2016-09-29

Vem agora a noite, pela calada do abraço, desfolhar-me o frio com que a lua me rescaldou.
Ardem as chamas porque lhe regam as labaredas e adormecem as estrelas, com as luzes acesas.

António

in Correio do Porto, em 29/09/2016

COM o calor saem da toca os suores, que se deixam cair embalados pela gravidade e pelo ondular do andar torpe daquela forma de gente a quem chamam António.

Aqui o nome é substituído pela realidade, de maneira a não se confundir com a ficção.

Cruza-se António comigo, o calor não deixa escapar sonho algum de debaixo do chapéu e, como tal, olha para mim com um sorriso desolado. Dele recordo o medo que me mantinha a sorrir amareladamente enquanto passava na velha bicicleta cujo farolim a pender para o chão me hipnotizava. Ele já grande e eu puto, fugido dos horários das carreiras que na sua recta juntavam os dois pontos do segmento de recta que ia da escola a casa dos meus pais.

A vida tem sempre os seus adamastores e quando os aprendemos a dobrar ou, neste caso, quando eles se dobram sem os sabermos na forma de uma mão pesada e grossa no cabelo e um “tás bão?”, transformam-se na boa esperança que nos faz passar lá sempre que a maré deixa. Há uma certa necessidade de passar nas personagens que fazem o meu livro, este é uma delas. O fascínio pela simplicidade e inocência de quem vive sempre presente, sem passado e talvez sem futuro, e sem bicicleta.

Desde o roubo da bicicleta que os caminhos são feitos arduamente, digo eu, a meu ver, olhando para ele, de sorriso ao ombro, ninguém se lembrará que lhe faltam rodas à força, tal a desenvoltura e certeza no passo, pé ante pé, cambaleando carreiro abaixo como são todas as estradas abandonadas por quem as plantou.

Sob a ponte da autoestrada a sombra descansa por momentos, enquanto o vórtice animado a quem chamam Sol não se enfia para lados do Oeste e caça as sombras, como esta, descuidadas.

Na conversa duas mulheres, quase sombras, um feixe de lenha na carrela aguarda o fim da prosápia, a serra de cortar lenha com os seus ferozes dentes lambe restos de seiva de eucalipto e olha de soslaio para todas as árvores que ainda estão de pé. Uma delas, das mulheres, tem no cimo da cabeça uma rodilha enrodilhada numa roda tão bem dada que até parece ter nascido ali, fruto da perfeição que a Natureza incute a cada imperfeição nascida no meio das árvores, ou das pernas, vai dar tudo ao mesmo.

A cada estação, em qual estamos mesmo?, há uma nova tona no eucalipto, um novo olhar ao terreno em pousio e, parece-me, no António, um desejo de baldio.

Como o tempo não se compadece de olhares perdidos nem de caminhos fugidios, vai circulando e levando com ele aquilo que tanto António como eu partilhamos, a vontade de trilhar. Eu continuarei caminho sem saber muito bem para onde e ele, tolo, inocente, terá um reino à espera, cheio de garrafas de sumo, compridas ervas na boca, a língua de fora constantemente trilhada pelos dentes amarelados, num eterno presente de felicidade.

2016-09-26

Folheio-me

Folheio-me,
os parafraseados dias
ditam a brevidade do parágrafo,
a pontuação onde descanso
a cálida grafia
ornamento
da palavra que me sorria
entre o suspiro
e o lamento.

