2016-01-24

A nova janela

Crónica de Domingo na Bird Magazine

Espreito as nuvens cinzentas pelas últimas vezes deitado no azul de napa da cama. O mau tempo aligeira-se, ansioso, acredito, por fugir das intempéries em que se transformaram os pensamentos das pessoas.
O Inverno troca rápidos olhares com a Primavera, encolhe os ombros e sacode a cabeça, fazendo cair um nevoeiro lento, que se vai pegando ao início da tarde como se clamasse pela noite, quando todos dormem e nos sonhos dos humanos vivem apenas os medos económicos.
Esforço-me por concentrar os dez minutos do exercício em várias palavras, armazenando em partes da memória pequenas letras que possa, depois, puxar como que por um cordel e vê-las saírem, uma a uma, formando frases. Infelizmente, a sede de sentir faz-me sorver todos os episódios que vou colhendo da plantação de esperanças, causando o deserto de palavras onde vou caminhando em círculos.
Pouso o, aos olhos dos outros bastão, cajado e preparo-me para nova ronda decimal em nova posição. Ao meu lado suspiros, inspiros, expiros, vozes retorcidas pelas bocas descaídas, desesperanças em forma de falência de forças e os assobios, longínquos, de alguém que se transpira como se a meio de uma jorna labutasse, agora que a terra é linóleo e o tubérculo um berlinde esponjoso que se vai espremendo, como o suado e molhado lenço a roçar na testa enquanto uma caneca de tinto se ergueria à boca.
Colocam-me a mão no joelho, perguntam-me se está tudo bem, assusto-me e provoco um sorriso. Habituei-me a olhar para fora, para o céu, a ver ainda que por imaginação o céu azul sobre o nublado tempo e temperamento, a ouvir as cenas de cada episódio e a deleitar-me com os bons dias trocados de gabinete para gabinete, os até amanhã se Deus quiser e as melhoras para todos. Como devo ter todas as constelações gravadas na memória, até as do hemisfério Sul, fito o infinito e sinto-me azul, talvez, da cor do mar por reflectir o que o ascende, e pelos esgares do firmamento vou admirando o que falta descobrir até encontrar tudo de novo.
Ouço o cantar assíncrono, o papel sob a cabeça resvala e cai no chão, ergo-me e vejo-o amparado a um andarilho, o sorriso em meia boca, os olhos que brilham e as vozes que o seguem e rimam, num cantar à aniversariante auxiliar pelas suas quase trinta primaveras. Confesso que me emociono e sorrio também ao ver a ruborescida cara da menina, no centro do ginásio, a ouvir os aplausos da merecida salva de palmas do final da canção, para a qual me orgulho de ter contribuído.
Terei que encontrar nova janela do que é meu para poder olhar, de novo, o céu.
Deixo que a claridade se crepuscule e permito-me ver as nuvens da mesma forma que me vejo ao entardecer no reflexo do vidro do carro, enquanto me conduzo a casa.
As sombras estremecem porque se começam a ver sem luz e agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários.
Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade.
A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo.
Quão longe poderá estar?

2016-01-17

Fotografia desvanecida

Crónica de domingo na Bird

Vejo-o apoiado no balcão. Separam-nos poucos meses de idade e muitos, muitos anos de vida separados, mas, ao mesmo tempo, juntos na cumplicidade que fica sempre que deixamos para trás os portões, outrora altos, da escola primária. Desde que o encontrei na fisioterapia, cada qual na sua função, eu de paciente impaciente e ele de benevolente bombeiro, que pensei para mim mesmo em guardar no telemóvel a fotografia de grupo, tirada no 2º ano, ou 2ª classe como prefiro dizer, nos degraus de acesso à porta de entrada da minha querida escola primária.
Noutros anos o, agora grande, balcão onde apoiamos cada um de nós um cotovelo, teria parecido enorme, um pouco como o muro que separava os dois edifícios da mesma escola, onde o desnível e o saltar para chegar em primeiro lugar à fila de distribuição do leite pareciam tarefas dignas dos ainda escassos e poucos afoitos super heróis que a televisão a preto e branco apresentava.
Enquanto o tempo saboreia os cabelos brancos e se lembra de ser menos tempo, vamos respondendo sem falar às perguntas que inevitavelmente os olhos fazem quando se cruzam. Pouco há a dizer que mais do que um olhar, uma palmada nas costas, um aperto de mão firme e sentido e um desviar de olhar das cadeiras repletas de tempos e pessoas cicatrizadas, não sei se pela vida, se pela morte que nalguns casos parece tardar em chegar, não me pareça por falta de vontade, mas porque simplesmente, nalguns casos, parece vir alegre e pacata pela vida acima, cercando e colhendo os dias, um de cada vez, no lento padecimento de um corpo que se carcome por dentro, de dentro para fora, até se escoar o tempo na sua última hora.
Aumento a fotografia no ecrã usando dois dedos. Acredito que ao fazê-lo acaricie a mesma. Faço-o com o cuidado e carinho com que a professora fazia a cada um de nós, pirralhos inocentes, como que chovidos por nuvens de um céu outrora mais perto. Estamos perfilados, três filas em três degraus, meninos, meninas, professora e embora não os consigamos ver, andam por ali a volitar sonhos imensos em forma de corridas em redor da escola, caminhadas longas até casa, caminhos de terra e regos fundos de água seca, milheirais e laranjeiras.
Despeço-me, a vida encarrega-se certamente de nos cruzar mais à frente, nem que seja noutros igualmente volvidos 34 ou 35 anos, tu ficas por aí a escoltar de forma solene andarilhos, bengalas e muletas, suportando corpos de gente que não desiste. Eu vou andando, esforçando-me para não mancar, fazendo de conta que a porta do carro é o postigo que abro para o cãozito sair e vir bater-me nas pernas com o rabo enquanto olha para trás de mim e tenta perceber se é único que me consegue ver. Entro no carro, sento-me com cuidado, vergo-me numa vénia ao volante enquanto acomodo a almofada entre o banco e as costas. Fecho os olhos umas poucas vezes até surgir à minha frente a horizontalidade preferida e adequada para este novo dia azul que se pariu do céu após vários dias cinzentos de chuva, dou à chave contente, o painel ilumina-se, mas os meus olhos estão já na porta da escola, sobe-me o olhar pelas escadas por falta de coragem para o fazer pelas pedras salientes e, depois, alçar a perna sobre a grade, vão lestos pelo recreio, dão duas voltas à escola com os olhos a piscar alternadamente como os carros de polícia da balada de Hill Street, sobem os degraus sem se apoiarem no grosso corrimão de madeira e entram de rompante na sala cheia de ganapos. Estão com os olhos enfiados na sebenta, algumas línguas bailam de um canto da boca para outro, as mãos habituadas a pegarem em carros e caricas ou em bonecas de trapos e noutras mãos a bailar ao som do bom barqueiro, bom barqueiro, deixai-me passar, agarram o lápis e seguem solenemente o tracejado da primeira letra.
Alguém buzina. Entro na auto-estrada, ligo os faróis.
Volta-se o olhar para o caderno e chega a memória, sem cansaço, no requinte dos detalhes, dizendo-me que sim, é verdade que o dois parece-se mesmo com um patinho. Depois riem-se, olhar e memória, da caneta de filtro cor de laranja que utilizei para desenhar sardas na minha própria cara, das fichas de cor azul, dos problemas recortados do livro pelo picotado como pequenos bilhetes para um conhecimento hoje doutrinado.
Alguém me ultrapassa, a deslocação do ar abana o carro.
A fotografia desvanece, desbloqueio o telemóvel, o ecrã ilumina-se e lá estamos todos novamente, alinhados, inocentes e orgulhosos.
Vem a tempo o tempo de me ver acordar com a pequena erva que a professora me coloca no ouvido, enquanto todos os meus colegas se riem da soneca que tirei sobre a carteira de madeira e tampo inclinado. Aperto as mãos no volante com força, como se sentisse a rugosa e áspera mesa, o sulco onde colocava o lápis e o circular buraco no centro onde, soube-o mais tarde, se colocar o tinteiro, coisa passada que a este passado não pertence.
Paro. Desligo o carro. A dor espreita, mas de momento não estou disponível para ela, entretido que estou a pensar na caminhada de logo, à noite, por entre os muros de pedra que vi mingarem enquanto eles me viam crescer, imaginando e sentindo a sacola a bater nas costas, sem qualquer preocupação estética e estilística que assombrasse a igualdade de cada um de nós, putos, nos carreiros que fazíamos com as galochas nos caminhos moles de terra molhada, na esperança de um chã quente quando a mãe abrisse a porta de casa, um pão em forma de flor, a sacola aberta numa cadeira e os livros humedecidos sobre a mesa, as mãos pacientes da matriarca a tirar-nos as calças molhadas, a descalçar as meias e o apertar com as mãos os pés esbranquiçados da humidade que se secou à pele, a roupa pendurada nas costas de uma cadeira virada para o aquecedor a gáz, enquanto um testo tilintava numa dança sobre o tacho e o vapor se levantava com preguiça de subir pela chaminé e ver-se ali, entre o céu e o meu sonho.
Saio do carro, bato a porta, não há ferrolhos ou despreocupações, tudo hoje se fecha e enclausura ao medo do que por aí anda, ainda que não se veja, sendo lá o que seja.
Deito mais um olhar à fotografia e bloqueio o telemóvel, caminhando despreocupadamente com a ignorância do conhecimento que dispenso.

