2016-07-03

“Tudo”

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Havia tudo.
Acordava ao mesmo tempo que o marido. Isto, claro, se a criança não desse ares de inquietude na cama, fosse pelo sonho trôpego ou pelo ronronar faminto das entranhas. 
As portadas de madeira, pintadas de branco, eram às ripas e ela sempre achou piada àquela forma estranha. Parecia que a casa, com as portadas fechadas, tinha cara de gente ensonada, gente que dormia com os olhos fechados, mas a espreitar pelas frinchas do sono acordado. 
Quando a noite na sua fogosidade se despia, ela via pelas ranhuras a claridade tomar conta do escuro, primeiro misturava-se lentamente, como se o raiar do dia fosse criança pequena e quente a provar o frio da água da praia, depois, já mais afoita, entrava cada vez mais, cada vez mais oblíqua, deixando-se entrevar para depois resplandecente assumir o dia na sua totalidade.
A água escorre e cai no lavatório, ouve as mãos do marido rasparem na face enquanto ele a esfrega com sabão para depois escanhoar a pele. Invariavelmente irá deixar pequenos pelos grossos e duros nos bordos do lavatório apesar do cuidado que ele coloca na sua lide matinal.
Antes do marido sair olham ambos para o pequeno que dorme, enrolado num cobertor castanho, a salvo do Inverno que grassa fora de portas. Como sempre, com o punho do pijama limpa a cevada que ficou no canto da banca, como se não quisesse que fossem atrapalhar o sorriso. 
Depois era sentar e assentar... O corpo e as ideias... E as últimas surgem sempre em catadupa, frescas, ávidas de se darem a conhecer.
Vagueava por serras, Marão, Alvão, em manhã e tarde quente, por entre pedras e árvores, cruzando raros sorrisos e olhares cansados, despidos. Enquanto percorria caminhos apertados e algo poeirentos, surgiam sempre caras novas em rostos velhos que a faziam lembrar de si mesma em alguém que não era, mas talvez tenha sido. 
Os caminhos são raros de carros, povoados por gente velha, muito velha, que sulca o alcatrão coxeando, agora lentamente, contrastando com o caminhar ligeiro nas veredas do trabalho, guiando gado, vendo estrelas, contando histórias de boca em boca à sua maneira. 
Que pensamentos, que sonhos vividos ou por viver, que vultos as acompanham? Questionava-se sobre a razão de viver das pessoas, os seus objectivos e metas, onde as levarão os passos perdidos? E o passado... A história que construíram, que segredos guardaram estas mulheres de negro vestidas, viúvas da própria vida e homens de cajado e boné que se levanta a cada bom dia? 
Tinha vontade de parar o carro e abraçar, não, talvez sorrir e ficar a olhar aqueles olhos fundos, são corpos diferentes, mas olhares quase iguais, de cores distintas, afundados em rugas, como se fossem eles mesmos retratos das aldeias perdidas, escondidas entre montes altos de pedra, espremidos pela solidão. As aldeias são tão pequenas, tão sozinhas, tão vítimas do isolamento, do esquecimento, da estupidez e mesquinhez, tão donas do que não possuem. Nada, isso era tudo.
Nos minúsculos cemitérios vagueiam ainda vultos de quem se foi, presos, cegos na sua própria cegueira, ainda pendentes de companhia, sentados no degrau da entrada, à espera pela mulher, pelo marido. 
As vestes são as mesmas em longos dias, meses e anos. Permanecem num sonho desperto, ousando viver quando outros já desistiram. Ficam agora presos, ousando desistir quando outros já viveram. 
Agora que a serra ficava para trás ela própria era um monte e fechava o livro dos sonhos. As ideias de hoje serão recordações amanhã. O palco que hoje pisou será anfiteatro amanhã. O dia de hoje será lembrança amanhã, assim não ouse o tempo apagar da praia os desenhos que fez com o seu cajado.
O puto pousa a bicicleta e sobe os poucos degraus a correr e ela afaga-lhe o cabelo.
Quando pergunta ao marido se teve um bom dia e ele, sorrindo, responde
- Agora sim.
Ela olha. para si e para ele. e no mesmo instante em que a imaginação solta um suspiro, realidade e ficção misturam-se dando profundidade ao nada que enchia a casa.
Não, não havia nada, mas havia tudo.

2016-06-26

Nada

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Não havia nada.
Partia de manhã, estrada abaixo, quando o dia ainda vinha monte acima, já o comboio silvava ao longe trazendo o vento o claquear seco e agudo das rodas no carril agrilhoado às negras e oleosas travessas. 
O passo apressa-se, as pernas deambulam num apressado destino. 
Em dias de neve pareceria que por ali tinha passado um gigante, pegada aqui, pegada adiante, mas na verdade era apenas a corrida solitária de um homem, um pai (qual a diferença?), cujo frio na cara de uma manhã de um Inverno dos bons (não destes, doidos, que aparecem agora temperados em qualquer estação), contrastava com o beijo quente que a mulher, uma mãe (qual a diferença?) lhe tinha deixado nos lábios e na bochecha enquanto limpava a cevada dos lábios com o punho do pijama.
O comboio aparecerá afobado, vem de ventas fumegantes, aquela testa grande laranja e branca, a travar há duas curvas para se imobilizar em qualquer sítio entre o início e o fim do cimento rachado que faz a gare e separa dois caminhos, o de ferro e o de água, do rio, a serpentear numa linha direita ali ao fundo, à distância de um trambolhão para quem se encoste à grade de ferrugem que por ali ainda se oxida, e vá lambendo, que é como quem diz esfolando costas, pernas, braços, cara e tudo o que demais contacte com o silvado e aquelas plantas engraçadas que a ganapada arranca e estoura nas mãos.
O dia ficava ali parado, olhava de vez em quando para o relógio Paul Garnier cujos dias, dele, do relógio, teriam sido já melhor medidos a medir pelos cantos estilhaçados e as longas rachadelas aparentadas com embriagados diâmetros. 
As horas passavam com a mesma rapidez com que o infinito esfrega um olho.
A mulher do chefe da estação pendurava, no piso de cima, a roupa torcida, mas ainda assim algumas gotas de água, ou o suor da roupa retorcida, caíam no zinco e rolavam sorridentes chapa abaixo até se esparramarem no cimento, nos mesmos locais onde outras águas, duras, bateram até furarem.
A entrada da estação parecia um bilhete obliterado, sem data e, consequentemente, sem prazo de validade, sem destino, procedência ou precedência, estava ali à mão de semear a quem se destinasse sair do banco de madeira, ouvir o rosnado bom dia do vendedor de bilhetes para lado algum, meter a cabeça de fora da sacada e suspirar pela subida da maré que trouxesse uma locomotiva com destino à vida.
Cansar-se-ia o dia, adormecia, acordava quando a tarde o beijava e, estremunhado, iria olhar para o relógio e sacudir-se rapidamente na dislexia que o acometia, trocando horas por minutos, bruxuleando pelas folhas de Outono no Inverno (qual a diferença?) e por entre vultos cansados aguardaria o sobretudo grande, felpudo, azul, quente, para o levar já semi-adormecido estrada acima.
Na afluência do caminho à estrada, de bicicleta, gorro e luvas nos pequenos dedos, o filho sai sem saber andar, pernas levantas e afastadas dos pedais que rodam, a cremalheira rilha a corrente como um cão afunilado a um osso, e nas poucas dezenas de metros que os separam há um hiato que em anos se tornará a sombra do que poderia ser, não será assim toda a criança a crescer?
O dia empurra o homem, o pai, que de mão no selim empurra bicicleta e filho que ensaia as primeiras pedaladas.
A bicicleta fica no fundo dos degraus, a mãe tira as mãos do avental, afaga a cabeça do filho, espreita o estrugido que ruge dourado como a banda sonora de um final de dia feliz e pergunta
- Tiveste um bom dia?
E ele sorri
- Agora sim.
Não havia nada e nada fazia falta.

2016-06-19

Encontra-me um justo que seja…

Crónica na Bird Magazine.