2016-09-25

Feitas de sorrisos

in Bird Magazine, em 25/09/2016

Abro a porta do passageiro e iço-te, demoras a largar-te do meu pescoço, tens medo, compreendo. Sento-te no banco e o pó levanta-se, começas a tentar apanhá-lo com essas mãos pequenas e ris-te porque ele foge. Desistes pouco depois, não sei se pelo tempo em que estou simplesmente a ver-te, se por perceberes que vive-se melhor a apreciar a liberdade do pó, do que a tentar aprisioná-lo na nossa mão.
O Sol da manhã, na sua diagonalidade existencial, traça pequenos véus de luz onde, deste lado, faz parecer que até o pequeno movimento de sombra que se desprende de ti reluz.
Passo o cinto de segurança por ti, não sem um pequeno esforço para te fazer compreender que não é hora da papa, mas sim de viajar. O clique indica que a cegueira da minha mão encontrou o negro invólucro com as letras “PRESS” gravadas no botão vermelho. Fecho a porta com algum cuidado, se saíres a mim não gostas dos estampidos breves e altos das coisas (e pessoas) que se embatem. Embacio o vidro pela parte de fora e começo a desenhar pequenos círculos com o dedo, até que pelo aumentar do raio e o duplicar do diâmetro consegues ver-me a sorrir do outro lado e sorris também, com essa mão gordita a tocar o vidro, não pelo sorriso, mas porque és criança e as crianças sorriem porque é do que elas são feitas.
Rodeio a carrinha pela frente sempre a olhar-te, pensei que terias medo, não sei, talvez pensar que estaria a ir-me embora, mas continuas fascinado com o pó a salpicar o ar e o embaciado do vidro e, talvez, penso rindo-me sozinho, pela sujidade a que, normalmente, veto tudo o que é veículo.
Abro a porta, iço-me, sento-me com algum cuidado para que a vertebralidade não acorde e mais pó se levante. Bato a porta e o estampido faz-te olhar para mim, refeito da absortidade, sorris e imitas o meu gesto de colocar o cinto de segurança. Descobres o botão vermelho, não lês o “PRESS”, não sabes ler mais do que os sentidos, mas com o dedito tentas carregar. Perdes uns largos segundos a olhar o vermelho, a tentar carregar, mas despertas para outros sentidos quando ligo a carrinha, depois do laranja da luz da resistência se apagar, e todo o cangalho se abana, como que acordado sobressaltado de um pesado sono de sonhos metálicos e de fluidos petrolíferos e lubrificadores.
Olho e estás já a ensaiar o vrum vrum.
“Onde vamos?”, pergunto, mas tu não percebes ou porque percebes não respondes.
“A tua mãe faz anos amanhã e eu não sei o que dar-lhe”, mas não me parece ser tua preocupação.
Estendes-me os braços e, porque te habituei, desprendo o teu cinto de segurança e sento-te ao meu colo, prometendo que será a última vez que o faço. Agarras o volante e olhas para mim, talvez por perceberes que ainda sou eu quem comanda o veículo ou porque quando o fazes eu invariavelmente esboço uma careta, engato a primeira velocidade, baixo o travão de mão, desembraio e carrego um pouco no acelerador ao mesmo tempo que faço um pequeno rugido com o fundo da garganta, o mesmo que aprendeste a fazer com os lábios a tremerem num vrum, vrum que indica movimento.
Começamos a andar e ris-te, ou melhor, dás umas pequenas risadas, o piso faz vibrar o volante, saltitas de emoção, olhas para o caminho e para mim, encostando a cabeça ao meu peito. Chego ao fim do caminho, travo, embraio, engreno a marcha-atrás, desembraio, levanto o pé do travão e vamos indo às arrecuas, com cuidado. O Sol bate no espelho e vai ter com o teu olhar, levantas a mão e instintivamente tapas a cara. De volta ao início do caminho, uma viagem com trajectória, movimento, mas sem deslocação, quase como se estivéssemos ambos a um degrau de sermos centelha novamente, como se os milénios que passaram fossem o que são aos olhos da eternidade, uma infinita intemporalidade que se exponencia a cada divisão.
Desligo a carrinha, algures ficou um parágrafo por colocar, alguma pontuação errada, uma ambição não ambicionada e o pó, que foi e veio e também ele não saiu do lugar.
O Sol escalou uns graus no firmamento, na leveza astral de ser-se hidrogénio, alguém bate ao vidro, estremeço e abro os olhos. Sorrio e aceno, “Vou já sair”.
Penso “ainda bem que não te viram”.
Saio descendo o degrau com cuidado e contigo ao colo, demoras a desprender-te do volante. Fecho a porta da carrinha, dás-me uma espécie de abraço, coloco-te no chão e nos passos inseguros da fisicalidade etérea vais caminhando até te agarrares ao fio de arco-íris que se forma pela rarefação da luz na água das minhas órbitas. Viras-te e atiras-me um beijo com a mão toscamente aberta e encostada aos lábios, para depois desapareceres para um outro episódio.
Começo a pensar nas palavras, que as venderia, do quanto poderia empregar nos tempos verbais para fazer do menos mais, mas a chuva diz-me que se mas dá não será para as vender, “Dá-as também” choves dizendo e eu, que nem era para escrever isto, mas é Outono sabes, neste tempo onde tudo começa a tonalizar e a cair dos ramos eu, novamente, tronco, deixo-me escorregar languidamente pelo dia sem me aperceber que as minhas estações tardam a caminhar, apenas porque não sei falar.

2016-09-21

Na forja gélida da circunferência não florescem paixões, esbatem-se galeões nas rochosas ondas de uma maré, enquanto milenares árvores infinitas observam, tristes, quem as quer mortas, de pé.

2016-09-18

Palavras manuais, abraços artesanais

in Bird Magazine em 18/09/2016.

“Palavras manuais, abraços artesanais”

