Crónica de domingo na Bird Magazine.
Um estrondo estreme as vidraças e a janela, embora a impassividade com que verte o resto do conteúdo da lata de atum, óleo de girassol incluso, sobre a fatia de pão velho transpareça o alheamento do som.
O vento empurrou a portada, descascada de verde, que bateu forte sobre a madeira, não causando estragos, porque estes já foram causados pelo tempo, que lhe trouxe um vidro partido.
Este jogo de quem assusta quem vem de longe, vento que o assusta ou tenta assustar e ele, sentado, como que falecido, causando a curiosidade do vento que chega de mansinho apenas para saltar e correr encosta acima deitando abaixo folhas já soltas preparadas para o Outono, quando ele abre de repente os olhos e o olha como que o tivesse visto.
O riso ouve-se invariavelmente a cada chuvada que cai, seja Inverno ou Verão, Outono ou Primavera, quando o homem se faz era e encosta à parede desbranqueada o corpo nu. Não há pudores, nem dores, onde já só habita o último homem só sem solidão, apenas carris por onde ninguém passará a carregar restos de corpos cansados de outrora, ou vagões carregados da súmula dos dias numa aurora.
As pedras lateralizam um fio de água, livre, cobertas de um líquen que não conheço, cores amareladas por um verde que me lembra o sono quando adormeço.
Ali está uma figura, dura, que sobe e desce a ladeira de um monte, agarrado a umas pedras pontiagudas onde, aos poucos, foi também ficando parte do parco vestuário, irá a um pequeno mercado, trocara dinheiro, enquanto o teve, por comida, parca, como ele, um ou outro saco de arroz, açúcar, por vezes massa, vegetais enquanto não os soube plantar e dois dedos de sorrisos quando encontrava alguém para conversar que não falava.
O passar do tempo, do lado de cá da vida, foi implacável com quem de cá vive pouco tempo e, por isso, envelhece. As paredes, as flores, as rochas que ninguém pariu, permaneceram vivas e semivivas, porque quem da terra vem jamais da terra vai, apenas nós, homens, que somos da terra o espectro, o infra e o ultra do que ambicionamos, mas isto ficará para lá destas linhas, agora, que me imiscuo no cenário e faço da narrativa um pouco de meu sudário.
Vi-o despejar, depois, sobre o pão e o atum, arroz de ontem aquecido hoje para colocar fechado na preta panela sobre o lume que atiçara. Não fumega, aqui até o fumo se evapora. Há-de aquecer panela e comida e ele, dali mesmo, da panela, sentado num largo tronco de madeira onde racha lenha e senta parte dele rachado, chega os pés para a lareira, aquece pés e as mãos, ao segurar na panela com um pano amarelado, enquanto cheira o que de pouco cozinhou.
Termina o almoço, levanta-se, o lume ficará a aquecer o ambiente ou a enegrecer o que falta do tecto, onde, empoleirado num aglomerado de troncos, com o dedo previamente molhado no óleo de outras latas de atum, desenhou pequenas estrelas, não fosse um dia a noite nascer sem elas e ele sentir saudades de casa.
Dá a volta a casa, sai pelas traseiras e pega em mais uma lata de atum, vazia, limpa-a com a mão e um pouco de terra e vai, sorrindo, sentar-se no chão cauterizado na frente do apeadeiro, levanta-se um pouco e arrasta para si um balde com terra escura.
Nada parece indicar que antes, outras eras, por ali passava gente. Agora, aquele chão parecia o local de batalha entre um homem e o cimento da plataforma. Aos poucos, ou aos muitos, confesso que não o conhecia antes desta folha de papel embora me tivesse parecido existir por ventos que vi soprarem noutros aluviões.
Depois, gentilmente, cuidadosamente, parte o resto do cimento já rachado e levanta a pequena flor que nasceu por ali, entre argamassas. Segurando-a pelo caule, olhando as frágeis e brancas raízes, apressa-se a colocar terra negra na lata de atum, faz um buraco com dois dedos de largura e pousa suavemente a flor. Irá cobrir as raízes, pressionar um pouco a terra em torno do caule como quem chega a roupa da cama ao pescoço de um filho e, pousando a lata sobre os joelhos, sacode as mãos, pega na lata segurando-a entre o polegar e o indicador e ergue-se, ficando ligeiramente encurvado enquanto espera que as pernas se habituem a nova posição.
Ri-se ao olhar em volta e ver que, na plataforma, já nenhuma flor aprisionada lhe pede para ver outros mundos.
Vai descer com cuidado a meia dúzia de passos íngremes até ao ribeiro onde, sobre uma improvisada plataforma de madeira, se improvisa um cais e onde estão já centenas de latas de atum, umas garridas ainda outras, haja fotólise, exibem apenas o enferrujado esqueleto, cada qual com sua flor, algumas já com descendências e outras ainda com raízes que espreitam borda fora da carcaça improvisada.
Uma a uma, com os pés descalços enterrados no lodo que faz de leito ao ribeiro, vai pousando as latas e desejando a cada flor uma boa viagem. Conforta-o o significado, cada flor sua paisagem, cada visita uma viagem, vê-as desaparecer além da última curva e imagina-as na jornada, ribeiro abaixo, rio acima, até um qualquer estuário as vir chegar e, de portas abertas, as levar lentamente ao mar.
Vazio, sobe quase de rastos a pequena encosta e separa-se do que não é seu, deixando para trás roupa e um ocre céu.
Cansado vai como quem tenha parido uma vida, deita dois cavacos à fogueira e enquanto estes lutam entre si pela chama maior, despe-se, passa água pelo corpo e seca-se com o mesmo pano amarelado com que segura panela e púcaro.
Vem nu à janela, abre o postigo.
O vento olha-o como quem lhe pergunta onde vai.
A troca de olhares convida-o a entrar e apressa-se a soprar sobre o braseiro para que não se apague. Fecha o postigo, fecha outro postigo, a porta é encostada e um pedaço de papel é enrolado e colocado na fresta debaixo da porta nova de madeira velha. Estende uma antiga passadeira feita de trapos, ainda nu, deita-se. Levanta a cabeça uma vez, olha para o lume, ainda lhe sente o calor chegar aos pés e enquanto o sentimento tépido lhe sobe pelos pés, pernas, joelhos, olha para o lado e vê o vento deitado a seu lado, quase adormecido, de sopro é agora um suspiro.
O calor chegará ao tronco já ele olha o céu semi-iluminado, onde brilham as embaçadas estrelas que desenhou.
Depois?
Depois acabou.
2015-04-19
2015-04-12
Saturo a ausência de estratos
perfilo-me à chamada de uma vida
vejo-os ali, soçobrados, cegos,
pendidos pela força dos seus egos,
onde cairá a chuva que me leva ao pó
onde
chuva
só?
Trino as estrelas do firmamento
há em ti todo o lamento
rosáceas que se querem para o mundo
sem que as prendam um momento.
E eu, saturado,
aguento caloricamente o verão arado
pelos dias frios que me austero,
eu estou quem quero,
porém se de mim me disserem,
já não tens idade,
sorrio,
os anos que por mim passam são apenas uma tarde
no dia que na palma da mão se arde.
Páscoa
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Sons de sinos, pequenas badaladas que vão percorrendo as ruas empedradas e sorridentes.
Sons de sinos, pequenas badaladas que vão percorrendo as ruas empedradas e sorridentes.
Ele pega-te na mão e traz-te pelo céu, viajando de raspão pelo arco-íris que teimosamente teimas em colorir a cada manhã que acorda molhada.
Corres sem pisar o chão, volitas entre as opas vermelhas, o crucifixo dourado, as flores que o encimam e reparas que ao teu redor há toda uma natureza que parece ressuscitada.
Chama-te a atenção do petiz que segue ora à frente, ora atrás, quando o cansaço o assim obrigar, badalando-se ao som da sineta. Vai orgulhoso da tarefa e tu, que nunca foste de badaladas, vestes-te de arco-íris e vais colorindo o caminho, olhando à volta, percorrendo os olhares, cheirando as flores e lamentando a sua sina. Pensas que mais valeria plantar as flores de vésperas pelas ladeiras onde este passo passasse, fazendo de todo o caminho não um tapete, mas uma colina florida, apenas até te perceberes que as colinas, canteiros e ladeiras deram origem a muros e outras fronteiras. Pedes desculpa às flores, distrais-te com uma formiga e o seu caminhar errante e tens que voltar a correr para alcançar a procissão quando Ele assobia e levanta o braço fazendo sinal para que avances.
Vêm aí, vêm aí!
Alguma criança entra a correr no portão, deixando-o aberto.
Prende primeiro os cães!
Volta atrás, fecha o portão, prende os cães, que ladram de medo e sobreaviso, tentando alertar a quem lá vem que, por via das dúvidas, humano não deve acreditar em humano, isso é para os animais. Bicharada presa, abre o portão, a mãe chega-lhe um saco de plástico com pétalas, folhas e flores completas, que ele espalha no chão sem a preocupação de estabelecer um padrão e corre para dentro de casa apenas a tempo de descalçar os chinelos e enfiar os pés numa branca imaculada sapatilha com fecho de felcro. A mesa posta atrás de si, de onde, sem ninguém ter reparado, tirou uma amêndoa de chocolate e levantou ligeiramente o pão-de-ló descolando-o do papel, debicou uma pequena parte, encostando-o de novo ao papel. Pelo portão aberto, calcadas já as folhas, flores e pétalas, entrou o compasso, a sineta a cantar pela alegria de quem a transporta e os homens, de boa-vontade, acreditemos, entram na pela porta da sala, um a um, cada qual sua função. Atrás deles Ele chama-o novamente, tinha ficado entretido com as pétalas tentando movê-las com um sopro que não venta, levanta-se a correr e é a correr que a opa com sete cores sete vezes ondulou até Ele, já dentro da sala, lhe pegar nos braços e o colocar aos ombros para que presencie.
Um homem, um dos que tem opa vermelha desbotada, entrega a outro homem sem opa um papel e começa a ler umas palavras. A família, alinhada, de roupa velha estreada, com sorrisos fáceis e um rosto cheio de aparência, repetem no final, quando o outro pára de ler e ergue, solenemente, os olhos. O chão tinha já algumas gotículas de água, benta dizem, embora não vente e por isso o petiz, de sapatilha nova, não percebe o que é isso da água ventar, olha para o seu pé direito e, triste, vê o imaculado calçado branco com uma pequena nódoa da água que lá caiu. Pode ser que vente e a nódoa saia.
Um dos homens ergue a cruz com as flores e aproxima-a de cada um que ora beijando os pés, o peito, as pernas ou simplesmente beijando um dedo e tocando levemente os pés pregados na cruz, pensa por onde terá andado a cruz, o quase partir do dente ou o disfarçado virar da cabeça no último momento, a tempo de encostar apenas o queixo à cruz.
As palavras trocaram-se, a senhora, que há momentos estava de avental na cozinha, olha agora para o marido, que se vira para trás e pega no envelope onde está o nome da família, entregando-o a um dos senhores de opa com um saco escuro.
Alguém é servido?
O triquete da sineta olha por uma vez para a mesa, com os olhos cheios de vontade e uma barriga que lhe pede para dizer a verdade e aceitar. Mas ninguém é servido e isto faz esquecer momentaneamente que a sapatilha nova tem uma marca de uma água que venta e que, até, um dos pés lateja e de tão belo calçado não teve coragem de dizer à mãe que um pé apertava, porque a mesa ficaria ainda com o mesmo número de amêndoas, as bolachas sortidas, o pão-de-ló e aquele vinho que deixam provar apenas nestes dias e quem tem nome de cidade.
Posso comer agora uma?
Perguntou ainda o compasso não tinha arredado pela porta, voltando-se todos com um sorriso, rindo-se mais da ignorância do que da candura, enquanto a mãe sorria com um rubor de vergonha e replicava.
Claro que sim filhinho, estão aí para comer.
