Este silêncio das palavras abraça-me. É por vezes todo o horizonte que madruga ainda antes de acordar. De tão valiosas as conto que as guardem em mim, acompanhando-me os passos, guiando-me a vida ao sabor do que serei. Ter palavras é guardar de mim o que não disse.
2011-10-18
2011-10-13
Exposição "Alma Tua"
À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás, o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo. Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, vem desaparecendo: o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular. É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua. É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta. Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua. Esperamos que o visitante possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras. Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo."
www.almatua.com
2011-10-10
2011-10-09
Trouxe a vida, eu, na palma das mãos como quem embala um mundo cheio de gente adormecida.
Era quarto crescente e eu, minguante, deixava-me orbitar pelos caminhos que se levedavam ao luar, mostrando-me não apenas a direcção, mas o sentido.
Os muros aos quais me seguro, rugosos, são sedosos como nunca os egos solitários o foram, musgados pelo tempo nascem para o Natal como eu para a chuva e, sim, é aqui que vou pousar o mundo, até que despertem.
2011-10-07
A noite encostou-se às estrelas, há um cunho de bom malandrismo na forma ligeira e lânguida com que, sorrateiramente, se aproxima delas, primeiro crepuscularmente, o bom velho como quem não quer a coisa, depois, já não a tinham visto, ela estrelava-se esparramada pelo céu e sorria.
É noite.
Um dia há-de chover.
Uma noite há-de crescer.
Um eu há-de escrever.
Encostado às estrelas.
2011-10-06
2011-09-30
Voto-me à simplicidade perante as alternativas eleitorais.
Ao vapor de um chá de limonete.
Ao cheiro a café quente.
À sopa fumegante.
Às memórias que me recordam, quando me esqueço, que do lado de me, há um outro te.
Inebriante o prazer de me deitar no horizonte, apenas para saber a que sabe a castidade de uma paisagem.
Ao vapor de um chá de limonete.
Ao cheiro a café quente.
À sopa fumegante.
Às memórias que me recordam, quando me esqueço, que do lado de me, há um outro te.
Inebriante o prazer de me deitar no horizonte, apenas para saber a que sabe a castidade de uma paisagem.
2011-09-29
2011-09-20
2011-09-19
2011-09-15
2011-09-08
2011-09-07
2011-09-05
Ainda não saí do escritório hoje, desde que aqui entrei.
A porta aberta permite-me ver apenas a porta do escritório em frente.
Valem-me as nuvens que vão entrando e trazendo casas de xisto, telhados a fumegar, o sino das capelas espalhadas pelos montes e, de vez em quando, uma outra outra ovelhita que espreita e foge assustada, nem eu nem ela percebemos o que anda aqui a a fazer.
2011-08-24
Havemos de voltar ao que fomos, pássaros.
Aproveito uma longa viagem de carro para colocar alguns devaneios em dia, jogar scrable com as nuvens é um deles. Alinho nuvens, primeiro por cores, depois por formatos e acabo por ter um mosaico retalhado que fica muito bem até o vento, aquele desajeitado, vir espreitar e me baralhar tudo. Não adianta ficar chateado com ele, com aquela cara de desalinhado, num misto de vergonha e confusão, é impossível ficar de candeiras às avessas.
A estrada vai gemendo debaixo do carro, range aqui e ali enquanto os pneus, enroladitos neles mesmos, vão desafiando o tempo de chegada previsto com o tempo que eles pensam conseguir fazer.
Acabo de subir a Serra dos Candeeiros, já com a cabeça bem longe das nuvens, quando vejo a surpresa que me prepararam. Um longo tapete, uma estrada no céu, feita por nuvens, grandes e pequenas, com todas as cores distintas existentes no espectro do cinzento, laranja, rosa, branco, preto e um je ne sais quoi de lilás. É um convite. Vejo ao longe uma nuvem, pequenina, distraída. De um salto agarro-me a uma beira, parece algodão, mas com a consistência de uma brisa, dou um impulso e subo. A nuvem acorda, esperneia, sacode-se, deixa cair umas gotitas que se evaporam antes de tocar o chão e finge-se distraída, fazendo de conta, como muito boa gente, que não estou ali. Pelo céu lá vem, não a estrela, mas uma cegonha. Ao passar por mim, que estava escondido na minha melhor imitação de céu, levanto as mãos e agarro-me às patas. Cloud surf. Assim vou, pés fincados na nuvem, qual prancha, qual board, agarrado à cegonha que vai voando, agora mais depressa, arrastando a mim e à nuvem pelo ar.
