2016-02-21
Molhou-me Agosto
no despertado mareado da manhã
a encriptada onda
na espuma alva de ontem
esbatida aos meus pés
amanhã,
molhou-me
Agosto
ao encontro do peito
turbilhado pela terra árida arada
a rebeldia da semente
escorrendo correndo
no labor em minhas mãos feito
temperado, eu, com travo de nada,
molhou-me Agosto
a tempo do cair das estrelas esbatidas no término da tarde
eis-me em terras de suor
onde o dia se expele e arde,
com mãos frias
palavras criadas na clausura do silêncio
de tudo nada tentando
à noite que se dorme
de vez em quando, de vez em quando,
molhou-me Agosto
e na placidez da urze de Inverno
onde neva a vida a meio tom
molhou-me, uma vez mais, Agosto
talvez para me fazer recordar
um dia
também eu fui bom.
2016-02-15
2016-02-14
Pi(ão)
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
É impossível não olhar para as crianças e sorrir convencido que se não crescerem serão o futuro. Mas temo, temo pelos pais (e que legitimidade tenho eu?), pelo sistema de deseducação, pela sociedade que lhes vai pedir tudo aquilo que eles não precisam. Mas, para já, ainda longe da idade de espreitarem as etiquetas das roupas, embora a idade das marcas e tipos de telemóveis tenha vindo a diminuir, vão sentando-se no chão, atirando uns piões moderníssimos (que a TV lhes vai vendendo), rindo-se das solas dos chinelos mais desgastadas, o joelho que se apoia no empedrado chão e se esfola, os risos, tudo vai ecoando pela entrada da tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.
Fecho a porta do carro, pé na embraiagem, ligo-o, puxo o cinto de segurança num gesto automatizado e destravo-o, nada caiu, óptimo. A rádio, perdão, as rádios, debitam (vomitam) as mesmas músicas, as mesmas notícias, hoje nem a música clássica me apetece ouvir e os CD's são também os mesmos, sempre. Desligo o rádio, nada caiu do carro, óptimo. Arranco e vou retirando ruídos e barulhos, um a um, até sair toda a capa encardida e lodosa que se foi entranhando ao longo de um dia e ficar apenas o som dos putos a atirar os peões. De repente é como se a meu lado surgisse um puto, calções gastos e joelhos esfolados, com um baraço na mão e, na outra, um pião de madeira, ouvindo o som que a minha memória vai debitando, os piões de plástico e metal a zunirem no chão, a claquearem uns nos outros e, ele, ali, esbugalhado, sem saber como ali foi parar e sem saber o que fazer com o pião que tem na mão, de madeira, com aquela ponta de metal frio, que faz cócegas quando rodopia velozmente na palma da mão.
É pouco provável chegar a casa e ligar a televisão.
A futilidade hoje em dia parece grassar, espalhar-se como uma doença. Já não chega aquela que nasce em nós e que, na sua dose de erva daninha aceitável, se tolera, mas ainda se tem que receber, quase forçadamente, doses e doses de vazio, de sons articulados sem qualquer pejo pelo que se diz, com o único objectivo de sharingar, de ganhar espaços e audiências. Quando mais cruel e fria, quanto mais impacto aquele soco invisível nos causar melhor, quanto mais a pessoa se ache vítima, ainda que por simpatia, do que lhe é fornicado aos ouvidos melhor. E este movimento replica-se, em casa, na rua, nos transportes, no trabalho, quanto mais impacto, quanto mais visceral a anunciação melhor e assim nos vamos alimentando, de vísceras e vazio, até percebermos que, afinal, quando pensávamos estar a comer, estávamos a dar de fome a quem de tudo, até dos sonhos, se apodera lentamente.
E é assim, belicamente, que vou declarando morte ao vazio.
Na minha trincheira só cabem umas côdeas, pão, boroa, regueifa, seja lá o que for, água, uma licorada bem preparada, seja lá qual for, e uns quantos piões, amanhados ao canto.
Mantenho a cabeça baixa, nunca se sabe o que poderá surgir por aí, o tempo vai quente, consta que vai ser pior do que foi, se for mais quente, foi pior, se for mais frio, foi ainda pior, restam-me as nuvens, o Sol, a Lua, as estrelas e as fotografias de todos os bocadinhos de pessoas com gente dentro que vou guardando, emoldurando, atafulhando o que sou porque tenho medo, vá-se lá saber porquê, de deixar algum espaço de vago onde o vazio possa vir e fazer lá seu visceral trono.
Chego a casa. Já não recordo de onde saí, por onde passei, o que vi. Estaciono na rua, desligo o carro, nada caiu, óptimo. Coloco novamente a chave na ignição para fechar os vidros, vão subindo e chiando, como que resmungando e compreendo-os, afinal, quando fechados são eles que levam com o barulho do vazio. Tiro a chave, engato o carro, puxo o travão de mão, nada caiu, óptimo.
Saio ainda a tempo de ouvir a sirene dos bombeiros a baixar o tom, cansada dos constantes avisos de risco elevado de incêndio que lhe fazem prever noites de arreliação e esforço em levantar da cama os já cansados corpos dos bombeiros. Já depois de fechar a porta vejo-o.
Abro novamente o carro. No banco do passageiro um pião e o baraço, desembaraçado, desenleado, escorrido do banco até ao chão.
O correio nada deixou, entro no prédio, fecho a porta com cuidado e vou subindo os degraus enquanto tacteio aquele bocado de madeira torneado pelas mãos de alguém ou de ninguém, que embora possamos conhecer que o torneou, poderá esse torneador não se saber.
Entro em casa, pouso chaves, carteira, pão, trocados, tiro os sapatos da forma que a minha mãe sempre disse para não os tirar e vou andando até chegar à sala.
Sento-me no sofá, inclino-me e pouso o pião no chão, agarro o baraço, encosto-me e fecho os olhos para me deixar sorrir enquanto os sons dos putos, os risos, tudo vai ecoando pelo final de tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.
2016-02-13
2016-02-07
De torga em torga
Crónica de domingo na Bird Magazine.
O frio agarra-se às pernas enquanto
caminho, parece um noviço gato ronronando, de cauda levantada, com olhos
amarelos e rasgados, atrasando-me os passos no seu movimento de infinito ao
redor de cada perna.
Desapegado do gato, que parece ter
desistido de ronronar e me segue em passo apressado de gato, que mesmo
apressado nunca é deveras rápido, vou caminhando e caminhado subindo e descendo
pequenas e grandes pedras incrustadas no solo como se fossem grandes e
preciosas gemas colocadas num anel que se oferecerá ao anelar dedo de uma
amante, baixo a cabeça para ver curiosas formações de erva verde e galhos secos
já mortos que o vento se encarregou de amontoar no vale em v fechado entre duas
rombas e gordas pedras.
Passo por um amontoado de gente que se
acotovela e estica o pescoço, erguendo a cabeça e espreitando para a frente
como se a vida fosse um livro semi aberto por onde todos queiram ver sem se
preocuparem em ler. Contorno-as facilmente e, curiosamente, sem que me vissem
passar por elas, deter-me por segundos, deixo-as para trás agarradas que estão
ao temor de não se saberem ler ou escrever, um livro ou o próprio livro que são.
O gato ficou para trás, ronronado por
um petiz, subindo para as pernas fletidas do garoto e aninhando-se na mão
quente e protectora que é o amor puro e irreflectido de uma criança.
O frio, o vento e agora esta morrinha
que me obriga a tirar os óculos para não ser apenas uma face especada atrás de
uma vidraça no Inverno, atrasam-me o passo dorido e fazem-me inevitavelmente
parar ao fim de alguns momentos e outros tantos passos lentos, afogueado, com
as mãos nas cruzes e a suplicar que no suplício carnal eu me veja
miraculosamente livre do apoquentado mal. Olho para o lado e alguém está
igualmente parado no caminho. Na esquina entre a dor e o desespero há sempre
alguém à espera de contornar a vida com um joelho e dois braços fortes sobre os
ombros parando a vida à entrada do peito. Reconheço-o e a medo solto um lauto
bom dia e daquela face funda onde orbitam dois berlindes escuros sai apenas uma
espécie de suspiro em forma de olhar, pede-me um joelho e dois braços fortes
sobre os ombros, parando a vida à entrada do peito. Eu? Eu nem sei do que sou
feito! Respondo. E ele, contrafeito, ouvindo alguém chamar ao fundo acima do
vento pautado pelo mundo, Oh Ti’Alma Grande!, levanta-se, esconde o olhar,
guarda o sorriso atrás do silêncio e desce os penedos como se tentasse libertar
de um punhado de medos.
Refeito e rarefeito, começo a caminhar
não sem antes ver duas crianças ao colo de uma outra, quase adolescente,
descendo o emparedado pedaço de terra sulcado pela mão de quem não se sabe
aluvião. Logo a seguir mais petizada corre embalada pela gravidade e a
despreocupação de ainda não ser medida pela idade, de olhos esbugalhados, tezes
distintas perfilhadas apenas pelos salgueiros ou dois corpos outrora em
braseiros, entre fetos e abetos, narizes avermelhados e secos e longos fios de
ranho agarrados à cara quase chegando ao limite em que a cara se agarra ao
cabelo. Atrás, não muito, vem ventre prenhe de longa idade e de uma vida de
afogueado receio, “não surja um que mos queira”, reza, enquanto com os braços
amarra mais o bebé de encontro ao peito, lançando-me o olhar desprendido que
por entre rugas busca ainda, na ignorância, a ausência que se fez infância.
As fragas ganham vida agora. Eu, que já
nem vejo a hora, começo a ter dificuldades em caminhar, o céu escurece pelo dia
que aí vem pintalgado de nuvens negras que imagino neve ser, pelo frio que me
faz tremer. Ganho alento ao ver uma ermida minúscula erguida ali à face da
estrada como se os milagres caminhassem de mão dada com o abandono e cansaço,
quase como as letras que faço, e esperassem quem de caminhado se cansou e ali
aos pés da santidade deixasse cair uma vida inteira vivida apenas pela metade.
As pernas abrem-se, salvo seja, pelos passos que me obrigo dar, de metro em metro,
até passar pelo demo, vade-retro!, e me deixar desiludir pelo que pensei ser o
átrio abandonado de uma fé, afinal, onde pensei descansar, já lá gente que dá
de si a pedir dos outros, envolto no frio para não deixar sair o calor, aquece
as mãos ao rubor, daquilo que arde e daquilo que se vive, numa natividade que
me emudece e faz pensar, jamais, conseguiremos unir uma santíssima trindade porque
de santo e louco nem a nós deu a vida tão pouco, para poder sairmos arrepiados
pelo destino a caminhar e antes de pedir, ter quem nos possa dar.
Percorro uns valentes metros, de
distância e de peito feito, soluço e escondo umas poucas de lágrimas que me
vidram a cara de encontro ao frio que neva já. Para trás os passos velhos de um
velho que entre o destino e a chegada conseguiu encontrar uma morada, quente,
entre o profano e o sagrado que o habita, vai soprando o vento de encontro à
alma fechada, até encontrar uma frincha por onde corra e lhe chame o nome,
Garrincha.
Já nada passa por mim, creio ter
encontrado o meu percurso. Dizem-me que daqui, nem água mole em pedra dura, de
tanto bater já nada se fura, vejo o teu corpo na neblina que parece emanar da
terra, como se fosses erva rasteira forte e perene a agitar ao vento não pela
fragilidade dos teus ramos face à intempérie, mas porque és tu, oh torga!, quem
no vento comanda os destinos e sem temores a própria vida se abranda, como o
mundo humildificado e ditoso se prostra ao entrar no que chamaste de maravilhoso.
Sento-me ao teu lado.
Fazes-me sinal para olhar para baixo,
mas eu não vejo o rio, daqui onde espreito há apenas flocos de frio.
Sorris e colocas a mão no meu joelho.
Dizes que isto, o joelho, deve ser apenas para tocar o chão em admiração, rimas
e sorris, vergado à telúrica santidade do solo que nos faz ventres prenhes de
humanidade.
Mestre, não sei o que hei-de escrever,
confesso, após largos minutos contigo em silêncio meditado. Tu olhas-me com
esse sorriso que brota de cada ruga que nunca sorriste numa crepuscular ausência
de som, apoias as mãos na pedra, afastas-te de mim para te inclinares sobre o
lado esquerdo e pousares a cabeça nas minhas pernas cansadas.
Entre a flor e rocha deixo as mãos
caírem no teu cabelo ralo. Sinto a aspereza da urze vergada ao peso das
minúsculas flores e saboreio pela primeira vez a paisagem sem dores.
Olhas-me e como se não precisasse de
candeias, fugindo de quem apaga as estrelas, fechas os olhos e, pela primeira
vez, pelos cantos do mundo por onde escorre a vida, sem nascente, sem foz,
escuto o borbulhar das palavras que me suspiraste a cada página e ouço, clara,
a tua voz.
2016-02-02
Acabo de colorir o mundo com cor de tangerina. Vai-se o vento e cai-me aos pés, quase como quem se ensina, e prostrado ergue-me o olhar como se eu, vagueante, pudesse além do soçobrado dar do que não tenho e me mingua, como uma trave de carvalho, queimada, como a pessoa sem olhar, de silêncio queimada.