2016-01-10

Desabado

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Porque o tempo não aguarda, simples pelo facto de quem não tem guarda, vai ribombando neste fim de tarde, fazendo lembrar o inverno que já chegou onde nunca saiu, da mesma forma que estremece os vidros das janelas da sala, que olham para mim com legítima inveja, ao verem-me deitado no sofá, ausentes sequer da noção da dor que me aflige.
O vento anuncia-se mesmo após fechar os estores, ondula-os como se fossem as cristas encapeladas de um mar invisível cujas ondas se deixam cair esparramadas na areia que imagino ser o chão onde descansa a minha chávena de chã.
Permito-me desligar toda a interferência que se acomete aos sentidos, como se tudo fosse fonte emissora de pensamentos que se pretendem incutir. Hoje, afianço-me, serei eu e eu mesmo. Embora a televisão me olhe, escura, o computador descanse e arrefece nas minhas pernas, no silêncio que consigo ouvir no espaço entre as pingas grossas de chuva que caem lá fora, nos paralelos, e nas ouras gotas aglomeradas em poças de água, há uma cacofonia de pensamentos que nem sabia possuir. Parecem pequenos cachorros carentes, latindo e arfando, saltando na sua minusculidade na tentativa de um dono zeloso os segurar, mas como tento não os alimentar, depressa me mordem as calças primeiro e, depois, tentam a carne. Metaforicamente, claro, não ferem a carne, mas apercebo-me, lentamente, após vê-los aparentemente desistir enquanto se deitam cansados na areia do meu chão, que não resisto em olhar para eles, com pena, e é nesse instante que se transformam novamente apercebidos que estão que eu lhes voltei a atenção.
Passo algum tempo nesta admiração de mim mesmo, as cogitações que nem sabia possuir em mim. Agora, estão silenciosamente transformados em grãos de areia. Após vários minutos apercebi-me que poderia deixar o vento jogar o seu jogo e, a cada batida do estore, a cada assobio destemido na esquina do prédio, correndo e vagando nas ondas que o trovão faz passar pelos buracos do entreaberto estore em forma de luz cega, a atenção dada aos pequenos, irreverentes e incautos pensamentos esmoreceu-se, transformando-os no que são, areia no meu chão.
A cada abandono de mim há um desabamento.
Cai-me aos pés tudo aquilo que não necessito, a dor, a alegria, o passado e o futuro.
Por momentos em que penso que o tempo se resume a ser o exacto instante em que o relâmpago rasga a tarde numa violência que apercebo, posteriormente, ser um profundo acto de amor por si mesmo, na descarga eléctrica que une o céu e a terra, por momentos, dizia, antes de divagar nas metáforas que alimento como pequenos peixes num aquário oceanado, sinto que o tempo dimensionado que nos faz envelhecer e perceber sem sairmos de nós mesmos que parte de nós mora em partes de outros para. Assim. Para. Sem mais nem menos.
Nesse instante, sem tempo e sem medo, é quando me permito sair deste casulo amorfanhado em roupa, oscilar sobre a areia do meu chão quase desabado, e ir lá fora, enxotar com um dedo uma gota de chuva parada mesmo à minha frente, soprar um punhado de gotas e ir seguindo caminho por entre as gotículas aspergidas pelo cinzento nublado.
O vento arregala os olhos em admiração, pisco-lhe o olho e sorrio, malandro e desafiador, e sou capaz de o sentir irado e impotente por aquela imponente herculiedade não me poder tocar agora que também eu sou uma espécie de vento.
Chego ao relâmpago, ao raio, está parado à minha frente como uma imensa chama de uma invisível vela a arder imóvel no topo de um pavio feito de nada, apenas ar. Vejo o seu esgar de esforço, para que se estenda e alcance o chão. O céu parece não esperar e, curiosamente, ainda que parado o tempo, chuva, vento e lamento, ao olhar para cima vejo um céu azul com níveas nuvens espaçadas e a volitarem rapidamente como numa tarde ventosa de uma Primavera que nunca vi florir. Desço, estarei agora a pouco mais de um metro do chão quando alcanço o final do relâmpago. Olho novamente para cima e o raio desaparece e desvanece-se na claridade do antagónico céu azul. Volto o olhar para o chão, sorrio com o efeito tsunami de uma minúscula gota de chuva suspensa, metade gota, metade poça no solo enrugado. Coloco uma mão na água, mergulho-a poucos centímetros e encontro o chão. Levanto a cabeça e o meu olhar está à altura do que me apresso a comparar com um relâmpago saído da mão de Zeus. A medo, aproximo a outra mão do azul relampejado e sinto uma amenosidade que me envolve, estou a milímetros, aquela luz bruxuleante, fluorescente, que ilumina sem ferir o olhar numa espécie de bailado hipnótico entre o mundo e fundo… Ganho coragem e aperto a mão em torno do raio. Há todo um calor que me trespassa o corpo, olho para baixo e tenho tempo apenas para ver o meu reflexo na poça onde imóveis ondas do choque das gotas vão diminuindo até serem apenas água numa tarde chuvosa de sábado.
Abro os olhos, o único tique taque que ouço é o bater do meu coração despassado no peito, o vento atira-se agressivamente contra o estore, como uma onda raivosa bate na pegada do pé que retirei a tempo antes de me molhar. Espalhados pelo tapete estão os restos dos pensamentos abandonados, sem que os alimente, aguardando que os chame, mais calmos agora, para dentro do que sou.
O sábado vai caindo com a chuva, deixo-me estar no sofá acreditando que a realidade se desenrola mais facilmente que a estupidificação que a televisão tenta fazer chegar a que não ouve, com vários canais e frequências.
Outro raio cai.
Permaneço aqui, deitado, desabado.
Pareceu-me ouvir no fulgir da luz relampejada, obrigado.

2016-01-03

És perança

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

“És perança”

