in Bird Magazine
De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram.
Um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Que faço eu ao tempo?
Que me faz o tempo, enquanto me percorre de alto a baixo, zombando dos dias que ainda não vivi?
Sempre tive na noite minha companheira e confidente. Pessoa amiga das horas mais soturnas, dos meus momentos de solitude. À noite não sou boa companhia, levo comigo amizade e amor, no entanto, pouco falo, à noite não sou boa companhia.
Teve-me frio e medo, esperança e ilusão, amparo e sonho, choro e riso.
Teve-me sempre, sem reservas ou barreiras, no meio do nevoeiro, sob chuva intensa, iluminado pelas estrelas (que em Trás-os-Montes são mais estrelas), teve-me sempre.
Agora, à medida que também sou noite, começo a sentir que as estrelas que procuro estão bem perto, na palma da minha mão, na lombada da minha vida e ali, bem fundo em ti, em forma de coração.
Vamos deixando que os dias se preencham assim, como quem chove, um pouco aqui e um pouco ali e, nos intermédios do que somos, há sempre algo que secou, que tende a murchar, apenas e porque chove, mas não onde era necessário.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho.
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho.
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo. Sou este eu que me habita. Completo.
Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.
Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...
Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...
2016-04-17
2016-04-11
Vou pintando nos olhos as nuvens
lestas somem-se no vento
abrigadas
pelas colinas esbranquiçadas
arrefecidas num lento lamento,
venta.
Eu sou folha e caruma
de mim o fruto que me cai aos pés
sem recordação da sombra
ou da areia dourada
escavada
ao redor da onda
sob a espuma.
Oscilo a caneta,
não há destino se não se tem meta,
ouço as vozes e escondo-me
por detrás do que não sei ser,
de mim a mim
a distância de um retorno
no olhar pousado no que não sei ver,
mas as palavras que me sabiam salvar
são as que me escrevem escondidas
de mim
porque não as sei falar.
lestas somem-se no vento
abrigadas
pelas colinas esbranquiçadas
arrefecidas num lento lamento,
venta.
Eu sou folha e caruma
de mim o fruto que me cai aos pés
sem recordação da sombra
ou da areia dourada
escavada
ao redor da onda
sob a espuma.
Oscilo a caneta,
não há destino se não se tem meta,
ouço as vozes e escondo-me
por detrás do que não sei ser,
de mim a mim
a distância de um retorno
no olhar pousado no que não sei ver,
mas as palavras que me sabiam salvar
são as que me escrevem escondidas
de mim
porque não as sei falar.
2016-04-10
Os mesmos caminhos percorridos com outros olhos
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Percorri esta noite, a pé, o meu velho caminho até à escola primária.
Noite, Lua igual a tantas outras vezes, mas agora vista com outros olhos, um céu estrelado com algumas pinceladas de nuvens aqui e ali.
Meti pés à estrada.
O caminho até à estação continua igual ao percorrido e ficará para outras situações.
Cheguei à escola primária.
Perdeu o tamanho que possuía e a imponência que despertava em mim espanto e temor, mas continua mágica.
Não preciso fechar os olhos para me ver correr pelo recreio, era um puto, pequeno, com sonhos, com piscar de olhos a imitar um pirilampo dos carros dos bombeiros.
Os muros são agora mais baixos, as próprias paredes são menos brancas, baixas, do tamanho normal das casas.
Os degraus, que subia ofegante, são pequenas elevações.
O muro que separava a "escola de cima" da "escola de baixo" e que eu saltava com cuidado é do meu tamanho, do meu tamanho...
Tudo parece agora do meu tamanho, mas continuo pequeno.
Continuo a correr pelo recreio, a jogar ao "bom barqueiro", a saltar à corda, a jogar futebol toscamente, a saltar o muro para chegar primeiro à fila para beber o leite ("está frio? bochechem que ele aquece!"), a debruçar-me na torneira do tanque para beber água, sentado no topo do triângulo a lanchar e a falar sozinho.
Na luz ténue do luar vi-me ainda dentro da sala, a jogar raspa, a escrever, a ver o quão curioso era o número 2 ("oh mãe, é mesmo parecido com um ganso!"), a perceber o porquê de 2 x 2 serem 4. Continuo a adormecer sobre os cadernos, a pintar a cara com marcador cor-de-laranja fingindo ter sardas.
Continuo a escorregar pelo corrimão, a esfregar as mãos no ferro da carteira depois de levar uma reguada.
As telhas, as portas, as janelas, é tudo novo, tudo restaurado, mas tem ainda a capa da saudade, a cobertura de lembranças que mantém intacta a imagem deste caminho, visto agora com outros olhos.
A Lua já se mexeu um pouco, as pinceladas cobrem agora algumas estrelas.
Um toque no ombro faz-me despertar, é hora de continuar a caminhada, percorrer de novo estes velhos caminhos.
Esboço um sorriso ténue, nada de mais, apenas um esgar de saudade, de alegria, talvez ingenuidade.
Limpo a lágrima que teima em cair, creio que quer ficar lá, na escola. Saltou de mim e uma mão invisível levou-a para os olhos de um miúdo, cabelo e olhos claros, como os sonhos. Ele cerra as pálpebras e ela cai, pegando-a com carinho sorri para mim como que a dizer-me: "vai...". Virou costas e foi brincar com os outros putos enquanto eu rodei lentamente e suspirei.
Pareceu-me ouvir a professora Eugénia chamar-me de dentro da sala de aula, ao mesmo tempo que soava o som de um trovão, era o barulho dos putos a subirem os degraus de madeira.
A escola ficou lá, agora mais pequena.
Eu sou grande, não caibo mais nos sonhos de criança, não retorno a esta vida distante e paralela.
Enquanto me afastava no caminho, vi e ouvi os putos dizerem-me adeus.
Parei apenas um instante, apanhei um pouco de sonho caído no caminho e continuei, acompanhado, a andar, mais pequeno.
Sinto-me mais leve agora.
Percorri esta noite, a pé, o meu velho caminho até à escola primária.
Noite, Lua igual a tantas outras vezes, mas agora vista com outros olhos, um céu estrelado com algumas pinceladas de nuvens aqui e ali.
Meti pés à estrada.
O caminho até à estação continua igual ao percorrido e ficará para outras situações.
Cheguei à escola primária.
Perdeu o tamanho que possuía e a imponência que despertava em mim espanto e temor, mas continua mágica.
Não preciso fechar os olhos para me ver correr pelo recreio, era um puto, pequeno, com sonhos, com piscar de olhos a imitar um pirilampo dos carros dos bombeiros.
Os muros são agora mais baixos, as próprias paredes são menos brancas, baixas, do tamanho normal das casas.
Os degraus, que subia ofegante, são pequenas elevações.
O muro que separava a "escola de cima" da "escola de baixo" e que eu saltava com cuidado é do meu tamanho, do meu tamanho...
Tudo parece agora do meu tamanho, mas continuo pequeno.
Continuo a correr pelo recreio, a jogar ao "bom barqueiro", a saltar à corda, a jogar futebol toscamente, a saltar o muro para chegar primeiro à fila para beber o leite ("está frio? bochechem que ele aquece!"), a debruçar-me na torneira do tanque para beber água, sentado no topo do triângulo a lanchar e a falar sozinho.
Na luz ténue do luar vi-me ainda dentro da sala, a jogar raspa, a escrever, a ver o quão curioso era o número 2 ("oh mãe, é mesmo parecido com um ganso!"), a perceber o porquê de 2 x 2 serem 4. Continuo a adormecer sobre os cadernos, a pintar a cara com marcador cor-de-laranja fingindo ter sardas.
Continuo a escorregar pelo corrimão, a esfregar as mãos no ferro da carteira depois de levar uma reguada.
As telhas, as portas, as janelas, é tudo novo, tudo restaurado, mas tem ainda a capa da saudade, a cobertura de lembranças que mantém intacta a imagem deste caminho, visto agora com outros olhos.
A Lua já se mexeu um pouco, as pinceladas cobrem agora algumas estrelas.
Um toque no ombro faz-me despertar, é hora de continuar a caminhada, percorrer de novo estes velhos caminhos.
