não, não me deva emocionar com o simples que se abriga na complexidade de se ser o dia, presente.]
Começa por desembrulhar com cuidado os jornais que envolvem e conservam o calor desde a madrugada, quando a esposa (ou ele, como o poderei saber?) cozinhou o que quer que seja que o tacho conserva. Embrulhou os jornais, encostou-os à cara e sorriu, deveriam estar ainda quentes e talvez da celulose se soltasse ainda o carinho com que alguém lhe preparou o almoço.
[O corpo come, mas é a alma que se alimenta.]
O naperon azul pariu um par de pães alvos e farinhentos, cujos vestígios são agora as poeiras brancas no canto da boca e, logo de seguida, nas costas da mão que usou como guardanapo. O raspar da colher no metal contrasta com o burburinho da chuva e do vento a atirar um arame que serviu, certamente, de estendal. Arrumou na mochila jornais, naperon e tacho, partiu a maçã verde em duas metades, comeu uma metade por inteiro e a outra metade comeria inteira a meio da tarde, deduzo. Na falta do calor negro a rodopiar entre as bordas do universo que é uma caneca de metal, deixou-se encostado ao muro, ainda a segurar o guarda-chuva e a ouvir as grossas gotas que batiam no tecido transformando o som em embaciados óculos, salpicados por memórias secas de quando a vida poderia ser mais húmida, como as cavacas mergulhadas no leite.
Quando terminou o céu parecia já saciado, passara de um cinzento para vários cinzentos, ostentando aqui e ali uma gotícula de azul celeste e o branco que timidamente se anunciava abaixo da atmosfera que é o intervalo sagrado de quem respira para se viver.
Escondi-me sem grande necessidade, não me viu chegar acorrentado que estava à pressa de fugir dos pingos que engrossavam a cada passo. Encostou-se ao primeiro muro que lhe deu garantia de protecção adicional contra este aguaceiro de chuva caduca e aninhou-se no chão, puxou dois renegados paralelos soltos da escravatura do solo e improvisou um banco. Abriu o enorme colorido guarda-chuva que lhe amparava os passos e, nestes dias farruscos, o abrigavam da sublimação que é caminhar em estado sólido sem se saber gasoso.
Sentado, o guarda-chuva preso entre os joelhos, as varetas a tinirem quando o vendo se lembrava de açoitar um braço em redor de um vazio ainda não soprado. Todo ele, agora, parecia um acampamento, lateral à margem da morte ou da vida, aqui ao lado do portão forjado com letras de arcaísmos e números agrupados na memória de outras temporadas vazam já em dois séculos atrás. Quando o vento soprava, ao abrigo da distração da chuva, e o guarda-chuva oscilava em pequenos arcos, na vaidade de ser ser visto de cima como um arco-íris rotativo de centro o e raio r, ele fazia por alinhar as varetas nos espaços de terra por entre o granito dos paralelos, prendendo-o.
Sorrindo, inclinou-se sobre o seu lado direito e espreitou a chuva que caía, agora, copiosamente na despreocupação de ser outra coisa que não a chuva.
[Ah, a liberdade de se ser quem se é.]
Fechou os olhos, molhou o rosto, sorriu agora um pouco mais e endireitou-se no chão, sentado degustando, deduzo eu, a alcalinidade líquida das moléculas que, apenas porque sim, se agrupam aos pares de hidrogénio e aos ímpares de oxigénio.
[Não me bastasse a inquietação das respostas para as quais não tenho perguntas, ainda me perco a comiserar porque razão a água é água e não poesia que se acumula na goteira do que não vejo.]
Inclina-se para a frente, encosta a testa ao frio metal do guarda-chuva e abre a mochila (era de cor azul, já o tinha dito?) tirando um saco grande de plástico. Senta-se hirto, como a chuva que teima em não abrandar de intensidade e pousa a saca no chão. Pareceu-me ouvir um tilintar. Quando começa a tirar o conteúdo sorrio.
[Aqui a narrativa apressa-se e com ela surgem as falhas na grafia, próprias de quem se inventa entre dois aguaceiros ou, vá, duas vidas. Talvez deva abrigar-me melhor, a chuva parece cair-me na cara ou, talvez não, não me deva emocionar com o simples que se abriga na complexidade de se ser o dia, presente.]
Começa por desembrulhar com cuidado os jornais que envolvem e conservam o calor desde a madrugada, quando a esposa (ou ele, como o poderei saber?) cozinhou o que quer que seja que o tacho conserva. Embrulhou os jornais, encostou-os à cara e sorriu, deveriam estar ainda quentes e talvez da celulose se soltasse ainda o carinho com que alguém lhe preparou o almoço.
[O corpo come, mas é a alma que se alimenta.]
O naperon azul pariu um par de pães alvos e farinhentos, cujos vestígios são agora as poeiras brancas no canto da boca e, logo de seguida, nas costas da mão que usou como guardanapo. O raspar da colher no metal contrasta com o burburinho da chuva e do vento a atirar um arame que serviu, certamente, de estendal. Arrumou na mochila jornais, naperon e tacho, partiu a maçã verde em duas metades, comeu uma metade por inteiro e a outra metade comeria inteira a meio da tarde, deduzo. Na falta do calor negro a rodopiar entre as bordas do universo que é uma caneca de metal, deixou-se encostado ao muro, ainda a segurar o guarda-chuva e a ouvir as grossas gotas que batiam no tecido transformando o som em embaciados óculos, salpicados por memórias secas de quando a vida poderia ser mais húmida, como as cavacas mergulhadas no leite.
Quando terminou o céu parecia já saciado, passara de um cinzento para vários cinzentos, ostentando aqui e ali uma gotícula de azul celeste e o branco que timidamente se anunciava abaixo da atmosfera que é o intervalo sagrado de quem respira para se viver.
2016-11-10
2016-11-04
2016-10-30
Ausente sente
Crónica de domingo na Bird Magazine, em 30/10/2016.
Arredo-me das letras como de mim.
Deixo-as desencavadas e encostadas na leira, ao frio e à chuva que tem caído lá fora e cá dentro.
A sementeira não se faz pela noite e, contudo, é nela que encontro terreno fértil para, como bicho, me aninhar em mim ao chegar ao ninho, ombreando força com as sombras ondulantes e erráticas que a vela projecta na sua dança sobre o pavio.
Já nem sei do que me rio.
Descansa o resto do pão ao meu lado e nesta côdea amarelada dou por mim fortuna de áureos nunca tidos, que não me pesam, e, talvez assim, por isso, por mim, me sinto afortunado.
Saga de quem se abriga num qualquer beirado.
O dia passa a cavalgar por mim, literalmente, graciosamente e cavalarmente, adverbiando as palavras para que possa saltar os obstáculos que se ausentam e, como tal, não se vislumbram ou percebem.
Um pouco como eu.
O frio começa a sorrir, vem subindo as pernas da cadeira, torneando os veios da madeira e encavalitando-se nos meus pés cobre lentamente o meu corpo, como só as mães sabem, levando-me a adormecer hipotermicamente.
É neste semi-estado, desacordado e desadormecido, que me empoleiro em mim e me deixo de procurar estrelas onde elas sempre brilham para as encontrar debaixo deste bocado de pão, no isqueiro que me queima os dedos, no som do vento que se faz canção, no velho sussurrado adormecido no jardim, como o valado brotado do relógio que tiquetaqueia em mim.
Hoje estou adiantado em relação ao meu atraso, eis a razão de chegar, agora, ao fim.
Arredo-me das letras como de mim.