Quando lhe perguntaram se tinha trazido lâmpadas apercebeu-se que, de facto, deveria ter lido melhor as instruções da feira de artesanato. Sorriu e perguntou onde as poderia comprar, não as queria trazer no carro, disse-lhes, tinha medo que se partissem na viagem, mentiu. Perguntaram se queria ajuda para descarregar, mas o seu encolher de ombros, o olhar para o pequeno veículo ligeiro sem bagageira para veleidades artísticas volumosas e a espécie de esgar envergonhado que lhe fez erguer apenas um canto dos lábios deram a entender que não só estavam na presença de um artesão atípico, como lhes fez crescer a curiosidade em ver, na manhã seguinte, o que estaria exposto para venda no stand C-4-D, (C de cubículo, quatro de área em metros quadrados, aproximadamente e D de tipologia, sem esquina, sem lona a improvisar alpendre, dois casquilhos a bailar no rodopio do fio eléctrico), onde estavam já coladas as letras em vinil, pretas, que ordenadas apresentavam “Palavras Manuais, Abraços Artesanais”.
Assinou uns papéis, os mesmos que tinha enviado por email, impressos, assinados, digitalizados e recebeu um recibo, uma espécie de declaração em como tinha feito o pagamento da inscrição e uns termos de responsabilidade que, como responsável que era, não leu.
Deixaram-no ali, noite tarde. A lua exibia orgulhosa uma tonalidade laranja e trajava uma espécie de neblina que, sedutora, deixava transparecer as suas formas redondas. Todos os outros stands estavam fechados e vazios de gente. Ao fundo da rua comungavam uma espécie de cumplicidade artesã entre ofícios diferentes, pouco azo havia a conversas sobre a mesma arte. Ficavam ali num burburinho, caminhando lentamente para o final do recinto e em direção às pensões onde se hospedariam, as faces iluminadas por música celta, fogos farruscos a crepitar das bocas de saltimbancos, vendedores de algodão doce desenquadrados na temática teciam nuvens coloridas e saborosas que se colavam à cara dos putos e permaneciam nos dedos mesmo depois de lambuzados repetidas vezes. Todos davam à língua, literalmente.
Deixou-se estar encostado ao carro, o calor da carroçaria, ainda quente, contrastava com os braços desnudos frios de noite a prometer orvalhar. Abanou as chaves do carro e de casa no bolso e tentou guardar a chave do stand, mas o quadrilátero de madeira onde estava gravado (ou seria pirografado?) era grande de mais, tal como era grande de mais a lua que iluminava esta parte do recinto mais afastado da feira. Decidiu que via bem e, para noite, sonhos conseguem ver melhor sem grandes luminescências. Entrou no stand ainda aberto para experimentar a chave por dentro, tudo funcionava, bem empregue a inscrição. Desloca-se ao carro, tira a mochila, fecha o carro que lhe parece piscar os olhos alaranjados (a imaginação será artesanal?), sobe o degrau do stand, aperta as laterais da lona às paredes frágeis do stand numa espécie de acasacar uma vestimenta e sente-se bem, como se fechasse sobre si um casaco de lã comprido de mais, como os que nos cobrem os pulsos e onde fechamos as mãos em punho prendendo as bordas das mangas. Estas noites seriam assim, dormiria por dentro das palavras manuais, embrulhado em si e no sonho.
No outro dia, que amanhecera torto sobre a sua verticalidade e que agora tentava endireitar com alongamentos torpes, desabotoou a lona dobrando-a num rolo, prendendo o cilindro plastificado no topo do stand imediatamente abaixo do nome, fazendo com que os casquilhos oscilassem em demasia, sem o peso das lâmpadas.
Estava nu, o stand, um pouco como ele. Haviam alguns cadernos de capa preta, sebentas de folhas finas e leves de mais, como percebeu quando as colocou desamparadas sobre o pano preto, tendo que as prender com pequenas pedras que estavam soltas na calçada. Não havia um preçário, um mostruário, peças soltas e uniformes na sua disformidade, nada pendurado nas paredes, nenhuma caixa com cartões de visita ou símbolos de redes sociais onde apregoar a arte. Eram os cadernos, o banco rosca de três pernas, canetas cristalizadas azuis e pretas e lápis amarelos e negros, com pontas vermelhas e uma ou duas afias de metal. O porta-lápis de ganga parecia prenhe, por isso era provável que por lá estivessem outros instrumentos de escrita.
Pela localização não favorável só lá passavam os distraídos ou quem lá ia realmente à procura de artesanato. O primeiro foi um incauti, viu que chegara à ponta da feira, levanta os olhos do ecrã do telemóvel inteligente, olha para ele, vê a montra, levanta a cabeça para o nome do stand e ri-se. Creio até que tirou uma fotografia mais à frente (pelo barulho do obturador) para mostrar aos amigos virtuais. As pessoas foram-se sucedendo, sem nada na montra não havia curiosidade.
Uma senhora traz um bebé ao colo e um puto em idade de primária escolaridade.
A mulher trajava tecido sobre tecido, num misto de cores e padrões que faziam lembrar índios norte americanos. Reparou nos olhares dos artesãos e algumas pessoas e ainda que não quisesse ouvir, escutou, alguém lamentava a sorte das crianças, que mulher solteira, nova e bonita, adoptaria filhos sem ter pai que os cuide?
O maior pergunta-lhe em cada stand o que está escrito quando não consegue juntar as sílabas, a mãe sorri e lê os nomes, ora dos artesãos, ora da abstraticidade dos mesmos.
- Ó mãe, e este?
- Palavras manuais, abraços artesanais. - respondeu ao filho, detendo-se a pensar no curioso nome e inusitada montra de nada a vender.
- Dás-me uma palavra? - pergunta-lhe o catraio, olhando-a lá do fundo com o inocente sorriso. O pequeno ao colo deu um surpiro e permaneceu no sono em que vinha.
A senhora olhou para ele, sorriu, olhou para o filho, sorriu.
- Bom dia. Desculpe. (a voz não era estranha) Que palavras vende? - a pergunta podia ter sido apenas um sorriso, ou um olhar, ou a forma como o liso cabelo negro lhe caía pela face e ela no malabarismo de dar a mão a um filho, segurar o outro ao colo, ainda conseguiu abanar a cabeça para que os finos fios negros de cabelo oscilassem e se depositassem sobre os outros, presos por momentos.
- Vendo todas. Mas para o pequeno é de graça. Em que papel queres? - e espalhou a mão num gesto que cobriu os cadernos dispostos na mesa e as sebentas, ainda debaixo das pequenas pedras.
O puto aponta para uma sebenta. Rasga uma folha, alisa as rugas laterais, senta o puto no colo, olha-o nos olhos e em quatro versos (Tens-te aí aos milhares/ Dias em que vida a teus pés cai/ O segredo que te sorri/ Quem sabe a palavra pudesse ser teu pai) manuscritos a tinta azul, deixa as pontas do fio de ariadne de regresso à casa que viu dentro do pequeno.
A mulher insiste em pagar, estende-lhe a mão fechada com algumas moedas, mas ele recusa com um educado e delicado toque na mão e, aí, no alcance de uma pele sobre outra, a distância encurtou-se numas palavras, “desculpe”, e um olhar envergonhado, embaraçado e enrubescido, ergueu-se naquela manhã.
Houve diálogo, mas as palavras encarregaram-se de abraçar o silêncio. Havia também história, mas novamente as palavras insistiram em escrever apenas aquilo que de inusitado poderia ser narrado. O dia passou-se sem que a mulher e os pequenos (o que era mesmo pequeno pequenino pequeninito ficou a dormitar na manta que tinha servido de colchão na noite anterior) saíssem do stand. O menos petiz ainda ia à rua e apregoava o nome do stand como quem chama a clientela para a entrada do bazar e a mulher, mãe, a quem sob a pele reluziam hieróglifos sorria atenta ao desenrolar do dia.
Venderam-se versos, deram-se palavras, tudo porque o preço era aquilo que a pessoa escrita lhe quisesse dar e também se trocaram vozes de escárnio e gente houve que foi embora sem palavra, tudo porque nada havia a relatar sobre o vazio que as ocupava na totalidade o interior. Outras, ainda, foram sem que o pagamento fosse aceite, bastou a troca de olhares para se fazer riqueza no interior de cada um.
- Quer que embrulhe? - perguntava às pessoas, invariavelmente atónitas pela situação, pelo escrito, pelo lido e, também, o que é que havia a embrulhar? e quando lhe respondiam que sim ele levantava-se e dava-lhes um abraço apertado, as folhas no peito entre escrito e escritor, a cabeça pousada por momentos no ombro. Palavras manuais, com abraços artesanais.