Esboço um sorriso ténue, nada de mais, apenas um esgar de saudade, de alegria, talvez ingenuidade.
Limpo a lágrima que teima em cair, creio que quer ficar lá, na escola. Saltou de mim e uma mão invisível levou-a para os olhos de um miúdo, cabelo e olhos claros, como os sonhos. Ele cerra as pálpebras e ela cai, pegando-a com carinho sorri para mim como que a dizer-me: "vai...". Virou costas e foi brincar com os outros putos enquanto eu rodei lentamente e suspirei.
Pareceu-me ouvir a professora Eugénia chamar-me de dentro da sala de aula, ao mesmo tempo que soava o som de um trovão, era o barulho dos putos a subirem os degraus de madeira.
A escola ficou lá, agora mais pequena.
Eu sou grande, não caibo mais nos sonhos de criança, não retorno a esta vida distante e paralela.
Enquanto me afastava no caminho, vi e ouvi os putos dizerem-me adeus.
Parei apenas um instante, apanhei um pouco de sonho caído no caminho e continuei, acompanhado, a andar, mais pequeno.
Sinto-me mais leve agora.
2016-04-03
Personas agem
Crónica de domingo, na Bird Magazine em 03/04/2016.
Há que introduzir vivacidade às personagens que vivem, nascidas agora, adultas outrora e, também, renascidas porque de serenismo bastaram no ocaso a que, silêncio involuntário, foram adormecidas. Estas são algumas das que me vivem atrás do que vivo.
“Personas agem”
O vento crepita na lareira com a força musculada de quem, de machado ao ombro, chora no desconsolo decidido entre o amor ao que vive e a necessidade de viver, cortando a madeira, golpeando entre murmuradas desculpas o tronco do que cairá e, posteriormente, arrastado por entre vegetação, seguirá caminho até que as garras metálicas de um guindaste articulado à força de comprimido ar o agarrem virilmente e o coloquem sem pudor ou respeito no costado de um camião. Ele seguirá, machadado também no íntimo de si, pelo caminho contrário, rompendo a vegetação agrilhoado à vida, porque de viver se mata e segue pensando apenas que o vento trará o consolo de umas nuvens prenhes a galgar pressões, altas e baixas, até se instalarem ali por cima do sono de um homem e se deixarem cair em fios longos e prateados de água até afogarem as mágoas de uma jorna num sono que, enquanto durar a noite, será rei e senhor das paredes de madeira que involucram o descanso de um guerreiro.
O casaco negro apontado ao horizonte descansa merecido no muro feito de granito alinhado onde minerais são azuis, que não se sabem se paridos da terra ou reflectidos do céu. A manhã foi ligeira dia acima porque enquanto o ombro encontra descanso do reumatizado corpo, há que dar ligeireza aos movimentos torpes e falar com a terra negra, fumegante e transpirada do rodopio orbital e cansada do saturado coro de pensamentos néscios que todos os dias se precipita como uma chuva eterna, em forma de sacholadas firmes de um metal rombudo e um cabo envernizado pelas cuspidelas curtidas das mãos que nunca souberam outro carinho além da contrição e emoção de segurar a medo a vida embrionária, onde um só choro levanta preocupação maior que a bicharada toda à solta no plantio. Entre divagações o cotovelo apoiado no cabo, a mão que segura a boina negra, o suor que cai da testa deixando um rasto húmido na alva cabeça empoeirada e cai, sem preocupação, no rego aberto como um livro, deixando suspensa uma pequena onda alveolar que, depois, também ela se deixa abater, de costas e a sorrir, no negro. Não há espaço para filosofias quando não se sabe quanto nos sobra de tempos ou de dias. Por isso, enquanto escapa à fome no rápido deglutir de uma côdea de boroa, vê a seus pés o húmus e interrompe a respiração para se sentir, apenas uma vez, dono de si e escravo do chão.
O vento como companhia, assim era o quotidiano da vida, tal como o frio e cinzento amanhecer que despertavam de cada vez que a noite se espreguiçava. E assim, a voar, partia por esses caminhos, fugindo às nuvens sorrateiras dos aglomerados de gentes sem pessoas, com apenas uma mochila azul e, lá dentro, uns cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, uma saca de pano onde “antigamente” se guardava o pão. Dizem que vendia poemas, escritos na hora, a jeitos de artesanato, caseiros dizem alguns, com olhos de pessoas num verso e palavras frescas saltadas do coração em qualquer folha branca puída, ditadas por alguém e pelos outros, que moravam nos meus olhos, do lado de lá da ilusão.
Achas que vai chover?
Não sei...
Mas agora, que estou prestes a acordar sonhos, queria que sim, que chovesse.
E se chover não vou trabalhar, vou mais tarde!
Vou acordar e, apenas em roupa interior, vou correr até ao monte, passando e calcando as poças de água, sem me preocupar com as pequenas pedras que se cravam nas plantas dos meus pés.
Vou sentir a chuva cair no cabelo, no tronco, ombros, costas e pernas.
Vou sentir os salpicos de água com terra nas costas, que se soltam dos meus pés enquanto corro.
Vou parar num qualquer portão ou rede e sorver as gotas que pendem dos mesmos, tocando-as ao leve com a língua até que se desprendam.
Vou atirar-me para a primeira poça de água que encontrar na terra!
Vou rebolar.
Vou espirrar e ter frio sem medo de ficar doente.
Vou cheirar a caruma molhada, abraçar-me a pinheiros e eucaliptos e sentir o sabor frio da chuva e quente da Natureza.
Vou deitar-me de barriga para o ar e olhar, com os olhos semi-cerrados, a chuva cair do céu na minha direcção e…
E sabes quê?
Vou rir-me!
Vou rir-me alto, sem me preocupar com o que pensem!
Vou rir e chorar ao mesmo tempo!
Vou rir-me e engasgar-me com uma ou outra gota que entre directamente na garganta.
Vou fazer regos na terra com o calcanhar, para a água escoar de poça em poça, até formar um rio que se juntará a outra poça.
Vou pegar em terra com as minhas mãos, erguer-me e olhar para ela, para a terra e depois para a chuva e pensar em nada, apenas ver a beleza da chuva e da terra e sentir-me assim, sem medo de ser feliz.
Achas mesmo que vai chover?
E se chover, queres vir também?
Há que introduzir vivacidade às personagens que vivem, nascidas agora, adultas outrora e, também, renascidas porque de serenismo bastaram no ocaso a que, silêncio involuntário, foram adormecidas. Estas são algumas das que me vivem atrás do que vivo.
“Personas agem”
O vento crepita na lareira com a força musculada de quem, de machado ao ombro, chora no desconsolo decidido entre o amor ao que vive e a necessidade de viver, cortando a madeira, golpeando entre murmuradas desculpas o tronco do que cairá e, posteriormente, arrastado por entre vegetação, seguirá caminho até que as garras metálicas de um guindaste articulado à força de comprimido ar o agarrem virilmente e o coloquem sem pudor ou respeito no costado de um camião. Ele seguirá, machadado também no íntimo de si, pelo caminho contrário, rompendo a vegetação agrilhoado à vida, porque de viver se mata e segue pensando apenas que o vento trará o consolo de umas nuvens prenhes a galgar pressões, altas e baixas, até se instalarem ali por cima do sono de um homem e se deixarem cair em fios longos e prateados de água até afogarem as mágoas de uma jorna num sono que, enquanto durar a noite, será rei e senhor das paredes de madeira que involucram o descanso de um guerreiro.
