2015-06-07

Bicho de contas

Crónica de Domingo na Bird

Encosto-me ao portão de ferro. A pintura negra apresenta diversas falhas, por onde brotam bolbosas bolhas de ferrugem, com se este óxido de ferro fosse uma quente e espessa lama que nasce por baixo da pintura. A mão habitua-se ao frio do metal e à rugosidade suave da tinta descascada. A estrutura metálica a que chamam portão faz-me lembrar uma velha cancela das linhas de ferro, onde uma mão atenta ia puxando a segurança ao longo de um gasto carril por onde nunca circulou um comboio, apenas as rodas conservadas pela espessa e melada massa consistente que as protegiam da intempérie e as faziam prender na areia e terra depositada, deixando no ar o característico cheiro a caminho de ferro.
Deixo-me ficar um pouco, atento ao trânsito que passa na curva cega da estrada, onde por vezes cegos condutores se aventuram como se por terem apenas meio olho fossem algo similar a rei. Ao fundo, abrigado do Sol por um telhado de chuchus e suas ramagens, vejo-o sentado no frio banco de granito, as mãos calejadas e um pouco cegas de articulações, talvez lhe falte a massa consistente ou a consistência de uma vida mais protegida, calejada, mas não ceifada. As favas ganham vida por entre os dedos, há uma espécie de destreza que parece inundar as pessoas que eram já velhas quando as conhecemos em criança. Estas, pessoas, nunca envelhecem, vão-se tornando mais enrugadas, mais encurvadas, com um andar mais vagaroso e cauteloso, o olhar viçoso dentro das órbitas já torneadas quantas e quantas vezes por uma vida que vai passando quase sem se dar por ela, translacionando-se sem que se saiba de que lado nasce o Sol ou se é mesmo ele que se mexe ou somos nós, migalhas de um pão sideral que caíram neste quintal a que chamamos Terra. 
As favas caem no balde, as cascas na bacia. O balde, negro, tem um arame protegido por um plástico azul escuro. Detenho-me a pensar se o plástico é para proteger as mãos do arame ou, se, porque não?, será para proteger o arame do contacto com as nossas calosas mãos, o suor que nos escorre das palmas e se esborrata com o pó levantado pelos passos descalços num terreno lavrado que pariu batatas aqui e ali, inteiras e rachadas, deixá-las lá, não se comem inteiras. 
O bocal do balde ou lá como se chamará a entrada do mesmo apresenta uma forma ovaloide, mas não me impede de tentar visualizar e calcular o diâmetro do mesmo e, assim, pensar no perímetro, depois a área, o volume segue-se imediatamente e quando dou por mim estou já a calcular o espaço que sobra se colocar vários baldes semelhantes lado a lado, uns sobre os outros, num espaço confinado. 
- Estás novamente a fazer contas, não estás? 
As pessoas mais velhas conhecem-nos melhor agora que estão velhas e nós as conhecemos desde o sempre que é o momento em que nos lembramos de nós como pessoas ou portadores de baldes. 
- Sim, estava – respondi com um sorriso tímido e envergonhado. 
A conversa continua, desde a saúde que já não é a mesma, passando pelo futebol, aventuras de outros tempos e sem cronologia, orbitando, como os olhos vagos, em travessuras de canalhada a correr descalça, calças remendadas sobre remendos, as côdeas de pão, a fruta roubada do pomar do senhor fulano de tal, os dias de soldadura às barrigas generosas das carruagens vermelhas e amarelas, o zumbir das catenárias, a modernidade dos alfas e as saudades das velhas locomotivas que pareciam enfurecidos gigantes cor de laranja a fumegar de esforço e orgulho em galgar montes e rasgar longas rectas por esse país fora, sucumbindo por fim ao cansaço e ronronando no abrigo secreto das oficinas, recebendo o carinho de quem as tratou como suas próprias mãos. A precessão das histórias levar-te-á pelas paredes do lagar e de quantas pessoas foram necessárias para o erguer, outros tempos, quando não havia nada e por isso tínhamos tudo, pelas caminhadas ao Sol e à chuva com o bombardino às costas e a merenda a bailar dentro do saco de pano que levavas ao ombro ou, ainda, das noites quentes e ardentes, literalmente, dos tempos de bombeiro, quando nem a ceia de Natal era poupada ao chamado rouco e aflito da sirene na noite escura de aldeia e tu te enfiavas, como tantos outros, a correr estrada abaixo, ainda de pijama, até ao quartel e se te pesava o cansaço ou a preguiça de olhar para o lado e fazer de conta que o que se ouve não é nosso, dizias que olhavas para trás e vias como se fosse tua própria casa a arder, logo te bafejava a adrenalina e os longos passos te levavam lesto ao quartel. 
Agora, as favas estão quase todas descascadas, eu fiz milhentas de contas, sem qualquer prova de nove ou de novo que me permita saber estar certo ou errado, as cascas na bacia beije (vim a saber que era castanha, modernice de plástico que nos traz contas e doenças, cujo tempo se entreteve a tingir de claridade) servirão de comida para as galhinhas e as favas, dizes tu, é para a patroa enfiar na sopa, isto de estufá-las já não é para ti, que nem o cheiro nem o sabor te enchem a barriga. 
Vamos os dois até ao portão, o Sol encarrega-se de nos fazer lembrar que esteve sempre ali, as favas e as cascas despedem-se por uma última vez enquanto alguém se encarrega de as levar para outro local, cada qual em seu recipiente. Os teus dedos estão verdes, sacode-los nas calças, levantas a mão a alguém que passa e encostas-te ao portão, quase como se fizesses de propósito para eu não o abrir e ir embora. Faço de conta que sim, que não reparei e encosto-me também ao portão, que se inclina e apoia na calha que o sustém e esta, por sua vez, deixa-se ficar chumbada ao pilar como sempre esteve. 
A conversa vai longa, o silêncio falou a maior parte das vezes em que abri a boca. É uma espécie de diálogo inter-estelar, cada qual na sua órbita. Sei que daqui irei um dia cavalgar numa qualquer linha poligonal até me perder de vista, para lá das nuvens íngremes agora e o troar que escutares não será trovoada, talvez tenha sido eu que me perdi nos cálculos e tive que começar de novo. 
- Estás aí? Nem te vi rapaz, entra! 
 Sou arrastado dos pensamentos, empurro o portão, sacudo a ferrugem das mãos e entro quinteiro dentro, a fugir do Sol para me abrigar por baixo da folhagem e dos chuchus, para te apertar a mão fria com dedos verdes das favas que descascas e para calcular quanto tempo terei eu perdido enquanto me dedicava a ver que resultado poderias ser?

2015-05-31

Haver

Crónica de domingo na Bird.

Volto à folha de papel, de onde nunca deveria ter saído, confesso, para me ver sentir novamente o áspero e sensual deslizar do papel numa folha em branco.
Não há barulho, apenas o silêncio se faz ouvir, entrecortado com a minha respiração e a rouquidão do lápis triangular, negro, como a noite que se levanta para me fazer companhia.
Ao fim de poucas linhas o pigarrear do grafite traz a comparação com o inequívoco do arrastar dos meus passos numa estrada com dois sentidos, mas sem sentido algum.
O desafio da escrita rasga-me o tecido com que cubro o local onde estou, tenho-o, o lençol, amarrado a uns galhos destes arbustos onde penduro a roupa a secar e os grossos troncos dos pinheiros onde vejo a palma das minhas mãos em cada golpe que a corda ali laçada vai escavando.
Há um certo pudor que me acompanha e que, também ele, se deixa anestesiar pelo bailado do lápis, a sombra que acompanha cada letra e o salto improvisado quando termino cada palavra escrita para a próxima palavra.
Começo a duvidar da minha senilidade, estarei a ficar são? Mas não, felizmente ainda me alcança a loucura (e a timidez muda) de seguir as vontades loucas (e quem sou eu para as ajuizar?) deste companheiro de jornada, meu lápis. Dirão que é impossível, o lápis gasta-se, usa-se, apara-se e morre um pouco a cada lasca de madeira, de grafite granulado, elevado a pó ou a cada apara arrancada à força pelo ferro afiado de um formão ou navalha, mas, retomando o caminho roufenho desta folha arrancada a uma árvore e agora de celulose para que morra em paz, tomada de vocabulário, um pouco como nós, coisas humanas, que sucumbimos nus e crus, sem frases rendilhadas no corpo onde nascerão as raízes das folhas que escreverão a história da própria história, nossa e vossa, humanos e árvores.
Pergunto-me, invariavelmente não encontro a resposta, porque teima o céu reflectir-se nas águas calmas do Douro, que vem espreitando a costa a galope de pequenas ondas. Quererá o leito ser mais que a margem?
Acaba-se-me o papel e na revolvida terra que me verá virar costas e caminhar com a mesma esperança de amanhã, sim, terá outro dia e no percorrer deste caminho sem peregrinação perguntarei ao próprio caminho, quem és tu, que me vagueias por mim sozinho?
Pode a vida sobrar num cabo ventoso enquanto o horizonte teima em se fazer mar?
Vou deitar-me na certeza destas palavras, desatentas, subirem fragas acima e esperarem lá, onde o Sol aquece basalto e granito, que eu me decida a ser também pedaço de vento e deixar, por breves momentos, de ser.
Um cão vagueia na estrada, desatento, arfando como quem sorri ao patear o asfalto, de costas para o trânsito. Negro como a noite, dia não fosse, diria que me sorriu, o bicho.
O Sol espreguiça-se de encontro a um muro, como que se lembrando que é quase Outono e as pedras do muro são quentes ao final da tarde. Sol, de sol em sol, até se aninhar rendido no olhar de quem se acriança.
Um sorriso de uma criança, que recorda com satisfação, de olhos fechados, o primeiro almoço na cantina da escola.
Um atirar para o restolho dos restos dos dias que vivo.
Quatro vidas se vivem, em quadras que jamais escreverei. Quatro, quatro mil, quatro milhões que fossem, que ao me atirar para esta vida, ficou de mim no lado de lá aquilo que jamais emergirá.
E a vida que se atiça aos dedos, saltando, tecla em tecla, letra em letra, sem que se dissipe o nevoeiro que trouxe ao cais dos meus olhos uma palavra.
Há.
E isso basta-me.