A esperança parece espreitar de cada vez que as nuvens soltam as mãos e, afastando-se, deixam que o céu noturno e escuro exiba a escuridão polvilhada de luz, como se uma atenta e bondosa cozinheira, de avental mascavado de sabores e cores de outras receitas, afundasse uma mão na bacia onde descansam infinitos flocos de fé e a tirasse, em seguida, fechada e prenhe, com pó a soltar-se acompanhando o movimento do braço como a flamejante cauda de um cometa, para a espalhar sobre a vítrea mesa da cozinha. Estaremos abaixo da mesa, crianças, como que a brincar com os pequenos brinquedos que nos dão adultos, crianças ainda, sem saberem que olhar para cima, acima e por dentro de nós mesmo, é o brinquedo que nos permitirá ter esperança.
Na noite de ano novo, quando as badaladas se vão repetindo ao redor do berlinde azul esverdeado que é o nosso, salpicamos o céu noturno de estrelas que atiramos ao ar, aspirantes de cozinheiros e aprendizes de agricultores, semeando no firmamento uma limitada infinitude de pontos luminosos que ribombam como trovões, fugazes, ascendendo rapidamente como a nossa vontade para bruxulearem no auge e, depois, como os nossos dias em vidas que por aqui perpetuamos, deixando-se cair de costas, levados e lavados pelo vento e pela noite, num pendular e, por vezes, espiraldado movimento, de olhos fechados, com o resto de luz que nos sobra depois da explosão, e com o sorriso típico de criança que vamos esquecendo no percurso, de vida e de faúlha, para cairmos já esmaecidos e invisíveis por tão negros ausentes de luz.
Temos a aspiração de aspirar, por isso vamos querendo foguear artificiamente na noite em que prometemos deixar para trás parte de nós, erguendo-nos do casulo que nos pariu para sermos qualquer espécie de esperança. Mas a esperança, seja pela falta de polvilhadores, seja pela proliferação de profissionais do amedrontamento que pintam o dia que se segue com as mesmas ideias e sonhos urdidos que existiam antes do esperançoso vislumbre do céu noturno, com as passas na mão, o copo na outra, os pés firmes no chão e um efeito de não sei o quê a palpitar onde em tempos morou o coração, acaba por se esvair como a trémula centelha que restou da explosão que originou a própria esperança.
O dia seguinte, em sequência do anterior, continua a acrescentar a esperança aos nossos dias, embora com menos protuberância, vai renascendo como se seguisse os mesmos passos orbitais nos nossos astros.
Existirá vida antes da esperança? Como um lançamento à vida de um desafio, nasce baixo, lento, até harmonicamente se tornar melodioso per si. A esperança como respirar, como o bater sincronizado com uma fonte inesgotável de certeza, um coração que ganha vida pela própria vida, como o renascer que soluça no medo e é resgatado pela esperança.
A esperança, o renascer, a certeza da mesma em nós leva-nos ao término de uma jornada em crescendo até se tornar inaudível, invisível, apenas palpável pela serenidade do olhar de quem se sabe imortal. Assim é o renascer da esperança: Ser esperança.
É fácil deixar que o embalo deste calor ainda morno que a esperança pariu leve-me para fora de um caminho de terra, calcado por animais e gentes, em labuta ou assim a modos de vida, como quem luta.
Vou enchendo o alforge com histórias que não vivi, encosto a um lado o pão que me resta, falta-me o bagaço, mata-bicho, mas sobeja-me em sofreguidão de uma aldeia perdida, um local ermo, como são todos os locais para onde nos dirigimos, mais cedo ou mais tarde, em busca do nosso lugar. O silêncio e o som dele mesmo. O antagónico e o complementar. Uma criança chora. Um colchão range e eu sei que alguém se sentou ao lado dela, colocando as mãos nos cabelos, afagando o amor para que, lentamente, vá afastando o medo e exorcizando monstros, enquanto as lágrimas secam e se deixam adormecer, elas também, pelo carinho.
Um corpo acocorado vai raspando entre paralelos, arranca ervas como quem cata a cabeça de um petiz com piolhada. Alguém resmunga. Conversas que se têm com aparelhos estranhos. O corpo acocorado, arrasta pernas numa coreografia que ninguém aplaudirá, ouve passos e já nem levanta o olhar, ainda que o levantassem a ele. Está habituado a deitar corpos à terra, emoldurados numa redoma de madeira, cetim, a falar com eles enquanto eles, a rigor vestidos, se deixam sentar ainda confusos da recente condição de ser e não ter corpo. Acocorado. Como quem tivesse sustentado a vida e, cansado, ou acordado, decidisse sucumbir ao peso da carga e manter-se assim, acocorado, longe dos olhares que nada perscrutam, porque não há solidão maior que olhar para os olhos de quem quer que seja e não ver vivalma. Como quem abre uma porta de madeira e esta se desprega das dobradiças de couro, sem ferrolho ou trave, na esperança de ver e ouvir o lume crepitar numa lareira onde um caldo se aquecia e ver, apenas, o negro que sobrou depois da ausência de corpos terem incendiado o abandono.
Há uma esperança que alimenta a vida.
Uma noite ainda por viver.
A calmaria descansa enquanto a tempestade se afoita e corre mundo, montada na ignorância humana, queimando e agredindo, para se colher, esperançosamente, a calma que ressoará quando o último foguete arder no ar e os nossos rostos, juntos, virem apenas a luz que somos.

2015-12-27

Ali anças

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Entro na sala.
Ao olhar destreinado tudo parece normal, sorrisos e acenos, beijos em faces frias com odores femininos, palmadas másculas nas costas e o tradicional eco de “o que se quer é saúde”.
O silêncio está ali, encostado a um canto da sala, pouco acima da minha cabeça, olha assustado para o som que se solta das pernas das cadeiras quando estas são arrastadas pelo chão e movimenta-se rapidamente desviando-se do ruído que é, por vezes, lançado quando ele parece já acostumado e adormecido.
Bate célere a música, sons que são a sanidade da saudade. Uma vez, não muito longe, a lua riu-se de mim porque a confundi com um sonho distante o suficiente para se alcançar apenas em bicos de pés!
Bate célere, repito, a música e eu, descompassado, valso por um salão vazio, entre trastos gastos por dedos que tocaram música e, acredito, também o céu.
Há um sentimento de urgência, de urgente, de emergente, de gente, gente que procura e eu encontro, aqui, no silêncio da sala musicada. Falta-me, criatividade, ou me sobeje, saber-se-á escrever sobejamente, que não sei saiba eu inventar miando, tenho todos os destinos na mão, onde me deitarei hoje, para onde me erguer quando sonhar?
Por momentos passa a meu lado uma estrada qualquer, qualquer não, uma estrada que poderá ser de qualquer local, mas a estrada não é qualquer, é minha, espera-me, com as suas sombras e manchas, com pés calçados e outros que se sentam, no marmoreado chão, com roupa, mas despidos, pousando mochilas, rindo e sorrindo, capuzes e capuccinos que se faz fria a noite, sim, é noite, e eu abro o meu caderno e vou escrevendo, até me levar então o sonho, ou a rua, perdoe-me a imprecisão se não sei ser preciso, até outro local, a um aglomerado de pessoas de todas as idades, na verdade, que seja dita, as pessoas que são pessoas não têm idade, são pessoas hoje, amanhã estrelas, que tocam instrumentos musicais, batem e sopram, dedilham e cantam, porque a vida é música (embora um ou outro me assegure que a música é que é vida) e todos se aproximam, sabe-se lá se é frio agora ou quente depois, uns sorriem e batem palmas, outros aconchegam-se ao próprio corpo ou ao corpo de alguém que se ampara, ondulam, bailam, até que a música acabe e eu me deixe seguir pela rua, sem sair daqui, para ver ao longe as vinhas que se espetam pelo rochedo fora, parindo uvas que mãos cuidadosas vão trazer ao mundo, enquanto o calor se espreme da testa em suor e a terra se apega ao corpo e à alma.
Sou de mil ruas, sem me saber viajar ou trajar, apenas calcorrear o mundo sem me trazer universo, ou verso, odes, estrofes, pautas ou gavetas onde vou guardando os registos daquilo que, lentamente, vai vendo meu corpo. Perdão, corpo meu, emprestado, com garantia de o devolver àquilo de onde veio, à terra, ao solo de forma mais directa, ou ao universo, à matéria, à energia, à implosão que todos somos, afinal, seremos todos um, que corpo meu não será então meu ou de ninguém, apenas e só, eu.
A invulgaridade do cansaço telúrico. Há terras e músicas que trazem lava a arder pelo corpo acima. Montes esculpidos mouriscamente até que, serpenteando até ao cume, surgem sobranceiros a rios, zumbidos de invisíveis garotos, ganapada para quem uma música é um adro e um púlpito uma gaiola de onde adultos grasnam patacoadas sem sentido, mas tiremos-lhe o facto de o meu corpo transladar-se de vontade de mim para o granito musgado e teremos um estilo tardio planeado há centenas de anos no futuro.
O tempo é escasso, por isso sorvo-o lentamente, sem açúcar, em manhãs frias, esperando aviar mais um dia. Por hoje está, amanhã Deus, dará.
Quando a música cessou já o silêncio tinha partido, fugiu de onde pairava sem eu o ver. Compreendo-o. Até eu, que sou mais noite que dia, dificilmente resisto a abrir a porta da sala e deixar entrar a noite, para lhe mostrar orgulhoso o quanto de estelar podem dúzia e meia de estrelas musicais fazer brilhar.
Sem me saber clave, deitado, não prostrado, cerro os olhos na esperança de ouvir novamente os olhares brilhantes de quem anda de braço dado com a música e atravessa a vida saltando pela pauta da sua própria melodia, imune a críticas.
Que criticalidade pontual poderemos ter, quando se pensa que o céu é o limite e a vida é um conjunto de sonhos a serem vividos?
O céu é o limite para quem nunca voou além de si mesmo.
A vida é um conjunto de sonhos a quem nunca adormeceu fora de si mesmo.
E eu, agora que a música cessou, ia jurar que o silêncio partiu em Si, mesmo.