O casaco negro apontado ao horizonte descansa merecido no muro feito de granito alinhado onde minerais são azuis, que não se sabem se paridos da terra ou reflectidos do céu. A manhã foi ligeira dia acima porque enquanto o ombro encontra descanso do reumatizado corpo, há que dar ligeireza aos movimentos torpes e falar com a terra negra, fumegante e transpirada do rodopio orbital e cansada do saturado coro de pensamentos néscios que todos os dias se precipita como uma chuva eterna, em forma de sacholadas firmes de um metal rombudo e um cabo envernizado pelas cuspidelas curtidas das mãos que nunca souberam outro carinho além da contrição e emoção de segurar a medo a vida embrionária, onde um só choro levanta preocupação maior que a bicharada toda à solta no plantio. Entre divagações o cotovelo apoiado no cabo, a mão que segura a boina negra, o suor que cai da testa deixando um rasto húmido na alva cabeça empoeirada e cai, sem preocupação, no rego aberto como um livro, deixando suspensa uma pequena onda alveolar que, depois, também ela se deixa abater, de costas e a sorrir, no negro. Não há espaço para filosofias quando não se sabe quanto nos sobra de tempos ou de dias. Por isso, enquanto escapa à fome no rápido deglutir de uma côdea de boroa, vê a seus pés o húmus e interrompe a respiração para se sentir, apenas uma vez, dono de si e escravo do chão.
O vento como companhia, assim era o quotidiano da vida, tal como o frio e cinzento amanhecer que despertavam de cada vez que a noite se espreguiçava. E assim, a voar, partia por esses caminhos, fugindo às nuvens sorrateiras dos aglomerados de gentes sem pessoas, com apenas uma mochila azul e, lá dentro, uns cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, uma saca de pano onde “antigamente” se guardava o pão. Dizem que vendia poemas, escritos na hora, a jeitos de artesanato, caseiros dizem alguns, com olhos de pessoas num verso e palavras frescas saltadas do coração em qualquer folha branca puída, ditadas por alguém e pelos outros, que moravam nos meus olhos, do lado de lá da ilusão.
Achas que vai chover?
Não sei...
Mas agora, que estou prestes a acordar sonhos, queria que sim, que chovesse.
E se chover não vou trabalhar, vou mais tarde!
Vou acordar e, apenas em roupa interior, vou correr até ao monte, passando e calcando as poças de água, sem me preocupar com as pequenas pedras que se cravam nas plantas dos meus pés.
Vou sentir a chuva cair no cabelo, no tronco, ombros, costas e pernas.
Vou sentir os salpicos de água com terra nas costas, que se soltam dos meus pés enquanto corro.
Vou parar num qualquer portão ou rede e sorver as gotas que pendem dos mesmos, tocando-as ao leve com a língua até que se desprendam.
Vou atirar-me para a primeira poça de água que encontrar na terra!
Vou rebolar.
Vou espirrar e ter frio sem medo de ficar doente.
Vou cheirar a caruma molhada, abraçar-me a pinheiros e eucaliptos e sentir o sabor frio da chuva e quente da Natureza.
Vou deitar-me de barriga para o ar e olhar, com os olhos semi-cerrados, a chuva cair do céu na minha direcção e…
E sabes quê?
Vou rir-me!
Vou rir-me alto, sem me preocupar com o que pensem!
Vou rir e chorar ao mesmo tempo!
Vou rir-me e engasgar-me com uma ou outra gota que entre directamente na garganta.
Vou fazer regos na terra com o calcanhar, para a água escoar de poça em poça, até formar um rio que se juntará a outra poça.
Vou pegar em terra com as minhas mãos, erguer-me e olhar para ela, para a terra e depois para a chuva e pensar em nada, apenas ver a beleza da chuva e da terra e sentir-me assim, sem medo de ser feliz.
Achas mesmo que vai chover?
E se chover, queres vir também?
2016-03-27
Páscoa
-
E agora?
Pergunto
transpirado, apesar da madrugadora hora a que o faço, depois de sacudir as mãos
e o pó que se desprende se transformar numa espécie de neblina dourada que o ar
se encarrega de levar para polinizar o deserto, encostado à pedra que acabei de
rolar, de mãos gretadas e inchado de esforço.
Olhas-me
directo no olhar e esgueiras uma espécie de sorriso.
Há
nesse teu silêncio sorridente uma resposta a toda a indagação que ainda nem se
sabia pergunta, já tinha abraçada a si a compreensão daquilo que ainda não se
tinha incompreendido.
Pousas
a mão no meu ombro, a dor que moía maceradamente e me punha a pele comprimida
contra o músculo avermelhada desaparece. Dizes-me para sairmos daqui,
levanto-me a custo esquecido que estava do peso desta e da anterior noite, ao
relento, tal como tinhas dito.
-
Não podemos ficar por aqui? Estou cansado.
Mas
tu sorris novamente, mirando-me na ternura com que um pai espreita o filho
quando ele, inocente, se toma por si como mundo e nessa benevolência compreendo
a estupidez da minha pergunta, qual a minha legitimidade para me cansar depois
desses teus últimos dias?
Levanto-me
enrubescido, ergo o corpo o suficiente para me aperceber que a manhã vem já a
trautear despreocupado o horizonte, não se mostrando, mas anunciando-se na
claridade que vai percorrendo o mundo dia após dia.
Começamos
a caminhar não sem antes te passar a mão pela cintura e te auxiliar. Sei, ou
melhor, imagino que essas tuas entradas e saídas carnais, nos desafios
metafísicos que a ciência, ainda na sua infância, chamará de impossibilidades e
singularidades, te causam uma espécie de entorpecimento enquanto não se
aglomera a matéria desenergizada, descida que está pelas dimensões do que nem
sonho existir.
-
Seria necessário tudo isto? Não terias outra forma de o fazer?
Dizes-me
que a fantasia a que um dia te iriam votar as vozes sobre o que falaste pedia
que o esplendor e, também, a incredulidade do impossível fosse testemunho
firme.
Não
concordo, mas insistes, como se tivesses vindo agora de um futuro distante, uns
milhares de anos?, e atestasses que de facto assim seria, tu, escorraçado e
crucificado pelos teus, sereno sobre o alvoraçado tempo que se vai comendo a si
mesmo, triunfante sobre a matéria que compõe esta camada de vida a que chamamos
infinito.
Eu,
ainda longe de perceber a profundidade do teu silêncio, compreendo mal o que
falas, mas depois de te ver jorrado em sangue, apedrejado, escarrado pelas ruas
sob o fustigo destes que, embora não o compreenda, amas, capaz de os veres da
paliçada passividade de quem espera que o fruto nasça de semente que não se
sabe semeada, depois de percorrer as tuas ruas e ver, de olhos marejados, as
pedras ensanguentadas por onde passaste, trespassarem-te o peito, o olhar baixo
e perdido no sacrifício com que olhaste para mim e, quando nem o vento ousava
soprar-se naquela tarde fria, movimentaste os lábios para me dizer algo que
esqueci no vai e vem de vidas vividas.
Ungido
que és, nascido em díspares meridianos sobre outros nomes que te baptizem,
trazes-me às mãos o odor ao orvalho da manhã fria, oh filho do Sol.
Eu
nem me sei de nome, quanto mais de gente, sabes-me o que ainda nem me sei e
isso basta-me para ser eu com todo este nada onde me deito feliz.
Chegamos
onde queres, pousas as tuas mãos nos meus ombros, fazes nascer o universo onde
antes moravam os meus olhos para me deixares ver as ondulâncias e os contornos
do que não há.
Abraças-me
e quase me esqueço de ser eu, preso nos pés que me caminham no mundo, de olhos
fechados voam para longe as partes de mim que não me pertencem e esqueço-as
facilmente.
Deixo
de te sentir. Os meus ombros, apesar de não terem a leveza do teu abraço, ficam
mais pesados ainda, descubro que o desânimo é verosímil, palpável, seco e
agreste como tudo o que não é por apenas não ser.
Dou
por mim a soluçar baixinho, escondo-me quando ouço passos e alguém que grita,
apavorado, “Não está aqui!”.
2016-03-20
“Entre mundos”
Dois
passos e estou no balcão.
Bom
dia!
Rio-me,
ri-se,
Boa
tarde e quase bom fim-de-semana!
Engano-me
ainda como adolescente, mas dou por mim a precisar de dar apenas dois passos
para chegar ao balcão, quando antes precisava de mais dois, esquecendo-me até
que agora tenho que me vergar para a senhora do balcão dos CTT me ouvir, quando
antes tinha que me colocar em bicos de pés.
Por
vezes, ou sempre, é assim, transportado para um mundo mais pequeno, mais baixo,
acordado na casa dos enta, sem me lembrar de cá ter estado antes, como se à
saída da agência dos CTT estivesse a minha bicicleta e uma data de amigos à
espera para ir tomar banho ao rio.