2016-01-31
Vem ter comigo
Crónica de domingo na Bird Magazine
O Sol vai aquecendo lentamente e timidamente, apesar do periélio, a manhã de Inverno que se faz amanhecida aspergindo luz encostas acima até se encontrar com a hora de almoço. Vou caminhando lentamente, por vontade e necessidade, com as mãos nos bolsos, por vontade e necessidade ainda, pelo emparedado caminho que me habituei a gostar como a pele que permite manter íntegra a amálgama carnal que piloto enquanto habito neste orb.
O mundo parece mais pequeno, agora, os muros mais baixos e a distância de mim à minha própria sombra vai subindo, sem que isso signifique que a escuridão projectada esteja mais longe da luz desejada.
Concentro os passos em planos de três, vá-se lá saber porquê, um, dois, três, reinicia, um, dois, três, reinicia, sem qualquer motivo aparente e na tentativa de descobrir uma razão, dou por mim a pensar no ditado que três foi a conta que deus fez, por isso, nesta matematicalidade talvez exista um sentido que não descobri.
Embora as ruas se concentrem inalteráveis, é impossível não perceber que existe uma dificuldade maior em altivar o caminhante, como o fazia antes, desenvoltamente, a cada passada, erguendo-se silenciosamente acima dos muros e subindo, sempre, transformando o passeio num constante futuro que se visiona apenas quando se é criança.
Hoje, sábado, domingo?, que dia é hoje?
O Sol aquece e ilumina, a minha sombra persegue-me, as mãos nos bolsos do casaco de malha. Olho para o lado e cumprimento, como sempre, a trejeito tímido, uma e outra pessoa, jovem antes, velha agora, bom dia ou boa tarde, boa noite raramente porque apesar de solarengo, a noite quando se destapa e sai da cama com firmeza chega fria como o olhar de muita gente que ainda não amanheceu.
Sem que me aperceba, tacteando a parede, vem atrás de mim uma criança. Devo levar uns bons dez metros de adianto e, ao perceber que vem distraída, paro a marcha e olho para trás. Traz um sorriso tranquilo, um olhar indagador e as mãos a fazerem cócegas a pequenos tufos de musgo ainda orvalhados apesar do Sol. Quando está prestes a chegar até mim afasto-me, talvez eu pareça invisível a uma criança, mas não o sendo, há que ter a preocupação de não atrapalhar a marcha de quem no presente se move tendo como futuro a próxima fenda entre pedras do muro que ladeiam o caminho ou o mais confortável tudo.
Sigo, a pé, atrás dela.
Bom dia aqui, bom dia ali, assobio silenciosamente meia dúzia de músicas que gosto. O caminho vai fazendo-se normalmente, o Sol aquecendo a destapada cabeça e a inusitada criança no seu caminho passa a ser a minha curiosidade.
Percorro os seus mesmos passos e, por vezes, quando não há casas a espreitar, afago um e outro tufo de musgo, ficando depois a saborear com o tacto a água um pouco mais densa que ficou no indicador e polegar.
O percurso termina quando o vejo parar. Olha para trás, vê-me, sorri e estende a mão para mim. Aparentemente sem saber das novidades perigosas deste belicista mundo, sem qualquer receio de um adulto, faz sinal para continuar em direcção a ele e ao chegar à sua beira, estendo o braço e ao tocar na sua cândida e alva mão, sinto apenas o húmido toque de um musgo verde escuro que deixa na imaginação um dia de Sol por cima do nevoeiro que, por momentos, se interpõe entre mim e a janela, mas apenas por momentos, pois ainda que em pé, em casa, a espreitar o cinzento nevoeiro por detrás do vidro, onde a esforçada respiração se condensa a cada baforada de um calor que ainda não esmoreceu. Ainda.
Pisco os olhos. Faço de conta que o húmido nos dedos não é do vapor de água que acabei de limpar, mas sim do musgo que aquela criança desejou que eu conhecesse e, rapidamente, atrás agora da cortina, piscando novamente os olhos sem desvanecer a visão, o Sol nasce de novo e a manhã apresenta-se radiosa e radiante, por vontade da necessidade.
Perdido agora, desabituado ao vai e vem daquilo que não volta, descanso o olhar encostado a um pilar, enquanto vejo o rio de água borbulhando pelos paralelos.
Há uma pequena folha que passa.
Depois um barco de papel.
De seguida vários.
Levanto as golas, tiro os óculos e sigo "rio" acima até, depois de uma curva, ver um puto abrigado por um guarda-chuva, sentado numa pedra que a chuva não chegou a molhar, a dobrar cuidadosamente um papel e a escrever "vem ter comigo", antes do papel ganhar forma e ele o colocar no ribeiro de água turva que passa neste pedaço de terra.
Vejo o barco seguir e ele, curioso, dá-me o guarda-chuva e diz-me, "vou ver onde eles passam".
Esqueceu-se de umas folhas, sento-me na pedra seca, guarda-chuva entre o ombro e a cabeça, dobro as folhas de papel e escrevo "vem ter comigo" antes de o colocar no ribeiro...
Fico a acompanhar o movimento e quando levanto o olhar, alguém caminha para mim, de olhos semicerrados pela chuva, golas levantadas e mãos nos bolsos.
O Sol vai aquecendo lentamente e timidamente, apesar do periélio, a manhã de Inverno que se faz amanhecida aspergindo luz encostas acima até se encontrar com a hora de almoço. Vou caminhando lentamente, por vontade e necessidade, com as mãos nos bolsos, por vontade e necessidade ainda, pelo emparedado caminho que me habituei a gostar como a pele que permite manter íntegra a amálgama carnal que piloto enquanto habito neste orb.
O mundo parece mais pequeno, agora, os muros mais baixos e a distância de mim à minha própria sombra vai subindo, sem que isso signifique que a escuridão projectada esteja mais longe da luz desejada.
Concentro os passos em planos de três, vá-se lá saber porquê, um, dois, três, reinicia, um, dois, três, reinicia, sem qualquer motivo aparente e na tentativa de descobrir uma razão, dou por mim a pensar no ditado que três foi a conta que deus fez, por isso, nesta matematicalidade talvez exista um sentido que não descobri.
Embora as ruas se concentrem inalteráveis, é impossível não perceber que existe uma dificuldade maior em altivar o caminhante, como o fazia antes, desenvoltamente, a cada passada, erguendo-se silenciosamente acima dos muros e subindo, sempre, transformando o passeio num constante futuro que se visiona apenas quando se é criança.
Hoje, sábado, domingo?, que dia é hoje?
O Sol aquece e ilumina, a minha sombra persegue-me, as mãos nos bolsos do casaco de malha. Olho para o lado e cumprimento, como sempre, a trejeito tímido, uma e outra pessoa, jovem antes, velha agora, bom dia ou boa tarde, boa noite raramente porque apesar de solarengo, a noite quando se destapa e sai da cama com firmeza chega fria como o olhar de muita gente que ainda não amanheceu.
Sem que me aperceba, tacteando a parede, vem atrás de mim uma criança. Devo levar uns bons dez metros de adianto e, ao perceber que vem distraída, paro a marcha e olho para trás. Traz um sorriso tranquilo, um olhar indagador e as mãos a fazerem cócegas a pequenos tufos de musgo ainda orvalhados apesar do Sol. Quando está prestes a chegar até mim afasto-me, talvez eu pareça invisível a uma criança, mas não o sendo, há que ter a preocupação de não atrapalhar a marcha de quem no presente se move tendo como futuro a próxima fenda entre pedras do muro que ladeiam o caminho ou o mais confortável tudo.
Sigo, a pé, atrás dela.
Bom dia aqui, bom dia ali, assobio silenciosamente meia dúzia de músicas que gosto. O caminho vai fazendo-se normalmente, o Sol aquecendo a destapada cabeça e a inusitada criança no seu caminho passa a ser a minha curiosidade.
Percorro os seus mesmos passos e, por vezes, quando não há casas a espreitar, afago um e outro tufo de musgo, ficando depois a saborear com o tacto a água um pouco mais densa que ficou no indicador e polegar.
O percurso termina quando o vejo parar. Olha para trás, vê-me, sorri e estende a mão para mim. Aparentemente sem saber das novidades perigosas deste belicista mundo, sem qualquer receio de um adulto, faz sinal para continuar em direcção a ele e ao chegar à sua beira, estendo o braço e ao tocar na sua cândida e alva mão, sinto apenas o húmido toque de um musgo verde escuro que deixa na imaginação um dia de Sol por cima do nevoeiro que, por momentos, se interpõe entre mim e a janela, mas apenas por momentos, pois ainda que em pé, em casa, a espreitar o cinzento nevoeiro por detrás do vidro, onde a esforçada respiração se condensa a cada baforada de um calor que ainda não esmoreceu. Ainda.
Pisco os olhos. Faço de conta que o húmido nos dedos não é do vapor de água que acabei de limpar, mas sim do musgo que aquela criança desejou que eu conhecesse e, rapidamente, atrás agora da cortina, piscando novamente os olhos sem desvanecer a visão, o Sol nasce de novo e a manhã apresenta-se radiosa e radiante, por vontade da necessidade.
Perdido agora, desabituado ao vai e vem daquilo que não volta, descanso o olhar encostado a um pilar, enquanto vejo o rio de água borbulhando pelos paralelos.
Há uma pequena folha que passa.
Depois um barco de papel.
De seguida vários.
Levanto as golas, tiro os óculos e sigo "rio" acima até, depois de uma curva, ver um puto abrigado por um guarda-chuva, sentado numa pedra que a chuva não chegou a molhar, a dobrar cuidadosamente um papel e a escrever "vem ter comigo", antes do papel ganhar forma e ele o colocar no ribeiro de água turva que passa neste pedaço de terra.
Vejo o barco seguir e ele, curioso, dá-me o guarda-chuva e diz-me, "vou ver onde eles passam".
Esqueceu-se de umas folhas, sento-me na pedra seca, guarda-chuva entre o ombro e a cabeça, dobro as folhas de papel e escrevo "vem ter comigo" antes de o colocar no ribeiro...
Fico a acompanhar o movimento e quando levanto o olhar, alguém caminha para mim, de olhos semicerrados pela chuva, golas levantadas e mãos nos bolsos.
2016-01-30
2016-01-27
Tento perceber em que lado de mim quer a vida que eu viva.
Se pelo saltitar pardalesco de nuvem em nuvem, se pelo nebular saltitado de pardal em pardal.
Aqui já nem vive o bem, nem se amortalha o mal.
Quando a vida tenta perceber de que lado vivo, respondo-lhe no calado grito do que escrevo, a vida se vive em mim habita no horizonte que construo a cada piscar de olhos, não há lugar para dimensões quando o infinito é da cor do universo que finda.
Há tempo, ainda?
(fragmento I de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
(fragmento I de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
2016-01-26
Tenho que esperar que o futuro adormeça, para só aí poder tirar-lhe da fronte, em silêncio, a madeixa que se cola à sua vida e o faz pensar ser algo a ter. Ganha o futuro e eu, calado, à espera que acorde e eu possa fingir dormir à revelia da rotação sobre um despossuído eixo. Translado-me e por aqui me deixo.
(fragmento II de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
(fragmento II de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
2016-01-24
A nova janela
Crónica de Domingo na Bird Magazine
Espreito as nuvens cinzentas pelas últimas vezes deitado no azul de napa da cama. O mau tempo aligeira-se, ansioso, acredito, por fugir das intempéries em que se transformaram os pensamentos das pessoas.
O Inverno troca rápidos olhares com a Primavera, encolhe os ombros e sacode a cabeça, fazendo cair um nevoeiro lento, que se vai pegando ao início da tarde como se clamasse pela noite, quando todos dormem e nos sonhos dos humanos vivem apenas os medos económicos.
Esforço-me por concentrar os dez minutos do exercício em várias palavras, armazenando em partes da memória pequenas letras que possa, depois, puxar como que por um cordel e vê-las saírem, uma a uma, formando frases. Infelizmente, a sede de sentir faz-me sorver todos os episódios que vou colhendo da plantação de esperanças, causando o deserto de palavras onde vou caminhando em círculos.
Pouso o, aos olhos dos outros bastão, cajado e preparo-me para nova ronda decimal em nova posição. Ao meu lado suspiros, inspiros, expiros, vozes retorcidas pelas bocas descaídas, desesperanças em forma de falência de forças e os assobios, longínquos, de alguém que se transpira como se a meio de uma jorna labutasse, agora que a terra é linóleo e o tubérculo um berlinde esponjoso que se vai espremendo, como o suado e molhado lenço a roçar na testa enquanto uma caneca de tinto se ergueria à boca.
Colocam-me a mão no joelho, perguntam-me se está tudo bem, assusto-me e provoco um sorriso. Habituei-me a olhar para fora, para o céu, a ver ainda que por imaginação o céu azul sobre o nublado tempo e temperamento, a ouvir as cenas de cada episódio e a deleitar-me com os bons dias trocados de gabinete para gabinete, os até amanhã se Deus quiser e as melhoras para todos. Como devo ter todas as constelações gravadas na memória, até as do hemisfério Sul, fito o infinito e sinto-me azul, talvez, da cor do mar por reflectir o que o ascende, e pelos esgares do firmamento vou admirando o que falta descobrir até encontrar tudo de novo.
