2015-03-28

Momentos

in Bird Magazine.

Havia muito pouco de tudo aquilo que a vida necessita,
o pó
a terra arada
toda a falta de um candelabro que ilumina a noite e a ressuscita.
Entre muros a pedra
e a ausência de uma face
o nevoeiro que se enamora pela erva
e o solo afoito de onde o que sou nasce.
Paira no ar
entre mim e a visão
as aparas diluídas de uma madeira inquebrável,
uma mão que quer afagar
a entrada mais curta para o coração
as turbulentas casualidades da amarrotada folha de papel.
Não poderei abraçar o Sol sem o aquecer, nem a Lua sem a fazer tremer. Um pouco como os caminhos que não posso percorrer por me estarem, sempre, a falhar os passos porque os meus pés ainda não chegaram ao local onde estou. Vou caminhando e recuando numa recursividade que me faz grafar por memórias nunca antes navegadas. Talvez seja isto a humanidade, o conhecer e desbravar, sinapsar e abrilhantar o dia com o sorriso possível, sem que se torne o sonho impossível.
Uma das minhas memórias soltou-se, por aí, quando me sentei ao Sol e, inadvertidamente, fechei os olhos sem me lembrar que o Universo é tão fugaz e capaz de me surpreender, que se deixou habitar pela minusculidade do que sou.
Choram-me palavras no colo, afio as letras e esgrimo-me na tentativa de embainhar-me no silêncio das frases nunca batalhadas.
A guerra é o profundo desconhecimento das palavras conjugadas com o olhar, imperceptíveis a quem se limita a ver, um pouco como o que sobra do horizonte depois de lhe termos gasto a cor na desenfreada corrida monocromática a que teimam designar como vida.
Tenho no abraço a mais longa viagem no tempo, da génese à pluralidade de uma calçada que se faz com as graníticas doses de labor. Obreiro, quem te faz a ti, que em mim quer primeiro?
Um dia, dois diasporalizados irão caber no peito não denso de quem se faz escorreito
Foi por entre as palavras que, numa tarde como esta, enquanto o vento atira os ciscos que o levarão a esfregar um olho, que vi surgir timidamente a ilusão de me desiludir. Daí para cá finquei-me e fiquei-me pelo que sou. Cada flor seu canteiro, cada bicho sua lura. O lugar de um deslocado é o momento em que a sua própria sombra se desprende, despede, e deixa pousar-se imiscuída entre sombras de raízes diferentes.
Conheço o caminho pelas curvas que traçou, as aparas, a grafite, os restos de suor de quem sangrou por uma estrada sem direcção. O sentido dá quem o quer, quem o sabe. A vida ilumina-se pendendo do tecto em forma de watts, what? A vida, do tecto, do céu, pouco interessa de onde chove, quando se vive é para todos.
Vou guiando o silêncio, segurando-lhe os pulsos pequenos, içando e pousando o andar, longe de raízes falheiras e pedras à espera de serem falhadas, quando ele pára incito-o a continuar, não o deveria fazer, cortar assim a curiosidade sadia, mas tenho pressa, quero leva-lo rapidamente. Chego. Chegamos. O Sol ainda quente, eu ainda ente, sento-me no chão frio, encosto as costas à parede aquecida, sento-o no meu colo. O Sol. Eu. O silêncio.
Mais historias teve o dia, mas era apenas esta a que o ruído queria.
Terra, eis o teu filho.
Filho, eis a tua Terra.
Vou ao encontro do ocaso,
sem caminho,
entre paz e guerra acompanhado
de mim sozinho.

2015-03-22

Quimera

Crónica de domingo na Bird.

Falaste na Primavera. 
Para mim bastou-me, foi como se a própria palavra te sobrasse pelos ramos e tu mesma florisses.
Aliás, sempre te vi em flor. 
Renascida a cada cinza atiçada, não como fénix, mas como uma companhia solitária há muito desejada.
A estrada caminhou ao meu lado, conta-me histórias de várias léguas, medidas distantes para chegar a quem nos quer hoje como antes. 
Eu não falo. 
Basta-me ouvir-me e desabafar com o vento, esse, de repente, sem se mostrar interessado, começa a soprar quando paro de falar, apenas como quem me diz, vá, continua, estava a ouvir. 
Tem uns trejeitos de adulto criança, fingindo ouvir quem de si se fala, mesmo quando aborrecido desata a brincar a meus pés, mesmo que isso represente levantar areia e pó para os olhos, trazer consigo gotículas de um mar que ribomba ali, ao fundo, embrulhado com a praia, ali, ao fundo, nas mãos petizes da menina que segura a sua saia.
Faltarão menos de quarenta passos, uns quantos sacrifícios agarrados aos braços, para se erguer no monte aquela que te fará ao nome, chamar-lhe-ião cruz, mas tu de baptismo nasceste apenas jesus e eu, de metáfora baptizado, primeiro e último nome da parábola, finjo que não te ouço quando sobre mim paira o fino fio do aço da espada. 
Sim, parece-me que sem nós somos mesmo nada.
Já o vento se espreguiça, adivinho-o entediado, ouviu-me falar dos passos e das passadas e conhecendo os meus passados, sabe que o primeiro movimento que farei será permanecer no mesmo local, imóvel, a aguardar que as estrelas se conjuguem, logo a seguir às vogais, da mesma forma que estavam quando olhei para cima e vi, claramente, outro eu que para mim olhava.
Não, parece-me que sem mim não sou mesmo nada.
Se o vento empurra para barlavento estradas que nunca percorrerei, sobejam-me todos os volumes que cubiquei, terra sobre mim que jorrei, para continuar no defeso da imaginação e ver surgir um confuso Alma Grande que traz Garrincha pela mão.
Saído do ventre que me pariu, aterro neste corpo que nunca minh'alma viu, excepto pelos desacordos e pelas peregrinações que faço entre versos ou, então, pelos universos, todos eles feito de olhos acessos que é como quem se vê pela primeira vez visto.
Ah, agora sim, eu sem mim sou isto!
Desajeitadamente arranjo o colarinho e dou uns passos a olhar os pés, enquanto o piso de madeira não me faltar sei que em ti está quem és, mas mesmo que me saiba de papel feito, não como avião ou barco, mas como textura e secura de palavras e vidas, as mesmas que mencionei não serem partidas, esta respiração arritmada que me escreve entre a parede e a espada.
Canso-me um pouco da procura, a miragem que a tua ausência tem está em cada olhar mais profundo que escavo, encontro um ou outro sonho escravo, sei que me dizem não ter eu cura, pouco me interessa tal agrura, se me encontram doente, que farão quando virem que é na ausência de tempo que tudo perdura?
Hoje não, que me cansa a noite e não sou de alterar discursos, mas um dia, lá para meados de mim, irei acordar o corpo a cada manhã e esquecido que sou dos sonhos que prometo, irei ver-me pelos meus olhos, segurando o espelho retrovisor entre os dedos, ah eu não sou cá de medos, tão pouco segredos, e alcançarei aquele pulsar longínquo que me faz alimentar o mundo porque as palavras têm pouso, mas quem escreve sonha voltar novamente vagabundo.
Distraio-me nas cores do poesia, ainda que em prosa, tu abres-me o vidro e entra por mim o cheiro de ti e de maresia, falas-me nas cores do arco-íris que viste numa rosa. Sem ti o que faria? 
Já tinha esquecido que tinhas-me falado da Primavera...
Sorris. Sorrio. Sem nós a nossa vida era uma quimera.

2015-03-15

Ainda que adormecido

Crónica de domingo na Bird Magazine.

A facilidade com que esta folha branca se ri de mim é enervante. 
Começa por um duelo, um olhar estarrecido para uma imensidão fértil, sem o conhecimento ou discernimento de qual fruto semear. Ouso acordar para a musicalidade de uns passos, o caminhar conhecido pelas mesmas ruas de hoje, mas com o mesmo olhar de ontem. 
O dia amanhece sem grandes preocupações, as palavras adormeceram sem pensarem acordar para uma singularidade não repetível, eu, aqui, neste planeta. 
Levo ainda o sabor a café, amargo, como uma cortina que se encosta ao interior da boca e me faz sentir acordado, ainda que adormecido. 

Imagino uma estrada sem buracos, um percurso nivelado que não se transforme no ziguezaguear contínuo por entre asfalto fractado, marcações a tinta envidraçada que ninguém ousa calcar, decisões que ousam indecidir. Perco-me na imaginação, ainda que adormecido, de me ver diluir num abraço sentido ou no olhar trocado com o sentido proibido.
Cansam-me as vidas que deixei para trás e que ainda me tentam alcançar, como se me visse do alto de mim mesmo e, ao meu redor, fossem ondulando as existências a meus pés, indo, vindo, trazendo consigo a espuma e o gélido aroma a maresia que me faz querer voltar ao que ainda não saboreei. Sim, ainda que adormecido, levanto-me do sofá bem depois de me ter içado e oscilado com o vento que abana a persiana, o vento traz-me a tarde por entre as cortinas da sala e espreita por todas as fotografias que me vêm sorrir. 

Agora, o sorriso, é reserva estabelecida para as noites estreladas ou, como hoje, para as conversas que se têm numa ou duas estradas. Senti-me novamente estranho ao corpo, na imagem que se reflecte e refracciona dentro de mim, sorri. Ri. Embora não me transforme no petiz que vi sentado no atrelado de um cacofoneiro tractor por entre sacos de, imagino, erva ou ração, ou no puto normal que se esconde por detrás daquilo a que chamam deficiência. Curioso como esta dimensão temporal se faz no agora aquilo que trouxemos pela vida fora. Um pouco como as frases que tento escrever, sem prestar atenção ao caminho e aos ramos baixos que teimam em bater-me na cara quando, incauto, um pouco parvo convenhamos, tento andar por entre pinheiros no meio do resto do dia que se ausenta. Os dias transportam um pouco de tudo. Um poema que vi escrito dentro de mim e que ficou a aguardar um novo caminho sentado numa fonte que, agora, não existe mais. 