2015-05-24

Doi, do

Crónica de domingo na Bird

Existe uma tangência que espreita nestes dias redondos, semi quentes… Entre a frase anterior e o momento actual, mesmo em desacordo ortográfico, creio ter escrito, digitado, dezenas de frases e uns bons centos de palavras. Apaguei tudo, excepto a tangência, pela musicalidade e por ser a forma como tudo nos toca, tangencialmente, sem nunca transpor o limite que nos separa da miscência. Tento não escrever na crueza do que me seca as noites, perpetuar um pouco a areia molhada e as pegadas que apago para que ninguém, incauto, me siga. Hoje, tal como amanhã, quero-me incógnito. Hoje, tal como ontem, quero olhar o céu e ver um tufo de nuvens arrolhar com o vento, serpenteando na inocência de um Deus que se deleita com a mesma inocência com que uma criatura, selvagem, se deita. Haveria de ter dito isto antes, mas nunca o fiz, talvez porque saiba que estas, e as outras, ao contrário das pegadas de hoje, ficaram para serem li… Não, não lidas, ficaram para serem, olha, pegadas de locais onde nem sequer me atrevo a pensar, quanto mais caminhar. Caminhar é para quem se ajoelha no lodo lamacento, uma espécie de lodaçal de maré vaza sem água, um perpétuo repetir de repetições, remexendo o solo em busca de algo que cai, ainda vivo, creio, num saco de plástico, tal como as nossas vidas. As vidas serão como todos os sábados virados para dentro, um pouco sem histórias e personagens. É do calor, repito, que se me secam as fontes por onde costumo entrar sem frio para ver quem por de trás da água vem corrente, fogem, como os faróis fugiriam se os agrilhoassem a montes de dor. Surge um dia em que tudo cansa, até o respirar. Um dia em que todas as ruas parecem imensas rotundas que nos levam a passar vezes sem conta no mesmo local, mais depressa, mais devagar. Entramos por uma vereda, seguimos em frente, o semáforo está verde, não o colhas, terás oportunidade de petiscar quando o ar rarear e sentires entrar em ti, correcção, pelo teu corpo, o alimento do qual sobrevivem as estrelas, o infinito. Teremos que ter esta conversa, um dia, talvez no embalo de uns desconfortáveis bancos de um comboio que balança ao ritmo do metálico claquear das rodas nos carris, parecem ir contando quantos percorreram, mas eles, tal como eu, perderão a conta às contas que somaram para se multiplicarem em pensamentos que se dividem nas categorias a que chamamos dias e estes, dias, são sempre de menos, subtraídos, traídos e atraídos pelo toldo da feira, quente como o inferno, que se abana e faz pensar que o céu, esse, um dia se irá caiar. É do calor, birrepito-me, que se me urdem urzes e por entre elas as pegadas que nunca permiti calcar. A cacofonia de sons, de vozes, de pensamentos que cheiram a maldade, pessoas que se acometem ao pregão e de lá, do fundo, da dificuldade em viver da vida, arrematam tudo por um punhado de moedas, ou euros, e repetem algo, primeiro, para que ela própria a ouça e, depois, baixinho, para que o cansaço o saiba, “fodasse, eu queria era dormir”. Passo incólume pelo mercado, trago carradas de coisas para as quais não preciso embalagem, vai tudo colado ao corpo mesmo senhor, sou poupado e sim, um pouco parvo também, mas não o diga, que quererão saber-me e se eu nem de mim sei, quanto mais para contar a alguém? O ar fica rarefeito, a rede é péssima, o momento religioso chega e todos se convertem à idolatria de um estranho humano quase sem bateria. A armadilha foi lançada, o animal enjaulado ainda que não o saiba eum cego pede, encarecidamente, que o deixem continuar a não ver. Dê-mos-lhes as nossas vidas, aos poucos, primeiro a comida, depois o ar, siga-se a água, aos poucos, não vão eles acordar no desconforto, terão fome um dia e saberão que isso é bom porque todos terão e os, coitados, que ousem apalavrar o final de tarde em que se sentam e riem, descalços, quase nus, de braços dados ao entardecer diremos que são doidos. Vi um ali, sentado na praia húmida, pés enterrados na areia, a traçar uma tangente ao sol com o próprio olhar. Coitado, é doido.

2015-05-21

Creio na raiz toda poderosa que me levará a ser seiva quando me sentar à sombra de uma árvore na esperança de adormecer e acordar fruto.
Plantam-nos para darmos sementes e ai de ti se mentes com a verdade que te brota da indagação.

2015-05-17

Renovar, de novo


Crónica de domingo, na Bird.

Encosto a cabeça à porta, baixo um pouco o vidro, entra-me o fresco da noite e ainda ecos de claves que luziram de lua e não de sol.
De sol em sol a falta do volante não se sente, embalo-me pelas irregularidades do piso e deixo-me ser transportado pelo pequeno emaranhado de ruas que viram, em tempos, desacordos românicos sobre qual a letra a visitar quando o amor se quer fazer entre um dó e um ré.
Ré, inocente, entre o vento e a noite, a luz que passa por mim como riscos leves de pinceladas de um sem abrigo no quase breu dos candeeiros que iluminam, mas não aquecem ao longe, do lado de lá da retina, as pequenas estrelas que me fazem chegar a saudade de milhões de anos luz onde vivi como sendo apenas éter.
É ter e não ser que me prevalece no untado corpo quando chovem risos de conversas que nunca soube ter. Hoje e ontem. Amanhã e no futuro, distante, onde me sentarei na pedra fria, a contar nuvens de mosquitos que conspiram sobre a pluviosidade que lá vem.
Lavem as ruas, as calçadas, desnudem as pessoas e as casas, hoje quer-se um momento de sonolência, passe por nós sua excelência, nua e crua, enquanto eu dormito e emudecido o céu fito, tenho saudades de ver o brilhar com olhos de criança dormente.
A dor mente, tenta trazer para si o barulho de uma semana onde encontro a vida e a morte, se me é permitida tal sorte, quando umas mãos frágeis e pálidas, onde corre sangue que quer ser respirar me seguram o braço, os lábios sedosos de um idoso que envelhece para ser criança de novo me beijam a tremer a face e um sussurro que me bate alto na cavidade auricular, tanto quanto na alma, soltando um “gostava tanto de morrer agora”, mas a vida tem outros propósitos, um pouco como as mãos que me vêm debruçar sobre o vidro semi embaciado, ortografiar enregelado o pensamento enquanto me esforço por repescar as letras que afloraram à tona do lago onde me reflicto. Baixaram a tampa do caixão.
Cai chão e terra, o céu aguarda-se azul por enquanto, os corpos contorcem-se na ignorância de não se saberem eternos, em húmus e cinza, a claridade ausente que apenas o louco sente quando a consciência mundana o deixa divagar rapidamente entre as várias camadas que nos separam do reflexo e refluxo da vida.
Vi da janela, pela janela, corrijo, a tua cara já rechonchuda, pele lisa e braços firmes onde pende a tua pulseira dourada. As paredes parecem ceder à transparência do que o olhar desatento fita, enquanto te beijam a testa fria, dás um ar de riso e colocas a mão invisível no rosto e limpas umas lágrimas de comoção que nunca chegaram a luzir. Os abraços e o choro, a tinta da caneta por onde escorreito corro, tudo se converte no chamado da atenção para a inevitabilidade da vida, morto estamos todos quando nos permitimos ser vividos pelos dias, sem que nunca os enfrentemos sem medos, agarrados a nós os segredos e a eles o dia a seguir ao outro. Apertado ao pulso o barulho ritmado do relógio sobrepõe-se ao bater do coração.
Cura, são segue o horário e a manhã fria e ventosa, a perniciosidade do mal vigorará agora que todos se sabem mortais, sem a protecção dos capitéis, de que nos valerão nas mãos gastas os luxuriantes anéis?
De novo, mas ainda gasto, dou-me ao pensamento e continuo no remexer de uma semana, a procurar sobre e debaixo de papéis, a maior parte não são meus, episódios que me possam trazer a serenidade de acalmar a pacatez do que me sobra. Não possuo qualquer legitimidade na defesa ou acusação de nada além de mim. Falta-me, faltas-me, a opinião sobre outras veleidades que não o que me dita o coração. Por mim continuo na sombra, onde sempre me soube proporcionar a queda das folhas, o mergulhar das mesmas no mar de ar e partículas que me separa da próxima respiração, ver sorrir um rosto que se volta e, por momentos, pedir em segredo a que divindade possa interessar que me tenha o tempo com placidez, afinal, o reflexo de mim no espelho sorri-me velho e diz-me, piscando conspiratoriamente o olho, sou eu quem me fez.
Sabes, leitor, penso em ti, enquanto continuo com a cabeça encostada ao vidro e o ruído abafado do motor se harmoniza na minha imaginação num contínuo ronronar de um universo a dormir. O quanto te tenho para dizer, esta ânsia de tudo espairecer e deixar que se soltem as palavras, ainda que não as gostes, porque, sei-as, por vezes, amargas. Olho para as letras e palavras, as do papel e as que passam por mim na mesma rapidez das luzes do crepúsculo contínuo que é a duração da noite, o que me separa de ti é a respiração que gostava que sentisses, sobres os teus ombros, e visses que além desta cacofonia de escombros estão as estrelas. E eu, garoto, espero que sonhes com elas.

