O moinho peneira a água que a levada aprisiona, choveram dias até que me sentei no reflexo do grão enfarinhado, meti a mão na algibeira e tirei mais duas, ou seriam três?, vidas de quietude.
Andam por aí a verem-me amiúde, é sem intenção, desculpem, é a distração ao postigo chamado silêncio.
2016-08-31
2016-08-28
Diálogos desprováveis
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
- E o que te disseram eles?
- Disseram-me para conferir o estado das acções.
- E tu viste?
- Antes quis que eles me mostrassem as deles.
- E eles mostraram?
- Sim, um foi ao computador, abriu o browser e andou para lá a conferir se tinham subido e descido.
- E o outro?
- O outro foi ao telemóvel, uma aplicação qualquer que lhe mostrou que ele estava mais pobre por ter perdido o que não tinha tido.
- E depois, mostraste as tuas?
- Sim. (risos)
- E então?
- Pousei o telemóvel, sentei-me em cima do muro, fechei os olhos e estive assim uns largos segundos.
- Porquê? O que é que te disseram?
- Quando abri os olhos e saltei do muro não disseram nada.
- A sério?
- Sim. Mas eu quebrei o silêncio, disse-lhes que já estava, que tinha consultado as acções.
- Tu, cum camandro… Haja quem te entenda.
- Disse que lembrando aquilo que ainda não esqueci, tinha um saldo positivo.
- Positivo?
- Sim. Entre tudo o que fiz o saldo era positivo.
- Mas positivo como?
- Olha. Positivo. As boas acções são mais que as más acções.
- Oh pá, tu… Carago pá.
- E ainda rematei com uma boa que me saiu na hora.
- Conta.
- Disse que tenho um mercado enorme de acções à minha frente, que as transformo no que quiser.
- Como assim?
- Então? As minhas acções dependem de mim, eu torno-as boas ou más, positivas ou negativas, lá preciso de alguém que me venha dizer se sou rico ou pobre?
- Sinceramente... E eles?
- Disseram-me que não dava para falar comigo.
- Eu avisei-te. Tu e as ideias estúpidas.
- Porquê estúpidas?
- Oh, porque são, quem pensa assim? Que estupidez.
- Olha, foi isso mesmo que me disseram, que era uma estupidez.
- E depois?
- Mandaram-me à merda (risos).
- Lá andam com a razão deles.
- Fiquei mais rico ali mesmo.
- Como assim?
- Entre responder igual ou perdoar, optei por perdoar, ganhei!
- Mas ganhaste o quê?
- Ganhei mais uma boa acção. (risos)
- Oh pá, vai à merda!
- (risos)
- E o que te disseram eles?
- Disseram-me para conferir o estado das acções.
- E tu viste?
- Antes quis que eles me mostrassem as deles.
- E eles mostraram?
- Sim, um foi ao computador, abriu o browser e andou para lá a conferir se tinham subido e descido.
- E o outro?
- O outro foi ao telemóvel, uma aplicação qualquer que lhe mostrou que ele estava mais pobre por ter perdido o que não tinha tido.
- E depois, mostraste as tuas?
- Sim. (risos)
- E então?
- Pousei o telemóvel, sentei-me em cima do muro, fechei os olhos e estive assim uns largos segundos.
- Porquê? O que é que te disseram?
- Quando abri os olhos e saltei do muro não disseram nada.
- A sério?
- Sim. Mas eu quebrei o silêncio, disse-lhes que já estava, que tinha consultado as acções.
- Tu, cum camandro… Haja quem te entenda.
- Disse que lembrando aquilo que ainda não esqueci, tinha um saldo positivo.
- Positivo?
- Sim. Entre tudo o que fiz o saldo era positivo.
- Mas positivo como?
- Olha. Positivo. As boas acções são mais que as más acções.
- Oh pá, tu… Carago pá.
- E ainda rematei com uma boa que me saiu na hora.
- Conta.
- Disse que tenho um mercado enorme de acções à minha frente, que as transformo no que quiser.
- Como assim?
- Então? As minhas acções dependem de mim, eu torno-as boas ou más, positivas ou negativas, lá preciso de alguém que me venha dizer se sou rico ou pobre?
- Sinceramente... E eles?
- Disseram-me que não dava para falar comigo.
- Eu avisei-te. Tu e as ideias estúpidas.
- Porquê estúpidas?
- Oh, porque são, quem pensa assim? Que estupidez.
- Olha, foi isso mesmo que me disseram, que era uma estupidez.
- E depois?
- Mandaram-me à merda (risos).
- Lá andam com a razão deles.
- Fiquei mais rico ali mesmo.
- Como assim?
- Entre responder igual ou perdoar, optei por perdoar, ganhei!
- Mas ganhaste o quê?
- Ganhei mais uma boa acção. (risos)
- Oh pá, vai à merda!
- (risos)
2016-08-23
Cobre-me o brilho das estrelas de ambos os hemisférios. Fico enternecido pelas estrelas cadentes que o universo atira, para que as conte e, assim, adormeça. Mas na insónia encontro o desprendido destino que se senta a meu lado na cama, fita-me e sorri, somos caminhantes da ignorância por sabermos longe o saber e aqui tão perto um Sol, a nascer.
2016-08-21
Pessoa, se é que me posso chamar assim
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Volto a descer a estrada, se é que a posso chamar assim, com redobrado cuidado.
As pedras, se é que as posso chamar assim, resvalam e algumas esfarelam-se quando as calco na tentativa de me segurar ao ar vazio e quente que sobra ao largo desta tarde quase quase verão.
Sem querer agarro-me a um monte de ervas, sem saber, pela velocidade da descida, pelo suor que me faz arder os olhos, pelo monte verde que me pareceu todo igual, que por entre as folhas inocentes, se é que as posso chamar assim, estavam algumas verdes e afiadas silvas cujos espinhos espreitavam orgulhosos acima do caule.
Chego a correr ao fim da descida, calculando o espaço e tempo entre a velocidade, o limite de travagem e o leito do rio ali, ao fundo, ainda com um grosso fio de água e as rochas bolbosas, redondas, secas e quentes, imagino eu, pelo calor da tarde a ameaçarem partir os ossos de quem se deixe cair ali, como eu, temo.
Consigo parar a tempo, depois de mim algum cascalho chega também onde estou e bate-me nos calcanhares, uma pedra mais solta bate-me na perna direita e o barulho das pequenas pedras e terra confunde-se com a água que borbulha, se é que posso dizer assim.
A sombra que espreita por onde o sol não alcança projecta-se junto com os raios solares e ali, onde os fotões arrefeceram, formam o contraste perfeito para ver no ar a poeira que a terra atirou ao ar, não sei se a brincar, se a gozar comigo, enquanto desisto de me sacudir pois o suor atraiu o pó e este cobre-me, se é que posso dizer isto, daquilo que sou feito.
Penso na ironia e se seria isto que quereriam dizer quem afirmou, ao pó voltarás.
Estou a meio caminho, ironizo de volta.
Sem conseguir chegar tão longe como os bocados de xisto que me acompanharam na descida, o meu velho caderno fica a escassos centímetros da rampa inclinada, se é que me posso repetir assim.
Vergo-me e apanho-o.
É irónico, ainda, estar com o caderno comigo nesta viagem quando este está completamente sarrabiscado, sem espaço em branco onde escrever.
Rasurei, apaguei, escrevi e re-escrevi, por cima e em desacordo.
Já não me sobram folhas e, que sobrassem, jamais voltaria a pegar na caneta, no lápis, para desenhar as sequências de letras que, relutantemente, se viram transformar em regras operatórias para sucederem a um termo anterior, cada vez maior, até alcançarem, não sem antes me ultrapassarem, uma espécie de magnitude que nunca vi em mim.
Eis-me aqui, já longe de onde não estou, se é que posso afirmar isto, cada vez mais perto de escrever todo o silêncio que venero, a resiliência de umas pequenas flores, bonitas, não lhes sei o nome, que brotam, tal como a água, do granito frio e sombrio, agora, que o observo à sua sombra.
Não passará aqui vivalma, pudera, se as há que vivem e nem o sabem, não percorrerão caminho que se vê desaguar no leito de um fio de água seco onde só correm os seixos e descansam as fragas, cansadas.
Sento-me sem esforço, cansado, suado, com um ou outro arranhão cujo sangue empapou no contacto com a mistura de pó e suor, sem qualquer dor, se é que a posso chamar assim.
Ergo os joelhos, encosto-me à pedra fria que atrás de mim parecia aguardar um outro corpo.
Pouso o caderno e abro-o ao acaso, as folhas moídas, o papel amarelado e as letras descoloradas.
Nalguns locais já só o sulco por onde escrevi vezes sem conta, indistinguíveis as letras ou frases e um ou outro número parecem desenhar um conglomerado de estrelas e quando ergo o olhar e vejo o pó ainda no ar rio-me sozinho, se é que estou sozinho, a pensar em estrelas e a ver, à minha frente, uma estrela, um astro, que me mostra o pó e me inspira a ser tanto e tão pouco como ele, o pó, se é que o chamar assim.
Sem nada por escrever, com todas as claridades que consigo perscrutar à medida que o dia vai caindo para trás dos montes, fecho os olhos e imagino-me, sozinho, numa estação onde já não passam rostos conhecidos ou corpos desconhecidos e, de caderno aberto, apeio-me e faço-me pessoa, se é que me posso chamar assim.
Volto a descer a estrada, se é que a posso chamar assim, com redobrado cuidado.
As pedras, se é que as posso chamar assim, resvalam e algumas esfarelam-se quando as calco na tentativa de me segurar ao ar vazio e quente que sobra ao largo desta tarde quase quase verão.
Sem querer agarro-me a um monte de ervas, sem saber, pela velocidade da descida, pelo suor que me faz arder os olhos, pelo monte verde que me pareceu todo igual, que por entre as folhas inocentes, se é que as posso chamar assim, estavam algumas verdes e afiadas silvas cujos espinhos espreitavam orgulhosos acima do caule.
Chego a correr ao fim da descida, calculando o espaço e tempo entre a velocidade, o limite de travagem e o leito do rio ali, ao fundo, ainda com um grosso fio de água e as rochas bolbosas, redondas, secas e quentes, imagino eu, pelo calor da tarde a ameaçarem partir os ossos de quem se deixe cair ali, como eu, temo.
Consigo parar a tempo, depois de mim algum cascalho chega também onde estou e bate-me nos calcanhares, uma pedra mais solta bate-me na perna direita e o barulho das pequenas pedras e terra confunde-se com a água que borbulha, se é que posso dizer assim.
A sombra que espreita por onde o sol não alcança projecta-se junto com os raios solares e ali, onde os fotões arrefeceram, formam o contraste perfeito para ver no ar a poeira que a terra atirou ao ar, não sei se a brincar, se a gozar comigo, enquanto desisto de me sacudir pois o suor atraiu o pó e este cobre-me, se é que posso dizer isto, daquilo que sou feito.
Penso na ironia e se seria isto que quereriam dizer quem afirmou, ao pó voltarás.
Estou a meio caminho, ironizo de volta.
Sem conseguir chegar tão longe como os bocados de xisto que me acompanharam na descida, o meu velho caderno fica a escassos centímetros da rampa inclinada, se é que me posso repetir assim.
Vergo-me e apanho-o.
É irónico, ainda, estar com o caderno comigo nesta viagem quando este está completamente sarrabiscado, sem espaço em branco onde escrever.
Rasurei, apaguei, escrevi e re-escrevi, por cima e em desacordo.
Já não me sobram folhas e, que sobrassem, jamais voltaria a pegar na caneta, no lápis, para desenhar as sequências de letras que, relutantemente, se viram transformar em regras operatórias para sucederem a um termo anterior, cada vez maior, até alcançarem, não sem antes me ultrapassarem, uma espécie de magnitude que nunca vi em mim.
Eis-me aqui, já longe de onde não estou, se é que posso afirmar isto, cada vez mais perto de escrever todo o silêncio que venero, a resiliência de umas pequenas flores, bonitas, não lhes sei o nome, que brotam, tal como a água, do granito frio e sombrio, agora, que o observo à sua sombra.
Não passará aqui vivalma, pudera, se as há que vivem e nem o sabem, não percorrerão caminho que se vê desaguar no leito de um fio de água seco onde só correm os seixos e descansam as fragas, cansadas.
Sento-me sem esforço, cansado, suado, com um ou outro arranhão cujo sangue empapou no contacto com a mistura de pó e suor, sem qualquer dor, se é que a posso chamar assim.