Acredito que ficará por lá até que eu passe, veja o barulho do borbulhar e, ainda que adormecido, desperte para a cristalinidade de uma água que faz nascer a sede. Infelizmente, a calcificação do que sou não me permite alcançar a fluência do discurso e, um pouco triste, confesso, perco-me nos olhares e nas inúmeras metáforas que tento compor na esperança de, com isto, mostrar que o não mostrado é o que exibo de facto, um pouco como o beijo, o não dado, que se torna o mais saboroso por ter sido dado no silêncio da distância que embora aqui nos separe, nos une como nos longos serões onde o mundo parece ser feito de película e a película feita dos nossos corpos agasalhados um pelo outro e pelo travo doce de uma cabeça a descansar sobre o ombro. Ainda que adormecido não durmo. Reservo-me à prostração e alimento-me das conversas, de caminhos percorridos à distância de um braço, o calcar das pedras que foram pó um dia, como as pessoas, como a tarde quente que traz o que sou aqui mesmo à minha frente. Agasalhei as palavras o melhor que pude. 

Lamento imenso não conseguir sentar-me na soleira da porta de mim mesmo e escrever, ao sol de quem por mim passa e sorri, que tudo o que sou não sou, tudo o que tenho não é meu, porque meu são as noites e os dias, o passado e o futuro que não percorro porque estou agora, aqui, neste exacto momento, comigo a ser eu próprio. 

Que faço? Choro? Rio? Talvez a finalidade seja a inicialidade e a palavra que procuro escrever, falar, seja aquela que ouvi quando a pensei e, depois, aconchegando o lençol ao pescoço a deitei. Talvez seja isto, ainda que adormecido, estabelecer sequências rítmicas, o ciclo de palavras que ciclicamente me circundam e me fazem sentir espiral sem qualquer limite tridimensional, apenas para escutar o som das sombras das árvores que me permitem abrir os olhos no solareio final de um sábado de tarde. Vai, eu também irei, enriquecido e inebriado de energia dos locais onde residem as memórias de um tempo que será passado agora que chegou o futuro das nossas vidas. 

Espero que ouças o ranger dos teus passos no final de tarde, que a brisa de um Março te faça sentir ao longe a candura do abraço, que a cada rima se evaporem as luzes de quem nos ilumina lá de cima. 
Vai, eu estou por aqui, fazendo-me de mim esquecido, desperto, ainda que adormecido.

2015-03-08

Mulher

Crónica de Domingo na Bird Magazine.
Tens-te metade de mim, na sôfrega parte de me saberes melhor do que a metade do que fui.
A ânsia do regresso ao ventre de um ventre que te pariu.
Mulher, tu és a parte do mundo que nunca te sorriu.
Tu.
Ao longo dos tempos, antes do tempo sequer nascer, se quer nascer dê-se ao tempo o que ele deseja, a vida em forma de bandeja, como um abraço sofrido e contido porque do lado de lá de ti está a metade, aquela que te sorri.
Por entre as melodias de uma canção que se quer silenciosa, não se vá acordar o som que te embala, surgem as vestes de uma nudez que te vai retirando, pele a pela, as camadas onde se escondem as estrelas que te habitam.
Sim.
Em ti o brilho que se quer da noite, do luar, da ausência de um astro que ilumine em torno da órbita que te faz translação, tu, mulher, poema, canção.
Não.
Acordas para o corpo que te veste, vestes-te de estação, qualquer uma, descansas sob a manta de um dia e acordas, novamente, ausente e presente a cada passo descontinuado, tu, mulher, fruto de um amor suado.
Há o reflexo que se reflete em ti, a opinião que opinas sobre ti mesma, a calçada que se estende para que vejas os teus passos sem falsidade e tu, mulher, preocupada com a idade, tu, mulher, tu.
E tens o ventre, o ventre vazio de filhos que não são teus, porque a quem de mulher se faz menina sabe que até o arco-íris tem mãe.
Mulher.
Sabes, sabe-lo, que acima de ti e da imensidão que se estende aquém do infinito há um silêncio onde se encontram os que ouvem, mulher, mãe, sabes, sabe-lo, nunca de teu corpo prisioneira poderá ofegar a saciedade por te querer a sociedade moldar, tu, mulher, ser de vidro a moldar pela forja de teu próprio sopro.
Surgirá um dia, mulher, o ocaso das nossas diferenças, a passadeira amarela que se estende por entre as mimosas floridas, o fluxo de um rio que corre livre contra a corrente, indiferente a quem o navega, na pequenez de um lar que se faz mansão, tu, mulher, fera de suave coração.
Guarda em ti o que de ti alimenta, as frases tantas com que um mísero seguro atormenta, a feminidade de um mundo que se vai a ti, contra ti, porque de ti tem ele, mundo, medo, o segredo de se saber mais fugaz que capaz, de percorrer os caminhos que nos separam, apontando a cada um o outro e o que do outro se faz um, sabendo que na desunião de dois sobra nenhum e, nenhum, é o que somos quando de costela em costela nos fazem díspares, polpa e fruto de uma árvore só.
Faz-me aqui, em mãos de ninguém, o aconchego de nos termos separados pelo amor.
Eu não te sei dizer mulher.
Talvez seja essa a minha dor.
Por isso, a cada curva de ti, quem te faz mulher não é o género, é a constelação de tudo o que és que faz seres um mar de estrelas no céu diurno, as mesmas que iluminam na claridade, aquelas que acarinham nos braços com o mesmo amor os filhos de outras mães.
Mulher, de ti vem o mundo, para onde irá o mundo depois de ti?
Procuramo-nos um no outro sem sabermos que somos os olhos da mesma face, sofremos como quem nunca se amasse. Porquê?
Cegamos na nascença e fazem-nos separados, quando de todos os convites para a vida, o único que procuramos é aquele que nos faça sentir amados.
Mulher. Eu sou tu. Tu és eu.
Existirá alguma indiferença entre nós debaixo deste mesmo céu?

2015-03-01

ALEGRIA

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

É estranho, no mínimo, dizer que se perdeu o comboio. Eu perdi-o, embora nunca o tivesse tido, e ele seguiu, caminho fora, carril dentro, enquanto eu me apertava de encontro ao blusão e puxava as abas do casaco para o pescoço, lamentando no momento não ter desfeito a barba, que renasce grisalha, para poder assim sentir o calor do tecido contra o corpo. Sempre se quer outro corpo, mas na ausência deste e porque o vento corre frio, ainda mais apressado, com o qual me rio, fico-me pelo tecido tecido contra mim.
Os chafarizes salpicam-se e algumas infelizes gotas caem fora do pequeno lago que significará algo, talvez para o seu autor, mas que para mim se assemelha a um caminho molhado onde no Inverno nos traz à memória pensamentos de calor e, no Verão, serve para crianças de todas as idades molharem os pés, indumentária e, talvez, alguém enxague a alma.
Passo uma leitura rápida ao que a comunicação social de hoje traz do dia de ontem. A notícia é isto mesmo, tudo aquilo que nem sempre precisamos saber, mas que nos querem lidas, redigidas em ornamentadas celuloses, frutos de cravos agora, quem sabe, correm iluminadas pelo crepúsculo ao qual se assemelha este túnel.
Algum suspira atrás de mim, deduzo que não consiga ler e, pacientemente, afasto-me um passo e alguém passa pelo meu lado direito para estacionar mesmo à minha frente, a meio passo da montra, inclinando-se e levando consigo o oleoso cabelo que escorria pela nuca, orelhas e um pouco do casaco tingido de caspa.
Existirá vida acima desta caverna, o dia parece convidar a uma incursão pela superfície e, por isso, sem atentar ao que o relógio me sussurrava, precipito-me para o chão que me foge debaixo dos pés e ascendo à plataforma, vendo já a errada ou precipitada decisão quando a gargalhada do relógio é audível e me apercebo que está frio, o vento salta entre linhas e, eis a razão do prévio aviso do relógio, mais rápido que ele próprio surge o comboio intercidades, apressado, levando consigo o horário do progresso.
Afundado ainda mais no casaco, ando uns passos até me esconder na perpendicularidade do abrigo ou paragem, vidrado, escondendo-me a tempo da volatilidade do vento deste dia. As paredes vítreas convidam o Sol a entrar e ele não se faz rogado ao passar por entre os bocados de éter que o separam da minha imaginação, aquecendo-me o corpo, o exterior e o interior do meu carnal invólucro. Fecho os olhos, a minha alma agora contida escuta a metálica voz que anuncia o comboio regional e todas as estações onde o mesmo faz paragem, ele, o comboio e o tempo, que tem tendência natural a parar onde nós, quase humanos, podemos ainda maravilhar o sorriso com o olhar.
Para lá do destino, onde as carruagens oscilam e os corpos, se mais houvessem, dançariam uns contra os outros ao ritmo pachorrento do claquear da roda férrea no caminho ferroso, mas agora o que se encontra de carril está ferrugento, um pouco como o tempo, as pessoas. Sei agora que algo de mim volita em torno de um trajecto que nunca percorri, um pouco como um acordo tomado por decisões que não são minhas e as quais não respeito, palavras e acordo.
Ouço, a cada pausa do algoritmo, o debitar assíncrono de palavras que são nome de terras e terras que são nome de casas e casas que têm nelas o nome de gente e gente… gente que embora vente frio não sente, porque de onde as vejo e almejo, há todo um corredor onde percorrem as crianças um caminho para uma escola que já não existe porque as crianças são agora homens, mulheres, diz-me, qual preferes? Escola ou escolha? Embora me suportem as pernas, já eu de mim saio para sentir o calor junto ao rosto, mas agora por trás de uma janela numa linha direita, recta, embalado, não sei se pelo comboio, se pelo vento que me abana os ombros e me diz para acordar.
O comboio passará por Juncal, Pala, Mosteiro, Aregos, Mirão e Ermida. Por mim chegara para me sarar esta ferida, mas na intempestiva viagem a que o tempo me submente, já estou em Barqueiros pouco depois de ouvir Porto de Rei. Sinto ficarem para trás curvas que não curvei, nuvens que não chorei, todos os rostos de quem se levanta na madrugada para ver a mão arada não por terra, mas pelo quente do metal, pelo ensonado destino que se prende desde o jogo de cartas ao arriar cansado, já noite, quando a marmita viajar já de barriga vazia e em casa estiver a recordação de uma mesa com crianças que moram agora, quem sabe, lá para as Franças.
Rede, Caldas de Moledo, Godim, Régua.
Não me atrevo a abrir os olhos, com o medo de me ver sem ter saído do local mantenho os olhos sob as palmas das mãos, estão frias, tiro-as e deixo apenas as pálpebras, já aquecidas, repousarem sobre os globos esverdeados como quem aconchega a roupa da cama a um filho.
Covelinhas, Ferrão, Pinhão, Tua.
Minha era a paixão. O sol ainda continua, oblíquo, a fazer-se sentir em mim e o vermelho que vejo assomar ao meu campo de visão é interrompido por vezes por pessoas, deduzo, que passam à minha frente, imaginando-as eu como as árvores, postes de madeira, velhas casas com velhas à lareira que me fazem sombras e que tento agarrar com a imaginação, mas que se esfumam na viagem de mim.
Alegria trará Ferradosa e esta Vargelas. Comigo estão elas, a erupção de um Vesúvio que arderá a terra, as fragas arrefecidas num metamorfismo natural de frio e calor, de paixão e amor.
Freixo de Numão.
A viagem começa a rarear, o Sol esconde-se atrás de um pilar descaracterizado, alguém pigarreia anunciando presença, mas sei-me de pé e sem lugar ocupar no frio banco. A imaginação que galopava acompanhando o trajecto de uma velha automotora começa a trazer pequenos pensamentos, fragmentos de uma lateralidade a que muitos chamam realidade.
As sombras ora são pessoas ora são paisagem, lentas. O ritmo, o frio que se empoleira ao meu ombro, tudo se mistura. O fumo do cigarro não me parece ser da velha e quase escura carruagem de segunda onde se é permitido fumar. Alguém se senta a meu lado.
Pocinho.
Acabei de me sair.
Há viagens que só fazem sozinho.