2015-12-20

Pré sépio

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Os dias acumulam nuvens cinzentas e a noite espreguiça-se bem mais cedo pelo céu adentro como dona e senhora de um tempo onde moram as lareiras acesas
O vento atiça pinhais, a caruma comprime-se sob os pés, folhas resilientes de eucaliptos resistentes aproveitam a boleia do ar esvoaçante para o seu baptismo de voo.
Um muro baixo de um tijolo fino parece abanar quando as duas mãos de puto içam o corpo e os joelhos primeiro e as biqueiras das botas depois embatem nele, até conseguir alçar uma perna primeiro, outra perna depois, e cair com estrondo no amontoado de caruma, mato, cascas de batata e restos de comida que as raposas, ouriços-cacheiros e outra bicharada do monte não comeram.
A terra exibe peladas graníticas em todos os locais não cobertos pelo húmus e aspirantes a húmus e os locais menos percorridos, onde a erva, verde após as chuvas, menos calcada exibe um padrão de virgindade atrativo a quem busca o mesmo nesta altura do ano.
A desvantagem de um caminho menos ou nunca percorrido é a quantidade de giestas que se espreguiçaram para lá do usual e mesmo os matos e fetos parecem aproveitar a ausência de hominais para estenderem a ramalhada urticante.
A vantagem de um caminho nunca percorrido é a possibilidade de qualquer passo que se dê ser o início de um novo caminho, a construção da estrada nova a cada ano, sempre por atalhos diferentes até chegar onde repousa o melhor, mais entufado, mais almofadado musgo de sempre, um segredo bem guardado.
Até chegar à recompensa, na orla da antiga pedreira, há que pender passadas lentas e firmes, não se caia a inocência num buraco mais esburacado, e também para admirar os cantos que se calam quando um ramo seco, dos poucos que ainda restam, se parte e anuncia a presença de mais do que os habituais animais. Ali, parado, o silêncio da natureza na forma de pinheiros que rangem e ventos uivantes por entre troncos, os pés já molhados pela humidade que vence a fronteira de couro e plástico e se encosta às meias grossas, uma mão sai do bolso e repousa num feito maior, sem beligerância, num gesto inocente de pedir licença ao inanimado afasta do caminho a planta e escuta atento o silvo das nuvens a roçarem umas nas outras no desafio de ver quem delas se choverá primeiro.
Por entre passos e descasos, a crista do cedro ao longe, a mão suja entra no bolso e desenterra de lá um saco de plástico à medida que se aproxima da orla da pedreira. O manto verde e fofo convida a descalçar, mas a razão rápida se sobrepõe à imaginação e segreda ao ouvido da consciência os avisos decorados por anos e anos de infância. “tu vê o que vais fazer, o presépio não precisa de musgo!” ou “é melhor que não te sujes, este tempo não ajuda a secar nada!” ou ainda “só tens essas botas secas, vê se queres ficar em casa nas férias”. E posto isto, com um joelho na saca aberta sobre o musgo, na oração de perdão por escalpelar a terra arrancando-lhe o musgo pela raiz, vai-se enchendo o outro saco de plástico com cuidado suficiente para não se rasgar, o saco ou o tapete musgoso acompanhado do pedido de desculpas.
Já em casa, com as figuras perfiladas a aguardar nos tacos encerados há dias, estende o plástico, depois a velha e semi-apodrecida tábua de madeira (na verdade eram dois velhos tacos encontrados na lixeira plantada pelos poucos habitantes ainda existentes no meio de outra pedreira abandonada), o plástico aberto para fechar o caminho à humidade e, por fim, o musgo, ainda com o mesmo cuidado.
“Não adianta empurrarem, eu escolho quem coloco primeiro”, as figuras rezingavam ansiosas por subirem para o presépio, enquanto a criança pegava uma a uma a ornamentalidade em forma de pastor, vaca, burro, até cão havia, o berço, José extremoso e orgulho, Maria preocupada ainda por não ter pouso para parir, mas confiante nas palavras de Gabriel, outro pastor, ainda outro pastor e, por fim, apeia-se a realeza, acomoda-se a cáfila junto da vaca e do burro, todo o bafo animal é necessário para aquecer quem ainda não nasceu, os reis magos vão para trás dos pastores e irão, sei-o depois movido pela curiosidade de os espreitar quando não estou, colocar nos bolsos dos pastores os tesouros destinados à criança, fieis depositários das riquezas do mundo e, ombro no ombro, plebe e realeza, esperarão pacientes, descansando dos centos de dias passados na caixa de sapatos como longa caminhada pelas estepes guiados por um astro que brilhava dentro deles, que chegue o Salvador.
A ceia pouca importância tem, perde algum tempo a ver o vapor que se solta das pencas e batatas cozidas, esmaga um ovo cozido contra o azeite, cebola e alho picado, faz desenhos na mistela e reza baixinho, “quem dera que todos possam ter comida à frente, família e amigos ao lado e este calor morninho dentro”.
Os mais velhos sairão para a missa, boinas e gorros, cachecóis garroteados ao pescoço, casacos estreados longos e quentes, passos na noite fria até à larga porta da igreja.
Adormece no sofá, enfeitiçado pelas tremeluzentes luzes do pinheiro, mirado pelos ocupantes do presépio que se cutucam e trocam olhares de ternura, até Maria, a quem José acabou de tapar com a própria capa os ombros, ergue o olhar de pré-mãe ternurenta para a criança que se entrega ao sono como ela a Deus.
Os minutos passam, gestos estremecidos de quem dorme e arrefece porque a manta caiu.
As luzes deixam de tremeluzir, o relógio da cozinha sustém a respiração e os ponteiros, o tempo para e levanta-se para abrir a porta da rua, por ela entra um vulto ou ninguém, vai lesto pela sala, afaga a testa de Maria e nos seus braços deposita a última figura do presépio enquanto com um gesto faz surgir pequenas palhas na manjedoura dos animais que servirá de berço, depois, sorrindo, levanta-se, pega na manta de trapos, tapa a criança que dorme e deposita-lhe um invisível beijo na testa ao mesmo tempo que com a invisível mão afaga o peito que se erguia sobressaltado por algum pesadelo, para o ver agora, sossegado e com um esgar de sorriso, a sonhar que um dia Deus lhe entraria pela porta da cozinha e a sua casa seria o seu coração.