Ergo os joelhos, encosto-me à pedra fria que atrás de mim parecia aguardar um outro corpo.
Pouso o caderno e abro-o ao acaso, as folhas moídas, o papel amarelado e as letras descoloradas.
Nalguns locais já só o sulco por onde escrevi vezes sem conta, indistinguíveis as letras ou frases e um ou outro número parecem desenhar um conglomerado de estrelas e quando ergo o olhar e vejo o pó ainda no ar rio-me sozinho, se é que estou sozinho, a pensar em estrelas e a ver, à minha frente, uma estrela, um astro, que me mostra o pó e me inspira a ser tanto e tão pouco como ele, o pó, se é que o chamar assim.
Sem nada por escrever, com todas as claridades que consigo perscrutar à medida que o dia vai caindo para trás dos montes, fecho os olhos e imagino-me, sozinho, numa estação onde já não passam rostos conhecidos ou corpos desconhecidos e, de caderno aberto, apeio-me e faço-me pessoa, se é que me posso chamar assim.
2016-08-20
Diálogos improváveis II
- E agora, que perdeu tudo o que tinha?
- Fico com aquilo que sou, minha senhora.
- Fico com aquilo que sou, minha senhora.
2016-08-17
2016-08-14
O homem sonha, despreocupado, na preocupação de existir
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Quando saio do emaranhado de árvores, mato e fetos, esbracejando para afastar os ramos como se vociferasse nos diálogos internos que mantenho com as vozes do passado, vejo uma clareira plana como o interior de uma margarida.
Até os tufos de erva irregulares se assemelham a pequenos nenúfares a flutuar despreocupados, abertos ao céu, num lago regular feito da irregularidade da ondulação lenta.
Questiono-me como desce o vento até aqui, bons trinta metros abaixo da crista das árvores mais altas. Aliás, nada me explica, até porque estou aqui sozinho, como neste botão de rosa as pequenas folhas espiralam içadas pelo vento, como se ele se entretivesse a experimentar novos truques para velhas audiências e, no entanto, as árvores lá no cimo permanecem imóveis como gigantes pacientes à espera que o orvalho se evapore e se deixe, posteriormente, cair de costas sobre o final de tarde trazendo sonhos molhados pela fresca molécula de um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogénio.
Parece ouvir-me o vento, as pequenas folhas e líquenes que orbitavam a invisibilidade do lugar permanecem suspensas por momentos, até que a gravidade ou despreparo para voar dos objectos inanimados as faz volitar até ao chão.
De repente aquela ventania infantil vem até mim como se me medisse o peso e as intenções, envolve-me numa fresquidão branda e parece ascender na tentativa, imagino-o eu, de me vestir com algo melhor que a roupa que me é imposta enquanto criança.
Tão depressa vem.
Tão depressa vai.
Tão depressa bem.
Sinto-me estranho, de tempo e espaço, como se este local não fosse destinado a ser visto por quem não se sabe volitar, mas eu transpiro sonhos sem valor ou agendas, talvez por isso o vento esteja lá por cima, porque vejo agora as cristas abanarem-se num compasso temporal que só o intemporal sabe tocar, a olhar para baixo, a avaliar-me, pela nudez do que penso, pela inconstância dos meus passos.
Materializa-se no meu olhar, porque não me lembro de ver aqui, à minha frente, na fisicalidade da dimensão, uma pequena cabana de madeira se assim se pode chamar às tábuas de madeira que desconheço, grave falha para o filho de um carpinteiro e marceneiro habituado a conhecer o galho da criação, sobrepostas, pregadas por ferrugem e hera que sustenta os espaços vagos, com um brilho de uma luz que não vejo como pode luzir sem que até lá longos fios negros de electrões a correr despreocupadamente transformem grilhões de água em luminosidade para quem não se sabe claridade.
Na solenidade ingénua camponesice tiro as sandálias e caminho descalço, calcando as folhas verdes que o vento deixou cair e trazendo coladas aos pés os líquenes amarrotados pela renascença. Percorro o interior desta flor e admiro-me com o que de sentidos sou feito, tacteio a rugosidade aveludada do tapete verde, olho o vento a mirar-me enquanto voa como árvore de rapina a vigiar a sua sombra, chega-me o odor de uma brisa marinha impossível, pelo palato alimento-me do sabor de uma vazio que escuto claro como o crepitar deste braseiro aqui dentro do peito.
Cinco idos, sobra-me um sentido, o infalível cunho pessoal da imaginação, onde me sento tantas vezes com o ronronar do vento a aninhar-se no meu colo, cansado das viagens em torno de si próprio.
Chego à cabana, continuo a ver uma luz que se bruxuleia sem que seja do atiçado lume por alguém que não surge à porta. Ergo a perna, pouso o pé direito no degrau tosco de madeira que, propositadamente, parece-me, se deixa quebrar para que eu caia de costas e na fracção de segundos que percorre o relógio que trago no pulso esquerdo, surja o vento sobre mim, espiralando-me com as folhas sorridentes ao meu redor e ali, no exacto momento em que me iço na esperança de encontrar as palavras certas para contar tudo o que não escrevo para que percebam, ouço o ronronar do vento a elevar-me a tempo de ver o lume impossível na cabana apagar-se, para se acender no meu olhar.
Quando saio do emaranhado de árvores, mato e fetos, esbracejando para afastar os ramos como se vociferasse nos diálogos internos que mantenho com as vozes do passado, vejo uma clareira plana como o interior de uma margarida.
Até os tufos de erva irregulares se assemelham a pequenos nenúfares a flutuar despreocupados, abertos ao céu, num lago regular feito da irregularidade da ondulação lenta.
Questiono-me como desce o vento até aqui, bons trinta metros abaixo da crista das árvores mais altas. Aliás, nada me explica, até porque estou aqui sozinho, como neste botão de rosa as pequenas folhas espiralam içadas pelo vento, como se ele se entretivesse a experimentar novos truques para velhas audiências e, no entanto, as árvores lá no cimo permanecem imóveis como gigantes pacientes à espera que o orvalho se evapore e se deixe, posteriormente, cair de costas sobre o final de tarde trazendo sonhos molhados pela fresca molécula de um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogénio.
Parece ouvir-me o vento, as pequenas folhas e líquenes que orbitavam a invisibilidade do lugar permanecem suspensas por momentos, até que a gravidade ou despreparo para voar dos objectos inanimados as faz volitar até ao chão.
De repente aquela ventania infantil vem até mim como se me medisse o peso e as intenções, envolve-me numa fresquidão branda e parece ascender na tentativa, imagino-o eu, de me vestir com algo melhor que a roupa que me é imposta enquanto criança.
Tão depressa vem.
Tão depressa vai.
Tão depressa bem.
Sinto-me estranho, de tempo e espaço, como se este local não fosse destinado a ser visto por quem não se sabe volitar, mas eu transpiro sonhos sem valor ou agendas, talvez por isso o vento esteja lá por cima, porque vejo agora as cristas abanarem-se num compasso temporal que só o intemporal sabe tocar, a olhar para baixo, a avaliar-me, pela nudez do que penso, pela inconstância dos meus passos.
Materializa-se no meu olhar, porque não me lembro de ver aqui, à minha frente, na fisicalidade da dimensão, uma pequena cabana de madeira se assim se pode chamar às tábuas de madeira que desconheço, grave falha para o filho de um carpinteiro e marceneiro habituado a conhecer o galho da criação, sobrepostas, pregadas por ferrugem e hera que sustenta os espaços vagos, com um brilho de uma luz que não vejo como pode luzir sem que até lá longos fios negros de electrões a correr despreocupadamente transformem grilhões de água em luminosidade para quem não se sabe claridade.
Na solenidade ingénua camponesice tiro as sandálias e caminho descalço, calcando as folhas verdes que o vento deixou cair e trazendo coladas aos pés os líquenes amarrotados pela renascença. Percorro o interior desta flor e admiro-me com o que de sentidos sou feito, tacteio a rugosidade aveludada do tapete verde, olho o vento a mirar-me enquanto voa como árvore de rapina a vigiar a sua sombra, chega-me o odor de uma brisa marinha impossível, pelo palato alimento-me do sabor de uma vazio que escuto claro como o crepitar deste braseiro aqui dentro do peito.
Cinco idos, sobra-me um sentido, o infalível cunho pessoal da imaginação, onde me sento tantas vezes com o ronronar do vento a aninhar-se no meu colo, cansado das viagens em torno de si próprio.
Chego à cabana, continuo a ver uma luz que se bruxuleia sem que seja do atiçado lume por alguém que não surge à porta. Ergo a perna, pouso o pé direito no degrau tosco de madeira que, propositadamente, parece-me, se deixa quebrar para que eu caia de costas e na fracção de segundos que percorre o relógio que trago no pulso esquerdo, surja o vento sobre mim, espiralando-me com as folhas sorridentes ao meu redor e ali, no exacto momento em que me iço na esperança de encontrar as palavras certas para contar tudo o que não escrevo para que percebam, ouço o ronronar do vento a elevar-me a tempo de ver o lume impossível na cabana apagar-se, para se acender no meu olhar.
2016-08-07
O nome dos heróis
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
O ar frio que força entrada pelos buracos da persiana faz-me pensar noutras estações, mas acredito que o dia mais fresco que se sente seja apenas um apeadeiro nesta linha quente. Quando abro a persiana, gesto que associo ao descerrar de uma pálpebra do apartamento, como se este meu lar acordasse logo a seguir a mim, e a seguir a abrir as janelas, sem que ainda pudesse acreditar nos meus olhos embaciados, vejo os paralelos húmidos, com poças e semi-poças felizes, a chuva que cai envergonhada numa manhã de Verão e o cheiro a terra molhada que banha, figuradamente, e me transporta para a estação seguinte.
De quando em vez, assim permitindo o pós-operatório, percorro estradas próximas em busca de algumas coisas, entre elas vistas sobre penhascos e rios borbulhantes, sombras frescas onde não vagueie o bafo quente das tardes e o verdejante sobe e desce de pinheiros, eucaliptos, mato, silvado e o castanho ocre da terra por lavrar, xistos disformes, o voo de uma ave, o ruminar descomplexo de um ovil.
Infelizmente este Verão, embora eu queira não acreditar creio no propositado pavio, ao olhar em redor o cinzento que eu possa associar a nuvens, o que vejo é o negrume vaporizado como gritos de dor e pedidos de auxílio das diferentes tonalidades de verde que aprendi a admirar e respeitar. O ar torna-se irrespirável à medida que me aproximo, a sombra que queria desfrutar é apenas o espesso fumo que vai ascendendo em golfadas tapando o Sol que, a custo, tal como na vida real, se esforça para que a luz trespasse o negro fumegante e transforma o dia numa pincelada negra com tons laranja, sem o romanesco travo renascentista.
Os vidros são subidos para que o odor a tristeza que pigarreia as palavras que nem sabemos respeitar fique restrito ao que me rodeia, mas, agradecendo os outros sentidos, ao olhar colam-se labaredas que bruxuleiam com a fúria expressa de uma fome que alastra tronco acima, rugindo como o homem selvagem que vagueia pelos corredores das assembleias da vida, bufando e grunhindo para que não o entendam, e sobem acima das cristas das árvores como se o vermelho ensanguentando se esforçasse para pintar até o próprio céu.
Há um esvoaçar aflito dos pássaros, rastejantes formas de vida arderam já, quem pôde fugir o fez e quem não o pôde está, de momento, a estagiar húmus nos terrenos quase férteis de onde serão construídos proveitos obscuros para gente cinzenta a quem a única cor que interessa é o tom indistinto das cores do dinheiro.
Começo a ver colunas de heróis, felizmente há-os.
Deslocam-se em colunas de veículos, estes não voam, mas também os vejo nos céus, os grandes camiões têm luzes azuis que rodopiam e parecem querer contrariar o lume com aquele azul escuro a piscar na urgência da missão. De vez em quando anunciam a passagem com uivos, aflitos e estridentes, seguem roncando e fumegando estradas fora, enquanto lá dentro e às vezes pendurados, seguem heróis de vermelho, capacete, lanterna, viseira, botas e fardas pagas com suor, sangue e lágrimas, literalmente.