2016-09-14

Do lado de cá da chuva

in Correio do Porto, em 14/09/2016

VOU, contente, saboreando o final de tarde por entre os pinheiros, oscilando nas sombras e calcando anos e anos de caruma que me almofadam o andar.
Já não sei se é tarde, noite, manhã ou cedo.
Sim, sei que era final de tarde, mas, para mim, tudo é final de tarde quando o céu se assemelha a um testo que dança ao sabor do vapor que sai do tacho, quando a toalha dobrada se deita para o prato, o garfo, o bocado de pão, a circunferência desenhada pelo cu da garrafa de vinho.
Não há tempo.
Para nada.
Nem para o tempo.
Pergunto, a mim e ao sobreiro resistente na esquina que sobeja, quanto resta de céu e inferno até se esfumarem, como o aroma na cozinha quase vazia, as guerras entre o que somos e o que pensamos ser, até por fim deixarmos cair, uma a uma, máscaras, como a caruma.
Não obtenho resposta, felizmente, e vou contente saboreando o final de tarde por entre os pinheiros e as pessoas, calado na imensidão de vozes que se calcam.
Escrevo-te do lado de cá da chuva, onde se aram os ares da tarde e se enraivece o vendaval, só porque sim.
Sonho também com o rugir de um mar à porta do futuro, como se me abrisse a janela a noite e viesse, devagarinho, pendendo os pés no vazio sem medo de no dia caminhar.
Ouves-me?
Aqui os rios correm quando chove, no leito vão quando se secam as nuvens, mas hoje os rios riem em todo o lado, estás a vê-los atabalhoados como petizes à saída para o recreio?
Vão a deslizar encontrando leitos por entre os paralelos, são felizes por isto, isto basta, agacham-se ao chegarem ao sulco mais profundo e imagino-os chegados pé ante pé ao peito das mães no afago sereno da maternidade depois de uma cascata de vidas.
Já pouco chove agora, cansou-se de me ler, os rios ribeirizam-se e por te ver além dali cai-me a vontade ao chão.
E a razão.
Algures paras turbilhado no cinzento que te contém. Vais vaporizar e seguir viagem, talvez triste, mas continuas.
E que será de nós?
E da chuva?

2016-09-11

Que diferença existirá?

in Bird Magazine em 11/09/2016.

Contei três parágrafos, mas apaguei-os.
Há algo de incomum em escrever na praia, ainda que a areia seja o retro iluminado monitor, a água se resuma a maré que se esvai porque nada enche o peito de quem de vida se acumula e o Sol se faça de sombras espessas dispersas no alto da noite, subindo-me pelos braços, alojando-se nas olheiras e mirando-me, repetidamente, para verificar se já terminei de escrever para tomarem conta de mim.
De repente (por ser repentino e, também, porque não se espera que um parágrafo comece assim, mas perdoa-se tudo, ao menino e o mal escrito ao porque não escritor) sou apenas o reflexo de uma sala na penumbra, iluminada apenas pela música em tom baixo que ouço com o alto, esqueço-me que uso óculos, aproximo-me da janela esquecido da corpalidade e bato no vidro, óculos primeiro, cabeça depois.
Rio-me sozinho.
Talvez triste de me esquecer corpo.
Esquecimento. Corpo. Que diferença existirá?
O embaciado desaparece rápido pelo calor que o dia deixou e que se vai perdendo na frialdade, não confundir com fealdade, da noite caída, mas criança ainda.
Abro com pressa a janela e coloco três velas no parapeito. Acendo-as. Apagam-se. Acendo-as do lado de dentro da janela e permanecem acesas. Talvez precisassem do calor do interior de casa ou da proximidade do corpo.
O calor. O corpo. Que diferença existirá?
Um caminho de fé impôs-se na noite, como em todas as do início de Setembro. Traçam uma descontinuidade de risco bruxuleantes, pequenos pontos que iluminam a pouca noite que os circundam para, depois, servirem de guia imaginária para o ósculo religioso que se vai esbatendo em rítmicos pais nossos e avés marias.
O vento ora ao redor das velas, cada pavio o seu rosário, assim como cada busto acima das pernas de quem se procissiona.
Vejo, ou imagino, que diferença existirá?, um puto a inclinar a vela, a encostar a mão fechada ao invólucro de plástico que ornamenta e protege a chama do ar frio que se movimenta com particular rapidez hoje. Aquece-se a mão com a vela que escorre toco de cera abaixo, os pedidos ou pecados (que pecado uma criança poderá ter?) derretidos pelo calor fervoroso de uma labareda amarelo-azulada (ou seria azul-amarelada?) e entretém-se antes do calduço em forma de olhar da mãe, fiel depositária dos sonhos e ambições de quem nada mais além de criança sonha alcançar.
Entretém-se, recuperando narrativa, a oscilar o copo de plástico até que na sua diagnolidade se apresse a chegar à minúscula labareda que aviva propositadamente e ainda que não se toquem, à medida das boas paixões, proibidas ou não, se permitem viver assim, proximamente separados para que ambos se avivem, ora a vela a ganhar labareda na chama, ora o plástico a derreter-se de uma paixão assoberbada, na dimensão exacta da distância para se permitir ser calor.
Ou amor.
Ou oração,
Que diferença existirá?
Tento construir um quadro com diferentes pinceladas, mas nada me tolhe mais as mãos do que uma paleta sem cores, ainda que as possua a tonalidade parece-me igual, por isso deixo a tela em branco entregue a si mesma, acreditando que a própria noite poderá produzir, até pelo orvalho, um retrato daquilo que não consigo falar.
Ou voar.
Que diferença existirá?