Deixo-as desencavadas e encostadas na leira, ao frio e à chuva que tem caído lá fora e cá dentro.
A sementeira não se faz pela noite e, contudo, é nela que encontro terreno fértil para, como bicho, me aninhar em mim ao chegar ao ninho, ombreando força com as sombras ondulantes e erráticas que a vela projecta na sua dança sobre o pavio.
Já nem sei do que me rio.
Descansa o resto do pão ao meu lado e nesta côdea amarelada dou por mim fortuna de áureos nunca tidos, que não me pesam, e, talvez assim, por isso, por mim, me sinto afortunado.
Saga de quem se abriga num qualquer beirado.
O dia passa a cavalgar por mim, literalmente, graciosamente e cavalarmente, adverbiando as palavras para que possa saltar os obstáculos que se ausentam e, como tal, não se vislumbram ou percebem.
Um pouco como eu.
O frio começa a sorrir, vem subindo as pernas da cadeira, torneando os veios da madeira e encavalitando-se nos meus pés cobre lentamente o meu corpo, como só as mães sabem, levando-me a adormecer hipotermicamente.
É neste semi-estado, desacordado e desadormecido, que me empoleiro em mim e me deixo de procurar estrelas onde elas sempre brilham para as encontrar debaixo deste bocado de pão, no isqueiro que me queima os dedos, no som do vento que se faz canção, no velho sussurrado adormecido no jardim, como o valado brotado do relógio que tiquetaqueia em mim.
Hoje estou adiantado em relação ao meu atraso, eis a razão de chegar, agora, ao fim.
2016-10-26
2016-10-23
Balada da voz lengalengada
Crónica na Bird Magazine em 23/10/2016.
Os gatos, pequenitos, enrolam-se uns aos outros no meio da erva verde, enquanto os mais afoitos cedem ao medo do desconhecido ronronar deste animal grande, negro, que segue de motor enfurecido com os pneus a baterem furiosamente nos paralelos cinzentos, e se esgueiram de encontro aos irmãos que semicerram o olhar felino, inocente, como o acordar matutino da mente.
De repente a própria erva parece, além de húmida e fumegante pelos raios inclinados do finado Verão, parda e salpicada com tons de branco, laranja, castanho, preto, pantufas dobradas sobre o corpo, bigodes, pequenos narizes cor-de-rosa e olhos esbugalhados de espanto.
A erva, essa, não se assusta nem quando apelidada de daninha e, assim, ao corpo arrancada, segue compenetrada, em foto-síntese atenta no namoro pendular entre o que se inspira e expira.
As casas, velhas, são vistas do alto como se pendessem sempre sobre uma encosta invisível, mas tangível, como o são todos os esquecimentos.
Os telhados, as paredes, as pedras emparedadas, as viúvas que permanecem casadas.
O fontanário escorre água num lacrimal choro de saudade mineralizada, a saudade do fumeiro esvaído em prateleiras de néon, há todo um manancial de superficialidades para vender a quem se pensa ser o que pode vir a ter.
Há um avental que ondula no caminho, vai preso ao pescoço que se enruga sozinho, porque o tempo é implacável para quem não sabe falar.
Implacabilidade é para quem se fala por que não vocaliza os pensamentos que ascendem directamente do soçobrar ao infinito e, chegado lá, se descobre em encruzilhada porque do menos ao mais se entras nos escombros do que não perece, de lá nunca mais sais.
Ondulam agarradas a umas pernas esbranquiças umas calças com fuligem, uns pés sem meias nuns sapatos desapertados que bailam para a frente e para trás a cada passo, a casa passo.
Um acenar lento e tímido quando agradece a cedência de passagem na cadência da passadeira e os idosos que se acotovelam com cuidado junto à grade que separa a actividade quotidiana da actividade laboral dos funcionários que, de pá e pica sobejam à terra que se deixa perfurar mais por desdém do que por necessidade, a terra clama-os já com saudade.
Se soubesse pensar, a fuligem deixaria de questionar, teria o homem forjado algum ferro endurecido, como as mãos do que é esquecido, ou seriam sobras de uma vida que o forjou a ele mesmo e a uma sombra desaparecida, um pouco mais de carne, um pouco mais do medo, um pouco de desmame da saciedade do segredo.
Vejo o som do Sol após a chuva, a neutralidade positiva da vida sua, a paisagem queimada mais pelos olhos indiferentes do que pelas labaredas carentes do fogo fajuto atiçado por homem que, certamente, nunca foi puto.
E quem se sabe puto, nunca mais quererá ser homem.
Ouço o vergasto indiferente de alguém queimado pelo álcool, quase demente.
O arrastar da ramagem seca pelo que o alpendre não cobre, a felicidade de se ser pobre, os chinelos de dedo, calções e pés molhados no rego para a água escoar, do riso ao chorar.
Há que dar passagem à água mole, que se escorra e aflija na entrada de outrem que não a minha, coitada, que cai já triste e molhada.
Findo no vento que toca a cara, sei que o universo é fonte que jorra e não para, mas quem se quer a ser voz, porque a rotação de um planeta faz calar a voz, a vida cai inanimada sem dó, ao colo de quem sabe que o universo foi bocejo de um Deus só.
Os gatos, pequenitos, enrolam-se uns aos outros no meio da erva verde, enquanto os mais afoitos cedem ao medo do desconhecido ronronar deste animal grande, negro, que segue de motor enfurecido com os pneus a baterem furiosamente nos paralelos cinzentos, e se esgueiram de encontro aos irmãos que semicerram o olhar felino, inocente, como o acordar matutino da mente.
De repente a própria erva parece, além de húmida e fumegante pelos raios inclinados do finado Verão, parda e salpicada com tons de branco, laranja, castanho, preto, pantufas dobradas sobre o corpo, bigodes, pequenos narizes cor-de-rosa e olhos esbugalhados de espanto.
A erva, essa, não se assusta nem quando apelidada de daninha e, assim, ao corpo arrancada, segue compenetrada, em foto-síntese atenta no namoro pendular entre o que se inspira e expira.
As casas, velhas, são vistas do alto como se pendessem sempre sobre uma encosta invisível, mas tangível, como o são todos os esquecimentos.
Os telhados, as paredes, as pedras emparedadas, as viúvas que permanecem casadas.
O fontanário escorre água num lacrimal choro de saudade mineralizada, a saudade do fumeiro esvaído em prateleiras de néon, há todo um manancial de superficialidades para vender a quem se pensa ser o que pode vir a ter.
Há um avental que ondula no caminho, vai preso ao pescoço que se enruga sozinho, porque o tempo é implacável para quem não sabe falar.
Implacabilidade é para quem se fala por que não vocaliza os pensamentos que ascendem directamente do soçobrar ao infinito e, chegado lá, se descobre em encruzilhada porque do menos ao mais se entras nos escombros do que não perece, de lá nunca mais sais.
Ondulam agarradas a umas pernas esbranquiças umas calças com fuligem, uns pés sem meias nuns sapatos desapertados que bailam para a frente e para trás a cada passo, a casa passo.
Um acenar lento e tímido quando agradece a cedência de passagem na cadência da passadeira e os idosos que se acotovelam com cuidado junto à grade que separa a actividade quotidiana da actividade laboral dos funcionários que, de pá e pica sobejam à terra que se deixa perfurar mais por desdém do que por necessidade, a terra clama-os já com saudade.
Se soubesse pensar, a fuligem deixaria de questionar, teria o homem forjado algum ferro endurecido, como as mãos do que é esquecido, ou seriam sobras de uma vida que o forjou a ele mesmo e a uma sombra desaparecida, um pouco mais de carne, um pouco mais do medo, um pouco de desmame da saciedade do segredo.