2015-02-26

Vou, sempre, não ido, mas vou, a palavra. 
Vou sem ir, aqui, contemplando, contemplo e ando, com templo... 
Sacio a ternura de ter uma vela cambaleante pelo aspirado suspiro alheio. 
Creio. 
Por aqui, no caminho do meio, não sei o que tacteio.
Caminho que não eu, não meu.
Vou, sempre, não ido, mas vou, a palavra.
Eu.

2015-02-22

Onde quer que vá

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Encontro-me, invariavelmente, de regresso a mim mesmo a meio caminho de me descobrir ao encontro de uma parede, preso por palavras, acorrentado a frases que se pronunciam a cada silêncio que me bate no para-brisas em forma de gotícula, ainda não húmida, porque a textura da água caberá a mim grafiar, gota a gota, aguaceiro a aguaceiro. 
Pouco me interessa a companhia do tempo. 
Ele, tempo, aborrecido, senta-se a meu lado enquanto o conduzo pela minha vida fora, fora e dentro. 
Há pouco que lhe diga. 
Um olá, talvez, a cada madrugada em que ele me acorda para eu o poder ver na matematicalidade do relógio digital. 
São 1:23, 2:34, 5:55, 6:54. Não achas engraçado? 
Sim, acho, respondo-lhe, agora deixa-me dormir novamente. 
E ele encosta-se às paredes, desaparece atrás da sombra do móvel, que é lugar de tempo, para somente acordar quando me decidir levantar como quem opta por virar em qualquer direcção que não a assinalada numa encruzilhada dessas com que nos escrevem ou compreendem, em forma de sorriso não verdadeiro. 
Conto Primaveras, embora não mas digam que as há, acredito nelas. 
Vá-se lá saber porquê, para não ferir susceptibilidades teosóficas, acredito também noutras estações e noutras formas de ver o mundo que não por detrás das minhas lentes gastas e moldadas. 
Filosoficamente, tudo se assemelha a pop stars com figuras saídas de um imaginário pensado e idealizado sarcasticamente numa sala, com cotovelos numa mesa redonda, onde se decide a quem dar o pão, a quem dar o circo. 
Taciturnamente está Sol. 
Sempre esteve. 
Hoje simplesmente não tem nuvens que o permitam deixar de se preocupar em fornecedor iões suficientes para nos aquecerem, iluminarem o caminho. 
Há algum tempo (saiu agora de trás da sombra do móvel) que ele se pergunta porque queremos a luz, a claridade, se a maioria, isto sabe-o ele bem, continua a sonhar pela noite, envolto em escuridões que saem de trás de cada dia que perderam a trabalhar na sombra dos sonhos de outros. 
O timbre grave de um saxofone abalou a estrada enquanto esta me dirigia, o volante sacode-se enjoado de andar em círculos e um relâmpago cai-me na visão, para que me veja no espelho, de repente, enquanto lá ao fundo cavalgaram imagens de projectos futuros que deixei no passado. 
Nunca me pareceu haver pasto suficiente para literalidades, principalmente quando estas se deixam arrebatar pelo que possa surgir por detrás de uma esquina dobrada pelo tempo (este, não, este não é o meu). 
Pergunto frequentemente qual a frequência que devo sintonizar. 
Não me respondem. 
As audiências de outrem ditam o que devemos ouvir, não pelo acto de escutar, mas apenas para ser mais um reverberante sem tripé, sem auscultantes que nos apoiem no acto de fazer bater o coração ao ritmo distante da música que não nos permitimos ver. 
Já não tenho gotas, texturei-as todas, apenas sucumbo porque fiquei sem combustível nesta viagem de regresso a ti, embora continue a acreditar, a debitar, a crer querer que lá no ocaso onde repousas pensas que eu, apesar da matematicalidade, da migueleidade, da incoerência sonhadora de não me ver a ver o que penso ter visto como verdadeiro, pensas que eu, novamente, seja apenas um pobre e orgulhoso inocente tolo, a quem as palavras prendem com silêncio, porque é nele que consigo dizer algo que não valha a pena, sobre pena de me apalavrar com o destino e este continuar a dizer-me, baixinho, onde andas tu, agora, filho?

2015-02-17

Directo ao coração, o sorriso partiu resoluto e incontornável, nada o faria parar que não o calor ameno que nos chega ao peito quando um arco íris nos banha e, de olhos fechados, entre hemoglobina e hemácias, também amor é bombeado pelo corpo.

2015-02-15

Contigo

in Bird Magazine.

Olho várias vezes para as minhas mãos, questionando-as.
Não sei se da preguiça ou por parte do cansaço, há sempre um medo do que serão capazes de fazer, de olhar.
E olhar, que me leva para dentro de ti, traz um misto de vidas iguais em vidas diferentes.
São tantos os momentos de tangência, que fico sem saber ou discernir, qual a sobrevivência que vivo.
Anima-me pensar (acto de ser igual a uma imagem) que, de facto, pouco há a compreender da vida.
Afinal, o caleidoscópio por onde espreito a luz é apenas a face de um dodecaedro.
E eu, que gosto de matemática, fico feliz com isto.
No meio de todo o silêncio faz-me falta serenar, estar a sentir o vento (e por falar nisto, roí-me de inveja do senhor que conduzia um tractor, no meu caminho de casa, com menos um farol, um arado a deitar terra na estrada, o cigarro apagado no canto da boca, uma mão a segurar as abas do casaco junto ao pescoço e outra no volante) e deixar-me falar com o vazio.
Curioso como quando estou sozinho, sem nada, no nada é quando me encontro com tudo.
Até Contigo.
Por vezes é algo em mim.
Não sei.
Sei sim.
É em mim.
A vontade de pura e simplesmente deixar tudo, ou deixar-me de tudo ou, vá lá, tudo se deixar de mim.
Partir.
De viagem e de estilhaço.
Ser, mas sem ser.
Estou a meio caminho de dois destinos e, talvez por isso, não chegue a nenhum.
Tenho todas as curvas do mundo e, mesmo assim, não há direcção que me tome nem ziguezaguear que não me contorne.
Nem te cheguei a ver e, no entanto, na tua ausência, é como se nunca me soubesse ter.
Existe o irreal.
Pelo menos em mim.
Que não existo.
E é assim, irrealmente, que me deito todos os dias.
Sem eira nem beira.
Sem pontuação que me diga onde terminar ou, pelo menos, uma pausa, uma pequena vírgula, qualquer coisa.
Há sempre um amanhã que não conheceu um ontem, um monte de palavras ao monte, que nunca, mas mesmo nunca, escreverei ou declamarei, um por não saber declamar, outro por não saber escrever.
Apenas respirar.
O que existe e o que não existe.
E eu acho que existe o irreal, apenas ele, ou ela, um momento e um toque, um corpo que passa pelo outro e duas almas que se conhecem, ou não.
Acho que existe apenas o irreal, apenas porque ninguém conta com ele, nada se espera do que não existe, como se não existissem saudades do que nunca se conheceu.
E, na verdade vos digo, é saudade que dói mais.
Porque não existe.