Ouço o cantar assíncrono, o papel sob a cabeça resvala e cai no chão, ergo-me e vejo-o amparado a um andarilho, o sorriso em meia boca, os olhos que brilham e as vozes que o seguem e rimam, num cantar à aniversariante auxiliar pelas suas quase trinta primaveras. Confesso que me emociono e sorrio também ao ver a ruborescida cara da menina, no centro do ginásio, a ouvir os aplausos da merecida salva de palmas do final da canção, para a qual me orgulho de ter contribuído.
Terei que encontrar nova janela do que é meu para poder olhar, de novo, o céu.
Deixo que a claridade se crepuscule e permito-me ver as nuvens da mesma forma que me vejo ao entardecer no reflexo do vidro do carro, enquanto me conduzo a casa.
As sombras estremecem porque se começam a ver sem luz e agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários.
Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade.
A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo.
Quão longe poderá estar?
Espreito as nuvens cinzentas pelas últimas vezes deitado no azul de napa da cama. O mau tempo aligeira-se, ansioso, acredito, por fugir das intempéries em que se transformaram os pensamentos das pessoas.
O Inverno troca rápidos olhares com a Primavera, encolhe os ombros e sacode a cabeça, fazendo cair um nevoeiro lento, que se vai pegando ao início da tarde como se clamasse pela noite, quando todos dormem e nos sonhos dos humanos vivem apenas os medos económicos.
Esforço-me por concentrar os dez minutos do exercício em várias palavras, armazenando em partes da memória pequenas letras que possa, depois, puxar como que por um cordel e vê-las saírem, uma a uma, formando frases. Infelizmente, a sede de sentir faz-me sorver todos os episódios que vou colhendo da plantação de esperanças, causando o deserto de palavras onde vou caminhando em círculos.
Pouso o, aos olhos dos outros bastão, cajado e preparo-me para nova ronda decimal em nova posição. Ao meu lado suspiros, inspiros, expiros, vozes retorcidas pelas bocas descaídas, desesperanças em forma de falência de forças e os assobios, longínquos, de alguém que se transpira como se a meio de uma jorna labutasse, agora que a terra é linóleo e o tubérculo um berlinde esponjoso que se vai espremendo, como o suado e molhado lenço a roçar na testa enquanto uma caneca de tinto se ergueria à boca.
Colocam-me a mão no joelho, perguntam-me se está tudo bem, assusto-me e provoco um sorriso. Habituei-me a olhar para fora, para o céu, a ver ainda que por imaginação o céu azul sobre o nublado tempo e temperamento, a ouvir as cenas de cada episódio e a deleitar-me com os bons dias trocados de gabinete para gabinete, os até amanhã se Deus quiser e as melhoras para todos. Como devo ter todas as constelações gravadas na memória, até as do hemisfério Sul, fito o infinito e sinto-me azul, talvez, da cor do mar por reflectir o que o ascende, e pelos esgares do firmamento vou admirando o que falta descobrir até encontrar tudo de novo.
Ouço o cantar assíncrono, o papel sob a cabeça resvala e cai no chão, ergo-me e vejo-o amparado a um andarilho, o sorriso em meia boca, os olhos que brilham e as vozes que o seguem e rimam, num cantar à aniversariante auxiliar pelas suas quase trinta primaveras. Confesso que me emociono e sorrio também ao ver a ruborescida cara da menina, no centro do ginásio, a ouvir os aplausos da merecida salva de palmas do final da canção, para a qual me orgulho de ter contribuído.
Terei que encontrar nova janela do que é meu para poder olhar, de novo, o céu.
Deixo que a claridade se crepuscule e permito-me ver as nuvens da mesma forma que me vejo ao entardecer no reflexo do vidro do carro, enquanto me conduzo a casa.
As sombras estremecem porque se começam a ver sem luz e agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários.
Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade.
A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo.
Quão longe poderá estar?
2016-01-17
Fotografia desvanecida
Crónica de domingo na Bird
Vejo-o apoiado no balcão. Separam-nos poucos meses de idade e muitos, muitos anos de vida separados, mas, ao mesmo tempo, juntos na cumplicidade que fica sempre que deixamos para trás os portões, outrora altos, da escola primária. Desde que o encontrei na fisioterapia, cada qual na sua função, eu de paciente impaciente e ele de benevolente bombeiro, que pensei para mim mesmo em guardar no telemóvel a fotografia de grupo, tirada no 2º ano, ou 2ª classe como prefiro dizer, nos degraus de acesso à porta de entrada da minha querida escola primária.
Noutros anos o, agora grande, balcão onde apoiamos cada um de nós um cotovelo, teria parecido enorme, um pouco como o muro que separava os dois edifícios da mesma escola, onde o desnível e o saltar para chegar em primeiro lugar à fila de distribuição do leite pareciam tarefas dignas dos ainda escassos e poucos afoitos super heróis que a televisão a preto e branco apresentava.
Enquanto o tempo saboreia os cabelos brancos e se lembra de ser menos tempo, vamos respondendo sem falar às perguntas que inevitavelmente os olhos fazem quando se cruzam. Pouco há a dizer que mais do que um olhar, uma palmada nas costas, um aperto de mão firme e sentido e um desviar de olhar das cadeiras repletas de tempos e pessoas cicatrizadas, não sei se pela vida, se pela morte que nalguns casos parece tardar em chegar, não me pareça por falta de vontade, mas porque simplesmente, nalguns casos, parece vir alegre e pacata pela vida acima, cercando e colhendo os dias, um de cada vez, no lento padecimento de um corpo que se carcome por dentro, de dentro para fora, até se escoar o tempo na sua última hora.
Aumento a fotografia no ecrã usando dois dedos. Acredito que ao fazê-lo acaricie a mesma. Faço-o com o cuidado e carinho com que a professora fazia a cada um de nós, pirralhos inocentes, como que chovidos por nuvens de um céu outrora mais perto. Estamos perfilados, três filas em três degraus, meninos, meninas, professora e embora não os consigamos ver, andam por ali a volitar sonhos imensos em forma de corridas em redor da escola, caminhadas longas até casa, caminhos de terra e regos fundos de água seca, milheirais e laranjeiras.
Despeço-me, a vida encarrega-se certamente de nos cruzar mais à frente, nem que seja noutros igualmente volvidos 34 ou 35 anos, tu ficas por aí a escoltar de forma solene andarilhos, bengalas e muletas, suportando corpos de gente que não desiste. Eu vou andando, esforçando-me para não mancar, fazendo de conta que a porta do carro é o postigo que abro para o cãozito sair e vir bater-me nas pernas com o rabo enquanto olha para trás de mim e tenta perceber se é único que me consegue ver. Entro no carro, sento-me com cuidado, vergo-me numa vénia ao volante enquanto acomodo a almofada entre o banco e as costas. Fecho os olhos umas poucas vezes até surgir à minha frente a horizontalidade preferida e adequada para este novo dia azul que se pariu do céu após vários dias cinzentos de chuva, dou à chave contente, o painel ilumina-se, mas os meus olhos estão já na porta da escola, sobe-me o olhar pelas escadas por falta de coragem para o fazer pelas pedras salientes e, depois, alçar a perna sobre a grade, vão lestos pelo recreio, dão duas voltas à escola com os olhos a piscar alternadamente como os carros de polícia da balada de Hill Street, sobem os degraus sem se apoiarem no grosso corrimão de madeira e entram de rompante na sala cheia de ganapos. Estão com os olhos enfiados na sebenta, algumas línguas bailam de um canto da boca para outro, as mãos habituadas a pegarem em carros e caricas ou em bonecas de trapos e noutras mãos a bailar ao som do bom barqueiro, bom barqueiro, deixai-me passar, agarram o lápis e seguem solenemente o tracejado da primeira letra.
Alguém buzina. Entro na auto-estrada, ligo os faróis.
Volta-se o olhar para o caderno e chega a memória, sem cansaço, no requinte dos detalhes, dizendo-me que sim, é verdade que o dois parece-se mesmo com um patinho. Depois riem-se, olhar e memória, da caneta de filtro cor de laranja que utilizei para desenhar sardas na minha própria cara, das fichas de cor azul, dos problemas recortados do livro pelo picotado como pequenos bilhetes para um conhecimento hoje doutrinado.
Alguém me ultrapassa, a deslocação do ar abana o carro.
A fotografia desvanece, desbloqueio o telemóvel, o ecrã ilumina-se e lá estamos todos novamente, alinhados, inocentes e orgulhosos.
Vem a tempo o tempo de me ver acordar com a pequena erva que a professora me coloca no ouvido, enquanto todos os meus colegas se riem da soneca que tirei sobre a carteira de madeira e tampo inclinado. Aperto as mãos no volante com força, como se sentisse a rugosa e áspera mesa, o sulco onde colocava o lápis e o circular buraco no centro onde, soube-o mais tarde, se colocar o tinteiro, coisa passada que a este passado não pertence.
Paro. Desligo o carro. A dor espreita, mas de momento não estou disponível para ela, entretido que estou a pensar na caminhada de logo, à noite, por entre os muros de pedra que vi mingarem enquanto eles me viam crescer, imaginando e sentindo a sacola a bater nas costas, sem qualquer preocupação estética e estilística que assombrasse a igualdade de cada um de nós, putos, nos carreiros que fazíamos com as galochas nos caminhos moles de terra molhada, na esperança de um chã quente quando a mãe abrisse a porta de casa, um pão em forma de flor, a sacola aberta numa cadeira e os livros humedecidos sobre a mesa, as mãos pacientes da matriarca a tirar-nos as calças molhadas, a descalçar as meias e o apertar com as mãos os pés esbranquiçados da humidade que se secou à pele, a roupa pendurada nas costas de uma cadeira virada para o aquecedor a gáz, enquanto um testo tilintava numa dança sobre o tacho e o vapor se levantava com preguiça de subir pela chaminé e ver-se ali, entre o céu e o meu sonho.
Saio do carro, bato a porta, não há ferrolhos ou despreocupações, tudo hoje se fecha e enclausura ao medo do que por aí anda, ainda que não se veja, sendo lá o que seja.
Deito mais um olhar à fotografia e bloqueio o telemóvel, caminhando despreocupadamente com a ignorância do conhecimento que dispenso.
Vejo-o apoiado no balcão. Separam-nos poucos meses de idade e muitos, muitos anos de vida separados, mas, ao mesmo tempo, juntos na cumplicidade que fica sempre que deixamos para trás os portões, outrora altos, da escola primária. Desde que o encontrei na fisioterapia, cada qual na sua função, eu de paciente impaciente e ele de benevolente bombeiro, que pensei para mim mesmo em guardar no telemóvel a fotografia de grupo, tirada no 2º ano, ou 2ª classe como prefiro dizer, nos degraus de acesso à porta de entrada da minha querida escola primária.
Noutros anos o, agora grande, balcão onde apoiamos cada um de nós um cotovelo, teria parecido enorme, um pouco como o muro que separava os dois edifícios da mesma escola, onde o desnível e o saltar para chegar em primeiro lugar à fila de distribuição do leite pareciam tarefas dignas dos ainda escassos e poucos afoitos super heróis que a televisão a preto e branco apresentava.
Enquanto o tempo saboreia os cabelos brancos e se lembra de ser menos tempo, vamos respondendo sem falar às perguntas que inevitavelmente os olhos fazem quando se cruzam. Pouco há a dizer que mais do que um olhar, uma palmada nas costas, um aperto de mão firme e sentido e um desviar de olhar das cadeiras repletas de tempos e pessoas cicatrizadas, não sei se pela vida, se pela morte que nalguns casos parece tardar em chegar, não me pareça por falta de vontade, mas porque simplesmente, nalguns casos, parece vir alegre e pacata pela vida acima, cercando e colhendo os dias, um de cada vez, no lento padecimento de um corpo que se carcome por dentro, de dentro para fora, até se escoar o tempo na sua última hora.
Aumento a fotografia no ecrã usando dois dedos. Acredito que ao fazê-lo acaricie a mesma. Faço-o com o cuidado e carinho com que a professora fazia a cada um de nós, pirralhos inocentes, como que chovidos por nuvens de um céu outrora mais perto. Estamos perfilados, três filas em três degraus, meninos, meninas, professora e embora não os consigamos ver, andam por ali a volitar sonhos imensos em forma de corridas em redor da escola, caminhadas longas até casa, caminhos de terra e regos fundos de água seca, milheirais e laranjeiras.