Vejo o som do Sol após a chuva, a neutralidade positiva da vida sua, a paisagem queimada mais pelos olhos indiferentes do que pelas labaredas carentes do fogo fajuto atiçado por homem que, certamente, nunca foi puto.
E quem se sabe puto, nunca mais quererá ser homem.
Ouço o vergasto indiferente de alguém queimado pelo álcool, quase demente.
O arrastar da ramagem seca pelo que o alpendre não cobre, a felicidade de se ser pobre, os chinelos de dedo, calções e pés molhados no rego para a água escoar, do riso ao chorar.
Há que dar passagem à água mole, que se escorra e aflija na entrada de outrem que não a minha, coitada, que cai já triste e molhada.
Findo no vento que toca a cara, sei que o universo é fonte que jorra e não para, mas quem se quer a ser voz, porque a rotação de um planeta faz calar a voz, a vida cai inanimada sem dó, ao colo de quem sabe que o universo foi bocejo de um Deus só.
2016-10-19
Nos alísios madrugadores onde vento
os socalcos aram-se a eles próprios,
a mão pende sobre o sentimento
e os sons do dia cultivam-se
sem que o mar se agite.
A páginas tantas
desfolho-me sem capítulo por entre os pinheiros,
as florestas em torno do pensamento
talham-me os passos braseiros,
sigo afogueado encapelado
emaranhado no adimensionado,
afogado.
Quando ausculto a ausência do som
os regatos escoam-se abaixo do meu horizonte
e eu próprio sou inerte,
húmus,
de regresso ao ventre,
à fonte.
A terra cultiva-me as mãos,
na aridez o plantio da eira
onde secam o grão que afago
e, germinando,
serenamente
naufrago.
os socalcos aram-se a eles próprios,
a mão pende sobre o sentimento
e os sons do dia cultivam-se
sem que o mar se agite.
A páginas tantas
desfolho-me sem capítulo por entre os pinheiros,
as florestas em torno do pensamento
talham-me os passos braseiros,
sigo afogueado encapelado
emaranhado no adimensionado,
afogado.
Quando ausculto a ausência do som
os regatos escoam-se abaixo do meu horizonte
e eu próprio sou inerte,
húmus,
de regresso ao ventre,
à fonte.
A terra cultiva-me as mãos,
na aridez o plantio da eira
onde secam o grão que afago
e, germinando,
serenamente
naufrago.
Cuida desta estreita faixa
onde guio o sonho
à deriva,
a vida é fogo que se aviva
no crepúsculo da brasa
como os dias protegidos
de mim,
debaixo da asa.
E se voas,
ainda que amarre em mim,
creia-te o destino alado
a bordo de umas cores inodoras,
aquelas que não sei pintar.
Algures a distância é um arfar
e o solo saturado de chuva
traz regadio bastante a viver.
Não o nego,
apenas não o vejo florido
porque o Outono que sou é cego.
onde guio o sonho
à deriva,
a vida é fogo que se aviva
no crepúsculo da brasa
como os dias protegidos
de mim,
debaixo da asa.
E se voas,
ainda que amarre em mim,
creia-te o destino alado
a bordo de umas cores inodoras,
aquelas que não sei pintar.
Algures a distância é um arfar
e o solo saturado de chuva
traz regadio bastante a viver.
Não o nego,
apenas não o vejo florido
porque o Outono que sou é cego.
2016-10-16
Cãesjos
Crónica de 16/10/2016 na Bird Magazine.
Os braços arderam, secou-se a seiva que pendia dos dedos de quem nasce verde e morre cinzento, inglório.
A cinza agrilhoa-se aos olhos, não há urgência que se torne neblina, apenas se calam os murmúrios e os chilreados trinidos de quem vive num sopro.
Os estrepes forçados de umas quantas armações de vida sobram de uma noite que se faz dia, de um nascer forçado do Sol embraseado que outros chamam Lua.
Os meus pés afundam-se no escuro, os passos que não dei deixaram pegadas à frente da minha sombra, porque, simplesmente, o horizonte que se estendia tombou e desistiu de ser verde.
Há uma sombra negra na estrada que obriga a longa e desajeitada fila dominical de condutores e suas extensões motoras serpentear. Um cão jaz na beira da estrada. Grande. Negro. Fusco.
A cabeça encostada a um pequeno e inclinado bloco de betão, como se dormisse.
Amedrontado, confuso, pensando o que os cães pensam, um outro, do lado de lá do bloco, fita-o, com as patas dianteiras pousadas no betão. E já em pé, maior ainda, menos preto fusco e mais negro brilhante, confuso e amedrontado, sendo o que os cães são, olha para o seu próprio corpo e, depois, para mim que calhei, coisas do destino, de passar ali naquele exacto momento.
Num olhar cruzam-se, sempre, pessoas e por vezes, como agora, animais.
Ali, naquela fracção de segundo, ele saltou-me para o colo e eu trouxe-o para longe da sombra que foi. Intermitente, surge e desaparece do banco do carro, ele próprio confuso, eu rindo-me.
Páro o carro. A estrada continua a passar por mim. Abro a porta, mas já ele a tinha atravessado.
Olha para mim, olhando com os cães olham.
Há um latir, surdo, que vai batendo à porta da noite como se vento se tratasse. Vai surripiando arrepios às sombras que se amedrontam com o emaranhado de emoções que as árvores coscuvilham.
Habituei-me a ouvi-los, primeiro longe, depois abrindo-lhes a porta e deixando-os falar o que lhes vai na alma. Primeiro olham em redor e, quando se apercebem que mais ninguém os fita, perdem o ar bonacheirão para se sentarem cavalheirescamente e começarem a contar histórias de patas nuas nas calçadas, sorvidelas de águas em fontanários e a inexplicável tentação de correr atrás da própria cauda.
Outro latido, grave, ergue as orelhas, olha-me e ali, longe do que ambos somos, desata a correr pelo monte acima, desaparecendo no preciso momento em que começou a chover e era como se as gotas de chuva lhe turvassem aquela pintura brilhante, para o tornar transparente, lentamente, totalmente, até ser aquilo que nasceu para ser, chuva.
Acho que os cães são como os anjos, transparentes ao olhar opaco que possuímos e lamento o prévio desalento dele, que me confidenciava em desabafo, nunca terem conseguido domesticar-nos porque não sabemos chover.
- É chuva senhor.
- Isto?
- Sim, senhor.
- Mas cai assim, sem mais nem menos?
- Sim, senhor.
- E porque me faz sentir assim?
- Porque é a chuva, senhor.
Os braços arderam, secou-se a seiva que pendia dos dedos de quem nasce verde e morre cinzento, inglório.
A cinza agrilhoa-se aos olhos, não há urgência que se torne neblina, apenas se calam os murmúrios e os chilreados trinidos de quem vive num sopro.
Os estrepes forçados de umas quantas armações de vida sobram de uma noite que se faz dia, de um nascer forçado do Sol embraseado que outros chamam Lua.
Os meus pés afundam-se no escuro, os passos que não dei deixaram pegadas à frente da minha sombra, porque, simplesmente, o horizonte que se estendia tombou e desistiu de ser verde.
Há uma sombra negra na estrada que obriga a longa e desajeitada fila dominical de condutores e suas extensões motoras serpentear. Um cão jaz na beira da estrada. Grande. Negro. Fusco.
A cabeça encostada a um pequeno e inclinado bloco de betão, como se dormisse.