2015-12-06

Poro do Sol

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Vejo o por do Sol várias vezes por dia, quando vou de carro e ele se esconde atrás de um monte ou de um amontoado de edifícios, mas nada se assemelha a quando caminho num local qualquer, preferencialmente um pouco a subir e, se puder escolher, que tenha terra e cascalho, para eu sentir as pedras comprimirem-se e esmagarem cascalhando-se umas nas outras, num sussurro que comparo ao bater do meu coração, vulgo músculo que por vezes esqueço possuir.
O caminho ligeiramente inclinado, a minha perna com dificuldade em esticar refugia-se da dor, fazendo-me mancar e, até aqui, este balancear me faz sentir, por breves momentos, como que embalado pela temperatura amena, estranhamente amena para esta época do ano.
A recta longa, para quem se desloca a pé, convida-me a alinhar o caminhar com o caminho, fecho os olhos, o Sol bate-me na cara, aperto o casaco e coloco as mãos nos bolsos. Por momentos, caminho como se ascendesse a algum tipo de estágio intermédio entre esta vida e uma outra, qualquer, por aí, onde quer que o vento nos leve quando a vida se cansar de nós.
Aproveito cada momento para fechar os olhos, alinho-me novamente com o caminho, continuo a mancar e a perpetualidade da dor assusta-me.
Somos frágeis, sempre frágeis.
Novamente de olhos fechados, já depois de caminhar, aproveito para me encostar a um muro e sentir o calor que emana da pedra.
Será que os muros fecham os olhos para apreciar o Sol?
Ou ficarão como eu, a desejar ser nuvem para poder perder-me na frontalidade das pressões, ser peso sobre a terra, mais que a terra sobre o chão que a sustém, como se a órbita que obriga a compreensão fosse tão elíptica quanto a triangularidade santíssima que me faz adormecer a cada manhã quando toca o despertador?
Pronto, vacilo silabicamente, confesso a minha aspiração, a poder caminhar sempre de olhos fechados, sentir os pés lentamente ascenderem por uma escada invisível, apenas porque não abro verdadeiramente os olhos e continuo a pensar ver uma realidade matizada, e seguir universo dentro já depois deste sistema planetário, sempre de olhos fechados, para assim poder ver o Sol interior que habita algures fora de mim e se esconde nos recônditos olhares animais e hominais quando abro os meus olhos.
Os dias curtos fazem-me encurtar a caminhada.
Começo e termino uma frase como quem busca um esconderijo onde poder armar a sua fogueira, cobrir-se com uma velha manta de trapos, adormecer e aí, de olhos cerrados, poder continuar a admirar a astralidade solarenga que tanto procuro enquanto, vadio, um canito qualquer se aproxima e fazendo-se de convidado se deita a meu lado.
Confesso que as palavras me dão conforto e também refúgio, nelas caminho de olhos abertos sempre para poder narrar o que vejo de olhos fechados.
Na neologisidade encontro os tijolos com que tento construir o meu mundo, mas apenas consigo escrever o que consigo desenhar daquilo que imagino, pois onde estou não tenho mão que obrigue os dedos agarrarem uma caneta, ocupados que estão a contar as estrelas para me dizerem, animados, como petizes em resposta pronta na carteira de madeira da escola da vida, quantas estrelas tem deste lado da vida.
Caminho, sempre, ainda que repetidamente, para ir ao teu encontro e, aí, ciente de nunca ter abandonado o meu lugar, descobrir enfim a luminosidade que procuro e ouvir, ao chegar-me perto dela, feliz, dizer-me “abre os olhos, chegaste a casa”.

2015-11-29

Desacordadamente

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Existe uma forma simples de começar o dia, acordando.
Parece-me que a fórmula para a vida se baseia nisto mesmo, acordar. E nestas questões matutinas, seja lá o momento em que despertamos, parece-me que envolve um amanhecer para cada pessoa. Por exemplo, eu acordo apenas quando me permito andar, ainda que mancando, como agora, fruto de uma herniação discal bastante chata e dolorosa, saio do asfalto ondulado a que comparo com uma vaga ondulante no Atlântico e, alçando a perna, passo para a terra castanha, saibrenta, com restos de tonas ou cascas dos eucaliptos, pequenas pedras e raízes resistentes de árvores e arbustos que não existem mais, a que comparo ao extermínio da bondade humana pela ceifa certeira e acutilante no silêncio entre as imagens estáticas que a televisão nos vai permitindo cegar.
Só aí, no monte, no cheiro a terra molhada que trago no palato, ainda que esteja, como agora, um Sol de Inverno ainda que seja Outono e eu, no terminar do Novembro, me permita escrever os meses com letra maiúscula, propriamente, como merecem.
O monte, ou bouça, vai subindo, imagino-me na enseada de uma praia de uma das quaisquer ilhas dos Açores, onde ficou uma parte de mim que desconhecia existir e que encontrei, apenas, quando me vi lá, sentado num miradouro, a olhar para o horizonte aquático e sonhar-me vulto numa terra ausente que, imagino, habita apenas no céu ou onde quer que inalcançáveis os sonhos se permitam dormitar.
Passarei na terra, do raspar dos pés nos passos pelo mato rasteiro com gotículas de um orvalho que caiu na madrugada passada e persiste porque o Sol, esse apaixonado, ainda que mais próximo deste dióspiro maduro que rodopia em torno de si, quer ver até onde se vislumbra a sua sombra, pensando no dia em que sobrará de sombras em pontos cardeais que não os usuais.
Antes de adentrar pelos tufos de musgo e do espesso e fofo tapete de caruma olho uma vez mais para trás, ao longe na noite mais comprida que impaciente começa a espreitar por detrás das dezasseis horas, mais coisa, menos coisa. As estrelas olham admiradas para o tremeluzir das luzes de Natal que parecem querer imitar o bruxulear astral de quem se permite ser combustível a arder durante fracções da eternidade.
Começa a chegar, ele, a festividade, vejo-o nos panfletos que inundam a minha caixa de correio, na miríade de coisas que tentam colar ao corpo e ao ouvido, a indispensabilidade do acessório que tornará a vida mais simples, fácil, divertida e com mais sentido!
Confesso-me atónito perante a insignificância dos meus desejos de criança em ter uma lanterna, a mesma que, depois de a tirar de dentro da bota ortopédica que deixava debaixo da chaminé, sobre o velho fogão a gás, ligava e virava para o céu, fazendo sinais de luzes para as estrelas que, na minha inocência, pareciam responder ao meu chamado. Hoje sei que as estrelas brilham não pela lanterna, mas pelos sinais que vamos emitindo, na inocência e ignorância de quem se deixe deslumbrar pela própria estrela ou pelo reflexo de um dia tímido no tímido olhar de quem se sabe perdido fora de si, pois um dia encontrar-se-á dentro de si.
Os dias correm mais depressa para todos os desatentos que vivem cervicalizados sobre a cacofonia digitalizada de uma vida que vamos tecnologificar porque nos esquecemos que os abraços analógicos são para serem saboreados na companhia de nós mesmos e dos que sabemos trazer na própria respiração.
Adentro monte ondulo pelo suave embalo que o passo afundado pela mata permite navegar. Os pinheiros são eles mesmos, independente de quem os veja, sinal da sinceridade despojada da Natureza. Eu tenho tudo a aprender como eles e, por isso, saúdo-os quando lhes passo a mão na casca e recolho um pouco da resina que vão lacrimejando ao mesmo tempo que fotossintetizando-se lavam o ar e alma de um planeta que, digitalmente, vamos abandonando, esquecendo-nos da facilidade com que ele, berlinde, nos pode sacudir borda fora, como um cão que cansado da chuva se sacode e esperricha gotículas em todas as direções e segue, depois, caminho fora sendo cão agora seco.
Saio da ilha, perdão, do monte, e chego a nova estrada, subindo a custo pelo despreparo físico e pelo marginalizado pensamento de tentar perceber onde me quer levar a vida, a palavra e a vida que me brilha pelo canto do olho.

Não existe muito mais para ver. A noite esgueirou-se sem permissão do dia e vai crescendo até se fazer Natal, a noite onde se percebe que nada mais importante há que sermos importantes para nós mesmos, fazendo dos outros importantes, para que nada do que não precisamos ganhe potencial de ser importante e permaneça, debaixo da árvore, no lusco-fusco da iluminação de Natal, à espera de ser desembrulhado por quem não saiba que o abraço é o melhor embrulho que podemos fazer a quem amamos.

2015-11-22

“Trigo e joio musical”