Fixo as lâmpadas do tecto. A semelhança com os filmes é assustadora e real. Há um cheiro a frio no ar, faço uma piada comigo mesmo ao dar por mim a, como sempre, contar de três em três tudo o que vejo, desta vez são os buracos frios da placa de metal onde estão afixados candeeiros e uma parafernália de led’s.
Adormecem-me.
Acordo, falam comigo e ouço tudo muito alto, quero falar e perguntar, mas nada sai da boca. Fixo as mesmas lâmpadas do tecto. A semelhança com os filmes continua a ser assustadora e real. As vozes novamente, as faces surgem de repente, primeiro são um borrão indistinto de cores que não identifico e, lentamente, aglomeram-se até passarem de vultos a faces, conhecidas felizmente.
Agora sim, acordo, é noite, estou confuso.
O tempo demora a passar, vejo-o chegar até mim, pendura-se nas grades da cama, fita-me, pisca-me o olho, mas eu, entre dores e assustado, viro a cara rabugento e fito o céu cinzento carregadinho de ameaças chuvosas e ele, tempo, vira as costas e passa pela parede para ir lá fora abanar as nuvens.
A chuva bate na janela, esboço um sorriso, o vento pisca o olho às nuvens e vai correndo pelo relógio abaixo, mais lesto desta vez.
A vida tem reservado, talvez para cada um de nós, um chamado à terra ou, da terra, um chamado ao infinito que em nós habita, uma forma de colocar em perspectiva tudo o que rodeia e tentar rodear as perspectivas do que somos.
Ao fim e ao cabo não somos nada. Perdão. Somos nada. O dia chega com um copo, um número no plástico que o meu dedo transpirado apaga, alguns comprimidos, uma injecção quente no cateter frio. Alguém entra, traz um sorriso, um bom dia e um tabuleiro com cevada negra fumegante e um pão embalado num plástico perfurado. “É melhor uma palhinha” perguntam-me afirmando, rodopia no calçado de plástico que assobia no chão e entra novamente, desembrulha a palhinha, abre o pão, coloca manteiga, aproxima o copo com a medicação e despede-se com um sorriso e um “volto já para o banho”. Passado pouco tempo entram, enfermeira e auxiliar, espumas quadrangulares, toalhas, ouço água a cair em metal e aproximam-se. “Vamos tomar banho?”. Esboço levantar-me, mas advertem-me, “Nem pensar, no máximo uma inclinação de 30º”. Olho para a horizontalidade da cama, para a verticalidade da cabeceira e tenho vontade de medir ambos, para depois poder saber até onde iriam os tais 30º com as razões trigonométricas, usava a tangente, penso.
“Podemos?” e num pudor profissional tiram a roupa da cama, a bata e a roupa interior descartável, dão-me uma espuma, lavo a cara e escondo a vergonha. Não disfarço o desconforto, “É o nosso trabalho, não se preocupe” falam sem olhar para mim, apercebendo-se do meu nada à vontade. A água morna escorre-me do corpo e outra salgada do canto dos olhos. A roupa despe-me e a humildade veste-me, com carinho viram-me de um lado para o outro, como que por magia estou lavado, mudado de roupa no corpo e na cama. “Amanhã já se levanta” e esta certeza faz-me sorrir.
Outro dia, o prometido será devido, depois de mais um pequeno-almoço deitado irei levantar-me. Antes, porém, os braços fortes do enfermeiro ajudam a içar corpo em bloco. Espero uns minutos, todo o quarto rodopia, esboço humor e pergunto “era mesmo cevada ou bagaço?”, ele sorri, diz-me ser normal, para esperar uns minutos e assim faço. O banho é novamente assistido, consigo lavar quase tudo o que é meu, com excepção das pernas e pés. Novamente a meus pés, com um carinho que me comove, lavam-me as pernas e os pés, “O betadine vai sair com o tempo”. Oh Maria, quem sou eu para me lavares os pés?
Tudo ganha uma relatividade, as dores contornam-se, não sei se me dói mais o corpo ou se o meu reflexo na janela daquele terceiro andar, com o braço, mão e cateter no ar a esboçar um adeus a quem me visita e uma tristeza funda que me faz ver chover por dentro do vidro.
O tempo passa, muito lento mesmo, mas aos poucos a companhia das auxiliares, a conversa com os enfermeiros, as senhoras da limpeza têm uma palavra de consolo e começo a distrair-me com o vaivém das pessoas no corredor (peço para deixar a porta verde do quarto aberta). De quando em vez caras surgem. Nunca pensei saber tão bem a entrada de caras conhecidas, a família, um telefonema, uma mensagem, um email. De repente, eu que me gosto sozinho, faço-me falta, tenho permissão para andar a pé no corredor, passeio-me, bons dias aqui, boas tardes ali. Ao passar noutros quartos olho e é aí que nova relativização surge. Nas portas abertas, iguais à minha, vejo dores distintas, mais severas imagino eu, sacos de soro pendurados, outros de fluidos corporais, um andarilho, alguém me esboça um sorriso, levanto a mão com um olá.
Os vários dias que me pareceu viver em poucos servem para olhar para estes profissionais tão humanamente pessoas que me comovem. Olho de soslaio para a televisão (rodando todo o tronco, não esteja um dos enfermeiros a ler agora), vociferantes e desiludidos jogadores, multimilionários de seu direito, havendo quem pague por que não receber? Faço uma ligeira comparação. Ligeira não, infinitésima. De repente relembro-me da senhora vestida de azul, “é para condizer com a esfregona” diz-me, contava-me da doença do marido que nunca parou de trabalhar apesar das muitas dores, fala desenvoltamente olhando para mim e para o chão lustrado enquanto faz uma espécie de bailado como se de repente fizesse uma finta a dois adversários (acredito que sim, talvez à tristeza e à sina) e segue com rapidez, sempre a falar comigo e a olhar para a porta, onde para, calca a esfregona, que se abre em duas e a mete no balde. Eu quase gritei golo, mas apercebi-me na voz dela o pesar “sabe, é consultas aqui, infiltrações ali, remédios acolá”, mais uma volta na esfregona e sai do balde de novo para o chão “é muito dinheiro, a gente não pode e não são todos como o médico que o operou” e cai-me aos pés novamente o dia. Aguardo o médico, dar-me-á alta no meio destes lamentos não lamuriados que de profissão em riste ainda me anima “vai ver que vai ter alta, eu já estou a limpar para dar lugar a outro e dar sorte a si” e sorri.
Eu quero levantar-me, mas não consigo, não pelas dores, mas pela tristeza pesada, por aquele olhar sorrido e triste, “sabe, a gente não pode” ecoa naquela quarto com cheiro a limpo, digo meia dúzia de palavrões para dentro de mim e pergunto-me para que servirá o dinheiro que sobeja se, de facto, não for para ajudar quem precisa.
Gostava de ser menos tímido, de ter tido a ligeireza de me levantar e ir, pessoa a pessoa, agradecer pelos sorrisos, pelo carinho, pela simpatia e, ainda que não o saibam, pelo amor com que trataram de mim, das palavras aos gestos, da humildade que plantaram em mim. Entro adoentado e apesar de dorido saio com a alma lavada, limpa, por ter conhecido a relatividade da doença e da saúde, por me aperceber destas pessoas maravilhosas que se dedicam a tratar das outras como gostariam que tratassem delas. Serão perfeitos? Não o sei. Acredito que no que fazem são perfeitos e neste mundo parece-me contar mais, muito mais, o bem que se faz sem que se peça nada em troca, nestes momentos em que, espero, alguém invisível veja e restabeleça uma certa justiça na balança existencial de uma raça humana extremamente desumana, mas narra-se, enquanto houver um justo, um justo que seja…

2016-06-16

Destino

Caro destino, tu vais chovendo na tentativa de me animar, obrigado. Por entre aguaceiros sou brindado com gestos de amor e simpatia, falta apenas o arco-íris. Assim, cara vida, desenlaça o novelo e tricoteia-me breve nos caminhos viajouros que me têm levado ao encontro e descoberta de mim, sempre nos olhares de com quem me cruzo.