Despeço-me, a vida encarrega-se certamente de nos cruzar mais à frente, nem que seja noutros igualmente volvidos 34 ou 35 anos, tu ficas por aí a escoltar de forma solene andarilhos, bengalas e muletas, suportando corpos de gente que não desiste. Eu vou andando, esforçando-me para não mancar, fazendo de conta que a porta do carro é o postigo que abro para o cãozito sair e vir bater-me nas pernas com o rabo enquanto olha para trás de mim e tenta perceber se é único que me consegue ver. Entro no carro, sento-me com cuidado, vergo-me numa vénia ao volante enquanto acomodo a almofada entre o banco e as costas. Fecho os olhos umas poucas vezes até surgir à minha frente a horizontalidade preferida e adequada para este novo dia azul que se pariu do céu após vários dias cinzentos de chuva, dou à chave contente, o painel ilumina-se, mas os meus olhos estão já na porta da escola, sobe-me o olhar pelas escadas por falta de coragem para o fazer pelas pedras salientes e, depois, alçar a perna sobre a grade, vão lestos pelo recreio, dão duas voltas à escola com os olhos a piscar alternadamente como os carros de polícia da balada de Hill Street, sobem os degraus sem se apoiarem no grosso corrimão de madeira e entram de rompante na sala cheia de ganapos. Estão com os olhos enfiados na sebenta, algumas línguas bailam de um canto da boca para outro, as mãos habituadas a pegarem em carros e caricas ou em bonecas de trapos e noutras mãos a bailar ao som do bom barqueiro, bom barqueiro, deixai-me passar, agarram o lápis e seguem solenemente o tracejado da primeira letra.
Alguém buzina. Entro na auto-estrada, ligo os faróis.
Volta-se o olhar para o caderno e chega a memória, sem cansaço, no requinte dos detalhes, dizendo-me que sim, é verdade que o dois parece-se mesmo com um patinho. Depois riem-se, olhar e memória, da caneta de filtro cor de laranja que utilizei para desenhar sardas na minha própria cara, das fichas de cor azul, dos problemas recortados do livro pelo picotado como pequenos bilhetes para um conhecimento hoje doutrinado.
Alguém me ultrapassa, a deslocação do ar abana o carro.
A fotografia desvanece, desbloqueio o telemóvel, o ecrã ilumina-se e lá estamos todos novamente, alinhados, inocentes e orgulhosos.
Vem a tempo o tempo de me ver acordar com a pequena erva que a professora me coloca no ouvido, enquanto todos os meus colegas se riem da soneca que tirei sobre a carteira de madeira e tampo inclinado. Aperto as mãos no volante com força, como se sentisse a rugosa e áspera mesa, o sulco onde colocava o lápis e o circular buraco no centro onde, soube-o mais tarde, se colocar o tinteiro, coisa passada que a este passado não pertence.
Paro. Desligo o carro. A dor espreita, mas de momento não estou disponível para ela, entretido que estou a pensar na caminhada de logo, à noite, por entre os muros de pedra que vi mingarem enquanto eles me viam crescer, imaginando e sentindo a sacola a bater nas costas, sem qualquer preocupação estética e estilística que assombrasse a igualdade de cada um de nós, putos, nos carreiros que fazíamos com as galochas nos caminhos moles de terra molhada, na esperança de um chã quente quando a mãe abrisse a porta de casa, um pão em forma de flor, a sacola aberta numa cadeira e os livros humedecidos sobre a mesa, as mãos pacientes da matriarca a tirar-nos as calças molhadas, a descalçar as meias e o apertar com as mãos os pés esbranquiçados da humidade que se secou à pele, a roupa pendurada nas costas de uma cadeira virada para o aquecedor a gáz, enquanto um testo tilintava numa dança sobre o tacho e o vapor se levantava com preguiça de subir pela chaminé e ver-se ali, entre o céu e o meu sonho.
Saio do carro, bato a porta, não há ferrolhos ou despreocupações, tudo hoje se fecha e enclausura ao medo do que por aí anda, ainda que não se veja, sendo lá o que seja.
Deito mais um olhar à fotografia e bloqueio o telemóvel, caminhando despreocupadamente com a ignorância do conhecimento que dispenso.
2016-01-10
Desabado
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Porque o tempo não aguarda, simples pelo facto de quem não tem guarda, vai ribombando neste fim de tarde, fazendo lembrar o inverno que já chegou onde nunca saiu, da mesma forma que estremece os vidros das janelas da sala, que olham para mim com legítima inveja, ao verem-me deitado no sofá, ausentes sequer da noção da dor que me aflige.
O vento anuncia-se mesmo após fechar os estores, ondula-os como se fossem as cristas encapeladas de um mar invisível cujas ondas se deixam cair esparramadas na areia que imagino ser o chão onde descansa a minha chávena de chã.
Permito-me desligar toda a interferência que se acomete aos sentidos, como se tudo fosse fonte emissora de pensamentos que se pretendem incutir. Hoje, afianço-me, serei eu e eu mesmo. Embora a televisão me olhe, escura, o computador descanse e arrefece nas minhas pernas, no silêncio que consigo ouvir no espaço entre as pingas grossas de chuva que caem lá fora, nos paralelos, e nas ouras gotas aglomeradas em poças de água, há uma cacofonia de pensamentos que nem sabia possuir. Parecem pequenos cachorros carentes, latindo e arfando, saltando na sua minusculidade na tentativa de um dono zeloso os segurar, mas como tento não os alimentar, depressa me mordem as calças primeiro e, depois, tentam a carne. Metaforicamente, claro, não ferem a carne, mas apercebo-me, lentamente, após vê-los aparentemente desistir enquanto se deitam cansados na areia do meu chão, que não resisto em olhar para eles, com pena, e é nesse instante que se transformam novamente apercebidos que estão que eu lhes voltei a atenção.
Passo algum tempo nesta admiração de mim mesmo, as cogitações que nem sabia possuir em mim. Agora, estão silenciosamente transformados em grãos de areia. Após vários minutos apercebi-me que poderia deixar o vento jogar o seu jogo e, a cada batida do estore, a cada assobio destemido na esquina do prédio, correndo e vagando nas ondas que o trovão faz passar pelos buracos do entreaberto estore em forma de luz cega, a atenção dada aos pequenos, irreverentes e incautos pensamentos esmoreceu-se, transformando-os no que são, areia no meu chão.
A cada abandono de mim há um desabamento.
Cai-me aos pés tudo aquilo que não necessito, a dor, a alegria, o passado e o futuro.
Por momentos em que penso que o tempo se resume a ser o exacto instante em que o relâmpago rasga a tarde numa violência que apercebo, posteriormente, ser um profundo acto de amor por si mesmo, na descarga eléctrica que une o céu e a terra, por momentos, dizia, antes de divagar nas metáforas que alimento como pequenos peixes num aquário oceanado, sinto que o tempo dimensionado que nos faz envelhecer e perceber sem sairmos de nós mesmos que parte de nós mora em partes de outros para. Assim. Para. Sem mais nem menos.
Nesse instante, sem tempo e sem medo, é quando me permito sair deste casulo amorfanhado em roupa, oscilar sobre a areia do meu chão quase desabado, e ir lá fora, enxotar com um dedo uma gota de chuva parada mesmo à minha frente, soprar um punhado de gotas e ir seguindo caminho por entre as gotículas aspergidas pelo cinzento nublado.
O vento arregala os olhos em admiração, pisco-lhe o olho e sorrio, malandro e desafiador, e sou capaz de o sentir irado e impotente por aquela imponente herculiedade não me poder tocar agora que também eu sou uma espécie de vento.
Chego ao relâmpago, ao raio, está parado à minha frente como uma imensa chama de uma invisível vela a arder imóvel no topo de um pavio feito de nada, apenas ar. Vejo o seu esgar de esforço, para que se estenda e alcance o chão. O céu parece não esperar e, curiosamente, ainda que parado o tempo, chuva, vento e lamento, ao olhar para cima vejo um céu azul com níveas nuvens espaçadas e a volitarem rapidamente como numa tarde ventosa de uma Primavera que nunca vi florir. Desço, estarei agora a pouco mais de um metro do chão quando alcanço o final do relâmpago. Olho novamente para cima e o raio desaparece e desvanece-se na claridade do antagónico céu azul. Volto o olhar para o chão, sorrio com o efeito tsunami de uma minúscula gota de chuva suspensa, metade gota, metade poça no solo enrugado. Coloco uma mão na água, mergulho-a poucos centímetros e encontro o chão. Levanto a cabeça e o meu olhar está à altura do que me apresso a comparar com um relâmpago saído da mão de Zeus. A medo, aproximo a outra mão do azul relampejado e sinto uma amenosidade que me envolve, estou a milímetros, aquela luz bruxuleante, fluorescente, que ilumina sem ferir o olhar numa espécie de bailado hipnótico entre o mundo e fundo… Ganho coragem e aperto a mão em torno do raio. Há todo um calor que me trespassa o corpo, olho para baixo e tenho tempo apenas para ver o meu reflexo na poça onde imóveis ondas do choque das gotas vão diminuindo até serem apenas água numa tarde chuvosa de sábado.
Abro os olhos, o único tique taque que ouço é o bater do meu coração despassado no peito, o vento atira-se agressivamente contra o estore, como uma onda raivosa bate na pegada do pé que retirei a tempo antes de me molhar. Espalhados pelo tapete estão os restos dos pensamentos abandonados, sem que os alimente, aguardando que os chame, mais calmos agora, para dentro do que sou.
O sábado vai caindo com a chuva, deixo-me estar no sofá acreditando que a realidade se desenrola mais facilmente que a estupidificação que a televisão tenta fazer chegar a que não ouve, com vários canais e frequências.
Outro raio cai.
Permaneço aqui, deitado, desabado.
Pareceu-me ouvir no fulgir da luz relampejada, obrigado.
Porque o tempo não aguarda, simples pelo facto de quem não tem guarda, vai ribombando neste fim de tarde, fazendo lembrar o inverno que já chegou onde nunca saiu, da mesma forma que estremece os vidros das janelas da sala, que olham para mim com legítima inveja, ao verem-me deitado no sofá, ausentes sequer da noção da dor que me aflige.
O vento anuncia-se mesmo após fechar os estores, ondula-os como se fossem as cristas encapeladas de um mar invisível cujas ondas se deixam cair esparramadas na areia que imagino ser o chão onde descansa a minha chávena de chã.
Permito-me desligar toda a interferência que se acomete aos sentidos, como se tudo fosse fonte emissora de pensamentos que se pretendem incutir. Hoje, afianço-me, serei eu e eu mesmo. Embora a televisão me olhe, escura, o computador descanse e arrefece nas minhas pernas, no silêncio que consigo ouvir no espaço entre as pingas grossas de chuva que caem lá fora, nos paralelos, e nas ouras gotas aglomeradas em poças de água, há uma cacofonia de pensamentos que nem sabia possuir. Parecem pequenos cachorros carentes, latindo e arfando, saltando na sua minusculidade na tentativa de um dono zeloso os segurar, mas como tento não os alimentar, depressa me mordem as calças primeiro e, depois, tentam a carne. Metaforicamente, claro, não ferem a carne, mas apercebo-me, lentamente, após vê-los aparentemente desistir enquanto se deitam cansados na areia do meu chão, que não resisto em olhar para eles, com pena, e é nesse instante que se transformam novamente apercebidos que estão que eu lhes voltei a atenção.
Passo algum tempo nesta admiração de mim mesmo, as cogitações que nem sabia possuir em mim. Agora, estão silenciosamente transformados em grãos de areia. Após vários minutos apercebi-me que poderia deixar o vento jogar o seu jogo e, a cada batida do estore, a cada assobio destemido na esquina do prédio, correndo e vagando nas ondas que o trovão faz passar pelos buracos do entreaberto estore em forma de luz cega, a atenção dada aos pequenos, irreverentes e incautos pensamentos esmoreceu-se, transformando-os no que são, areia no meu chão.
A cada abandono de mim há um desabamento.
Cai-me aos pés tudo aquilo que não necessito, a dor, a alegria, o passado e o futuro.
Por momentos em que penso que o tempo se resume a ser o exacto instante em que o relâmpago rasga a tarde numa violência que apercebo, posteriormente, ser um profundo acto de amor por si mesmo, na descarga eléctrica que une o céu e a terra, por momentos, dizia, antes de divagar nas metáforas que alimento como pequenos peixes num aquário oceanado, sinto que o tempo dimensionado que nos faz envelhecer e perceber sem sairmos de nós mesmos que parte de nós mora em partes de outros para. Assim. Para. Sem mais nem menos.
Nesse instante, sem tempo e sem medo, é quando me permito sair deste casulo amorfanhado em roupa, oscilar sobre a areia do meu chão quase desabado, e ir lá fora, enxotar com um dedo uma gota de chuva parada mesmo à minha frente, soprar um punhado de gotas e ir seguindo caminho por entre as gotículas aspergidas pelo cinzento nublado.
O vento arregala os olhos em admiração, pisco-lhe o olho e sorrio, malandro e desafiador, e sou capaz de o sentir irado e impotente por aquela imponente herculiedade não me poder tocar agora que também eu sou uma espécie de vento.