Até
as mãos no teclado, que parecem nascidas com ele, sorriem quando me olham,
vendo-me crescer segundo-após-segundo, afagando-me a cara quando tenho frio ou
simplesmente escrevendo coisas que leio e que me fazem compreender o mundo, ou
o balcão.
Oscilando
entre infinitos mundos, é como se todos eles estivessem em mim...
E
ontem, ontem pensei em ti e vi um arco-íris.
Emocionei-me.
Coisa
de gente que fala de mãos e olhares.
Pensei
que eras tu, pensei se estarias a ver-me, se estarias simplesmente a piscar-me
o olho ou se estavas a exibir as cores que eu jamais te poderia dar.
Deixo
as mãos no teclado, o corpo todo imóvel, o computador ligado e saio para a rua.
Está
frio, outros corpos defendem-se do vento, que passa a correr e pisca-me o olho.
Olho
o céu, o destino faz puzzles com as nuvens cinzentas, que teimam em não ficar
no mesmo sítio.
Não,
não é a mesma coisa que lentamente hipnotizar o limpa pára-brisas em dias de
chuva com os grossos flocos de neve no Marão ou Alvão, mas percorrer a estrada,
com temperatura de tarde de Setembro, apesar de noite de Primavera, com o vidro
aberto e fazer de conta que os faróis são estrelas, que se movem aos pares,
algumas vezes em pares de um, faz-me sentir bem apenas porque sim.
Trago
um silêncio comigo e partilho-o com quem quero, deixo-o percorrer e envolver
quem não o ouve, apenas porque houve um som, algures, que não ouvi.
Começo
a ouvir a bicharada nocturna e a ver, ao Luar, as sombras dos campos e do que
lá está plantado e é como se no meio deste restolho que há-de vir, já eu me
levantasse, espreguiçasse, erguesse os braços, perdão, os ramos, ao ar e
dissesse: nasci!
Mas
nascer, nascer, nasci há alguns anos, com memórias e saudades de sítios que
nunca estive nestes anos de encadernação, sem me espreguiçar, apenas com um
lento recordar de quem sou, de onde vim e, curiosamente, sem saber muito bem
para onde ir, com a certeza de não encontrar, aqui ou ali, caminho que me
galgue.
Estas
palavras grudam-se, atropelam-se, é uma saudade do futuro, um pensamento sobre
um pensamento, que conduz a um pensamento, que por sua vez gera outro pensamento,
é um pensamento imenso e de repente sou eu.
É
esta necessidade de escrever, no papel e no tempo, nas pessoas e nas ausências,
que me vai consumindo, a noite e o dia, sem que anoiteça ou amanheça desde que
nasci.
Vou
e, ao mesmo tempo parado, é como se já lá estivesse chegado e, sorrindo
sozinho, tivesse constatado que afinal, nos deves e haveres, fui dar ao sítio
de onde nunca saí.
Volto
para aqui, ajeito-me ao meu próprio corpo, encaixo os dedos nas minhas mãos e
termino o texto.
Sou feliz, entre mundos, entre mim.
Sou feliz, entre mundos, entre mim.
2016-03-13
Quaresma abandonada
Crónica de domingo na Bird Magazine
Perdido por planaltos beirãs e transmontanos, encontro gentes, velhas, encostando as mágoas umas às outras, no frio do granito, enquanto as mãos se arrastam, palma com palma, aquecendo-se, abraçando-se no engano de se abraçar alguém.
Há um bom dia que salta, os castelos abandonados encerram bem lá dentro não dragões aprisionados, mas tristeza e solidão libertadas, em forma de caras que na força das rugas se perdem as feições.
O Sol vai aquecendo como pode uma terra, e gentes, que se quer por lá, perdida, sem voto na matéria, quase sem matéria, num deserto acampado às portas do viver.
Um ou outro gato, um ou outro cão, umas ovelhas algures sem pastor, tilintam o chocalho no que é a banda sonora de quem se levante e não sabe se é dia ou noite, à força de viverem no escuro do chão.
Os brasões ostentam ainda as talhas, as memórias que se apagaram e, no descer arrastado a que me voto, estrada fora, com as mãos ainda nas rugas daquilo que não sei se serei, encontro uma Escola.
Abandonada.
O recreio tem as balizas enferrujadas, mato em vez de relva, duas tabelas de basquetebol morreram e os cestos pendem penosamente enquanto a tabela, pela falta de rega, se quebrou e caiu.
As janelas ainda ornamentadas pelos recortes (são cães, gatos, esquilos, estrelas, flores, sonhos) parecem tremer pelo frio que vem da sala vazia.
Várias marcas de vandalismo em forma de vidros partidos passam despercebidas ao lado do acoitado vazio que toda a escola apresenta.
Violência.
Morte.
Ainda se ouvem as crianças correrem no recreio, atafulhando a entrada com risos e atropelos, enquanto uma voz as manda sentar.
Os passos apressados pelo soalho, o arrastar das cadeiras, algumas mãos debaixo dos cus para se aquecerem, há-de fazer frio hoje e sempre pelos dias de Inverno que, aqui, se parecem sobrepor ao Verão e Primavera.
Na inocência maligna de quem nasce torto e tardará a endireitar, ouve-se o grasnar de uma boca ainda com migalhas secas no queixo e o branco fio de ranho seco sobre o lábio superior.
- Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para usar na procissão...
Perdido por planaltos beirãs e transmontanos, encontro gentes, velhas, encostando as mágoas umas às outras, no frio do granito, enquanto as mãos se arrastam, palma com palma, aquecendo-se, abraçando-se no engano de se abraçar alguém.
Há um bom dia que salta, os castelos abandonados encerram bem lá dentro não dragões aprisionados, mas tristeza e solidão libertadas, em forma de caras que na força das rugas se perdem as feições.
O Sol vai aquecendo como pode uma terra, e gentes, que se quer por lá, perdida, sem voto na matéria, quase sem matéria, num deserto acampado às portas do viver.
Um ou outro gato, um ou outro cão, umas ovelhas algures sem pastor, tilintam o chocalho no que é a banda sonora de quem se levante e não sabe se é dia ou noite, à força de viverem no escuro do chão.
Os brasões ostentam ainda as talhas, as memórias que se apagaram e, no descer arrastado a que me voto, estrada fora, com as mãos ainda nas rugas daquilo que não sei se serei, encontro uma Escola.
Abandonada.
O recreio tem as balizas enferrujadas, mato em vez de relva, duas tabelas de basquetebol morreram e os cestos pendem penosamente enquanto a tabela, pela falta de rega, se quebrou e caiu.
As janelas ainda ornamentadas pelos recortes (são cães, gatos, esquilos, estrelas, flores, sonhos) parecem tremer pelo frio que vem da sala vazia.
Várias marcas de vandalismo em forma de vidros partidos passam despercebidas ao lado do acoitado vazio que toda a escola apresenta.
Violência.
Morte.
Ainda se ouvem as crianças correrem no recreio, atafulhando a entrada com risos e atropelos, enquanto uma voz as manda sentar.
Os passos apressados pelo soalho, o arrastar das cadeiras, algumas mãos debaixo dos cus para se aquecerem, há-de fazer frio hoje e sempre pelos dias de Inverno que, aqui, se parecem sobrepor ao Verão e Primavera.
Na inocência maligna de quem nasce torto e tardará a endireitar, ouve-se o grasnar de uma boca ainda com migalhas secas no queixo e o branco fio de ranho seco sobre o lábio superior.
- Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para usar na procissão...
2016-02-28
Quem é o sonhador?
Crónica de domingo na Bird Magazine.
É de uma forma desformada que a noite me vai entrando pelo corpo.
Começa pela sombra que contorna a caneta, depois pesa-me no olhar, desfoca-me a visão, aconchega-me com o pijama e um velho casaco azul gigante, a cor, não o casaco e, por fim, traz às costas um saco de pano do tamanho, vejamos, de um saco de pão normal, o saco, o pão também, e, lá dentro, todos os sonhos que vai mostrando.