2015-05-16

Tens as minhas palavras
em tudo o que te falo
não calo
as partituras do som que silencio
os caminhos que sigo por seguir
sem destino ou cama onde dormir
nunca pensar, um dia, por ser
em tudo o que te falo
aquilo que calo
é tudo o que me peço para dizer.

2015-05-10

Inevitalmente

Crónica de domingo na Bird.

A inevitabilidade das palavras é a última barreira e a incontornável prova da justiça da banalidade, acaba por trazer ao de cima, numa ascensão volumétrica, todo o silêncio que se tenta calar, redimindo sílabas e conjugando as palavras, ora em prosaica arquitectura, ora em queda livre de escarpas feita pelas arestas das próprias letras, vou tentando entender todos os dias que vivo.
Escrevo baixinho, inaudivelmente, tentando passar despercebido por entre dois parágrafos que quiseram falar, mas eu não os deixei.
Soltar palavras, assim, por soltar, é como tentar perceber todas as notícias que nos tentam noticiar, sem sequer deixar de lado as realidades irreais, vou almocrevando de galho em galho, porque hoje serei pássaro, escutando o passo de quem também se escreve baixinho, indelevelmente, como quem sem parágrafos torna cem eus num só entardecer tranquilo.
Oh vento.
Tu que me trazes de volta ao local onde esperei pelas histórias, vais esbatendo pela tela sem véu, a que muitos chamam céu, as pinceladas longas de uma matiz alaranjada, acastanhada, azulada, acinzentada e todas as cores que de tão esbatidas me lembram o nada que sou.
O brilhar do cair da tarde e o ascender noutro azimute da noite, a pequena aragem que pede licença ao frio e se faz carente de agasalho, o queixo encostado ao pescoço, a aba do casaco emproada, as mangas do casaco que se tornam casulo de mãos gélidas.
Há em tudo um sentido de imaginado, uma deificação de um simples arrulhar de um casal de rolas, uma amaravilhação do simples paupérrimo, o encantamento pelo encanto, o coro de uma voz só que canta e embala a própria terra e liberta, de quando em vez, a tuberculosidade de uma extensão de si mesma em forma de alimento.
Para onde caminhas tu, povo, que de tão velho te queres sempre novo?
Pudera eu ser composto, acompanhado de auxiliar que me dissesse quem tenho sido.
A vida faz-se no infinitivo, sem nunca se debater com clausuras de ideias e pensamentos, tropeça por aí ao descer de uma encosta para tomar um café na primeira tasca que traga no ar um cheiro a fumo de carvalho e a mesa já gasta pelo bater do baralho. Ah, caralho, está quente! E o colectivo riso que se acerca de um vulto e com uma palmada nas costas expressa em tons que não se vêm pela cidade aquilo, não isto, a quem os entendidos chamam amizade.
O claro e o dito, trocados pelo não dito, fazem das tardes domingueiras o palco principal do circo que se enche e mais vazio fica. Tal como as gentes, em rebanho, caminhamos como putos trôpegos, descalços e com ranho, vestidos com tudo aquilo que nos pesa e não sabemos a falta que temos, o casulo em que nos querem enclausurar enquanto nos dizem que de nós ninguém nos tira, e ai de nós quem nos acorde, não há outra mentira.
Vejo o mundo cansado, quase irado, orientando-se a cada passo que lhe impomos. Uma mole de gente, igual por ser diferente, a caminhar cada qual por si, para si, de costas voltadas à intenção (o que conta é o vómito em forma de oração) equilibrando-se neste pequeno berlinde e este, coitado, na supra infinita paciência, vai rodando e rebolando, enquanto estes palhaços criados e malcriados se degladiam nas suas vestes sobranceiras à nudez, calcando os próprios passos, equilibrando-se contra o espaço vago e vazio que é o ocaso do corpo contra o frio.
Inevitavelmente, assim, quase baixinho, existirá um dia a necessidade de sabermos habitados por almas, lampejos de uma luz que não brilha por não existir escuridão maior que aquela a que nos damos sem saber. Oh Deus, que foste tu fazer...
Era evitável, talvez, todo o recurso expressivo do qual me sinto deficitário. Eu, também, um dia, talvez ontem, serei capaz de erguer a cabeça a sorrir e do alto da falésia que me separa do conhecido gritar baixinho, sussurrando, não me encontrem agora, ainda, enquanto houver hiatos entre sujeitos e verbos, possamos ser o complemento que se transmuta em metafóricas formas de adjectivar o pensamento.
Só mais um dia.

2015-05-06

A lua, cheia, diria que prenhe, faz-me sonhar com as costas encostadas ao áspero pinheiro, aquecido pelo saco-cama, enquanto adormeço lentamente e as nuvens se apressam a parturiar a nobil mãe, que vem depositar os filhos, gêmeos, no meu colo de azevinho.
Há vezes que a vez aguarda apenas o caminho onde o só passeia sozinho.

2015-05-03

Mãe?

Crónica de domingo, na Bird.

A nossa mãe é a melhor do mundo. Sei que sim, vejo pela minha. Jamais poderia imaginar-me descer de qualquer dimensão onde possa ter estado antes de regressar a este mundo, e vir ao mundo parido que não pela minha mãe. Ainda a tenho, a meu lado, quase lhe consigo ouvir ainda o bater das agulhas enquanto tricoteia mangas, botões e por fim casacos inteiros de bebé, ou escutar a chuva enquanto encosto a cabeça ao seu colo, ou as noites a arrefecer depois das quentes tardes de verão enquanto sentados nos degraus ainda quentes a olhar para o céu, para as estrelas, e conversar como gente grande, eu, sempre pequeno a teu lado, sobre tudo e sobre nada, de onde vimos, para onde vamos. Ainda hoje existem as mesmas estrelas e quando olho para elas, embora nem sempre estejas a meu lado, trago comigo a certeza cósmica de nunca te perder, de me saber teu nesta jornada, para voltarmos a ser um dia estrelas num aglomerado qualquer universal onde eu, filho, e tu, mãe, possamos voltar a ser a ausência da saudade.
A nossa mãe é a melhor do mundo. Ouço afirmar. Vejo putos lutarem entre si, envoltos em poeira levantada no recreio da escola, enquanto se rebolam e tentam agredir, de forma a não magoar, porque criança bate sem bater, porque um disse que a sua mãe era melhor que a do outro. Já graúdos, insulto como filho da puta é visto como uma ofensa ao olimpo, resulta invariavelmente em agressões de adulto, onde se bate para bater.
Toda a mãe é a melhor mãe do mundo. Ouço-as dançar nos olhos de quem as já não tem cá. Nas palavras “a minha mãezinha, deus a tenha”, no arrastado da voz que se faz embargada pela saudade.
Toda a mãe é a melhor mãe do mundo. Com certeza. Toda a mãe tem o condão de nos desprender do nosso ego e nos remeter para a imagem de alguém que com todas as forças arrancou da terra para dar de comer, galgou quilómetros para ir à reunião com a senhora professora, sofreu e gritou para que entre pernas nascesse um ser e no cansaço da paridez encontra forças no abraço ao bebé ainda sujo, toda a mãe é frase sem pontuação, lida e relida para se encontrar os mais variados sentidos à frase, vai-se fazendo de criança mulher crescendo enquanto no seu interior crescer quem nasça ao mês nove, ou antes, ou ainda antes de nascer para as mães de filhos cujas estrelas se fizeram de sóis a esmaecer, assim, sem respiração, mãe é caminho de casa à escola, de alforge e nós de sacola, com a comida no tacho e o tacho no jornal, “limpa a boca”, mãe sabe a sortido e à riqueza de à falta de melhor nos dar o que de mais rico o mundo tem, o abraço de mãe.
Mãe não tem ponto final, continua numa cornucópia, num desarranjo de domingo enquanto passa a roupa a ferro, na ida ao campo e no regresso de feno à cabeça, mãe é o tudo, mãe é o nada, mãe é passar-nos o cabelo a pente fino e a espremer pobres piolhos, também eles mães, com as pontas das unhas, mãe é enrolar o cabelo espreitar o espelho por entre mudas de fralda, é cansar-se de cansaço e ainda assim descansar entre lavas de louça, mudas de roupa, urdir dedos entre faldas sem uma espetadela sequer permitir ao alfinete.
Mãe, mãe é segurar um filho ao colo que arde de febre, na esperança do ardor se colar ao corpo e deixar o filho em paz, é seguir já adulto homem sem nunca deixar de o ver rapaz, é sentir mil vezes o ralhete em forma de palmada no seu próprio corpo, é permitir-se ao abandono de ser para cultivar sem terra um outro dia a nascer, mãe, mãe, mãe, é gastar a vida em anos e os anos de dias talhados sem quaisquer resguardos para olhar no final de duas décadas e ver pelas costas todas as noites, alguns açoites, seguir caminho sem soltar um ai quem de nada ao mundo vem e dele homem sai.
Mãe é o silêncio de um homem só.