Amedrontado, confuso, pensando o que os cães pensam, um outro, do lado de lá do bloco, fita-o, com as patas dianteiras pousadas no betão. E já em pé, maior ainda, menos preto fusco e mais negro brilhante, confuso e amedrontado, sendo o que os cães são, olha para o seu próprio corpo e, depois, para mim que calhei, coisas do destino, de passar ali naquele exacto momento.
Num olhar cruzam-se, sempre, pessoas e por vezes, como agora, animais.
Ali, naquela fracção de segundo, ele saltou-me para o colo e eu trouxe-o para longe da sombra que foi. Intermitente, surge e desaparece do banco do carro, ele próprio confuso, eu rindo-me.
Páro o carro. A estrada continua a passar por mim. Abro a porta, mas já ele a tinha atravessado.
Olha para mim, olhando com os cães olham.
Há um latir, surdo, que vai batendo à porta da noite como se vento se tratasse. Vai surripiando arrepios às sombras que se amedrontam com o emaranhado de emoções que as árvores coscuvilham.
Habituei-me a ouvi-los, primeiro longe, depois abrindo-lhes a porta e deixando-os falar o que lhes vai na alma. Primeiro olham em redor e, quando se apercebem que mais ninguém os fita, perdem o ar bonacheirão para se sentarem cavalheirescamente e começarem a contar histórias de patas nuas nas calçadas, sorvidelas de águas em fontanários e a inexplicável tentação de correr atrás da própria cauda.
Outro latido, grave, ergue as orelhas, olha-me e ali, longe do que ambos somos, desata a correr pelo monte acima, desaparecendo no preciso momento em que começou a chover e era como se as gotas de chuva lhe turvassem aquela pintura brilhante, para o tornar transparente, lentamente, totalmente, até ser aquilo que nasceu para ser, chuva.
Acho que os cães são como os anjos, transparentes ao olhar opaco que possuímos e lamento o prévio desalento dele, que me confidenciava em desabafo, nunca terem conseguido domesticar-nos porque não sabemos chover.
- É chuva senhor.
- Isto?
- Sim, senhor.
- Mas cai assim, sem mais nem menos?
- Sim, senhor.
- E porque me faz sentir assim?
- Porque é a chuva, senhor.
2016-10-09
Isto é apenas o vento
Crónica na Bird Magazine em 09/10/2016
À semelhança do climatérico dia, acordo sem saber muito bem onde estou, ao que vim, para onde vou e porque me escrevo na primeira pessoa, que me encontra.
Apetece-me deixar dormente o despertar, ver os restos de noite fugirem das frestas luminosas que assomam por entre os buracos da persiana, tapar-me com o lençol até ao queixo, como se estivesse sobre a caruma do monte a dois passos donde estou e tivesse medo do cair do dia.
Consigo levantar-me, a custo, a muito custo. Espera-me a tarefa de nebular a manhã e anima-me, pelo menos por enquanto, a volatilidade da mediocridade que promete terminar quando todos se vestirem de lírios.
Pouso a caneca negra na banca, deixei a flutuar o resto da espuma branca já fria da maré que tomei quente e, agora a custo, cinjo o cinto, abotoo o pano velho ao corpo, enfio os pés nos largos sapatos frios e preparo-me para sair de casa.
Coloco um pé na soleira, a porta rangeu menos hoje, olho para trás e rio-me de mim e do tão pouco que necessito para ser eu mesmo.
Fecho a porta, desloco o ferrolho e nem fecho à chave, limitando-me a esconder dentro do espanta espíritos o meu tesouro.
Visto o nevoeiro e saio para a rua.
O estômago ronca um pouco, receoso que não o trate tão bem hoje, mas a corpusculidade que volita traz odores de pão quente, e isto parece bastar para lhe apaziguar a dor no odor.
Umas mãos cheias de passos levam-me rápido à entrada da padaria.
Vejo que há funcionária nova atrás do balcão, bato à montra, ela olha em redor e sem nada ver fita perplexa a porta à espera de alguém que entre. Nada.
Bato novamente, desta vez dando um pouco mais de força aos nós dos dedos, a rapariga assusta-se e pelo postigo que separa o balcão da cozinha espreita uma senhora, mais velha, que sorri.
Dá-lhe um toque nas costas e pede-lhe, que é como fala quem manda, que prepare um café curto, duas tostas pequenas e a vassoura grande de ramos de giestas secas.
“Agora leva isso lá fora”, sem que a rapariga percebesse para quê e para quem ia levar um pires com uma chávena de café, duas tostas pequenas e aquele travesso pequeno de vassoura velha que nunca encontrava no mesmo sítio.
Quando a porta automática se abre ao sentir a presença da funcionária, dispo o nevoeiro que me escondia do olhar dos outros, deixo-o pendurado no ar e é aí que, coitada, a rapariga dá um grito e do repentino gesticular sobram apenas as tostas na minha mão, a vassoura que evito cair com o pé no ar e um pires e chávena partidas, com o café fumegante a arrefecer chateado nas pequenas pedras de calçada portuguesa.
Há risos, meus e da senhora lá dentro do postigo que, vista agora, parece ser um troféu de caça animado, sorridente, e mais vivo, como vivos ficam os que são caçados e pescados no desporto pueril da humanidade cingida à egosfera.
Peço-lhe desculpa, as brincadeiras são engraçadas apenas e quando todos riem, mas no susto despreparado da moça custa-me o agora soluçar pela chávena partida e o café derramado, a meus pés. Ofereço-lhe ajuda ao tapar com o nevoeiro os cacos e o café e a permitir-me colocar-lhe a mão no ombro e dizer “pronto, não chores, não é nada, volta para dentro”, um pouco entristecido pela falta do café, quente e envolvente, a rilhar as tostas pequenas que durarão uma manhã inteira, pelo menos até o Sol romper a neblina e vier dar luz à luz que se esconde por detrás de mim.
Agarro a vassoura, começo a varrer as mesmas folhas de sempre, Outonos diferentes, mas árvores iguais. Mantenho o cuidado de, ao ver alguém, cobrir-me com o nevoeiro para que não me vejam e pensem ser normal, este frio, este calor, a palete de cores mornas e arrefecidas pelo silêncio, pela solidão, pelos cantares confusos dos pensamentos não sabidos pensar e ao verem admiradas o volitar sereno das folhas multicoloridas pensem, porque o ser humano é desatento: “isto é apenas o vento”.
À semelhança do climatérico dia, acordo sem saber muito bem onde estou, ao que vim, para onde vou e porque me escrevo na primeira pessoa, que me encontra.
Apetece-me deixar dormente o despertar, ver os restos de noite fugirem das frestas luminosas que assomam por entre os buracos da persiana, tapar-me com o lençol até ao queixo, como se estivesse sobre a caruma do monte a dois passos donde estou e tivesse medo do cair do dia.
Consigo levantar-me, a custo, a muito custo. Espera-me a tarefa de nebular a manhã e anima-me, pelo menos por enquanto, a volatilidade da mediocridade que promete terminar quando todos se vestirem de lírios.
Pouso a caneca negra na banca, deixei a flutuar o resto da espuma branca já fria da maré que tomei quente e, agora a custo, cinjo o cinto, abotoo o pano velho ao corpo, enfio os pés nos largos sapatos frios e preparo-me para sair de casa.
Coloco um pé na soleira, a porta rangeu menos hoje, olho para trás e rio-me de mim e do tão pouco que necessito para ser eu mesmo.
Fecho a porta, desloco o ferrolho e nem fecho à chave, limitando-me a esconder dentro do espanta espíritos o meu tesouro.