2016-09-04

Pingos de mel

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

O Sol ainda que não vá a pique, mesmo na diagonal queima como não se lembra de o sentir ou talvez o sentisse antes, mas as memórias não parecem caber em quem vive do lado de fora do tempo e, por isso, não se apresentem sobrepostas como as camadas de pó indistinto que camuflam alguma da mobília. Tarda Agosto em fugir, Setembro impaciente promete calor no ventre e o Verão que se esvai apenas nas férias da canalhada, ávida dos mostruários das mercearias, mercados, minimercados e supermercados.
Detém-se sob o beiral, mira as traves de carvalho velho, oxidado, percorre os veios com o olhar e detém-se nos nódulos negros como se todo e qualquer aglomerado de vida seivada se detivesse naqueles círculos irregulares e o chamasse de volta a ser tronco. Sem que deixasse de chover este calor abafado, com nuvens negras altas prenhes de fumo, desprende o olhar da madeira, avalia a integridade das telhas vermelhas algo fendidas, mas sem que isso (ou, na verdade, nada) o preocupasse verdadeiramente.
Deitou a perna direita à frente, depois a outra e quando deu por si estava já a andar, percorrendo o caminho empedrado até ao pouco de verde onde semeava e plantava e, no percurso, se entretinha a ver crescer tomates, grandes e pequenos, alfaces, couves, batata, abóboras, vagens, ervilhas, curgetes, pepinos, cebolas e outras miudezas. Deu duas talhadelas num rego, desviou a água para os plantios desejados, colheu aqui e ali o que de maduro lhe pareceu e ainda piscou o olho à figueira que arfava sob o Agosto, sequiosa, para depois, mais talhadela, menos talhadela, fazer lá chegar a água corrente que espiralava até encher a pequena cratera de terra negra e a tornar mais negra com o salpicado negrume das gotas de suor. Com o calcanhar improvisa um rego, a água irrompe na brutalidade selvagem da frescura líquida e vai-se fazendo levada até ficar um pequeno espelho de água onde caem umas faúlhas.
Ri-se. Quase sem querer. Olhou em redor, ninguém o viu, mantem o semblante, calça a soca, verga-se para apanhar a enxada e vai desentalhar a barragem improvisada. Coloca-a na nascente do pequeno afluente artificial que vai maneando à sua maneira endeusada, este vai-se evaporando e sumindo pela sôfrega terra que, de fausta, prepara-se para matar a sede a tubérculos e raízes que, agradecidas como só as plantas, levarão caule, folhas, nervuras acima, os nutrientes com que banquetearão primeiro a bicharada da terra, depois a do ar, incluindo arejo, aves grandes e pequenas e apenas depois, caso a ratice não lhe chegue, o homem. Deus quando dá é para todos! Riu-se, outra vez.
As talhadeiras encolhem-se, também elas com a leveza do trabalho bem feito, e ficam prostradas a um canto, há-de alguém passar por ali perto, vê-las e não pegá-las apenas porque não lhes pertence. Fitarão o despreparo da sementeira, a geometria desregrada de um campo plantado sem lei, o descuido com as pragas, bichezas, ratices e pardalada. Comentarão e rir-se-ão de quem não se sabe promover, ao menos para encher duas caixas e colocar ali atrás do portão, com um letreiro que diga mais por vaidade que qualidade, “vende-se legumes”.
O prazo de se colher passará, a figueira, orgulhosa, encher-se-á de folhas, figos barrigudos e outros esventrados pela passarada, todos comerão, até o raio do gaio que os bica até meio e depois leva um inteiro sabe lá o deus dos pássaros (que deverá ser o dos homens também) para onde. A fruta come-se da árvore ou, quando muito, em casa e no mesmo dia da colheita, que se quer madura sim, mas ainda pulsante de seiva, como se a árvore arrancasse das suas penas e nos desse de comer, não porque sejamos senhores dela, mas pela gratidão do regadio. Ainda há quem pense que o homem é um baldio. Enfim.
Feita a lavoura, assim lhe chamemos o acto de amar a terra, toda a Terra, vai deter-se sob o beiral. Talvez um dia ali faça um alpendre. Encosta a enxada ao peito e com as ásperas mãos vai empurrar o portão, verde antes, ocre agora, cor de ferrugem e de tempo sobre ferro, onde não se detém a vida porque ali não se ouvem os tiques ou os taques, não há notícias nem das dos almanaques, há apenas um dia a seguir ao outro desde que o infinito se lembra de ser eternidade.
- Já vieste?
Sem responder aproxima-se no passo calmo de quem mede os dias em centímetros e sulca rios sem que os prenda, a mesma mão gretada no bolso das calças sujas tira um barrigudo figo, passa-o por água na torneira improvisada que é a rolha no tubo de plástico e, com a mão no cabelo dela, dá-o a saborear.
- Hum, que bom! – responde-lhe com o sorriso doce de um pingo de mel. – Ficou lá que chegue para outros?
- Sim Vida.

2016-09-01

Não fosse o relógio, pensaria estar acordado amanhã quando na verdade durmo ainda no hoje.
Penso ser quase como o sentir antecipado do morno abraço ainda longe vem o corpo.
Não fosse o calendário, pensaria que o tempo é tão irreal quanto de real é o tempo que passou por aqui e me deu corda ao relógio.
Estamos onde agora?
Entre ponteiros titubeantes com medo de se deterem num minuto? Num segundo? Num primeiro?

2016-08-31

O moinho peneira a água que a levada aprisiona, choveram dias até que me sentei no reflexo do grão enfarinhado, meti a mão na algibeira e tirei mais duas, ou seriam três?, vidas de quietude.
Andam por aí a verem-me amiúde, é sem intenção, desculpem, é a distração ao postigo chamado silêncio.