2015-02-10

Esqueci o sabor do abandono, quando chove cheira a terra abandonada molhada, a terra e a abandonada. Molhada. Já nem mosto espremo da vintageidade a que me cavernizo, pensei que fosse de carvalho a madeira tanoeirizada, mas é um composto qualquer, sem posto, sem pousio outro que não o descanso e a saudade de me ver com sabor. A mar. Amar. De vida bebida a lua, saudade, minha, vales-me Tua. Não me sabendo serpentear vou-me tolhendo, folheando, crescendo ao cimo de um regato, talvez encontre em mim quem sou, de facto.

2015-01-25

É pi só dios

in Bird Magazine.

Há um cão que vagueia na estrada, desatento, arfando como quem sorri ao patear o asfalto, de costas para o trânsito. Negro como a noite, dia não fosse, diria que me sorriu, o bicho.
Há um Sol que se espreguiça de encontro a um muro, como que se lembrando que é quase Outono e as pedras do muro são quentes ao final da tarde. Sol, de sol em sol, até se aninhar rendido no olhar de quem se acriança.
Há um sorriso de uma criança, que recorda com satisfação, de olhos fechados, o primeiro almoço na cantina da escola.
Há um atirar para o restolho dos restos dos dias que vivo.
Quatro vidas se vivem, em quadras que jamais escreverei. Quatro, que quatro mil, quatro milhões que fossem, que ao me atirar para esta vida, ficou de mim no lado de lá aquilo que jamais emergirá.
E a vida que se atiça aos dedos, saltando, tecla em tecla, letra em letra, sem que se dissipe o nevoeiro que trouxe ao cais dos meus olhos uma palavra.
Há.
E isso basta-me.
*
Os bancos de jardim, do mundo, revelam-me os contos que outros viveram, pernoitando, ao som do arrufo dos pombos, repousando em si a poeira que pés incautos levantaram, ainda noite, à água que se refresca pela madrugada, no cajado rompido de um músculo cansado, a quem o corpo pede, pela última vez, para o passo que iniciará o término de um longo caminho... Pode a vida sobrar num cabo ventoso enquanto o horizonte teima em se fazer mar?
*
O mar estendeu-se, uma, duas... sete vezes seguidas me deitou e construiu, até eu dar por mim a olhar para ele, despedindo-se uma, duas... sete vezes seguidas a meus pés.
Era ninguém, apenas onda, seguindo pelas marés sem senso de mim mesmo...
Falo contigo, mar, uma, duas... sete vezes seguidas e pergunto-te se o tens nalgum lado e se está feliz, porque as minhas ondas, mar, estão uma, duas... sete vezes seguidas sem saberem se sou maré suficiente... Ou se seria, uma, duas... sete vezes seguidas o mar que me ensinaste a ser.
*
Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para a procissão...

2015-01-20

Há ainda vida a escorrer pelos olhos de quem se quer ver.
Não obstante a rarefacção da luz, ainda dormem as duas cores de um só arco-íris, o limiar de um dia arfado, cansado, atado de pés e mãos ao nada que tudo prende.
A liberdade liberta-se a cada mão que nos toca de raspão, como se pedisse envergonhadamente licença ao esquecimento para ousar ser um pouco mais de corpo.

2015-01-18

Imortal idade

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Vou combatendo o tempo com a minha ideia de imortalidade.
Nada como chegar aqui, sem nada para escrever, desfolhar ontem um livro ilustrado, com uma história infantil, com moral para gente grandinha, e deixar-me perder nos desenhos.
A cabana de madeira, paredes estreitas, um banco onde repousa um livro, uns óculos, uma vela já derretida, pelo fogo ou pelo sonho, uma manta de retalhos sobre uma cama tosca, uma cadeira para dar descanso à roupa da labuta diária, um suporte e uma bacia, terá água para trazer aos olhos um novo dia, uns chinelos e umas meias dentro deles, tudo sobre um tapete com inscrições que mal cabe no quarto do tamanho da cama.
Há um postigo, mas deverá servir apenas de despertador.
Quem assim se deita, ainda que personagem ilustrada, ainda que imaginada por quem de traços se faz à vida, saberá que a noite é feita de leituras, de letras que se sacodem pelas sombras que a vela atira ao mundo quando respira.
E antes que a imagem se esfumasse, deixei-me entrar hoje pelo monte dentro.
Alças da mochila sobre os ombros, mãos fora dos bolsos a tactear um pouco o escuro, os pinheiros ainda que novos e estreitos deixam pender ramos secos, duros, mas não há mão que tudo tateie e lá passa um ramo, a mais escuro que lusco fusco não dá para perceber se é um pinheiro, eucalipto ou até sobreiro, nem pelo cheiro, porque pelo escuro a andar pouco há a cheirar, o olfacto recolhe-se e certamente lamuria-se pela fraca decisão de quem movimento o corpo.
O tempo encarregou-se de alcatifar o chão com camadas sobrepostas de caruma, erguiço ou chamem-lhe o que quiserem.
As sapatilhas enterram-se, num misto de sujidade e humidade, não lhes chegando isto ainda têm que aguentar os passos tibuteantes que lhes coloco, terreno incerto, passos incautos.
Era capaz de me deixar perder, caminhar indefinidamente pela natureza do que somos, até descobrir um vulto semi perdido que tenta chegar a casa na véspera de Natal, mas de Garrinchas apenas Torga, nada de Miguel, por isso vou procurando a soleira, os degraus, o alpendre que se encosta a uma árvore (pode ser qualquer uma), o tapete feito de pedra irregular que se amola com o passos sem direcção, a porta e as frinchas nesta que deixam ver um pouco da luz da vela ou lareira, o calor que nos move pelas brasas da nossa vida, o levantar do braço e levar a mão ao ferrolho e ouvir, antes de terminar a pergunta, Entra.
Havemos de fazer do corpo a casa, da casa o templo, dos sonhos a realidade tão palpável quanto um cajado, a vara tosca agreste que nos suporta a ignorância e o fiel amigo, animalito de quantas patas, pelos, escamas e asas quiser, que nos guia enquanto os nossos olhos são fechados por quem planta betão onde antes respirava um chão.
E entramos, sem conhecer a noite ou a casa, semicerrando olhos para ver melhor aquilo que nem sempre perscrutamos.
Eu vejo uma cabana, onde entro, adormeço e sonho que tudo isto é um sonho, povoado por paisagens e habitado por pessoas que ainda não se descobriram crianças.
E tu, que vês?
Já tinha tomado o tempo quando se virou a mim a noite.
"É escuro", surgiu a medo.
E eu, tolhido de cansaço, voltei costas à sombra e deixa-a a falar sozinha com o barulho.
"É escuro", continuou.
Mas já lá eu não estava, voltado de costas ao mundo, segurando ao ombro a manta retalhadas de serapilheira com que me cubro, caminhei até deixar para trás o corpo.
"É escuro", murmurou.
"Eu sei"...
"Abre os olhos"

2015-01-15

Afogar-me-ia num mar tumultuoso se isso parasse a sanilidade das lágrimas que tempestuam o teu sorriso.

2015-01-11

Na_tal

Crónica de domingo na Bird Magazine.
A estrada sinuosa, tal como os tempos que se comprimem antes do Natal.
O sentimento vem-me em tempo fora de tempo.
Longe vai a Natividade, tem dias o menino, Maria, embora virgem de concepção, sofre as agruras e as dores de uma recente paridez, segurando ao peito a salvação e amamentando o seu fruto, de leite e coração.
José, impoluto, negociando com o dono do estábulo, verdadeira semente de alberguista, oscila pela novidade de ser pai vigilante e conceptor ausente. Ainda não lhe cabem as futuras indagações e o olhar vago para o espaço, de onde terás vindo tu que te fizeste filho sem eu me ter feito progenitor?
Mas sabe-o, ele, precursor de uma parentalidade verdadeira, a doação de labor, tempo e amor a um fruto, sem importar qual a árvore ou seiva que lhe deu vida. Desconhece igualmente, porque a mitigação tecnologia surgiria apenas um longo par de milénios, mais coisa, menos coisa, depois da noite fria no estábulo, que outros houvera antes dele, verdadeiros pais incógnitos de filhos professos.
A realeza metafórica recolheu às suas terras, guiadas não se sabe porque estrela, pois essa ficou a luzir sobre a coordenada celeste que apontava o início do caminho. Levariam o alforge cheio já, pois a leveza do que deixaram em nada se compara ao peso do que aprenderam com a simples presepialidade de uma realeza cujo trono é superior à própria dimensão que vislumbramos.
Ainda por lá ficam os verdadeiros de pureza, os animais e as companhias que os seguem por onde quer que os levem as pastagens, os pastores. Via-os olhar uns para os outros, enquanto o calor se soltava dos seus corpos e aqueciam a barriga e o peito desnudado da Virgem e a pequena cabeça sem coroa de uma criança, qualquer criança.
Aqueles olhos, sempre diferentes, com tonalidades distintas, mais ou menos ovaloides, mais ou menos almendrados, com iris mais ou menos alongada, ainda que quem observe seja o Mesmo, presenciavam pela enésima vez a mesma cena, ainda que em cenário distinto.
Dos céus desceria, sempre, impoluta, uma criança.
De pouco adiantaria saber o sexo, ainda que as vozes reinantes admitam (ou lhes interesse) ser descendente másculo, Adão, Adam, Terra, Chão.
Cresceria saudável entre a loucura reinante, antes e hoje, no questionamento típico de uma criança envolto na mais verdadeira (como se houvessem verdades mais ou menos verosímeis) e profunda religiosidade, a única capaz de erradicar a nossa milenar dor.
Chamar-lhes-iam amor.
Por ele percorreriam os mais variados caminhos, como estrelas cadentes, levando a luz, o calor e a sobriedade alegre de se saber superior ao corpo, ao desejo carnal de matar para viver. No entanto, todos eles, quer nos reze a história segmentos diferentes, pereceram nos diferentes parágrafos que compõem o volume, qualquer que seja o número, da nossa civilização sobre este paraíso, por aqueles que os seguiam, desejando martirizar quem nos permite saber que mártir é palavra que riam com partir, e se eles sabiam que ninguém parte para lago algum, de que nos adiantaria conhecer pelos nomes santidades e martirizações carnais?
Disseram, Deus há só Um.
Apesar de partirem, deixaram cá uma marca, visível apenas à noite, quando à solitude remetemos os corpos cansados e pequenos e nós olhamos vagamente para o céu.
Cada um deles uma estrela, Belém ou outras cujos nomes pronunciados nos soem a estranheza.
A miríade de luminosidades, cada um uma porta aberta para o lado de lá dos astros.
A imensidão e profundeza do infinito mostrando que cada um de nós é ilimitado na verdadeira literalidade da palavra.
Embora pareça que todos nos remetemos a um inferno, literal, elas continuam ali, no céu, a lembrar que de nada somos, mas de tudo viemos. A cada dia uma estrela. Quantas delas por nascer. Um arco-íris talvez. Por cá os olhares dos donos da terra, os frágeis e inocentes animais, as crianças que sugam a maternidade por um seio, os olhares meigos de quem acompanha o esvoaçar lento de bandos de animais terrestres sobre os pastos montanhosos.
Natal? Natal é quando alguém quiser.