Os heróis são voluntários, como todos os que conheço, e não são perfeitos, como todos os que conheço, mas na fronteira entre o medo e a coragem, onde ficamos parados a ver labaredar a paisagem que não é nossa, eles saltam agarrados a abafadores, a vociferar, “Água! Água!”, pendurados por longas serpentes cuja força contrariam com pés fincados no chão ainda por queimar, répteis que cospem água que deveria servir apenas para saciar a sede, mas que agora lutam para matar o fogo que deveria, também ele, servir apenas para o calor que necessitamos quando o nosso outro corpo não está connosco.
A estrada está molhada, ardeu de ambos os lados, vejo outros heróis sem farda que correm com garrafões de água, há uma carrinha de um centro social e paroquial que corre a levar sacos de plástico com o que me parece ser pão, funcionárias e voluntários ajoelham-se e falam com heróis, cansados, prostrados, faces negras por onde espreita o esbranquiçado da pele nos sítios por onde escorreu o suor do corpo e dos olhos.
Continuo até onde posso. Já não arde, mas a sombra que procurava e a vida que ansiava não existe mais. Há um recente cemitério onde as árvores clorofílicas deram lugar a altas lápides, secas, finas e negras como longos braços de esqueletos decompostos num minuto apenas. Vejo um corpo retorcido por entre os estrepes queimados e fumegantes, fumega também como se todo o corpo respirasse os restos mortais. Dir-me-ão que é um animal, mas para mim está ali a extensão do que somos, respirando e vivendo os mesmos dias que nós.
Dou a volta. Ainda por lá estão os heróis. Dentro dos veículos, de todos os tamanhos, de todas as proveniências, sonam vozes metálicas, alguém segura uma peça negra e fala para a mesma. Começam a levantar-se os corpos cansados, esfregam a testa com a manga negra da fuligem, vão subindo para os veículos, que ronronam como se descansassem antes de nova batalha. Arrancam. Os heróis arrancam sem glória ou sem que ninguém aplauda, vão adormecidos na voluntariedade saindo dos holofotes que começam a ser erguidos e onde surgem engalanados edis e desgovernantes, que não sabem o que é ser herói, porque os heróis também morrem, como os animais queimados, mas deles, após os holofotes, já ninguém se lembrará além dos enlutados familiares, recordando a inconsolável perda dos seus heróis.
Recordo emocionado a saudação de uma freguesia nuestra hermana ao comboio de heróis portugueses que atravessava a sua avenida, um tapete de aplausos que, acredito, todos eles, mesmo os que não foram lá, devem ter gravado nos sentidos e que fazem por ouvir de cada vez que têm que saltar por cima do medo e galgar coragem acima para enfrentar os monstros dos incêndios, dos acidentes, dos gritos nervosos e aflitos de quem em perigo.
Os heróis vivem, andam entre nós e a prova disso é que não têm nome, individualidade, dão todos pelo mesmo nome: bombeiros voluntários.
O ar frio que força entrada pelos buracos da persiana faz-me pensar noutras estações, mas acredito que o dia mais fresco que se sente seja apenas um apeadeiro nesta linha quente. Quando abro a persiana, gesto que associo ao descerrar de uma pálpebra do apartamento, como se este meu lar acordasse logo a seguir a mim, e a seguir a abrir as janelas, sem que ainda pudesse acreditar nos meus olhos embaciados, vejo os paralelos húmidos, com poças e semi-poças felizes, a chuva que cai envergonhada numa manhã de Verão e o cheiro a terra molhada que banha, figuradamente, e me transporta para a estação seguinte.
De quando em vez, assim permitindo o pós-operatório, percorro estradas próximas em busca de algumas coisas, entre elas vistas sobre penhascos e rios borbulhantes, sombras frescas onde não vagueie o bafo quente das tardes e o verdejante sobe e desce de pinheiros, eucaliptos, mato, silvado e o castanho ocre da terra por lavrar, xistos disformes, o voo de uma ave, o ruminar descomplexo de um ovil.
Infelizmente este Verão, embora eu queira não acreditar creio no propositado pavio, ao olhar em redor o cinzento que eu possa associar a nuvens, o que vejo é o negrume vaporizado como gritos de dor e pedidos de auxílio das diferentes tonalidades de verde que aprendi a admirar e respeitar. O ar torna-se irrespirável à medida que me aproximo, a sombra que queria desfrutar é apenas o espesso fumo que vai ascendendo em golfadas tapando o Sol que, a custo, tal como na vida real, se esforça para que a luz trespasse o negro fumegante e transforma o dia numa pincelada negra com tons laranja, sem o romanesco travo renascentista.
Os vidros são subidos para que o odor a tristeza que pigarreia as palavras que nem sabemos respeitar fique restrito ao que me rodeia, mas, agradecendo os outros sentidos, ao olhar colam-se labaredas que bruxuleiam com a fúria expressa de uma fome que alastra tronco acima, rugindo como o homem selvagem que vagueia pelos corredores das assembleias da vida, bufando e grunhindo para que não o entendam, e sobem acima das cristas das árvores como se o vermelho ensanguentando se esforçasse para pintar até o próprio céu.
Há um esvoaçar aflito dos pássaros, rastejantes formas de vida arderam já, quem pôde fugir o fez e quem não o pôde está, de momento, a estagiar húmus nos terrenos quase férteis de onde serão construídos proveitos obscuros para gente cinzenta a quem a única cor que interessa é o tom indistinto das cores do dinheiro.
Começo a ver colunas de heróis, felizmente há-os.
Deslocam-se em colunas de veículos, estes não voam, mas também os vejo nos céus, os grandes camiões têm luzes azuis que rodopiam e parecem querer contrariar o lume com aquele azul escuro a piscar na urgência da missão. De vez em quando anunciam a passagem com uivos, aflitos e estridentes, seguem roncando e fumegando estradas fora, enquanto lá dentro e às vezes pendurados, seguem heróis de vermelho, capacete, lanterna, viseira, botas e fardas pagas com suor, sangue e lágrimas, literalmente.
Os heróis são voluntários, como todos os que conheço, e não são perfeitos, como todos os que conheço, mas na fronteira entre o medo e a coragem, onde ficamos parados a ver labaredar a paisagem que não é nossa, eles saltam agarrados a abafadores, a vociferar, “Água! Água!”, pendurados por longas serpentes cuja força contrariam com pés fincados no chão ainda por queimar, répteis que cospem água que deveria servir apenas para saciar a sede, mas que agora lutam para matar o fogo que deveria, também ele, servir apenas para o calor que necessitamos quando o nosso outro corpo não está connosco.
A estrada está molhada, ardeu de ambos os lados, vejo outros heróis sem farda que correm com garrafões de água, há uma carrinha de um centro social e paroquial que corre a levar sacos de plástico com o que me parece ser pão, funcionárias e voluntários ajoelham-se e falam com heróis, cansados, prostrados, faces negras por onde espreita o esbranquiçado da pele nos sítios por onde escorreu o suor do corpo e dos olhos.
Continuo até onde posso. Já não arde, mas a sombra que procurava e a vida que ansiava não existe mais. Há um recente cemitério onde as árvores clorofílicas deram lugar a altas lápides, secas, finas e negras como longos braços de esqueletos decompostos num minuto apenas. Vejo um corpo retorcido por entre os estrepes queimados e fumegantes, fumega também como se todo o corpo respirasse os restos mortais. Dir-me-ão que é um animal, mas para mim está ali a extensão do que somos, respirando e vivendo os mesmos dias que nós.
Dou a volta. Ainda por lá estão os heróis. Dentro dos veículos, de todos os tamanhos, de todas as proveniências, sonam vozes metálicas, alguém segura uma peça negra e fala para a mesma. Começam a levantar-se os corpos cansados, esfregam a testa com a manga negra da fuligem, vão subindo para os veículos, que ronronam como se descansassem antes de nova batalha. Arrancam. Os heróis arrancam sem glória ou sem que ninguém aplauda, vão adormecidos na voluntariedade saindo dos holofotes que começam a ser erguidos e onde surgem engalanados edis e desgovernantes, que não sabem o que é ser herói, porque os heróis também morrem, como os animais queimados, mas deles, após os holofotes, já ninguém se lembrará além dos enlutados familiares, recordando a inconsolável perda dos seus heróis.
Recordo emocionado a saudação de uma freguesia nuestra hermana ao comboio de heróis portugueses que atravessava a sua avenida, um tapete de aplausos que, acredito, todos eles, mesmo os que não foram lá, devem ter gravado nos sentidos e que fazem por ouvir de cada vez que têm que saltar por cima do medo e galgar coragem acima para enfrentar os monstros dos incêndios, dos acidentes, dos gritos nervosos e aflitos de quem em perigo.
Os heróis vivem, andam entre nós e a prova disso é que não têm nome, individualidade, dão todos pelo mesmo nome: bombeiros voluntários.
2016-08-05
2016-08-01
2016-07-31
Vagamundo
Crónica de domingo na Bird Magazine.
O corpo tem sono, mas não consigo sequer chegar perto daquele torpor morno que nos aquece, como um Sol que raia no mundo dos sonhos.
Há episódios que fazem todo o sentido em épocas adequadas, como o Natal ou a Páscoa, no entanto, quando por irónico acaso do destino os mesmos se desenrolam fora dessas épocas festivamente convertidas a celebrações religiosas, os episódios transformam-se em quotidianas formas de ver diluírem-se, nas camadas invisíveis da sociedade, os vultos bem visíveis que a própria sociedade purga.
Sigo em pé no autocarro, não sei se o 701 ou 703. Há lugares vagos, mas não quero sentar-me, estou bem em pé, sem vontade de ler ou sonhar, apenas encostar a cabeça ao varão e olhar para a estrada, com olhos de apenas ver, sem pensar.
O autocarro para, entram várias pessoas ao som do aparelho que valida das senhas e passes de autocarro. Longe vão os tempos do tac-tac ou plim ou o mais avançado crrrrrzzztttcrrrrr, os amarelinhos "validadores" de senhas stcp ou andantes (nomes bonitos para os nossos títulos de transporte) conferem uma animação fora do vulgar.
No meio dos bips, há um que sobressai, é um biiiiiiiiiiip, sinal de que a senha ou passe não está válido, vá-se lá saber porquê, se por falta de provimento, leia-se dinheiro, se por falta de coerência tecnológica, que resolve avariar senhas aleatoriamente (a mim aconteceu-me uma vez em duas semanas). O biiiiiiiiiiip continua, novamente, mais uma ou duas vezes até que, por fim, acordo para a situação e olho para a frente do autocarro.
O termo vagabundo é geral demais para o descreve, no entanto, é assim que me irei referir a ele.
Alheio ao biiiiiiiiiiip insistente, dirige-se para o interior pelo corredor, eventualmente será defeito da máquina, penso eu por ele, que guarda a senha (neste momento ainda não sei que é um passe) no bolso interior do casaco e passa por mim.
Mesmo que estivesse a dormir, seria facilmente acordado pelo cheiro a corpo abandonado e alma perdida que exalava dele. O cabelo comprido, encaracolado pelo tempo e sujidade. O chapéu tem indícios de já ter sido branco, está enfiado na cabeça e o branco que eu referi só se vê no topo do chapéu, o restante é já da cor do cabelo, encardido, esbatido por força de muitas horas de suor e poucas de higiene pessoal.
Senta-se mesmo atrás de mim, num dos bancos ao lado da porta de saída e o cheiro é, de facto, intenso. As poucas vezes que o olhei nos olhos foi para me sentir cair num labirinto escuro, onde nem a mais forte luz poderia entrar. Rodopiava frequentemente e quando me tentava levantar, vários sonhos frustrados agarravam-me as pernas e braços e puxavam-me para baixo. Tinha os olhos azuis claros. De repente levanta-se, as calças ficaram coladas às pernas enquanto andava. Sentou-se no fundo do autocarro, num assento vago, apertado, mas que rapidamente fica largo, pois uma senhora sentada ao lado se levantou, veio para o meu lado, torceu o nariz, franziu a testa e olhou para mim, abanando negativamente com a cabeça, quase imperceptível. Que quereria dizer aquela negação?
Umas paragens à frente uma equipa de revisores/fiscais entra no autocarro. Ele levanta-se rapidamente e dirige-se para a porta, mas esta já estava fechada e ele não pode sair. As pessoas tiram passes e senhas, mostrando-as ao revisor, moço novo, alto e forte. "O seu bilhete por favor" e "obrigado", parecem ser as poucas palavras que consegue proferir. Os braços porcos entregam um passe que, como se adivinhava, não era válido desde o mês passado, coisa pouca. O que se passou a seguir não sei, a cara do "vagabundo" fez-me tropeçar pelos sonhos abaixo e cair de cara contra a vida actual.