Os risos sucedem-se, ele leva uma bolacha de chocolate à boca e um dos senhores de opa dá um pequeno empurrão à opa branca, que pelo susto sacode o braço e faz a sineta tremer de solavanco e dá azo para que se volte para o portão e comece a caminhar, com a barriga a resmungar, prometendo-se a si um bom pacote de amêndoas com o dinheiro que ganhar a roçar a erva no caminho do vizinho. Todos caminham para fora do portão, os cães ladram ao barulho da sineta, as flores, pétalas e folhas são calcadas uma vez mais e ficarão no caminho até que o vento, verdadeiro, as leve para outro local.
Na rua, mais alvoroço, portões que se abrem, flores que no chão caem.
Ele, que só tinha dado uma dentada na bolacha, saboreava o desfazer saboroso do cacau com a crocante bolacha amortalhada numa qualquer linha industrial e olhava para o resto da bolacha, comparando-a à meia-lua que tinha visto no dia anterior. A mãe fecha a porta, vira-se para trás e enquanto despe a blusa dá um calduço ao rapaz.
Que seja a última vez que me envergonhas à frente dos outros! Ainda por cima em frente a nosso senhor! O que pensarão? Que não te deixo comer noutras vezes?
A outra metade da meia-lua foi engolida junto com a vergonha e uma lágrima enquanto a mãe, praguejando, passava o avental pelo pescoço e desvanecia pelo corredor até à cozinha onde assava o resto do bicho que tinham comprado morto.
Olhando para a mesa, trincando o resto da bolacha, pensou que não bastaria já terem-No crucificado uma vez, porque razão teria que ter a cruz de ferro já com Ele soldado à mesma e, como tal, sem ter modos de fugir, os pregos nos pés e nas mãos?
Chupou a ponta dos dedos e garantindo que a mão não tinha chocolate, meteu-a por dentro da camisa e tirou um pequeno crucifixo prateado onde, previamente e às escondidas, tinha raspado pregos e cruz de espinhos, com cuidado, tendo amarrado um pequeno farrapo branco no peito onde pareciam ter-Lhe enterrado uma lâmina, e fechando os olhos deu-Lhe um beijo, rindo-se depois atrapalhado por não se ter lembrado de lamber os lábios, que ainda tinham um resto de chocolate. Limpou o crucifixo, fez-Lhe uma pequena festa e guardou-o novamente, enquanto ouvia ao longe o barulho da sineta e pedia um desejo secreto.
O compasso foi sinetando caminho fora, diz-se que leva a boa nova, mas ela, a nova, boa, vai habitando em cada um que se preocupa de igual forma com o destino da vida como com o destino de uma folha arrancada à terra, para que outros a façam de tapete.
De opa colorida, já no chão, começam a caminhar também, no encalço do compasso, dá-Lhe a mão e não sente a mão calejada e cicatrizada de antes. Olha para Ele, que lhe sorri e pisca o olho, passando a mão no peito, agora sarado.
2015-04-11
2015-04-08
2015-03-30
Consegui chamar o frio, novamente, que teima em fugir por entre as minhas recordações de Inverno e de finais de tarde lá de meados de Setembro. Abriga-se no meu colo e no olhar aflito de uma dor que não se compreende, penosamente enfia o seu focinho afiado entre o meu braço e o tronco e deixa-se ficar, quase que adormecido, enquanto eu próprio também durmo na esperança de acordar e ver que o dia é ainda dia. Se nos teimarem ser Verão, também seremos, verão que das estações só as do comboio, mesmo que alienadas e despojadas sejam, permanecem inalteradas na paisagem, quem as não tem? Paisagens e estações?
O frio escapa-se-me e segue, por aí, acalentando olhares de soslaio, sonhos de catraio, dois ou três pares de nuvens e um sorrio. São estas as minhas orações.
2015-03-28
Momentos
in Bird Magazine.
Havia muito pouco de tudo aquilo que a vida necessita,
o pó
a terra arada
toda a falta de um candelabro que ilumina a noite e a ressuscita.
Entre muros a pedra
e a ausência de uma face
o nevoeiro que se enamora pela erva
e o solo afoito de onde o que sou nasce.
Paira no ar
entre mim e a visão
as aparas diluídas de uma madeira inquebrável,
uma mão que quer afagar
a entrada mais curta para o coração
as turbulentas casualidades da amarrotada folha de papel.
Não poderei abraçar o Sol sem o aquecer, nem a Lua sem a fazer tremer. Um pouco como os caminhos que não posso percorrer por me estarem, sempre, a falhar os passos porque os meus pés ainda não chegaram ao local onde estou. Vou caminhando e recuando numa recursividade que me faz grafar por memórias nunca antes navegadas. Talvez seja isto a humanidade, o conhecer e desbravar, sinapsar e abrilhantar o dia com o sorriso possível, sem que se torne o sonho impossível.
Uma das minhas memórias soltou-se, por aí, quando me sentei ao Sol e, inadvertidamente, fechei os olhos sem me lembrar que o Universo é tão fugaz e capaz de me surpreender, que se deixou habitar pela minusculidade do que sou.
Choram-me palavras no colo, afio as letras e esgrimo-me na tentativa de embainhar-me no silêncio das frases nunca batalhadas.
A guerra é o profundo desconhecimento das palavras conjugadas com o olhar, imperceptíveis a quem se limita a ver, um pouco como o que sobra do horizonte depois de lhe termos gasto a cor na desenfreada corrida monocromática a que teimam designar como vida.
Tenho no abraço a mais longa viagem no tempo, da génese à pluralidade de uma calçada que se faz com as graníticas doses de labor. Obreiro, quem te faz a ti, que em mim quer primeiro?
Um dia, dois diasporalizados irão caber no peito não denso de quem se faz escorreito
Foi por entre as palavras que, numa tarde como esta, enquanto o vento atira os ciscos que o levarão a esfregar um olho, que vi surgir timidamente a ilusão de me desiludir. Daí para cá finquei-me e fiquei-me pelo que sou. Cada flor seu canteiro, cada bicho sua lura. O lugar de um deslocado é o momento em que a sua própria sombra se desprende, despede, e deixa pousar-se imiscuída entre sombras de raízes diferentes.
Conheço o caminho pelas curvas que traçou, as aparas, a grafite, os restos de suor de quem sangrou por uma estrada sem direcção. O sentido dá quem o quer, quem o sabe. A vida ilumina-se pendendo do tecto em forma de watts, what? A vida, do tecto, do céu, pouco interessa de onde chove, quando se vive é para todos.
Vou guiando o silêncio, segurando-lhe os pulsos pequenos, içando e pousando o andar, longe de raízes falheiras e pedras à espera de serem falhadas, quando ele pára incito-o a continuar, não o deveria fazer, cortar assim a curiosidade sadia, mas tenho pressa, quero leva-lo rapidamente. Chego. Chegamos. O Sol ainda quente, eu ainda ente, sento-me no chão frio, encosto as costas à parede aquecida, sento-o no meu colo. O Sol. Eu. O silêncio.
Mais historias teve o dia, mas era apenas esta a que o ruído queria.
Terra, eis o teu filho.
Filho, eis a tua Terra.
Vou ao encontro do ocaso,
sem caminho,
entre paz e guerra acompanhado
de mim sozinho.
Havia muito pouco de tudo aquilo que a vida necessita,
o pó
a terra arada
toda a falta de um candelabro que ilumina a noite e a ressuscita.
Entre muros a pedra
e a ausência de uma face
o nevoeiro que se enamora pela erva
e o solo afoito de onde o que sou nasce.
Paira no ar
entre mim e a visão
as aparas diluídas de uma madeira inquebrável,
uma mão que quer afagar
a entrada mais curta para o coração
as turbulentas casualidades da amarrotada folha de papel.
Não poderei abraçar o Sol sem o aquecer, nem a Lua sem a fazer tremer. Um pouco como os caminhos que não posso percorrer por me estarem, sempre, a falhar os passos porque os meus pés ainda não chegaram ao local onde estou. Vou caminhando e recuando numa recursividade que me faz grafar por memórias nunca antes navegadas. Talvez seja isto a humanidade, o conhecer e desbravar, sinapsar e abrilhantar o dia com o sorriso possível, sem que se torne o sonho impossível.
Uma das minhas memórias soltou-se, por aí, quando me sentei ao Sol e, inadvertidamente, fechei os olhos sem me lembrar que o Universo é tão fugaz e capaz de me surpreender, que se deixou habitar pela minusculidade do que sou.
Choram-me palavras no colo, afio as letras e esgrimo-me na tentativa de embainhar-me no silêncio das frases nunca batalhadas.
A guerra é o profundo desconhecimento das palavras conjugadas com o olhar, imperceptíveis a quem se limita a ver, um pouco como o que sobra do horizonte depois de lhe termos gasto a cor na desenfreada corrida monocromática a que teimam designar como vida.
Tenho no abraço a mais longa viagem no tempo, da génese à pluralidade de uma calçada que se faz com as graníticas doses de labor. Obreiro, quem te faz a ti, que em mim quer primeiro?
Um dia, dois diasporalizados irão caber no peito não denso de quem se faz escorreito
Foi por entre as palavras que, numa tarde como esta, enquanto o vento atira os ciscos que o levarão a esfregar um olho, que vi surgir timidamente a ilusão de me desiludir. Daí para cá finquei-me e fiquei-me pelo que sou. Cada flor seu canteiro, cada bicho sua lura. O lugar de um deslocado é o momento em que a sua própria sombra se desprende, despede, e deixa pousar-se imiscuída entre sombras de raízes diferentes.
Conheço o caminho pelas curvas que traçou, as aparas, a grafite, os restos de suor de quem sangrou por uma estrada sem direcção. O sentido dá quem o quer, quem o sabe. A vida ilumina-se pendendo do tecto em forma de watts, what? A vida, do tecto, do céu, pouco interessa de onde chove, quando se vive é para todos.
Vou guiando o silêncio, segurando-lhe os pulsos pequenos, içando e pousando o andar, longe de raízes falheiras e pedras à espera de serem falhadas, quando ele pára incito-o a continuar, não o deveria fazer, cortar assim a curiosidade sadia, mas tenho pressa, quero leva-lo rapidamente. Chego. Chegamos. O Sol ainda quente, eu ainda ente, sento-me no chão frio, encosto as costas à parede aquecida, sento-o no meu colo. O Sol. Eu. O silêncio.
Mais historias teve o dia, mas era apenas esta a que o ruído queria.
Terra, eis o teu filho.
Filho, eis a tua Terra.
Vou ao encontro do ocaso,
sem caminho,
entre paz e guerra acompanhado
de mim sozinho.
2015-03-22
Quimera
Crónica de domingo na Bird.
Falaste na Primavera.
Para mim bastou-me, foi como se a própria palavra te sobrasse pelos ramos e tu mesma florisses.
Aliás, sempre te vi em flor.
Renascida a cada cinza atiçada, não como fénix, mas como uma companhia solitária há muito desejada.
A estrada caminhou ao meu lado, conta-me histórias de várias léguas,
medidas distantes para chegar a quem nos quer hoje como antes.
Eu não falo.
Basta-me ouvir-me e desabafar com o vento, esse, de repente, sem se
mostrar interessado, começa a soprar quando paro de falar, apenas como
quem me diz, vá, continua, estava a ouvir.
Tem uns trejeitos de adulto criança, fingindo ouvir quem de si se fala,
mesmo quando aborrecido desata a brincar a meus pés, mesmo que isso
represente levantar areia e pó para os olhos, trazer consigo gotículas
de um mar que ribomba ali, ao fundo, embrulhado com a praia, ali, ao
fundo, nas mãos petizes da menina que segura a sua saia.
Faltarão menos de quarenta passos, uns quantos sacrifícios agarrados aos
braços, para se erguer no monte aquela que te fará ao nome,
chamar-lhe-ião cruz, mas tu de baptismo nasceste apenas jesus e eu, de
metáfora baptizado, primeiro e último nome da parábola, finjo que não te
ouço quando sobre mim paira o fino fio do aço da espada.
Sim, parece-me que sem nós somos mesmo nada.