2016-06-12

O meu horizonte

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Atrás de uma montanha há sempre uma maior, dizem ou ouvia-se dizer quando esta questão de destino era tão só e apenas uma fé, dicotómica, negro ou branco. Na verdade, atrás de uma montanha parece vir uma tela ou uma rugosa superfície onde a paisagem muda a cada vez que olhamos.
Chego ao topo da montanha, o vento chega logo atrás de mim, sopra sem emitir som porque o silêncio vem ainda a subir a ladeira e neste vácuo nada se propaga. Lentamente chega, afobado, e logo o silêncio se torna ensurdecedor refastelado como um déspota multicéfalo sentado num trono chamado país acolchoado pelas vidas de quem, cegamente, o alimenta o viver.
Uma ou outra folha de eucalipto perde-se pelo ar, vai dançando, espiralando e oscilando até eu a perder de vista, não porque tenha ido para longe, mas porque foi para lá do que o meu olhar alcança. Não há mais montanhas além desta. Daqui para a frente apenas eu faço o horizonte e na indefinição tudo se perde para além desta linha imaginária onde tudo se alcança com o cerrar dos olhos.
Cortada perene está a vegetação, torgas que emergem do xisto, toscas, grossas e ásperas, fustigadas pela massa de ar perdida em altos e baixos pressurizados sem clima a que chamar casa, batem-me nas pernas, arranham-me. Há algo de sagrado, místico, científico, neste solo irregular e, por isso, tiro o calçado. Pego nas sapatilhas pelo calcanhar, o dedo indicador e o médio repartem a função de as segurar enquanto decido o que fazer. Decido-me e atiro-as para bem longe, vão resvalando até esbarrem no nada e desaparecerem como todo o horizonte, as folhas, o vento e o som. Descalço sobre o xisto estranhamente quente, vejo um carreiro de formigas que se desvia de mim até uma ou outra intrépida aventureira decidir trepar e fazer dos meus pés apenas duas montanhas, uma a seguir a outra. A analogia sai sem dificuldade, eu, desterrado, quase xistado, meio urze, meio torga, entre duas definições indefinido faço-me destino de uns pequenos seres para quem sou, nada mais, nada menos, que apenas e só um contorno a contornar, uma montanha a seguir a outra.
De repente, sem que o saibamos, somos passagem e destino de um vórtice a que chamamos vida. E no respeito que a vida de outros nos merece, fico parado a vislumbrar o carreiro tricotado e negro, de quando em vez uma ou outra traz às costas restos de algo que não percebo o que seja, tesouro, alimento, sustento, a santíssima trindade de quem se sabe insecto, afinal, qual o maior tesouro que o sustento ser o nosso alimento?
O carreiro passou. Pode parecer ficção, inventado por este narrador ausente, mas talvez pela analogia com o tricotado e a intermitência da formigada errantemente na pele nua, os pés parecem-me cosidos ao chão. Sim, ao chão, ao xisto. Tento dar um passo, desequilibro-me por ter os pés presos e resvalo trambolhando até parar agarrado a uma urze. Um pé está já para lá do horizonte, assusto-me com este inusitado momento de me ver sem pé. Sinto-o, rodo a bacia, a perna, mexo os dedos dos pés. Sinto-o, mas não o vejo. Há uma dormência, uma sensação de bem-estar afagado, chega-me à memória recordação de aconchego dos lençóis e cobertores ou manta de retalhos ao pescoço, o beijo na face, a mão na cabeça e o desejo de boa noite, antes de, sorrindo, entrar no sono.
E agora esta sensação de querer dormir. O horizonte vem por mim acima como se uma mão invisível o puxasse e o aconchegasse ao meu pescoço. Não ouso olhar para baixo para não me assustar, sei que de mim já não há corpo. Fecho os olhos à espera do beijo na face, sinto o vento raspar-me a bochecha e, lentamente, abro a mão que me prendia à urze e vou deslizando até, imagino, já não me conseguires ver.

2016-06-05

Sede

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Só ouço o cascalho ranger debaixo dos meus pés. 
Os godos disformes fazem-me por vezes resvalar e tropeçar no ar como se inebriado me deixasse levar pelo vento e este, como sempre faz com todos os sonhadores, me fosse atirando contra as esquinas do tempo enquanto procuro aquilo pelo que o tempo me fez vir aqui.
Deixo cair a caneta e o bloco. Na verdade caem os dois, tenho o vício de trazer a caneta presa ao fio do caderno, vergo-me com o que as dores de costas me permitem e apanho-o novamente. 
Eu e as palavras somos como um ioiô, juntas e afastadas pela gravidade que se enrola nas mãos e atrai ou repele as letras para, suspeito, simples deleite de me visualizar atrapalhado com a cadência sincronizada e, por vezes, pendular dos pensamentos.
Era o cascalho, dizia atrás, que me ouvia os passos falheiros enquanto eu subia o caminho, ladeado de uns muros de granito feito com pedras sobrepostas quase ao acaso, mas como em tudo o que existe debaixo das nossas pálpebras, nada se aleatoriza, ali havia traços ainda que não fossilizados de mãos e suores alagados de cansaço onde o musgo se encostou e cresceu para, vaidosamente, reter minúsculas gotas de orvalho que reflectem o céu e o meu olhar, como para abrigarem por ali pequenas aranhas que por lá fazem vida, alheias à minha vida e passagem. Aqui e ali um bosteiro, moscas que se debatem em zangadas zunidelas sobre o abatido resto de palha que algum exemplar vacum evacuou. 
À terra o que é da terra. Do resto de uns far-se-á vida para outros.
E não me bastavam exemplos para o olhar apaixonado sobre a bosta, mas o calor que se avizinhava assim que o Sol se erguesse acima dos plátanos fez-me alçar pernas e andar lesto no resto do carreiro, até porque o godo terminava e substituía-se por uma manta de pedras polidas desordenadas e desconexas, sem o trato fino de ourives dos artífices da calçada portuguesa.
Passo por um contador de água cuja portinhola batia no plástico baço comido pelo Sol. Acredito que ninguém lá passe para medir o consumo, até porque ali ao lado, cristalino, puro, segue um regato no meio de um rego, ora de pedra, ora de terra, onde me parece que os animais matam a sede. Ora eu, nem mais nem menos animal que os outros, porque o portão está aberto, talvez nem feche tendo em conta o pender abandonado apenas de uma dobradiça feita de borracha escura, faço-me entrante e sigo pelas pegadas do gado, fugindo daqui e dali de largos poios, até chegar ao regato.
Pouso o caderno, a caneta escorrega e cai à água. Deixo-a ficar, terá sede tanta quanto eu. Encosto os joelhos na pedra e debruço-me até a água que passa a golfadas largas me molhar boca, beiços e nariz, fazendo-me engasgar, tossir, cuspir e por fim rir, à gargalhada. Há sempre qualquer coisa de criança em nós que faz expelir bofes e tosses para que o ar se enfie até aos pulmões e se hematose para que o mundo em nós vive tal como previsto, digo eu, que nem percebo nada disto.
- Olhe que a sede mata. – Ouço aturdido e assustado e por pouco não me faço gado e não deixo cair ali mesmo partes bostadas de mim.
- Desculpe. Estava com muita sede. Vi o portão aberto. Entrei. Bebi. – Respondi curto, rápido, com estes mesmos pontos finais que a terra há-de comer.
- Lá por estar aberto não quer dizer que seja maninho oh freguês.
- Eu pago-lhe a água, desculpe.
- E a água lá se paga? É de quem a beber e a deixe ficar para sede tiver. Ora essa.
- Desculpe. Mas fico em quê? No beber ou no ter bebido?
Solta-se uma gargalhada daquela cara feita de pele enrugada onde descansava sujidade e pelos barbados onde a navalha não chegava.
- Vá lá homem, estava a brincar consigo. Que o traz aqui?
Desconfiado e assustado, engulo o medo e atiro qualquer coisa como isto
- Eu nem sei, vim por aí atrás de alguma coisa e encontro-me aqui, pés na erva, mãos na cintura e cabeça debaixo do chapéu.
- Esse caderno é seu?
Aponta para o que estava em cima do murete, com a caneta ainda a bailar na água como um anzol à espera de espécies piscícolas, sem medo de se afogar.
- Sim, é.
Apanho-o, a caneta pinga, meto-o debaixo do braço e começo a andar. Vejo que a minha altura é bastante superior à dele faço-me maior com dois inspiradelas valentes na cavidade pulmonar e passo meio tolhido de medo meio tolhido de cagaço, não fosse lá sair daquelas mangas velhas e gastas uma qualquer navalha ou espigão ou qualquer outra coisa que não sei o nome mas que assusta na mesma.
Ele desvia-se. Passo por ele.
- Bom dia e obrigado.
- Bom dia. Olhe lá, que escreve você?
- Coisas.
- Essas coisas lêem-se?
- Era isso que queria, que alguém as lesse.
- Você não as lê?
- Claro, ora que caral... – Quase se me destravava a língua sem querer.
- Então alguém as lê. 
- Não é isso. – Paro com a cara um pouco voltada para baixo. – É diferente.
- Posso ler?
Olho para ele. Não sei que me surpreenda mais, se aquele velho carcomido pelo tempo saber ler, se alguém perguntar para ler o que escrevo. Volto para trás, dou meia dúzia de unidades de passos e entrego-lhe o caderno. Ele pega-o, coloca-o debaixo do braço, encostado ao sovaco.
- É isto que quero ler. – E coloca aquelas mãos ásperas na minha cara esbranquiçada, parecia que o inverno tinha chegado mais cedo, olha-me fundo nos olhos, tão fundo que tive medo que descobrisse coisas que nunca tive ousadia de escrever. 
Permaneceu ali uma quantidade de tempo que não sei quantificar, teria sido um momento ou algumas vidas? Mãos ásperas na face e um olhar que se permitia ver-me, a mim!, pelos olhos dele.
- Faltam-lhe uns parágrafos e vão dizer que a pontuação não deve ser feita assim, mas olha que a tem quase toda escrita.
Baixou as mãos, raspando-as pela minha cara, piscou os olhos humedecendo-os, tirou o caderno debaixo do braço e colocou-o debaixo do meu perante a minha perplexão e catatonia. Começou a descer o carreiro, deixando o portão de madeira aberto como sempre deve ter estado, enquanto eu me perguntava o que é que eu teria quase tudo escrito? Vejo-o parar, voltar-se, olhar-me, sorrir, dizer:
- A vida.