Ainda ouvi umas risadas e o barulho pneumático das portas a abrirem e os meus passos que se perderam no alcatrão.
O corpo tem sono, mas não consigo sequer chegar perto daquele torpor morno que nos aquece, como um Sol que raia no mundo dos sonhos.
Há episódios que fazem todo o sentido em épocas adequadas, como o Natal ou a Páscoa, no entanto, quando por irónico acaso do destino os mesmos se desenrolam fora dessas épocas festivamente convertidas a celebrações religiosas, os episódios transformam-se em quotidianas formas de ver diluírem-se, nas camadas invisíveis da sociedade, os vultos bem visíveis que a própria sociedade purga.
Sigo em pé no autocarro, não sei se o 701 ou 703. Há lugares vagos, mas não quero sentar-me, estou bem em pé, sem vontade de ler ou sonhar, apenas encostar a cabeça ao varão e olhar para a estrada, com olhos de apenas ver, sem pensar.
O autocarro para, entram várias pessoas ao som do aparelho que valida das senhas e passes de autocarro. Longe vão os tempos do tac-tac ou plim ou o mais avançado crrrrrzzztttcrrrrr, os amarelinhos "validadores" de senhas stcp ou andantes (nomes bonitos para os nossos títulos de transporte) conferem uma animação fora do vulgar.
No meio dos bips, há um que sobressai, é um biiiiiiiiiiip, sinal de que a senha ou passe não está válido, vá-se lá saber porquê, se por falta de provimento, leia-se dinheiro, se por falta de coerência tecnológica, que resolve avariar senhas aleatoriamente (a mim aconteceu-me uma vez em duas semanas). O biiiiiiiiiiip continua, novamente, mais uma ou duas vezes até que, por fim, acordo para a situação e olho para a frente do autocarro.
O termo vagabundo é geral demais para o descreve, no entanto, é assim que me irei referir a ele.
Alheio ao biiiiiiiiiiip insistente, dirige-se para o interior pelo corredor, eventualmente será defeito da máquina, penso eu por ele, que guarda a senha (neste momento ainda não sei que é um passe) no bolso interior do casaco e passa por mim.
Mesmo que estivesse a dormir, seria facilmente acordado pelo cheiro a corpo abandonado e alma perdida que exalava dele. O cabelo comprido, encaracolado pelo tempo e sujidade. O chapéu tem indícios de já ter sido branco, está enfiado na cabeça e o branco que eu referi só se vê no topo do chapéu, o restante é já da cor do cabelo, encardido, esbatido por força de muitas horas de suor e poucas de higiene pessoal.
Senta-se mesmo atrás de mim, num dos bancos ao lado da porta de saída e o cheiro é, de facto, intenso. As poucas vezes que o olhei nos olhos foi para me sentir cair num labirinto escuro, onde nem a mais forte luz poderia entrar. Rodopiava frequentemente e quando me tentava levantar, vários sonhos frustrados agarravam-me as pernas e braços e puxavam-me para baixo. Tinha os olhos azuis claros. De repente levanta-se, as calças ficaram coladas às pernas enquanto andava. Sentou-se no fundo do autocarro, num assento vago, apertado, mas que rapidamente fica largo, pois uma senhora sentada ao lado se levantou, veio para o meu lado, torceu o nariz, franziu a testa e olhou para mim, abanando negativamente com a cabeça, quase imperceptível. Que quereria dizer aquela negação?
Umas paragens à frente uma equipa de revisores/fiscais entra no autocarro. Ele levanta-se rapidamente e dirige-se para a porta, mas esta já estava fechada e ele não pode sair. As pessoas tiram passes e senhas, mostrando-as ao revisor, moço novo, alto e forte. "O seu bilhete por favor" e "obrigado", parecem ser as poucas palavras que consegue proferir. Os braços porcos entregam um passe que, como se adivinhava, não era válido desde o mês passado, coisa pouca. O que se passou a seguir não sei, a cara do "vagabundo" fez-me tropeçar pelos sonhos abaixo e cair de cara contra a vida actual.
Ainda ouvi umas risadas e o barulho pneumático das portas a abrirem e os meus passos que se perderam no alcatrão.
2016-07-24
Dualidade no sabor inodoro
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Há um puto que entra no supermercado, mete a mão ao bolso, tira-a fechada e abre-a com a esperança de multiplicar, mas apenas conta o que tinha, moedas de comprar pouca coisa e segue para a prateleira dos chocolates, o entretenimento que adoça a alma ao preço mais acessível.
Quatro, eles são cinco, mas ele traz quatro pequenas barras de um chocolate espanhol, barato, que o que sobra terá que dar para a viagem de comboio.
Parou.
Voltou à prateleira dos chocolates e comprou outro.
São agora cinco chocolates para cinco pessoas, ele inclusive, que voltará para casa a pé, gasto que foi o dinheiro no chocolate.
Chegará a casa e guardará os cinco chocolates no frigorífico, por baixo das couves e cenouras, para que não veja, para que seja surpresa e, depois, quando a barriga aconchegada pela sopa quente não estiver à espera, ele vai ao frigorífico e apresenta cinco pequenos chocolates, com os olhos brilhantes, feliz.
Todos comem o chocolate, devagar, para que se saboreie, sabem que não é sempre assim, são mais os amargos dias pesados que as doces leves carícias de quem nada tem.
De quem tudo sorve.
Até a vida.
Há pessoas cuja vida é deixar viver os sonhos, mesmo de quem não sabe que sonha.
E há sonhos cuja realidade é deixar viver as pessoas, mesmo de quem não se sabe pessoa.
Encontro ainda algumas paisagens móveis que me levam aos limites do maravilhoso.
No caminho de paralelos uma senhora idosa, de preto, que há lutos que são para uma vida inteira, caminha com dificuldade acompanha por uma bengala.
Vi-a subir a custo a última parte do caminho e a subir um pequeno degrau.
Recebe-a uma calçada portuguesa, com dizeres a negro basalto, uma data e uma placa de agradecimento ao povo que ajudou.
Num invólucro à prova de mãos sôfregas de milagres, uma figura é adorada por três crianças humildes.
E esta senhora, encosta a bengala à perna esquerda, ergue as mãos e começa a benzer-se, "pelo sinal da santa cruz..." é murmurado quase inaudivelmente, deduzo que seja esta a oração, pois a coreografia assim corresponde e as coisas da religião não devem ter mudado muito desde que saí da catequese.
E assim, quieta, com o ainda silêncio das aldeias, uma senhora reza, murmura em pequenas frases decoradas, comove-se.
E eu, que não sei rezar como mandam as leis, comovo-me também com a humildade das pessoas, com a necessidade suprema da gente simples que endossa a Deus um cheque demasiado grande.
Há um puto que entra no supermercado, mete a mão ao bolso, tira-a fechada e abre-a com a esperança de multiplicar, mas apenas conta o que tinha, moedas de comprar pouca coisa e segue para a prateleira dos chocolates, o entretenimento que adoça a alma ao preço mais acessível.
Quatro, eles são cinco, mas ele traz quatro pequenas barras de um chocolate espanhol, barato, que o que sobra terá que dar para a viagem de comboio.
Parou.
Voltou à prateleira dos chocolates e comprou outro.
São agora cinco chocolates para cinco pessoas, ele inclusive, que voltará para casa a pé, gasto que foi o dinheiro no chocolate.
Chegará a casa e guardará os cinco chocolates no frigorífico, por baixo das couves e cenouras, para que não veja, para que seja surpresa e, depois, quando a barriga aconchegada pela sopa quente não estiver à espera, ele vai ao frigorífico e apresenta cinco pequenos chocolates, com os olhos brilhantes, feliz.
Todos comem o chocolate, devagar, para que se saboreie, sabem que não é sempre assim, são mais os amargos dias pesados que as doces leves carícias de quem nada tem.
De quem tudo sorve.
Até a vida.
Há pessoas cuja vida é deixar viver os sonhos, mesmo de quem não sabe que sonha.
E há sonhos cuja realidade é deixar viver as pessoas, mesmo de quem não se sabe pessoa.
Encontro ainda algumas paisagens móveis que me levam aos limites do maravilhoso.
No caminho de paralelos uma senhora idosa, de preto, que há lutos que são para uma vida inteira, caminha com dificuldade acompanha por uma bengala.
Vi-a subir a custo a última parte do caminho e a subir um pequeno degrau.
Recebe-a uma calçada portuguesa, com dizeres a negro basalto, uma data e uma placa de agradecimento ao povo que ajudou.
Num invólucro à prova de mãos sôfregas de milagres, uma figura é adorada por três crianças humildes.
E esta senhora, encosta a bengala à perna esquerda, ergue as mãos e começa a benzer-se, "pelo sinal da santa cruz..." é murmurado quase inaudivelmente, deduzo que seja esta a oração, pois a coreografia assim corresponde e as coisas da religião não devem ter mudado muito desde que saí da catequese.
E assim, quieta, com o ainda silêncio das aldeias, uma senhora reza, murmura em pequenas frases decoradas, comove-se.
E eu, que não sei rezar como mandam as leis, comovo-me também com a humildade das pessoas, com a necessidade suprema da gente simples que endossa a Deus um cheque demasiado grande.
2016-07-17
Dias
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Feriu-se nas arestas da vida
ainda
antes de nascer,
pulsou
compassadamente
e
esbateu-se...
Há
existências que valem segundos
e
horas,
gastas,
nas
sombras puídas do cansaço.
Enquanto
se amortalha o respirar,
um
pouco mais de vazio
morre
sozinho,
nas
ondas do falar
e
do calor,
imenso,
constrói-se
um prisma de gente
cujas
sombras,
rebeldes,
ficam
na noite
a
aguardar...
Há
dias assim, sem poemas nem contos, sem risos nem choros, apenas
assim.
Enquanto
algo me embala o corpo com os sentidos, eu deixo que a alma escreva
um pouco. Sem máscaras, artimanhas, egoísmos ou esconderijos.
Há
dias em que o mundo se fecha um pouco mais, em que a sede de viver
passa por outras dimensões. Há dias em que sonho que todos os olhos
se abram para sempre, como se todos rompessem a cortina espessa que
os cobre.
Há
dias em que nem mesmo todas as canções sabem compor um hino à
humanidade. Porque a humanidade não se canta, não cala, apenas vive
pacatamente no seu espectro, entre idas e voltas.
Há
dias em que olho as minhas mãos e elas dormem, cansadas, frias,
desamparadas pela água que corre sem me molhar.
Há
dias em que o mundo deixa de ser mundo e é um ermo, uma ilha
abandonada, desconhecida.
Há
dias em que as vozes se calam para que eu contemple o vazio da surdez
e a constância dos passos perdidos, das almas ausentes, da luz
escura e sombria que contempla os seus frutos.
Há
dias em que ambiciono poder retornar a mim mesmo.
Há
dias em que este piano toca sozinho, pautado por acordes que
sucumbem, que se perdem na amálgama de sonoridades obsoletas, que
cativam e adormecem.
Há
dias em que eu não sou eu, sou um poema ou um conto, alguém ou
ninguém.
Há
dias em que os olhos que miram a vida são opacos e lestos no
julgamento.
Há
dias de cansaço.
Há
dias de Sol e Lua, de cantos e choros, de noites e noites que não
morrem para nascer o dia.
Há
dias em que o frio não me deixa escrever. Tenho frio.
2016-07-10
Nado
in Bird Magazine
Nado.
Nado porque nasceu do nada e do tudo, nada da parte da mãe, tudo da parte do pai embora os títulos nem sempre possam ser assim, na vida e nas crónicas.
Fazia-se adormecido para, à vez, sentir o beijo do pai na cara e, depois, da mãe. Esta repetia o procedimento, primeiro quando o marido se levantava e preparava para cravar espaçadas pegadas na neve alva alta, depois, já após o despertador acordar, ia devagarinho, sentava-se na beira da cama e causava um distúrbio no tecido espacial, uma ondulação no sonho do filho, como se ele fosse um ligeiro planeta desviado da órbita do sono para ir cedendo à gravidade do astro maior que era o amor da sua mãe.