Por vezes comporta-se como um vendedor, africano, abre o saco, olha em redor, estou sozinho, estende os sonhos no chão, faz um movimento de arco-íris, que é como quem diz meia-lua, não importa a fase agora, como que exibindo o que tem, depois olha para mim e é isto que jamais esqueço, o olhar da noite nos meus olhos, e parece questionar: Qual queres agora? E eu, recolector por natureza, fico com todos tendo como fiel depositário ela mesma, a noite. Hoje guardou o saco, não me mostrou sonhos e, por momentos, vi sair dali um qualquer diabrete, agarrando-se ao meu pescoço com uns braços pequeninos e dizendo: Que é do sonho o sonhador.
Fazem-me falta as palavras que não conheço, as que estão na paisagem que vi há pouco, tão calcada, tão desconhecida, com o vento frio que me semicerra os olhos e me faz ver espectros no azul do céu. O cacarejar das galinhas, o som abafado dos carros, poucos, na estrada com buracos, muitos. Ir a pé umas centenas de metros, com destino correcto, é análogo ao meu caminhar pelos montes da vida.
Saudades dos tempos em que centenas de metros eram os quilómetros que separavam aldeias, comer um punhado de grelos com azeite, alçar a perna no banco de madeira da cozinha e seguir viagem até um olival.
Creio que os tempos em que parecia não existir tempo para a vida, eram os tempos em que vivíamos o que existíamos. Como quando saí para a rua, para as traseiras da casa dos meus pais e deixei-me estar ali, com as mãos nos bolsos, o pescoço encolhido dentro do casaco, que o frio era muito.
Após a troca de presentes, que vale, para mim sobretudo, por olhar os sorrisos de outros e o olhar de criança que sempre surge nesta noite, saí.
Estava frio, acho que já o disse. Muito frio.
Vir até à casa dos meus pais, apesar da curtíssima distância, foi uma aventura de enregelar, tive que raspar o gelo do pára-brisas, por isso, estava frio, muito frio. Fiquei em pé, desliguei a luz de fora para poder ver melhor o céu que estava, como muitas das outras vezes, fabuloso, mas, para nós, o lar é sempre o lar, belo.
Sem o saber estava a receber mais uma prenda de Natal, murmurava ao meu ouvido, com aquela voz que só se ouve com o coração, lembrava-me as minhas próprias palavras de criança, quando dizia que o céu era um véu escuro, que nos separava de um sítio luminoso e que esse local era visto pelo brilho das estrelas, quando conseguirmos, dizia eu, olhar para dentro de uma estrela, veremos o lado de lá da vida. cegamente que as estrelas eram sonhos dos homens (de humanidade), que saíam do seu coração e subiam, no alto, até encontrarem o véu e o rasgarem ao leve. E esse rasgão, ou buraco, por onde passava a luz eram as estrelas.
Foi o meu melhor presente de Natal, sem desprimor para os que recebi, principalmente pelo carinho que senti neles, mas reencontrar aquela voz suave e terna, que sussurra dentro de nós e nos faz ver estrelas onde estão apenas luzes distantes.
Ficou composta a noite pela confirmação, que sempre chega, quando penso algo. Uma pequena luz azul que cruzou o céu e seguiu até desaparecer. "Esse é o teu sonho", disse-me a voz.
E porque nessa noite eu era criança novamente, acreditei e sorri.
É de uma forma desformada que a noite me vai entrando pelo corpo.
Começa pela sombra que contorna a caneta, depois pesa-me no olhar, desfoca-me a visão, aconchega-me com o pijama e um velho casaco azul gigante, a cor, não o casaco e, por fim, traz às costas um saco de pano do tamanho, vejamos, de um saco de pão normal, o saco, o pão também, e, lá dentro, todos os sonhos que vai mostrando.
Por vezes comporta-se como um vendedor, africano, abre o saco, olha em redor, estou sozinho, estende os sonhos no chão, faz um movimento de arco-íris, que é como quem diz meia-lua, não importa a fase agora, como que exibindo o que tem, depois olha para mim e é isto que jamais esqueço, o olhar da noite nos meus olhos, e parece questionar: Qual queres agora? E eu, recolector por natureza, fico com todos tendo como fiel depositário ela mesma, a noite. Hoje guardou o saco, não me mostrou sonhos e, por momentos, vi sair dali um qualquer diabrete, agarrando-se ao meu pescoço com uns braços pequeninos e dizendo: Que é do sonho o sonhador.
Fazem-me falta as palavras que não conheço, as que estão na paisagem que vi há pouco, tão calcada, tão desconhecida, com o vento frio que me semicerra os olhos e me faz ver espectros no azul do céu. O cacarejar das galinhas, o som abafado dos carros, poucos, na estrada com buracos, muitos. Ir a pé umas centenas de metros, com destino correcto, é análogo ao meu caminhar pelos montes da vida.
Saudades dos tempos em que centenas de metros eram os quilómetros que separavam aldeias, comer um punhado de grelos com azeite, alçar a perna no banco de madeira da cozinha e seguir viagem até um olival.
Creio que os tempos em que parecia não existir tempo para a vida, eram os tempos em que vivíamos o que existíamos. Como quando saí para a rua, para as traseiras da casa dos meus pais e deixei-me estar ali, com as mãos nos bolsos, o pescoço encolhido dentro do casaco, que o frio era muito.
Após a troca de presentes, que vale, para mim sobretudo, por olhar os sorrisos de outros e o olhar de criança que sempre surge nesta noite, saí.
Estava frio, acho que já o disse. Muito frio.
Vir até à casa dos meus pais, apesar da curtíssima distância, foi uma aventura de enregelar, tive que raspar o gelo do pára-brisas, por isso, estava frio, muito frio. Fiquei em pé, desliguei a luz de fora para poder ver melhor o céu que estava, como muitas das outras vezes, fabuloso, mas, para nós, o lar é sempre o lar, belo.
Sem o saber estava a receber mais uma prenda de Natal, murmurava ao meu ouvido, com aquela voz que só se ouve com o coração, lembrava-me as minhas próprias palavras de criança, quando dizia que o céu era um véu escuro, que nos separava de um sítio luminoso e que esse local era visto pelo brilho das estrelas, quando conseguirmos, dizia eu, olhar para dentro de uma estrela, veremos o lado de lá da vida. cegamente que as estrelas eram sonhos dos homens (de humanidade), que saíam do seu coração e subiam, no alto, até encontrarem o véu e o rasgarem ao leve. E esse rasgão, ou buraco, por onde passava a luz eram as estrelas.
Foi o meu melhor presente de Natal, sem desprimor para os que recebi, principalmente pelo carinho que senti neles, mas reencontrar aquela voz suave e terna, que sussurra dentro de nós e nos faz ver estrelas onde estão apenas luzes distantes.
Ficou composta a noite pela confirmação, que sempre chega, quando penso algo. Uma pequena luz azul que cruzou o céu e seguiu até desaparecer. "Esse é o teu sonho", disse-me a voz.
E porque nessa noite eu era criança novamente, acreditei e sorri.
2016-02-22
À janela
o gato preto enche a noite
de escuridão,
nada percorre mais veloz
as sombras da minha mão
que tudo o que calei
com a minha voz,
era o silêncio,
contava-te com o olhar embaciado,
nunca sem o saberes
imerso na naturalidade selvagem que te veste
ficavas calado
e nunca,
nunca,
nunca!,
te deixaste entrar pelo sonho
acordado.
o gato preto enche a noite
de escuridão,
nada percorre mais veloz
as sombras da minha mão
que tudo o que calei
com a minha voz,
era o silêncio,
contava-te com o olhar embaciado,
nunca sem o saberes
imerso na naturalidade selvagem que te veste
ficavas calado
e nunca,
nunca,
nunca!,
te deixaste entrar pelo sonho
acordado.