Mãe,
chamo-te,
quem me teve e quem me tem,
ser do mundo e ter-te,
ser eu
e, sem ti, ser ninguém...

2015-04-30

Olho para o fruto, caiu-me colhido na mão aberta. Ficaria o resto deste tempo limitado neste pé de laranjeira somente a e para te ver crescer, para que também tu me vejas semeado na vida sem contudo frutar, porque as palavras germinam, mas jamais o fruto colhe o que polinizou.
Olho para mim, nascente a poente, com o desejo de emancipar almejado diário de tudo o que serpenteia no céu, ainda que nele sobre apenas desejo, meu.

2015-04-28

Guardei o melhor para agora, que tudo dorme, para abrir os braços e deixar-me levar ao colo pela noite, que tudo acorda.

2015-04-24

Trago já de longe o barulho característico do metal das rodas do comboio a zunirem no ferro do carril. Ouvir é-me deixar escorregar pelas imagens de uma paisagem que me olhava quando puto me colocava em pé, sobre os radiadores, e espreitava o vento a correr do lado de lá da janela, o cheiro a cigarro, o pregão intermitente do rebuçadinho da Régua, a lentidão do trajecto na rapidez da aventurança de catraio a tentar descobrir o que era o sonho de vir a ser carruagem com locomotiva de ronco forte e áspero.
Paro, escuto, olho.
O que vejo faz-me levar a mão aos olhos, não vá o vento, o calor da linha e o cheiro de óleo queimado deitar fora o sal que ainda me tempera a visão.

2015-04-22

A liberdade de escrever

in Bird Magazine.

É comigo que o silêncio fala,
escuto
ainda que não o ouçam
os pobres olhares que dizem nada terem a ver.
Vidradas
as luzes bruxuleiam-se ao tecto
para se derramarem sem cuidado
nas noites que tentam iluminar.
Enquanto na caverna temem a vida vivendo
cá fora acautela-se e emoldura-se o vento
e até a estupidez se cala,
porque ao longe vem o silêncio
e é comigo que ele fala…

Ainda que me doa
o acordar
é pelo sonho que me vivo,
no momento de me ter escrito
separar o vulgar
de um sopro inaudito
cá te almejo por entre mim
fugindo
do destino que soçobra altivo,
és planeta que se expande
num botão de Universo que plantei no meu jardim.

Intriga-me a quietude do silêncio
o amadurecer do êxtase
a órbita orbitada
inefável
pela noite (sempre, sempre a noite)
que se desliga do mundo para se ligar
à vida (sempre, sempre a vida)
enquanto as perolazitas a que chamam estrelas
rebolam e se enfiam olhos adentro
como se os dias chorassem para dentro de nós.

Que me lembre, sempre, eu, de ser pobre,
adormecer desnudado de mim,
de não distinguir ouro de cobre,
mundano
contra o vil, espartano,
cair por olhar as estrelas
e seguir adiante, ainda que ignorante
do brilho soçobrante das velas,
no meu destino pelo infinito, errante.
Vou não indo, a decisão toma-se quando não se decide. Por crer, creio que o amanhã poderá querer ser diferente, trazer o que se faz ausente, permitir que floresça um caminho do qual se sente apenas o odor, a certeza da incerteza, a volatilidade do infinito em constante mutação. Estão-nos a parir, vamos nascer com olhos nas estrelas, mas por enquanto o mais próximo de lá é o olhamento de uma brisa ténue, quase sem vento.

2015-04-21

Acredito, um dia, dois que sejam, a indiferença pese menos que a diferença e por esta o trigo possa seguir adiante, sementeira e seco na eira e até o joio alimente, não a bolsa de quem semeia fome, mas quem no fundo do esquecimento nos olha, de frente.
Oh alicerce,
pinta-se o monumento e as mãos
do Homem
e tudo se perde
se além do amor nada perece,
façam-se as vozes caladas canção
a sombra onde se esconde 
tempo e visão
guardada a sete almas 
a chave,
toma-te criança
habitada por quem se sabe perdida,
aí jamais a morte alcança.

2015-04-20

Não vamos!

Vamos caminhado, em círculos, percorrendo os mesmos trilhos, vamos caminhando, mesmo, sempre, pequenos, vamos caminhando, afundando o caminho na passada, cavando o que nos resta de solidariedade e seriedade, vamos, vamos, caminhando, sempre, não olhes para trás, atrás vem gente, segue, vai, indiferente, não pares, caminha, caminhando, vai, escurece, escava um pouco mais do caminho, vai, caminha, que a sina de se ser homem é urdir as vozes do pensamento com "o que é que ele tinha?"

2015-04-19

Nau

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Um estrondo estreme as vidraças e a janela, embora a impassividade com que verte o resto do conteúdo da lata de atum, óleo de girassol incluso, sobre a fatia de pão velho transpareça o alheamento do som.
O vento empurrou a portada, descascada de verde, que bateu forte sobre a madeira, não causando estragos, porque estes já foram causados pelo tempo, que lhe trouxe um vidro partido.
Este jogo de quem assusta quem vem de longe, vento que o assusta ou tenta assustar e ele, sentado, como que falecido, causando a curiosidade do vento que chega de mansinho apenas para saltar e correr encosta acima deitando abaixo folhas já soltas preparadas para o Outono, quando ele abre de repente os olhos e o olha como que o tivesse visto.
O riso ouve-se invariavelmente a cada chuvada que cai, seja Inverno ou Verão, Outono ou Primavera, quando o homem se faz era e encosta à parede desbranqueada o corpo nu. Não há pudores, nem dores, onde já só habita o último homem só sem solidão, apenas carris por onde ninguém passará a carregar restos de corpos cansados de outrora, ou vagões carregados da súmula dos dias numa aurora.
As pedras lateralizam um fio de água, livre, cobertas de um líquen que não conheço, cores amareladas por um verde que me lembra o sono quando adormeço.
Ali está uma figura, dura, que sobe e desce a ladeira de um monte, agarrado a umas pedras pontiagudas onde, aos poucos, foi também ficando parte do parco vestuário, irá a um pequeno mercado, trocara dinheiro, enquanto o teve, por comida, parca, como ele, um ou outro saco de arroz, açúcar, por vezes massa, vegetais enquanto não os soube plantar e dois dedos de sorrisos quando encontrava alguém para conversar que não falava.
O passar do tempo, do lado de cá da vida, foi implacável com quem de cá vive pouco tempo e, por isso, envelhece. As paredes, as flores, as rochas que ninguém pariu, permaneceram vivas e semivivas, porque quem da terra vem jamais da terra vai, apenas nós, homens, que somos da terra o espectro, o infra e o ultra do que ambicionamos, mas isto ficará para lá destas linhas, agora, que me imiscuo no cenário e faço da narrativa um pouco de meu sudário.
Vi-o despejar, depois, sobre o pão e o atum, arroz de ontem aquecido hoje para colocar fechado na preta panela sobre o lume que atiçara. Não fumega, aqui até o fumo se evapora. Há-de aquecer panela e comida e ele, dali mesmo, da panela, sentado num largo tronco de madeira onde racha lenha e senta parte dele rachado, chega os pés para a lareira, aquece pés e as mãos, ao segurar na panela com um pano amarelado, enquanto cheira o que de pouco cozinhou.
Termina o almoço, levanta-se, o lume ficará a aquecer o ambiente ou a enegrecer o que falta do tecto, onde, empoleirado num aglomerado de troncos, com o dedo previamente molhado no óleo de outras latas de atum, desenhou pequenas estrelas, não fosse um dia a noite nascer sem elas e ele sentir saudades de casa.
Dá a volta a casa, sai pelas traseiras e pega em mais uma lata de atum, vazia, limpa-a com a mão e um pouco de terra e vai, sorrindo, sentar-se no chão cauterizado na frente do apeadeiro, levanta-se um pouco e arrasta para si um balde com terra escura.
Nada parece indicar que antes, outras eras, por ali passava gente. Agora, aquele chão parecia o local de batalha entre um homem e o cimento da plataforma. Aos poucos, ou aos muitos, confesso que não o conhecia antes desta folha de papel embora me tivesse parecido existir por ventos que vi soprarem noutros aluviões.
Depois, gentilmente, cuidadosamente, parte o resto do cimento já rachado e levanta a pequena flor que nasceu por ali, entre argamassas. Segurando-a pelo caule, olhando as frágeis e brancas raízes, apressa-se a colocar terra negra na lata de atum, faz um buraco com dois dedos de largura e pousa suavemente a flor. Irá cobrir as raízes, pressionar um pouco a terra em torno do caule como quem chega a roupa da cama ao pescoço de um filho e, pousando a lata sobre os joelhos, sacode as mãos, pega na lata segurando-a entre o polegar e o indicador e ergue-se, ficando ligeiramente encurvado enquanto espera que as pernas se habituem a nova posição.
Ri-se ao olhar em volta e ver que, na plataforma, já nenhuma flor aprisionada lhe pede para ver outros mundos.
Vai descer com cuidado a meia dúzia de passos íngremes até ao ribeiro onde, sobre uma improvisada plataforma de madeira, se improvisa um cais e onde estão já centenas de latas de atum, umas garridas ainda outras, haja fotólise, exibem apenas o enferrujado esqueleto, cada qual com sua flor, algumas já com descendências e outras ainda com raízes que espreitam borda fora da carcaça improvisada.
Uma a uma, com os pés descalços enterrados no lodo que faz de leito ao ribeiro, vai pousando as latas e desejando a cada flor uma boa viagem. Conforta-o o significado, cada flor sua paisagem, cada visita uma viagem, vê-as desaparecer além da última curva e imagina-as na jornada, ribeiro abaixo, rio acima, até um qualquer estuário as vir chegar e, de portas abertas, as levar lentamente ao mar.
Vazio, sobe quase de rastos a pequena encosta e separa-se do que não é seu, deixando para trás roupa e um ocre céu.
Cansado vai como quem tenha parido uma vida, deita dois cavacos à fogueira e enquanto estes lutam entre si pela chama maior, despe-se, passa água pelo corpo e seca-se com o mesmo pano amarelado com que segura panela e púcaro.
Vem nu à janela, abre o postigo.
O vento olha-o como quem lhe pergunta onde vai.
A troca de olhares convida-o a entrar e apressa-se a soprar sobre o braseiro para que não se apague. Fecha o postigo, fecha outro postigo, a porta é encostada e um pedaço de papel é enrolado e colocado na fresta debaixo da porta nova de madeira velha. Estende uma antiga passadeira feita de trapos, ainda nu, deita-se. Levanta a cabeça uma vez, olha para o lume, ainda lhe sente o calor chegar aos pés e enquanto o sentimento tépido lhe sobe pelos pés, pernas, joelhos, olha para o lado e vê o vento deitado a seu lado, quase adormecido, de sopro é agora um suspiro.
O calor chegará ao tronco já ele olha o céu semi-iluminado, onde brilham as embaçadas estrelas que desenhou.
Depois?
Depois acabou.