O pequeno almoço incluía bocadinhos de pão que caíram da crosta quebradiça do pão do pai. Entre sair para o trabalho e o catraio se chegar à mesa e pousar os braços quentes no plástico frio da toalha com padrão axadrezado, os cruzamentos perpétuos nas encruzilhadas da vida ali à sua frente, tinha o pão (por ser migalha não deixa de ser pão) tempo de secar. Os bocados grandes conseguia ele pressionar com o indicador e levar à boca. De vez em quando media as constelações formadas pelas migalhas, afinava a pontaria e tentava com os cinco dedos da mão apanhar cinco crostas de uma só vez. A mãe, no fogão e de costas para a mesa, admirava o rapaz através do seu reflexo na envidraçada tampa levantada do fogão e esperava que ele terminasse de repenicar as migalhas, sorrindo baixinho, para depois se virar com a cafeteira do café quente e caminhar, como sempre, um astro em torno do qual ele gravitava.
Com as aulas já longe, o espanador ganhava uma genuína velocidade nas suas mãos e, de repente, mais pela pequenez da habitação do que propriamente pela velocidade e boa vontade do filho, a casa estava com o pó não depositado. Seria uma questão de horas ou dias até o pó se cansar de volitar e deixar-se cair sobres os livros, a televisão, o rádio e a mesa da sala.
Sem as tarefas domésticas incutidas pela mãe (os astros às vezes queimam), podia sair à rua, resguardado pelos eucaliptos, pinheiros, austrálias, raros sobreiros e rasteiros fetos, ia andando, saudando vizinhos, mãos nos bolsos que tirava de vez em quando para admirar a pulseira de trapos que a mãe lhe fez.
Era altura de se fazer fé e ver as pessoas de enxada ou cavadeira, já depois de cortada a rama, penetrar a terra com o respeito que o futuro nos merece e ao puxar para si o cabo ver, ainda antes de saírem, a colheita boa que o suor precisa. Encostado ao muro, à sombra ainda fresca da manhã (há sombras quentes também, as do meio-dia, pequenas, que não têm forma suficiente para arrefecer o vento quente que por elas passa sem grandes pudores), admirava os calcanhares negros do pó da terra que se cozinhava com o suor que escorria, as costas das mãos que afagavam a testa suada enquanto os olhos se fechavam e a sombra do chapéu dava abrigo à visão da jornada que ainda se avizinhava. Alguém mais afoito cavava na ligeireza que a juventude permite sem prestar ouvidos às vozes mais velhas que lhe diziam que a força ainda haveria de fugir para o cu. Os sorrisos, alguns cantares, o cão que se solta e obriga ao descanso das enxadas não vá alguma dar uma rachadela no bicho, a batata podre que o cão leva na boca e se apressa a roer, sentado na erva talhada aos coelhos com o tubérculo entre as patas dianteiras. Quando o viam, ao miúdo, ainda lhe ofereciam água ou uma sande, mas ele que se alimentava de sonhos, sorria, acenava, educadamente sorria e afastava-se de regresso a casa.
Tarda nada a tarde nada-se no rio, ainda nem as horas da digestão eram dadas já havia braçadas frescas por entre agriões da presa ou juncos do rio, a caminhada por entre o pomar, as dentadas na fruta ainda verde e a corrida agachada fazia do entardecer uma lareira onde se forjava o ferro e o carácter.
O final do dia diurno, antes do dia nocturno, era já preparado no assento da bicicleta na caracterização das séries da televisão, gorro e luvas, olhar de cowboy e seguir estrada abaixo sem dar aos pedais, de encontro ao pai que sempre acreditou que ele não aprendera mais cedo a pedalar apenas para se deixar empurrar por si, estrada acima.
Chega-se a casa, entra a correr a cheirar o estrugido e fica a espreitar na porta, sorrindo malandro. A mãe vai perguntar ao pai se teve um bom dia, que lhe responderá invariavelmente a sorrir:
- Agora sim.
E o puto, feliz, ensaiava o diálogo que ouvia saídos do amor dos pais e caminhava para o quarto, espalhava a mão sobre as lombadas dos livros da pequena estante da sala, tacteando as palavras que irá um dia ler, sabendo que nenhuma poderá ser lida ou escrita que repercuta como o amor ao tudo que nos faz desejar o nada.
Nado.
Nado porque nasceu do nada e do tudo, nada da parte da mãe, tudo da parte do pai embora os títulos nem sempre possam ser assim, na vida e nas crónicas.
Fazia-se adormecido para, à vez, sentir o beijo do pai na cara e, depois, da mãe. Esta repetia o procedimento, primeiro quando o marido se levantava e preparava para cravar espaçadas pegadas na neve alva alta, depois, já após o despertador acordar, ia devagarinho, sentava-se na beira da cama e causava um distúrbio no tecido espacial, uma ondulação no sonho do filho, como se ele fosse um ligeiro planeta desviado da órbita do sono para ir cedendo à gravidade do astro maior que era o amor da sua mãe.
O pequeno almoço incluía bocadinhos de pão que caíram da crosta quebradiça do pão do pai. Entre sair para o trabalho e o catraio se chegar à mesa e pousar os braços quentes no plástico frio da toalha com padrão axadrezado, os cruzamentos perpétuos nas encruzilhadas da vida ali à sua frente, tinha o pão (por ser migalha não deixa de ser pão) tempo de secar. Os bocados grandes conseguia ele pressionar com o indicador e levar à boca. De vez em quando media as constelações formadas pelas migalhas, afinava a pontaria e tentava com os cinco dedos da mão apanhar cinco crostas de uma só vez. A mãe, no fogão e de costas para a mesa, admirava o rapaz através do seu reflexo na envidraçada tampa levantada do fogão e esperava que ele terminasse de repenicar as migalhas, sorrindo baixinho, para depois se virar com a cafeteira do café quente e caminhar, como sempre, um astro em torno do qual ele gravitava.
Com as aulas já longe, o espanador ganhava uma genuína velocidade nas suas mãos e, de repente, mais pela pequenez da habitação do que propriamente pela velocidade e boa vontade do filho, a casa estava com o pó não depositado. Seria uma questão de horas ou dias até o pó se cansar de volitar e deixar-se cair sobres os livros, a televisão, o rádio e a mesa da sala.
Sem as tarefas domésticas incutidas pela mãe (os astros às vezes queimam), podia sair à rua, resguardado pelos eucaliptos, pinheiros, austrálias, raros sobreiros e rasteiros fetos, ia andando, saudando vizinhos, mãos nos bolsos que tirava de vez em quando para admirar a pulseira de trapos que a mãe lhe fez.
Era altura de se fazer fé e ver as pessoas de enxada ou cavadeira, já depois de cortada a rama, penetrar a terra com o respeito que o futuro nos merece e ao puxar para si o cabo ver, ainda antes de saírem, a colheita boa que o suor precisa. Encostado ao muro, à sombra ainda fresca da manhã (há sombras quentes também, as do meio-dia, pequenas, que não têm forma suficiente para arrefecer o vento quente que por elas passa sem grandes pudores), admirava os calcanhares negros do pó da terra que se cozinhava com o suor que escorria, as costas das mãos que afagavam a testa suada enquanto os olhos se fechavam e a sombra do chapéu dava abrigo à visão da jornada que ainda se avizinhava. Alguém mais afoito cavava na ligeireza que a juventude permite sem prestar ouvidos às vozes mais velhas que lhe diziam que a força ainda haveria de fugir para o cu. Os sorrisos, alguns cantares, o cão que se solta e obriga ao descanso das enxadas não vá alguma dar uma rachadela no bicho, a batata podre que o cão leva na boca e se apressa a roer, sentado na erva talhada aos coelhos com o tubérculo entre as patas dianteiras. Quando o viam, ao miúdo, ainda lhe ofereciam água ou uma sande, mas ele que se alimentava de sonhos, sorria, acenava, educadamente sorria e afastava-se de regresso a casa.
Tarda nada a tarde nada-se no rio, ainda nem as horas da digestão eram dadas já havia braçadas frescas por entre agriões da presa ou juncos do rio, a caminhada por entre o pomar, as dentadas na fruta ainda verde e a corrida agachada fazia do entardecer uma lareira onde se forjava o ferro e o carácter.
O final do dia diurno, antes do dia nocturno, era já preparado no assento da bicicleta na caracterização das séries da televisão, gorro e luvas, olhar de cowboy e seguir estrada abaixo sem dar aos pedais, de encontro ao pai que sempre acreditou que ele não aprendera mais cedo a pedalar apenas para se deixar empurrar por si, estrada acima.
Chega-se a casa, entra a correr a cheirar o estrugido e fica a espreitar na porta, sorrindo malandro. A mãe vai perguntar ao pai se teve um bom dia, que lhe responderá invariavelmente a sorrir:
- Agora sim.
E o puto, feliz, ensaiava o diálogo que ouvia saídos do amor dos pais e caminhava para o quarto, espalhava a mão sobre as lombadas dos livros da pequena estante da sala, tacteando as palavras que irá um dia ler, sabendo que nenhuma poderá ser lida ou escrita que repercuta como o amor ao tudo que nos faz desejar o nada.
2016-07-09
Ecos
Som
De mim a ti
Quantos tons?
Que navegamos na vocalidade do que sentimos
Que idade resta de nós?
Na projecção do que aprender
Saudamos as vozes do saber.
Quantos de nós
Podemos almejar a que o silêncio
Seja por fim o infinito calado na mudez
A mesma que transforma estas mãos
Em nudez.
Folha branca onde te organizo
As pautas onde repousarei notas
Soltas
De albatroz vestidas
Surgem vidas por uma só voz
Quem de nós surge nas avenidas
Lassas
Dos vocábulos taciturnos e sós
A que me entrego solene e calada
Vós
Caladas e solenes entrego-me
Que o pregão seja sussurro
E o sussurro sussurrado me embale
Pois de nada vale a voz
Se o calar gnóstico sucumbir
E de rosto meio fechado
Quase inanimado
O sorrir
Se vir
Sem voz…
Sem
Nós
De mim a ti
Quantos tons?
Que navegamos na vocalidade do que sentimos
Que idade resta de nós?
Na projecção do que aprender
Saudamos as vozes do saber.
Quantos de nós
Podemos almejar a que o silêncio
Seja por fim o infinito calado na mudez
A mesma que transforma estas mãos
Em nudez.
Folha branca onde te organizo
As pautas onde repousarei notas
Soltas
De albatroz vestidas
Surgem vidas por uma só voz
Quem de nós surge nas avenidas
Lassas
Dos vocábulos taciturnos e sós
A que me entrego solene e calada
Vós
Caladas e solenes entrego-me
Que o pregão seja sussurro
E o sussurro sussurrado me embale
Pois de nada vale a voz
Se o calar gnóstico sucumbir
E de rosto meio fechado
Quase inanimado
O sorrir
Se vir
Sem voz…
Sem
Nós
2016-07-03
“Tudo”
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Havia tudo.
Acordava ao mesmo tempo que o marido. Isto, claro, se a criança não desse ares de inquietude na cama, fosse pelo sonho trôpego ou pelo ronronar faminto das entranhas.
As portadas de madeira, pintadas de branco, eram às ripas e ela sempre achou piada àquela forma estranha. Parecia que a casa, com as portadas fechadas, tinha cara de gente ensonada, gente que dormia com os olhos fechados, mas a espreitar pelas frinchas do sono acordado.
Quando a noite na sua fogosidade se despia, ela via pelas ranhuras a claridade tomar conta do escuro, primeiro misturava-se lentamente, como se o raiar do dia fosse criança pequena e quente a provar o frio da água da praia, depois, já mais afoita, entrava cada vez mais, cada vez mais oblíqua, deixando-se entrevar para depois resplandecente assumir o dia na sua totalidade.
A água escorre e cai no lavatório, ouve as mãos do marido rasparem na face enquanto ele a esfrega com sabão para depois escanhoar a pele. Invariavelmente irá deixar pequenos pelos grossos e duros nos bordos do lavatório apesar do cuidado que ele coloca na sua lide matinal.
Antes do marido sair olham ambos para o pequeno que dorme, enrolado num cobertor castanho, a salvo do Inverno que grassa fora de portas. Como sempre, com o punho do pijama limpa a cevada que ficou no canto da banca, como se não quisesse que fossem atrapalhar o sorriso.
Depois era sentar e assentar... O corpo e as ideias... E as últimas surgem sempre em catadupa, frescas, ávidas de se darem a conhecer.