Já o vento se espreguiça, adivinho-o entediado, ouviu-me falar dos
passos e das passadas e conhecendo os meus passados, sabe que o primeiro
movimento que farei será permanecer no mesmo local, imóvel, a aguardar
que as estrelas se conjuguem, logo a seguir às vogais, da mesma forma
que estavam quando olhei para cima e vi, claramente, outro eu que para
mim olhava.
Não, parece-me que sem mim não sou mesmo nada.
Se o vento empurra para barlavento estradas que nunca percorrerei,
sobejam-me todos os volumes que cubiquei, terra sobre mim que jorrei,
para continuar no defeso da imaginação e ver surgir um confuso Alma
Grande que traz Garrincha pela mão.
Saído do ventre que me pariu, aterro neste corpo que nunca minh'alma
viu, excepto pelos desacordos e pelas peregrinações que faço entre
versos ou, então, pelos universos, todos eles feito de olhos acessos que
é como quem se vê pela primeira vez visto.
Ah, agora sim, eu sem mim sou isto!
Desajeitadamente arranjo o colarinho e dou uns passos a olhar os pés,
enquanto o piso de madeira não me faltar sei que em ti está quem és, mas
mesmo que me saiba de papel feito, não como avião ou barco, mas como
textura e secura de palavras e vidas, as mesmas que mencionei não serem
partidas, esta respiração arritmada que me escreve entre a parede e a
espada.
Canso-me um pouco da procura, a miragem que a tua ausência tem está em
cada olhar mais profundo que escavo, encontro um ou outro sonho escravo,
sei que me dizem não ter eu cura, pouco me interessa tal agrura, se me
encontram doente, que farão quando virem que é na ausência de tempo que
tudo perdura?
Hoje não, que me cansa a noite e não sou de alterar discursos, mas um
dia, lá para meados de mim, irei acordar o corpo a cada manhã e
esquecido que sou dos sonhos que prometo, irei ver-me pelos meus olhos,
segurando o espelho retrovisor entre os dedos, ah eu não sou cá de
medos, tão pouco segredos, e alcançarei aquele pulsar longínquo que me
faz alimentar o mundo porque as palavras têm pouso, mas quem escreve
sonha voltar novamente vagabundo.
Distraio-me nas cores do poesia, ainda que em prosa, tu abres-me o vidro
e entra por mim o cheiro de ti e de maresia, falas-me nas cores do
arco-íris que viste numa rosa. Sem ti o que faria?
Já tinha esquecido que tinhas-me falado da Primavera...
Sorris. Sorrio. Sem nós a nossa vida era uma quimera.
2015-03-15
Ainda que adormecido
Crónica de domingo na Bird Magazine.
A facilidade com que esta folha branca se ri de mim é enervante.
Começa por um duelo, um olhar estarrecido para uma imensidão fértil, sem o conhecimento ou discernimento de qual fruto semear. Ouso acordar para a musicalidade de uns passos, o caminhar conhecido pelas mesmas ruas de hoje, mas com o mesmo olhar de ontem.
O dia amanhece sem grandes preocupações, as palavras adormeceram sem pensarem acordar para uma singularidade não repetível, eu, aqui, neste planeta.
Levo ainda o sabor a café, amargo, como uma cortina que se encosta ao interior da boca e me faz sentir acordado, ainda que adormecido.
Imagino uma estrada sem buracos, um percurso nivelado que não se transforme no ziguezaguear contínuo por entre asfalto fractado, marcações a tinta envidraçada que ninguém ousa calcar, decisões que ousam indecidir. Perco-me na imaginação, ainda que adormecido, de me ver diluir num abraço sentido ou no olhar trocado com o sentido proibido.
Cansam-me as vidas que deixei para trás e que ainda me tentam alcançar, como se me visse do alto de mim mesmo e, ao meu redor, fossem ondulando as existências a meus pés, indo, vindo, trazendo consigo a espuma e o gélido aroma a maresia que me faz querer voltar ao que ainda não saboreei. Sim, ainda que adormecido, levanto-me do sofá bem depois de me ter içado e oscilado com o vento que abana a persiana, o vento traz-me a tarde por entre as cortinas da sala e espreita por todas as fotografias que me vêm sorrir.
Agora, o sorriso, é reserva estabelecida para as noites estreladas ou, como hoje, para as conversas que se têm numa ou duas estradas. Senti-me novamente estranho ao corpo, na imagem que se reflecte e refracciona dentro de mim, sorri. Ri. Embora não me transforme no petiz que vi sentado no atrelado de um cacofoneiro tractor por entre sacos de, imagino, erva ou ração, ou no puto normal que se esconde por detrás daquilo a que chamam deficiência. Curioso como esta dimensão temporal se faz no agora aquilo que trouxemos pela vida fora. Um pouco como as frases que tento escrever, sem prestar atenção ao caminho e aos ramos baixos que teimam em bater-me na cara quando, incauto, um pouco parvo convenhamos, tento andar por entre pinheiros no meio do resto do dia que se ausenta. Os dias transportam um pouco de tudo. Um poema que vi escrito dentro de mim e que ficou a aguardar um novo caminho sentado numa fonte que, agora, não existe mais.
Acredito que ficará por lá até que eu passe, veja o barulho do borbulhar e, ainda que adormecido, desperte para a cristalinidade de uma água que faz nascer a sede. Infelizmente, a calcificação do que sou não me permite alcançar a fluência do discurso e, um pouco triste, confesso, perco-me nos olhares e nas inúmeras metáforas que tento compor na esperança de, com isto, mostrar que o não mostrado é o que exibo de facto, um pouco como o beijo, o não dado, que se torna o mais saboroso por ter sido dado no silêncio da distância que embora aqui nos separe, nos une como nos longos serões onde o mundo parece ser feito de película e a película feita dos nossos corpos agasalhados um pelo outro e pelo travo doce de uma cabeça a descansar sobre o ombro. Ainda que adormecido não durmo. Reservo-me à prostração e alimento-me das conversas, de caminhos percorridos à distância de um braço, o calcar das pedras que foram pó um dia, como as pessoas, como a tarde quente que traz o que sou aqui mesmo à minha frente. Agasalhei as palavras o melhor que pude.
Lamento imenso não conseguir sentar-me na soleira da porta de mim mesmo e escrever, ao sol de quem por mim passa e sorri, que tudo o que sou não sou, tudo o que tenho não é meu, porque meu são as noites e os dias, o passado e o futuro que não percorro porque estou agora, aqui, neste exacto momento, comigo a ser eu próprio.
Que faço? Choro? Rio? Talvez a finalidade seja a inicialidade e a palavra que procuro escrever, falar, seja aquela que ouvi quando a pensei e, depois, aconchegando o lençol ao pescoço a deitei. Talvez seja isto, ainda que adormecido, estabelecer sequências rítmicas, o ciclo de palavras que ciclicamente me circundam e me fazem sentir espiral sem qualquer limite tridimensional, apenas para escutar o som das sombras das árvores que me permitem abrir os olhos no solareio final de um sábado de tarde. Vai, eu também irei, enriquecido e inebriado de energia dos locais onde residem as memórias de um tempo que será passado agora que chegou o futuro das nossas vidas.
Espero que ouças o ranger dos teus passos no final de tarde, que a brisa de um Março te faça sentir ao longe a candura do abraço, que a cada rima se evaporem as luzes de quem nos ilumina lá de cima.
Vai, eu estou por aqui, fazendo-me de mim esquecido, desperto, ainda que adormecido.
2015-03-08
Mulher
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Tens-te metade de mim, na sôfrega parte de me saberes melhor do que a metade do que fui.
A ânsia do regresso ao ventre de um ventre que te pariu.
Mulher, tu és a parte do mundo que nunca te sorriu.
Tu.
Ao longo dos tempos, antes do tempo sequer nascer, se quer nascer dê-se ao tempo o que ele deseja, a vida em forma de bandeja, como um abraço sofrido e contido porque do lado de lá de ti está a metade, aquela que te sorri.
Por entre as melodias de uma canção que se quer silenciosa, não se vá acordar o som que te embala, surgem as vestes de uma nudez que te vai retirando, pele a pela, as camadas onde se escondem as estrelas que te habitam.
Sim.
Em ti o brilho que se quer da noite, do luar, da ausência de um astro que ilumine em torno da órbita que te faz translação, tu, mulher, poema, canção.
Não.
Acordas para o corpo que te veste, vestes-te de estação, qualquer uma, descansas sob a manta de um dia e acordas, novamente, ausente e presente a cada passo descontinuado, tu, mulher, fruto de um amor suado.
Há o reflexo que se reflete em ti, a opinião que opinas sobre ti mesma, a calçada que se estende para que vejas os teus passos sem falsidade e tu, mulher, preocupada com a idade, tu, mulher, tu.
E tens o ventre, o ventre vazio de filhos que não são teus, porque a quem de mulher se faz menina sabe que até o arco-íris tem mãe.
Mulher.
Sabes, sabe-lo, que acima de ti e da imensidão que se estende aquém do infinito há um silêncio onde se encontram os que ouvem, mulher, mãe, sabes, sabe-lo, nunca de teu corpo prisioneira poderá ofegar a saciedade por te querer a sociedade moldar, tu, mulher, ser de vidro a moldar pela forja de teu próprio sopro.
Surgirá um dia, mulher, o ocaso das nossas diferenças, a passadeira amarela que se estende por entre as mimosas floridas, o fluxo de um rio que corre livre contra a corrente, indiferente a quem o navega, na pequenez de um lar que se faz mansão, tu, mulher, fera de suave coração.
Guarda em ti o que de ti alimenta, as frases tantas com que um mísero seguro atormenta, a feminidade de um mundo que se vai a ti, contra ti, porque de ti tem ele, mundo, medo, o segredo de se saber mais fugaz que capaz, de percorrer os caminhos que nos separam, apontando a cada um o outro e o que do outro se faz um, sabendo que na desunião de dois sobra nenhum e, nenhum, é o que somos quando de costela em costela nos fazem díspares, polpa e fruto de uma árvore só.
Faz-me aqui, em mãos de ninguém, o aconchego de nos termos separados pelo amor.
Eu não te sei dizer mulher.
Talvez seja essa a minha dor.
Por isso, a cada curva de ti, quem te faz mulher não é o género, é a constelação de tudo o que és que faz seres um mar de estrelas no céu diurno, as mesmas que iluminam na claridade, aquelas que acarinham nos braços com o mesmo amor os filhos de outras mães.
Mulher, de ti vem o mundo, para onde irá o mundo depois de ti?
Procuramo-nos um no outro sem sabermos que somos os olhos da mesma face, sofremos como quem nunca se amasse. Porquê?
Cegamos na nascença e fazem-nos separados, quando de todos os convites para a vida, o único que procuramos é aquele que nos faça sentir amados.
Mulher. Eu sou tu. Tu és eu.
Existirá alguma indiferença entre nós debaixo deste mesmo céu?
A ânsia do regresso ao ventre de um ventre que te pariu.
Mulher, tu és a parte do mundo que nunca te sorriu.
Tu.
Ao longo dos tempos, antes do tempo sequer nascer, se quer nascer dê-se ao tempo o que ele deseja, a vida em forma de bandeja, como um abraço sofrido e contido porque do lado de lá de ti está a metade, aquela que te sorri.
Por entre as melodias de uma canção que se quer silenciosa, não se vá acordar o som que te embala, surgem as vestes de uma nudez que te vai retirando, pele a pela, as camadas onde se escondem as estrelas que te habitam.
Sim.
Em ti o brilho que se quer da noite, do luar, da ausência de um astro que ilumine em torno da órbita que te faz translação, tu, mulher, poema, canção.
Não.
Acordas para o corpo que te veste, vestes-te de estação, qualquer uma, descansas sob a manta de um dia e acordas, novamente, ausente e presente a cada passo descontinuado, tu, mulher, fruto de um amor suado.