Chego ao relâmpago, ao raio, está parado à minha frente como uma imensa chama de uma invisível vela a arder imóvel no topo de um pavio feito de nada, apenas ar. Vejo o seu esgar de esforço, para que se estenda e alcance o chão. O céu parece não esperar e, curiosamente, ainda que parado o tempo, chuva, vento e lamento, ao olhar para cima vejo um céu azul com níveas nuvens espaçadas e a volitarem rapidamente como numa tarde ventosa de uma Primavera que nunca vi florir. Desço, estarei agora a pouco mais de um metro do chão quando alcanço o final do relâmpago. Olho novamente para cima e o raio desaparece e desvanece-se na claridade do antagónico céu azul. Volto o olhar para o chão, sorrio com o efeito tsunami de uma minúscula gota de chuva suspensa, metade gota, metade poça no solo enrugado. Coloco uma mão na água, mergulho-a poucos centímetros e encontro o chão. Levanto a cabeça e o meu olhar está à altura do que me apresso a comparar com um relâmpago saído da mão de Zeus. A medo, aproximo a outra mão do azul relampejado e sinto uma amenosidade que me envolve, estou a milímetros, aquela luz bruxuleante, fluorescente, que ilumina sem ferir o olhar numa espécie de bailado hipnótico entre o mundo e fundo… Ganho coragem e aperto a mão em torno do raio. Há todo um calor que me trespassa o corpo, olho para baixo e tenho tempo apenas para ver o meu reflexo na poça onde imóveis ondas do choque das gotas vão diminuindo até serem apenas água numa tarde chuvosa de sábado.
Abro os olhos, o único tique taque que ouço é o bater do meu coração despassado no peito, o vento atira-se agressivamente contra o estore, como uma onda raivosa bate na pegada do pé que retirei a tempo antes de me molhar. Espalhados pelo tapete estão os restos dos pensamentos abandonados, sem que os alimente, aguardando que os chame, mais calmos agora, para dentro do que sou.
O sábado vai caindo com a chuva, deixo-me estar no sofá acreditando que a realidade se desenrola mais facilmente que a estupidificação que a televisão tenta fazer chegar a que não ouve, com vários canais e frequências.
Outro raio cai.
Permaneço aqui, deitado, desabado.
Pareceu-me ouvir no fulgir da luz relampejada, obrigado.
2016-01-03
És perança
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
“És perança”
A esperança parece espreitar de cada vez que as nuvens soltam as mãos e, afastando-se, deixam que o céu noturno e escuro exiba a escuridão polvilhada de luz, como se uma atenta e bondosa cozinheira, de avental mascavado de sabores e cores de outras receitas, afundasse uma mão na bacia onde descansam infinitos flocos de fé e a tirasse, em seguida, fechada e prenhe, com pó a soltar-se acompanhando o movimento do braço como a flamejante cauda de um cometa, para a espalhar sobre a vítrea mesa da cozinha. Estaremos abaixo da mesa, crianças, como que a brincar com os pequenos brinquedos que nos dão adultos, crianças ainda, sem saberem que olhar para cima, acima e por dentro de nós mesmo, é o brinquedo que nos permitirá ter esperança.
Na noite de ano novo, quando as badaladas se vão repetindo ao redor do berlinde azul esverdeado que é o nosso, salpicamos o céu noturno de estrelas que atiramos ao ar, aspirantes de cozinheiros e aprendizes de agricultores, semeando no firmamento uma limitada infinitude de pontos luminosos que ribombam como trovões, fugazes, ascendendo rapidamente como a nossa vontade para bruxulearem no auge e, depois, como os nossos dias em vidas que por aqui perpetuamos, deixando-se cair de costas, levados e lavados pelo vento e pela noite, num pendular e, por vezes, espiraldado movimento, de olhos fechados, com o resto de luz que nos sobra depois da explosão, e com o sorriso típico de criança que vamos esquecendo no percurso, de vida e de faúlha, para cairmos já esmaecidos e invisíveis por tão negros ausentes de luz.
Temos a aspiração de aspirar, por isso vamos querendo foguear artificiamente na noite em que prometemos deixar para trás parte de nós, erguendo-nos do casulo que nos pariu para sermos qualquer espécie de esperança. Mas a esperança, seja pela falta de polvilhadores, seja pela proliferação de profissionais do amedrontamento que pintam o dia que se segue com as mesmas ideias e sonhos urdidos que existiam antes do esperançoso vislumbre do céu noturno, com as passas na mão, o copo na outra, os pés firmes no chão e um efeito de não sei o quê a palpitar onde em tempos morou o coração, acaba por se esvair como a trémula centelha que restou da explosão que originou a própria esperança.
O dia seguinte, em sequência do anterior, continua a acrescentar a esperança aos nossos dias, embora com menos protuberância, vai renascendo como se seguisse os mesmos passos orbitais nos nossos astros.
Existirá vida antes da esperança? Como um lançamento à vida de um desafio, nasce baixo, lento, até harmonicamente se tornar melodioso per si. A esperança como respirar, como o bater sincronizado com uma fonte inesgotável de certeza, um coração que ganha vida pela própria vida, como o renascer que soluça no medo e é resgatado pela esperança.
A esperança, o renascer, a certeza da mesma em nós leva-nos ao término de uma jornada em crescendo até se tornar inaudível, invisível, apenas palpável pela serenidade do olhar de quem se sabe imortal. Assim é o renascer da esperança: Ser esperança.
É fácil deixar que o embalo deste calor ainda morno que a esperança pariu leve-me para fora de um caminho de terra, calcado por animais e gentes, em labuta ou assim a modos de vida, como quem luta.
Vou enchendo o alforge com histórias que não vivi, encosto a um lado o pão que me resta, falta-me o bagaço, mata-bicho, mas sobeja-me em sofreguidão de uma aldeia perdida, um local ermo, como são todos os locais para onde nos dirigimos, mais cedo ou mais tarde, em busca do nosso lugar. O silêncio e o som dele mesmo. O antagónico e o complementar. Uma criança chora. Um colchão range e eu sei que alguém se sentou ao lado dela, colocando as mãos nos cabelos, afagando o amor para que, lentamente, vá afastando o medo e exorcizando monstros, enquanto as lágrimas secam e se deixam adormecer, elas também, pelo carinho.
Um corpo acocorado vai raspando entre paralelos, arranca ervas como quem cata a cabeça de um petiz com piolhada. Alguém resmunga. Conversas que se têm com aparelhos estranhos. O corpo acocorado, arrasta pernas numa coreografia que ninguém aplaudirá, ouve passos e já nem levanta o olhar, ainda que o levantassem a ele. Está habituado a deitar corpos à terra, emoldurados numa redoma de madeira, cetim, a falar com eles enquanto eles, a rigor vestidos, se deixam sentar ainda confusos da recente condição de ser e não ter corpo. Acocorado. Como quem tivesse sustentado a vida e, cansado, ou acordado, decidisse sucumbir ao peso da carga e manter-se assim, acocorado, longe dos olhares que nada perscrutam, porque não há solidão maior que olhar para os olhos de quem quer que seja e não ver vivalma. Como quem abre uma porta de madeira e esta se desprega das dobradiças de couro, sem ferrolho ou trave, na esperança de ver e ouvir o lume crepitar numa lareira onde um caldo se aquecia e ver, apenas, o negro que sobrou depois da ausência de corpos terem incendiado o abandono.
Há uma esperança que alimenta a vida.
Uma noite ainda por viver.
A calmaria descansa enquanto a tempestade se afoita e corre mundo, montada na ignorância humana, queimando e agredindo, para se colher, esperançosamente, a calma que ressoará quando o último foguete arder no ar e os nossos rostos, juntos, virem apenas a luz que somos.
“És perança”
A esperança parece espreitar de cada vez que as nuvens soltam as mãos e, afastando-se, deixam que o céu noturno e escuro exiba a escuridão polvilhada de luz, como se uma atenta e bondosa cozinheira, de avental mascavado de sabores e cores de outras receitas, afundasse uma mão na bacia onde descansam infinitos flocos de fé e a tirasse, em seguida, fechada e prenhe, com pó a soltar-se acompanhando o movimento do braço como a flamejante cauda de um cometa, para a espalhar sobre a vítrea mesa da cozinha. Estaremos abaixo da mesa, crianças, como que a brincar com os pequenos brinquedos que nos dão adultos, crianças ainda, sem saberem que olhar para cima, acima e por dentro de nós mesmo, é o brinquedo que nos permitirá ter esperança.
Na noite de ano novo, quando as badaladas se vão repetindo ao redor do berlinde azul esverdeado que é o nosso, salpicamos o céu noturno de estrelas que atiramos ao ar, aspirantes de cozinheiros e aprendizes de agricultores, semeando no firmamento uma limitada infinitude de pontos luminosos que ribombam como trovões, fugazes, ascendendo rapidamente como a nossa vontade para bruxulearem no auge e, depois, como os nossos dias em vidas que por aqui perpetuamos, deixando-se cair de costas, levados e lavados pelo vento e pela noite, num pendular e, por vezes, espiraldado movimento, de olhos fechados, com o resto de luz que nos sobra depois da explosão, e com o sorriso típico de criança que vamos esquecendo no percurso, de vida e de faúlha, para cairmos já esmaecidos e invisíveis por tão negros ausentes de luz.
Temos a aspiração de aspirar, por isso vamos querendo foguear artificiamente na noite em que prometemos deixar para trás parte de nós, erguendo-nos do casulo que nos pariu para sermos qualquer espécie de esperança. Mas a esperança, seja pela falta de polvilhadores, seja pela proliferação de profissionais do amedrontamento que pintam o dia que se segue com as mesmas ideias e sonhos urdidos que existiam antes do esperançoso vislumbre do céu noturno, com as passas na mão, o copo na outra, os pés firmes no chão e um efeito de não sei o quê a palpitar onde em tempos morou o coração, acaba por se esvair como a trémula centelha que restou da explosão que originou a própria esperança.
O dia seguinte, em sequência do anterior, continua a acrescentar a esperança aos nossos dias, embora com menos protuberância, vai renascendo como se seguisse os mesmos passos orbitais nos nossos astros.
Existirá vida antes da esperança? Como um lançamento à vida de um desafio, nasce baixo, lento, até harmonicamente se tornar melodioso per si. A esperança como respirar, como o bater sincronizado com uma fonte inesgotável de certeza, um coração que ganha vida pela própria vida, como o renascer que soluça no medo e é resgatado pela esperança.
A esperança, o renascer, a certeza da mesma em nós leva-nos ao término de uma jornada em crescendo até se tornar inaudível, invisível, apenas palpável pela serenidade do olhar de quem se sabe imortal. Assim é o renascer da esperança: Ser esperança.
É fácil deixar que o embalo deste calor ainda morno que a esperança pariu leve-me para fora de um caminho de terra, calcado por animais e gentes, em labuta ou assim a modos de vida, como quem luta.
Vou enchendo o alforge com histórias que não vivi, encosto a um lado o pão que me resta, falta-me o bagaço, mata-bicho, mas sobeja-me em sofreguidão de uma aldeia perdida, um local ermo, como são todos os locais para onde nos dirigimos, mais cedo ou mais tarde, em busca do nosso lugar. O silêncio e o som dele mesmo. O antagónico e o complementar. Uma criança chora. Um colchão range e eu sei que alguém se sentou ao lado dela, colocando as mãos nos cabelos, afagando o amor para que, lentamente, vá afastando o medo e exorcizando monstros, enquanto as lágrimas secam e se deixam adormecer, elas também, pelo carinho.
Um corpo acocorado vai raspando entre paralelos, arranca ervas como quem cata a cabeça de um petiz com piolhada. Alguém resmunga. Conversas que se têm com aparelhos estranhos. O corpo acocorado, arrasta pernas numa coreografia que ninguém aplaudirá, ouve passos e já nem levanta o olhar, ainda que o levantassem a ele. Está habituado a deitar corpos à terra, emoldurados numa redoma de madeira, cetim, a falar com eles enquanto eles, a rigor vestidos, se deixam sentar ainda confusos da recente condição de ser e não ter corpo. Acocorado. Como quem tivesse sustentado a vida e, cansado, ou acordado, decidisse sucumbir ao peso da carga e manter-se assim, acocorado, longe dos olhares que nada perscrutam, porque não há solidão maior que olhar para os olhos de quem quer que seja e não ver vivalma. Como quem abre uma porta de madeira e esta se desprega das dobradiças de couro, sem ferrolho ou trave, na esperança de ver e ouvir o lume crepitar numa lareira onde um caldo se aquecia e ver, apenas, o negro que sobrou depois da ausência de corpos terem incendiado o abandono.
Há uma esperança que alimenta a vida.
Uma noite ainda por viver.
A calmaria descansa enquanto a tempestade se afoita e corre mundo, montada na ignorância humana, queimando e agredindo, para se colher, esperançosamente, a calma que ressoará quando o último foguete arder no ar e os nossos rostos, juntos, virem apenas a luz que somos.
2015-12-27
Ali anças
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Entro na sala.
Ao olhar destreinado tudo parece normal, sorrisos e acenos, beijos em faces frias com odores femininos, palmadas másculas nas costas e o tradicional eco de “o que se quer é saúde”.
O silêncio está ali, encostado a um canto da sala, pouco acima da minha cabeça, olha assustado para o som que se solta das pernas das cadeiras quando estas são arrastadas pelo chão e movimenta-se rapidamente desviando-se do ruído que é, por vezes, lançado quando ele parece já acostumado e adormecido.