2015-01-09

Vai lá à vida, mas não regresses sem me trazer a colhedura do que ficou por semear. Vão  fazer-me falta, os frutos, as bagas, o barulho esvoaça dor das cigarras.
Vai lá à vida e traz-me um pouco das novas, das que ensinam a viver, mesmo quando o frio faz gretar lábios e rezamos para que no frio da paragem do autocarro, à sombra, nos olhe do lado de lá, ao sol, a vinda do transporte ou, atrasando o passo, chegue primeiro a sinceridade e, fazendo do meu tremor seu braseiro, me abrace até se ebulir a saudade.

2015-01-08

Memo(ria)

Quando o presente terminar continua em frente, é lá que irás encontrar, aconchegado junto a um teu que esqueceste, todos os passados que não quiseste lembrar.

2015-01-06

A sobriedade da companhia da estrada, escura, enquanto o asfalto resvala para debaixo de mim.
A paisagem encerra o mesmo encanto porque apenas eu sei que é noite, ela vê-se despida dos dias por não saber que o ocaso que me vê nascer é um fugidio amanhecer.
Vou tranquilamente adormecer o corpo e viajar para onde me queira levar o vento ebulido que sopra bem cá dentro de mim.
Se ao menos fosse Inverno e, eu, pudesse multiplicar o infinito pelo eterno...

2015-01-04

NATIVA(IDADE)

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Começo por não identificar um teor repetitivo em tudo o que me rodeia, do ar ao chão, em mim, no meu andar, na respiração.

Termina o Natal, a azáfama tolerada de um mote que se quer acelerado, quase não saboreado, de uma terminologia dedilhada em tons de manhã com neve, uma brisa, leve.

De que me querem de vida salpicado?

Já tolero as costas por onde se atropela um arado, um punho em cravos fechado. Caminho lentamente com medo que o mundo me fuja pelo andar, sem me saber que de caruma em caruma se faz o monte meu lar.
O vento encaminha as nuvens para onde quer que me volte. Traz-me novas em forma de velhas formas, um pedaço de céu sobreposto à atmosfera, o rufar lento, síncrono, de uma memória de útero, o coração de mãe que se fez habitação, o rouco boa-noitar de um marido que se saberá pai. À vida, sozinho, ainda não se vai.

Sem que me vejam permaneço pontualmente a ver o sol nascer, ainda que de tarde se tome, surge áspero por detrás de uma casca de pinheiro, encosto a face a um velho sobreiro, sob ele o latejar lento de um coração, a promessa de uma amizade que nos salta para a mão.

Não se anotam notas em verbalidades gráficas, lamento, gostava de escrever o que brota dos meus olhos sem ver o que de ti faz momento. Fecho os olhos, a memória incita velhas sinapses, tempos de outros tempos, em que nasci em berço estelar, nos destempos onde descansei antes de a ti vir dar, dou por mim em palhas deitado, como um menino jesus grande e desajeitado, a escutar cânticos de aves que desconheço.

Um cão ladra aqui, outro responde ali, espero, a caruma sobreposta e uma clareira em forma de resposta.
A terra que se fez da Terra bombeia a vida pelas suas artérias, passa-me ao lado, gostava de dormir um dia acordado, por isso deixo-me esmaecer ao encontro do mundo, fazer do meu sétimo universo o descanso da hora sobre o segundo.

Vejo a manjedoura vazia, um desalentado José coloca a mão sobre o ombro da sua Maria. Olhos de mãe choram quando não se fazem de rosa, cravo florido, mãos no regaço e um ventre dorido. O presépio aconteceu, mas por lá ninguém nasceu, os pastores trazem as mãos cheinhas de nada e o calor das vacas, das ovelhas, dos burros e do fiel cão aquecem a noite de quem não se sabe vir a madrugar, hoje as noites das trevas são.

Se chovesse teríamos um arco-íris, mas a única precipitação é das estrelas cadentes que iluminam lampejantemente uma porção de noite.

Uma estrela regressa no caminho, vai por aí, devagarinho, contando a plebes e reis, um dia há-se ser, hoje não, que retornem a cortes as realezas e distribuam a vossa riqueza noutros estábulos, em pobres mesas, por lá nascem diariamente príncipes, princesas.

Acompanhado que está o casal na sua natividade interna, resguardam-se pastores à sorte de um capote, vai noite e fria a jornada e o gado, esse, quer-se levantado de madrugada.

A manjedoura desfaz-se de berço, Maria segura desajeitadamente um terço e oscila ao levantar-se. Uma mão no joelho, a nodosidade de um soalho que reclama de velho, a força de quem se pare todos os dias encontra a calosidade de um José que soluça e encontra afagando um cão um Gabriel desacreditado. O céu, ou Deus, tem por vezes destinos díspares para iguais filhos seus.

Não cresceu a vida onde se pensa ter tido guarida o casal. Neste mundo não se fará Natal.

No entanto, porque da vida encarrega-se a vida, viram-se por terras de gente boa um casal que navegava à noite, à toa, sem cardos ou espinhos, olhando o céu estrelado onde descansam deuses meninos, talvez deitados, talvez sozinhos.

Em cada torso uma árvore, de Natal, nos olhos brilhantes de meninice a iluminação de dias que parecem noites de tão inverno se alimentarem. Navegam pelo imaginário presentes que jamais serão entregues e, desses, restará o sabor de possuir o que se é.

A vida carrega consigo ela mesma e, em cada parte dela, um pedaço de amor que espreita. Dos seus braços pendem laços, pedaços de colmo onde se deitam meninos, meninas, crianças e gentes menos pequeninas. Deuses nascidos e não criados, criados e não nascidos.

Penso nos Natais desflorestados, das vidas que nasceram para o lado de lá da existência, guardo para o momento todo o pequeno sorriso que se possa fazer simplesmente fazendo. Acredito que de todos brota amor, em fases e sintonias diferentes, todos desejam no inverno frio o forte e humano abraço que nos dá calor.

A cada olhar com gente bem lá no fundo, possamos procurar ser, dia ou noite, um pouco mais de luz, tratar cada criança, infante ou adulta, como o nosso próprio menino Jesus.
A cada medo um sorriso em forma de segredo, a cada nome a certeza de uma existência sem fome pois quem se alimenta de vida em si mesmo se sacia, como a letra que escrevo sem tinta e deixo aqui, sozinha, vazia.