Visto o nevoeiro e saio para a rua.
O estômago ronca um pouco, receoso que não o trate tão bem hoje, mas a corpusculidade que volita traz odores de pão quente, e isto parece bastar para lhe apaziguar a dor no odor.
Umas mãos cheias de passos levam-me rápido à entrada da padaria.
Vejo que há funcionária nova atrás do balcão, bato à montra, ela olha em redor e sem nada ver fita perplexa a porta à espera de alguém que entre. Nada.
Bato novamente, desta vez dando um pouco mais de força aos nós dos dedos, a rapariga assusta-se e pelo postigo que separa o balcão da cozinha espreita uma senhora, mais velha, que sorri.
Dá-lhe um toque nas costas e pede-lhe, que é como fala quem manda, que prepare um café curto, duas tostas pequenas e a vassoura grande de ramos de giestas secas.
“Agora leva isso lá fora”, sem que a rapariga percebesse para quê e para quem ia levar um pires com uma chávena de café, duas tostas pequenas e aquele travesso pequeno de vassoura velha que nunca encontrava no mesmo sítio.
Quando a porta automática se abre ao sentir a presença da funcionária, dispo o nevoeiro que me escondia do olhar dos outros, deixo-o pendurado no ar e é aí que, coitada, a rapariga dá um grito e do repentino gesticular sobram apenas as tostas na minha mão, a vassoura que evito cair com o pé no ar e um pires e chávena partidas, com o café fumegante a arrefecer chateado nas pequenas pedras de calçada portuguesa.
Há risos, meus e da senhora lá dentro do postigo que, vista agora, parece ser um troféu de caça animado, sorridente, e mais vivo, como vivos ficam os que são caçados e pescados no desporto pueril da humanidade cingida à egosfera.
Peço-lhe desculpa, as brincadeiras são engraçadas apenas e quando todos riem, mas no susto despreparado da moça custa-me o agora soluçar pela chávena partida e o café derramado, a meus pés. Ofereço-lhe ajuda ao tapar com o nevoeiro os cacos e o café e a permitir-me colocar-lhe a mão no ombro e dizer “pronto, não chores, não é nada, volta para dentro”, um pouco entristecido pela falta do café, quente e envolvente, a rilhar as tostas pequenas que durarão uma manhã inteira, pelo menos até o Sol romper a neblina e vier dar luz à luz que se esconde por detrás de mim.
Agarro a vassoura, começo a varrer as mesmas folhas de sempre, Outonos diferentes, mas árvores iguais. Mantenho o cuidado de, ao ver alguém, cobrir-me com o nevoeiro para que não me vejam e pensem ser normal, este frio, este calor, a palete de cores mornas e arrefecidas pelo silêncio, pela solidão, pelos cantares confusos dos pensamentos não sabidos pensar e ao verem admiradas o volitar sereno das folhas multicoloridas pensem, porque o ser humano é desatento: “isto é apenas o vento”.
2016-10-02
As ilhas morrem de pé
Crónica de Domingo, na Bird Magazine em 02/10/2016
“As ilhas morrem de pé”
Sento-me no banco de madeira, corrido, dos bons, em que o meu peso colocado num extremo não alavanca a outra extremidade para o ar, fazendo dele um baloiço em que a única criança sou eu. Há um quê de escutismo na construção, umas mãos habilidosas ou ávidas de o serem procuraram entrelaçar cordas, pregos e madeira, nalgo a que comparo com uma tenda de índio ou, apesar da imperfeição, das minhas antigas cabanas construídas à força de inocência e de muitos ramos de mimosas, fetos e, perdoe-nos o proprietário, algumas molhadas de palha seca.
Escolho este banco porque, a esta hora, é o único onde a sobra projectada pelos ramos dos sobreiros descansa do calor que assola na invulgar quente tarde de um Outono que, por este ritmo, só chegará na Primavera. Pouso os antebraços na mesa, tento perceber de que madeira se trata, mas falta-me o olhar resinoso que conhece os veios (parabéns Pai). Gosto do atrito, o caderno parece apreciar quando o abro com cuidado e lhe afago as folhas ainda imaculadas, uma espécie de solo poroso por onde se precipitam os espaços entre as letras desaparecendo a tinta e ficando aflorados, tão só e apenas, os caracteres que precisam ser lidos por mim.
Apesar de longe do litoral, aqui sob a sombra de um pé de laranja lima feito de sobreiro, ouço o marulhar do vento a cavalgar pequenas cristas de espuma e o ribombar seco da força com que a água mineralizada bate nas paredes da ilha onde vivo.
Há um círculo verde, erva não cortada, onde subsistem restos dos traços da passagem de humanos despreocupados, imagens aterradoras amassadas ao redor de maços de cigarros, tampas de plástico de garrafas, invólucros vazios de chicletes, restos de guardanapos, fios multicoloridos de apertar sacos de pão de forma e outros lixos lixizados que não consigo perceber a que não essencialidade pertenceram. Parecem olhar-me tristes, ali ao alcance do caixote do lixo vazio. Dou por mim a pensar que não só as pessoas cheiram mal dos pensamentos, como fazem com que a sua passagem por este planeta seja assinalada com o teor de lixo que deixam para trás por onde quer que passem.
Ergue-se no interior do círculo uma circunferência de pedras, com uma pedra no centro da circunferência onde está gravado um símbolo celta que é, por sua vez, um círculo com raios em semi-círculo e que me hipnotizam na razão de pi (π).
Ainda coloco a caneta entre o polegar, indicador e médio, mas a visão do símbolo celta começa a desviar-me a atenção. Paro quando algo me cai no ombro e escorrega pelas costas. Sacudo-me na repulsa de pensar ser um insecto que, coitado, saberá menos da minha existência que eu da importância dele. Outra batida e, agora, o estampido tímido na mesa. Solto-me da espiral torpe a que começo a habituar-me e vejo que o que caiu não foi qualquer bicho, mas uma letra. Um “S”.
Um “S” está deitado na mesa de madeira, como pequeno insecto indefeso de costas, a espernear sem perceber porque o céu está aos seus pés e o solo nas costas. Com a ponta da caneta volto-o e ele trepa para a esfera azul por onde se esvai a tinta indefesa. Fito-o por momentos e depois coloco-o na folha amarelada do caderno, ainda em branco, ou em vazio, para que nesta amálgama colorida não pareça o caderno padecer de uma enfermidade cutânea. Sobre a folha, o “S” parece familiarizar-se com o local onde está e, sem que o empurre, solta-se da esfera e vai alojar-se no canto superior esquerdo da folha. Um novo toque no ombro, nova letra sobre o tampo de madeira, um “e”. Faço o mesmo que fiz com o “S” e rio-me ao vê-lo correr folha acima para se encostar ao “S”. Agora um “n”, um “t”, um “o”, um “-“, um “m”, novo “e”.
Ainda as sombras se deslocam devagar, ainda o mar arrulha nas ameias da minha ilha, ainda a sonoridade celta orbita o meu mundo, ainda o canavial ao fundo se desloca à vontade da maré que o vento traz pelo ar, já eu vejo que o dia se foi desfiando rápido, certeiro e embaraçando noutros dias como se mãos cuidadosas do cesteiro tecessem os vimes espessos que são as vinte e quatro horas que nos tiquetaqueiam.