Bate célere a música, sons que são a sanidade da saudade. Uma vez, não muito longe, a lua riu-se de mim porque a confundi com um sonho distante o suficiente para se alcançar apenas em bicos de pés!
Bate célere, repito, a música e eu, descompassado, valso por um salão vazio, entre trastos gastos por dedos que tocaram música e, acredito, também o céu.
Há um sentimento de urgência, de urgente, de emergente, de gente, gente que procura e eu encontro, aqui, no silêncio da sala musicada. Falta-me, criatividade, ou me sobeje, saber-se-á escrever sobejamente, que não sei saiba eu inventar miando, tenho todos os destinos na mão, onde me deitarei hoje, para onde me erguer quando sonhar?
Por momentos passa a meu lado uma estrada qualquer, qualquer não, uma estrada que poderá ser de qualquer local, mas a estrada não é qualquer, é minha, espera-me, com as suas sombras e manchas, com pés calçados e outros que se sentam, no marmoreado chão, com roupa, mas despidos, pousando mochilas, rindo e sorrindo, capuzes e capuccinos que se faz fria a noite, sim, é noite, e eu abro o meu caderno e vou escrevendo, até me levar então o sonho, ou a rua, perdoe-me a imprecisão se não sei ser preciso, até outro local, a um aglomerado de pessoas de todas as idades, na verdade, que seja dita, as pessoas que são pessoas não têm idade, são pessoas hoje, amanhã estrelas, que tocam instrumentos musicais, batem e sopram, dedilham e cantam, porque a vida é música (embora um ou outro me assegure que a música é que é vida) e todos se aproximam, sabe-se lá se é frio agora ou quente depois, uns sorriem e batem palmas, outros aconchegam-se ao próprio corpo ou ao corpo de alguém que se ampara, ondulam, bailam, até que a música acabe e eu me deixe seguir pela rua, sem sair daqui, para ver ao longe as vinhas que se espetam pelo rochedo fora, parindo uvas que mãos cuidadosas vão trazer ao mundo, enquanto o calor se espreme da testa em suor e a terra se apega ao corpo e à alma.
Sou de mil ruas, sem me saber viajar ou trajar, apenas calcorrear o mundo sem me trazer universo, ou verso, odes, estrofes, pautas ou gavetas onde vou guardando os registos daquilo que, lentamente, vai vendo meu corpo. Perdão, corpo meu, emprestado, com garantia de o devolver àquilo de onde veio, à terra, ao solo de forma mais directa, ou ao universo, à matéria, à energia, à implosão que todos somos, afinal, seremos todos um, que corpo meu não será então meu ou de ninguém, apenas e só, eu.
A invulgaridade do cansaço telúrico. Há terras e músicas que trazem lava a arder pelo corpo acima. Montes esculpidos mouriscamente até que, serpenteando até ao cume, surgem sobranceiros a rios, zumbidos de invisíveis garotos, ganapada para quem uma música é um adro e um púlpito uma gaiola de onde adultos grasnam patacoadas sem sentido, mas tiremos-lhe o facto de o meu corpo transladar-se de vontade de mim para o granito musgado e teremos um estilo tardio planeado há centenas de anos no futuro.
O tempo é escasso, por isso sorvo-o lentamente, sem açúcar, em manhãs frias, esperando aviar mais um dia. Por hoje está, amanhã Deus, dará.
Quando a música cessou já o silêncio tinha partido, fugiu de onde pairava sem eu o ver. Compreendo-o. Até eu, que sou mais noite que dia, dificilmente resisto a abrir a porta da sala e deixar entrar a noite, para lhe mostrar orgulhoso o quanto de estelar podem dúzia e meia de estrelas musicais fazer brilhar.
Sem me saber clave, deitado, não prostrado, cerro os olhos na esperança de ouvir novamente os olhares brilhantes de quem anda de braço dado com a música e atravessa a vida saltando pela pauta da sua própria melodia, imune a críticas.
Que criticalidade pontual poderemos ter, quando se pensa que o céu é o limite e a vida é um conjunto de sonhos a serem vividos?
O céu é o limite para quem nunca voou além de si mesmo.
A vida é um conjunto de sonhos a quem nunca adormeceu fora de si mesmo.
E eu, agora que a música cessou, ia jurar que o silêncio partiu em Si, mesmo.
Entro na sala.
Ao olhar destreinado tudo parece normal, sorrisos e acenos, beijos em faces frias com odores femininos, palmadas másculas nas costas e o tradicional eco de “o que se quer é saúde”.
O silêncio está ali, encostado a um canto da sala, pouco acima da minha cabeça, olha assustado para o som que se solta das pernas das cadeiras quando estas são arrastadas pelo chão e movimenta-se rapidamente desviando-se do ruído que é, por vezes, lançado quando ele parece já acostumado e adormecido.
Bate célere a música, sons que são a sanidade da saudade. Uma vez, não muito longe, a lua riu-se de mim porque a confundi com um sonho distante o suficiente para se alcançar apenas em bicos de pés!
Bate célere, repito, a música e eu, descompassado, valso por um salão vazio, entre trastos gastos por dedos que tocaram música e, acredito, também o céu.
Há um sentimento de urgência, de urgente, de emergente, de gente, gente que procura e eu encontro, aqui, no silêncio da sala musicada. Falta-me, criatividade, ou me sobeje, saber-se-á escrever sobejamente, que não sei saiba eu inventar miando, tenho todos os destinos na mão, onde me deitarei hoje, para onde me erguer quando sonhar?
Por momentos passa a meu lado uma estrada qualquer, qualquer não, uma estrada que poderá ser de qualquer local, mas a estrada não é qualquer, é minha, espera-me, com as suas sombras e manchas, com pés calçados e outros que se sentam, no marmoreado chão, com roupa, mas despidos, pousando mochilas, rindo e sorrindo, capuzes e capuccinos que se faz fria a noite, sim, é noite, e eu abro o meu caderno e vou escrevendo, até me levar então o sonho, ou a rua, perdoe-me a imprecisão se não sei ser preciso, até outro local, a um aglomerado de pessoas de todas as idades, na verdade, que seja dita, as pessoas que são pessoas não têm idade, são pessoas hoje, amanhã estrelas, que tocam instrumentos musicais, batem e sopram, dedilham e cantam, porque a vida é música (embora um ou outro me assegure que a música é que é vida) e todos se aproximam, sabe-se lá se é frio agora ou quente depois, uns sorriem e batem palmas, outros aconchegam-se ao próprio corpo ou ao corpo de alguém que se ampara, ondulam, bailam, até que a música acabe e eu me deixe seguir pela rua, sem sair daqui, para ver ao longe as vinhas que se espetam pelo rochedo fora, parindo uvas que mãos cuidadosas vão trazer ao mundo, enquanto o calor se espreme da testa em suor e a terra se apega ao corpo e à alma.
Sou de mil ruas, sem me saber viajar ou trajar, apenas calcorrear o mundo sem me trazer universo, ou verso, odes, estrofes, pautas ou gavetas onde vou guardando os registos daquilo que, lentamente, vai vendo meu corpo. Perdão, corpo meu, emprestado, com garantia de o devolver àquilo de onde veio, à terra, ao solo de forma mais directa, ou ao universo, à matéria, à energia, à implosão que todos somos, afinal, seremos todos um, que corpo meu não será então meu ou de ninguém, apenas e só, eu.
A invulgaridade do cansaço telúrico. Há terras e músicas que trazem lava a arder pelo corpo acima. Montes esculpidos mouriscamente até que, serpenteando até ao cume, surgem sobranceiros a rios, zumbidos de invisíveis garotos, ganapada para quem uma música é um adro e um púlpito uma gaiola de onde adultos grasnam patacoadas sem sentido, mas tiremos-lhe o facto de o meu corpo transladar-se de vontade de mim para o granito musgado e teremos um estilo tardio planeado há centenas de anos no futuro.
O tempo é escasso, por isso sorvo-o lentamente, sem açúcar, em manhãs frias, esperando aviar mais um dia. Por hoje está, amanhã Deus, dará.
Quando a música cessou já o silêncio tinha partido, fugiu de onde pairava sem eu o ver. Compreendo-o. Até eu, que sou mais noite que dia, dificilmente resisto a abrir a porta da sala e deixar entrar a noite, para lhe mostrar orgulhoso o quanto de estelar podem dúzia e meia de estrelas musicais fazer brilhar.
Sem me saber clave, deitado, não prostrado, cerro os olhos na esperança de ouvir novamente os olhares brilhantes de quem anda de braço dado com a música e atravessa a vida saltando pela pauta da sua própria melodia, imune a críticas.
Que criticalidade pontual poderemos ter, quando se pensa que o céu é o limite e a vida é um conjunto de sonhos a serem vividos?
O céu é o limite para quem nunca voou além de si mesmo.
A vida é um conjunto de sonhos a quem nunca adormeceu fora de si mesmo.
E eu, agora que a música cessou, ia jurar que o silêncio partiu em Si, mesmo.
2015-12-20
Pré sépio
Crónica de domingo na Bird Magazine.
A terra exibe peladas graníticas em todos os locais não cobertos pelo húmus e aspirantes a húmus e os locais menos percorridos, onde a erva, verde após as chuvas, menos calcada exibe um padrão de virgindade atrativo a quem busca o mesmo nesta altura do ano.
A desvantagem de um caminho menos ou nunca percorrido é a quantidade de giestas que se espreguiçaram para lá do usual e mesmo os matos e fetos parecem aproveitar a ausência de hominais para estenderem a ramalhada urticante.
A vantagem de um caminho nunca percorrido é a possibilidade de qualquer passo que se dê ser o início de um novo caminho, a construção da estrada nova a cada ano, sempre por atalhos diferentes até chegar onde repousa o melhor, mais entufado, mais almofadado musgo de sempre, um segredo bem guardado.
Até chegar à recompensa, na orla da antiga pedreira, há que pender passadas lentas e firmes, não se caia a inocência num buraco mais esburacado, e também para admirar os cantos que se calam quando um ramo seco, dos poucos que ainda restam, se parte e anuncia a presença de mais do que os habituais animais. Ali, parado, o silêncio da natureza na forma de pinheiros que rangem e ventos uivantes por entre troncos, os pés já molhados pela humidade que vence a fronteira de couro e plástico e se encosta às meias grossas, uma mão sai do bolso e repousa num feito maior, sem beligerância, num gesto inocente de pedir licença ao inanimado afasta do caminho a planta e escuta atento o silvo das nuvens a roçarem umas nas outras no desafio de ver quem delas se choverá primeiro.
Por entre passos e descasos, a crista do cedro ao longe, a mão suja entra no bolso e desenterra de lá um saco de plástico à medida que se aproxima da orla da pedreira. O manto verde e fofo convida a descalçar, mas a razão rápida se sobrepõe à imaginação e segreda ao ouvido da consciência os avisos decorados por anos e anos de infância. “tu vê o que vais fazer, o presépio não precisa de musgo!” ou “é melhor que não te sujes, este tempo não ajuda a secar nada!” ou ainda “só tens essas botas secas, vê se queres ficar em casa nas férias”. E posto isto, com um joelho na saca aberta sobre o musgo, na oração de perdão por escalpelar a terra arrancando-lhe o musgo pela raiz, vai-se enchendo o outro saco de plástico com cuidado suficiente para não se rasgar, o saco ou o tapete musgoso acompanhado do pedido de desculpas.
Já em casa, com as figuras perfiladas a aguardar nos tacos encerados há dias, estende o plástico, depois a velha e semi-apodrecida tábua de madeira (na verdade eram dois velhos tacos encontrados na lixeira plantada pelos poucos habitantes ainda existentes no meio de outra pedreira abandonada), o plástico aberto para fechar o caminho à humidade e, por fim, o musgo, ainda com o mesmo cuidado.
“Não adianta empurrarem, eu escolho quem coloco primeiro”, as figuras rezingavam ansiosas por subirem para o presépio, enquanto a criança pegava uma a uma a ornamentalidade em forma de pastor, vaca, burro, até cão havia, o berço, José extremoso e orgulho, Maria preocupada ainda por não ter pouso para parir, mas confiante nas palavras de Gabriel, outro pastor, ainda outro pastor e, por fim, apeia-se a realeza, acomoda-se a cáfila junto da vaca e do burro, todo o bafo animal é necessário para aquecer quem ainda não nasceu, os reis magos vão para trás dos pastores e irão, sei-o depois movido pela curiosidade de os espreitar quando não estou, colocar nos bolsos dos pastores os tesouros destinados à criança, fieis depositários das riquezas do mundo e, ombro no ombro, plebe e realeza, esperarão pacientes, descansando dos centos de dias passados na caixa de sapatos como longa caminhada pelas estepes guiados por um astro que brilhava dentro deles, que chegue o Salvador.
A ceia pouca importância tem, perde algum tempo a ver o vapor que se solta das pencas e batatas cozidas, esmaga um ovo cozido contra o azeite, cebola e alho picado, faz desenhos na mistela e reza baixinho, “quem dera que todos possam ter comida à frente, família e amigos ao lado e este calor morninho dentro”.
Os mais velhos sairão para a missa, boinas e gorros, cachecóis garroteados ao pescoço, casacos estreados longos e quentes, passos na noite fria até à larga porta da igreja.