2014-12-28

Colheita

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Aprofundo a textura da tarde quando, ao passar perto de umas leiras frescas, o nevoeiro que parece emanar da terra na respiração de cada torrão revolto pelo arado me traz à memória lembranças de árvore. Dizem, escuto, que as memórias das árvores as fazem imemoriais, portadoras de um tempo anelado, cunhado a âmbar em choro de resina. ´
O Sol de frente, em frente a uma estrada esburacada, faz-me conduzir de olhos semicerrados. Confundo-me na viagem, por entre eucaliptos, pinheiros e pestanas. Os electrões saem sobressaltados da minha frente quando se apercebem que vejo estrelas nas lentes sujas dos meus óculos.
Todo o caminho é estrada e, por ela, chegaremos ao instante seguinte da nossa vida, seja ele qual for.
É fácil perder a razão e tornar um entardecer num reflexo negro de um céu nublado, enevoeirado, como as pessoas a quem faltam céus.
Das indicações que sigo, algumas indicam caminhos para onde não quero ir e lá, onde quer que os caminhos os levem, não estarão os meus instantes, lá será futuro (ou agora passado) em que não existi. Existirá melhor almejar que orgulhar de infinito um local que se fez mundo por não termos lá estado?
Todo o caminho é estrada, mas nem toda a estrada é caminho. Valha-me o letreiro gasto de lousa, a caixa de correio para três caixas de correio, uma espécie de matrioscar e partilhar remetentes num distinto destinatário, e o cemitério ladeado por sombras de uma tarde que se faz já tarde.
Não me faltam inícios. Pelo contrário, sobram-me inícios. Momentos em que comecei a escrever sobre o que tinha escrito, mentalmente apenas, como tudo deverá ser.
Entro lentamente pela rotunda sem desviar os olhos do homem que comigo se cruza. O passo arrastado que arrasta vários ramos de árvores que não identifico. Serão lenha, como toda a árvore não colhida, lenha queimada, cinza, mas antes calor, fumo e amor. O chapéu cinzento parece ter sido urdido pelo outono, traz com ele ainda folhas que se fazem cabelo e por baixo deste uma cara castanha, escura, de onde pende um corpo franzino, coisa velha de menino. Há vestes, mas estas são coisa de quem se despe, este vulto caminha na convicção de chegar ao seu instante seguinte. A cada passo que deu, deduzo eu, que segui caminho contrário ao seu futuro, arfou o mesmo ar que um dia a terra transpirou. Imagino-o a continuar o mesmo percurso, a lenha a pender de si como longos braços arrastados pelo alcatrão, pelo empedrado, pelas camadas de detritos que se deitam sobre o chão. Há-de passar por outros, viaturas, criaturas, gentes de cigarro ao canto da boca, como quem namora e beija a morte, a silenciar a tarde com o que sentem de Sol, passar por entre curvas e rectas, soleiras de cafés de gentes sinceras, correctas, sobrolhos de quem se fez passado sem qualquer futuro, apenas um esperar agonizado e atrasado como este chapéu cinzento, cinzelado, em cima do muro.
Pousará os braços, a lenha também, será cortada quando o cansaço que o traz for menor que a vontade dos lábios molhar, o vinho serve também como ar em forma líquida numa hematose que se quer saboreada de olhos quase fechados, como quem conduz ao encontro do Sol.
A lenha cortada, não os braços, entra debruçada por cima da fuligem que cai de cada vez que o vento a corteja. Os fósforos zarparão sobre a áspera superfície e do nada (se é que ele existe) surgirá uma labareda, esta há-de ler as palavras que queima no jornal para já depois da pinha aberta, sem pinhões, fumegar aos céus como quem suspira e deixar arder lentamente, como quem se crepita, pinha e pinheiros, restos destes, tonas que é como quem diz cascas de eucalipto, pedaços de sobreiro e castanheiro. O lume irá crescer, creio, isto da fé é como acreditar que o fogo existe mesmo sem lhe sentir o calor, tal como o amor, a roupa empoeirada será sacudida, de um traje outro surgirá, uma ceroula amarelada, uma camisola interior suada, uma higiene que não tardará a ser higienizada quando a água, mesmo antes de ebulir, cair na tina e for aos poucos lavando corpo de gente. O lume, ainda ele, irá ver uma cama em forma de leito, aconchegando-o ao mesmo tempo que o fumo cativa a atenção para a perda dos sentidos e, sabe-se lá porque magia, adormecer enquanto a noite ainda não atravessou o dia.
Só depois, bem depois, de o ver suspirar, momento em que o corpo se liberta da alma, descansado e ela, alma, volitando longe do calor e do frio, vai dizer-lhe que pode dormir é que o lume, o avisado, irá dormir também, fechando os olhos em brasa lentamente, como quem se apaga de uma jornada.
Pelo caminho ficaram canas secas de um milho não colhido, caras enrugadas pelo frio, o ondular de um rio.
Sei que deveria ter existido nos momentos seguintes, fazendo-me futuro, mas o meu caminho tem estradas que desconheço e, por elas, cheguei a este instante da minha vida segurando ainda todos os momentos em que não existi e escolhendo, procurando, entre cinzas e leiras, o mais maduro sentimento para colher.

2014-12-24

Feliz Natal

Falta brasa ao lume que carregamos.
O tempo corre na esperança de nos abrandar para a vida.
Hoje o Inverno vai nevar num pequeno, indelével, silencioso floco em forma de sorriso.
Hoje, o abraço sobrepõe-se ao bom dia, o tempo vai parar à tua frente e, tu, paciente, vais tratar um estranho por tu e sorrir.
Hoje vais esquecer-te de ti e, por momentos, vais saber que a paz que buscas és tu, a riqueza que ambicionas é a insegurança de não te reconheceres precioso. Nada mais é valioso além de ti mesmo, o próprio Sol que vês nascer é apenas uma estrela, rara, que dá vida, como tu.
Um dia, além de hoje, descobrirás que todos os dias são hoje e que o motor que te faz correr não é meramente comercial, industrial, cultural, religioso, educacional.
O que te faz mover é uma ilusão sem sabor, pois nunca te disseram ou ensinaram que tu, criança, és amor.
Feliz Natal.

2014-12-20

Natividade

in Bird Magazine.

Começo a não caber dentro de mim.
A quantidade de vida que me mergulha nos olhos, a cada instante, faz-me sentir inundado por coisas, locais e seres que ainda não conheci, levando-me a correr por aí sem sair daqui, a provar sabores que, desconfio, provarei apenas sem este casulo.
De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram.
um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho.
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho.
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Até o tempo conspira ao correr à minha volta, sem me deixar prender as mãos e escrever-lhe nos ombros o peso que me carrega...
É o desassossego que me faz ver ao longe os carros que se aproximam, enrolando seus vassalos o fio de ariadne que os guia ao local de onde se pariram, as aldeias velhas, os muros desassossegados, as geadas e as neves, os testos que tilintam ao som do vapor das panelas, a lareira, os risos, a felicidade de onde nunca deveríamos ter saído.
É Natal.
Todos os dias.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo.
Sou este eu que me habita.
Completo.

2014-12-13

Frag(men)tos

in Bird Magazine.

Sobra-me silêncio e a chuva angular.
Aguardo muitas vezes o barulho do movimento à sombra do frio e, enterrando mais as mãos nos bolsos, encosto o queixo ao peito e sorrio.
Cabem ainda tantos, peitos e sorrisos, faltando apenas um pouco mais de eu para que a vida venha espreitar as memórias que formam avenidas pelos significados insignificantes de dias de Verão, pelo calor de outra mão, pelo sol que se põe e antes de adormecer encarecidamente beija o chão. Sim, é pelos olhares que bate ainda um coração.
A fragilidade de uma gota de chuva engrandece a nuvem, escura, que vai percorrendo o céu subestrelado à procura de um raio de sol onde se fragmente a luz em cores e deixe para quem não vê, apenas sente, outros espectros que vão assolando e assomando à superfície dos sentidos.
Talvez um dia chova amor, tão sequiosa a terra.
Em cada passo a sensação de afundar o corpo num naco de terra que me engole pela visão.
Tomara amanhã amanheça quando em mim meu corpo despertar e se lembrar, ainda que difusamente, os universos e multiversos por onde vagueio, vagamente, antes de me tornar pessoa, sem que aquilo a que chamam vida doa.
Vou lesto pela parede que a sombra me proporciona.
Dias de calor são prémios ao desempenho da imaginação, que projecta em mim a quietude de um irrequieto ribeiro, a leveza do peso da terra revolvida sob mim, o céu estrelado que ninguém vê e a Lua esforçada em ser crescente.
Fui lesto demais pelos episódios da vida, sem me aperceber que o comando da mesma são os dedos que me desenham na secretária da escola primária onde um dia sonhei ser o que sou.
É o frio, dizem.
Digo eu que este tempo sabe-me a mãos em torno de tigela de sopa de nabos, fumegante, com os olhos fechados a saborear o calor que liberta, a paisagem ainda verdejante e um rio que serpenteia lá ao fundo, como que fugindo do murmúrio que ele próprio liberta, enquanto tenho o rabo frio de me sentar nesta travessa de comboio abandonada.
Curioso como me serpenteia o Tua, ainda que lá não esteja agora.
As estrelas espreguiçam-se, digo-lhes que a noite não terminará e elas poderão, periclitantes, continuar a iluminar quem delas se alimenta, num misto de admiração e saudades de casa...
Elas não sabem que me iluminam por dentro e talvez o Universo que me habita não saiba que eu existo. Espreguiço-me.
"A noite não terminará por nascer o dia".
Periclitante continuo com o Universo dentro de mim.

2014-12-10

Espero pouco da paciência. Basta-me o colo matizado do horizonte crepusculado em tons de azul e lilás. O frio parece alimentar-se da minha cara, enruga-me as próprias rugas e eu soçobro, impludo, na esperança de nascer fora de mim. Curioso como o fumo que nos acompanha numa noite solitária entre caras estranhas nem sequer é nosso.

2014-12-09

É tempo do frio me mostrar uma esquina e fazer-me sentar e sentir o calor do silêncio de um entardecer de inverno, mais saboroso de olhos fechados, até o que resta de luminosidade começar a efervescer em memórias que se diluem ao encontrarem a realidade que outros constroem. O mundo é vosso. Eu sou meu.

2014-12-06

O costume

in Bird Magazine.