Vagueava por serras, Marão, Alvão, em manhã e tarde quente, por entre pedras e árvores, cruzando raros sorrisos e olhares cansados, despidos. Enquanto percorria caminhos apertados e algo poeirentos, surgiam sempre caras novas em rostos velhos que a faziam lembrar de si mesma em alguém que não era, mas talvez tenha sido.
Os caminhos são raros de carros, povoados por gente velha, muito velha, que sulca o alcatrão coxeando, agora lentamente, contrastando com o caminhar ligeiro nas veredas do trabalho, guiando gado, vendo estrelas, contando histórias de boca em boca à sua maneira.
Que pensamentos, que sonhos vividos ou por viver, que vultos as acompanham? Questionava-se sobre a razão de viver das pessoas, os seus objectivos e metas, onde as levarão os passos perdidos? E o passado... A história que construíram, que segredos guardaram estas mulheres de negro vestidas, viúvas da própria vida e homens de cajado e boné que se levanta a cada bom dia?
Tinha vontade de parar o carro e abraçar, não, talvez sorrir e ficar a olhar aqueles olhos fundos, são corpos diferentes, mas olhares quase iguais, de cores distintas, afundados em rugas, como se fossem eles mesmos retratos das aldeias perdidas, escondidas entre montes altos de pedra, espremidos pela solidão. As aldeias são tão pequenas, tão sozinhas, tão vítimas do isolamento, do esquecimento, da estupidez e mesquinhez, tão donas do que não possuem. Nada, isso era tudo.
Nos minúsculos cemitérios vagueiam ainda vultos de quem se foi, presos, cegos na sua própria cegueira, ainda pendentes de companhia, sentados no degrau da entrada, à espera pela mulher, pelo marido.
As vestes são as mesmas em longos dias, meses e anos. Permanecem num sonho desperto, ousando viver quando outros já desistiram. Ficam agora presos, ousando desistir quando outros já viveram.
Agora que a serra ficava para trás ela própria era um monte e fechava o livro dos sonhos. As ideias de hoje serão recordações amanhã. O palco que hoje pisou será anfiteatro amanhã. O dia de hoje será lembrança amanhã, assim não ouse o tempo apagar da praia os desenhos que fez com o seu cajado.
O puto pousa a bicicleta e sobe os poucos degraus a correr e ela afaga-lhe o cabelo.
Quando pergunta ao marido se teve um bom dia e ele, sorrindo, responde
- Agora sim.
Ela olha. para si e para ele. e no mesmo instante em que a imaginação solta um suspiro, realidade e ficção misturam-se dando profundidade ao nada que enchia a casa.
Não, não havia nada, mas havia tudo.
Havia tudo.
Acordava ao mesmo tempo que o marido. Isto, claro, se a criança não desse ares de inquietude na cama, fosse pelo sonho trôpego ou pelo ronronar faminto das entranhas.
As portadas de madeira, pintadas de branco, eram às ripas e ela sempre achou piada àquela forma estranha. Parecia que a casa, com as portadas fechadas, tinha cara de gente ensonada, gente que dormia com os olhos fechados, mas a espreitar pelas frinchas do sono acordado.
Quando a noite na sua fogosidade se despia, ela via pelas ranhuras a claridade tomar conta do escuro, primeiro misturava-se lentamente, como se o raiar do dia fosse criança pequena e quente a provar o frio da água da praia, depois, já mais afoita, entrava cada vez mais, cada vez mais oblíqua, deixando-se entrevar para depois resplandecente assumir o dia na sua totalidade.
A água escorre e cai no lavatório, ouve as mãos do marido rasparem na face enquanto ele a esfrega com sabão para depois escanhoar a pele. Invariavelmente irá deixar pequenos pelos grossos e duros nos bordos do lavatório apesar do cuidado que ele coloca na sua lide matinal.
Antes do marido sair olham ambos para o pequeno que dorme, enrolado num cobertor castanho, a salvo do Inverno que grassa fora de portas. Como sempre, com o punho do pijama limpa a cevada que ficou no canto da banca, como se não quisesse que fossem atrapalhar o sorriso.
Depois era sentar e assentar... O corpo e as ideias... E as últimas surgem sempre em catadupa, frescas, ávidas de se darem a conhecer.
Vagueava por serras, Marão, Alvão, em manhã e tarde quente, por entre pedras e árvores, cruzando raros sorrisos e olhares cansados, despidos. Enquanto percorria caminhos apertados e algo poeirentos, surgiam sempre caras novas em rostos velhos que a faziam lembrar de si mesma em alguém que não era, mas talvez tenha sido.
Os caminhos são raros de carros, povoados por gente velha, muito velha, que sulca o alcatrão coxeando, agora lentamente, contrastando com o caminhar ligeiro nas veredas do trabalho, guiando gado, vendo estrelas, contando histórias de boca em boca à sua maneira.
Que pensamentos, que sonhos vividos ou por viver, que vultos as acompanham? Questionava-se sobre a razão de viver das pessoas, os seus objectivos e metas, onde as levarão os passos perdidos? E o passado... A história que construíram, que segredos guardaram estas mulheres de negro vestidas, viúvas da própria vida e homens de cajado e boné que se levanta a cada bom dia?
Tinha vontade de parar o carro e abraçar, não, talvez sorrir e ficar a olhar aqueles olhos fundos, são corpos diferentes, mas olhares quase iguais, de cores distintas, afundados em rugas, como se fossem eles mesmos retratos das aldeias perdidas, escondidas entre montes altos de pedra, espremidos pela solidão. As aldeias são tão pequenas, tão sozinhas, tão vítimas do isolamento, do esquecimento, da estupidez e mesquinhez, tão donas do que não possuem. Nada, isso era tudo.
Nos minúsculos cemitérios vagueiam ainda vultos de quem se foi, presos, cegos na sua própria cegueira, ainda pendentes de companhia, sentados no degrau da entrada, à espera pela mulher, pelo marido.
As vestes são as mesmas em longos dias, meses e anos. Permanecem num sonho desperto, ousando viver quando outros já desistiram. Ficam agora presos, ousando desistir quando outros já viveram.
Agora que a serra ficava para trás ela própria era um monte e fechava o livro dos sonhos. As ideias de hoje serão recordações amanhã. O palco que hoje pisou será anfiteatro amanhã. O dia de hoje será lembrança amanhã, assim não ouse o tempo apagar da praia os desenhos que fez com o seu cajado.
O puto pousa a bicicleta e sobe os poucos degraus a correr e ela afaga-lhe o cabelo.
Quando pergunta ao marido se teve um bom dia e ele, sorrindo, responde
- Agora sim.
Ela olha. para si e para ele. e no mesmo instante em que a imaginação solta um suspiro, realidade e ficção misturam-se dando profundidade ao nada que enchia a casa.
Não, não havia nada, mas havia tudo.
2016-06-26
Nada
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Não havia nada.
Partia de manhã, estrada abaixo, quando o dia ainda vinha monte acima, já o comboio silvava ao longe trazendo o vento o claquear seco e agudo das rodas no carril agrilhoado às negras e oleosas travessas.
O passo apressa-se, as pernas deambulam num apressado destino.
Em dias de neve pareceria que por ali tinha passado um gigante, pegada aqui, pegada adiante, mas na verdade era apenas a corrida solitária de um homem, um pai (qual a diferença?), cujo frio na cara de uma manhã de um Inverno dos bons (não destes, doidos, que aparecem agora temperados em qualquer estação), contrastava com o beijo quente que a mulher, uma mãe (qual a diferença?) lhe tinha deixado nos lábios e na bochecha enquanto limpava a cevada dos lábios com o punho do pijama.
O comboio aparecerá afobado, vem de ventas fumegantes, aquela testa grande laranja e branca, a travar há duas curvas para se imobilizar em qualquer sítio entre o início e o fim do cimento rachado que faz a gare e separa dois caminhos, o de ferro e o de água, do rio, a serpentear numa linha direita ali ao fundo, à distância de um trambolhão para quem se encoste à grade de ferrugem que por ali ainda se oxida, e vá lambendo, que é como quem diz esfolando costas, pernas, braços, cara e tudo o que demais contacte com o silvado e aquelas plantas engraçadas que a ganapada arranca e estoura nas mãos.
O dia ficava ali parado, olhava de vez em quando para o relógio Paul Garnier cujos dias, dele, do relógio, teriam sido já melhor medidos a medir pelos cantos estilhaçados e as longas rachadelas aparentadas com embriagados diâmetros.
As horas passavam com a mesma rapidez com que o infinito esfrega um olho.
A mulher do chefe da estação pendurava, no piso de cima, a roupa torcida, mas ainda assim algumas gotas de água, ou o suor da roupa retorcida, caíam no zinco e rolavam sorridentes chapa abaixo até se esparramarem no cimento, nos mesmos locais onde outras águas, duras, bateram até furarem.
A entrada da estação parecia um bilhete obliterado, sem data e, consequentemente, sem prazo de validade, sem destino, procedência ou precedência, estava ali à mão de semear a quem se destinasse sair do banco de madeira, ouvir o rosnado bom dia do vendedor de bilhetes para lado algum, meter a cabeça de fora da sacada e suspirar pela subida da maré que trouxesse uma locomotiva com destino à vida.
Cansar-se-ia o dia, adormecia, acordava quando a tarde o beijava e, estremunhado, iria olhar para o relógio e sacudir-se rapidamente na dislexia que o acometia, trocando horas por minutos, bruxuleando pelas folhas de Outono no Inverno (qual a diferença?) e por entre vultos cansados aguardaria o sobretudo grande, felpudo, azul, quente, para o levar já semi-adormecido estrada acima.
Na afluência do caminho à estrada, de bicicleta, gorro e luvas nos pequenos dedos, o filho sai sem saber andar, pernas levantas e afastadas dos pedais que rodam, a cremalheira rilha a corrente como um cão afunilado a um osso, e nas poucas dezenas de metros que os separam há um hiato que em anos se tornará a sombra do que poderia ser, não será assim toda a criança a crescer?
O dia empurra o homem, o pai, que de mão no selim empurra bicicleta e filho que ensaia as primeiras pedaladas.
A bicicleta fica no fundo dos degraus, a mãe tira as mãos do avental, afaga a cabeça do filho, espreita o estrugido que ruge dourado como a banda sonora de um final de dia feliz e pergunta
- Tiveste um bom dia?
E ele sorri
- Agora sim.
Não havia nada e nada fazia falta.
Não havia nada.
Partia de manhã, estrada abaixo, quando o dia ainda vinha monte acima, já o comboio silvava ao longe trazendo o vento o claquear seco e agudo das rodas no carril agrilhoado às negras e oleosas travessas.
O passo apressa-se, as pernas deambulam num apressado destino.
Em dias de neve pareceria que por ali tinha passado um gigante, pegada aqui, pegada adiante, mas na verdade era apenas a corrida solitária de um homem, um pai (qual a diferença?), cujo frio na cara de uma manhã de um Inverno dos bons (não destes, doidos, que aparecem agora temperados em qualquer estação), contrastava com o beijo quente que a mulher, uma mãe (qual a diferença?) lhe tinha deixado nos lábios e na bochecha enquanto limpava a cevada dos lábios com o punho do pijama.
O comboio aparecerá afobado, vem de ventas fumegantes, aquela testa grande laranja e branca, a travar há duas curvas para se imobilizar em qualquer sítio entre o início e o fim do cimento rachado que faz a gare e separa dois caminhos, o de ferro e o de água, do rio, a serpentear numa linha direita ali ao fundo, à distância de um trambolhão para quem se encoste à grade de ferrugem que por ali ainda se oxida, e vá lambendo, que é como quem diz esfolando costas, pernas, braços, cara e tudo o que demais contacte com o silvado e aquelas plantas engraçadas que a ganapada arranca e estoura nas mãos.
O dia ficava ali parado, olhava de vez em quando para o relógio Paul Garnier cujos dias, dele, do relógio, teriam sido já melhor medidos a medir pelos cantos estilhaçados e as longas rachadelas aparentadas com embriagados diâmetros.
As horas passavam com a mesma rapidez com que o infinito esfrega um olho.
A mulher do chefe da estação pendurava, no piso de cima, a roupa torcida, mas ainda assim algumas gotas de água, ou o suor da roupa retorcida, caíam no zinco e rolavam sorridentes chapa abaixo até se esparramarem no cimento, nos mesmos locais onde outras águas, duras, bateram até furarem.