Acordo como quem não dormiu, sinto novo toque no ombro e quando me preparo para adivinhar qual a letra que tinha caído desta vez, vejo que a acompanhar parte do meu braço estava um ramo forte e vigoroso do sobreiro. Acomodou-se ao meu ombro, ao meu pescoço e, na cumplicidade das árvores frondosas, olhou-me e afastando e juntando folhas aqui e ali, formou um sorriso com a claridade que o Sol emanava.
Vejo as horas, levanto-me sobressaltado, atrasado para o que quer que tenha que ser feito depressa e antes de fechar o caderno não contenho o sorriso ao ver as primeiras palavras que vejo agora não ter escrito: “Sento-me no banco de madeira”.
Hei-de nascer de pé, como as árvores, nas ilhas.
“As ilhas morrem de pé”
Sento-me no banco de madeira, corrido, dos bons, em que o meu peso colocado num extremo não alavanca a outra extremidade para o ar, fazendo dele um baloiço em que a única criança sou eu. Há um quê de escutismo na construção, umas mãos habilidosas ou ávidas de o serem procuraram entrelaçar cordas, pregos e madeira, nalgo a que comparo com uma tenda de índio ou, apesar da imperfeição, das minhas antigas cabanas construídas à força de inocência e de muitos ramos de mimosas, fetos e, perdoe-nos o proprietário, algumas molhadas de palha seca.
Escolho este banco porque, a esta hora, é o único onde a sobra projectada pelos ramos dos sobreiros descansa do calor que assola na invulgar quente tarde de um Outono que, por este ritmo, só chegará na Primavera. Pouso os antebraços na mesa, tento perceber de que madeira se trata, mas falta-me o olhar resinoso que conhece os veios (parabéns Pai). Gosto do atrito, o caderno parece apreciar quando o abro com cuidado e lhe afago as folhas ainda imaculadas, uma espécie de solo poroso por onde se precipitam os espaços entre as letras desaparecendo a tinta e ficando aflorados, tão só e apenas, os caracteres que precisam ser lidos por mim.
Apesar de longe do litoral, aqui sob a sombra de um pé de laranja lima feito de sobreiro, ouço o marulhar do vento a cavalgar pequenas cristas de espuma e o ribombar seco da força com que a água mineralizada bate nas paredes da ilha onde vivo.
Há um círculo verde, erva não cortada, onde subsistem restos dos traços da passagem de humanos despreocupados, imagens aterradoras amassadas ao redor de maços de cigarros, tampas de plástico de garrafas, invólucros vazios de chicletes, restos de guardanapos, fios multicoloridos de apertar sacos de pão de forma e outros lixos lixizados que não consigo perceber a que não essencialidade pertenceram. Parecem olhar-me tristes, ali ao alcance do caixote do lixo vazio. Dou por mim a pensar que não só as pessoas cheiram mal dos pensamentos, como fazem com que a sua passagem por este planeta seja assinalada com o teor de lixo que deixam para trás por onde quer que passem.
Ergue-se no interior do círculo uma circunferência de pedras, com uma pedra no centro da circunferência onde está gravado um símbolo celta que é, por sua vez, um círculo com raios em semi-círculo e que me hipnotizam na razão de pi (π).
Ainda coloco a caneta entre o polegar, indicador e médio, mas a visão do símbolo celta começa a desviar-me a atenção. Paro quando algo me cai no ombro e escorrega pelas costas. Sacudo-me na repulsa de pensar ser um insecto que, coitado, saberá menos da minha existência que eu da importância dele. Outra batida e, agora, o estampido tímido na mesa. Solto-me da espiral torpe a que começo a habituar-me e vejo que o que caiu não foi qualquer bicho, mas uma letra. Um “S”.
Um “S” está deitado na mesa de madeira, como pequeno insecto indefeso de costas, a espernear sem perceber porque o céu está aos seus pés e o solo nas costas. Com a ponta da caneta volto-o e ele trepa para a esfera azul por onde se esvai a tinta indefesa. Fito-o por momentos e depois coloco-o na folha amarelada do caderno, ainda em branco, ou em vazio, para que nesta amálgama colorida não pareça o caderno padecer de uma enfermidade cutânea. Sobre a folha, o “S” parece familiarizar-se com o local onde está e, sem que o empurre, solta-se da esfera e vai alojar-se no canto superior esquerdo da folha. Um novo toque no ombro, nova letra sobre o tampo de madeira, um “e”. Faço o mesmo que fiz com o “S” e rio-me ao vê-lo correr folha acima para se encostar ao “S”. Agora um “n”, um “t”, um “o”, um “-“, um “m”, novo “e”.
Ainda as sombras se deslocam devagar, ainda o mar arrulha nas ameias da minha ilha, ainda a sonoridade celta orbita o meu mundo, ainda o canavial ao fundo se desloca à vontade da maré que o vento traz pelo ar, já eu vejo que o dia se foi desfiando rápido, certeiro e embaraçando noutros dias como se mãos cuidadosas do cesteiro tecessem os vimes espessos que são as vinte e quatro horas que nos tiquetaqueiam.
Acordo como quem não dormiu, sinto novo toque no ombro e quando me preparo para adivinhar qual a letra que tinha caído desta vez, vejo que a acompanhar parte do meu braço estava um ramo forte e vigoroso do sobreiro. Acomodou-se ao meu ombro, ao meu pescoço e, na cumplicidade das árvores frondosas, olhou-me e afastando e juntando folhas aqui e ali, formou um sorriso com a claridade que o Sol emanava.
Vejo as horas, levanto-me sobressaltado, atrasado para o que quer que tenha que ser feito depressa e antes de fechar o caderno não contenho o sorriso ao ver as primeiras palavras que vejo agora não ter escrito: “Sento-me no banco de madeira”.
Hei-de nascer de pé, como as árvores, nas ilhas.
2016-09-29
António
in Correio do Porto, em 29/09/2016
COM o calor saem da toca os suores, que se deixam cair embalados pela gravidade e pelo ondular do andar torpe daquela forma de gente a quem chamam António.
Aqui o nome é substituído pela realidade, de maneira a não se confundir com a ficção.
Cruza-se António comigo, o calor não deixa escapar sonho algum de debaixo do chapéu e, como tal, olha para mim com um sorriso desolado. Dele recordo o medo que me mantinha a sorrir amareladamente enquanto passava na velha bicicleta cujo farolim a pender para o chão me hipnotizava. Ele já grande e eu puto, fugido dos horários das carreiras que na sua recta juntavam os dois pontos do segmento de recta que ia da escola a casa dos meus pais.
A vida tem sempre os seus adamastores e quando os aprendemos a dobrar ou, neste caso, quando eles se dobram sem os sabermos na forma de uma mão pesada e grossa no cabelo e um “tás bão?”, transformam-se na boa esperança que nos faz passar lá sempre que a maré deixa. Há uma certa necessidade de passar nas personagens que fazem o meu livro, este é uma delas. O fascínio pela simplicidade e inocência de quem vive sempre presente, sem passado e talvez sem futuro, e sem bicicleta.
Desde o roubo da bicicleta que os caminhos são feitos arduamente, digo eu, a meu ver, olhando para ele, de sorriso ao ombro, ninguém se lembrará que lhe faltam rodas à força, tal a desenvoltura e certeza no passo, pé ante pé, cambaleando carreiro abaixo como são todas as estradas abandonadas por quem as plantou.
Sob a ponte da autoestrada a sombra descansa por momentos, enquanto o vórtice animado a quem chamam Sol não se enfia para lados do Oeste e caça as sombras, como esta, descuidadas.