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

- Parece-me que o fim está próximo.
O semblante não preocupado de quem profere afirmação apocalíptica surpreende.
- Porque dizes isso?
Continua calado, a soprar a espuma que flutua sobre o café negro na caneca larga de metal e perdido um pouco nos pensamentos que só ele poderá saber ter.
Levantou-se, com a caneca presa pelas pontas dos dedos, o vapor sobe pela palma da mão e sai por entre os dedos e, de repente, é como se aquela mão grande se parecesse com uma floresta na bruma, envolta em nevoeiro espesso que se vai dissipando quando meia dúzia de raios solares penetra árvores e raízes adentro.
Dá três passos para cada lado e imagino-o como um gigante pêndulo de um relógio afinado, comparação que se esmorece porque aqui, longe da tridimensionalidade, o tempo é um conceito que não existe, pelo menos no sentido lato a que nos habituamos.
Olha para mim e com a cabeça aponta para fora da janela. Levanto-me e aproximo-me, limpo o embaciado vidro e olho.
Um formoso berlinde azul, verde e castanho, populado com neblinas brancas e cinzentas, que reluz a cada vez que a face virada para a estrela, parece resplandecer um desequilibrado conjunto de cores. Longas cores e deformadas circunferências daquilo que parece ser uma espécie de campo electromagnético perturbado oscilam ao redor do planeta. Paciente, o planeta, acomoda-se e reage pacientemente ao desequilíbrio que alguns dos seus habitantes lhe causam.
A cada fração de segundo entram e saem pequenos pontos luminosos daquela esfera minúscula, esquecida, pensam eles, neste braço desta galáxia, uma entre infinitas, deste universo, um entre infinitos.
Um ou outro ajuste é necessário, seguindo referenciadas linhas geodésicas, o planeta rebuliça, expele-se, contorce-se, apresenta por vezes um esgar de dor que se reflecte não pela cara, que não a possui, pelo menos a olhos meus que o vejo daqui, de trás da vidraça, mas sim no descolorido e esburacada campo que a circunda. Isto parece preocupá-lo, rodopiando a caneca nos dedos, já sem o calor do vapor na mão, encostando a cabeça à madeira que ladeia a janela e colocando uma mão sobre o meu ombro. Suspira.
Parece-me dividido entre o amor de duas criações, o jardim que plantou e as plantas que nele nasceram. Sem friezas nem emocionalismos, mantém-se impávido no semblante preocupado. Cerra os olhos. Abre-os novamente. Ao fundo, aquele berlinde colorido, rodopiando e girando num escuro firmamento, sacode-se e liberta uns quantos pontos luminosos, aumenta a velocidade, novas sementes nascem no jardim sem certeza (quem a terá) de quanto permanecerão no solo arável.
Na medida que acelera, o campo que o circunda parece homogeneizar-se, mas por pouco tempo. Desconhecedoras da infinitude de jardins, de plantas e sementes que existem noutros e no mesmo solo, estas agridem-se, flagelam-se, contorcionam ramos e espinhos, picando-se a si mesmas e a todas as outras que a ladeiam. Por entre caótico cenário, outras plantas permanecem em silêncio preocupando-se apenas em libertar o máximo de sementes invisíveis, que ascendem ao véu azul e depois caem indiscriminadamente pelo jardim, na terra queimada, negra e agredida, colocando um pouco de balsâmico sentimento no desorganizado arado que se revolve, mas por pouco tempo, pois outras espécies de plantas se preocupam em criminalizar e organizar autênticas pragas sobre tudo o resto, deixando abandonadas plantas e sementes de todas as espécies e todos os habitats, agindo como donas de um jardim que desconhecem, mas mesmo assim tentam controlar, o solo, o vento, a água que de ninguém cai para todos e nebulam o próprio véu azul com imagens aterrorizadoras de um futuro que pertencerá a quem não se deixar confiar à sua protecção.
- Espero pouco mais. Não poderei sacrificar um jardim pelas plantas que não se deixam semear por elas mesmas.
- Porquê?
Não me respondeu.
Desencostou a cabeça da madeira, deu-me um ligeiro apertão no ombro que me pareceu um emotivo até já.
Continuou a andar pela sala e saiu por uma das portas que dão para infinitos alpendres nesta casa de infinitos andares, acima e abaixo, digo-o embora nunca as tenha visitado pois ouço os passos, acima e abaixo de onde estou.
Continuando a rodopiar, aquele pequeno berlinde habitado por pobres, por vezes vorazes, seres desconhecedores da infinidade de outros mundos além do seu próprio interior, sem estenderem ramos e folhas para o astro e astros próximos, olham para o seu caule e admiram-se de si mesmos, folheiam-se e pavoneiam-se sem a preocupação do pólen que transportam e transbordam a cada respiração. Ao lado, caem e rebolam espécies de plantas diferentes, embora partilhando o mesmo solo são vistas como inferiores, servindo para estas atingirem os seus objectivos de ostentação, desaparecendo a cada rotação do berlinde que habitam.
Pacientes, flutuam na invisibilidade orbes de plantas distintas, de formas e espécies jamais imaginadas, na preocupação deste jardim adoentado no limite da transformação musical, de uma oitava para outra, prontos a acolher as plantas que se souberem música e decidirem escalar a pauta da canção que são. Até no silêncio se podem fazer ouvir, na orquestral sinfonia que parece reger este e todos os andares e horizontes para longe de cada janela pode onde espreito e, acredito, outros possam também observar.

O som que emana, agora, parece um aglomerado desorganizado de sons estilhaçados e desinteressados, sem preocupação por harmonias ou desrespeitadores de qualquer maestro que as possa colocar penduradas na serenidade do seu lugar na plantação, seja pauta musical, seja a leira arada pelo mão de um criador.

2015-11-15

Acompanhado

Crónica de domingo na Bird Magazine.

O vento atira as nuvens na nossa direcção.
O espanta espíritos espanta-se com as formas nubladas e tilinta-nos o entubado som ecoando por entre as memórias do que por aí vem.
Levantas a tua caneca fumegante e ergues o braço, convidas, levanto a minha e sorrindo brindamos ao que quer que seja que nos une.
O banco de jardim, inclinado, transformado em banco de alpendre, brilha ostensivamente a camada de verniz recente e ilumina-se quando a velocidade vertiginosa do longínquo raio chega ofegante na sua eterna ânsia de chegar antes do ribombar do trovão.
Balanço o banco como sempre digo para outros não o fazerem.
Ris-te.
Lá vem vento novamente, o teu cabelo esvoaça e suspiras quando uns poucos se metem entre os teus lábios e o chã de cidreira, com açúcar obviamente, e os beberricas inadvertidamente. Nada mais faço que ver-te pelo canto do olho e rio-me sozinho, baixinho, levando a caneca à boca na esperança que não me vejas escarnecer, mas tens trejeitos de quem se adivinha, dás-me um encontrão no cotovelo que me faz balançar no banco e na agilidade típica de um leão-marinho entorno um pouco sobre mim, engasgando-me, tossindo, e deixando escorrer um pouco da minha cevada pelo canto da boca até se aventurar pelo pescoço e esmorecer ao alcançar o espaço vazio entre o meu peito e a camisa de flanela.
A vida tem sempre forma de se fazer surpresa e surgir como quem se esgueira por entre um corredor vazio sem que a vejam e nos salta para os braços, abraçando-se ao pescoço e cruzando as pernas nas nossas costas. Por falar em costas, podias lembrar-te que me doem as minhas, penso, mas deixo passar a incúria com o rosto aberto, os óculos tortos e o casaco de malha, azul, molhado pelas pingas que se deixam precipitar quando a isso a gravidade as convida.
Era capaz de ficar a ouvir este silêncio para sempre, noto em mim uma certa melancolia, uma nostalgia, típica de quem se sente imortal e na sua intemporalidade faz de conta que um ano é um dia e um dia é aquele momento em que o arrepio do Outono nos lembra que atrás das fumegantes chaminés ao longe, vem espevitado e austero o Inverno.
Há tempo para tudo, diziam-me, só não há tempo para o próprio tempo. Coitado, penso, envolto nas voltas que se transladam pelo sistema solar, sorrindo a tempos de outros planetas e a astros de outros planos sem tempo de ser o próprio tempo.
Está a escurecer embora me pareçam ser horas do Sol, acima deste tapete cinzento e azul negro, brincar na heliocentricidade e decidir de que lado da vida se deseja pôr.
As nuvens revolvem-se e parecem formar, vale-me a imaginação, uma espécie de invertida agitação marítima, onde ondas de tufos cinzentos com tonalidades diferentes se precipitam sem saberem onde rebentar ou em que praia desabar.
Vejo-me assim, entre dois mares, o que me foge dos pés onde quer que pense e o que me alcança independentemente da terra firme que procure.
Endireito-me no banco, as pernas da frente fazem um barulho seco e oco ao baterem no chão de madeira já gasta. Cruzo os pés, pouso a caneca que fumega ainda timidamente, já sem a cevada, na pequena grade de madeira onde me apoio quando é a minha vez de soçobrar e destapo os braços, prendendo a manta entre o queixo e o pescoço.
O caderno anima-se quando me vê pegar na caneta e sem ajuda da brisa abre-se para me receber, exibindo as folhas amareladas de cor e de sabor, fechando os olhos na saciedade prévia de quem se saber ir ser escrito e, nisto de escrever, pouco importa o quê, mas sim o quanto, venha a mim o vosso reino, maravilhoso.
Olho apenas uma vez mais em redor, a chávena órfã, o banco ímpar, a serenidade de um tempo que se quer a arfar escorrido por dentro de um corpo que a terra há-de comer.
De caneta entre os dedos, caderno sobre os joelhos, prendo melhor a manta com o queixo e imaginando-me acompanhado, começo a escrever assim:

“O vento atira as nuvens na nossa direcção…”

2015-11-08

Agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários. Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade. A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo. Quão longe poderá estar?