2016-02-21
Molhou-me Agosto
no despertado mareado da manhã
a encriptada onda
na espuma alva de ontem
esbatida aos meus pés
amanhã,
molhou-me
Agosto
ao encontro do peito
turbilhado pela terra árida arada
a rebeldia da semente
escorrendo correndo
no labor em minhas mãos feito
temperado, eu, com travo de nada,
molhou-me Agosto
a tempo do cair das estrelas esbatidas no término da tarde
eis-me em terras de suor
onde o dia se expele e arde,
com mãos frias
palavras criadas na clausura do silêncio
de tudo nada tentando
à noite que se dorme
de vez em quando, de vez em quando,
molhou-me Agosto
e na placidez da urze de Inverno
onde neva a vida a meio tom
molhou-me, uma vez mais, Agosto
talvez para me fazer recordar
um dia
também eu fui bom.
2016-02-15
2016-02-14
Pi(ão)
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
É impossível não olhar para as crianças e sorrir convencido que se não crescerem serão o futuro. Mas temo, temo pelos pais (e que legitimidade tenho eu?), pelo sistema de deseducação, pela sociedade que lhes vai pedir tudo aquilo que eles não precisam. Mas, para já, ainda longe da idade de espreitarem as etiquetas das roupas, embora a idade das marcas e tipos de telemóveis tenha vindo a diminuir, vão sentando-se no chão, atirando uns piões moderníssimos (que a TV lhes vai vendendo), rindo-se das solas dos chinelos mais desgastadas, o joelho que se apoia no empedrado chão e se esfola, os risos, tudo vai ecoando pela entrada da tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.
Fecho a porta do carro, pé na embraiagem, ligo-o, puxo o cinto de segurança num gesto automatizado e destravo-o, nada caiu, óptimo. A rádio, perdão, as rádios, debitam (vomitam) as mesmas músicas, as mesmas notícias, hoje nem a música clássica me apetece ouvir e os CD's são também os mesmos, sempre. Desligo o rádio, nada caiu do carro, óptimo. Arranco e vou retirando ruídos e barulhos, um a um, até sair toda a capa encardida e lodosa que se foi entranhando ao longo de um dia e ficar apenas o som dos putos a atirar os peões. De repente é como se a meu lado surgisse um puto, calções gastos e joelhos esfolados, com um baraço na mão e, na outra, um pião de madeira, ouvindo o som que a minha memória vai debitando, os piões de plástico e metal a zunirem no chão, a claquearem uns nos outros e, ele, ali, esbugalhado, sem saber como ali foi parar e sem saber o que fazer com o pião que tem na mão, de madeira, com aquela ponta de metal frio, que faz cócegas quando rodopia velozmente na palma da mão.
É pouco provável chegar a casa e ligar a televisão.
A futilidade hoje em dia parece grassar, espalhar-se como uma doença. Já não chega aquela que nasce em nós e que, na sua dose de erva daninha aceitável, se tolera, mas ainda se tem que receber, quase forçadamente, doses e doses de vazio, de sons articulados sem qualquer pejo pelo que se diz, com o único objectivo de sharingar, de ganhar espaços e audiências. Quando mais cruel e fria, quanto mais impacto aquele soco invisível nos causar melhor, quanto mais a pessoa se ache vítima, ainda que por simpatia, do que lhe é fornicado aos ouvidos melhor. E este movimento replica-se, em casa, na rua, nos transportes, no trabalho, quanto mais impacto, quanto mais visceral a anunciação melhor e assim nos vamos alimentando, de vísceras e vazio, até percebermos que, afinal, quando pensávamos estar a comer, estávamos a dar de fome a quem de tudo, até dos sonhos, se apodera lentamente.
E é assim, belicamente, que vou declarando morte ao vazio.
Na minha trincheira só cabem umas côdeas, pão, boroa, regueifa, seja lá o que for, água, uma licorada bem preparada, seja lá qual for, e uns quantos piões, amanhados ao canto.
Mantenho a cabeça baixa, nunca se sabe o que poderá surgir por aí, o tempo vai quente, consta que vai ser pior do que foi, se for mais quente, foi pior, se for mais frio, foi ainda pior, restam-me as nuvens, o Sol, a Lua, as estrelas e as fotografias de todos os bocadinhos de pessoas com gente dentro que vou guardando, emoldurando, atafulhando o que sou porque tenho medo, vá-se lá saber porquê, de deixar algum espaço de vago onde o vazio possa vir e fazer lá seu visceral trono.
Chego a casa. Já não recordo de onde saí, por onde passei, o que vi. Estaciono na rua, desligo o carro, nada caiu, óptimo. Coloco novamente a chave na ignição para fechar os vidros, vão subindo e chiando, como que resmungando e compreendo-os, afinal, quando fechados são eles que levam com o barulho do vazio. Tiro a chave, engato o carro, puxo o travão de mão, nada caiu, óptimo.
Saio ainda a tempo de ouvir a sirene dos bombeiros a baixar o tom, cansada dos constantes avisos de risco elevado de incêndio que lhe fazem prever noites de arreliação e esforço em levantar da cama os já cansados corpos dos bombeiros. Já depois de fechar a porta vejo-o.
Abro novamente o carro. No banco do passageiro um pião e o baraço, desembaraçado, desenleado, escorrido do banco até ao chão.
O correio nada deixou, entro no prédio, fecho a porta com cuidado e vou subindo os degraus enquanto tacteio aquele bocado de madeira torneado pelas mãos de alguém ou de ninguém, que embora possamos conhecer que o torneou, poderá esse torneador não se saber.
Entro em casa, pouso chaves, carteira, pão, trocados, tiro os sapatos da forma que a minha mãe sempre disse para não os tirar e vou andando até chegar à sala.
Sento-me no sofá, inclino-me e pouso o pião no chão, agarro o baraço, encosto-me e fecho os olhos para me deixar sorrir enquanto os sons dos putos, os risos, tudo vai ecoando pelo final de tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.
2016-02-13
2016-02-07
De torga em torga
Crónica de domingo na Bird Magazine.
O frio agarra-se às pernas enquanto
caminho, parece um noviço gato ronronando, de cauda levantada, com olhos
amarelos e rasgados, atrasando-me os passos no seu movimento de infinito ao
redor de cada perna.
Desapegado do gato, que parece ter
desistido de ronronar e me segue em passo apressado de gato, que mesmo
apressado nunca é deveras rápido, vou caminhando e caminhado subindo e descendo
pequenas e grandes pedras incrustadas no solo como se fossem grandes e
preciosas gemas colocadas num anel que se oferecerá ao anelar dedo de uma
amante, baixo a cabeça para ver curiosas formações de erva verde e galhos secos
já mortos que o vento se encarregou de amontoar no vale em v fechado entre duas
rombas e gordas pedras.
Passo por um amontoado de gente que se
acotovela e estica o pescoço, erguendo a cabeça e espreitando para a frente
como se a vida fosse um livro semi aberto por onde todos queiram ver sem se
preocuparem em ler. Contorno-as facilmente e, curiosamente, sem que me vissem
passar por elas, deter-me por segundos, deixo-as para trás agarradas que estão
ao temor de não se saberem ler ou escrever, um livro ou o próprio livro que são.
O gato ficou para trás, ronronado por
um petiz, subindo para as pernas fletidas do garoto e aninhando-se na mão
quente e protectora que é o amor puro e irreflectido de uma criança.
O frio, o vento e agora esta morrinha
que me obriga a tirar os óculos para não ser apenas uma face especada atrás de
uma vidraça no Inverno, atrasam-me o passo dorido e fazem-me inevitavelmente
parar ao fim de alguns momentos e outros tantos passos lentos, afogueado, com
as mãos nas cruzes e a suplicar que no suplício carnal eu me veja
miraculosamente livre do apoquentado mal. Olho para o lado e alguém está
igualmente parado no caminho. Na esquina entre a dor e o desespero há sempre
alguém à espera de contornar a vida com um joelho e dois braços fortes sobre os
ombros parando a vida à entrada do peito. Reconheço-o e a medo solto um lauto
bom dia e daquela face funda onde orbitam dois berlindes escuros sai apenas uma
espécie de suspiro em forma de olhar, pede-me um joelho e dois braços fortes
sobre os ombros, parando a vida à entrada do peito. Eu? Eu nem sei do que sou
feito! Respondo. E ele, contrafeito, ouvindo alguém chamar ao fundo acima do
vento pautado pelo mundo, Oh Ti’Alma Grande!, levanta-se, esconde o olhar,
guarda o sorriso atrás do silêncio e desce os penedos como se tentasse libertar
de um punhado de medos.