Há o reflexo que se reflete em ti, a opinião que opinas sobre ti mesma, a calçada que se estende para que vejas os teus passos sem falsidade e tu, mulher, preocupada com a idade, tu, mulher, tu.
E tens o ventre, o ventre vazio de filhos que não são teus, porque a quem de mulher se faz menina sabe que até o arco-íris tem mãe.
Mulher.
Sabes, sabe-lo, que acima de ti e da imensidão que se estende aquém do infinito há um silêncio onde se encontram os que ouvem, mulher, mãe, sabes, sabe-lo, nunca de teu corpo prisioneira poderá ofegar a saciedade por te querer a sociedade moldar, tu, mulher, ser de vidro a moldar pela forja de teu próprio sopro.
Surgirá um dia, mulher, o ocaso das nossas diferenças, a passadeira amarela que se estende por entre as mimosas floridas, o fluxo de um rio que corre livre contra a corrente, indiferente a quem o navega, na pequenez de um lar que se faz mansão, tu, mulher, fera de suave coração.
Guarda em ti o que de ti alimenta, as frases tantas com que um mísero seguro atormenta, a feminidade de um mundo que se vai a ti, contra ti, porque de ti tem ele, mundo, medo, o segredo de se saber mais fugaz que capaz, de percorrer os caminhos que nos separam, apontando a cada um o outro e o que do outro se faz um, sabendo que na desunião de dois sobra nenhum e, nenhum, é o que somos quando de costela em costela nos fazem díspares, polpa e fruto de uma árvore só.
Faz-me aqui, em mãos de ninguém, o aconchego de nos termos separados pelo amor.
Eu não te sei dizer mulher.
Talvez seja essa a minha dor.
Por isso, a cada curva de ti, quem te faz mulher não é o género, é a constelação de tudo o que és que faz seres um mar de estrelas no céu diurno, as mesmas que iluminam na claridade, aquelas que acarinham nos braços com o mesmo amor os filhos de outras mães.
Mulher, de ti vem o mundo, para onde irá o mundo depois de ti?
Procuramo-nos um no outro sem sabermos que somos os olhos da mesma face, sofremos como quem nunca se amasse. Porquê?
Cegamos na nascença e fazem-nos separados, quando de todos os convites para a vida, o único que procuramos é aquele que nos faça sentir amados.
Mulher. Eu sou tu. Tu és eu.
Existirá alguma indiferença entre nós debaixo deste mesmo céu?
2015-03-01
ALEGRIA
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
É estranho, no mínimo, dizer que se perdeu o comboio. Eu perdi-o, embora nunca o tivesse tido, e ele seguiu, caminho fora, carril dentro, enquanto eu me apertava de encontro ao blusão e puxava as abas do casaco para o pescoço, lamentando no momento não ter desfeito a barba, que renasce grisalha, para poder assim sentir o calor do tecido contra o corpo. Sempre se quer outro corpo, mas na ausência deste e porque o vento corre frio, ainda mais apressado, com o qual me rio, fico-me pelo tecido tecido contra mim.
Os chafarizes salpicam-se e algumas infelizes gotas caem fora do pequeno lago que significará algo, talvez para o seu autor, mas que para mim se assemelha a um caminho molhado onde no Inverno nos traz à memória pensamentos de calor e, no Verão, serve para crianças de todas as idades molharem os pés, indumentária e, talvez, alguém enxague a alma.
Passo uma leitura rápida ao que a comunicação social de hoje traz do dia de ontem. A notícia é isto mesmo, tudo aquilo que nem sempre precisamos saber, mas que nos querem lidas, redigidas em ornamentadas celuloses, frutos de cravos agora, quem sabe, correm iluminadas pelo crepúsculo ao qual se assemelha este túnel.
Algum suspira atrás de mim, deduzo que não consiga ler e, pacientemente, afasto-me um passo e alguém passa pelo meu lado direito para estacionar mesmo à minha frente, a meio passo da montra, inclinando-se e levando consigo o oleoso cabelo que escorria pela nuca, orelhas e um pouco do casaco tingido de caspa.
Existirá vida acima desta caverna, o dia parece convidar a uma incursão pela superfície e, por isso, sem atentar ao que o relógio me sussurrava, precipito-me para o chão que me foge debaixo dos pés e ascendo à plataforma, vendo já a errada ou precipitada decisão quando a gargalhada do relógio é audível e me apercebo que está frio, o vento salta entre linhas e, eis a razão do prévio aviso do relógio, mais rápido que ele próprio surge o comboio intercidades, apressado, levando consigo o horário do progresso.
Afundado ainda mais no casaco, ando uns passos até me esconder na perpendicularidade do abrigo ou paragem, vidrado, escondendo-me a tempo da volatilidade do vento deste dia. As paredes vítreas convidam o Sol a entrar e ele não se faz rogado ao passar por entre os bocados de éter que o separam da minha imaginação, aquecendo-me o corpo, o exterior e o interior do meu carnal invólucro. Fecho os olhos, a minha alma agora contida escuta a metálica voz que anuncia o comboio regional e todas as estações onde o mesmo faz paragem, ele, o comboio e o tempo, que tem tendência natural a parar onde nós, quase humanos, podemos ainda maravilhar o sorriso com o olhar.
Para lá do destino, onde as carruagens oscilam e os corpos, se mais houvessem, dançariam uns contra os outros ao ritmo pachorrento do claquear da roda férrea no caminho ferroso, mas agora o que se encontra de carril está ferrugento, um pouco como o tempo, as pessoas. Sei agora que algo de mim volita em torno de um trajecto que nunca percorri, um pouco como um acordo tomado por decisões que não são minhas e as quais não respeito, palavras e acordo.
Ouço, a cada pausa do algoritmo, o debitar assíncrono de palavras que são nome de terras e terras que são nome de casas e casas que têm nelas o nome de gente e gente… gente que embora vente frio não sente, porque de onde as vejo e almejo, há todo um corredor onde percorrem as crianças um caminho para uma escola que já não existe porque as crianças são agora homens, mulheres, diz-me, qual preferes? Escola ou escolha? Embora me suportem as pernas, já eu de mim saio para sentir o calor junto ao rosto, mas agora por trás de uma janela numa linha direita, recta, embalado, não sei se pelo comboio, se pelo vento que me abana os ombros e me diz para acordar.
O comboio passará por Juncal, Pala, Mosteiro, Aregos, Mirão e Ermida. Por mim chegara para me sarar esta ferida, mas na intempestiva viagem a que o tempo me submente, já estou em Barqueiros pouco depois de ouvir Porto de Rei. Sinto ficarem para trás curvas que não curvei, nuvens que não chorei, todos os rostos de quem se levanta na madrugada para ver a mão arada não por terra, mas pelo quente do metal, pelo ensonado destino que se prende desde o jogo de cartas ao arriar cansado, já noite, quando a marmita viajar já de barriga vazia e em casa estiver a recordação de uma mesa com crianças que moram agora, quem sabe, lá para as Franças.
Rede, Caldas de Moledo, Godim, Régua.
Não me atrevo a abrir os olhos, com o medo de me ver sem ter saído do local mantenho os olhos sob as palmas das mãos, estão frias, tiro-as e deixo apenas as pálpebras, já aquecidas, repousarem sobre os globos esverdeados como quem aconchega a roupa da cama a um filho.
Covelinhas, Ferrão, Pinhão, Tua.
Minha era a paixão. O sol ainda continua, oblíquo, a fazer-se sentir em mim e o vermelho que vejo assomar ao meu campo de visão é interrompido por vezes por pessoas, deduzo, que passam à minha frente, imaginando-as eu como as árvores, postes de madeira, velhas casas com velhas à lareira que me fazem sombras e que tento agarrar com a imaginação, mas que se esfumam na viagem de mim.
Alegria trará Ferradosa e esta Vargelas. Comigo estão elas, a erupção de um Vesúvio que arderá a terra, as fragas arrefecidas num metamorfismo natural de frio e calor, de paixão e amor.
Freixo de Numão.
A viagem começa a rarear, o Sol esconde-se atrás de um pilar descaracterizado, alguém pigarreia anunciando presença, mas sei-me de pé e sem lugar ocupar no frio banco. A imaginação que galopava acompanhando o trajecto de uma velha automotora começa a trazer pequenos pensamentos, fragmentos de uma lateralidade a que muitos chamam realidade.
As sombras ora são pessoas ora são paisagem, lentas. O ritmo, o frio que se empoleira ao meu ombro, tudo se mistura. O fumo do cigarro não me parece ser da velha e quase escura carruagem de segunda onde se é permitido fumar. Alguém se senta a meu lado.
Pocinho.
Acabei de me sair.
Há viagens que só fazem sozinho.
2015-02-26
Vou, sempre, não ido, mas vou, a palavra.
Vou sem ir, aqui, contemplando, contemplo e ando, com templo...
Sacio a ternura de ter uma vela cambaleante pelo aspirado suspiro alheio.
Creio.
Por aqui, no caminho do meio, não sei o que tacteio.
Caminho que não eu, não meu.
Vou, sempre, não ido, mas vou, a palavra.
Eu.
2015-02-22
Onde quer que vá
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Encontro-me, invariavelmente, de regresso a mim mesmo a meio caminho de me descobrir ao encontro de uma parede, preso por palavras, acorrentado a frases que se pronunciam a cada silêncio que me bate no para-brisas em forma de gotícula, ainda não húmida, porque a textura da água caberá a mim grafiar, gota a gota, aguaceiro a aguaceiro.
Pouco me interessa a companhia do tempo.
Ele, tempo, aborrecido, senta-se a meu lado enquanto o conduzo pela minha vida fora, fora e dentro.
Há pouco que lhe diga.
Um olá, talvez, a cada madrugada em que ele me acorda para eu o poder ver na matematicalidade do relógio digital.
São 1:23, 2:34, 5:55, 6:54. Não achas engraçado?
Sim, acho, respondo-lhe, agora deixa-me dormir novamente.
E ele encosta-se às paredes, desaparece atrás da sombra do móvel, que é lugar de tempo, para somente acordar quando me decidir levantar como quem opta por virar em qualquer direcção que não a assinalada numa encruzilhada dessas com que nos escrevem ou compreendem, em forma de sorriso não verdadeiro.
Conto Primaveras, embora não mas digam que as há, acredito nelas.
Vá-se lá saber porquê, para não ferir susceptibilidades teosóficas, acredito também noutras estações e noutras formas de ver o mundo que não por detrás das minhas lentes gastas e moldadas.
Filosoficamente, tudo se assemelha a pop stars com figuras saídas de um imaginário pensado e idealizado sarcasticamente numa sala, com cotovelos numa mesa redonda, onde se decide a quem dar o pão, a quem dar o circo.
Taciturnamente está Sol.
Sempre esteve.
Hoje simplesmente não tem nuvens que o permitam deixar de se preocupar em fornecedor iões suficientes para nos aquecerem, iluminarem o caminho.
Há algum tempo (saiu agora de trás da sombra do móvel) que ele se pergunta porque queremos a luz, a claridade, se a maioria, isto sabe-o ele bem, continua a sonhar pela noite, envolto em escuridões que saem de trás de cada dia que perderam a trabalhar na sombra dos sonhos de outros.
O timbre grave de um saxofone abalou a estrada enquanto esta me dirigia, o volante sacode-se enjoado de andar em círculos e um relâmpago cai-me na visão, para que me veja no espelho, de repente, enquanto lá ao fundo cavalgaram imagens de projectos futuros que deixei no passado.
Nunca me pareceu haver pasto suficiente para literalidades, principalmente quando estas se deixam arrebatar pelo que possa surgir por detrás de uma esquina dobrada pelo tempo (este, não, este não é o meu).
Pergunto frequentemente qual a frequência que devo sintonizar.
Não me respondem.
As audiências de outrem ditam o que devemos ouvir, não pelo acto de escutar, mas apenas para ser mais um reverberante sem tripé, sem auscultantes que nos apoiem no acto de fazer bater o coração ao ritmo distante da música que não nos permitimos ver.