(fragmento III de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)

2015-11-03

A goteira entre a chuva e o céu
onde escorro sonhos aluviados
afoga a memória
de quem esqueceu
a confiança não sacia desconfiados.

2015-11-01

Santíssima trindade

in BirdMagazine.

Não irá longe a alvorada agora que comecei a sonhar. Meti pés ao caminho, com permissão deste último, sem me preocupar com o lodaçal típico do pré-Inverno, nem tão pouco se os passos respeitavam ortografias recentes, não fosse eu visto a caminhar sem a permissão de caminhar segundo regras por quem deseja que nossos passos sejam todos iguais.
Creio ter atravessado três longas rectas e já na nona curva sentia-me prestes a encontrar uma quarta, recta. Embora não a soubesse ali, chegava-me aos sentidos o forjado percurso de quem marca hora com o destino e este se atrasa.
Cabendo-me pouco mais e, em verdade, pouco menos, que a basicidade vital com que me brindo a cada passado, um pouco arqueado pelo peso da leveza do ser, vou na esteira de uma urze enquanto me lembrar que por detrás dos meus olhos moram a violeta claridade de versos e personagens que, creio, moldaram as mesmas suas vidas por entre linhas condenadas a serem escritas.
Não se cansa o cansaço com futilidades.
O que ele deseja agora é descansar, talvez encostado a uma meda de feno, cobrir-se de colmo e adormecer com o olfacto carregado de rememorações prazerosas ondem cabem, ainda, outros corpos habitados por mais audazes espíritos que a vontade saloia de alimentar o corpo, cirrosar o fígado, cobrir as peles com peles de outras sebes e orlar a existência com uma aura resplandecente de nada.
Ainda as estrelas bruxuleavam baixinho por respeito ao dia que se punha, já os caminhos pareciam abrir passagem para quem se quisesse ver percorrido por onirismos catalogados pela natureza e não pelo homem, porque este último sonhava apenas o que lhe diziam para sonhar e se algum, na certeza da coragem, ousava sonhar diferente, todos lhe diziam para esquecer tal pesadelo.
Faço uma pausa para me ajustar à invulgar compleição de quem por mim passeia.
Em palhas deitado, em palhas dormindo, o metamorfismo montanhoso parece aspergir sobre ele o calor que se solta das pedras antes que este se estufe nas altitudes da bolha gasosa que nos envolve. Dorme como um anjo. Na verdade, não sei quem dorme, se ele, se eu, convidado a escrever passagens de vidas que tenho minhas por serem de outros.
Dormindo à noite se prepara o dia que aí vem.
Amanhã será dia de finados, de todos os santos, dos mortos e das vendedoras de flores em baldes largos de plástico, ladeados por colunas de velas de todas as cores e luminosidades. As portas dos cemitérios rangerão pouco habituados à procissão anual de assear pedras tumulares. Uma lápide básica terá apenas a pedra fina de granito toscamente trabalhado com uma inscrição em forma de coração, feita certamente com rebarbadeira em mãos destreinadas de polidor, e um bilhete em papel desbotado, dentro de invólucro de plástico com dizeres já apagados pelo Sol, ficando apenas o sulco que a caneta empurrada por punho trémulo deixou e o ainda gravado, tenho saudades tuas pai.
Vazios há muito, os cemitérios avivam-se para receberem a sensação de ausência que este mundo brinda a quem se julga mortal, voltam entes queridos partidos para afagar a saudade de quem por cá se julga imortal e ladeiam com o invisível amor todas as datas assinaladas pelos dias de partida.
Hoje sonhou que tinha estado no céu, que o céu não era o céu, e isso era o mais curioso. Sonhou que o feno onde se deitava era a penugem de uma fénix que renasceria não das cinzas, mas do ar fresco que a cristalinidade da sua inocência permitiria queimar, que o colmo que o cobre era na verdade a ausência que por breves momentos se fazia presente e o presenteava, de facto, com a implantação de pensamentos de dias vindouros que o permitiriam contornar dias e noites como simples estradas sem destino, porque o destino, sabia-o ele agora, apesar de dormir, é deixar de existir para poder Ser e isso, saberá quando acordar, fará mover montanhas e permitirá a omnipresença do indivíduo em todos os locais onde vai, mas onde não está.
Dorme.
Eu estou quase a acordar.
No amanhecer das minhas pálpebras, instantes antes de me saber neste mundo, novamente, reflicto na personagem sob o colmo, nas pessoas peregrinas da saudade, no mercantilismo da dor e na ocultação de uma verdade tida como mentira.
Vou acordar sobre a fraga que vê, ao fundo, serpentear um fio de água onde desejo molhar os pés e baptizar-me novamente.
E, depois, irei ajoelhar-me no chão, colocar as mãos na terra, fechar os olhos.
Perguntar-te-ei:
- Porque te moves tu, montanha, pela fé dos homens?
E sem que me respondas, pelo calor mineral que sobe pelas palmas das minhas mãos, ouvir-te-ei dizer:
- Movo-me porque tenho fé nos homens.

2015-10-30

Preteritamente vagueio
destino vai a quem se presenteia
sei-o
entre o volátil e a teia
na caligrafia noctívaga em que amanheces
pelas rugas que o cansado dia cultiva na tua face
a vida não se ganha
nasce.
Conjuntivo-me às página abertas
calculo-me à subtracção papírica
o lápis adormece-me de pálpebras abertas
arqueando a esfera celeste
desdoura-se
e escreve a negro sobre o carvão
a esperança que tatuo no invisível
que me leva pela mão.

2015-10-29

Empobrecem-se as palavras
na venda das letras,
salpicam-se húmidas de encontro ao vidro
redoma
os dias comprados por metade,
dou por mim fruto
em árvore que arde.
Deito-me
sobre mim o peso da noite
ansiosa,
dia nasce!, suplica
vem lá, já, ditosa
a nascente da grafite
desinteressada queda de sonoros gotejares
colho-as maduras
puras,
o íntimo e o vago
o espelho à sétima reflecte
antes que mercantil a vaidade impere
arrumo no bolso o abraço,
aí vem um
que fere.

2015-10-28

Aconchego-me,
ao peito a noite que adormece
nas paredes
sombras luzidias em estrelas caídas,
tenho-me prece
quem se cura das feridas?
De mim a eu
distância
a quem nunca cresceu
repousam os olhos, cansados,
na infância
onde perderam todos os pecados.
Do que uso
só me cabe a cama na divisão
o meu lar habita
oportuno
encolhido
no meu coração.

2015-10-27

No agrilhoamento dos sentidos
cansam-se as manhãs
por acordarem
gentios,
claudicam as clareiras despertas
esta vida não se faz
de almas abertas,
inocente
o povo sai à rua
cozinhado até ficar cru
e ri-se, vestido do que é,
coitado,
vai nu.