2015-04-12

Saturo a ausência de estratos
perfilo-me à chamada de uma vida 
vejo-os ali, soçobrados, cegos,
pendidos pela força dos seus egos,
onde cairá a chuva que me leva ao pó
onde
chuva
só?
Trino as estrelas do firmamento
há em ti todo o lamento
rosáceas que se querem para o mundo
sem que as prendam um momento.
E eu, saturado,
aguento caloricamente o verão arado
pelos dias frios que me austero,
eu estou quem quero,
porém se de mim me disserem,
já não tens idade,
sorrio,
os anos que por mim passam são apenas uma tarde
no dia que na palma da mão se arde.

Páscoa

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Sons de sinos, pequenas badaladas que vão percorrendo as ruas empedradas e sorridentes.
Ele pega-te na mão e traz-te pelo céu, viajando de raspão pelo arco-íris que teimosamente teimas em colorir a cada manhã que acorda molhada.
Corres sem pisar o chão, volitas entre as opas vermelhas, o crucifixo dourado, as flores que o encimam e reparas que ao teu redor há toda uma natureza que parece ressuscitada.
Chama-te a atenção do petiz que segue ora à frente, ora atrás, quando o cansaço o assim obrigar, badalando-se ao som da sineta. Vai orgulhoso da tarefa e tu, que nunca foste de badaladas, vestes-te de arco-íris e vais colorindo o caminho, olhando à volta, percorrendo os olhares, cheirando as flores e lamentando a sua sina. Pensas que mais valeria plantar as flores de vésperas pelas ladeiras onde este passo passasse, fazendo de todo o caminho não um tapete, mas uma colina florida, apenas até te perceberes que as colinas, canteiros e ladeiras deram origem a muros e outras fronteiras. Pedes desculpa às flores, distrais-te com uma formiga e o seu caminhar errante e tens que voltar a correr para alcançar a procissão quando Ele assobia e levanta o braço fazendo sinal para que avances.
Vêm aí, vêm aí!
Alguma criança entra a correr no portão, deixando-o aberto.
Prende primeiro os cães!
Volta atrás, fecha o portão, prende os cães, que ladram de medo e sobreaviso, tentando alertar a quem lá vem que, por via das dúvidas, humano não deve acreditar em humano, isso é para os animais. Bicharada presa, abre o portão, a mãe chega-lhe um saco de plástico com pétalas, folhas e flores completas, que ele espalha no chão sem a preocupação de estabelecer um padrão e corre para dentro de casa apenas a tempo de descalçar os chinelos e enfiar os pés numa branca imaculada sapatilha com fecho de felcro. A mesa posta atrás de si, de onde, sem ninguém ter reparado, tirou uma amêndoa de chocolate e levantou ligeiramente o pão-de-ló descolando-o do papel, debicou uma pequena parte, encostando-o de novo ao papel. Pelo portão aberto, calcadas já as folhas, flores e pétalas, entrou o compasso, a sineta a cantar pela alegria de quem a transporta e os homens, de boa-vontade, acreditemos, entram na pela porta da sala, um a um, cada qual sua função. Atrás deles Ele chama-o novamente, tinha ficado entretido com as pétalas tentando movê-las com um sopro que não venta, levanta-se a correr e é a correr que a opa com sete cores sete vezes ondulou até Ele, já dentro da sala, lhe pegar nos braços e o colocar aos ombros para que presencie.
Um homem, um dos que tem opa vermelha desbotada, entrega a outro homem sem opa um papel e começa a ler umas palavras. A família, alinhada, de roupa velha estreada, com sorrisos fáceis e um rosto cheio de aparência, repetem no final, quando o outro pára de ler e ergue, solenemente, os olhos. O chão tinha já algumas gotículas de água, benta dizem, embora não vente e por isso o petiz, de sapatilha nova, não percebe o que é isso da água ventar, olha para o seu pé direito e, triste, vê o imaculado calçado branco com uma pequena nódoa da água que lá caiu. Pode ser que vente e a nódoa saia.
Um dos homens ergue a cruz com as flores e aproxima-a de cada um que ora beijando os pés, o peito, as pernas ou simplesmente beijando um dedo e tocando levemente os pés pregados na cruz, pensa por onde terá andado a cruz, o quase partir do dente ou o disfarçado virar da cabeça no último momento, a tempo de encostar apenas o queixo à cruz.
As palavras trocaram-se, a senhora, que há momentos estava de avental na cozinha, olha agora para o marido, que se vira para trás e pega no envelope onde está o nome da família, entregando-o a um dos senhores de opa com um saco escuro.
Alguém é servido?
O triquete da sineta olha por uma vez para a mesa, com os olhos cheios de vontade e uma barriga que lhe pede para dizer a verdade e aceitar. Mas ninguém é servido e isto faz esquecer momentaneamente que a sapatilha nova tem uma marca de uma água que venta e que, até, um dos pés lateja e de tão belo calçado não teve coragem de dizer à mãe que um pé apertava, porque a mesa ficaria ainda com o mesmo número de amêndoas, as bolachas sortidas, o pão-de-ló e aquele vinho que deixam provar apenas nestes dias e quem tem nome de cidade. 
Posso comer agora uma?
Perguntou ainda o compasso não tinha arredado pela porta, voltando-se todos com um sorriso, rindo-se mais da ignorância do que da candura, enquanto a mãe sorria com um rubor de vergonha e replicava.
Claro que sim filhinho, estão aí para comer.
Os risos sucedem-se, ele leva uma bolacha de chocolate à boca e um dos senhores de opa dá um pequeno empurrão à opa branca, que pelo susto sacode o braço e faz a sineta tremer de solavanco e dá azo para que se volte para o portão e comece a caminhar, com a barriga a resmungar, prometendo-se a si um bom pacote de amêndoas com o dinheiro que ganhar a roçar a erva no caminho do vizinho. Todos caminham para fora do portão, os cães ladram ao barulho da sineta, as flores, pétalas e folhas são calcadas uma vez mais e ficarão no caminho até que o vento, verdadeiro, as leve para outro local. 
Na rua, mais alvoroço, portões que se abrem, flores que no chão caem.
Ele, que só tinha dado uma dentada na bolacha, saboreava o desfazer saboroso do cacau com a crocante bolacha amortalhada numa qualquer linha industrial e olhava para o resto da bolacha, comparando-a à meia-lua que tinha visto no dia anterior. A mãe fecha a porta, vira-se para trás e enquanto despe a blusa dá um calduço ao rapaz.
Que seja a última vez que me envergonhas à frente dos outros! Ainda por cima em frente a nosso senhor! O que pensarão? Que não te deixo comer noutras vezes?
A outra metade da meia-lua foi engolida junto com a vergonha e uma lágrima enquanto a mãe, praguejando, passava o avental pelo pescoço e desvanecia pelo corredor até à cozinha onde assava o resto do bicho que tinham comprado morto.
Olhando para a mesa, trincando o resto da bolacha, pensou que não bastaria já terem-No crucificado uma vez, porque razão teria que ter a cruz de ferro já com Ele soldado à mesma e, como tal, sem ter modos de fugir, os pregos nos pés e nas mãos? 
Chupou a ponta dos dedos e garantindo que a mão não tinha chocolate, meteu-a por dentro da camisa e tirou um pequeno crucifixo prateado onde, previamente e às escondidas, tinha raspado pregos e cruz de espinhos, com cuidado, tendo amarrado um pequeno farrapo branco no peito onde pareciam ter-Lhe enterrado uma lâmina, e fechando os olhos deu-Lhe um beijo, rindo-se depois atrapalhado por não se ter lembrado de lamber os lábios, que ainda tinham um resto de chocolate. Limpou o crucifixo, fez-Lhe uma pequena festa e guardou-o novamente, enquanto ouvia ao longe o barulho da sineta e pedia um desejo secreto.
O compasso foi sinetando caminho fora, diz-se que leva a boa nova, mas ela, a nova, boa, vai habitando em cada um que se preocupa de igual forma com o destino da vida como com o destino de uma folha arrancada à terra, para que outros a façam de tapete.
De opa colorida, já no chão, começam a caminhar também, no encalço do compasso, dá-Lhe a mão e não sente a mão calejada e cicatrizada de antes. Olha para Ele, que lhe sorri e pisca o olho, passando a mão no peito, agora sarado.