Já não tenho gotas, texturei-as todas, apenas sucumbo porque fiquei sem combustível nesta viagem de regresso a ti, embora continue a acreditar, a debitar, a crer querer que lá no ocaso onde repousas pensas que eu, apesar da matematicalidade, da migueleidade, da incoerência sonhadora de não me ver a ver o que penso ter visto como verdadeiro, pensas que eu, novamente, seja apenas um pobre e orgulhoso inocente tolo, a quem as palavras prendem com silêncio, porque é nele que consigo dizer algo que não valha a pena, sobre pena de me apalavrar com o destino e este continuar a dizer-me, baixinho, onde andas tu, agora, filho?
2015-02-17
2015-02-15
Contigo
in Bird Magazine.
Olho várias vezes para as minhas mãos, questionando-as.
Não sei se da preguiça ou por parte do cansaço, há sempre um medo do que serão capazes de fazer, de olhar.
E olhar, que me leva para dentro de ti, traz um misto de vidas iguais em vidas diferentes.
São tantos os momentos de tangência, que fico sem saber ou discernir, qual a sobrevivência que vivo.
Anima-me pensar (acto de ser igual a uma imagem) que, de facto, pouco há a compreender da vida.
Afinal, o caleidoscópio por onde espreito a luz é apenas a face de um dodecaedro.
E eu, que gosto de matemática, fico feliz com isto.
No meio de todo o silêncio faz-me falta serenar, estar a sentir o vento (e por falar nisto, roí-me de inveja do senhor que conduzia um tractor, no meu caminho de casa, com menos um farol, um arado a deitar terra na estrada, o cigarro apagado no canto da boca, uma mão a segurar as abas do casaco junto ao pescoço e outra no volante) e deixar-me falar com o vazio.
Curioso como quando estou sozinho, sem nada, no nada é quando me encontro com tudo.
Até Contigo.
Por vezes é algo em mim.
Não sei.
Sei sim.
É em mim.
A vontade de pura e simplesmente deixar tudo, ou deixar-me de tudo ou, vá lá, tudo se deixar de mim.
Partir.
De viagem e de estilhaço.
Ser, mas sem ser.
Estou a meio caminho de dois destinos e, talvez por isso, não chegue a nenhum.
Tenho todas as curvas do mundo e, mesmo assim, não há direcção que me tome nem ziguezaguear que não me contorne.
Nem te cheguei a ver e, no entanto, na tua ausência, é como se nunca me soubesse ter.
Existe o irreal.
Pelo menos em mim.
Que não existo.
E é assim, irrealmente, que me deito todos os dias.
Sem eira nem beira.
Sem pontuação que me diga onde terminar ou, pelo menos, uma pausa, uma pequena vírgula, qualquer coisa.
Há sempre um amanhã que não conheceu um ontem, um monte de palavras ao monte, que nunca, mas mesmo nunca, escreverei ou declamarei, um por não saber declamar, outro por não saber escrever.
Apenas respirar.
O que existe e o que não existe.
E eu acho que existe o irreal, apenas ele, ou ela, um momento e um toque, um corpo que passa pelo outro e duas almas que se conhecem, ou não.
Acho que existe apenas o irreal, apenas porque ninguém conta com ele, nada se espera do que não existe, como se não existissem saudades do que nunca se conheceu.
E, na verdade vos digo, é saudade que dói mais.
Porque não existe.
Olho várias vezes para as minhas mãos, questionando-as.
Não sei se da preguiça ou por parte do cansaço, há sempre um medo do que serão capazes de fazer, de olhar.
E olhar, que me leva para dentro de ti, traz um misto de vidas iguais em vidas diferentes.
São tantos os momentos de tangência, que fico sem saber ou discernir, qual a sobrevivência que vivo.
Anima-me pensar (acto de ser igual a uma imagem) que, de facto, pouco há a compreender da vida.
Afinal, o caleidoscópio por onde espreito a luz é apenas a face de um dodecaedro.
E eu, que gosto de matemática, fico feliz com isto.
No meio de todo o silêncio faz-me falta serenar, estar a sentir o vento (e por falar nisto, roí-me de inveja do senhor que conduzia um tractor, no meu caminho de casa, com menos um farol, um arado a deitar terra na estrada, o cigarro apagado no canto da boca, uma mão a segurar as abas do casaco junto ao pescoço e outra no volante) e deixar-me falar com o vazio.
Curioso como quando estou sozinho, sem nada, no nada é quando me encontro com tudo.
Até Contigo.
Por vezes é algo em mim.
Não sei.
Sei sim.
É em mim.
A vontade de pura e simplesmente deixar tudo, ou deixar-me de tudo ou, vá lá, tudo se deixar de mim.
Partir.
De viagem e de estilhaço.
Ser, mas sem ser.
Estou a meio caminho de dois destinos e, talvez por isso, não chegue a nenhum.
Tenho todas as curvas do mundo e, mesmo assim, não há direcção que me tome nem ziguezaguear que não me contorne.
Nem te cheguei a ver e, no entanto, na tua ausência, é como se nunca me soubesse ter.
Existe o irreal.
Pelo menos em mim.
Que não existo.
E é assim, irrealmente, que me deito todos os dias.
Sem eira nem beira.
Sem pontuação que me diga onde terminar ou, pelo menos, uma pausa, uma pequena vírgula, qualquer coisa.
Há sempre um amanhã que não conheceu um ontem, um monte de palavras ao monte, que nunca, mas mesmo nunca, escreverei ou declamarei, um por não saber declamar, outro por não saber escrever.
Apenas respirar.
O que existe e o que não existe.
E eu acho que existe o irreal, apenas ele, ou ela, um momento e um toque, um corpo que passa pelo outro e duas almas que se conhecem, ou não.
Acho que existe apenas o irreal, apenas porque ninguém conta com ele, nada se espera do que não existe, como se não existissem saudades do que nunca se conheceu.
E, na verdade vos digo, é saudade que dói mais.
Porque não existe.
2015-02-10
Esqueci o sabor do abandono, quando chove cheira a terra abandonada molhada, a terra e a abandonada. Molhada. Já nem mosto espremo da vintageidade a que me cavernizo, pensei que fosse de carvalho a madeira tanoeirizada, mas é um composto qualquer, sem posto, sem pousio outro que não o descanso e a saudade de me ver com sabor. A mar. Amar. De vida bebida a lua, saudade, minha, vales-me Tua. Não me sabendo serpentear vou-me tolhendo, folheando, crescendo ao cimo de um regato, talvez encontre em mim quem sou, de facto.
2015-01-25
É pi só dios
in Bird Magazine.
Há um cão que vagueia na estrada, desatento, arfando como quem sorri ao patear o asfalto, de costas para o trânsito. Negro como a noite, dia não fosse, diria que me sorriu, o bicho.
Há um Sol que se espreguiça de encontro a um muro, como que se lembrando que é quase Outono e as pedras do muro são quentes ao final da tarde. Sol, de sol em sol, até se aninhar rendido no olhar de quem se acriança.
Há um sorriso de uma criança, que recorda com satisfação, de olhos fechados, o primeiro almoço na cantina da escola.
Há um atirar para o restolho dos restos dos dias que vivo.
Quatro vidas se vivem, em quadras que jamais escreverei. Quatro, que quatro mil, quatro milhões que fossem, que ao me atirar para esta vida, ficou de mim no lado de lá aquilo que jamais emergirá.
E a vida que se atiça aos dedos, saltando, tecla em tecla, letra em letra, sem que se dissipe o nevoeiro que trouxe ao cais dos meus olhos uma palavra.
Há.
E isso basta-me.
*
Os bancos de jardim, do mundo, revelam-me os contos que outros viveram, pernoitando, ao som do arrufo dos pombos, repousando em si a poeira que pés incautos levantaram, ainda noite, à água que se refresca pela madrugada, no cajado rompido de um músculo cansado, a quem o corpo pede, pela última vez, para o passo que iniciará o término de um longo caminho... Pode a vida sobrar num cabo ventoso enquanto o horizonte teima em se fazer mar?
*
O mar estendeu-se, uma, duas... sete vezes seguidas me deitou e construiu, até eu dar por mim a olhar para ele, despedindo-se uma, duas... sete vezes seguidas a meus pés.
Era ninguém, apenas onda, seguindo pelas marés sem senso de mim mesmo...
Falo contigo, mar, uma, duas... sete vezes seguidas e pergunto-te se o tens nalgum lado e se está feliz, porque as minhas ondas, mar, estão uma, duas... sete vezes seguidas sem saberem se sou maré suficiente... Ou se seria, uma, duas... sete vezes seguidas o mar que me ensinaste a ser.
*
Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para a procissão...
Há um cão que vagueia na estrada, desatento, arfando como quem sorri ao patear o asfalto, de costas para o trânsito. Negro como a noite, dia não fosse, diria que me sorriu, o bicho.
Há um Sol que se espreguiça de encontro a um muro, como que se lembrando que é quase Outono e as pedras do muro são quentes ao final da tarde. Sol, de sol em sol, até se aninhar rendido no olhar de quem se acriança.
Há um sorriso de uma criança, que recorda com satisfação, de olhos fechados, o primeiro almoço na cantina da escola.
Há um atirar para o restolho dos restos dos dias que vivo.
Quatro vidas se vivem, em quadras que jamais escreverei. Quatro, que quatro mil, quatro milhões que fossem, que ao me atirar para esta vida, ficou de mim no lado de lá aquilo que jamais emergirá.
E a vida que se atiça aos dedos, saltando, tecla em tecla, letra em letra, sem que se dissipe o nevoeiro que trouxe ao cais dos meus olhos uma palavra.
Há.
E isso basta-me.
*
Os bancos de jardim, do mundo, revelam-me os contos que outros viveram, pernoitando, ao som do arrufo dos pombos, repousando em si a poeira que pés incautos levantaram, ainda noite, à água que se refresca pela madrugada, no cajado rompido de um músculo cansado, a quem o corpo pede, pela última vez, para o passo que iniciará o término de um longo caminho... Pode a vida sobrar num cabo ventoso enquanto o horizonte teima em se fazer mar?
*
O mar estendeu-se, uma, duas... sete vezes seguidas me deitou e construiu, até eu dar por mim a olhar para ele, despedindo-se uma, duas... sete vezes seguidas a meus pés.
Era ninguém, apenas onda, seguindo pelas marés sem senso de mim mesmo...
Falo contigo, mar, uma, duas... sete vezes seguidas e pergunto-te se o tens nalgum lado e se está feliz, porque as minhas ondas, mar, estão uma, duas... sete vezes seguidas sem saberem se sou maré suficiente... Ou se seria, uma, duas... sete vezes seguidas o mar que me ensinaste a ser.
*
Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para a procissão...
2015-01-20
Há ainda vida a escorrer pelos olhos de quem se quer ver.
Não obstante a rarefacção da luz, ainda dormem as duas cores de um só arco-íris, o limiar de um dia arfado, cansado, atado de pés e mãos ao nada que tudo prende.
A liberdade liberta-se a cada mão que nos toca de raspão, como se pedisse envergonhadamente licença ao esquecimento para ousar ser um pouco mais de corpo.
Não obstante a rarefacção da luz, ainda dormem as duas cores de um só arco-íris, o limiar de um dia arfado, cansado, atado de pés e mãos ao nada que tudo prende.
A liberdade liberta-se a cada mão que nos toca de raspão, como se pedisse envergonhadamente licença ao esquecimento para ousar ser um pouco mais de corpo.
2015-01-18
Imortal idade
Vou combatendo o tempo com a minha ideia de imortalidade.
Nada como chegar aqui, sem nada para escrever, desfolhar ontem um livro ilustrado, com uma história infantil, com moral para gente grandinha, e deixar-me perder nos desenhos.
A cabana de madeira, paredes estreitas, um banco onde repousa um livro, uns óculos, uma vela já derretida, pelo fogo ou pelo sonho, uma manta de retalhos sobre uma cama tosca, uma cadeira para dar descanso à roupa da labuta diária, um suporte e uma bacia, terá água para trazer aos olhos um novo dia, uns chinelos e umas meias dentro deles, tudo sobre um tapete com inscrições que mal cabe no quarto do tamanho da cama.