2016-06-02

Belisco o grão de areia e acordo a praia. 
Espreguiça-se sem alardo, assim são as adultilidades da vida, gente que se faz pessoa porque cresceu antes de nascer. 
Um dia beliscar-me-á o sorriso e eu farei de conta que o entendo e, ignorante, entrarei agua acima.
Vai no resvalo do pensamento rochoso o segredo da encardida mão, a mesma que enterra no recém arado solo e de seguida vai ao peito. 
Poderá o coração bater ritmado pelo silêncio que sobe à alma e sentir-se vivo porque não se sente?

2016-05-29

Retalhos omnipresentes da capicua

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Soçobro por entre a chuva e o sol, terra e ar. Que elemental e elementário se fracciona em dígitos que não sabemos decifrar, cifrar, digerir e aglutinar?
A questão moraliza, porquanto de resposta nos faça encontrar em nós um pouco mais de self, crescer a consideração, decrescer a virtualização, destruição de imagens reflexivas e descobrir que o melhor de cada um está em si próprio e não no reflexo de uma imagem que julgamos ser ou, pior (?), no reflexo em nós daquilo que outros são sem o serem e sem o saberem...
Sempre nós, sem nós que nos atem.
Tens nas asas o despertador que fará acordar-te para a inevitabilidade do voo sincronizado entre o que és e o que te são.
Os dedos intervêm quando a química obriga a trocar o horizonte pelo crepúsculo e troçar do futuro, a marca do que me visto tem traço onde os números não me medem, são coordenadas para as páginas e capítulos onde laureio obtenção da nudez com que tento vestir-me.
Concluo o folhetim sem sequer ter noção de onde comecei ou se comecei. De caminhos, apenas os que sigo quando vagabundeio sem me deixar apanhar pela solidão, pé ante pé, até chegar ao local de onde parti, a mim mesmo.
Vou a mim, volto já. Talvez com mais estrelas do que as levei no bolso, ontem, quando as palavras se sentiam banais e eu, contigo, era certamente mais.
Anseio pela maior junção de palavras que me permita exprimir e não espremer o sabor do fruto dos meus dias. Se cada olhar me prende pelo infinito, como poderei esgrimir argumentos entre o incalculável e imensurável? Os dias são eternos, cada milésimo de segundo replica-se eternamente, sempre à espera que eu volte atrás e retome a vida que ficou naquele(s) instante(s). Engana-se quem da vida conta horas e anos. A vida é o constante movimentar pelo universo e multiverso, de forma tão rápida que nos encontramos a nós próprios em todos os locais no mesmo instante...
A omnipresença representa-se pela inexistência, algo a que me reporto para me encontrar. Não estou aqui, inexistirei ali.
Entrego corajosamente à solidão, o medo, a timidez e a espuma que sobrou da última maré. Faz-se mar, mesmo a água que nunca choveu, numa espécie de arremesso da covardia onde se obtém apenas como eco o silêncio e a revoltosa ignobilidade de um sopro em forma de aroma de café. Cobre-te, criança, o frio da insatisfação pode hipotermar-te as ideias e os neologismos.
Capicuo-me de forma às minhas ideias utópicas fazerem sentido ou, talvez, seja apenas o meu desejo de da trindade santíssima sobrar um numeral que não menospreze quem se deixa adormecer de pé ou, sabiamente, se deita e diz, com a certeza que une os loucos e aqueles estranhos seres desassociados da sociedade actual, "por hoje já está, amanhã deus dará".
Precisamos do nada para descobrirmos e desmascararmos o tudo.
Previsão para os próximos minutos: horizonte nublado pelo vapor da chávena de café, calor na palma das mãos, humidade relativa em crescendo , pelo menos até o ar quente que a combustão da lenha que crepita me trouxer memórias de tempos de outros tempos, como agora, quando não sei se estou já do lado de cá da vida ou já adormecido a olhar pela última vez para trás e reverenciar a visão deste pequeno berlinde azul antes de rumar ao inexistente infinito.
Sobra pouco, muito pouco, de peças caídas do meu relógio.
Creio ter acreditado que o tempo era medido por mim e, talvez por isso, dias de hoje me saibam a segundos quando, por sua vez, segundos de viva Vivida em catraio me estejam ainda nas covas dos dentes e no fundo da retina circundados de verde.
Antes, um campo cheio de água era poço de aventuras, hoje é ponto inicial para, não se perca a rima, uma conversa banal.
Tempos houveram, tempos e nós, de admiração e pacatez, entre a vida e o que o caminho de terra em nós fez.
Agora sobramos adultos, campos cheios de água na qual não sabemos brincar.
Adultos.
Vultos.
Deixo-me agora regar, aproxima-se caronte, mas de mim leva apenas uma barca sem água onde navegar, nem uma moeda, coitado, de cego não sabe que o caminho se vislumbra melhor de joelhos, após uma queda.
Sobra pouco, muito pouco e por isso me sinto pleno, mais pleno.

2016-05-22

A ti leitor

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

O quotidiano pura e simplesmente não me chega para todos os dias que quero viver.
De noite, preso apenas pelos fios que vão da pequena cruz de madeira a cada membro do meu corpo, deixo-me escapar até onde me permite a lei da física e, aí, a flutuar com olhos num dos universos que compõem o multiverso interior, suspiro com saudades de uma casa no futuro com alpendre de poeiras estelares e vista sobre o presente.
Passageiro de um turbilhão, sabes leitor, ausculto as horas que passam com incontável curiosidade e de nada me socorro para te contar que nada te sei dizer ou opinar, eu gosto apenas de viver e, também, respirar.
A manhã trará os primeiros pingos de luz, é com essa chuva que a noite em mim se reduz.
Podia contar-te das subidas e descidas num só minuto de claridade, dos olhares olhados por detrás da retina, da admiração da simplicidade escondida atrás da cortina. Mas não, eu vou gastando a gravidade com os passos em torno de palavras e letras que jamais soube possuir porque, pasma-te, eram elas que me possuíam! Ainda que devaneie, este é o meu romance, as minhas mãos e o meu sangue. Por isso tenho-te trazido no meu colo, percorro as mesmas ruas do passado e vejo que lá já não mora o futuro pois as ervas cresceram por entre o empedrado, tens visto? Ainda ontem, ou há anos, subi a rua, dei um aperto de mão a um vizinho que me habituei ver grande e agora o grande sou eu, os braços apoiados num portão de ferro velho com tinta nova, o ladrar do cão surdo e cego de um olho, o sorriso… Ai o sorriso, o vislumbre da eternidade, a recordação de alguém que se foi daqui tenro na idade.
Isto é a minha crónica, ou o que sou, a diferença é fugaz, nada apreço ao custo do preço de tilintar nos bolsos trocados em forma de berlindes. Dizia-te, antes do pequeno desvio na narrativa, que ali no cima da rua, já depois de ter feito inversão de marcha no final e olhar agora pelo espelho retrovisor vi a minha cara, um pouco de dor, o reflexo de uns putos a correrem atrás de uma bola, o inclinado cimento da entrada da garagem onde ainda estão pousadas as nossas bicicletas, as bolas de ténis e de futebol, as caricas com cascas de laranja e cera de vela, os pedaços de tijolo vermelho com que desenhávamos as metas imaginárias, os baralhos de cartas e as velhas ferramentas de brincar quando sonhávamos que em grandes íamos ser homens de trabalhar.
Dei-me por ali aos eucaliptos, como me dou agora a ti, transparente no que não sei ser, por vezes escrevo-me na expectativa de gostares, sei lá, de por momentos sentires a porta por onde espreito e por ela entrares.
Sê bem vindo, ou bem-vindo, eu vivo de acordos feitos comigo mesmo, talvez por isso me sinta bem a escrever, deitado, no meu ermo.
Hoje, sábado, enquanto ao fundo o ruído branco se transporta e barra a tarde barulhenta da azáfama dos vizinhos, felizes, como eu, deixo-me languidamente sucumbir à parte de mim que te vê enquanto lês estas linhas e, esforçado, ter-te agora a sorrir
Enquanto eu, e também tu, não acordarmos deste dia que se esvai no tecto das vidas que temos vivido por cá, voluntária ou involuntariamente, deixo-te as minhas palavras que são a crónica de tudo aquilo que sou. E digo sou com vaidade, afinal, entre ontem e amanhã, hoje é a minha idade e é com ela que me deito a cada passo fora da porta da entrada, passando pelo alpendre, socorrido de um fio de ariadne prateado, por vezes manietado, na minha e nossa senda de percorrermos os destinos com a certeza que em tudo o que faço a distância de mim a ti é apenas um abraço.
Olha esta chuva que cai
silenciosamente
por entre as cores do Sol da manhã,
as pedras frias da casa firme
o odor a futuro que translucida no teu olhar.
Olha a placidez do branco no andar
os incontáveis amanhãs
nas letras fugazes que me aprisionam.
Olha a luz reflectida no muro amarelo
o espectro não visível na retina
pelos veículos que veiculam ruído.
Onde pernoitará agora a nuvem que ondula na parede?