2015-04-11

Vê bem aquilo que o silêncio te quer fazer ouvir. 
Está ali, ao virar de ti mesmo, a casa onde desejas chegar. 
Vale a pena esperar.
Ser onde se está, fechar os olhos, sorrir.

2015-04-08

Quando as minhas mãos se cansam, tacteiam o papel e só pela rugosidade, pelo que está escrito ainda por escrever, sentem-se saciadas. Eu... Creio que Eu é sinónimo de livro, inacabado, desfolhado, presente que se faz de passado. Livro, eu, a querer ser, por escrever...

2015-03-30

Consegui chamar o frio, novamente, que teima em fugir por entre as minhas recordações de Inverno e de finais de tarde lá de meados de Setembro. Abriga-se no meu colo e no olhar aflito de uma dor que não se compreende, penosamente enfia o seu focinho afiado entre o meu braço e o tronco e deixa-se ficar, quase que adormecido, enquanto eu próprio também durmo na esperança de acordar e ver que o dia é ainda dia. Se nos teimarem ser Verão, também seremos, verão que das estações só as do comboio, mesmo que alienadas e despojadas sejam, permanecem inalteradas na paisagem, quem as não tem? Paisagens e estações? 
O frio escapa-se-me e segue, por aí, acalentando olhares de soslaio, sonhos de catraio, dois ou três pares de nuvens e um sorrio. São estas as minhas orações.

2015-03-28

Momentos

in Bird Magazine.

Havia muito pouco de tudo aquilo que a vida necessita,
o pó
a terra arada
toda a falta de um candelabro que ilumina a noite e a ressuscita.
Entre muros a pedra
e a ausência de uma face
o nevoeiro que se enamora pela erva
e o solo afoito de onde o que sou nasce.
Paira no ar
entre mim e a visão
as aparas diluídas de uma madeira inquebrável,
uma mão que quer afagar
a entrada mais curta para o coração
as turbulentas casualidades da amarrotada folha de papel.
Não poderei abraçar o Sol sem o aquecer, nem a Lua sem a fazer tremer. Um pouco como os caminhos que não posso percorrer por me estarem, sempre, a falhar os passos porque os meus pés ainda não chegaram ao local onde estou. Vou caminhando e recuando numa recursividade que me faz grafar por memórias nunca antes navegadas. Talvez seja isto a humanidade, o conhecer e desbravar, sinapsar e abrilhantar o dia com o sorriso possível, sem que se torne o sonho impossível.
Uma das minhas memórias soltou-se, por aí, quando me sentei ao Sol e, inadvertidamente, fechei os olhos sem me lembrar que o Universo é tão fugaz e capaz de me surpreender, que se deixou habitar pela minusculidade do que sou.
Choram-me palavras no colo, afio as letras e esgrimo-me na tentativa de embainhar-me no silêncio das frases nunca batalhadas.
A guerra é o profundo desconhecimento das palavras conjugadas com o olhar, imperceptíveis a quem se limita a ver, um pouco como o que sobra do horizonte depois de lhe termos gasto a cor na desenfreada corrida monocromática a que teimam designar como vida.
Tenho no abraço a mais longa viagem no tempo, da génese à pluralidade de uma calçada que se faz com as graníticas doses de labor. Obreiro, quem te faz a ti, que em mim quer primeiro?
Um dia, dois diasporalizados irão caber no peito não denso de quem se faz escorreito
Foi por entre as palavras que, numa tarde como esta, enquanto o vento atira os ciscos que o levarão a esfregar um olho, que vi surgir timidamente a ilusão de me desiludir. Daí para cá finquei-me e fiquei-me pelo que sou. Cada flor seu canteiro, cada bicho sua lura. O lugar de um deslocado é o momento em que a sua própria sombra se desprende, despede, e deixa pousar-se imiscuída entre sombras de raízes diferentes.
Conheço o caminho pelas curvas que traçou, as aparas, a grafite, os restos de suor de quem sangrou por uma estrada sem direcção. O sentido dá quem o quer, quem o sabe. A vida ilumina-se pendendo do tecto em forma de watts, what? A vida, do tecto, do céu, pouco interessa de onde chove, quando se vive é para todos.
Vou guiando o silêncio, segurando-lhe os pulsos pequenos, içando e pousando o andar, longe de raízes falheiras e pedras à espera de serem falhadas, quando ele pára incito-o a continuar, não o deveria fazer, cortar assim a curiosidade sadia, mas tenho pressa, quero leva-lo rapidamente. Chego. Chegamos. O Sol ainda quente, eu ainda ente, sento-me no chão frio, encosto as costas à parede aquecida, sento-o no meu colo. O Sol. Eu. O silêncio.
Mais historias teve o dia, mas era apenas esta a que o ruído queria.
Terra, eis o teu filho.
Filho, eis a tua Terra.
Vou ao encontro do ocaso,
sem caminho,
entre paz e guerra acompanhado
de mim sozinho.

2015-03-22

Quimera

Crónica de domingo na Bird.

Falaste na Primavera. 
Para mim bastou-me, foi como se a própria palavra te sobrasse pelos ramos e tu mesma florisses.
Aliás, sempre te vi em flor. 
Renascida a cada cinza atiçada, não como fénix, mas como uma companhia solitária há muito desejada.
A estrada caminhou ao meu lado, conta-me histórias de várias léguas, medidas distantes para chegar a quem nos quer hoje como antes. 
Eu não falo. 
Basta-me ouvir-me e desabafar com o vento, esse, de repente, sem se mostrar interessado, começa a soprar quando paro de falar, apenas como quem me diz, vá, continua, estava a ouvir. 
Tem uns trejeitos de adulto criança, fingindo ouvir quem de si se fala, mesmo quando aborrecido desata a brincar a meus pés, mesmo que isso represente levantar areia e pó para os olhos, trazer consigo gotículas de um mar que ribomba ali, ao fundo, embrulhado com a praia, ali, ao fundo, nas mãos petizes da menina que segura a sua saia.
Faltarão menos de quarenta passos, uns quantos sacrifícios agarrados aos braços, para se erguer no monte aquela que te fará ao nome, chamar-lhe-ião cruz, mas tu de baptismo nasceste apenas jesus e eu, de metáfora baptizado, primeiro e último nome da parábola, finjo que não te ouço quando sobre mim paira o fino fio do aço da espada. 
Sim, parece-me que sem nós somos mesmo nada.
Já o vento se espreguiça, adivinho-o entediado, ouviu-me falar dos passos e das passadas e conhecendo os meus passados, sabe que o primeiro movimento que farei será permanecer no mesmo local, imóvel, a aguardar que as estrelas se conjuguem, logo a seguir às vogais, da mesma forma que estavam quando olhei para cima e vi, claramente, outro eu que para mim olhava.
Não, parece-me que sem mim não sou mesmo nada.
Se o vento empurra para barlavento estradas que nunca percorrerei, sobejam-me todos os volumes que cubiquei, terra sobre mim que jorrei, para continuar no defeso da imaginação e ver surgir um confuso Alma Grande que traz Garrincha pela mão.
Saído do ventre que me pariu, aterro neste corpo que nunca minh'alma viu, excepto pelos desacordos e pelas peregrinações que faço entre versos ou, então, pelos universos, todos eles feito de olhos acessos que é como quem se vê pela primeira vez visto.
Ah, agora sim, eu sem mim sou isto!
Desajeitadamente arranjo o colarinho e dou uns passos a olhar os pés, enquanto o piso de madeira não me faltar sei que em ti está quem és, mas mesmo que me saiba de papel feito, não como avião ou barco, mas como textura e secura de palavras e vidas, as mesmas que mencionei não serem partidas, esta respiração arritmada que me escreve entre a parede e a espada.
Canso-me um pouco da procura, a miragem que a tua ausência tem está em cada olhar mais profundo que escavo, encontro um ou outro sonho escravo, sei que me dizem não ter eu cura, pouco me interessa tal agrura, se me encontram doente, que farão quando virem que é na ausência de tempo que tudo perdura?
Hoje não, que me cansa a noite e não sou de alterar discursos, mas um dia, lá para meados de mim, irei acordar o corpo a cada manhã e esquecido que sou dos sonhos que prometo, irei ver-me pelos meus olhos, segurando o espelho retrovisor entre os dedos, ah eu não sou cá de medos, tão pouco segredos, e alcançarei aquele pulsar longínquo que me faz alimentar o mundo porque as palavras têm pouso, mas quem escreve sonha voltar novamente vagabundo.
Distraio-me nas cores do poesia, ainda que em prosa, tu abres-me o vidro e entra por mim o cheiro de ti e de maresia, falas-me nas cores do arco-íris que viste numa rosa. Sem ti o que faria? 
Já tinha esquecido que tinhas-me falado da Primavera...
Sorris. Sorrio. Sem nós a nossa vida era uma quimera.

2015-03-15

Ainda que adormecido

Crónica de domingo na Bird Magazine.