Na conversa duas mulheres, quase sombras, um feixe de lenha na carrela aguarda o fim da prosápia, a serra de cortar lenha com os seus ferozes dentes lambe restos de seiva de eucalipto e olha de soslaio para todas as árvores que ainda estão de pé. Uma delas, das mulheres, tem no cimo da cabeça uma rodilha enrodilhada numa roda tão bem dada que até parece ter nascido ali, fruto da perfeição que a Natureza incute a cada imperfeição nascida no meio das árvores, ou das pernas, vai dar tudo ao mesmo.
A cada estação, em qual estamos mesmo?, há uma nova tona no eucalipto, um novo olhar ao terreno em pousio e, parece-me, no António, um desejo de baldio.
Como o tempo não se compadece de olhares perdidos nem de caminhos fugidios, vai circulando e levando com ele aquilo que tanto António como eu partilhamos, a vontade de trilhar. Eu continuarei caminho sem saber muito bem para onde e ele, tolo, inocente, terá um reino à espera, cheio de garrafas de sumo, compridas ervas na boca, a língua de fora constantemente trilhada pelos dentes amarelados, num eterno presente de felicidade.
COM o calor saem da toca os suores, que se deixam cair embalados pela gravidade e pelo ondular do andar torpe daquela forma de gente a quem chamam António.
Aqui o nome é substituído pela realidade, de maneira a não se confundir com a ficção.
Cruza-se António comigo, o calor não deixa escapar sonho algum de debaixo do chapéu e, como tal, olha para mim com um sorriso desolado. Dele recordo o medo que me mantinha a sorrir amareladamente enquanto passava na velha bicicleta cujo farolim a pender para o chão me hipnotizava. Ele já grande e eu puto, fugido dos horários das carreiras que na sua recta juntavam os dois pontos do segmento de recta que ia da escola a casa dos meus pais.
A vida tem sempre os seus adamastores e quando os aprendemos a dobrar ou, neste caso, quando eles se dobram sem os sabermos na forma de uma mão pesada e grossa no cabelo e um “tás bão?”, transformam-se na boa esperança que nos faz passar lá sempre que a maré deixa. Há uma certa necessidade de passar nas personagens que fazem o meu livro, este é uma delas. O fascínio pela simplicidade e inocência de quem vive sempre presente, sem passado e talvez sem futuro, e sem bicicleta.
Desde o roubo da bicicleta que os caminhos são feitos arduamente, digo eu, a meu ver, olhando para ele, de sorriso ao ombro, ninguém se lembrará que lhe faltam rodas à força, tal a desenvoltura e certeza no passo, pé ante pé, cambaleando carreiro abaixo como são todas as estradas abandonadas por quem as plantou.
Sob a ponte da autoestrada a sombra descansa por momentos, enquanto o vórtice animado a quem chamam Sol não se enfia para lados do Oeste e caça as sombras, como esta, descuidadas.
Na conversa duas mulheres, quase sombras, um feixe de lenha na carrela aguarda o fim da prosápia, a serra de cortar lenha com os seus ferozes dentes lambe restos de seiva de eucalipto e olha de soslaio para todas as árvores que ainda estão de pé. Uma delas, das mulheres, tem no cimo da cabeça uma rodilha enrodilhada numa roda tão bem dada que até parece ter nascido ali, fruto da perfeição que a Natureza incute a cada imperfeição nascida no meio das árvores, ou das pernas, vai dar tudo ao mesmo.
A cada estação, em qual estamos mesmo?, há uma nova tona no eucalipto, um novo olhar ao terreno em pousio e, parece-me, no António, um desejo de baldio.
Como o tempo não se compadece de olhares perdidos nem de caminhos fugidios, vai circulando e levando com ele aquilo que tanto António como eu partilhamos, a vontade de trilhar. Eu continuarei caminho sem saber muito bem para onde e ele, tolo, inocente, terá um reino à espera, cheio de garrafas de sumo, compridas ervas na boca, a língua de fora constantemente trilhada pelos dentes amarelados, num eterno presente de felicidade.
2016-09-26
Folheio-me
Folheio-me,
os parafraseados dias
ditam a brevidade do parágrafo,
a pontuação onde descanso
a cálida grafia
ornamento
da palavra que me sorria
entre o suspiro
e o lamento.
os parafraseados dias
ditam a brevidade do parágrafo,
a pontuação onde descanso
a cálida grafia
ornamento
da palavra que me sorria
entre o suspiro
e o lamento.
2016-09-25
Feitas de sorrisos
in Bird Magazine, em 25/09/2016
Abro a porta do passageiro e iço-te, demoras a largar-te do meu pescoço, tens medo, compreendo. Sento-te no banco e o pó levanta-se, começas a tentar apanhá-lo com essas mãos pequenas e ris-te porque ele foge. Desistes pouco depois, não sei se pelo tempo em que estou simplesmente a ver-te, se por perceberes que vive-se melhor a apreciar a liberdade do pó, do que a tentar aprisioná-lo na nossa mão.
O Sol da manhã, na sua diagonalidade existencial, traça pequenos véus de luz onde, deste lado, faz parecer que até o pequeno movimento de sombra que se desprende de ti reluz.
Passo o cinto de segurança por ti, não sem um pequeno esforço para te fazer compreender que não é hora da papa, mas sim de viajar. O clique indica que a cegueira da minha mão encontrou o negro invólucro com as letras “PRESS” gravadas no botão vermelho. Fecho a porta com algum cuidado, se saíres a mim não gostas dos estampidos breves e altos das coisas (e pessoas) que se embatem. Embacio o vidro pela parte de fora e começo a desenhar pequenos círculos com o dedo, até que pelo aumentar do raio e o duplicar do diâmetro consegues ver-me a sorrir do outro lado e sorris também, com essa mão gordita a tocar o vidro, não pelo sorriso, mas porque és criança e as crianças sorriem porque é do que elas são feitas.
Rodeio a carrinha pela frente sempre a olhar-te, pensei que terias medo, não sei, talvez pensar que estaria a ir-me embora, mas continuas fascinado com o pó a salpicar o ar e o embaciado do vidro e, talvez, penso rindo-me sozinho, pela sujidade a que, normalmente, veto tudo o que é veículo.
Abro a porta, iço-me, sento-me com algum cuidado para que a vertebralidade não acorde e mais pó se levante. Bato a porta e o estampido faz-te olhar para mim, refeito da absortidade, sorris e imitas o meu gesto de colocar o cinto de segurança. Descobres o botão vermelho, não lês o “PRESS”, não sabes ler mais do que os sentidos, mas com o dedito tentas carregar. Perdes uns largos segundos a olhar o vermelho, a tentar carregar, mas despertas para outros sentidos quando ligo a carrinha, depois do laranja da luz da resistência se apagar, e todo o cangalho se abana, como que acordado sobressaltado de um pesado sono de sonhos metálicos e de fluidos petrolíferos e lubrificadores.
Olho e estás já a ensaiar o vrum vrum.
“Onde vamos?”, pergunto, mas tu não percebes ou porque percebes não respondes.
“A tua mãe faz anos amanhã e eu não sei o que dar-lhe”, mas não me parece ser tua preocupação.
Estendes-me os braços e, porque te habituei, desprendo o teu cinto de segurança e sento-te ao meu colo, prometendo que será a última vez que o faço. Agarras o volante e olhas para mim, talvez por perceberes que ainda sou eu quem comanda o veículo ou porque quando o fazes eu invariavelmente esboço uma careta, engato a primeira velocidade, baixo o travão de mão, desembraio e carrego um pouco no acelerador ao mesmo tempo que faço um pequeno rugido com o fundo da garganta, o mesmo que aprendeste a fazer com os lábios a tremerem num vrum, vrum que indica movimento.