2016-08-28

Diálogos desprováveis

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

- E o que te disseram eles?
- Disseram-me para conferir o estado das acções.
- E tu viste?
- Antes quis que eles me mostrassem as deles.
- E eles mostraram?
- Sim, um foi ao computador, abriu o browser e andou para lá a conferir se tinham subido e descido.
- E o outro?
- O outro foi ao telemóvel, uma aplicação qualquer que lhe mostrou que ele estava mais pobre por ter perdido o que não tinha tido.
- E depois, mostraste as tuas?
- Sim. (risos)
- E então?
- Pousei o telemóvel, sentei-me em cima do muro, fechei os olhos e estive assim uns largos segundos.
- Porquê? O que é que te disseram?
- Quando abri os olhos e saltei do muro não disseram nada.
- A sério?
- Sim. Mas eu quebrei o silêncio, disse-lhes que já estava, que tinha consultado as acções.
- Tu, cum camandro… Haja quem te entenda.
- Disse que lembrando aquilo que ainda não esqueci, tinha um saldo positivo.
- Positivo?
- Sim. Entre tudo o que fiz o saldo era positivo.
- Mas positivo como?
- Olha. Positivo. As boas acções são mais que as más acções.
- Oh pá, tu… Carago pá.
- E ainda rematei com uma boa que me saiu na hora.
- Conta.
- Disse que tenho um mercado enorme de acções à minha frente, que as transformo no que quiser.
- Como assim?
- Então? As minhas acções dependem de mim, eu torno-as boas ou más, positivas ou negativas, lá preciso de alguém que me venha dizer se sou rico ou pobre?
- Sinceramente... E eles?
- Disseram-me que não dava para falar comigo.
- Eu avisei-te. Tu e as ideias estúpidas.
- Porquê estúpidas?
- Oh, porque são, quem pensa assim? Que estupidez.
- Olha, foi isso mesmo que me disseram, que era uma estupidez.
- E depois?
- Mandaram-me à merda (risos).
- Lá andam com a razão deles.
- Fiquei mais rico ali mesmo.
- Como assim?
- Entre responder igual ou perdoar, optei por perdoar, ganhei!
- Mas ganhaste o quê?
- Ganhei mais uma boa acção. (risos)
- Oh pá, vai à merda!
- (risos)

2016-08-23

Cobre-me o brilho das estrelas de ambos os hemisférios. Fico enternecido pelas estrelas cadentes que o universo atira, para que as conte e, assim, adormeça. Mas na insónia encontro o desprendido destino que se senta a meu lado na cama, fita-me e sorri, somos caminhantes da ignorância por sabermos longe o saber e aqui tão perto um Sol, a nascer.

2016-08-21

Pessoa, se é que me posso chamar assim

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Volto a descer a estrada, se é que a posso chamar assim, com redobrado cuidado.
As pedras, se é que as posso chamar assim, resvalam e algumas esfarelam-se quando as calco na tentativa de me segurar ao ar vazio e quente que sobra ao largo desta tarde quase quase verão.
Sem querer agarro-me a um monte de ervas, sem saber, pela velocidade da descida, pelo suor que me faz arder os olhos, pelo monte verde que me pareceu todo igual, que por entre as folhas inocentes, se é que as posso chamar assim, estavam algumas verdes e afiadas silvas cujos espinhos espreitavam orgulhosos acima do caule.
Chego a correr ao fim da descida, calculando o espaço e tempo entre a velocidade, o limite de travagem e o leito do rio ali, ao fundo, ainda com um grosso fio de água e as rochas bolbosas, redondas, secas e quentes, imagino eu, pelo calor da tarde a ameaçarem partir os ossos de quem se deixe cair ali, como eu, temo.
Consigo parar a tempo, depois de mim algum cascalho chega também onde estou e bate-me nos calcanhares, uma pedra mais solta bate-me na perna direita e o barulho das pequenas pedras e terra confunde-se com a água que borbulha, se é que posso dizer assim.
A sombra que espreita por onde o sol não alcança projecta-se junto com os raios solares e ali, onde os fotões arrefeceram, formam o contraste perfeito para ver no ar a poeira que a terra atirou ao ar, não sei se a brincar, se a gozar comigo, enquanto desisto de me sacudir pois o suor atraiu o pó e este cobre-me, se é que posso dizer isto, daquilo que sou feito.
Penso na ironia e se seria isto que quereriam dizer quem afirmou, ao pó voltarás.
Estou a meio caminho, ironizo de volta.
Sem conseguir chegar tão longe como os bocados de xisto que me acompanharam na descida, o meu velho caderno fica a escassos centímetros da rampa inclinada, se é que me posso repetir assim.
Vergo-me e apanho-o.
É irónico, ainda, estar com o caderno comigo nesta viagem quando este está completamente sarrabiscado, sem espaço em branco onde escrever.
Rasurei, apaguei, escrevi e re-escrevi, por cima e em desacordo.
Já não me sobram folhas e, que sobrassem, jamais voltaria a pegar na caneta, no lápis, para desenhar as sequências de letras que, relutantemente, se viram transformar em regras operatórias para sucederem a um termo anterior, cada vez maior, até alcançarem, não sem antes me ultrapassarem, uma espécie de magnitude que nunca vi em mim.
Eis-me aqui, já longe de onde não estou, se é que posso afirmar isto, cada vez mais perto de escrever todo o silêncio que venero, a resiliência de umas pequenas flores, bonitas, não lhes sei o nome, que brotam, tal como a água, do granito frio e sombrio, agora, que o observo à sua sombra.
Não passará aqui vivalma, pudera, se as há que vivem e nem o sabem, não percorrerão caminho que se vê desaguar no leito de um fio de água seco onde só correm os seixos e descansam as fragas, cansadas.
Sento-me sem esforço, cansado, suado, com um ou outro arranhão cujo sangue empapou no contacto com a mistura de pó e suor, sem qualquer dor, se é que a posso chamar assim.
Ergo os joelhos, encosto-me à pedra fria que atrás de mim parecia aguardar um outro corpo.
Pouso o caderno e abro-o ao acaso, as folhas moídas, o papel amarelado e as letras descoloradas.
Nalguns locais já só o sulco por onde escrevi vezes sem conta, indistinguíveis as letras ou frases e um ou outro número parecem desenhar um conglomerado de estrelas e quando ergo o olhar e vejo o pó ainda no ar rio-me sozinho, se é que estou sozinho, a pensar em estrelas e a ver, à minha frente, uma estrela, um astro, que me mostra o pó e me inspira a ser tanto e tão pouco como ele, o pó, se é que o chamar assim.
Sem nada por escrever, com todas as claridades que consigo perscrutar à medida que o dia vai caindo para trás dos montes, fecho os olhos e imagino-me, sozinho, numa estação onde já não passam rostos conhecidos ou corpos desconhecidos e, de caderno aberto, apeio-me e faço-me pessoa, se é que me posso chamar assim.