A facilidade com que esta folha branca se ri de mim é enervante. 
Começa por um duelo, um olhar estarrecido para uma imensidão fértil, sem o conhecimento ou discernimento de qual fruto semear. Ouso acordar para a musicalidade de uns passos, o caminhar conhecido pelas mesmas ruas de hoje, mas com o mesmo olhar de ontem. 
O dia amanhece sem grandes preocupações, as palavras adormeceram sem pensarem acordar para uma singularidade não repetível, eu, aqui, neste planeta. 
Levo ainda o sabor a café, amargo, como uma cortina que se encosta ao interior da boca e me faz sentir acordado, ainda que adormecido. 

Imagino uma estrada sem buracos, um percurso nivelado que não se transforme no ziguezaguear contínuo por entre asfalto fractado, marcações a tinta envidraçada que ninguém ousa calcar, decisões que ousam indecidir. Perco-me na imaginação, ainda que adormecido, de me ver diluir num abraço sentido ou no olhar trocado com o sentido proibido.
Cansam-me as vidas que deixei para trás e que ainda me tentam alcançar, como se me visse do alto de mim mesmo e, ao meu redor, fossem ondulando as existências a meus pés, indo, vindo, trazendo consigo a espuma e o gélido aroma a maresia que me faz querer voltar ao que ainda não saboreei. Sim, ainda que adormecido, levanto-me do sofá bem depois de me ter içado e oscilado com o vento que abana a persiana, o vento traz-me a tarde por entre as cortinas da sala e espreita por todas as fotografias que me vêm sorrir. 

Agora, o sorriso, é reserva estabelecida para as noites estreladas ou, como hoje, para as conversas que se têm numa ou duas estradas. Senti-me novamente estranho ao corpo, na imagem que se reflecte e refracciona dentro de mim, sorri. Ri. Embora não me transforme no petiz que vi sentado no atrelado de um cacofoneiro tractor por entre sacos de, imagino, erva ou ração, ou no puto normal que se esconde por detrás daquilo a que chamam deficiência. Curioso como esta dimensão temporal se faz no agora aquilo que trouxemos pela vida fora. Um pouco como as frases que tento escrever, sem prestar atenção ao caminho e aos ramos baixos que teimam em bater-me na cara quando, incauto, um pouco parvo convenhamos, tento andar por entre pinheiros no meio do resto do dia que se ausenta. Os dias transportam um pouco de tudo. Um poema que vi escrito dentro de mim e que ficou a aguardar um novo caminho sentado numa fonte que, agora, não existe mais. 

Acredito que ficará por lá até que eu passe, veja o barulho do borbulhar e, ainda que adormecido, desperte para a cristalinidade de uma água que faz nascer a sede. Infelizmente, a calcificação do que sou não me permite alcançar a fluência do discurso e, um pouco triste, confesso, perco-me nos olhares e nas inúmeras metáforas que tento compor na esperança de, com isto, mostrar que o não mostrado é o que exibo de facto, um pouco como o beijo, o não dado, que se torna o mais saboroso por ter sido dado no silêncio da distância que embora aqui nos separe, nos une como nos longos serões onde o mundo parece ser feito de película e a película feita dos nossos corpos agasalhados um pelo outro e pelo travo doce de uma cabeça a descansar sobre o ombro. Ainda que adormecido não durmo. Reservo-me à prostração e alimento-me das conversas, de caminhos percorridos à distância de um braço, o calcar das pedras que foram pó um dia, como as pessoas, como a tarde quente que traz o que sou aqui mesmo à minha frente. Agasalhei as palavras o melhor que pude. 

Lamento imenso não conseguir sentar-me na soleira da porta de mim mesmo e escrever, ao sol de quem por mim passa e sorri, que tudo o que sou não sou, tudo o que tenho não é meu, porque meu são as noites e os dias, o passado e o futuro que não percorro porque estou agora, aqui, neste exacto momento, comigo a ser eu próprio. 

Que faço? Choro? Rio? Talvez a finalidade seja a inicialidade e a palavra que procuro escrever, falar, seja aquela que ouvi quando a pensei e, depois, aconchegando o lençol ao pescoço a deitei. Talvez seja isto, ainda que adormecido, estabelecer sequências rítmicas, o ciclo de palavras que ciclicamente me circundam e me fazem sentir espiral sem qualquer limite tridimensional, apenas para escutar o som das sombras das árvores que me permitem abrir os olhos no solareio final de um sábado de tarde. Vai, eu também irei, enriquecido e inebriado de energia dos locais onde residem as memórias de um tempo que será passado agora que chegou o futuro das nossas vidas. 

Espero que ouças o ranger dos teus passos no final de tarde, que a brisa de um Março te faça sentir ao longe a candura do abraço, que a cada rima se evaporem as luzes de quem nos ilumina lá de cima. 
Vai, eu estou por aqui, fazendo-me de mim esquecido, desperto, ainda que adormecido.

2015-03-08

Mulher

Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Tens-te metade de mim, na sôfrega parte de me saberes melhor do que a metade do que fui.
A ânsia do regresso ao ventre de um ventre que te pariu.
Mulher, tu és a parte do mundo que nunca te sorriu.
Tu.
Ao longo dos tempos, antes do tempo sequer nascer, se quer nascer dê-se ao tempo o que ele deseja, a vida em forma de bandeja, como um abraço sofrido e contido porque do lado de lá de ti está a metade, aquela que te sorri.
Por entre as melodias de uma canção que se quer silenciosa, não se vá acordar o som que te embala, surgem as vestes de uma nudez que te vai retirando, pele a pela, as camadas onde se escondem as estrelas que te habitam.
Sim.
Em ti o brilho que se quer da noite, do luar, da ausência de um astro que ilumine em torno da órbita que te faz translação, tu, mulher, poema, canção.
Não.
Acordas para o corpo que te veste, vestes-te de estação, qualquer uma, descansas sob a manta de um dia e acordas, novamente, ausente e presente a cada passo descontinuado, tu, mulher, fruto de um amor suado.
Há o reflexo que se reflete em ti, a opinião que opinas sobre ti mesma, a calçada que se estende para que vejas os teus passos sem falsidade e tu, mulher, preocupada com a idade, tu, mulher, tu.
E tens o ventre, o ventre vazio de filhos que não são teus, porque a quem de mulher se faz menina sabe que até o arco-íris tem mãe.
Mulher.
Sabes, sabe-lo, que acima de ti e da imensidão que se estende aquém do infinito há um silêncio onde se encontram os que ouvem, mulher, mãe, sabes, sabe-lo, nunca de teu corpo prisioneira poderá ofegar a saciedade por te querer a sociedade moldar, tu, mulher, ser de vidro a moldar pela forja de teu próprio sopro.
Surgirá um dia, mulher, o ocaso das nossas diferenças, a passadeira amarela que se estende por entre as mimosas floridas, o fluxo de um rio que corre livre contra a corrente, indiferente a quem o navega, na pequenez de um lar que se faz mansão, tu, mulher, fera de suave coração.
Guarda em ti o que de ti alimenta, as frases tantas com que um mísero seguro atormenta, a feminidade de um mundo que se vai a ti, contra ti, porque de ti tem ele, mundo, medo, o segredo de se saber mais fugaz que capaz, de percorrer os caminhos que nos separam, apontando a cada um o outro e o que do outro se faz um, sabendo que na desunião de dois sobra nenhum e, nenhum, é o que somos quando de costela em costela nos fazem díspares, polpa e fruto de uma árvore só.
Faz-me aqui, em mãos de ninguém, o aconchego de nos termos separados pelo amor.
Eu não te sei dizer mulher.
Talvez seja essa a minha dor.
Por isso, a cada curva de ti, quem te faz mulher não é o género, é a constelação de tudo o que és que faz seres um mar de estrelas no céu diurno, as mesmas que iluminam na claridade, aquelas que acarinham nos braços com o mesmo amor os filhos de outras mães.
Mulher, de ti vem o mundo, para onde irá o mundo depois de ti?
Procuramo-nos um no outro sem sabermos que somos os olhos da mesma face, sofremos como quem nunca se amasse. Porquê?
Cegamos na nascença e fazem-nos separados, quando de todos os convites para a vida, o único que procuramos é aquele que nos faça sentir amados.
Mulher. Eu sou tu. Tu és eu.
Existirá alguma indiferença entre nós debaixo deste mesmo céu?