Há um postigo, mas deverá servir apenas de despertador.
Quem assim se deita, ainda que personagem ilustrada, ainda que imaginada por quem de traços se faz à vida, saberá que a noite é feita de leituras, de letras que se sacodem pelas sombras que a vela atira ao mundo quando respira.
E antes que a imagem se esfumasse, deixei-me entrar hoje pelo monte dentro.
Alças da mochila sobre os ombros, mãos fora dos bolsos a tactear um pouco o escuro, os pinheiros ainda que novos e estreitos deixam pender ramos secos, duros, mas não há mão que tudo tateie e lá passa um ramo, a mais escuro que lusco fusco não dá para perceber se é um pinheiro, eucalipto ou até sobreiro, nem pelo cheiro, porque pelo escuro a andar pouco há a cheirar, o olfacto recolhe-se e certamente lamuria-se pela fraca decisão de quem movimento o corpo.
O tempo encarregou-se de alcatifar o chão com camadas sobrepostas de caruma, erguiço ou chamem-lhe o que quiserem.
As sapatilhas enterram-se, num misto de sujidade e humidade, não lhes chegando isto ainda têm que aguentar os passos tibuteantes que lhes coloco, terreno incerto, passos incautos.
Era capaz de me deixar perder, caminhar indefinidamente pela natureza do que somos, até descobrir um vulto semi perdido que tenta chegar a casa na véspera de Natal, mas de Garrinchas apenas Torga, nada de Miguel, por isso vou procurando a soleira, os degraus, o alpendre que se encosta a uma árvore (pode ser qualquer uma), o tapete feito de pedra irregular que se amola com o passos sem direcção, a porta e as frinchas nesta que deixam ver um pouco da luz da vela ou lareira, o calor que nos move pelas brasas da nossa vida, o levantar do braço e levar a mão ao ferrolho e ouvir, antes de terminar a pergunta, Entra.
Havemos de fazer do corpo a casa, da casa o templo, dos sonhos a realidade tão palpável quanto um cajado, a vara tosca agreste que nos suporta a ignorância e o fiel amigo, animalito de quantas patas, pelos, escamas e asas quiser, que nos guia enquanto os nossos olhos são fechados por quem planta betão onde antes respirava um chão.
E entramos, sem conhecer a noite ou a casa, semicerrando olhos para ver melhor aquilo que nem sempre perscrutamos.
Eu vejo uma cabana, onde entro, adormeço e sonho que tudo isto é um sonho, povoado por paisagens e habitado por pessoas que ainda não se descobriram crianças.
E tu, que vês?
Já tinha tomado o tempo quando se virou a mim a noite.
"É escuro", surgiu a medo.
E eu, tolhido de cansaço, voltei costas à sombra e deixa-a a falar sozinha com o barulho.
"É escuro", continuou.
Mas já lá eu não estava, voltado de costas ao mundo, segurando ao ombro a manta retalhadas de serapilheira com que me cubro, caminhei até deixar para trás o corpo.
"É escuro", murmurou.
"Eu sei"...
"Abre os olhos"
Nada como chegar aqui, sem nada para escrever, desfolhar ontem um livro ilustrado, com uma história infantil, com moral para gente grandinha, e deixar-me perder nos desenhos.
A cabana de madeira, paredes estreitas, um banco onde repousa um livro, uns óculos, uma vela já derretida, pelo fogo ou pelo sonho, uma manta de retalhos sobre uma cama tosca, uma cadeira para dar descanso à roupa da labuta diária, um suporte e uma bacia, terá água para trazer aos olhos um novo dia, uns chinelos e umas meias dentro deles, tudo sobre um tapete com inscrições que mal cabe no quarto do tamanho da cama.
Há um postigo, mas deverá servir apenas de despertador.
Quem assim se deita, ainda que personagem ilustrada, ainda que imaginada por quem de traços se faz à vida, saberá que a noite é feita de leituras, de letras que se sacodem pelas sombras que a vela atira ao mundo quando respira.
E antes que a imagem se esfumasse, deixei-me entrar hoje pelo monte dentro.
Alças da mochila sobre os ombros, mãos fora dos bolsos a tactear um pouco o escuro, os pinheiros ainda que novos e estreitos deixam pender ramos secos, duros, mas não há mão que tudo tateie e lá passa um ramo, a mais escuro que lusco fusco não dá para perceber se é um pinheiro, eucalipto ou até sobreiro, nem pelo cheiro, porque pelo escuro a andar pouco há a cheirar, o olfacto recolhe-se e certamente lamuria-se pela fraca decisão de quem movimento o corpo.
O tempo encarregou-se de alcatifar o chão com camadas sobrepostas de caruma, erguiço ou chamem-lhe o que quiserem.
As sapatilhas enterram-se, num misto de sujidade e humidade, não lhes chegando isto ainda têm que aguentar os passos tibuteantes que lhes coloco, terreno incerto, passos incautos.
Era capaz de me deixar perder, caminhar indefinidamente pela natureza do que somos, até descobrir um vulto semi perdido que tenta chegar a casa na véspera de Natal, mas de Garrinchas apenas Torga, nada de Miguel, por isso vou procurando a soleira, os degraus, o alpendre que se encosta a uma árvore (pode ser qualquer uma), o tapete feito de pedra irregular que se amola com o passos sem direcção, a porta e as frinchas nesta que deixam ver um pouco da luz da vela ou lareira, o calor que nos move pelas brasas da nossa vida, o levantar do braço e levar a mão ao ferrolho e ouvir, antes de terminar a pergunta, Entra.
Havemos de fazer do corpo a casa, da casa o templo, dos sonhos a realidade tão palpável quanto um cajado, a vara tosca agreste que nos suporta a ignorância e o fiel amigo, animalito de quantas patas, pelos, escamas e asas quiser, que nos guia enquanto os nossos olhos são fechados por quem planta betão onde antes respirava um chão.
E entramos, sem conhecer a noite ou a casa, semicerrando olhos para ver melhor aquilo que nem sempre perscrutamos.
Eu vejo uma cabana, onde entro, adormeço e sonho que tudo isto é um sonho, povoado por paisagens e habitado por pessoas que ainda não se descobriram crianças.
E tu, que vês?
Já tinha tomado o tempo quando se virou a mim a noite.
"É escuro", surgiu a medo.
E eu, tolhido de cansaço, voltei costas à sombra e deixa-a a falar sozinha com o barulho.
"É escuro", continuou.
Mas já lá eu não estava, voltado de costas ao mundo, segurando ao ombro a manta retalhadas de serapilheira com que me cubro, caminhei até deixar para trás o corpo.
"É escuro", murmurou.
"Eu sei"...
"Abre os olhos"
2015-01-15
2015-01-11
Na_tal
A estrada sinuosa, tal como os tempos que se comprimem antes do Natal.
O sentimento vem-me em tempo fora de tempo.
Longe vai a Natividade, tem dias o menino, Maria, embora virgem de concepção, sofre as agruras e as dores de uma recente paridez, segurando ao peito a salvação e amamentando o seu fruto, de leite e coração.
José, impoluto, negociando com o dono do estábulo, verdadeira semente de alberguista, oscila pela novidade de ser pai vigilante e conceptor ausente. Ainda não lhe cabem as futuras indagações e o olhar vago para o espaço, de onde terás vindo tu que te fizeste filho sem eu me ter feito progenitor?
Mas sabe-o, ele, precursor de uma parentalidade verdadeira, a doação de labor, tempo e amor a um fruto, sem importar qual a árvore ou seiva que lhe deu vida. Desconhece igualmente, porque a mitigação tecnologia surgiria apenas um longo par de milénios, mais coisa, menos coisa, depois da noite fria no estábulo, que outros houvera antes dele, verdadeiros pais incógnitos de filhos professos.
A realeza metafórica recolheu às suas terras, guiadas não se sabe porque estrela, pois essa ficou a luzir sobre a coordenada celeste que apontava o início do caminho. Levariam o alforge cheio já, pois a leveza do que deixaram em nada se compara ao peso do que aprenderam com a simples presepialidade de uma realeza cujo trono é superior à própria dimensão que vislumbramos.
Ainda por lá ficam os verdadeiros de pureza, os animais e as companhias que os seguem por onde quer que os levem as pastagens, os pastores. Via-os olhar uns para os outros, enquanto o calor se soltava dos seus corpos e aqueciam a barriga e o peito desnudado da Virgem e a pequena cabeça sem coroa de uma criança, qualquer criança.
Aqueles olhos, sempre diferentes, com tonalidades distintas, mais ou menos ovaloides, mais ou menos almendrados, com iris mais ou menos alongada, ainda que quem observe seja o Mesmo, presenciavam pela enésima vez a mesma cena, ainda que em cenário distinto.
Dos céus desceria, sempre, impoluta, uma criança.
De pouco adiantaria saber o sexo, ainda que as vozes reinantes admitam (ou lhes interesse) ser descendente másculo, Adão, Adam, Terra, Chão.
Cresceria saudável entre a loucura reinante, antes e hoje, no questionamento típico de uma criança envolto na mais verdadeira (como se houvessem verdades mais ou menos verosímeis) e profunda religiosidade, a única capaz de erradicar a nossa milenar dor.
Chamar-lhes-iam amor.
Por ele percorreriam os mais variados caminhos, como estrelas cadentes, levando a luz, o calor e a sobriedade alegre de se saber superior ao corpo, ao desejo carnal de matar para viver. No entanto, todos eles, quer nos reze a história segmentos diferentes, pereceram nos diferentes parágrafos que compõem o volume, qualquer que seja o número, da nossa civilização sobre este paraíso, por aqueles que os seguiam, desejando martirizar quem nos permite saber que mártir é palavra que riam com partir, e se eles sabiam que ninguém parte para lago algum, de que nos adiantaria conhecer pelos nomes santidades e martirizações carnais?
Disseram, Deus há só Um.
Apesar de partirem, deixaram cá uma marca, visível apenas à noite, quando à solitude remetemos os corpos cansados e pequenos e nós olhamos vagamente para o céu.
Cada um deles uma estrela, Belém ou outras cujos nomes pronunciados nos soem a estranheza.
A miríade de luminosidades, cada um uma porta aberta para o lado de lá dos astros.
A imensidão e profundeza do infinito mostrando que cada um de nós é ilimitado na verdadeira literalidade da palavra.
Embora pareça que todos nos remetemos a um inferno, literal, elas continuam ali, no céu, a lembrar que de nada somos, mas de tudo viemos. A cada dia uma estrela. Quantas delas por nascer. Um arco-íris talvez. Por cá os olhares dos donos da terra, os frágeis e inocentes animais, as crianças que sugam a maternidade por um seio, os olhares meigos de quem acompanha o esvoaçar lento de bandos de animais terrestres sobre os pastos montanhosos.
Natal? Natal é quando alguém quiser.
O sentimento vem-me em tempo fora de tempo.
Longe vai a Natividade, tem dias o menino, Maria, embora virgem de concepção, sofre as agruras e as dores de uma recente paridez, segurando ao peito a salvação e amamentando o seu fruto, de leite e coração.
José, impoluto, negociando com o dono do estábulo, verdadeira semente de alberguista, oscila pela novidade de ser pai vigilante e conceptor ausente. Ainda não lhe cabem as futuras indagações e o olhar vago para o espaço, de onde terás vindo tu que te fizeste filho sem eu me ter feito progenitor?
Mas sabe-o, ele, precursor de uma parentalidade verdadeira, a doação de labor, tempo e amor a um fruto, sem importar qual a árvore ou seiva que lhe deu vida. Desconhece igualmente, porque a mitigação tecnologia surgiria apenas um longo par de milénios, mais coisa, menos coisa, depois da noite fria no estábulo, que outros houvera antes dele, verdadeiros pais incógnitos de filhos professos.