2016-08-17

Todas as cores possuem um final de tarde que se agarra às escarpas sulcadas nas faces.
Quando a Lua mergulha pelos olhos dentro e me sorri, não sei o que faço.
Sorrio de volta?
Dou-lhe um abraço?

2016-08-14

O homem sonha, despreocupado, na preocupação de existir

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Quando saio do emaranhado de árvores, mato e fetos, esbracejando para afastar os ramos como se vociferasse nos diálogos internos que mantenho com as vozes do passado, vejo uma clareira plana como o interior de uma margarida.
Até os tufos de erva irregulares se assemelham a pequenos nenúfares a flutuar despreocupados, abertos ao céu, num lago regular feito da irregularidade da ondulação lenta.
Questiono-me como desce o vento até aqui, bons trinta metros abaixo da crista das árvores mais altas. Aliás, nada me explica, até porque estou aqui sozinho, como neste botão de rosa as pequenas folhas espiralam içadas pelo vento, como se ele se entretivesse a experimentar novos truques para velhas audiências e, no entanto, as árvores lá no cimo permanecem imóveis como gigantes pacientes à espera que o orvalho se evapore e se deixe, posteriormente, cair de costas sobre o final de tarde trazendo sonhos molhados pela fresca molécula de um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogénio.
Parece ouvir-me o vento, as pequenas folhas e líquenes que orbitavam a invisibilidade do lugar permanecem suspensas por momentos, até que a gravidade ou despreparo para voar dos objectos inanimados as faz volitar até ao chão.
De repente aquela ventania infantil vem até mim como se me medisse o peso e as intenções, envolve-me numa fresquidão branda e parece ascender na tentativa, imagino-o eu, de me vestir com algo melhor que a roupa que me é imposta enquanto criança.
Tão depressa vem.
Tão depressa vai.
Tão depressa bem.
Sinto-me estranho, de tempo e espaço, como se este local não fosse destinado a ser visto por quem não se sabe volitar, mas eu transpiro sonhos sem valor ou agendas, talvez por isso o vento esteja lá por cima, porque vejo agora as cristas abanarem-se num compasso temporal que só o intemporal sabe tocar, a olhar para baixo, a avaliar-me, pela nudez do que penso, pela inconstância dos meus passos.
Materializa-se no meu olhar, porque não me lembro de ver aqui, à minha frente, na fisicalidade da dimensão, uma pequena cabana de madeira se assim se pode chamar às tábuas de madeira que desconheço, grave falha para o filho de um carpinteiro e marceneiro habituado a conhecer o galho da criação, sobrepostas, pregadas por ferrugem e hera que sustenta os espaços vagos, com um brilho de uma luz que não vejo como pode luzir sem que até lá longos fios negros de electrões a correr despreocupadamente transformem grilhões de água em luminosidade para quem não se sabe claridade.
Na solenidade ingénua camponesice tiro as sandálias e caminho descalço, calcando as folhas verdes que o vento deixou cair e trazendo coladas aos pés os líquenes amarrotados pela renascença. Percorro o interior desta flor e admiro-me com o que de sentidos sou feito, tacteio a rugosidade aveludada do tapete verde, olho o vento a mirar-me enquanto voa como árvore de rapina a vigiar a sua sombra, chega-me o odor de uma brisa marinha impossível, pelo palato alimento-me do sabor de uma vazio que escuto claro como o crepitar deste braseiro aqui dentro do peito.
Cinco idos, sobra-me um sentido, o infalível cunho pessoal da imaginação, onde me sento tantas vezes com o ronronar do vento a aninhar-se no meu colo, cansado das viagens em torno de si próprio.
Chego à cabana, continuo a ver uma luz que se bruxuleia sem que seja do atiçado lume por alguém que não surge à porta. Ergo a perna, pouso o pé direito no degrau tosco de madeira que, propositadamente, parece-me, se deixa quebrar para que eu caia de costas e na fracção de segundos que percorre o relógio que trago no pulso esquerdo, surja o vento sobre mim, espiralando-me com as folhas sorridentes ao meu redor e ali, no exacto momento em que me iço na esperança de encontrar as palavras certas para contar tudo o que não escrevo para que percebam, ouço o ronronar do vento a elevar-me a tempo de ver o lume impossível na cabana apagar-se, para se acender no meu olhar.