2015-03-01

ALEGRIA

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

É estranho, no mínimo, dizer que se perdeu o comboio. Eu perdi-o, embora nunca o tivesse tido, e ele seguiu, caminho fora, carril dentro, enquanto eu me apertava de encontro ao blusão e puxava as abas do casaco para o pescoço, lamentando no momento não ter desfeito a barba, que renasce grisalha, para poder assim sentir o calor do tecido contra o corpo. Sempre se quer outro corpo, mas na ausência deste e porque o vento corre frio, ainda mais apressado, com o qual me rio, fico-me pelo tecido tecido contra mim.
Os chafarizes salpicam-se e algumas infelizes gotas caem fora do pequeno lago que significará algo, talvez para o seu autor, mas que para mim se assemelha a um caminho molhado onde no Inverno nos traz à memória pensamentos de calor e, no Verão, serve para crianças de todas as idades molharem os pés, indumentária e, talvez, alguém enxague a alma.
Passo uma leitura rápida ao que a comunicação social de hoje traz do dia de ontem. A notícia é isto mesmo, tudo aquilo que nem sempre precisamos saber, mas que nos querem lidas, redigidas em ornamentadas celuloses, frutos de cravos agora, quem sabe, correm iluminadas pelo crepúsculo ao qual se assemelha este túnel.
Algum suspira atrás de mim, deduzo que não consiga ler e, pacientemente, afasto-me um passo e alguém passa pelo meu lado direito para estacionar mesmo à minha frente, a meio passo da montra, inclinando-se e levando consigo o oleoso cabelo que escorria pela nuca, orelhas e um pouco do casaco tingido de caspa.
Existirá vida acima desta caverna, o dia parece convidar a uma incursão pela superfície e, por isso, sem atentar ao que o relógio me sussurrava, precipito-me para o chão que me foge debaixo dos pés e ascendo à plataforma, vendo já a errada ou precipitada decisão quando a gargalhada do relógio é audível e me apercebo que está frio, o vento salta entre linhas e, eis a razão do prévio aviso do relógio, mais rápido que ele próprio surge o comboio intercidades, apressado, levando consigo o horário do progresso.
Afundado ainda mais no casaco, ando uns passos até me esconder na perpendicularidade do abrigo ou paragem, vidrado, escondendo-me a tempo da volatilidade do vento deste dia. As paredes vítreas convidam o Sol a entrar e ele não se faz rogado ao passar por entre os bocados de éter que o separam da minha imaginação, aquecendo-me o corpo, o exterior e o interior do meu carnal invólucro. Fecho os olhos, a minha alma agora contida escuta a metálica voz que anuncia o comboio regional e todas as estações onde o mesmo faz paragem, ele, o comboio e o tempo, que tem tendência natural a parar onde nós, quase humanos, podemos ainda maravilhar o sorriso com o olhar.
Para lá do destino, onde as carruagens oscilam e os corpos, se mais houvessem, dançariam uns contra os outros ao ritmo pachorrento do claquear da roda férrea no caminho ferroso, mas agora o que se encontra de carril está ferrugento, um pouco como o tempo, as pessoas. Sei agora que algo de mim volita em torno de um trajecto que nunca percorri, um pouco como um acordo tomado por decisões que não são minhas e as quais não respeito, palavras e acordo.
Ouço, a cada pausa do algoritmo, o debitar assíncrono de palavras que são nome de terras e terras que são nome de casas e casas que têm nelas o nome de gente e gente… gente que embora vente frio não sente, porque de onde as vejo e almejo, há todo um corredor onde percorrem as crianças um caminho para uma escola que já não existe porque as crianças são agora homens, mulheres, diz-me, qual preferes? Escola ou escolha? Embora me suportem as pernas, já eu de mim saio para sentir o calor junto ao rosto, mas agora por trás de uma janela numa linha direita, recta, embalado, não sei se pelo comboio, se pelo vento que me abana os ombros e me diz para acordar.
O comboio passará por Juncal, Pala, Mosteiro, Aregos, Mirão e Ermida. Por mim chegara para me sarar esta ferida, mas na intempestiva viagem a que o tempo me submente, já estou em Barqueiros pouco depois de ouvir Porto de Rei. Sinto ficarem para trás curvas que não curvei, nuvens que não chorei, todos os rostos de quem se levanta na madrugada para ver a mão arada não por terra, mas pelo quente do metal, pelo ensonado destino que se prende desde o jogo de cartas ao arriar cansado, já noite, quando a marmita viajar já de barriga vazia e em casa estiver a recordação de uma mesa com crianças que moram agora, quem sabe, lá para as Franças.
Rede, Caldas de Moledo, Godim, Régua.
Não me atrevo a abrir os olhos, com o medo de me ver sem ter saído do local mantenho os olhos sob as palmas das mãos, estão frias, tiro-as e deixo apenas as pálpebras, já aquecidas, repousarem sobre os globos esverdeados como quem aconchega a roupa da cama a um filho.
Covelinhas, Ferrão, Pinhão, Tua.
Minha era a paixão. O sol ainda continua, oblíquo, a fazer-se sentir em mim e o vermelho que vejo assomar ao meu campo de visão é interrompido por vezes por pessoas, deduzo, que passam à minha frente, imaginando-as eu como as árvores, postes de madeira, velhas casas com velhas à lareira que me fazem sombras e que tento agarrar com a imaginação, mas que se esfumam na viagem de mim.
Alegria trará Ferradosa e esta Vargelas. Comigo estão elas, a erupção de um Vesúvio que arderá a terra, as fragas arrefecidas num metamorfismo natural de frio e calor, de paixão e amor.
Freixo de Numão.
A viagem começa a rarear, o Sol esconde-se atrás de um pilar descaracterizado, alguém pigarreia anunciando presença, mas sei-me de pé e sem lugar ocupar no frio banco. A imaginação que galopava acompanhando o trajecto de uma velha automotora começa a trazer pequenos pensamentos, fragmentos de uma lateralidade a que muitos chamam realidade.
As sombras ora são pessoas ora são paisagem, lentas. O ritmo, o frio que se empoleira ao meu ombro, tudo se mistura. O fumo do cigarro não me parece ser da velha e quase escura carruagem de segunda onde se é permitido fumar. Alguém se senta a meu lado.
Pocinho.
Acabei de me sair.
Há viagens que só fazem sozinho.

2015-02-26

Vou, sempre, não ido, mas vou, a palavra. 
Vou sem ir, aqui, contemplando, contemplo e ando, com templo... 
Sacio a ternura de ter uma vela cambaleante pelo aspirado suspiro alheio. 
Creio. 
Por aqui, no caminho do meio, não sei o que tacteio.
Caminho que não eu, não meu.
Vou, sempre, não ido, mas vou, a palavra.
Eu.

2015-02-22

Onde quer que vá

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Encontro-me, invariavelmente, de regresso a mim mesmo a meio caminho de me descobrir ao encontro de uma parede, preso por palavras, acorrentado a frases que se pronunciam a cada silêncio que me bate no para-brisas em forma de gotícula, ainda não húmida, porque a textura da água caberá a mim grafiar, gota a gota, aguaceiro a aguaceiro. 
Pouco me interessa a companhia do tempo. 
Ele, tempo, aborrecido, senta-se a meu lado enquanto o conduzo pela minha vida fora, fora e dentro. 
Há pouco que lhe diga. 
Um olá, talvez, a cada madrugada em que ele me acorda para eu o poder ver na matematicalidade do relógio digital. 
São 1:23, 2:34, 5:55, 6:54. Não achas engraçado? 
Sim, acho, respondo-lhe, agora deixa-me dormir novamente. 
E ele encosta-se às paredes, desaparece atrás da sombra do móvel, que é lugar de tempo, para somente acordar quando me decidir levantar como quem opta por virar em qualquer direcção que não a assinalada numa encruzilhada dessas com que nos escrevem ou compreendem, em forma de sorriso não verdadeiro. 
Conto Primaveras, embora não mas digam que as há, acredito nelas. 
Vá-se lá saber porquê, para não ferir susceptibilidades teosóficas, acredito também noutras estações e noutras formas de ver o mundo que não por detrás das minhas lentes gastas e moldadas. 
Filosoficamente, tudo se assemelha a pop stars com figuras saídas de um imaginário pensado e idealizado sarcasticamente numa sala, com cotovelos numa mesa redonda, onde se decide a quem dar o pão, a quem dar o circo. 
Taciturnamente está Sol. 
Sempre esteve. 
Hoje simplesmente não tem nuvens que o permitam deixar de se preocupar em fornecedor iões suficientes para nos aquecerem, iluminarem o caminho. 
Há algum tempo (saiu agora de trás da sombra do móvel) que ele se pergunta porque queremos a luz, a claridade, se a maioria, isto sabe-o ele bem, continua a sonhar pela noite, envolto em escuridões que saem de trás de cada dia que perderam a trabalhar na sombra dos sonhos de outros. 
O timbre grave de um saxofone abalou a estrada enquanto esta me dirigia, o volante sacode-se enjoado de andar em círculos e um relâmpago cai-me na visão, para que me veja no espelho, de repente, enquanto lá ao fundo cavalgaram imagens de projectos futuros que deixei no passado. 
Nunca me pareceu haver pasto suficiente para literalidades, principalmente quando estas se deixam arrebatar pelo que possa surgir por detrás de uma esquina dobrada pelo tempo (este, não, este não é o meu). 
Pergunto frequentemente qual a frequência que devo sintonizar. 
Não me respondem. 
As audiências de outrem ditam o que devemos ouvir, não pelo acto de escutar, mas apenas para ser mais um reverberante sem tripé, sem auscultantes que nos apoiem no acto de fazer bater o coração ao ritmo distante da música que não nos permitimos ver. 
Já não tenho gotas, texturei-as todas, apenas sucumbo porque fiquei sem combustível nesta viagem de regresso a ti, embora continue a acreditar, a debitar, a crer querer que lá no ocaso onde repousas pensas que eu, apesar da matematicalidade, da migueleidade, da incoerência sonhadora de não me ver a ver o que penso ter visto como verdadeiro, pensas que eu, novamente, seja apenas um pobre e orgulhoso inocente tolo, a quem as palavras prendem com silêncio, porque é nele que consigo dizer algo que não valha a pena, sobre pena de me apalavrar com o destino e este continuar a dizer-me, baixinho, onde andas tu, agora, filho?

2015-02-17

Directo ao coração, o sorriso partiu resoluto e incontornável, nada o faria parar que não o calor ameno que nos chega ao peito quando um arco íris nos banha e, de olhos fechados, entre hemoglobina e hemácias, também amor é bombeado pelo corpo.