A realeza metafórica recolheu às suas terras, guiadas não se sabe porque estrela, pois essa ficou a luzir sobre a coordenada celeste que apontava o início do caminho. Levariam o alforge cheio já, pois a leveza do que deixaram em nada se compara ao peso do que aprenderam com a simples presepialidade de uma realeza cujo trono é superior à própria dimensão que vislumbramos.
Ainda por lá ficam os verdadeiros de pureza, os animais e as companhias que os seguem por onde quer que os levem as pastagens, os pastores. Via-os olhar uns para os outros, enquanto o calor se soltava dos seus corpos e aqueciam a barriga e o peito desnudado da Virgem e a pequena cabeça sem coroa de uma criança, qualquer criança.
Aqueles olhos, sempre diferentes, com tonalidades distintas, mais ou menos ovaloides, mais ou menos almendrados, com iris mais ou menos alongada, ainda que quem observe seja o Mesmo, presenciavam pela enésima vez a mesma cena, ainda que em cenário distinto.
Dos céus desceria, sempre, impoluta, uma criança.
De pouco adiantaria saber o sexo, ainda que as vozes reinantes admitam (ou lhes interesse) ser descendente másculo, Adão, Adam, Terra, Chão.
Cresceria saudável entre a loucura reinante, antes e hoje, no questionamento típico de uma criança envolto na mais verdadeira (como se houvessem verdades mais ou menos verosímeis) e profunda religiosidade, a única capaz de erradicar a nossa milenar dor.
Chamar-lhes-iam amor.
Por ele percorreriam os mais variados caminhos, como estrelas cadentes, levando a luz, o calor e a sobriedade alegre de se saber superior ao corpo, ao desejo carnal de matar para viver. No entanto, todos eles, quer nos reze a história segmentos diferentes, pereceram nos diferentes parágrafos que compõem o volume, qualquer que seja o número, da nossa civilização sobre este paraíso, por aqueles que os seguiam, desejando martirizar quem nos permite saber que mártir é palavra que riam com partir, e se eles sabiam que ninguém parte para lago algum, de que nos adiantaria conhecer pelos nomes santidades e martirizações carnais?
Disseram, Deus há só Um.
Apesar de partirem, deixaram cá uma marca, visível apenas à noite, quando à solitude remetemos os corpos cansados e pequenos e nós olhamos vagamente para o céu.
Cada um deles uma estrela, Belém ou outras cujos nomes pronunciados nos soem a estranheza.
A miríade de luminosidades, cada um uma porta aberta para o lado de lá dos astros.
A imensidão e profundeza do infinito mostrando que cada um de nós é ilimitado na verdadeira literalidade da palavra.
Embora pareça que todos nos remetemos a um inferno, literal, elas continuam ali, no céu, a lembrar que de nada somos, mas de tudo viemos. A cada dia uma estrela. Quantas delas por nascer. Um arco-íris talvez. Por cá os olhares dos donos da terra, os frágeis e inocentes animais, as crianças que sugam a maternidade por um seio, os olhares meigos de quem acompanha o esvoaçar lento de bandos de animais terrestres sobre os pastos montanhosos.
Natal? Natal é quando alguém quiser.
2015-01-09
Vai lá à vida, mas não regresses sem me trazer a colhedura do que ficou por semear. Vão fazer-me falta, os frutos, as bagas, o barulho esvoaça dor das cigarras.
Vai lá à vida e traz-me um pouco das novas, das que ensinam a viver, mesmo quando o frio faz gretar lábios e rezamos para que no frio da paragem do autocarro, à sombra, nos olhe do lado de lá, ao sol, a vinda do transporte ou, atrasando o passo, chegue primeiro a sinceridade e, fazendo do meu tremor seu braseiro, me abrace até se ebulir a saudade.
Vai lá à vida e traz-me um pouco das novas, das que ensinam a viver, mesmo quando o frio faz gretar lábios e rezamos para que no frio da paragem do autocarro, à sombra, nos olhe do lado de lá, ao sol, a vinda do transporte ou, atrasando o passo, chegue primeiro a sinceridade e, fazendo do meu tremor seu braseiro, me abrace até se ebulir a saudade.
2015-01-08
Memo(ria)
Quando o presente terminar continua em frente, é lá que irás encontrar, aconchegado junto a um teu que esqueceste, todos os passados que não quiseste lembrar.
2015-01-06
A sobriedade da companhia da estrada, escura, enquanto o asfalto resvala para debaixo de mim.
A paisagem encerra o mesmo encanto porque apenas eu sei que é noite, ela vê-se despida dos dias por não saber que o ocaso que me vê nascer é um fugidio amanhecer.
Vou tranquilamente adormecer o corpo e viajar para onde me queira levar o vento ebulido que sopra bem cá dentro de mim.
Se ao menos fosse Inverno e, eu, pudesse multiplicar o infinito pelo eterno...
A paisagem encerra o mesmo encanto porque apenas eu sei que é noite, ela vê-se despida dos dias por não saber que o ocaso que me vê nascer é um fugidio amanhecer.
Vou tranquilamente adormecer o corpo e viajar para onde me queira levar o vento ebulido que sopra bem cá dentro de mim.
Se ao menos fosse Inverno e, eu, pudesse multiplicar o infinito pelo eterno...
2015-01-04
NATIVA(IDADE)
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Começo por não identificar um teor repetitivo em tudo o que me rodeia, do ar ao chão, em mim, no meu andar, na respiração.
Termina o Natal, a azáfama tolerada de um mote que se quer acelerado, quase não saboreado, de uma terminologia dedilhada em tons de manhã com neve, uma brisa, leve.
De que me querem de vida salpicado?
Já tolero as costas por onde se atropela um arado, um punho em cravos fechado. Caminho lentamente com medo que o mundo me fuja pelo andar, sem me saber que de caruma em caruma se faz o monte meu lar.
O vento encaminha as nuvens para onde quer que me volte. Traz-me novas em forma de velhas formas, um pedaço de céu sobreposto à atmosfera, o rufar lento, síncrono, de uma memória de útero, o coração de mãe que se fez habitação, o rouco boa-noitar de um marido que se saberá pai. À vida, sozinho, ainda não se vai.
Sem que me vejam permaneço pontualmente a ver o sol nascer, ainda que de tarde se tome, surge áspero por detrás de uma casca de pinheiro, encosto a face a um velho sobreiro, sob ele o latejar lento de um coração, a promessa de uma amizade que nos salta para a mão.
Não se anotam notas em verbalidades gráficas, lamento, gostava de escrever o que brota dos meus olhos sem ver o que de ti faz momento. Fecho os olhos, a memória incita velhas sinapses, tempos de outros tempos, em que nasci em berço estelar, nos destempos onde descansei antes de a ti vir dar, dou por mim em palhas deitado, como um menino jesus grande e desajeitado, a escutar cânticos de aves que desconheço.
Um cão ladra aqui, outro responde ali, espero, a caruma sobreposta e uma clareira em forma de resposta.
A terra que se fez da Terra bombeia a vida pelas suas artérias, passa-me ao lado, gostava de dormir um dia acordado, por isso deixo-me esmaecer ao encontro do mundo, fazer do meu sétimo universo o descanso da hora sobre o segundo.
Vejo a manjedoura vazia, um desalentado José coloca a mão sobre o ombro da sua Maria. Olhos de mãe choram quando não se fazem de rosa, cravo florido, mãos no regaço e um ventre dorido. O presépio aconteceu, mas por lá ninguém nasceu, os pastores trazem as mãos cheinhas de nada e o calor das vacas, das ovelhas, dos burros e do fiel cão aquecem a noite de quem não se sabe vir a madrugar, hoje as noites das trevas são.
Se chovesse teríamos um arco-íris, mas a única precipitação é das estrelas cadentes que iluminam lampejantemente uma porção de noite.
Uma estrela regressa no caminho, vai por aí, devagarinho, contando a plebes e reis, um dia há-se ser, hoje não, que retornem a cortes as realezas e distribuam a vossa riqueza noutros estábulos, em pobres mesas, por lá nascem diariamente príncipes, princesas.
Acompanhado que está o casal na sua natividade interna, resguardam-se pastores à sorte de um capote, vai noite e fria a jornada e o gado, esse, quer-se levantado de madrugada.
A manjedoura desfaz-se de berço, Maria segura desajeitadamente um terço e oscila ao levantar-se. Uma mão no joelho, a nodosidade de um soalho que reclama de velho, a força de quem se pare todos os dias encontra a calosidade de um José que soluça e encontra afagando um cão um Gabriel desacreditado. O céu, ou Deus, tem por vezes destinos díspares para iguais filhos seus.
Não cresceu a vida onde se pensa ter tido guarida o casal. Neste mundo não se fará Natal.
No entanto, porque da vida encarrega-se a vida, viram-se por terras de gente boa um casal que navegava à noite, à toa, sem cardos ou espinhos, olhando o céu estrelado onde descansam deuses meninos, talvez deitados, talvez sozinhos.
Em cada torso uma árvore, de Natal, nos olhos brilhantes de meninice a iluminação de dias que parecem noites de tão inverno se alimentarem. Navegam pelo imaginário presentes que jamais serão entregues e, desses, restará o sabor de possuir o que se é.
A vida carrega consigo ela mesma e, em cada parte dela, um pedaço de amor que espreita. Dos seus braços pendem laços, pedaços de colmo onde se deitam meninos, meninas, crianças e gentes menos pequeninas. Deuses nascidos e não criados, criados e não nascidos.
Penso nos Natais desflorestados, das vidas que nasceram para o lado de lá da existência, guardo para o momento todo o pequeno sorriso que se possa fazer simplesmente fazendo. Acredito que de todos brota amor, em fases e sintonias diferentes, todos desejam no inverno frio o forte e humano abraço que nos dá calor.
A cada olhar com gente bem lá no fundo, possamos procurar ser, dia ou noite, um pouco mais de luz, tratar cada criança, infante ou adulta, como o nosso próprio menino Jesus.
A cada medo um sorriso em forma de segredo, a cada nome a certeza de uma existência sem fome pois quem se alimenta de vida em si mesmo se sacia, como a letra que escrevo sem tinta e deixo aqui, sozinha, vazia.
2014-12-28
Colheita
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Aprofundo a textura da tarde quando, ao passar perto de umas leiras frescas, o nevoeiro que parece emanar da terra na respiração de cada torrão revolto pelo arado me traz à memória lembranças de árvore. Dizem, escuto, que as memórias das árvores as fazem imemoriais, portadoras de um tempo anelado, cunhado a âmbar em choro de resina. ´
O Sol de frente, em frente a uma estrada esburacada, faz-me conduzir de olhos semicerrados. Confundo-me na viagem, por entre eucaliptos, pinheiros e pestanas. Os electrões saem sobressaltados da minha frente quando se apercebem que vejo estrelas nas lentes sujas dos meus óculos.
Todo o caminho é estrada e, por ela, chegaremos ao instante seguinte da nossa vida, seja ele qual for.
É fácil perder a razão e tornar um entardecer num reflexo negro de um céu nublado, enevoeirado, como as pessoas a quem faltam céus.
Das indicações que sigo, algumas indicam caminhos para onde não quero ir e lá, onde quer que os caminhos os levem, não estarão os meus instantes, lá será futuro (ou agora passado) em que não existi. Existirá melhor almejar que orgulhar de infinito um local que se fez mundo por não termos lá estado?
Todo o caminho é estrada, mas nem toda a estrada é caminho. Valha-me o letreiro gasto de lousa, a caixa de correio para três caixas de correio, uma espécie de matrioscar e partilhar remetentes num distinto destinatário, e o cemitério ladeado por sombras de uma tarde que se faz já tarde.
Não me faltam inícios. Pelo contrário, sobram-me inícios. Momentos em que comecei a escrever sobre o que tinha escrito, mentalmente apenas, como tudo deverá ser.