Todas as estradas vão dar a Roma (excepto as que de lá partem), todas as cegonhas vão dar às nuvens. Ao passar por cima daquele tapete cloudístico deixo-me cair. As vantagens de cair numa estrada de nuvens, não há arranhões, nem queimaduras de asfalto, apenas umas cócegas no nariz por causa das pequenas nuvens que se soltam e me fazem espirrar.
O GPS avisa, "chegou ao seu destino", mas quando falou já eu estava destinado a correr despreocupado sabendo que chegarei ao que já fui, pássaro.
2011-08-22
2011-08-19
2011-07-26
Era noite, que dia seria?
Era noite, que dia seria?, e as movimentadas estrelas apressavam-se para receber o sonho, ainda que pálido, de erguer ao céu uns braços cálidos. É de quem a madrugada, do silêncio que se alimenta de mim, das vozes que pousam num despido jardim, das pessoas sem gente dentro que gravitam num vácuo sem fim?
Seria dia, que noite era.
2011-07-21
Cerrou-se o monte sobre a sombra, já a torga se recolhe ao Miguel, o vento aninha-se de encontro à Lua e deixa cair o suor de uma vida de trabalho, que passa num dia ainda por nascer.
Os dias são clausuras de liberdade, momentos nos quais as estradas que serpenteiam sibilam e aplaudem o lauto esforço de quem se faz trajecto, para que outros tenham caminho.
2011-07-15
Sinto falta de escrever como se de água me esvaísse na sede dos meus dias...
A necessidade da palavra, garatujada, na palma das mãos, que me conhecem tão bem.
Vai-te vida, na felicidade que se contém, que não te prenda eu à barra, no cais musgado do inverno que a mim se amarra.
Só a noite sussurra.
O silêncio que me cura.
Boa noite.
2011-07-10
2011-07-08
2011-06-28
2011-06-27
2011-06-21
2011-06-20
2011-06-18
Desserraneada
Enquanto a noite brinda à amizade
o futuro tece-se no reflexo do teu olhar,
cruzo o sorriso sobre a ilusão
bordo-me na vida que se faz trajar.
Ao longe os que me estão perto
fazem da saudade contacto
das lágrimas meu peito aberto
com que, sozinha, decoro meu quarto.
Nasce o dia
e eu nasço o mundo,
nas madrugadas em que vestia frio
e o borbulhar do rio,
a cara cintilava com o desconhecido da geometria.
Longos anos têm cem dias
e semestres que se aninham na secretária
parasse o tempo na cálida primária
em mim, criança, de longe longas férias.
Os adamastores
madrugam austeros de negro,
doutores,
com o horizonte que se faz praxe,
plantam vociferando quem caloiro se ache.
O chão mais alto que o olhar,
a amizade nascendo ao ritmo do poente,
poderá o deserto acabar
quanto noutro dorso nossa face se sente?
É de ouro o metal da latada,
o cume das caves,
o choro do riso,
no dia que começa a noitada.
Busco multidões abrilhantada
quem de mim se faz mãe,
os gritos, o eco que lá vai
nas cores que visto a emoção despida
pelos braços orgulhosos de meu pai.
Ah, os dias que meses fossem
e anos sobrassem para estudar
as sebentas que aos molhos nascem
“será que era disto que o professor estava a falar?”
Sei de cor os degraus da faculdade
os anfiteatros dramáticos e austeros
o palco em que a noite canta a saudade
e a sincera amizade construída.
Uma batina para dois corpos distantes
é aconchego para os medos, segredos e frio,
num rumo sem passeio pela beira-rio.
O olhar fundo que em ti vejo
é a equação que resolvemos com o nosso prolongado beijo.
Percorremos agora avenidas
a cada passo abrimos mil horizontes,
gladiadores modernos de cartola e bengala
esgrimem ambição e sonho comovidos,
o adeus a uma família sem nunca abandoná-la.
A tua mão alcança o Universo
e as lágrimas que trinam ao cair
são o laço firme que atravesso
no beijo que meu corpo quer sorrir.
Face-a-face e a fotografia ao quadrado,
passo levemente os dedos na saudade distante
seguir, erguer, na complacência do que se é amado
desejar que a noite jamais amadureça
parar no respirar o tempo
e deixar-me ser olhar que encante.
Acordar esmaecer
ainda que nunca viva ser sempre eternidade
ser estudante.
2011-06-15
2011-06-14
Cloud(icando)
O frio vai surgindo, deixa-se cair como um lençol invisível pelas costas... Arrepio-me... Por momentos penso que é já de manhã, sacudindo o sono debaixo da chuveirada fria (haverá melhor forma de começar o dia?)...