Refeito e rarefeito, começo a caminhar
não sem antes ver duas crianças ao colo de uma outra, quase adolescente,
descendo o emparedado pedaço de terra sulcado pela mão de quem não se sabe
aluvião. Logo a seguir mais petizada corre embalada pela gravidade e a
despreocupação de ainda não ser medida pela idade, de olhos esbugalhados, tezes
distintas perfilhadas apenas pelos salgueiros ou dois corpos outrora em
braseiros, entre fetos e abetos, narizes avermelhados e secos e longos fios de
ranho agarrados à cara quase chegando ao limite em que a cara se agarra ao
cabelo. Atrás, não muito, vem ventre prenhe de longa idade e de uma vida de
afogueado receio, “não surja um que mos queira”, reza, enquanto com os braços
amarra mais o bebé de encontro ao peito, lançando-me o olhar desprendido que
por entre rugas busca ainda, na ignorância, a ausência que se fez infância.
As fragas ganham vida agora. Eu, que já
nem vejo a hora, começo a ter dificuldades em caminhar, o céu escurece pelo dia
que aí vem pintalgado de nuvens negras que imagino neve ser, pelo frio que me
faz tremer. Ganho alento ao ver uma ermida minúscula erguida ali à face da
estrada como se os milagres caminhassem de mão dada com o abandono e cansaço,
quase como as letras que faço, e esperassem quem de caminhado se cansou e ali
aos pés da santidade deixasse cair uma vida inteira vivida apenas pela metade.
As pernas abrem-se, salvo seja, pelos passos que me obrigo dar, de metro em metro,
até passar pelo demo, vade-retro!, e me deixar desiludir pelo que pensei ser o
átrio abandonado de uma fé, afinal, onde pensei descansar, já lá gente que dá
de si a pedir dos outros, envolto no frio para não deixar sair o calor, aquece
as mãos ao rubor, daquilo que arde e daquilo que se vive, numa natividade que
me emudece e faz pensar, jamais, conseguiremos unir uma santíssima trindade porque
de santo e louco nem a nós deu a vida tão pouco, para poder sairmos arrepiados
pelo destino a caminhar e antes de pedir, ter quem nos possa dar.
Percorro uns valentes metros, de
distância e de peito feito, soluço e escondo umas poucas de lágrimas que me
vidram a cara de encontro ao frio que neva já. Para trás os passos velhos de um
velho que entre o destino e a chegada conseguiu encontrar uma morada, quente,
entre o profano e o sagrado que o habita, vai soprando o vento de encontro à
alma fechada, até encontrar uma frincha por onde corra e lhe chame o nome,
Garrincha.
Já nada passa por mim, creio ter
encontrado o meu percurso. Dizem-me que daqui, nem água mole em pedra dura, de
tanto bater já nada se fura, vejo o teu corpo na neblina que parece emanar da
terra, como se fosses erva rasteira forte e perene a agitar ao vento não pela
fragilidade dos teus ramos face à intempérie, mas porque és tu, oh torga!, quem
no vento comanda os destinos e sem temores a própria vida se abranda, como o
mundo humildificado e ditoso se prostra ao entrar no que chamaste de maravilhoso.
Sento-me ao teu lado.
Fazes-me sinal para olhar para baixo,
mas eu não vejo o rio, daqui onde espreito há apenas flocos de frio.
Sorris e colocas a mão no meu joelho.
Dizes que isto, o joelho, deve ser apenas para tocar o chão em admiração, rimas
e sorris, vergado à telúrica santidade do solo que nos faz ventres prenhes de
humanidade.
Mestre, não sei o que hei-de escrever,
confesso, após largos minutos contigo em silêncio meditado. Tu olhas-me com
esse sorriso que brota de cada ruga que nunca sorriste numa crepuscular ausência
de som, apoias as mãos na pedra, afastas-te de mim para te inclinares sobre o
lado esquerdo e pousares a cabeça nas minhas pernas cansadas.
Entre a flor e rocha deixo as mãos
caírem no teu cabelo ralo. Sinto a aspereza da urze vergada ao peso das
minúsculas flores e saboreio pela primeira vez a paisagem sem dores.
Olhas-me e como se não precisasse de
candeias, fugindo de quem apaga as estrelas, fechas os olhos e, pela primeira
vez, pelos cantos do mundo por onde escorre a vida, sem nascente, sem foz,
escuto o borbulhar das palavras que me suspiraste a cada página e ouço, clara,
a tua voz.
2016-02-02
Acabo de colorir o mundo com cor de tangerina. Vai-se o vento e cai-me aos pés, quase como quem se ensina, e prostrado ergue-me o olhar como se eu, vagueante, pudesse além do soçobrado dar do que não tenho e me mingua, como uma trave de carvalho, queimada, como a pessoa sem olhar, de silêncio queimada.
2016-01-31
Vem ter comigo
Crónica de domingo na Bird Magazine
O Sol vai aquecendo lentamente e timidamente, apesar do periélio, a manhã de Inverno que se faz amanhecida aspergindo luz encostas acima até se encontrar com a hora de almoço. Vou caminhando lentamente, por vontade e necessidade, com as mãos nos bolsos, por vontade e necessidade ainda, pelo emparedado caminho que me habituei a gostar como a pele que permite manter íntegra a amálgama carnal que piloto enquanto habito neste orb.
O mundo parece mais pequeno, agora, os muros mais baixos e a distância de mim à minha própria sombra vai subindo, sem que isso signifique que a escuridão projectada esteja mais longe da luz desejada.
Concentro os passos em planos de três, vá-se lá saber porquê, um, dois, três, reinicia, um, dois, três, reinicia, sem qualquer motivo aparente e na tentativa de descobrir uma razão, dou por mim a pensar no ditado que três foi a conta que deus fez, por isso, nesta matematicalidade talvez exista um sentido que não descobri.
Embora as ruas se concentrem inalteráveis, é impossível não perceber que existe uma dificuldade maior em altivar o caminhante, como o fazia antes, desenvoltamente, a cada passada, erguendo-se silenciosamente acima dos muros e subindo, sempre, transformando o passeio num constante futuro que se visiona apenas quando se é criança.
Hoje, sábado, domingo?, que dia é hoje?
O Sol aquece e ilumina, a minha sombra persegue-me, as mãos nos bolsos do casaco de malha. Olho para o lado e cumprimento, como sempre, a trejeito tímido, uma e outra pessoa, jovem antes, velha agora, bom dia ou boa tarde, boa noite raramente porque apesar de solarengo, a noite quando se destapa e sai da cama com firmeza chega fria como o olhar de muita gente que ainda não amanheceu.
Sem que me aperceba, tacteando a parede, vem atrás de mim uma criança. Devo levar uns bons dez metros de adianto e, ao perceber que vem distraída, paro a marcha e olho para trás. Traz um sorriso tranquilo, um olhar indagador e as mãos a fazerem cócegas a pequenos tufos de musgo ainda orvalhados apesar do Sol. Quando está prestes a chegar até mim afasto-me, talvez eu pareça invisível a uma criança, mas não o sendo, há que ter a preocupação de não atrapalhar a marcha de quem no presente se move tendo como futuro a próxima fenda entre pedras do muro que ladeiam o caminho ou o mais confortável tudo.
Sigo, a pé, atrás dela.
Bom dia aqui, bom dia ali, assobio silenciosamente meia dúzia de músicas que gosto. O caminho vai fazendo-se normalmente, o Sol aquecendo a destapada cabeça e a inusitada criança no seu caminho passa a ser a minha curiosidade.
Percorro os seus mesmos passos e, por vezes, quando não há casas a espreitar, afago um e outro tufo de musgo, ficando depois a saborear com o tacto a água um pouco mais densa que ficou no indicador e polegar.