2016-08-07

O nome dos heróis

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

O ar frio que força entrada pelos buracos da persiana faz-me pensar noutras estações, mas acredito que o dia mais fresco que se sente seja apenas um apeadeiro nesta linha quente. Quando abro a persiana, gesto que associo ao descerrar de uma pálpebra do apartamento, como se este meu lar acordasse logo a seguir a mim, e a seguir a abrir as janelas, sem que ainda pudesse acreditar nos meus olhos embaciados, vejo os paralelos húmidos, com poças e semi-poças felizes, a chuva que cai envergonhada numa manhã de Verão e o cheiro a terra molhada que banha, figuradamente, e me transporta para a estação seguinte.
De quando em vez, assim permitindo o pós-operatório, percorro estradas próximas em busca de algumas coisas, entre elas vistas sobre penhascos e rios borbulhantes, sombras frescas onde não vagueie o bafo quente das tardes e o verdejante sobe e desce de pinheiros, eucaliptos, mato, silvado e o castanho ocre da terra por lavrar, xistos disformes, o voo de uma ave, o ruminar descomplexo de um ovil.
Infelizmente este Verão, embora eu queira não acreditar creio no propositado pavio, ao olhar em redor o cinzento que eu possa associar a nuvens, o que vejo é o negrume vaporizado como gritos de dor e pedidos de auxílio das diferentes tonalidades de verde que aprendi a admirar e respeitar. O ar torna-se irrespirável à medida que me aproximo, a sombra que queria desfrutar é apenas o espesso fumo que vai ascendendo em golfadas tapando o Sol que, a custo, tal como na vida real, se esforça para que a luz trespasse o negro fumegante e transforma o dia numa pincelada negra com tons laranja, sem o romanesco travo renascentista.
Os vidros são subidos para que o odor a tristeza que pigarreia as palavras que nem sabemos respeitar fique restrito ao que me rodeia, mas, agradecendo os outros sentidos, ao olhar colam-se labaredas que bruxuleiam com a fúria expressa de uma fome que alastra tronco acima, rugindo como o homem selvagem que vagueia pelos corredores das assembleias da vida, bufando e grunhindo para que não o entendam, e sobem acima das cristas das árvores como se o vermelho ensanguentando se esforçasse para pintar até o próprio céu.
Há um esvoaçar aflito dos pássaros, rastejantes formas de vida arderam já, quem pôde fugir o fez e quem não o pôde está, de momento, a estagiar húmus nos terrenos quase férteis de onde serão construídos proveitos obscuros para gente cinzenta a quem a única cor que interessa é o tom indistinto das cores do dinheiro.
Começo a ver colunas de heróis, felizmente há-os.
Deslocam-se em colunas de veículos, estes não voam, mas também os vejo nos céus, os grandes camiões têm luzes azuis que rodopiam e parecem querer contrariar o lume com aquele azul escuro a piscar na urgência da missão. De vez em quando anunciam a passagem com uivos, aflitos e estridentes, seguem roncando e fumegando estradas fora, enquanto lá dentro e às vezes pendurados, seguem heróis de vermelho, capacete, lanterna, viseira, botas e fardas pagas com suor, sangue e lágrimas, literalmente.
Os heróis são voluntários, como todos os que conheço, e não são perfeitos, como todos os que conheço, mas na fronteira entre o medo e a coragem, onde ficamos parados a ver labaredar a paisagem que não é nossa, eles saltam agarrados a abafadores, a vociferar, “Água! Água!”, pendurados por longas serpentes cuja força contrariam com pés fincados no chão ainda por queimar, répteis que cospem água que deveria servir apenas para saciar a sede, mas que agora lutam para matar o fogo que deveria, também ele, servir apenas para o calor que necessitamos quando o nosso outro corpo não está connosco.
A estrada está molhada, ardeu de ambos os lados, vejo outros heróis sem farda que correm com garrafões de água, há uma carrinha de um centro social e paroquial que corre a levar sacos de plástico com o que me parece ser pão, funcionárias e voluntários ajoelham-se e falam com heróis, cansados, prostrados, faces negras por onde espreita o esbranquiçado da pele nos sítios por onde escorreu o suor do corpo e dos olhos.
Continuo até onde posso. Já não arde, mas a sombra que procurava e a vida que ansiava não existe mais. Há um recente cemitério onde as árvores clorofílicas deram lugar a altas lápides, secas, finas e negras como longos braços de esqueletos decompostos num minuto apenas. Vejo um corpo retorcido por entre os estrepes queimados e fumegantes, fumega também como se todo o corpo respirasse os restos mortais. Dir-me-ão que é um animal, mas para mim está ali a extensão do que somos, respirando e vivendo os mesmos dias que nós.
Dou a volta. Ainda por lá estão os heróis. Dentro dos veículos, de todos os tamanhos, de todas as proveniências, sonam vozes metálicas, alguém segura uma peça negra e fala para a mesma. Começam a levantar-se os corpos cansados, esfregam a testa com a manga negra da fuligem, vão subindo para os veículos, que ronronam como se descansassem antes de nova batalha. Arrancam. Os heróis arrancam sem glória ou sem que ninguém aplauda, vão adormecidos na voluntariedade saindo dos holofotes que começam a ser erguidos e onde surgem engalanados edis e desgovernantes, que não sabem o que é ser herói, porque os heróis também morrem, como os animais queimados, mas deles, após os holofotes, já ninguém se lembrará além dos enlutados familiares, recordando a inconsolável perda dos seus heróis.
Recordo emocionado a saudação de uma freguesia nuestra hermana ao comboio de heróis portugueses que atravessava a sua avenida, um tapete de aplausos que, acredito, todos eles, mesmo os que não foram lá, devem ter gravado nos sentidos e que fazem por ouvir de cada vez que têm que saltar por cima do medo e galgar coragem acima para enfrentar os monstros dos incêndios, dos acidentes, dos gritos nervosos e aflitos de quem em perigo.
Os heróis vivem, andam entre nós e a prova disso é que não têm nome, individualidade, dão todos pelo mesmo nome: bombeiros voluntários.

2016-08-05

Choveu, mas não chegou para me afundar os pés na terra molhada.
Da próxima vez desço do muro e deixo-me cair com tal força que a terra não terá outra solução que adoptar os passos inertes, enraizar-me e transformar-me numa hortênsia, preferencialmente voltado para o Atlântico.

2016-08-01

Caia-me a noite, para que mesmo por entre as sombras das noites, mônadas se divirtam na criação de divindades a quem o dia matizará de cegueira e sobre, no final do cheiro de terra molhada, o aroma a uma casa vazia caiada.
E aí eu me vista, de nada.