2015-10-25

Muda dança

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Não existem, pelo menos palpáveis, necessidade súbitas de poupança energética que nos façam valsar um passo atrás no tiquetaqueado tempo que vamos pivotiando na ponta dos dedos. O tempo, essa invenção dimensional, vai-nos presenteando com a ilusória crepusculosidade de dias que se parece amontoar no vago espaço entre as orelhas humanas.
Ainda ontem trajava a mochila às costas e, já hoje, ou, na exactidão do relato, amanhã, terei como companhia na travessia até casa os fugazes pirilampos alados que se movimentam no zénite na rapidez de milhões de anos luz que medeiam os milímetros que separam o agora e o daqui a pouco.
O relógio atrasa-se, ou atrasamo-lo, mas acredito que ele poderia atrasar-se até infinitamente parar no momento exacto em que o tempo, acompanhado pelo eterno, descansaria cansado nos braços de um criador que o apraz fazer-se sentir criado, não na subserviência, mas no acto de ter sido criado no propósito que apenas um criador terá e, não obstante curiosidade, não é permitido saber à criação e à criadagem.
Contigo, tempo, no descalçado horário, virá arqueado um Outono adulto que trará pela mão, chutando o tapete colorido de folhas caídas que se estende no solo feito de nós, um petiz Inverno pouco habituado e fadado a telúricas tradições, querendo e crescendo saraivar e trovoar o quanto possa até se render ao novamente colorido trajecto da sua irmã, Primavera.
Os dias ficam mais pequenos, dizem-me, e eu sorrio. Pequenas ficam as pessoas, e as espigas que não são colhidas, porque os dias, esses, encerram ainda na sua inocência mãos cheias de caruma que se atiram para uma fogueira enquanto outras carregam golpeadas castanhas, ensalgadas, e as vazias, mãos, voltam a palma para o lume e, ocasionalmente, esfregam-se no rebuliço de um calor que lhes aquece, dentro, o erguiço.
Vamos tão rápido que até a frequência que nos pauta os momentos, o segundo, chega primeiro e faz-nos abrandar, tenta suster-nos não pela rédea, curta, mas pelos fugidios compassos entre o tempo em que nos sabemos e em que nos aprendemos, para nos direccionar para a ombreira de lousa, para a velha pia baptismal que faz agora a vez de lavatório, para nos baixarmos um pouco ao empurrar o velho portão que nos saúda resmungando no rangido quando lhe levantamos o ferrolho e o abrimos para entrar, ainda de cabeça baixa, não nos fuja a altura para uma parede deslocada pelo peso dos dias que descansaram no telhado. Ali, com a hora extra, permaneceremos sem dizer nada apesar das falas, dos risos, das castanhas que estalam e do pequeno puto que as segura na mão, quentes, e antes de as descascar agradece ao tempo o tempo que ele teve para, com os dois pés, debulhar o ouriço e tirar lá de dentro, não sem antes se espetar num espinho, uma castanha castanha.
Há uma propositada intenção de duplicar, sentidos e frases, acredito que seja dele, do tempo.
Os dias vãos nascer já altos, as noites cairão cedo e já formadas de estrelas, arrastando sobre todos uma espécie de película apaziguadora, a paz que o frio nos faz procurar no calor de casa, da roupa ou, nos mais felizardos e atentos, nas pessoas.
De quando em vez, vá lá eu saber se é do tempo, da estação ou não, invisíveis golpearão as persianas e as portadas com arrufos ventosos e água condensada que escorregará no vidro como os dias por entre os meus dedos. Este tempo é um tesouro que só valorizamos depois de perder. Assim, ainda antes de o vermos contornar aquela curva ali ao fundo, há quem lhe chame destino, a providência humana faz-nos relembrar na infinidade de milésimos de segundo que existe entre cada inspiração, há quem lhe chame hora, que mesmo sem tempo há um tempo que se avizinha e nos quer ver, na pacatez de uma noite invernosa, a suster corajosamente o tempo, escondendo-o atrás das costas como se fossem a mais preciosa castanha, neta do outeiro.
Este tempo é nosso, façam-no de muda dança, inteiro.

2015-10-18

Voltar ao que serei

in Bird Magazine.

Volto ao que sou, deitado, com a luz do candeeiro como Sol, cabeça apoiada na almofada, revivendo alguma história à medida que as letras secam no papel. Tentei, já duas vezes em dias consecutivos, escrever no computador, mas não consegui. Preguiça? Talvez sim, talvez não.
Aqui, neste meu novo caderno, estou mais perto do que pretendo, faltam apenas a chuva lá fora, as paredes de xisto, granito ou madeira, a luz trémula de uma vela, o telhado em madeiro ou colmo, as brasas a adormecerem na lareira apagada e uma manta de retalhos sobre mim.
Esta semana tive a oportunidade de andar pela Serra do Caramulo em trabalho, perdido em locais acessíveis apenas por veículos todo o terreno. Enquanto percorri, abaixado, as minas de água, pensava se seria capaz de morar por lá, onde o silêncio é o único som que se ouve. Passei por casas que, de casas ostentam apenas o nome, parecendo esquecidas do próprio tempo. De repente, uma senhora, não muito idosa, sai de casa com o cão atrás, daqueles cães que nunca souberam o peso de um cadeado ou o tecto frio de uma casota, seguindo em direcção a um retalho de terra, xistosa e saibrenta, cultivada onde apenas a insistência do homem, aquele com h grande, faz nascer uns troços de couves, batatas, cebolas, tomates, algumas vagens e pouco mais. Fico a olhar a senhora, ultrapassada agora pelo cão, sempre a farejar, como que confirmando que os mesmos cheiros de sempre não saíram de local. Imagino o que será viver assim, mas rapidamente volto à realidade ou pelo menos o que pensamos sê-la.
Creio que não deve existir nada melhor que trabalhar, labutar, dar forma a algo que não existia antes. Olho para as paisagens que me circundam e penso, para mim mesmo, porque seremos nós incapazes de tratar o planeta, ou pelo menos a porção dele que calcamos, como um jardim?
Que valores desvalorizados se erguem acima da nossa própria sobrevivência e dignidade?
O que nos impede de amarmos o ventos, o ar que respiramos, a mão calejada que nos saúda na berma de uma estrada desconhecida? Quanto vale a vida? As vidas?
Vejo essa máquina aterradora cilindrar pessoas, daquelas que nos elevam ao que somos, inocentes, apenas porque não conseguem subir a bordo de um navio fadado para naufragar, ao qual chamam sociedade.
Andamos, na rua, neste empedrado irregular que é a incerteza das nossas vidas a cada manhã que adormecemos, vamos olhando para quem por nós passa, corremos também, seguimos os trilhos que todos seguem, corremos mais, cada vez mais, sem sabermos para onde, porquê, sem nos preocuparmos com as que caem, nem os socalcos onde uns tropeçam, sem aplanar o caminho, sem ter a humildade de saudar uma das muitas flores que a maioria pisa.
Inspiro.
Corremos lado-a-lado, quase de mão dada, corpos que se roçam sem se aproximarem, mãos que se tocam sem se entrelaçarem, sorrimos esgares disfarçados de sorrisos, para que o mundo saiba que sim, estamos felizes. Mas nós algumas vezes pensamos no que somos? No que queremos de nós, dos outros, do nosso jardim, das palavras que plantamos no coração das pessoas? Que ilusão é esta a que muitos pretendem chamar vida?
Inspiro novamente.
Há algo de estranho no ar, a familiaridade com as nuvens, o espaço que respiro é o mesmo que alberga todos os sorrisos que florescem na noite, quando o corpo se desprende do corpo, há um caminho, um trilho antigo e agora descoberto, onde as lágrimas que brotaram floriram, sonhos que se julgavam adormecidos, uma estrada que nos leva ao cerne de nós mesmos, onde nos encontramos e onde todos os rios desaguam.
A senhora leva um braçado de cenouras, o cão deteve-se num cheiro novo, mas logo a alcança correndo. As chinelas negras levantam pequenas nuvens amarelas e o cão abana o rabo, como tantas outras vezes.
Imagino as couves, segadas, entrarem numa panela negra onde ferve água, aquecida numa cozinha com paredes de xisto e uma chaminé alta e escura.
Em cada local que passo há sempre algo de mim que me saúda, que me deixa mais feliz, mais interrogativo, com ânsia de ser algo que descubro a cada dia, com o desejo de ir onde não estou, encontrar outras partes de mim em faces desconhecidas, mas familiares.
Já algumas vez pensaste se todos, sem excepção, fossemos família? Tolerantes, respeitosos, sem pejo em afagar o cabelo de alguém a quem a desilusão mordeu, sorrindo, acenando, abraçando corpos e almas a cada reencontro, perguntando com carinho “estás triste?” e fazer uma pequena careta apenas para ver nascer, numa cara entristecida, um sorriso?

2015-10-16

Não há necessariamente um início corpuscular, bastaria o vento e o sol tímido por entre as nuvens, para saber que o mundo foi feito para ser terminado em pormenores que se remetem ao olhar silencioso por entre as folhas de tília e o saborear morno e terno de uma bebida fumegante à janela de um abrigo a que chamo casa. 
Por lá estar, mesmo sem estar, remeto-me sem destinatário na esperança que a volta do correio me deixe a orbitar a certeza de a cada passo poder saltar sobre as esverdeadas pedras soltas do riacho.
Procuro.
Nem sempre me acho.