Os dias têm adormecido cansados, pudera, vou deixando-os ao abandono, desterrados, para me entreter sentado no topo de um qualquer monte (hoje, Gerês), fechando as mãos e soprando para elas, para depois as abrir e moldar umas quantas nuvens. Fazem-me cócegas nas palmas das mãos, rodopiam por momentos, com os olhitos entreabertos a mirarem-me sem saberem muito bem o que fazer. Acrescento-lhes um pouco de azul que deixo cair dos olhos, moldo-as um pouco mais, ergo as mãos para um ponto cardeal a gosto (ultimamente tenho-me virado a Norte) e sopro as nuvens, que vão subindo e crescendo rapidamente, sorrindo quando o vento as leva para lá de onde eu consigo alcançar, aumentando quando alguns cristais de aglomeram para as verem passar e, desprevenidos, se deixam apanhar neste algodão doce gigante.
Quantas nuvens terei eu já feito?
E para quê?
Mas, confesso ainda sem saber, vou fazendo-as, todos os dias, de diferentes tamanhos, sem qualquer molde, que fazedor de nuvens há-de ser criativo o suficiente para deixar que as nuvens moldem a mão, para que um dia elas, estejam lá onde estiverem, se lembrem de mim e me venham rodear quando estiver sentado algures, moldarem-me para que eu, de olhos entreabertos, confuso, acorde de novo, num outro monte, num outro ermo, moldado a nuvens, vento, sonhos e olhares.
Quantas nuvens terei eu já feito?
E para quê?
Mas, confesso ainda sem saber, vou fazendo-as, todos os dias, de diferentes tamanhos, sem qualquer molde, que fazedor de nuvens há-de ser criativo o suficiente para deixar que as nuvens moldem a mão, para que um dia elas, estejam lá onde estiverem, se lembrem de mim e me venham rodear quando estiver sentado algures, moldarem-me para que eu, de olhos entreabertos, confuso, acorde de novo, num outro monte, num outro ermo, moldado a nuvens, vento, sonhos e olhares.
2011-06-12
Ca(o)s
Palmilhando caminhos, de terra, pedras soltas, folhas secas de eucalipto, pergunto-me porque razão não encontro duas pedras iguais, porque razão me vejo desprovido da capacidade de olhar em 360º esféricos, apreciando tudo por igual, deixando-me maravilhar com os padrões caóticos com que o cascalho se transforma em terra, e a terra se vê pisada por este calcário pedregal que se cobre, de livre vontade, pelas folhas dos eucaliptos que parecem acenar a quem de invisível passa ou talvez seja apenas o vento que teima em competir com os carros que vociferam, espezinhados pelos proprietários, na auto-estrada...
2011-06-11
Descalço-me, sinto a terra, quente, nos meus pés...
Algures pelo Universo, este berlinde rodopia e rodopia-se, incessantemente, durante anos e segundos.
Não consigo deixar de me sentir rodopiar, agora, no portátil, numa lagoa do Alvão ou num dos muitos recantos do Gerês... Quantas partes de mim se escondem num tronco, num animal faminto, numa cereja amadurecida, numa chuva quente de Primavera, num olhar pelo horizonte, num país qualquer que me acolha como voluntário.
Lentamente, a minha unidade e identidade separam-se para percorrerem todos as dimensões que desconheço. Vou construindo as frases como quem se recorda do útero, como quem tenta, entre pinceladas, o traço fino com que desenho o dia de amanhã. A poesia, a prosa, tudo o que seja escrever, pensar, verbalizar, contextualizar, tudo me foge das mãos para se esconder e partilhar com o vento, esse sim, viajante eterno que se esconde onde todos o encontram.
Faz-me falta a caminhada, o sentir descontraído do vento e do sol, da chuva e do frio, pelos caminhos que vou percorrendo, mesmo sem rumo, mas com destino, enchendo o peito de feno, de pólen, de uma ou outra lágrima que se desprende para molhar o pensamento.
Não caibo em mim. Hoje, sou tu e tu, e tu, e tu! Hoje sou todos nós, pelos quadros que nunca pintei, pelos muros que nunca saltei com medo do lado de lá. E hoje, que não sou eu, é quando verdadeiramente me sinto em mim, sem riso ou lágrima, apenas brisa ou ar gélido, ou eu.
Se um dia as minhas mãos se calarem, que não se esqueçam meus olhos do caminho que me leva até mim, ainda que distante.