Adormece no sofá, enfeitiçado pelas tremeluzentes luzes do pinheiro, mirado pelos ocupantes do presépio que se cutucam e trocam olhares de ternura, até Maria, a quem José acabou de tapar com a própria capa os ombros, ergue o olhar de pré-mãe ternurenta para a criança que se entrega ao sono como ela a Deus.
Os minutos passam, gestos estremecidos de quem dorme e arrefece porque a manta caiu.
As luzes deixam de tremeluzir, o relógio da cozinha sustém a respiração e os ponteiros, o tempo para e levanta-se para abrir a porta da rua, por ela entra um vulto ou ninguém, vai lesto pela sala, afaga a testa de Maria e nos seus braços deposita a última figura do presépio enquanto com um gesto faz surgir pequenas palhas na manjedoura dos animais que servirá de berço, depois, sorrindo, levanta-se, pega na manta de trapos, tapa a criança que dorme e deposita-lhe um invisível beijo na testa ao mesmo tempo que com a invisível mão afaga o peito que se erguia sobressaltado por algum pesadelo, para o ver agora, sossegado e com um esgar de sorriso, a sonhar que um dia Deus lhe entraria pela porta da cozinha e a sua casa seria o seu coração.
Os dias acumulam nuvens cinzentas e a
noite espreguiça-se bem mais cedo pelo céu adentro como dona e senhora de um
tempo onde moram as lareiras acesas
O vento atiça pinhais, a caruma
comprime-se sob os pés, folhas resilientes de eucaliptos resistentes aproveitam
a boleia do ar esvoaçante para o seu baptismo de voo.
Um muro baixo de um tijolo fino parece
abanar quando as duas mãos de puto içam o corpo e os joelhos primeiro e as
biqueiras das botas depois embatem nele, até conseguir alçar uma perna
primeiro, outra perna depois, e cair com estrondo no amontoado de caruma, mato,
cascas de batata e restos de comida que as raposas, ouriços-cacheiros e outra
bicharada do monte não comeram.A terra exibe peladas graníticas em todos os locais não cobertos pelo húmus e aspirantes a húmus e os locais menos percorridos, onde a erva, verde após as chuvas, menos calcada exibe um padrão de virgindade atrativo a quem busca o mesmo nesta altura do ano.
A desvantagem de um caminho menos ou nunca percorrido é a quantidade de giestas que se espreguiçaram para lá do usual e mesmo os matos e fetos parecem aproveitar a ausência de hominais para estenderem a ramalhada urticante.
A vantagem de um caminho nunca percorrido é a possibilidade de qualquer passo que se dê ser o início de um novo caminho, a construção da estrada nova a cada ano, sempre por atalhos diferentes até chegar onde repousa o melhor, mais entufado, mais almofadado musgo de sempre, um segredo bem guardado.
Até chegar à recompensa, na orla da antiga pedreira, há que pender passadas lentas e firmes, não se caia a inocência num buraco mais esburacado, e também para admirar os cantos que se calam quando um ramo seco, dos poucos que ainda restam, se parte e anuncia a presença de mais do que os habituais animais. Ali, parado, o silêncio da natureza na forma de pinheiros que rangem e ventos uivantes por entre troncos, os pés já molhados pela humidade que vence a fronteira de couro e plástico e se encosta às meias grossas, uma mão sai do bolso e repousa num feito maior, sem beligerância, num gesto inocente de pedir licença ao inanimado afasta do caminho a planta e escuta atento o silvo das nuvens a roçarem umas nas outras no desafio de ver quem delas se choverá primeiro.
Por entre passos e descasos, a crista do cedro ao longe, a mão suja entra no bolso e desenterra de lá um saco de plástico à medida que se aproxima da orla da pedreira. O manto verde e fofo convida a descalçar, mas a razão rápida se sobrepõe à imaginação e segreda ao ouvido da consciência os avisos decorados por anos e anos de infância. “tu vê o que vais fazer, o presépio não precisa de musgo!” ou “é melhor que não te sujes, este tempo não ajuda a secar nada!” ou ainda “só tens essas botas secas, vê se queres ficar em casa nas férias”. E posto isto, com um joelho na saca aberta sobre o musgo, na oração de perdão por escalpelar a terra arrancando-lhe o musgo pela raiz, vai-se enchendo o outro saco de plástico com cuidado suficiente para não se rasgar, o saco ou o tapete musgoso acompanhado do pedido de desculpas.
Já em casa, com as figuras perfiladas a aguardar nos tacos encerados há dias, estende o plástico, depois a velha e semi-apodrecida tábua de madeira (na verdade eram dois velhos tacos encontrados na lixeira plantada pelos poucos habitantes ainda existentes no meio de outra pedreira abandonada), o plástico aberto para fechar o caminho à humidade e, por fim, o musgo, ainda com o mesmo cuidado.
“Não adianta empurrarem, eu escolho quem coloco primeiro”, as figuras rezingavam ansiosas por subirem para o presépio, enquanto a criança pegava uma a uma a ornamentalidade em forma de pastor, vaca, burro, até cão havia, o berço, José extremoso e orgulho, Maria preocupada ainda por não ter pouso para parir, mas confiante nas palavras de Gabriel, outro pastor, ainda outro pastor e, por fim, apeia-se a realeza, acomoda-se a cáfila junto da vaca e do burro, todo o bafo animal é necessário para aquecer quem ainda não nasceu, os reis magos vão para trás dos pastores e irão, sei-o depois movido pela curiosidade de os espreitar quando não estou, colocar nos bolsos dos pastores os tesouros destinados à criança, fieis depositários das riquezas do mundo e, ombro no ombro, plebe e realeza, esperarão pacientes, descansando dos centos de dias passados na caixa de sapatos como longa caminhada pelas estepes guiados por um astro que brilhava dentro deles, que chegue o Salvador.
A ceia pouca importância tem, perde algum tempo a ver o vapor que se solta das pencas e batatas cozidas, esmaga um ovo cozido contra o azeite, cebola e alho picado, faz desenhos na mistela e reza baixinho, “quem dera que todos possam ter comida à frente, família e amigos ao lado e este calor morninho dentro”.
Os mais velhos sairão para a missa, boinas e gorros, cachecóis garroteados ao pescoço, casacos estreados longos e quentes, passos na noite fria até à larga porta da igreja.
Adormece no sofá, enfeitiçado pelas tremeluzentes luzes do pinheiro, mirado pelos ocupantes do presépio que se cutucam e trocam olhares de ternura, até Maria, a quem José acabou de tapar com a própria capa os ombros, ergue o olhar de pré-mãe ternurenta para a criança que se entrega ao sono como ela a Deus.
Os minutos passam, gestos estremecidos de quem dorme e arrefece porque a manta caiu.
As luzes deixam de tremeluzir, o relógio da cozinha sustém a respiração e os ponteiros, o tempo para e levanta-se para abrir a porta da rua, por ela entra um vulto ou ninguém, vai lesto pela sala, afaga a testa de Maria e nos seus braços deposita a última figura do presépio enquanto com um gesto faz surgir pequenas palhas na manjedoura dos animais que servirá de berço, depois, sorrindo, levanta-se, pega na manta de trapos, tapa a criança que dorme e deposita-lhe um invisível beijo na testa ao mesmo tempo que com a invisível mão afaga o peito que se erguia sobressaltado por algum pesadelo, para o ver agora, sossegado e com um esgar de sorriso, a sonhar que um dia Deus lhe entraria pela porta da cozinha e a sua casa seria o seu coração.
2015-12-06
Poro do Sol
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Vejo o por do Sol várias vezes por dia,
quando vou de carro e ele se esconde atrás de um monte ou de um amontoado de
edifícios, mas nada se assemelha a quando caminho num local qualquer,
preferencialmente um pouco a subir e, se puder escolher, que tenha terra e
cascalho, para eu sentir as pedras comprimirem-se e esmagarem cascalhando-se
umas nas outras, num sussurro que comparo ao bater do meu coração, vulgo
músculo que por vezes esqueço possuir.
O caminho ligeiramente inclinado, a
minha perna com dificuldade em esticar refugia-se da dor, fazendo-me mancar e,
até aqui, este balancear me faz sentir, por breves momentos, como que embalado
pela temperatura amena, estranhamente amena para esta época do ano.
A recta longa, para quem se desloca a
pé, convida-me a alinhar o caminhar com o caminho, fecho os olhos, o Sol
bate-me na cara, aperto o casaco e coloco as mãos nos bolsos. Por momentos,
caminho como se ascendesse a algum tipo de estágio intermédio entre esta vida e
uma outra, qualquer, por aí, onde quer que o vento nos leve quando a vida se
cansar de nós.
Aproveito cada momento para fechar os
olhos, alinho-me novamente com o caminho, continuo a mancar e a perpetualidade
da dor assusta-me.
Somos frágeis, sempre frágeis.
Novamente de olhos fechados, já depois
de caminhar, aproveito para me encostar a um muro e sentir o calor que emana da
pedra.
Será que os muros fecham os olhos para
apreciar o Sol?
Ou ficarão como eu, a desejar ser nuvem
para poder perder-me na frontalidade das pressões, ser peso sobre a terra, mais
que a terra sobre o chão que a sustém, como se a órbita que obriga a
compreensão fosse tão elíptica quanto a triangularidade santíssima que me faz
adormecer a cada manhã quando toca o despertador?
Pronto, vacilo silabicamente, confesso
a minha aspiração, a poder caminhar sempre de olhos fechados, sentir os pés
lentamente ascenderem por uma escada invisível, apenas porque não abro verdadeiramente
os olhos e continuo a pensar ver uma realidade matizada, e seguir universo dentro
já depois deste sistema planetário, sempre de olhos fechados, para assim poder
ver o Sol interior que habita algures fora de mim e se esconde nos recônditos
olhares animais e hominais quando abro os meus olhos.
Os dias curtos fazem-me encurtar a
caminhada.
Começo e termino uma frase como quem
busca um esconderijo onde poder armar a sua fogueira, cobrir-se com uma velha
manta de trapos, adormecer e aí, de olhos cerrados, poder continuar a admirar a
astralidade solarenga que tanto procuro enquanto, vadio, um canito qualquer se
aproxima e fazendo-se de convidado se deita a meu lado.
Confesso que as palavras me dão conforto
e também refúgio, nelas caminho de olhos abertos sempre para poder narrar o que
vejo de olhos fechados.
Na neologisidade encontro os tijolos
com que tento construir o meu mundo, mas apenas consigo escrever o que consigo
desenhar daquilo que imagino, pois onde estou não tenho mão que obrigue os
dedos agarrarem uma caneta, ocupados que estão a contar as estrelas para me
dizerem, animados, como petizes em resposta pronta na carteira de madeira da
escola da vida, quantas estrelas tem deste lado da vida.
Caminho, sempre, ainda que repetidamente,
para ir ao teu encontro e, aí, ciente de nunca ter abandonado o meu lugar,
descobrir enfim a luminosidade que procuro e ouvir, ao chegar-me perto dela,
feliz, dizer-me “abre os olhos, chegaste a casa”.
2015-11-29
Desacordadamente
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Existe uma forma simples de começar o
dia, acordando.
Parece-me que a fórmula para a vida se
baseia nisto mesmo, acordar. E nestas questões matutinas, seja lá o momento em
que despertamos, parece-me que envolve um amanhecer para cada pessoa. Por
exemplo, eu acordo apenas quando me permito andar, ainda que mancando, como
agora, fruto de uma herniação discal bastante chata e dolorosa, saio do asfalto
ondulado a que comparo com uma vaga ondulante no Atlântico e, alçando a perna,
passo para a terra castanha, saibrenta, com restos de tonas ou cascas dos
eucaliptos, pequenas pedras e raízes resistentes de árvores e arbustos que não
existem mais, a que comparo ao extermínio da bondade humana pela ceifa certeira
e acutilante no silêncio entre as imagens estáticas que a televisão nos vai
permitindo cegar.
Só aí, no monte, no cheiro a terra
molhada que trago no palato, ainda que esteja, como agora, um Sol de Inverno
ainda que seja Outono e eu, no terminar do Novembro, me permita escrever os
meses com letra maiúscula, propriamente, como merecem.
O monte, ou bouça, vai subindo,
imagino-me na enseada de uma praia de uma das quaisquer ilhas dos Açores, onde
ficou uma parte de mim que desconhecia existir e que encontrei, apenas, quando
me vi lá, sentado num miradouro, a olhar para o horizonte aquático e sonhar-me
vulto numa terra ausente que, imagino, habita apenas no céu ou onde quer que inalcançáveis
os sonhos se permitam dormitar.
Passarei na terra, do raspar dos pés
nos passos pelo mato rasteiro com gotículas de um orvalho que caiu na madrugada
passada e persiste porque o Sol, esse apaixonado, ainda que mais próximo deste
dióspiro maduro que rodopia em torno de si, quer ver até onde se vislumbra a
sua sombra, pensando no dia em que sobrará de sombras em pontos cardeais que
não os usuais.