2016-05-21

Querida noite, do alvor à estrela, onde descansa o devaneio faz-me habitante do corpo que me rodeia, eu que nunca conheci o germinar de um pulsar, queria agora contigo falar.

2016-05-15

Segredos

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Começo por procurar trechos já escritos, palavras engavetadas no fundo da prateleira para onde atiro muito do que fui e já nem me lembro ser. À flor ficam apenas algumas letras que penso saber de cor, mas é engano, meu e das dunas que se formam nas minhas mãos. O nevoeiro adensa-se com a recordação leve e frágil do momento actual. O que permanece é sempre aquele que se quer igual e, por isso, nada que se recorde nos instantes actuais pode ascender a ser eterno enquanto o infinito ainda não tiver nascido.
Assim, porque nada é crónico, entro devagar pela folha branca, pouso as nuvens e o sextante, bato os pés no tapete enrugado e deixo-me cair ao vento como se uma nuvem me fosse amparar a queda ondulada. O café aquecido e as tostas a boiar por entre a espuma, do café e dos dias, enquanto o açúcar, deliciado, se deixa derreter lentamente, no café e na boca. Era capaz de viver para sempre assim. Perdão, era capaz de deixar a vida viver-se para sempre, assim, como se os dias se pudessem vestir da forma como a vida se veste de mim.
Custa-me acreditar que as minha mãos se deixem quedar na rugosidade do muro enquanto escolho qual das histórias escrever. Acumulo os episódios de tudo o que não chove e talvez isso não seja salutar, mas que fazer às opiniões que não formo e, como tal, não escrevo? De repente, porque o passado gosta de se emoldurar à gente como um nevoeiro que se dissipa de cada vez que desviamos o olhar da encosta, desfaço a curva alcatroada e entro de novo na mocidade física por onde passei rápido de bicicleta.
Já nada mais me assusta, nem o medo, enquanto existirem acenos e apertos de mão a resgatarem os fins de tarde passados a circundar o espaço bicicleticamente traçado numa qualquer entrada de garagem. 
Vejo-a fitar-me, sei que por detrás daqueles olhos cansados por onde muita vida entrou e retinou há um esforço de menina em encontrar-me nos velhos escaparates de memória. A caminho de uma reentrância noutra vida a memória vai-se tornando mais espaçada, quase como se o corpo pressentisse a proximidade de uma despedida e desejasse seguir viagem com a alma. Na verdade, cada qual na sua direção, um no infinito e outro no finito, ambos partes polarizadas de uma existência em quem tentamos discernir início e fim, de onde vimos e para onde vamos, sem nunca podermos sequer apresentar a vida à eternidade porque nem numa, nem noutra, podemos entrar e carinhosamente acariciar a face, pois as mãos são os átomos onde a energia volita e se desfaz em órbitas.
A rapidez da sombra nas janelas, chão, bancos e pessoas, das árvores, que por mim passa deixa-me atónito. Há um burburinho que se pode saborear. Por favor, parte o nascer do dia em dois, para que amanheça de novo quando eu, lentamente, começar a anoitecer.
O Sol vai já descendo sobre esta abóbada onde projectamos nuvens que nos fazem sonhar além delas. Sabe a lareira, o burburinho. Não o burburinho, mas a pronúncia, a forma como as vozes chegam até aos meus ouvidos.
Uma sílaba e um cheiro a fumo de eucalipto queimado.
Outra sílaba, a visão de restos de poda tardia ardendo no final de tarde.
Uma interjeição, já o restolho em brasa se cala sob a imponente força da voz do frio da noite que cai. Serpenteando pela paisagem, vou antecipando a imagem de me ver almoçar para não perder tempo no almoço. Calam-se as vozes. 
O burburinho, como as brasas, esmorecem e já não aquecem. Uma voz metálica soluça sílabas ao ritmo de um algoritmo, como quem fala e não sabe o que diz.
Eu. Eu vou sabendo o que digo. Só não sei para onde não corro.
Vou contar-te um segredo, de forma aberta, para que não esqueças, do segredo e de ti. 
Quando o frio te come o andar e a terra te mastiga os passos pela neve fria que começou a levantar, quando, e só mesmo nesse momento, vês o céu pintar-se de laranja e o Sol se esforça para te iluminar a cara fria, fecha os olhos, essa vida ninguém a tira a ti. 
Dá alguns passos na certeza de um pé seguir o outro. 
O universo que és habita o universo que tens e no infinito espaço entre ambos está o sublime, a ausência que a presença oprime. Um dia, a palavra que escrever será a palavra que voou. Será atrás dela que irei. 
É um segredo. 
Eu sei.

2016-05-08

Amem

in Bird Magazine

Vou ali, sem sair daqui, onde me desloco sem viajar, onde sou sem necessidade de estar, pelo simples prazer de me encontrar comigo mesmo e dizer: deixaste esvair um dia sem que apenas um e um só rápido segundo te ondulasse um sorriso na carne.
Estou aqui, sem sair dali, para onde viajei sem me deslocar, onde estou com necessidade de ser.
É por isto que admiro a tenacidade dos pastores, mesmo os sem cajado, capa ou rebanho. Quando já todas as luzes se apagaram, suas trindades reais que se ocidentalizaram, a ascensão de uma sofrida mãe e a morte de um artesão, restam os pastores como verdadeiros guardiões de um regresso, imaculado ou puritano. Perscrutando sob a pala do chapéu as faces e olhando com a sabedoria que só as noites estreladas lhes dão, quem sabe de onde virá novo burrico carregando dores de parir, puxado por um gaipirador que de mãos feitas de aparas alcofará um qualquer ninho onde possa nascer um, de muitos, que lhes diga, novamente, aos pastores, não a nós, sedes livres e, por isso, reis de vós mesmos. Não existe outro reino, apenas este, que nasce entre qualquer abraço ou beijo de quem se ama mais do que aquilo que possui.
Voltar, volitar, volver, entre diásporas e inacabadas conjugações que oscilam entre uma aberta e um aguaceiro. De quanto sol precisa um arco-íris de tons infinitos? A que saberão os limites do inalcançável diâmetro da circunferência da onda que se forma quando, quase vagabundeado, atiro mais uma pedrita a este lago a que chamam vida?
Não me contabiliza a chuva, nem tão pouco o sol, a minha conta corrente flui sem grandes cálculos, um dia traz outro e Salomão sentado à sombra do conquistado suspira e anseia ser um dos lírios do campo.
Longe, entre mim e o gume, a vida que se expressa como um sussurro ou um torpor, ninguém nada nunca sabe abrir o dia sem chuviscar dor.
O tempo entrega-me, em mãos, um caderno com tempos escritos em anos que não contei.
Cada palavra um eco. 
Um eco de sons que não recordo ter frequentado. Apraz-me, o cheiro e a simplicidade destas linhas pautadas, como que traçando latitudes imaginárias onde poderiam, apenas, repousar incógnitas letras que acomodei à sombra de luzes menos brilhantes e de noites mais longas.
Nunca é tarde para nos encontrarmos ao largo deste zodíaco.
Vou entregar-te a chave da vida,
era minha
ofereço-ta,
para que encerres o capítulo
de caneta caída,
finda a batalha
de que nos serve a luta?
Gosto da fluência das rugas na face, cada sulco dermático um trilho, uma vontade, um percurso percursiado e uma palavra nova, que tento reduzir ao mesmo denominador: Viver. 
Gosto do inaudível tique taque com que Deus brindou o Universo, um dia de cada vez, o amor nosso de cada dia nos dai hoje, porque o pão esse sairá das mãos, salgado pelo suor de quem perdoa os seus devedores. 
Gosto da curiosidade sadia de uma criança que me pergunta o que é o infinito. E a resposta não iniciada nem finalizada, como quem se aguarda pela intemporalidade que espreita a cada semi cerrar dos olhos quando se sonha em Viver.
O amor nosso de cada dia nos dai hoje. E se não for pedir muito, amanhã também.
Amem.