2011-06-07
Des(níve)is
Vejo-os desarrumados, nos passeios latrinados que ladeiam as calçadas, agora sem pátria, a arrumar, em movimento sincronizados (aqui chefe!), as pessoas veiculizadas das cidades...
Os olhares de tais indivíduos são plurais, habitam neles legiões de idos, de sombras sarjetadas de quem não se sabe, ainda, arrumado.
Se um carro aponta na curva, o assobio, a corrida cambaleada, o olhar esbugalhado na dose antecipada (uma ajudinha chefe, para um caldinho; como se lhe servissem sopa, às tantas da tarde, a quem se assemelha a um vegetal desenraizado de uma terra qualquer que o pariu) e a mão estendida, mão aberta que não fala, não ouve, apenas se estende e amortalha para, aos poucos, ir consumindo o corpo, primeiro de esperança, depois de mentiras e, finalmente, de tão vão e oco, o vazio.
É vulgar o vestuário, que nunca regra geral, ser de cor das noites geadificadas, esfarrapadas, onde o frio faz morada e habita onde quem o acolha.
O cheiro vagueia pelo ar, acredito que ele mesmo nauseado, dos tempos e tempos abandonados.
É difícil imaginar, sequer ver, qualquer horizonte emparelhado, seja com a solidão, seja com alguém, onde se acalentam os dias adormecidos e se partilham cartões, canelados, cobertores, vãos de escadas, esquinas capitais e, quando a noite se permite aquecer, um banco de jardim.
Pergunto-me o que me separa disto, deles, do cartão canelado.
Que mundos tão desnivelados existem dentro de uma só vida...
Tenho sede, vontade de orvalhar pelo mudo, pelos caminhos e estações de comboio desta vida.
2011-06-05
Em porcelana
Uma chávena em porcelana, um aparo sedento e ideias que não aderem à cerâmica...
Sacia-me a vida
Sacia-me a vida
na sede que me nasce no olhar
pontilho-te, pigmentado, a matiz desnivelada da bebida
para na alma, colorida,
um amor se confortar...
um dia, mochila, caderno, trocando poesia por comida, por aí, até acabarem todas as estradas e me sobrarem, finalmente, as estrelas...
2011-05-27
Não sei já onde colocar os agoras, todos os antes que se anunciam a cada amanhecer, todas as eras que se dissolvem em cada espelho, o ser o que foi, galgando os dias como vidas, sem que se viva um dia sequer, apenas porque o tempo, como sempre criança, vai rodopiando como um pião, na palma da minha mão.
2011-05-25
Alimento-me da fome, da sede, da inconstância do vento que sopra apenas quando cá não estou, da chuva que me cai pelos braços e se deleita ao cair, de costas, no chão, encharcada, a olhar para mim e a sorrir.
Se dimensões houvesse, inventá-las-ia, eu, feitas do mesmo material com que construo as histórias que não escrevo.
2011-05-22
Descubro agora, no vidrado que se amortalha nos dedos, que sempre fui azulejo cuja mão, trémula, me teima pintar quando eu, na verdade, feito de azulejo e cavalete, tenho cor que não se vê, porque se oxida o amor quando fora do seu tento.
De mistura em mistura, miscelâno-me com os olhares que outros mundos afloram, para sombrear ao de leve a flor, no vento, que se deteve.
2011-05-20
pois(o)
Porque ondulam as folhas
se eu,
o vento,
repouso sem me saber ventar?
Os pequenos cerrados que se abrem ao florir,
as quadrículas sem gente e os muros musgados onde descansam melros,
são meu poiso
e das raposas
e dos canteiros com rosas
onde vou ceifar meu oiro.
2011-05-17
2011-05-15
Vai-se o vento pelas portas entreabertas, entre, estão abertas, as portas, por onde se vai o vento... Que daqui ao infinito, reza a distância de um terço de eternidade, tudo porque não sabemos, ainda, que o nosso futuro está do lado de lá da idade.
Sonharei até que o vento se explique e me diga, porque voa, a razão de se ter expirado ao largo da minha mocidade.
As ruas recolhem-se, agora, à noite, para que os caminhos saiam à rua, com as suas sombras a iluminar o pouco de luz que espreita, que hoje é dia da Lua se deitar cedo.
Mais cem anos num só dia, para que eu viva os que sou, nos locais que habitarei no passado que me fiz.
Gosto de viajar no tempo, para descobrir que, apenas na carne e nalgum osso, o tempo não existe.
2011-05-09
Vou preenchendo os vazios que não conheço com todas as personagens que me sugam o olhar e todos os olhares que fazem abrir as mãos.