Antes de adentrar pelos tufos de musgo e
do espesso e fofo tapete de caruma olho uma vez mais para trás, ao longe na
noite mais comprida que impaciente começa a espreitar por detrás das dezasseis
horas, mais coisa, menos coisa. As estrelas olham admiradas para o tremeluzir
das luzes de Natal que parecem querer imitar o bruxulear astral de quem se
permite ser combustível a arder durante fracções da eternidade.
Começa a chegar, ele, a festividade,
vejo-o nos panfletos que inundam a minha caixa de correio, na miríade de coisas
que tentam colar ao corpo e ao ouvido, a indispensabilidade do acessório que
tornará a vida mais simples, fácil, divertida e com mais sentido!
Confesso-me atónito perante a
insignificância dos meus desejos de criança em ter uma lanterna, a mesma que,
depois de a tirar de dentro da bota ortopédica que deixava debaixo da chaminé,
sobre o velho fogão a gás, ligava e virava para o céu, fazendo sinais de luzes
para as estrelas que, na minha inocência, pareciam responder ao meu chamado. Hoje
sei que as estrelas brilham não pela lanterna, mas pelos sinais que vamos
emitindo, na inocência e ignorância de quem se deixe deslumbrar pela própria
estrela ou pelo reflexo de um dia tímido no tímido olhar de quem se sabe
perdido fora de si, pois um dia encontrar-se-á dentro de si.
Os dias correm mais depressa para todos
os desatentos que vivem cervicalizados sobre a cacofonia digitalizada de uma
vida que vamos tecnologificar porque nos esquecemos que os abraços analógicos
são para serem saboreados na companhia de nós mesmos e dos que sabemos trazer
na própria respiração.
Adentro monte ondulo pelo suave embalo
que o passo afundado pela mata permite navegar. Os pinheiros são eles mesmos,
independente de quem os veja, sinal da sinceridade despojada da Natureza. Eu
tenho tudo a aprender como eles e, por isso, saúdo-os quando lhes passo a mão
na casca e recolho um pouco da resina que vão lacrimejando ao mesmo tempo que
fotossintetizando-se lavam o ar e alma de um planeta que, digitalmente, vamos
abandonando, esquecendo-nos da facilidade com que ele, berlinde, nos pode
sacudir borda fora, como um cão que cansado da chuva se sacode e esperricha
gotículas em todas as direções e segue, depois, caminho fora sendo cão agora
seco.
Saio da ilha, perdão, do monte, e chego
a nova estrada, subindo a custo pelo despreparo físico e pelo marginalizado
pensamento de tentar perceber onde me quer levar a vida, a palavra e a vida que
me brilha pelo canto do olho.
Não existe muito mais para ver. A noite
esgueirou-se sem permissão do dia e vai crescendo até se fazer Natal, a noite
onde se percebe que nada mais importante há que sermos importantes para nós
mesmos, fazendo dos outros importantes, para que nada do que não precisamos
ganhe potencial de ser importante e permaneça, debaixo da árvore, no
lusco-fusco da iluminação de Natal, à espera de ser desembrulhado por quem não
saiba que o abraço é o melhor embrulho que podemos fazer a quem amamos.
2015-11-22
“Trigo e joio musical”
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
- Parece-me que o fim está próximo.
O semblante não preocupado de quem
profere afirmação apocalíptica surpreende.
- Porque dizes isso?
Continua calado, a soprar a espuma que
flutua sobre o café negro na caneca larga de metal e perdido um pouco nos
pensamentos que só ele poderá saber ter.
Levantou-se, com a caneca presa pelas
pontas dos dedos, o vapor sobe pela palma da mão e sai por entre os dedos e, de
repente, é como se aquela mão grande se parecesse com uma floresta na bruma,
envolta em nevoeiro espesso que se vai dissipando quando meia dúzia de raios
solares penetra árvores e raízes adentro.
Dá três passos para cada lado e
imagino-o como um gigante pêndulo de um relógio afinado, comparação que se
esmorece porque aqui, longe da tridimensionalidade, o tempo é um conceito que não
existe, pelo menos no sentido lato a que nos habituamos.
Olha para mim e com a cabeça aponta
para fora da janela. Levanto-me e aproximo-me, limpo o embaciado vidro e olho.
Um formoso berlinde azul, verde e
castanho, populado com neblinas brancas e cinzentas, que reluz a cada vez que a
face virada para a estrela, parece resplandecer um desequilibrado conjunto de cores.
Longas cores e deformadas circunferências daquilo que parece ser uma espécie de
campo electromagnético perturbado oscilam ao redor do planeta. Paciente, o
planeta, acomoda-se e reage pacientemente ao desequilíbrio que alguns dos seus
habitantes lhe causam.
A cada fração de segundo entram e saem
pequenos pontos luminosos daquela esfera minúscula, esquecida, pensam eles,
neste braço desta galáxia, uma entre infinitas, deste universo, um entre
infinitos.
Um ou outro ajuste é necessário,
seguindo referenciadas linhas geodésicas, o planeta rebuliça, expele-se,
contorce-se, apresenta por vezes um esgar de dor que se reflecte não pela cara,
que não a possui, pelo menos a olhos meus que o vejo daqui, de trás da vidraça,
mas sim no descolorido e esburacada campo que a circunda. Isto parece
preocupá-lo, rodopiando a caneca nos dedos, já sem o calor do vapor na mão,
encostando a cabeça à madeira que ladeia a janela e colocando uma mão sobre o
meu ombro. Suspira.
Parece-me dividido entre o amor de duas
criações, o jardim que plantou e as plantas que nele nasceram. Sem friezas nem emocionalismos,
mantém-se impávido no semblante preocupado. Cerra os olhos. Abre-os novamente.
Ao fundo, aquele berlinde colorido, rodopiando e girando num escuro firmamento,
sacode-se e liberta uns quantos pontos luminosos, aumenta a velocidade, novas
sementes nascem no jardim sem certeza (quem a terá) de quanto permanecerão no
solo arável.
Na medida que acelera, o campo que o
circunda parece homogeneizar-se, mas por pouco tempo. Desconhecedoras da
infinitude de jardins, de plantas e sementes que existem noutros e no mesmo
solo, estas agridem-se, flagelam-se, contorcionam ramos e espinhos, picando-se
a si mesmas e a todas as outras que a ladeiam. Por entre caótico cenário,
outras plantas permanecem em silêncio preocupando-se apenas em libertar o
máximo de sementes invisíveis, que ascendem ao véu azul e depois caem
indiscriminadamente pelo jardim, na terra queimada, negra e agredida, colocando
um pouco de balsâmico sentimento no desorganizado arado que se revolve, mas por
pouco tempo, pois outras espécies de plantas se preocupam em criminalizar e
organizar autênticas pragas sobre tudo o resto, deixando abandonadas plantas e
sementes de todas as espécies e todos os habitats, agindo como donas de um
jardim que desconhecem, mas mesmo assim tentam controlar, o solo, o vento, a
água que de ninguém cai para todos e nebulam o próprio véu azul com imagens
aterrorizadoras de um futuro que pertencerá a quem não se deixar confiar à sua
protecção.
- Espero pouco mais. Não poderei
sacrificar um jardim pelas plantas que não se deixam semear por elas mesmas.
- Porquê?
Não me respondeu.
Desencostou a cabeça da madeira, deu-me
um ligeiro apertão no ombro que me pareceu um emotivo até já.
Continuou a andar pela sala e saiu por
uma das portas que dão para infinitos alpendres nesta casa de infinitos
andares, acima e abaixo, digo-o embora nunca as tenha visitado pois ouço os
passos, acima e abaixo de onde estou.
Continuando a rodopiar, aquele pequeno
berlinde habitado por pobres, por vezes vorazes, seres desconhecedores da
infinidade de outros mundos além do seu próprio interior, sem estenderem ramos
e folhas para o astro e astros próximos, olham para o seu caule e admiram-se de
si mesmos, folheiam-se e pavoneiam-se sem a preocupação do pólen que transportam
e transbordam a cada respiração. Ao lado, caem e rebolam espécies de plantas diferentes,
embora partilhando o mesmo solo são vistas como inferiores, servindo para estas
atingirem os seus objectivos de ostentação, desaparecendo a cada rotação do
berlinde que habitam.
Pacientes, flutuam na invisibilidade orbes
de plantas distintas, de formas e espécies jamais imaginadas, na preocupação
deste jardim adoentado no limite da transformação musical, de uma oitava para
outra, prontos a acolher as plantas que se souberem música e decidirem escalar
a pauta da canção que são. Até no silêncio se podem fazer ouvir, na orquestral
sinfonia que parece reger este e todos os andares e horizontes para longe de
cada janela pode onde espreito e, acredito, outros possam também observar.
O som que emana, agora, parece um aglomerado
desorganizado de sons estilhaçados e desinteressados, sem preocupação por
harmonias ou desrespeitadores de qualquer maestro que as possa colocar
penduradas na serenidade do seu lugar na plantação, seja pauta musical, seja a
leira arada pelo mão de um criador.
2015-11-15
Acompanhado
Crónica de domingo na Bird Magazine.
O vento atira as nuvens na nossa
direcção.
O espanta espíritos espanta-se com as
formas nubladas e tilinta-nos o entubado som ecoando por entre as memórias do
que por aí vem.
Levantas a tua caneca fumegante e
ergues o braço, convidas, levanto a minha e sorrindo brindamos ao que quer que
seja que nos une.
O banco de jardim, inclinado,
transformado em banco de alpendre, brilha ostensivamente a camada de verniz
recente e ilumina-se quando a velocidade vertiginosa do longínquo raio chega
ofegante na sua eterna ânsia de chegar antes do ribombar do trovão.
Balanço o banco como sempre digo para
outros não o fazerem.
Ris-te.
Lá vem vento novamente, o teu cabelo
esvoaça e suspiras quando uns poucos se metem entre os teus lábios e o chã de
cidreira, com açúcar obviamente, e os beberricas inadvertidamente. Nada mais
faço que ver-te pelo canto do olho e rio-me sozinho, baixinho, levando a caneca
à boca na esperança que não me vejas escarnecer, mas tens trejeitos de quem se
adivinha, dás-me um encontrão no cotovelo que me faz balançar no banco e na
agilidade típica de um leão-marinho entorno um pouco sobre mim, engasgando-me,
tossindo, e deixando escorrer um pouco da minha cevada pelo canto da boca até
se aventurar pelo pescoço e esmorecer ao alcançar o espaço vazio entre o meu
peito e a camisa de flanela.
A vida tem sempre forma de se fazer
surpresa e surgir como quem se esgueira por entre um corredor vazio sem que a
vejam e nos salta para os braços, abraçando-se ao pescoço e cruzando as pernas
nas nossas costas. Por falar em costas, podias lembrar-te que me doem as
minhas, penso, mas deixo passar a incúria com o rosto aberto, os óculos tortos
e o casaco de malha, azul, molhado pelas pingas que se deixam precipitar quando
a isso a gravidade as convida.
Era capaz de ficar a ouvir este
silêncio para sempre, noto em mim uma certa melancolia, uma nostalgia, típica
de quem se sente imortal e na sua intemporalidade faz de conta que um ano é um
dia e um dia é aquele momento em que o arrepio do Outono nos lembra que atrás
das fumegantes chaminés ao longe, vem espevitado e austero o Inverno.
Há tempo para tudo, diziam-me, só não
há tempo para o próprio tempo. Coitado, penso, envolto nas voltas que se transladam
pelo sistema solar, sorrindo a tempos de outros planetas e a astros de outros
planos sem tempo de ser o próprio tempo.
Está a escurecer embora me pareçam ser
horas do Sol, acima deste tapete cinzento e azul negro, brincar na
heliocentricidade e decidir de que lado da vida se deseja pôr.
As nuvens revolvem-se e parecem formar,
vale-me a imaginação, uma espécie de invertida agitação marítima, onde ondas de
tufos cinzentos com tonalidades diferentes se precipitam sem saberem onde
rebentar ou em que praia desabar.
Vejo-me assim, entre dois mares, o que
me foge dos pés onde quer que pense e o que me alcança independentemente da
terra firme que procure.
Endireito-me no banco, as pernas da
frente fazem um barulho seco e oco ao baterem no chão de madeira já gasta. Cruzo
os pés, pouso a caneca que fumega ainda timidamente, já sem a cevada, na
pequena grade de madeira onde me apoio quando é a minha vez de soçobrar e
destapo os braços, prendendo a manta entre o queixo e o pescoço.
O caderno anima-se quando me vê pegar
na caneta e sem ajuda da brisa abre-se para me receber, exibindo as folhas
amareladas de cor e de sabor, fechando os olhos na saciedade prévia de quem se
saber ir ser escrito e, nisto de escrever, pouco importa o quê, mas sim o
quanto, venha a mim o vosso reino, maravilhoso.
Olho apenas uma vez mais em redor, a
chávena órfã, o banco ímpar, a serenidade de um tempo que se quer a arfar
escorrido por dentro de um corpo que a terra há-de comer.
De caneta entre os dedos, caderno sobre
os joelhos, prendo melhor a manta com o queixo e imaginando-me acompanhado,
começo a escrever assim:
“O vento atira as nuvens na nossa
direcção…”
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