O percurso termina quando o vejo parar. Olha para trás, vê-me, sorri e estende a mão para mim. Aparentemente sem saber das novidades perigosas deste belicista mundo, sem qualquer receio de um adulto, faz sinal para continuar em direcção a ele e ao chegar à sua beira, estendo o braço e ao tocar na sua cândida e alva mão, sinto apenas o húmido toque de um musgo verde escuro que deixa na imaginação um dia de Sol por cima do nevoeiro que, por momentos, se interpõe entre mim e a janela, mas apenas por momentos, pois ainda que em pé, em casa, a espreitar o cinzento nevoeiro por detrás do vidro, onde a esforçada respiração se condensa a cada baforada de um calor que ainda não esmoreceu. Ainda.
Pisco os olhos. Faço de conta que o húmido nos dedos não é do vapor de água que acabei de limpar, mas sim do musgo que aquela criança desejou que eu conhecesse e, rapidamente, atrás agora da cortina, piscando novamente os olhos sem desvanecer a visão, o Sol nasce de novo e a manhã apresenta-se radiosa e radiante, por vontade da necessidade.
Perdido agora, desabituado ao vai e vem daquilo que não volta, descanso o olhar encostado a um pilar, enquanto vejo o rio de água borbulhando pelos paralelos.
Há uma pequena folha que passa.
Depois um barco de papel.
De seguida vários.
Levanto as golas, tiro os óculos e sigo "rio" acima até, depois de uma curva, ver um puto abrigado por um guarda-chuva, sentado numa pedra que a chuva não chegou a molhar, a dobrar cuidadosamente um papel e a escrever "vem ter comigo", antes do papel ganhar forma e ele o colocar no ribeiro de água turva que passa neste pedaço de terra.
Vejo o barco seguir e ele, curioso, dá-me o guarda-chuva e diz-me, "vou ver onde eles passam".
Esqueceu-se de umas folhas, sento-me na pedra seca, guarda-chuva entre o ombro e a cabeça, dobro as folhas de papel e escrevo "vem ter comigo" antes de o colocar no ribeiro...
Fico a acompanhar o movimento e quando levanto o olhar, alguém caminha para mim, de olhos semicerrados pela chuva, golas levantadas e mãos nos bolsos.
O Sol vai aquecendo lentamente e timidamente, apesar do periélio, a manhã de Inverno que se faz amanhecida aspergindo luz encostas acima até se encontrar com a hora de almoço. Vou caminhando lentamente, por vontade e necessidade, com as mãos nos bolsos, por vontade e necessidade ainda, pelo emparedado caminho que me habituei a gostar como a pele que permite manter íntegra a amálgama carnal que piloto enquanto habito neste orb.
O mundo parece mais pequeno, agora, os muros mais baixos e a distância de mim à minha própria sombra vai subindo, sem que isso signifique que a escuridão projectada esteja mais longe da luz desejada.
Concentro os passos em planos de três, vá-se lá saber porquê, um, dois, três, reinicia, um, dois, três, reinicia, sem qualquer motivo aparente e na tentativa de descobrir uma razão, dou por mim a pensar no ditado que três foi a conta que deus fez, por isso, nesta matematicalidade talvez exista um sentido que não descobri.
Embora as ruas se concentrem inalteráveis, é impossível não perceber que existe uma dificuldade maior em altivar o caminhante, como o fazia antes, desenvoltamente, a cada passada, erguendo-se silenciosamente acima dos muros e subindo, sempre, transformando o passeio num constante futuro que se visiona apenas quando se é criança.
Hoje, sábado, domingo?, que dia é hoje?
O Sol aquece e ilumina, a minha sombra persegue-me, as mãos nos bolsos do casaco de malha. Olho para o lado e cumprimento, como sempre, a trejeito tímido, uma e outra pessoa, jovem antes, velha agora, bom dia ou boa tarde, boa noite raramente porque apesar de solarengo, a noite quando se destapa e sai da cama com firmeza chega fria como o olhar de muita gente que ainda não amanheceu.
Sem que me aperceba, tacteando a parede, vem atrás de mim uma criança. Devo levar uns bons dez metros de adianto e, ao perceber que vem distraída, paro a marcha e olho para trás. Traz um sorriso tranquilo, um olhar indagador e as mãos a fazerem cócegas a pequenos tufos de musgo ainda orvalhados apesar do Sol. Quando está prestes a chegar até mim afasto-me, talvez eu pareça invisível a uma criança, mas não o sendo, há que ter a preocupação de não atrapalhar a marcha de quem no presente se move tendo como futuro a próxima fenda entre pedras do muro que ladeiam o caminho ou o mais confortável tudo.
Sigo, a pé, atrás dela.
Bom dia aqui, bom dia ali, assobio silenciosamente meia dúzia de músicas que gosto. O caminho vai fazendo-se normalmente, o Sol aquecendo a destapada cabeça e a inusitada criança no seu caminho passa a ser a minha curiosidade.
Percorro os seus mesmos passos e, por vezes, quando não há casas a espreitar, afago um e outro tufo de musgo, ficando depois a saborear com o tacto a água um pouco mais densa que ficou no indicador e polegar.
O percurso termina quando o vejo parar. Olha para trás, vê-me, sorri e estende a mão para mim. Aparentemente sem saber das novidades perigosas deste belicista mundo, sem qualquer receio de um adulto, faz sinal para continuar em direcção a ele e ao chegar à sua beira, estendo o braço e ao tocar na sua cândida e alva mão, sinto apenas o húmido toque de um musgo verde escuro que deixa na imaginação um dia de Sol por cima do nevoeiro que, por momentos, se interpõe entre mim e a janela, mas apenas por momentos, pois ainda que em pé, em casa, a espreitar o cinzento nevoeiro por detrás do vidro, onde a esforçada respiração se condensa a cada baforada de um calor que ainda não esmoreceu. Ainda.
Pisco os olhos. Faço de conta que o húmido nos dedos não é do vapor de água que acabei de limpar, mas sim do musgo que aquela criança desejou que eu conhecesse e, rapidamente, atrás agora da cortina, piscando novamente os olhos sem desvanecer a visão, o Sol nasce de novo e a manhã apresenta-se radiosa e radiante, por vontade da necessidade.
Perdido agora, desabituado ao vai e vem daquilo que não volta, descanso o olhar encostado a um pilar, enquanto vejo o rio de água borbulhando pelos paralelos.
Há uma pequena folha que passa.
Depois um barco de papel.
De seguida vários.
Levanto as golas, tiro os óculos e sigo "rio" acima até, depois de uma curva, ver um puto abrigado por um guarda-chuva, sentado numa pedra que a chuva não chegou a molhar, a dobrar cuidadosamente um papel e a escrever "vem ter comigo", antes do papel ganhar forma e ele o colocar no ribeiro de água turva que passa neste pedaço de terra.
Vejo o barco seguir e ele, curioso, dá-me o guarda-chuva e diz-me, "vou ver onde eles passam".
Esqueceu-se de umas folhas, sento-me na pedra seca, guarda-chuva entre o ombro e a cabeça, dobro as folhas de papel e escrevo "vem ter comigo" antes de o colocar no ribeiro...
Fico a acompanhar o movimento e quando levanto o olhar, alguém caminha para mim, de olhos semicerrados pela chuva, golas levantadas e mãos nos bolsos.
2016-01-30
2016-01-27
Tento perceber em que lado de mim quer a vida que eu viva.
Se pelo saltitar pardalesco de nuvem em nuvem, se pelo nebular saltitado de pardal em pardal.
Aqui já nem vive o bem, nem se amortalha o mal.
Quando a vida tenta perceber de que lado vivo, respondo-lhe no calado grito do que escrevo, a vida se vive em mim habita no horizonte que construo a cada piscar de olhos, não há lugar para dimensões quando o infinito é da cor do universo que finda.
Há tempo, ainda?
(fragmento I de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
(fragmento I de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
2016-01-26
Tenho que esperar que o futuro adormeça, para só aí poder tirar-lhe da fronte, em silêncio, a madeixa que se cola à sua vida e o faz pensar ser algo a ter. Ganha o futuro e eu, calado, à espera que acorde e eu possa fingir dormir à revelia da rotação sobre um despossuído eixo. Translado-me e por aqui me deixo.
(fragmento II de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
(fragmento II de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
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