2016-05-01

Mães

in Bird Magazine.

O frio tinha ficado para trás e voltaria apenas quando, ao lume, as frieiras se lembrassem de arder por dentro, como o rubor de um amor que se ama porque não se sabe sentir outra coisa.
As mãos sobre a roupa, para a frente e para trás, raspam o sumo do velho camisolão, que se esgota no tempo e no corpo de quem vai cobrindo dias com pedações de lã, no andar e no sentir.
Vários invernos se solsticiavam, a sua voz embora falasse era muda, silenciada por quem a ouvia, mas nunca a escutava. Lembrava-se de vidas solteiras quando por entre a espuma do detergente surgiam pequenos tufos de claridade límpida onde o céu lá em cima espreitava e a relembrava mulher, com a madeixa de cabelo a cair sobre a fronte e a sensualidade ganha na recordação das ruas percorridas com luxúria inocente de quem não se sabe nobreza e raínha-se por entre os fins de tarde no caminho do tanque do fontanário para casa dos pais, invólucros esquecidos de apelidos de solteira.
“Mãe, o que é o comer?” sarapintado depois de caírem arrancados dos calcanhares as sapatilhas puídas pelas jogatanas de futebol. Era apenas a recordação que tinha parido, na inocência e ignorância dos recéns vintes de idade, aquele “mãe” ressoado com o desprezo da juventude era o prenúncio da adolescência e posterior adulteídade máscula de um mundo bipolar onde se esquece de si quem nunca se lembrou de ser gente.
 Passar-se-iam milénios e outros énios se os houvesse para se perceber a feminidade da Primavera e de todas as estações, no descuido divino de fazer de si mesmo dois e, dos dois, martelar em barro um e desbravar de outro uma outra. O mundo sabe que é mundo não por ter sido criado, mas por ter sido servo e na subserviência encontrar o maior tesouro que o mundo não tem, a palavra mãe.
Todos os dias corriam ao montado do tanque de cimento, o ondulado esbranquiçado por onde rasgavam cansadas roupas, vestes e despes de mãos rompidas e cálidas. O suor no verão, o frio no inverno, as mesmas mãos firmes e gretadas, a aspereza tratada a golpes de esbranquiçado creme, o tilintar dos tachos ao lume e a corrida a galgar os degraus antes que um dos molhos transbordasse e inadvertidamente apagasse o lume que tremia, como a vida, saído das ranhuras do disco do fogão.
A mãe é um sabor, uma fome que nos alimenta, é um sentimento onde lavamos aquilo que só ela sabe que somos.
A mãe é ser terra e céu e em qualquer um deles termos certeza absoluta do nada que pisamos.
A mãe é também um pai, um filho, é um cadilho, é um trocadilho por onde brincamos com a imortalidade e viramos na esquina para fugir da ideia que, um dia, ser mãe será ter saudade do útero seguro onde de óvulo a mórula fomos embrião e saber sermos hoje nada.
A mãe é o cuidado e o afago na barriga dilatada, é o choro convulsivo de quando se tem um nada e do nada fazer o tudo.
A mãe é um tanque abandonado, onde as suas mãos e braços cansados moveram o mundo, é o infinito que gostaríamos de ter no relógio e olhá-lo, de segundo em segundo.
Mãe,
chamo-te,
quem me teve e quem me tem,
ser do mundo e ter-te,
ser eu
e, sem ti, ser ninguém…

2016-04-24

Os reternizados

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Olá filho, Escrevo um dia antes para te poder dizer isto: Parabéns!
A tua mão dorme aqui, a meu lado, embrulhada como sempre numa almofada, está tão enroscada que pergunto se não existirá na sua codificação genética algum tipo de ascendência genética com o bicho-de-conta.
Gosto de te ouvir gargalhar com estas pequenas idiotices minhas.
Ela já não deve estranhar o barulho dos dedos no teclado e nem a luz fraca do candeeiro a deve acordar. Acredito que depois do dia de hoje, quando o Sol saiu da toca pela primeira vez em vários dias, nem o gotejar das estrelas no zinco barrento do telhado a faria abrir os olhos.
Escrevo como se não soubesses disto. Claro que sabes. Se calhar até foste tu que encomendaste um dia solarengo, com nuvens coloridas e sarapintadas de formas que apenas a imaginação infantil pode moldar.
Paro um pouco antes de retomar a escrita, este meu hábito de escrever apenas no ar, sem grafar, faz com que me perca várias vezes na necessidade de retocar letra a letra as palavras que se vão desvanecendo no meu olhar e, na verdade, só abro os olhos quando surges aos pés da cama e, maroto, me beliscas os dedos para acordar daquilo que nego ser o meu adormecimento.
Brincadeira de criança é galho florido nesta estação Primaveril. E noutros apeadeiros.
Quase esqueço que escrevi várias linhas antes e sai-me de novo um: Olá filho.
Andamos o dia todo contigo, não sei se sentiste. Aliás, não sei sequer se nos viste. Mas andamos, por aí, como se do alto dos teus seis anos fosses guia nesta excursão muitas vezes sem sentido, sentindo que no afago a qualquer outro ou outra que connosco se cruza, possas orgulhar-te do alto das tuas galáxias por viver do amor que sentimos por ti.
Olha lá, aí em cima também vais aprender a ler? Ou estas coisas são quase como as vidas, que se esquecem quando se nascem e vamos perdendo anos e anos a aprender aquilo que tão bem nos poderia ter sido dado, quase como os dedos das mãos, os dentes, os abraços.
De vez em quando a cortina onde projectam a realidade dilui-se, talvez por causa de um invisível vento que sopra da vontade de ver além do que se sabe vislumbrar. Aí sinto que talvez este sonho a que chamam vida seja de facto um onirismo de onde sairemos quando pensarem que adormecemos, para sempre como dizem.
Porta-te bem (este recado é da tua mãe). Nada de andar de gatas pelo universo, com o risco de berlindar um planeta contra outro, deixa as galáxias bem arrumadas depois de brincares com elas e em caso de dúvida sobre em que dimensão entrar pede ajuda a Deus, embora não se veja, ele anda por aí atento a quem se atenta.
Não sei se tens visto, mas tenho-me esforçado por fazer o que pediste. Vou olhando para os outros pirralhos e comportando-me da forma que queres, mas nem sempre é fácil. Sabes bem que sou distraído e esquecido, por mim e por outros. Mas na incompreensão do sentir, vou tratando-os como se eles fossem tu (e não serão?), a falta de posse despoja-nos do que poderíamos nunca ter e isso, dizes-me tu, é razão da rima entre as palavras dor e amor, podemos sempre escolher aquele que nos faz sentir melhor. Escolho o amor e lá vou, como queres, sorrindo e brincando com a garotada como se cada um fosse tu próprio. Dizes que na cegueira do que sou posso encontrar noutros a tua cara ou os teus gestos. Sou crente, acredito. Porque não haveria de crer na palavra de uma criança? Ou de uma estrela?
Já és crescidinho. Agora, quando te levantares e depois de lavares a cara com a luz que sai de uma estrela, vê se dás a mão ao teu irmão, não torças o nariz quando ele te pedir para fazer alguma brincadeira mais infantil, ele precisa de ti assim como tu precisas dele, já te imaginaste andar por aí sozinho sem a companhia segura do que pensas ser? Isto de viver tem dessas coisas, experimentar caminhos por onde nem sequer sabemos caminhar, mas isto vais aprender caso existem escolas desse lado da vida. Já por aí andei, mas esqueci tanto do que se aprende que cada dia aqui é um desfolhar de livros na ânsia de aprender a ler cada vez melhor, as palavras, as pessoas, os tempos e eu mesmo.
Vai crescendo em saúde, nas sombras frescas que permeiam o universo e onde um dia já me levaste pela mão, de dimensão em dimensão, como se a própria vida fosse o recreio onde brincas seguro e adulto nas meninices de uma ilusão.
Há-de vir um dia em que ao fechar os olhos possamos estender-te os braços a pedir que nos pegues ao colo e, desse lado, crianças novamente nos tomes como filhos teus. E de Deus.
Agora, filho, vou dormir, o cansaço apega-se daqueles que não se cansam de sentir. Vou pedir-te, mais uma vez, que não entoes estas palavras um pouco sem sentido. Por vezes há que escrever assim, sem sentido, para se poder depois anagramar os espaços em branco e encontrar no vazio deixado pelo renascer das vidas as palavras que combinamos ler. Pouco leio agora, deve ser porque vejo mal quando estou por detrás de uns olhos emudecidos.