Entro no barbeiro, invariavelmente tratam-me pelo nome do meu pai.
"Ando a fazer um tratamento, tenho que comer" e sorrio secretamente pela simplicidade com que as pessoas se expressam a quem mal conhecem.
A média de idades deve rondar os 70 anos, ninguém sabe o meu nome, apenas o do meu pai e eu, que em miúdo ficava contente, ainda hoje fico por, simplesmente, me conotarem com ele.
As mãos são o melhor momento, a cada cumprimento há vidas que me saem e anos que me entram, é uma troca de rugas e calosidades como não encontro noutros locais.
Depois vem a conversa de fundo, enquanto a máquina investe aos poucos no (pouco) cabelo, as perguntas provocantes do Sr. João, que me toca no ombro e me pisca o olho pelo espelho, as reacções animadas de quem tem todas as respostas para as perguntas que conheceu, o recordar das mudas de juntas de bois na estação e aqueles que, a 30 km da grande cidade, encetavam mais umas horas de viagem pela estrada, poeirenta, até ao Porto e eu, que por vezes me chateio quando o trânsito me faz demorar mais do que 25 minutos a chegar ao escritório, sorrio ainda mais.
Depois surgem as palavras difíceis, nomes estranhos de terras e pessoa, apelidos, palavras caras e hoje (ontem) ninguém rematou uma conversa com um "vai mas é para o caralho"...
Pára um carro ao lado da porta da barbearia, sai uma senhora, vem buscar o pai, não faço ideia da idade, mas deixou-me uma junta de rugas na mão, com carinho ajuda-o a entrar no carro e, depois, agradece...
Por fim, depois de ter sentido a água fria do pincel no pescoço, a navalha e a escova que me tira os pequenos cabelos que não caíram ao chão, levanto-me enquanto arrumam a ferramenta do ofício como quem aconchega a roupa da cama a um filho.
Pagava 5,00 €, barato, sai um "até amanhã meus senhores" e ouço as respostas enquanto admiro o ligeiro levantar das cadeiras de quem ainda tem educação "à antiga".
Ainda lá ficaram, a conversar, nomes de terras e de pessoas, coisas esquisitas, como quem tem o coração do lado direito, "Oh Dinis,acreditas?", eu sorrio, "saiu daqui um preocupado porque não sabia se tinha o coração do lado direito ou do lado esquerdo", risos, "ah lá cada um!"...
E, por momentos, vou percorrendo o passeio até ao carro, com a mão no peito, sorrio para mim mesmo e penso, o meu coração ficou lá.

2014-11-30

Musical(mente)

Crónica de Domingo na Bird Maganize.

Fico parado, atrás do cortinado, a ver a luminosidade que se vai espreguiçando entre sombras.
Os paralelos da rua parecem pequenas teclas de piano, sombreadas pelos vários pés que os pisam sem se aperceberem da música que carregam.
Crianças fazem música por elas próprias sem grande necessidades de perceber que é Outono e que as folhas caem, como as pessoas, porque o seu ciclo se soltou das amaras de uma existência pré concebida.
Um pouco como as palavras, que se vão moldando e caindo, desacordadamente ortografias que se movimentam por entre interessados indivíduos que se estimulam ao esquecimento.
Creio que história evolucionária não permitirá que no nosso ADN se eternize a avareza, no entanto, parece ser, nos dias correntes, a louca tendência do consumismo uma forte componente oncológica da nossa condição de doentes.
Talvez seja agora o espectro, o infra humano, a desarmonia de uma sinfonia por não nos sabermos notas musicais tocadas por nós próprios.
Talvez, repito, seja uma negativa forma de ver a positividade.
Afinal, ciclos, círculos, circulo por aí sem me deter na espiralidade de um sentido.
A vida vai vivendo devagar apesar dos dias me saírem curtos à medida, vou alçando uma ruga e outra pelos carvalhos ou plátanos que nos deixam.
Parágrafo.
Ouso fechar os olhos e sentir o calor na cara.
Está um belo dia de chuva luminosa, caem e volitam electrões, alguém faz chover sobre uma viatura, um cigarro é fumado por uma boca desconhecida.
A vitrina ondula ao sabor do vento, mesmo sem se deter.
A roupa arrepia-se, o vento seca-se, o chão humedece a esfregona que o quer lavar.
A vida, sempre a vida, a vida que me faz soçobrar, o meu casaco quente, azul, o sabor a mar que a interioridade de mim tem.
As palavras.
A nuvem que não vem.
Penso muitas vezes no dedilhar de umas cordas de guitarra, no sopro contínuo e na dança do ar rarefeito por entre concavidades e convexidades da mão do flautista. Até as árvores, as esquinas, o primeiro sopro de um bebé, tudo traz música, vibrações que se medem pela quantidade de sorrisos despoletados, pelos olhos molhados, pelo abraço no final.
Olha, é quase Natal.
Nasço sem me ver nascer. Acolhido pelos seres a quem chamo pai, mãe, sei o suficiente de mim para saber que tu és eu, um pouco de mim, sim, um pouco de tudo o que escrevo, sem verbo, sem adjectivo. Escrevo porque sou de mim servo. Da ritmicidade do meu caminhar sobre as teclas de piano que são os chãos que piso.
Parágrafo. Novamente. Canso-me.
Vou viver. Vens?
Acabei onde comecei, como estava, indagando-me sobre as curvas da água condensada que nos orbita a atmosfera. Todo o homem é animal, fera. Mas tem todo o animal é homem. Felizmente.
Resta-nos a complacência com que a natureza nos mira e se arrepia, quando sobre uma luz que já teima em vaguear para outras latitudes um rosto surge sob a sua própria luz, uma mão afasta o cabelo e um universo nasce de novo em forma de beijo na face.
Porque não me nascem letras a cada olhar? Grafiar a mente, o pensamento... A intolerância perante a dualidade, a compreensão da estrada que nos permite navegar sem sermos marinheiros. Ah, os pinheiros. Como sou feito de orvalho de felicidade, ouvido de escuta ao vento encostado a um pinheiro, um cedro. Enquanto ameaça chover, não se cumprem as trovoadas que me lembram a fragilidade sonora de um clarão em forma de corpo que se quer juntinho a nós, no coração.

2014-11-27

Queria contar-te que vi, hoje, o Outono. Estava encostado à sombra de uma folha com seis tons de cores. Sabes, se estivesses aqui, com a tua cor, todas as folhas teriam a cor de um Sol que espreita por entre a neblina e aquece as pálpebras, as mesmas que cerrei para ver nascer do escuro a luminosidade que só se vislumbra quando se vê de olhos fechados a sétima cor do arco-íris.

2014-11-25

Cabem no fundo de uma inocente madrugada e, contudo, prostram-se aleatoriamente e tumultuosamente ao longo do dia.

2014-11-15

Gaveta abandonada

in Bird Magazine.

Faço dos meus dias de ontem, porque hoje não me chega o dia, o fundo da gaveta onde percorro tacteando o fundo de um rascunho. Que me perdoem lascas que não escrevi.
Começo a viagem de regresso já a noite empurra o que resta do dia pelas montanhas abaixo. Ganha-lhe posição com umas estrelas mais fortes e, depois, fincada a parca luz da noite, sacode o dia, não sem antes este, numa saída de movimento poético, pincelar um pouco das abas da noite, em tons que só encontro nos meus sonhos ou nos raros momentos em que me deixo acordar entre um sonho e outro.
Já a chuva escorreu das nuvens e das resistentes margens verdes que dão o seu lugar a vegetação cor de Outono, para eu deixar que o meu corpo tome as rédeas da viagem, enquanto eu vou dar uma volta, por aí, recordando sonhos que deixei a secar nas eiras perdidas desta minha alma em forma de montanha.
Estou cansado, vá-se lá saber porquê, durmo poucas horas para aquilo que preciso... E talvez isto me permita ver rebanhos onde eles não existem...
O vento frio leva-me para uns anos atrás, alma de velho em corpo de criança, na traseira de uma motorizada, o ruído estridente cai do escape e cola-se desesperado ao vento, que me devolve o som em ruídos distantes. Agarro-me a este meu eu que me conduz, a face direita encostada ao blusão de cabedal, com aquele cheiro característico a pele curtida e molhada.
As mãos, geladas, apertam meus próprios dedos, como se tivessem medo de voar junto com o som da motorizada. Mas não, estou protegido, um corpo franzino esconde-se atrás de um outro grande e o vento, é sabido por todos, não leva crianças sonhadoras, apenas sons e ruídos.
Fecho por momentos os olhos, as lágrimas que o frio faz nascer embaciam por momentos o mundo lá fora e é nesse momento, em que as lágrimas servem de janelas para as luzes matizadas pelo Sol, que os olhos sorriem muito, fechando um pouco o mundo aos sentidos, apenas para saltitarem para o rosto e desenharem um sorriso grande na face.
O som da motorizada vai longe, pergunto-me onde vou agora, mas não me respondo, gosto de me surpreender e deixar embalar pelo aquilo que de inevitável a vida tem: a inevitabilidade de sonhar.
A Farrusca bate-me com a cauda nas pernas, em pé, à minha frente, aguarda uma ordem para eu a lançar.
À falta de ovelhas, pastoreio sonhos. Falta-me cajado, um curtido pelo tempo, pau de sobreiro ou uma vara qualquer, não sou esquisito, qualquer bocado de lenha dá para desenhar no chão, que não nas pedras, rostos e estradas que ainda não percorri.
Ah cabras que os pariram!
Sonhos inquietos, farejam e ocultam pastos onde nem sequer o tempo imagina! Vão saltitando e fugindo, ora voltando a mim, roçando nas pernas e esticando o pescoço para receber um afago. Alguns, mais velhos, seguem confiantes à minha frente, cientes que sei o caminho enquanto eu, desconfiante, sigo na peugada deles na esperança que eles me levem aonde nascem. Outros não saem daqui, da minha beira, parecem aguardar a oportunidade para saltarem para um dos meus desenhos na terra, olham desconfiados e com medo, há sempre um som de motorizada que o vento brincando traz, olhos esbugalhados e caminhar atento, na traquinice típica de quem acabou de se encontrar como sonho.
Pastoreio sonhos.
A Farrusca vai correndo, latindo, não deixando um sequer tresmalhar-se...
Um latido mais alto faz-me olhar em frente, a cauda continua a bater-me nas pernas, qual pêndulo esquivo, marcando a cadência do meu sonhar.
Abro os olhos.
A Farrusca deixou de abanar a cauda. Parece-lhe, digo eu, que isto dos cães é mundo pouco frequentado, eles que vêm aquilo que vejo e, muitas das vezes, aquilo que não vejo, parece-lhe, dizia eu, que algo desapareceu da frente dela, mas não, continuam ali, uns correndo, outros descansando e outros nascendo para a vida dos sonhos...
"Menina, não os deixes ir para longe!" sussurro-lhe e os olhos vivos dizem-me que compreendeu. Um afago na cabeça, uma cócega no ventre, ela fecha os olhos e é neste momento, em que a meus olhos os sonhos vão já longe, que ela os leva para o mundo dela, a salvo dos dias em que me esqueço das nuvens, dos sons no vento, de faces desta e doutra cara.
Pastoreio sonhos. Feliz.