Entro lentamente pela rotunda sem desviar os olhos do homem que comigo se cruza. O passo arrastado que arrasta vários ramos de árvores que não identifico. Serão lenha, como toda a árvore não colhida, lenha queimada, cinza, mas antes calor, fumo e amor. O chapéu cinzento parece ter sido urdido pelo outono, traz com ele ainda folhas que se fazem cabelo e por baixo deste uma cara castanha, escura, de onde pende um corpo franzino, coisa velha de menino. Há vestes, mas estas são coisa de quem se despe, este vulto caminha na convicção de chegar ao seu instante seguinte. A cada passo que deu, deduzo eu, que segui caminho contrário ao seu futuro, arfou o mesmo ar que um dia a terra transpirou. Imagino-o a continuar o mesmo percurso, a lenha a pender de si como longos braços arrastados pelo alcatrão, pelo empedrado, pelas camadas de detritos que se deitam sobre o chão. Há-de passar por outros, viaturas, criaturas, gentes de cigarro ao canto da boca, como quem namora e beija a morte, a silenciar a tarde com o que sentem de Sol, passar por entre curvas e rectas, soleiras de cafés de gentes sinceras, correctas, sobrolhos de quem se fez passado sem qualquer futuro, apenas um esperar agonizado e atrasado como este chapéu cinzento, cinzelado, em cima do muro.
Pousará os braços, a lenha também, será cortada quando o cansaço que o traz for menor que a vontade dos lábios molhar, o vinho serve também como ar em forma líquida numa hematose que se quer saboreada de olhos quase fechados, como quem conduz ao encontro do Sol.
A lenha cortada, não os braços, entra debruçada por cima da fuligem que cai de cada vez que o vento a corteja. Os fósforos zarparão sobre a áspera superfície e do nada (se é que ele existe) surgirá uma labareda, esta há-de ler as palavras que queima no jornal para já depois da pinha aberta, sem pinhões, fumegar aos céus como quem suspira e deixar arder lentamente, como quem se crepita, pinha e pinheiros, restos destes, tonas que é como quem diz cascas de eucalipto, pedaços de sobreiro e castanheiro. O lume irá crescer, creio, isto da fé é como acreditar que o fogo existe mesmo sem lhe sentir o calor, tal como o amor, a roupa empoeirada será sacudida, de um traje outro surgirá, uma ceroula amarelada, uma camisola interior suada, uma higiene que não tardará a ser higienizada quando a água, mesmo antes de ebulir, cair na tina e for aos poucos lavando corpo de gente. O lume, ainda ele, irá ver uma cama em forma de leito, aconchegando-o ao mesmo tempo que o fumo cativa a atenção para a perda dos sentidos e, sabe-se lá porque magia, adormecer enquanto a noite ainda não atravessou o dia.
Só depois, bem depois, de o ver suspirar, momento em que o corpo se liberta da alma, descansado e ela, alma, volitando longe do calor e do frio, vai dizer-lhe que pode dormir é que o lume, o avisado, irá dormir também, fechando os olhos em brasa lentamente, como quem se apaga de uma jornada.
Pelo caminho ficaram canas secas de um milho não colhido, caras enrugadas pelo frio, o ondular de um rio.
Sei que deveria ter existido nos momentos seguintes, fazendo-me futuro, mas o meu caminho tem estradas que desconheço e, por elas, cheguei a este instante da minha vida segurando ainda todos os momentos em que não existi e escolhendo, procurando, entre cinzas e leiras, o mais maduro sentimento para colher.
Aprofundo a textura da tarde quando, ao passar perto de umas leiras frescas, o nevoeiro que parece emanar da terra na respiração de cada torrão revolto pelo arado me traz à memória lembranças de árvore. Dizem, escuto, que as memórias das árvores as fazem imemoriais, portadoras de um tempo anelado, cunhado a âmbar em choro de resina. ´
O Sol de frente, em frente a uma estrada esburacada, faz-me conduzir de olhos semicerrados. Confundo-me na viagem, por entre eucaliptos, pinheiros e pestanas. Os electrões saem sobressaltados da minha frente quando se apercebem que vejo estrelas nas lentes sujas dos meus óculos.
Todo o caminho é estrada e, por ela, chegaremos ao instante seguinte da nossa vida, seja ele qual for.
É fácil perder a razão e tornar um entardecer num reflexo negro de um céu nublado, enevoeirado, como as pessoas a quem faltam céus.
Das indicações que sigo, algumas indicam caminhos para onde não quero ir e lá, onde quer que os caminhos os levem, não estarão os meus instantes, lá será futuro (ou agora passado) em que não existi. Existirá melhor almejar que orgulhar de infinito um local que se fez mundo por não termos lá estado?
Todo o caminho é estrada, mas nem toda a estrada é caminho. Valha-me o letreiro gasto de lousa, a caixa de correio para três caixas de correio, uma espécie de matrioscar e partilhar remetentes num distinto destinatário, e o cemitério ladeado por sombras de uma tarde que se faz já tarde.
Não me faltam inícios. Pelo contrário, sobram-me inícios. Momentos em que comecei a escrever sobre o que tinha escrito, mentalmente apenas, como tudo deverá ser.
Entro lentamente pela rotunda sem desviar os olhos do homem que comigo se cruza. O passo arrastado que arrasta vários ramos de árvores que não identifico. Serão lenha, como toda a árvore não colhida, lenha queimada, cinza, mas antes calor, fumo e amor. O chapéu cinzento parece ter sido urdido pelo outono, traz com ele ainda folhas que se fazem cabelo e por baixo deste uma cara castanha, escura, de onde pende um corpo franzino, coisa velha de menino. Há vestes, mas estas são coisa de quem se despe, este vulto caminha na convicção de chegar ao seu instante seguinte. A cada passo que deu, deduzo eu, que segui caminho contrário ao seu futuro, arfou o mesmo ar que um dia a terra transpirou. Imagino-o a continuar o mesmo percurso, a lenha a pender de si como longos braços arrastados pelo alcatrão, pelo empedrado, pelas camadas de detritos que se deitam sobre o chão. Há-de passar por outros, viaturas, criaturas, gentes de cigarro ao canto da boca, como quem namora e beija a morte, a silenciar a tarde com o que sentem de Sol, passar por entre curvas e rectas, soleiras de cafés de gentes sinceras, correctas, sobrolhos de quem se fez passado sem qualquer futuro, apenas um esperar agonizado e atrasado como este chapéu cinzento, cinzelado, em cima do muro.
Pousará os braços, a lenha também, será cortada quando o cansaço que o traz for menor que a vontade dos lábios molhar, o vinho serve também como ar em forma líquida numa hematose que se quer saboreada de olhos quase fechados, como quem conduz ao encontro do Sol.
A lenha cortada, não os braços, entra debruçada por cima da fuligem que cai de cada vez que o vento a corteja. Os fósforos zarparão sobre a áspera superfície e do nada (se é que ele existe) surgirá uma labareda, esta há-de ler as palavras que queima no jornal para já depois da pinha aberta, sem pinhões, fumegar aos céus como quem suspira e deixar arder lentamente, como quem se crepita, pinha e pinheiros, restos destes, tonas que é como quem diz cascas de eucalipto, pedaços de sobreiro e castanheiro. O lume irá crescer, creio, isto da fé é como acreditar que o fogo existe mesmo sem lhe sentir o calor, tal como o amor, a roupa empoeirada será sacudida, de um traje outro surgirá, uma ceroula amarelada, uma camisola interior suada, uma higiene que não tardará a ser higienizada quando a água, mesmo antes de ebulir, cair na tina e for aos poucos lavando corpo de gente. O lume, ainda ele, irá ver uma cama em forma de leito, aconchegando-o ao mesmo tempo que o fumo cativa a atenção para a perda dos sentidos e, sabe-se lá porque magia, adormecer enquanto a noite ainda não atravessou o dia.
Só depois, bem depois, de o ver suspirar, momento em que o corpo se liberta da alma, descansado e ela, alma, volitando longe do calor e do frio, vai dizer-lhe que pode dormir é que o lume, o avisado, irá dormir também, fechando os olhos em brasa lentamente, como quem se apaga de uma jornada.
Pelo caminho ficaram canas secas de um milho não colhido, caras enrugadas pelo frio, o ondular de um rio.
Sei que deveria ter existido nos momentos seguintes, fazendo-me futuro, mas o meu caminho tem estradas que desconheço e, por elas, cheguei a este instante da minha vida segurando ainda todos os momentos em que não existi e escolhendo, procurando, entre cinzas e leiras, o mais maduro sentimento para colher.
2014-12-24
Feliz Natal
Falta brasa ao lume que carregamos.
O tempo corre na esperança de nos abrandar para a vida.
Hoje o Inverno vai nevar num pequeno, indelével, silencioso floco em forma de sorriso.
Hoje, o abraço sobrepõe-se ao bom dia, o tempo vai parar à tua frente e, tu, paciente, vais tratar um estranho por tu e sorrir.
Hoje vais esquecer-te de ti e, por momentos, vais saber que a paz que buscas és tu, a riqueza que ambicionas é a insegurança de não te reconheceres precioso. Nada mais é valioso além de ti mesmo, o próprio Sol que vês nascer é apenas uma estrela, rara, que dá vida, como tu.
Um dia, além de hoje, descobrirás que todos os dias são hoje e que o motor que te faz correr não é meramente comercial, industrial, cultural, religioso, educacional.
O que te faz mover é uma ilusão sem sabor, pois nunca te disseram ou ensinaram que tu, criança, és amor.
Feliz Natal.
O tempo corre na esperança de nos abrandar para a vida.
Hoje o Inverno vai nevar num pequeno, indelével, silencioso floco em forma de sorriso.
Hoje, o abraço sobrepõe-se ao bom dia, o tempo vai parar à tua frente e, tu, paciente, vais tratar um estranho por tu e sorrir.
Hoje vais esquecer-te de ti e, por momentos, vais saber que a paz que buscas és tu, a riqueza que ambicionas é a insegurança de não te reconheceres precioso. Nada mais é valioso além de ti mesmo, o próprio Sol que vês nascer é apenas uma estrela, rara, que dá vida, como tu.
Um dia, além de hoje, descobrirás que todos os dias são hoje e que o motor que te faz correr não é meramente comercial, industrial, cultural, religioso, educacional.
O que te faz mover é uma ilusão sem sabor, pois nunca te disseram ou ensinaram que tu, criança, és amor.
Feliz Natal.
2014-12-20
Natividade
in Bird Magazine.
Começo a não caber dentro de mim.
A quantidade de vida que me mergulha nos olhos, a cada instante, faz-me sentir inundado por coisas, locais e seres que ainda não conheci, levando-me a correr por aí sem sair daqui, a provar sabores que, desconfio, provarei apenas sem este casulo.
De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram.
um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho.
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho.
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Até o tempo conspira ao correr à minha volta, sem me deixar prender as mãos e escrever-lhe nos ombros o peso que me carrega...
É o desassossego que me faz ver ao longe os carros que se aproximam, enrolando seus vassalos o fio de ariadne que os guia ao local de onde se pariram, as aldeias velhas, os muros desassossegados, as geadas e as neves, os testos que tilintam ao som do vapor das panelas, a lareira, os risos, a felicidade de onde nunca deveríamos ter saído.
É Natal.
Todos os dias.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo.
Sou este eu que me habita.
Completo.
Começo a não caber dentro de mim.
A quantidade de vida que me mergulha nos olhos, a cada instante, faz-me sentir inundado por coisas, locais e seres que ainda não conheci, levando-me a correr por aí sem sair daqui, a provar sabores que, desconfio, provarei apenas sem este casulo.
De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram.
um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho.
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho.
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Até o tempo conspira ao correr à minha volta, sem me deixar prender as mãos e escrever-lhe nos ombros o peso que me carrega...
É o desassossego que me faz ver ao longe os carros que se aproximam, enrolando seus vassalos o fio de ariadne que os guia ao local de onde se pariram, as aldeias velhas, os muros desassossegados, as geadas e as neves, os testos que tilintam ao som do vapor das panelas, a lareira, os risos, a felicidade de onde nunca deveríamos ter saído.
É Natal.
Todos os dias.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo.
Sou este eu que me habita.
Completo.
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