Obrigado pela estrela cadente, se calhar foi sem querer, talvez tenha sido o teu irmão que deitou a chupeta de novo para o chão e resvalou aos trambolhões como uma pepita incandescente no céu nocturno. Faço-me acreditar que foste tu, na eternidade, a experimentar o lápis com que se escrevem as constelações e a garatujar as mesmas palavras que me saem da boca agora: Amo-te.

2016-04-17

Completo. Todos um

in Bird Magazine

De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram. 
Um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Que faço eu ao tempo? 
Que me faz o tempo, enquanto me percorre de alto a baixo, zombando dos dias que ainda não vivi?
Sempre tive na noite minha companheira e confidente. Pessoa amiga das horas mais soturnas, dos meus momentos de solitude. À noite não sou boa companhia, levo comigo amizade e amor, no entanto, pouco falo, à noite não sou boa companhia.
Teve-me frio e medo, esperança e ilusão, amparo e sonho, choro e riso.
Teve-me sempre, sem reservas ou barreiras, no meio do nevoeiro, sob chuva intensa, iluminado pelas estrelas (que em Trás-os-Montes são mais estrelas), teve-me sempre.
Agora, à medida que também sou noite, começo a sentir que as estrelas que procuro estão bem perto, na palma da minha mão, na lombada da minha vida e ali, bem fundo em ti, em forma de coração.
Vamos deixando que os dias se preencham assim, como quem chove, um pouco aqui e um pouco ali e, nos intermédios do que somos, há sempre algo que secou, que tende a murchar, apenas e porque chove, mas não onde era necessário.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho. 
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho. 
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo. Sou este eu que me habita. Completo.

Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.

Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...

Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...

2016-04-11

Vou pintando nos olhos as nuvens
lestas somem-se no vento
abrigadas
pelas colinas esbranquiçadas
arrefecidas num lento lamento,
venta.
Eu sou folha e caruma
de mim o fruto que me cai aos pés
sem recordação da sombra
ou da areia dourada
escavada
ao redor da onda
sob a espuma.
Oscilo a caneta,
não há destino se não se tem meta,
ouço as vozes e escondo-me
por detrás do que não sei ser,
de mim a mim
a distância de um retorno
no olhar pousado no que não sei ver,
mas as palavras que me sabiam salvar
são as que me escrevem escondidas
de mim
porque não as sei falar.

2016-04-10

Os mesmos caminhos percorridos com outros olhos

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Percorri esta noite, a pé, o meu velho caminho até à escola primária.
Noite, Lua igual a tantas outras vezes, mas agora vista com outros olhos, um céu estrelado com algumas pinceladas de nuvens aqui e ali. 
Meti pés à estrada.
O caminho até à estação continua igual ao percorrido e ficará para outras situações.
Cheguei à escola primária. 
Perdeu o tamanho que possuía e a imponência que despertava em mim espanto e temor, mas continua mágica.
Não preciso fechar os olhos para me ver correr pelo recreio, era um puto, pequeno, com sonhos, com piscar de olhos a imitar um pirilampo dos carros dos bombeiros.
Os muros são agora mais baixos, as próprias paredes são menos brancas, baixas, do tamanho normal das casas. 
Os degraus, que subia ofegante, são pequenas elevações. 
O muro que separava a "escola de cima" da "escola de baixo" e que eu saltava com cuidado é do meu tamanho, do meu tamanho... 
Tudo parece agora do meu tamanho, mas continuo pequeno. 
Continuo a correr pelo recreio, a jogar ao "bom barqueiro", a saltar à corda, a jogar futebol toscamente, a saltar o muro para chegar primeiro à fila para beber o leite ("está frio? bochechem que ele aquece!"), a debruçar-me na torneira do tanque para beber água, sentado no topo do triângulo a lanchar e a falar sozinho.
Na luz ténue do luar vi-me ainda dentro da sala, a jogar raspa, a escrever, a ver o quão curioso era o número 2 ("oh mãe, é mesmo parecido com um ganso!"), a perceber o porquê de 2 x 2 serem 4. Continuo a adormecer sobre os cadernos, a pintar a cara com marcador cor-de-laranja fingindo ter sardas. 
Continuo a escorregar pelo corrimão, a esfregar as mãos no ferro da carteira depois de levar uma reguada.
As telhas, as portas, as janelas, é tudo novo, tudo restaurado, mas tem ainda a capa da saudade, a cobertura de lembranças que mantém intacta a imagem deste caminho, visto agora com outros olhos.
A Lua já se mexeu um pouco, as pinceladas cobrem agora algumas estrelas. 
Um toque no ombro faz-me despertar, é hora de continuar a caminhada, percorrer de novo estes velhos caminhos. 
Esboço um sorriso ténue, nada de mais, apenas um esgar de saudade, de alegria, talvez ingenuidade.
Limpo a lágrima que teima em cair, creio que quer ficar lá, na escola. Saltou de mim e uma mão invisível levou-a para os olhos de um miúdo, cabelo e olhos claros, como os sonhos. Ele cerra as pálpebras e ela cai, pegando-a com carinho sorri para mim como que a dizer-me: "vai...". Virou costas e foi brincar com os outros putos enquanto eu rodei lentamente e suspirei. 
Pareceu-me ouvir a professora Eugénia chamar-me de dentro da sala de aula, ao mesmo tempo que soava o som de um trovão, era o barulho dos putos a subirem os degraus de madeira.
A escola ficou lá, agora mais pequena. 
Eu sou grande, não caibo mais nos sonhos de criança, não retorno a esta vida distante e paralela.
Enquanto me afastava no caminho, vi e ouvi os putos dizerem-me adeus. 
Parei apenas um instante, apanhei um pouco de sonho caído no caminho e continuei, acompanhado, a andar, mais pequeno.
Sinto-me mais leve agora.

2016-04-03

Personas agem

Crónica de domingo, na Bird Magazine em 03/04/2016.

Há que introduzir vivacidade às personagens que vivem, nascidas agora, adultas outrora e, também, renascidas porque de serenismo bastaram no ocaso a que, silêncio involuntário, foram adormecidas. Estas são algumas das que me vivem atrás do que vivo. 

Personas agem

O vento crepita na lareira com a força musculada de quem, de machado ao ombro, chora no desconsolo decidido entre o amor ao que vive e a necessidade de viver, cortando a madeira, golpeando entre murmuradas desculpas o tronco do que cairá e, posteriormente, arrastado por entre vegetação, seguirá caminho até que as garras metálicas de um guindaste articulado à força de comprimido ar o agarrem virilmente e o coloquem sem pudor ou respeito no costado de um camião. Ele seguirá, machadado também no íntimo de si, pelo caminho contrário, rompendo a vegetação agrilhoado à vida, porque de viver se mata e segue pensando apenas que o vento trará o consolo de umas nuvens prenhes a galgar pressões, altas e baixas, até se instalarem ali por cima do sono de um homem e se deixarem cair em fios longos e prateados de água até afogarem as mágoas de uma jorna num sono que, enquanto durar a noite, será rei e senhor das paredes de madeira que involucram o descanso de um guerreiro.