A entrada da estação parecia um bilhete obliterado, sem data e, consequentemente, sem prazo de validade, sem destino, procedência ou precedência, estava ali à mão de semear a quem se destinasse sair do banco de madeira, ouvir o rosnado bom dia do vendedor de bilhetes para lado algum, meter a cabeça de fora da sacada e suspirar pela subida da maré que trouxesse uma locomotiva com destino à vida.
Cansar-se-ia o dia, adormecia, acordava quando a tarde o beijava e, estremunhado, iria olhar para o relógio e sacudir-se rapidamente na dislexia que o acometia, trocando horas por minutos, bruxuleando pelas folhas de Outono no Inverno (qual a diferença?) e por entre vultos cansados aguardaria o sobretudo grande, felpudo, azul, quente, para o levar já semi-adormecido estrada acima.
Na afluência do caminho à estrada, de bicicleta, gorro e luvas nos pequenos dedos, o filho sai sem saber andar, pernas levantas e afastadas dos pedais que rodam, a cremalheira rilha a corrente como um cão afunilado a um osso, e nas poucas dezenas de metros que os separam há um hiato que em anos se tornará a sombra do que poderia ser, não será assim toda a criança a crescer?
O dia empurra o homem, o pai, que de mão no selim empurra bicicleta e filho que ensaia as primeiras pedaladas.
A bicicleta fica no fundo dos degraus, a mãe tira as mãos do avental, afaga a cabeça do filho, espreita o estrugido que ruge dourado como a banda sonora de um final de dia feliz e pergunta
- Tiveste um bom dia?
E ele sorri
- Agora sim.
Não havia nada e nada fazia falta.
2016-06-19
Encontra-me um justo que seja…
Crónica na Bird Magazine.
Fixo as lâmpadas do tecto. A semelhança com os filmes é assustadora e real. Há um cheiro a frio no ar, faço uma piada comigo mesmo ao dar por mim a, como sempre, contar de três em três tudo o que vejo, desta vez são os buracos frios da placa de metal onde estão afixados candeeiros e uma parafernália de led’s.
Adormecem-me.
Acordo, falam comigo e ouço tudo muito alto, quero falar e perguntar, mas nada sai da boca. Fixo as mesmas lâmpadas do tecto. A semelhança com os filmes continua a ser assustadora e real. As vozes novamente, as faces surgem de repente, primeiro são um borrão indistinto de cores que não identifico e, lentamente, aglomeram-se até passarem de vultos a faces, conhecidas felizmente.
Agora sim, acordo, é noite, estou confuso.
O tempo demora a passar, vejo-o chegar até mim, pendura-se nas grades da cama, fita-me, pisca-me o olho, mas eu, entre dores e assustado, viro a cara rabugento e fito o céu cinzento carregadinho de ameaças chuvosas e ele, tempo, vira as costas e passa pela parede para ir lá fora abanar as nuvens.
A chuva bate na janela, esboço um sorriso, o vento pisca o olho às nuvens e vai correndo pelo relógio abaixo, mais lesto desta vez.
A vida tem reservado, talvez para cada um de nós, um chamado à terra ou, da terra, um chamado ao infinito que em nós habita, uma forma de colocar em perspectiva tudo o que rodeia e tentar rodear as perspectivas do que somos.
Ao fim e ao cabo não somos nada. Perdão. Somos nada. O dia chega com um copo, um número no plástico que o meu dedo transpirado apaga, alguns comprimidos, uma injecção quente no cateter frio. Alguém entra, traz um sorriso, um bom dia e um tabuleiro com cevada negra fumegante e um pão embalado num plástico perfurado. “É melhor uma palhinha” perguntam-me afirmando, rodopia no calçado de plástico que assobia no chão e entra novamente, desembrulha a palhinha, abre o pão, coloca manteiga, aproxima o copo com a medicação e despede-se com um sorriso e um “volto já para o banho”. Passado pouco tempo entram, enfermeira e auxiliar, espumas quadrangulares, toalhas, ouço água a cair em metal e aproximam-se. “Vamos tomar banho?”. Esboço levantar-me, mas advertem-me, “Nem pensar, no máximo uma inclinação de 30º”. Olho para a horizontalidade da cama, para a verticalidade da cabeceira e tenho vontade de medir ambos, para depois poder saber até onde iriam os tais 30º com as razões trigonométricas, usava a tangente, penso.
“Podemos?” e num pudor profissional tiram a roupa da cama, a bata e a roupa interior descartável, dão-me uma espuma, lavo a cara e escondo a vergonha. Não disfarço o desconforto, “É o nosso trabalho, não se preocupe” falam sem olhar para mim, apercebendo-se do meu nada à vontade. A água morna escorre-me do corpo e outra salgada do canto dos olhos. A roupa despe-me e a humildade veste-me, com carinho viram-me de um lado para o outro, como que por magia estou lavado, mudado de roupa no corpo e na cama. “Amanhã já se levanta” e esta certeza faz-me sorrir.
Outro dia, o prometido será devido, depois de mais um pequeno-almoço deitado irei levantar-me. Antes, porém, os braços fortes do enfermeiro ajudam a içar corpo em bloco. Espero uns minutos, todo o quarto rodopia, esboço humor e pergunto “era mesmo cevada ou bagaço?”, ele sorri, diz-me ser normal, para esperar uns minutos e assim faço. O banho é novamente assistido, consigo lavar quase tudo o que é meu, com excepção das pernas e pés. Novamente a meus pés, com um carinho que me comove, lavam-me as pernas e os pés, “O betadine vai sair com o tempo”. Oh Maria, quem sou eu para me lavares os pés?
Tudo ganha uma relatividade, as dores contornam-se, não sei se me dói mais o corpo ou se o meu reflexo na janela daquele terceiro andar, com o braço, mão e cateter no ar a esboçar um adeus a quem me visita e uma tristeza funda que me faz ver chover por dentro do vidro.
O tempo passa, muito lento mesmo, mas aos poucos a companhia das auxiliares, a conversa com os enfermeiros, as senhoras da limpeza têm uma palavra de consolo e começo a distrair-me com o vaivém das pessoas no corredor (peço para deixar a porta verde do quarto aberta). De quando em vez caras surgem. Nunca pensei saber tão bem a entrada de caras conhecidas, a família, um telefonema, uma mensagem, um email. De repente, eu que me gosto sozinho, faço-me falta, tenho permissão para andar a pé no corredor, passeio-me, bons dias aqui, boas tardes ali. Ao passar noutros quartos olho e é aí que nova relativização surge. Nas portas abertas, iguais à minha, vejo dores distintas, mais severas imagino eu, sacos de soro pendurados, outros de fluidos corporais, um andarilho, alguém me esboça um sorriso, levanto a mão com um olá.
Os vários dias que me pareceu viver em poucos servem para olhar para estes profissionais tão humanamente pessoas que me comovem. Olho de soslaio para a televisão (rodando todo o tronco, não esteja um dos enfermeiros a ler agora), vociferantes e desiludidos jogadores, multimilionários de seu direito, havendo quem pague por que não receber? Faço uma ligeira comparação. Ligeira não, infinitésima. De repente relembro-me da senhora vestida de azul, “é para condizer com a esfregona” diz-me, contava-me da doença do marido que nunca parou de trabalhar apesar das muitas dores, fala desenvoltamente olhando para mim e para o chão lustrado enquanto faz uma espécie de bailado como se de repente fizesse uma finta a dois adversários (acredito que sim, talvez à tristeza e à sina) e segue com rapidez, sempre a falar comigo e a olhar para a porta, onde para, calca a esfregona, que se abre em duas e a mete no balde. Eu quase gritei golo, mas apercebi-me na voz dela o pesar “sabe, é consultas aqui, infiltrações ali, remédios acolá”, mais uma volta na esfregona e sai do balde de novo para o chão “é muito dinheiro, a gente não pode e não são todos como o médico que o operou” e cai-me aos pés novamente o dia. Aguardo o médico, dar-me-á alta no meio destes lamentos não lamuriados que de profissão em riste ainda me anima “vai ver que vai ter alta, eu já estou a limpar para dar lugar a outro e dar sorte a si” e sorri.
Eu quero levantar-me, mas não consigo, não pelas dores, mas pela tristeza pesada, por aquele olhar sorrido e triste, “sabe, a gente não pode” ecoa naquela quarto com cheiro a limpo, digo meia dúzia de palavrões para dentro de mim e pergunto-me para que servirá o dinheiro que sobeja se, de facto, não for para ajudar quem precisa.
Gostava de ser menos tímido, de ter tido a ligeireza de me levantar e ir, pessoa a pessoa, agradecer pelos sorrisos, pelo carinho, pela simpatia e, ainda que não o saibam, pelo amor com que trataram de mim, das palavras aos gestos, da humildade que plantaram em mim. Entro adoentado e apesar de dorido saio com a alma lavada, limpa, por ter conhecido a relatividade da doença e da saúde, por me aperceber destas pessoas maravilhosas que se dedicam a tratar das outras como gostariam que tratassem delas. Serão perfeitos? Não o sei. Acredito que no que fazem são perfeitos e neste mundo parece-me contar mais, muito mais, o bem que se faz sem que se peça nada em troca, nestes momentos em que, espero, alguém invisível veja e restabeleça uma certa justiça na balança existencial de uma raça humana extremamente desumana, mas narra-se, enquanto houver um justo, um justo que seja…
Fixo as lâmpadas do tecto. A semelhança com os filmes é assustadora e real. Há um cheiro a frio no ar, faço uma piada comigo mesmo ao dar por mim a, como sempre, contar de três em três tudo o que vejo, desta vez são os buracos frios da placa de metal onde estão afixados candeeiros e uma parafernália de led’s.
Adormecem-me.
Acordo, falam comigo e ouço tudo muito alto, quero falar e perguntar, mas nada sai da boca. Fixo as mesmas lâmpadas do tecto. A semelhança com os filmes continua a ser assustadora e real. As vozes novamente, as faces surgem de repente, primeiro são um borrão indistinto de cores que não identifico e, lentamente, aglomeram-se até passarem de vultos a faces, conhecidas felizmente.
Agora sim, acordo, é noite, estou confuso.
O tempo demora a passar, vejo-o chegar até mim, pendura-se nas grades da cama, fita-me, pisca-me o olho, mas eu, entre dores e assustado, viro a cara rabugento e fito o céu cinzento carregadinho de ameaças chuvosas e ele, tempo, vira as costas e passa pela parede para ir lá fora abanar as nuvens.
A chuva bate na janela, esboço um sorriso, o vento pisca o olho às nuvens e vai correndo pelo relógio abaixo, mais lesto desta vez.
A vida tem reservado, talvez para cada um de nós, um chamado à terra ou, da terra, um chamado ao infinito que em nós habita, uma forma de colocar em perspectiva tudo o que rodeia e tentar rodear as perspectivas do que somos.
Ao fim e ao cabo não somos nada. Perdão. Somos nada. O dia chega com um copo, um número no plástico que o meu dedo transpirado apaga, alguns comprimidos, uma injecção quente no cateter frio. Alguém entra, traz um sorriso, um bom dia e um tabuleiro com cevada negra fumegante e um pão embalado num plástico perfurado. “É melhor uma palhinha” perguntam-me afirmando, rodopia no calçado de plástico que assobia no chão e entra novamente, desembrulha a palhinha, abre o pão, coloca manteiga, aproxima o copo com a medicação e despede-se com um sorriso e um “volto já para o banho”. Passado pouco tempo entram, enfermeira e auxiliar, espumas quadrangulares, toalhas, ouço água a cair em metal e aproximam-se. “Vamos tomar banho?”. Esboço levantar-me, mas advertem-me, “Nem pensar, no máximo uma inclinação de 30º”. Olho para a horizontalidade da cama, para a verticalidade da cabeceira e tenho vontade de medir ambos, para depois poder saber até onde iriam os tais 30º com as razões trigonométricas, usava a tangente, penso.
“Podemos?” e num pudor profissional tiram a roupa da cama, a bata e a roupa interior descartável, dão-me uma espuma, lavo a cara e escondo a vergonha. Não disfarço o desconforto, “É o nosso trabalho, não se preocupe” falam sem olhar para mim, apercebendo-se do meu nada à vontade. A água morna escorre-me do corpo e outra salgada do canto dos olhos. A roupa despe-me e a humildade veste-me, com carinho viram-me de um lado para o outro, como que por magia estou lavado, mudado de roupa no corpo e na cama. “Amanhã já se levanta” e esta certeza faz-me sorrir.