Domingo num dia chuvoso

in Bird Magazine.

Vou passando por aqui, paro, olho, leio, penso e vou embora. As palavras ainda não estão maduras ou, talvez, eu esteja muito verde ainda.
Valha-me este tempo cinzento, a chuva, os eucaliptos a dançarem à minha frente. Há um fascínio neste tempo, sinto-me calmo, mais calmo, com vontade de abraçar sonhos. Ser pastor, trabalhar a terra, escrever e saborear uma chávena de café quente com um pouco de boroa.
Por vezes é como se vivesse duas vidas, uma consciente do que sou e outra sendo o que insconscientemente todos somos, pessoas. Pergunto-me, várias vezes, o porquê e fico contente com a minha resposta: porque sim. Poderia despoletar uma dissertação esquisotérica sobre o que andamos cá a fazer, de onde vimos, para onde vamos, etc., mas, na verdade, estes discursos cansam um pouco. Não porque sejam fúteis, mas porque não conduzem a lado algum, são círculos e não espirais, não libertam, criam dependências, gurulatrias, aglutinam energias e, acima de tudo, são discursos culturais, variando de local para local.
Estamos tão habituados e condicionados a sermos descendentes de algo e a caminharmos para um destino, que nem pensamos que não somos nada.
Estamos habituados a uns serem melhores que outros, maiores que outros e isso leva-nos a colocar-nos em comparação com tudo e todos.
Partilhamos o mesmo pedaço de terra, no entanto criamos fronteiras, conflitos, não sabemos viver em comunidade, somos capazes de sonhar tão alto e de construir pesadelos cada vez maiores...
Deixo-me suspirar, continuo sentado no muro, com as mãos apoiadas no musgo, a balançar as pernas e a olhar em frente. No meio de este barulho. Pessoas em viagens sem destino, correrias para fugir do cansaço, hipotéticas espiritualidades amparadoras.
Acho que a nossa maior conquista nesta batalha é sermos nós próprios, sem demagogias ou falsas ideologias, apenas sendo. Sinto-me bem assim, quase sem nada, não sonho nem conquisto, apenas vivo e respiro.
Penso todos somos a peça do mesmo puzzle. Ou um puzzle de uma só peça.
Não temos noção da distância a nós próprios e vamos encontrando pessoas que nos mostram que a distância é menor do que pensamos.
 A distância a nós mesmos depende do quanto de nós trazemos no olhar, o quanto de nós fica na paisagem, nas pessoas, nos gestos, nos abraços e o quanto de barreiras perdemos quando alguém nos olha com amizade e sinceridade.
Acho que, no fundo, todos somos felizes, mas ainda não o sabemos...

2014-11-12

Restolhar da alma

in Bird Magazine.

Falta pouco para este ano terminar, ouço-o há alguns dias a arrastar-se pelos recantos da lareira que tenho apagada no peito.
Vai raspando, murmurando entre dentes os sonhos e planos, para os trazer aos meus olhos ao som das badaladas que anunciam o dia em que tudo começa, de novo.
Trago-os bem presos a mim, em formas de lágrimas, pequenas, luzidias, que se escapam pelas ameias dos passados e reflectem as partes recônditas, polidas pelos que estão para lá do que vejo.
Caem em dias e noites, como hoje, sem saberem o porquê, desistem de se agarrem a realidades não palpáveis, sem conhecerem o dia e a noite do acordar lento de um sonho realizado.
O nevoeiro faz-me recordar dias em que fui noites, momentos fugazes de uma eternidade contida em gestos e olhares. Momentos em que fui vento e estrela, em que beijei o tudo e abracei o nada.
Tenho saudades desses momentos, de ser o tudo e o nada, de ter a liberdade de ser livre com todas as letras e não apenas com a acentuação, de dar a mão a uma estrela e levá-la a passear por todos os recônditos infinitos do Universo.
Agora, mais do que nunca, almejo percorrer todas as almas, saborear cada toque de vento nas ervas que ondulam nos planaltos que visito apenas quando durmo…
Tenho cravado em mim histórias, pequenas alamedas de pessoas que ainda hão-de vir ao mundo que não conhecemos e não sei como as colocar aqui, no papel, por entre o frio dos meus dedos e o gélido respirar do aglomerado de corpos sem alma dentro.
Até ao próximo bafejar do nevoeiro.
Esvazio os bolsos quando chego a casa. Todos os bocadinhos de nada, ou seja quase tudo, ficam um pouco esquecidos, de lado, até amadurecidos se transformarem nalgo mais que hoje. Depois separo do ruído as pepitas do meu ouro, breves momentos da mais pura simplicidade, ignorância e inocência. Esta é a minha riqueza. Procurar noutros e noutras, no fundo do olhar, a essência do que são ainda que eventualmente possam nem o saber. Há momentos em que o presente se eterniza.

2014-11-07

Dá-me apenas o crepitar e um salpico de odor a lenha recém cortada. Não preciso de lareira, o lume não sendo criança, ainda se desprende da lenha e sobe o possível, para se deixar cair, uma e outra vez, na cadeira sem braços.

2014-11-06

Vou dizer-te que a vida arrefece nas mãos. Tenho-a no fundo da concha que formei. Sinto sede, mas não sei beber. Nem viver. Vou dizer-te que a vida sente-se mais leve quando nos ajoelhamos perante o frio e, tremendo, ganho coragem e peço-lhe caminhos com palavras que sonhei escrever

2014-11-02

Olha o reflexo do sol no vidro. As cores que dele se soltam são um pequeno arco íris de intenções, a tua visão dir-te-á que são espectros, eu chamo-lhe restos de um final de dia, com abertura para minha fantasia, é em cada cor que vivo o que não vivia. O sol desceu, o reflexo esmaeceu, sem cores de mim um outro, quem não sou eu?

Simples orvalho

in Bird Magazine.

A vida
que me pendia dos olhos
não era medo,
era orvalho.
A neblina dos cascos no dorso da minha mão
ecoa,
onde? não sei,
talvez no veludo do chão
que descobri ser cascalho.
A surpresa do engano
e a veracidade do erro,
as somas dos olhares
que me subtraem ao espartano,
nem o quadro que pintei na madrugada das tuas telas
esconde as vidas do teu baralho.

Tenho saudades do simples, de deixar escorrer os dias numa chávena matinal de café e encontrar todas as letras e forças numa "malga" de sopa... Os meus dias têm vários anos acoplados, os horizontes escasseiam quando a estrada é imutável porque os sonhos não as pintam.

Vou partir,
quando os teus olhos nascerem
e os meus esmaecerem
já terá o Sol
suspenso, na pauta de todas as rimas
e nos versos,
ancorado as letras que escondi
por trás da noite existente no hiato
entre duas palavras.
Dorme,
é apenas orvalho...

2014-10-29

Se me visses, de que cor me pintarias? Será que os sonhos se esbatem e orbitam em torno do meu corpo, como uma neblina, uma névoa onde por vezes habito para deixar vago o local destinado à terra?

2014-10-27

Selecciono letras para que as palavras possam escolher que frases formar. A liberdade habita no bico, no aparo, na tinta que se desliza pelo canelado friso do texto ainda antes de ser lido. Hoje decidem-se pelo raspar no áspero papel, sem olhar para trás. Palavras de homem, em desejo de rapaz.

2014-10-26

Ventos Contrários

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Gosto de afagar o destino.
De lhe dizer, no final de cada dia, que o amanhã será o que ele tiver sonhado, apenas e só, para na recursividade do sentir, ele se soltar desta matriz, complexa, e ser o que é, destino.
As tardes vão-se julgando por quanto de sonoridade convexa se expande da televisão ou do computador.
Não sejas, materializa-te nas etiquetas do que vês, no rating das tuas (boas?) acções, rasteja sob o jugo do que te impõe quem te manieta, para poderes dar um passo da cadeia à janela gradificada que é a tua liberdade.
Enquanto não fores de vento, toda a tempestade te atirará contra o contrário.
Amanhã, pelos raiares do dia, ainda que nublado, serás marioneta dos teus sentidos, sem te despedires do teu mais alto ser, percorrerás as estradas e dirás, orgulhoso, antes de trabalhar, que vais à luta.
Mas a luta é o teu maior antídoto à dopagem de quem se acerca de ti com o dicionário, em riste, de folhas brancas, com apenas um significado escrito para o teu desejo de ser mais: implica consequentemente severas sanções já que significa frequentemente um risco para a segurança dos outros ou dos interesses colectivos.
A felicidade caber-te-ia na palma da mão, se soubesses que a tua liberdade, ao invés das tuas aplicações a prazo, são do tamanho da segurança de quem te deu a vida.
Dou por mim a lembrar-me de Mateus, em temos de outras pérolas, outros porcos, ou do que escreveram em nome dele: Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? ... Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo...
O acréscimo é a consequência terrena de abrir os olhos e sentir, para respirar basta inspirar, quando o soubermos fazer pelo olhos, será o dia em que diremos adeus ao corpo.
Felizmente a maior poesia não pode ser escrita, ou lida, por nós.
Apenas pelas árvores.
E essas sim, nunca mentem ou obscurecem outros, apenas por serem de outra ramagem.