Começamos a andar e ris-te, ou melhor, dás umas pequenas risadas, o piso faz vibrar o volante, saltitas de emoção, olhas para o caminho e para mim, encostando a cabeça ao meu peito. Chego ao fim do caminho, travo, embraio, engreno a marcha-atrás, desembraio, levanto o pé do travão e vamos indo às arrecuas, com cuidado. O Sol bate no espelho e vai ter com o teu olhar, levantas a mão e instintivamente tapas a cara. De volta ao início do caminho, uma viagem com trajectória, movimento, mas sem deslocação, quase como se estivéssemos ambos a um degrau de sermos centelha novamente, como se os milénios que passaram fossem o que são aos olhos da eternidade, uma infinita intemporalidade que se exponencia a cada divisão.
Desligo a carrinha, algures ficou um parágrafo por colocar, alguma pontuação errada, uma ambição não ambicionada e o pó, que foi e veio e também ele não saiu do lugar.
O Sol escalou uns graus no firmamento, na leveza astral de ser-se hidrogénio, alguém bate ao vidro, estremeço e abro os olhos. Sorrio e aceno, “Vou já sair”.
Penso “ainda bem que não te viram”.
Saio descendo o degrau com cuidado e contigo ao colo, demoras a desprender-te do volante. Fecho a porta da carrinha, dás-me uma espécie de abraço, coloco-te no chão e nos passos inseguros da fisicalidade etérea vais caminhando até te agarrares ao fio de arco-íris que se forma pela rarefação da luz na água das minhas órbitas. Viras-te e atiras-me um beijo com a mão toscamente aberta e encostada aos lábios, para depois desapareceres para um outro episódio.
Começo a pensar nas palavras, que as venderia, do quanto poderia empregar nos tempos verbais para fazer do menos mais, mas a chuva diz-me que se mas dá não será para as vender, “Dá-as também” choves dizendo e eu, que nem era para escrever isto, mas é Outono sabes, neste tempo onde tudo começa a tonalizar e a cair dos ramos eu, novamente, tronco, deixo-me escorregar languidamente pelo dia sem me aperceber que as minhas estações tardam a caminhar, apenas porque não sei falar.
Abro a porta do passageiro e iço-te, demoras a largar-te do meu pescoço, tens medo, compreendo. Sento-te no banco e o pó levanta-se, começas a tentar apanhá-lo com essas mãos pequenas e ris-te porque ele foge. Desistes pouco depois, não sei se pelo tempo em que estou simplesmente a ver-te, se por perceberes que vive-se melhor a apreciar a liberdade do pó, do que a tentar aprisioná-lo na nossa mão.
O Sol da manhã, na sua diagonalidade existencial, traça pequenos véus de luz onde, deste lado, faz parecer que até o pequeno movimento de sombra que se desprende de ti reluz.
Passo o cinto de segurança por ti, não sem um pequeno esforço para te fazer compreender que não é hora da papa, mas sim de viajar. O clique indica que a cegueira da minha mão encontrou o negro invólucro com as letras “PRESS” gravadas no botão vermelho. Fecho a porta com algum cuidado, se saíres a mim não gostas dos estampidos breves e altos das coisas (e pessoas) que se embatem. Embacio o vidro pela parte de fora e começo a desenhar pequenos círculos com o dedo, até que pelo aumentar do raio e o duplicar do diâmetro consegues ver-me a sorrir do outro lado e sorris também, com essa mão gordita a tocar o vidro, não pelo sorriso, mas porque és criança e as crianças sorriem porque é do que elas são feitas.
Rodeio a carrinha pela frente sempre a olhar-te, pensei que terias medo, não sei, talvez pensar que estaria a ir-me embora, mas continuas fascinado com o pó a salpicar o ar e o embaciado do vidro e, talvez, penso rindo-me sozinho, pela sujidade a que, normalmente, veto tudo o que é veículo.
Abro a porta, iço-me, sento-me com algum cuidado para que a vertebralidade não acorde e mais pó se levante. Bato a porta e o estampido faz-te olhar para mim, refeito da absortidade, sorris e imitas o meu gesto de colocar o cinto de segurança. Descobres o botão vermelho, não lês o “PRESS”, não sabes ler mais do que os sentidos, mas com o dedito tentas carregar. Perdes uns largos segundos a olhar o vermelho, a tentar carregar, mas despertas para outros sentidos quando ligo a carrinha, depois do laranja da luz da resistência se apagar, e todo o cangalho se abana, como que acordado sobressaltado de um pesado sono de sonhos metálicos e de fluidos petrolíferos e lubrificadores.
Olho e estás já a ensaiar o vrum vrum.
“Onde vamos?”, pergunto, mas tu não percebes ou porque percebes não respondes.
“A tua mãe faz anos amanhã e eu não sei o que dar-lhe”, mas não me parece ser tua preocupação.
Estendes-me os braços e, porque te habituei, desprendo o teu cinto de segurança e sento-te ao meu colo, prometendo que será a última vez que o faço. Agarras o volante e olhas para mim, talvez por perceberes que ainda sou eu quem comanda o veículo ou porque quando o fazes eu invariavelmente esboço uma careta, engato a primeira velocidade, baixo o travão de mão, desembraio e carrego um pouco no acelerador ao mesmo tempo que faço um pequeno rugido com o fundo da garganta, o mesmo que aprendeste a fazer com os lábios a tremerem num vrum, vrum que indica movimento.
Começamos a andar e ris-te, ou melhor, dás umas pequenas risadas, o piso faz vibrar o volante, saltitas de emoção, olhas para o caminho e para mim, encostando a cabeça ao meu peito. Chego ao fim do caminho, travo, embraio, engreno a marcha-atrás, desembraio, levanto o pé do travão e vamos indo às arrecuas, com cuidado. O Sol bate no espelho e vai ter com o teu olhar, levantas a mão e instintivamente tapas a cara. De volta ao início do caminho, uma viagem com trajectória, movimento, mas sem deslocação, quase como se estivéssemos ambos a um degrau de sermos centelha novamente, como se os milénios que passaram fossem o que são aos olhos da eternidade, uma infinita intemporalidade que se exponencia a cada divisão.
Desligo a carrinha, algures ficou um parágrafo por colocar, alguma pontuação errada, uma ambição não ambicionada e o pó, que foi e veio e também ele não saiu do lugar.
O Sol escalou uns graus no firmamento, na leveza astral de ser-se hidrogénio, alguém bate ao vidro, estremeço e abro os olhos. Sorrio e aceno, “Vou já sair”.
Penso “ainda bem que não te viram”.
Saio descendo o degrau com cuidado e contigo ao colo, demoras a desprender-te do volante. Fecho a porta da carrinha, dás-me uma espécie de abraço, coloco-te no chão e nos passos inseguros da fisicalidade etérea vais caminhando até te agarrares ao fio de arco-íris que se forma pela rarefação da luz na água das minhas órbitas. Viras-te e atiras-me um beijo com a mão toscamente aberta e encostada aos lábios, para depois desapareceres para um outro episódio.
Começo a pensar nas palavras, que as venderia, do quanto poderia empregar nos tempos verbais para fazer do menos mais, mas a chuva diz-me que se mas dá não será para as vender, “Dá-as também” choves dizendo e eu, que nem era para escrever isto, mas é Outono sabes, neste tempo onde tudo começa a tonalizar e a cair dos ramos eu, novamente, tronco, deixo-me escorregar languidamente pelo dia sem me aperceber que as minhas estações tardam a caminhar, apenas porque não sei falar.
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