Outro dia, o prometido será devido, depois de mais um pequeno-almoço deitado irei levantar-me. Antes, porém, os braços fortes do enfermeiro ajudam a içar corpo em bloco. Espero uns minutos, todo o quarto rodopia, esboço humor e pergunto “era mesmo cevada ou bagaço?”, ele sorri, diz-me ser normal, para esperar uns minutos e assim faço. O banho é novamente assistido, consigo lavar quase tudo o que é meu, com excepção das pernas e pés. Novamente a meus pés, com um carinho que me comove, lavam-me as pernas e os pés, “O betadine vai sair com o tempo”. Oh Maria, quem sou eu para me lavares os pés?
Tudo ganha uma relatividade, as dores contornam-se, não sei se me dói mais o corpo ou se o meu reflexo na janela daquele terceiro andar, com o braço, mão e cateter no ar a esboçar um adeus a quem me visita e uma tristeza funda que me faz ver chover por dentro do vidro.
O tempo passa, muito lento mesmo, mas aos poucos a companhia das auxiliares, a conversa com os enfermeiros, as senhoras da limpeza têm uma palavra de consolo e começo a distrair-me com o vaivém das pessoas no corredor (peço para deixar a porta verde do quarto aberta). De quando em vez caras surgem. Nunca pensei saber tão bem a entrada de caras conhecidas, a família, um telefonema, uma mensagem, um email. De repente, eu que me gosto sozinho, faço-me falta, tenho permissão para andar a pé no corredor, passeio-me, bons dias aqui, boas tardes ali. Ao passar noutros quartos olho e é aí que nova relativização surge. Nas portas abertas, iguais à minha, vejo dores distintas, mais severas imagino eu, sacos de soro pendurados, outros de fluidos corporais, um andarilho, alguém me esboça um sorriso, levanto a mão com um olá.
Os vários dias que me pareceu viver em poucos servem para olhar para estes profissionais tão humanamente pessoas que me comovem. Olho de soslaio para a televisão (rodando todo o tronco, não esteja um dos enfermeiros a ler agora), vociferantes e desiludidos jogadores, multimilionários de seu direito, havendo quem pague por que não receber? Faço uma ligeira comparação. Ligeira não, infinitésima. De repente relembro-me da senhora vestida de azul, “é para condizer com a esfregona” diz-me, contava-me da doença do marido que nunca parou de trabalhar apesar das muitas dores, fala desenvoltamente olhando para mim e para o chão lustrado enquanto faz uma espécie de bailado como se de repente fizesse uma finta a dois adversários (acredito que sim, talvez à tristeza e à sina) e segue com rapidez, sempre a falar comigo e a olhar para a porta, onde para, calca a esfregona, que se abre em duas e a mete no balde. Eu quase gritei golo, mas apercebi-me na voz dela o pesar “sabe, é consultas aqui, infiltrações ali, remédios acolá”, mais uma volta na esfregona e sai do balde de novo para o chão “é muito dinheiro, a gente não pode e não são todos como o médico que o operou” e cai-me aos pés novamente o dia. Aguardo o médico, dar-me-á alta no meio destes lamentos não lamuriados que de profissão em riste ainda me anima “vai ver que vai ter alta, eu já estou a limpar para dar lugar a outro e dar sorte a si” e sorri.
Eu quero levantar-me, mas não consigo, não pelas dores, mas pela tristeza pesada, por aquele olhar sorrido e triste, “sabe, a gente não pode” ecoa naquela quarto com cheiro a limpo, digo meia dúzia de palavrões para dentro de mim e pergunto-me para que servirá o dinheiro que sobeja se, de facto, não for para ajudar quem precisa.
Gostava de ser menos tímido, de ter tido a ligeireza de me levantar e ir, pessoa a pessoa, agradecer pelos sorrisos, pelo carinho, pela simpatia e, ainda que não o saibam, pelo amor com que trataram de mim, das palavras aos gestos, da humildade que plantaram em mim. Entro adoentado e apesar de dorido saio com a alma lavada, limpa, por ter conhecido a relatividade da doença e da saúde, por me aperceber destas pessoas maravilhosas que se dedicam a tratar das outras como gostariam que tratassem delas. Serão perfeitos? Não o sei. Acredito que no que fazem são perfeitos e neste mundo parece-me contar mais, muito mais, o bem que se faz sem que se peça nada em troca, nestes momentos em que, espero, alguém invisível veja e restabeleça uma certa justiça na balança existencial de uma raça humana extremamente desumana, mas narra-se, enquanto houver um justo, um justo que seja…
2016-06-16
Destino
Caro destino, tu vais chovendo na tentativa de me animar, obrigado. Por entre aguaceiros sou brindado com gestos de amor e simpatia, falta apenas o arco-íris. Assim, cara vida, desenlaça o novelo e tricoteia-me breve nos caminhos viajouros que me têm levado ao encontro e descoberta de mim, sempre nos olhares de com quem me cruzo.
2016-06-12
O meu horizonte
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Atrás de uma montanha há sempre uma maior, dizem ou ouvia-se dizer quando esta questão de destino era tão só e apenas uma fé, dicotómica, negro ou branco. Na verdade, atrás de uma montanha parece vir uma tela ou uma rugosa superfície onde a paisagem muda a cada vez que olhamos.
Chego ao topo da montanha, o vento chega logo atrás de mim, sopra sem emitir som porque o silêncio vem ainda a subir a ladeira e neste vácuo nada se propaga. Lentamente chega, afobado, e logo o silêncio se torna ensurdecedor refastelado como um déspota multicéfalo sentado num trono chamado país acolchoado pelas vidas de quem, cegamente, o alimenta o viver.
Uma ou outra folha de eucalipto perde-se pelo ar, vai dançando, espiralando e oscilando até eu a perder de vista, não porque tenha ido para longe, mas porque foi para lá do que o meu olhar alcança. Não há mais montanhas além desta. Daqui para a frente apenas eu faço o horizonte e na indefinição tudo se perde para além desta linha imaginária onde tudo se alcança com o cerrar dos olhos.
Cortada perene está a vegetação, torgas que emergem do xisto, toscas, grossas e ásperas, fustigadas pela massa de ar perdida em altos e baixos pressurizados sem clima a que chamar casa, batem-me nas pernas, arranham-me. Há algo de sagrado, místico, científico, neste solo irregular e, por isso, tiro o calçado. Pego nas sapatilhas pelo calcanhar, o dedo indicador e o médio repartem a função de as segurar enquanto decido o que fazer. Decido-me e atiro-as para bem longe, vão resvalando até esbarrem no nada e desaparecerem como todo o horizonte, as folhas, o vento e o som. Descalço sobre o xisto estranhamente quente, vejo um carreiro de formigas que se desvia de mim até uma ou outra intrépida aventureira decidir trepar e fazer dos meus pés apenas duas montanhas, uma a seguir a outra. A analogia sai sem dificuldade, eu, desterrado, quase xistado, meio urze, meio torga, entre duas definições indefinido faço-me destino de uns pequenos seres para quem sou, nada mais, nada menos, que apenas e só um contorno a contornar, uma montanha a seguir a outra.
De repente, sem que o saibamos, somos passagem e destino de um vórtice a que chamamos vida. E no respeito que a vida de outros nos merece, fico parado a vislumbrar o carreiro tricotado e negro, de quando em vez uma ou outra traz às costas restos de algo que não percebo o que seja, tesouro, alimento, sustento, a santíssima trindade de quem se sabe insecto, afinal, qual o maior tesouro que o sustento ser o nosso alimento?
O carreiro passou. Pode parecer ficção, inventado por este narrador ausente, mas talvez pela analogia com o tricotado e a intermitência da formigada errantemente na pele nua, os pés parecem-me cosidos ao chão. Sim, ao chão, ao xisto. Tento dar um passo, desequilibro-me por ter os pés presos e resvalo trambolhando até parar agarrado a uma urze. Um pé está já para lá do horizonte, assusto-me com este inusitado momento de me ver sem pé. Sinto-o, rodo a bacia, a perna, mexo os dedos dos pés. Sinto-o, mas não o vejo. Há uma dormência, uma sensação de bem-estar afagado, chega-me à memória recordação de aconchego dos lençóis e cobertores ou manta de retalhos ao pescoço, o beijo na face, a mão na cabeça e o desejo de boa noite, antes de, sorrindo, entrar no sono.
E agora esta sensação de querer dormir. O horizonte vem por mim acima como se uma mão invisível o puxasse e o aconchegasse ao meu pescoço. Não ouso olhar para baixo para não me assustar, sei que de mim já não há corpo. Fecho os olhos à espera do beijo na face, sinto o vento raspar-me a bochecha e, lentamente, abro a mão que me prendia à urze e vou deslizando até, imagino, já não me conseguires ver.
Atrás de uma montanha há sempre uma maior, dizem ou ouvia-se dizer quando esta questão de destino era tão só e apenas uma fé, dicotómica, negro ou branco. Na verdade, atrás de uma montanha parece vir uma tela ou uma rugosa superfície onde a paisagem muda a cada vez que olhamos.
Chego ao topo da montanha, o vento chega logo atrás de mim, sopra sem emitir som porque o silêncio vem ainda a subir a ladeira e neste vácuo nada se propaga. Lentamente chega, afobado, e logo o silêncio se torna ensurdecedor refastelado como um déspota multicéfalo sentado num trono chamado país acolchoado pelas vidas de quem, cegamente, o alimenta o viver.
Uma ou outra folha de eucalipto perde-se pelo ar, vai dançando, espiralando e oscilando até eu a perder de vista, não porque tenha ido para longe, mas porque foi para lá do que o meu olhar alcança. Não há mais montanhas além desta. Daqui para a frente apenas eu faço o horizonte e na indefinição tudo se perde para além desta linha imaginária onde tudo se alcança com o cerrar dos olhos.
Cortada perene está a vegetação, torgas que emergem do xisto, toscas, grossas e ásperas, fustigadas pela massa de ar perdida em altos e baixos pressurizados sem clima a que chamar casa, batem-me nas pernas, arranham-me. Há algo de sagrado, místico, científico, neste solo irregular e, por isso, tiro o calçado. Pego nas sapatilhas pelo calcanhar, o dedo indicador e o médio repartem a função de as segurar enquanto decido o que fazer. Decido-me e atiro-as para bem longe, vão resvalando até esbarrem no nada e desaparecerem como todo o horizonte, as folhas, o vento e o som. Descalço sobre o xisto estranhamente quente, vejo um carreiro de formigas que se desvia de mim até uma ou outra intrépida aventureira decidir trepar e fazer dos meus pés apenas duas montanhas, uma a seguir a outra. A analogia sai sem dificuldade, eu, desterrado, quase xistado, meio urze, meio torga, entre duas definições indefinido faço-me destino de uns pequenos seres para quem sou, nada mais, nada menos, que apenas e só um contorno a contornar, uma montanha a seguir a outra.
De repente, sem que o saibamos, somos passagem e destino de um vórtice a que chamamos vida. E no respeito que a vida de outros nos merece, fico parado a vislumbrar o carreiro tricotado e negro, de quando em vez uma ou outra traz às costas restos de algo que não percebo o que seja, tesouro, alimento, sustento, a santíssima trindade de quem se sabe insecto, afinal, qual o maior tesouro que o sustento ser o nosso alimento?
O carreiro passou. Pode parecer ficção, inventado por este narrador ausente, mas talvez pela analogia com o tricotado e a intermitência da formigada errantemente na pele nua, os pés parecem-me cosidos ao chão. Sim, ao chão, ao xisto. Tento dar um passo, desequilibro-me por ter os pés presos e resvalo trambolhando até parar agarrado a uma urze. Um pé está já para lá do horizonte, assusto-me com este inusitado momento de me ver sem pé. Sinto-o, rodo a bacia, a perna, mexo os dedos dos pés. Sinto-o, mas não o vejo. Há uma dormência, uma sensação de bem-estar afagado, chega-me à memória recordação de aconchego dos lençóis e cobertores ou manta de retalhos ao pescoço, o beijo na face, a mão na cabeça e o desejo de boa noite, antes de, sorrindo, entrar no sono.
E agora esta sensação de querer dormir. O horizonte vem por mim acima como se uma mão invisível o puxasse e o aconchegasse ao meu pescoço. Não ouso olhar para baixo para não me assustar, sei que de mim já não há corpo. Fecho os olhos à espera do beijo na face, sinto o vento raspar-me a bochecha e, lentamente, abro a mão que me prendia à urze e vou deslizando até, imagino, já não me conseguires ver.
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