O casaco negro apontado ao horizonte descansa merecido no muro feito de granito alinhado onde minerais são azuis, que não se sabem se paridos da terra ou reflectidos do céu. A manhã foi ligeira dia acima porque enquanto o ombro encontra descanso do reumatizado corpo, há que dar ligeireza aos movimentos torpes e falar com a terra negra, fumegante e transpirada do rodopio orbital e cansada do saturado coro de pensamentos néscios que todos os dias se precipita como uma chuva eterna, em forma de sacholadas firmes de um metal rombudo e um cabo envernizado pelas cuspidelas curtidas das mãos que nunca souberam outro carinho além da contrição e emoção de segurar a medo a vida embrionária, onde um só choro levanta preocupação maior que a bicharada toda à solta no plantio. Entre divagações o cotovelo apoiado no cabo, a mão que segura a boina negra, o suor que cai da testa deixando um rasto húmido na alva cabeça empoeirada e cai, sem preocupação, no rego aberto como um livro, deixando suspensa uma pequena onda alveolar que, depois, também ela se deixa abater, de costas e a sorrir, no negro. Não há espaço para filosofias quando não se sabe quanto nos sobra de tempos ou de dias. Por isso, enquanto escapa à fome no rápido deglutir de uma côdea de boroa, vê a seus pés o húmus e interrompe a respiração para se sentir, apenas uma vez, dono de si e escravo do chão.

O vento como companhia, assim era o quotidiano da vida, tal como o frio e cinzento amanhecer que despertavam de cada vez que a noite se espreguiçava. E assim, a voar, partia por esses caminhos, fugindo às nuvens sorrateiras dos aglomerados de gentes sem pessoas, com apenas uma mochila azul e, lá dentro, uns cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, uma saca de pano onde “antigamente” se guardava o pão. Dizem que vendia poemas, escritos na hora, a jeitos de artesanato, caseiros dizem alguns, com olhos de pessoas num verso e palavras frescas saltadas do coração em qualquer folha branca puída, ditadas por alguém e pelos outros, que moravam nos meus olhos, do lado de lá da ilusão.

Achas que vai chover? 
Não sei... 
Mas agora, que estou prestes a acordar sonhos, queria que sim, que chovesse. 
E se chover não vou trabalhar, vou mais tarde! 
Vou acordar e, apenas em roupa interior, vou correr até ao monte, passando e calcando as poças de água, sem me preocupar com as pequenas pedras que se cravam nas plantas dos meus pés. 
Vou sentir a chuva cair no cabelo, no tronco, ombros, costas e pernas. 
Vou sentir os salpicos de água com terra nas costas, que se soltam dos meus pés enquanto corro.
Vou parar num qualquer portão ou rede e sorver as gotas que pendem dos mesmos, tocando-as ao leve com a língua até que se desprendam. 
Vou atirar-me para a primeira poça de água que encontrar na terra!
Vou rebolar.
Vou espirrar e ter frio sem medo de ficar doente. 
Vou cheirar a caruma molhada, abraçar-me a pinheiros e eucaliptos e sentir o sabor frio da chuva e quente da Natureza. 
Vou deitar-me de barriga para o ar e olhar, com os olhos semi-cerrados, a chuva cair do céu na minha direcção e… 
E sabes quê? 
Vou rir-me! 
Vou rir-me alto, sem me preocupar com o que pensem! 
Vou rir e chorar ao mesmo tempo! 
Vou rir-me e engasgar-me com uma ou outra gota que entre directamente na garganta. 
Vou fazer regos na terra com o calcanhar, para a água escoar de poça em poça, até formar um rio que se juntará a outra poça. 
Vou pegar em terra com as minhas mãos, erguer-me e olhar para ela, para a terra e depois para a chuva e pensar em nada, apenas ver a beleza da chuva e da terra e sentir-me assim, sem medo de ser feliz. 
Achas mesmo que vai chover? 
E se chover, queres vir também?

2016-03-27

Páscoa


- E agora?
Pergunto transpirado, apesar da madrugadora hora a que o faço, depois de sacudir as mãos e o pó que se desprende se transformar numa espécie de neblina dourada que o ar se encarrega de levar para polinizar o deserto, encostado à pedra que acabei de rolar, de mãos gretadas e inchado de esforço.
Olhas-me directo no olhar e esgueiras uma espécie de sorriso.
Há nesse teu silêncio sorridente uma resposta a toda a indagação que ainda nem se sabia pergunta, já tinha abraçada a si a compreensão daquilo que ainda não se tinha incompreendido.
Pousas a mão no meu ombro, a dor que moía maceradamente e me punha a pele comprimida contra o músculo avermelhada desaparece. Dizes-me para sairmos daqui, levanto-me a custo esquecido que estava do peso desta e da anterior noite, ao relento, tal como tinhas dito.
- Não podemos ficar por aqui? Estou cansado.
Mas tu sorris novamente, mirando-me na ternura com que um pai espreita o filho quando ele, inocente, se toma por si como mundo e nessa benevolência compreendo a estupidez da minha pergunta, qual a minha legitimidade para me cansar depois desses teus últimos dias?
Levanto-me enrubescido, ergo o corpo o suficiente para me aperceber que a manhã vem já a trautear despreocupado o horizonte, não se mostrando, mas anunciando-se na claridade que vai percorrendo o mundo dia após dia.
Começamos a caminhar não sem antes te passar a mão pela cintura e te auxiliar. Sei, ou melhor, imagino que essas tuas entradas e saídas carnais, nos desafios metafísicos que a ciência, ainda na sua infância, chamará de impossibilidades e singularidades, te causam uma espécie de entorpecimento enquanto não se aglomera a matéria desenergizada, descida que está pelas dimensões do que nem sonho existir.
- Seria necessário tudo isto? Não terias outra forma de o fazer?
Dizes-me que a fantasia a que um dia te iriam votar as vozes sobre o que falaste pedia que o esplendor e, também, a incredulidade do impossível fosse testemunho firme.
Não concordo, mas insistes, como se tivesses vindo agora de um futuro distante, uns milhares de anos?, e atestasses que de facto assim seria, tu, escorraçado e crucificado pelos teus, sereno sobre o alvoraçado tempo que se vai comendo a si mesmo, triunfante sobre a matéria que compõe esta camada de vida a que chamamos infinito.
Eu, ainda longe de perceber a profundidade do teu silêncio, compreendo mal o que falas, mas depois de te ver jorrado em sangue, apedrejado, escarrado pelas ruas sob o fustigo destes que, embora não o compreenda, amas, capaz de os veres da paliçada passividade de quem espera que o fruto nasça de semente que não se sabe semeada, depois de percorrer as tuas ruas e ver, de olhos marejados, as pedras ensanguentadas por onde passaste, trespassarem-te o peito, o olhar baixo e perdido no sacrifício com que olhaste para mim e, quando nem o vento ousava soprar-se naquela tarde fria, movimentaste os lábios para me dizer algo que esqueci no vai e vem de vidas vividas.
Ungido que és, nascido em díspares meridianos sobre outros nomes que te baptizem, trazes-me às mãos o odor ao orvalho da manhã fria, oh filho do Sol.
Eu nem me sei de nome, quanto mais de gente, sabes-me o que ainda nem me sei e isso basta-me para ser eu com todo este nada onde me deito feliz.
Chegamos onde queres, pousas as tuas mãos nos meus ombros, fazes nascer o universo onde antes moravam os meus olhos para me deixares ver as ondulâncias e os contornos do que não há.
Abraças-me e quase me esqueço de ser eu, preso nos pés que me caminham no mundo, de olhos fechados voam para longe as partes de mim que não me pertencem e esqueço-as facilmente.
Deixo de te sentir. Os meus ombros, apesar de não terem a leveza do teu abraço, ficam mais pesados ainda, descubro que o desânimo é verosímil, palpável, seco e agreste como tudo o que não é por apenas não ser.
Dou por mim a soluçar baixinho, escondo-me quando ouço passos e alguém que grita, apavorado, “Não está aqui!”.
Sim, não estás aqui, e agora?