Um dia, serei por fim capa, contracapa, sem prefácio, com lombada de urze e as letras hão-de ser, quem sabe, apenas pétalas e granizo, ou nevoeiro e madrugada, ou apenas o vazio escrito com pingos de café.
2011-05-06
2011-04-25
Páscoa
Há ocasiões, como nestes dois últimos sábados, que volto a ser criança. Ele não me pede, fala, e eu é que peço para ir. Vou levar um móvel, uma garrafeira, uma prateleira, vou tirar medidas (na verdade vou apenas ver, segurar na fita ou no bloco), fico ali ao lado dele, com um sorriso tímido, como se ainda tivesse 10 anos. Há algo mágico, que não sei explicar, que tento escrever, mas que me deixa ainda mais frustrado, pois sei que não existem palavras. Talvez alguém que tenha/passe por algo assim ou semelhante e com melhores dotes de comunicação possa fazer, mas eu não consigo. Pegar num móvel em esforço, para depois me lembrar que tenho 35 anos, que não preciso de tanta força assim, que sou um homem. Saber para que lado virar, como pegar, como colocar os pés nos degraus, para que lado empurrar, qual a peça de ferramenta que vai precisar a seguir. É esta cumplicidade. O pouco diálogo. Cortar o silêncio com um comentário sobre futebol (do qual me desligo lentamente) ou uma nova teoria de conspiração, ou sobre o livro novo que estás a ler. É falar sobre tudo e sobre nada. O trabalho que dá fazer um parafuso. O mistério que é o Universo, o seu início, o seu fim, o nosso fim. Experimentar um novo troço de autoestrada para te ver como eu era em criança, maravilhado com algo novo. Ainda guardo um cubo de madeira, é a letra Z curiosamente, sobrou-me a última letra de todos os cubos que fizeste com todas as letras e com as quais aprendi, sozinho, a ler e a escrever ao copiar o que via escrito nos livros que lias na altura. É estar sentado no escuro, nos Invernos com trovoadas que levavam a electricidade, sob um coberto cor-de-laranja, contigo a mostrar-me a magia, ao soprares e só passados uns segundos a vela a oscilar.
Tenho 35 anos e, no entanto, quando conduzo, é como se fosse ainda a olhar para ti, a segurar com as mãos um livro do Lucky Luke e a imitar todos os teus movimentos no volante.
É entrar agora contigo no café, ser mais alto uns bons centímetros, dizerem-te "lá vêm os Casagrande", ou tu sorrires e dizeres "atenção que hoje trago guardo-costas!".
É ver-te sentado no sofá, a dormir, e eu apagar a televisão ou baixar o volume e tu responderes "eu estava a ver".
A vida já te deu vários pontapés na boca e tu ainda continuas maravilhado com ela, com a magia da vida, a acreditar na bondade das pessoas, a seres bom, ainda que nem o saibas que és.
Penso ainda, por vezes, condicionado por esta sociedade, que deveria ser riquíssimo, dar-te tudo o que me dás, mas vejo agora que, meu Deus, não há riqueza maior que esta, que nos rirmos com piadas que só nós conhecemos, sinto ainda que vou abraçado a ti, com os olhos fechados, a sentir o vento nas pernas e nas mãos, com o capacete a bambolear, sentado na traseira da barulhenta Java.
É sentir que aconteça o que acontecer, sempre nos teremos uns aos outros, a família, os verdadeiros amigos, enquanto houver pontes, grutas, erva, sol, noite, rios, enquanto houver um universo nada poderá existir que nos tire a liberdade de sermos quem somos, de nos rirmos quando mordemos uma extremidade de um cachorro especial, desses que se compra nas roulottes, e ver cair da outra extremidade um monte de batatas fritas ao mesmo tempo que fugimos com os pés para trás para não nos cair a carrada de molhos que pedimos para colocar sobre aquela saborosa mixórdia.
Se um dia eu puder ser mãos, quero ser as tuas.
E o mais fantástico é que nada disto é novo, é cíclico, já o tinha comigo antes de nascer, continuará comigo e apesar de não saber porque razão escrevo isto agora, faço-o. Porque sim. Porque estas coisas não se explicam e eu estou a aprender que nem preciso de escrever bem, de ser fiel às minhas memórias ou sonhos, porque na verdade e embora me entristeça, porque gostava de poder transmitir tudo aquilo que sinto, tudo já foi escrito, tudo já existe em cada um de nós, em cada uma das pessoas, porque somos felizes com nada e o Universo está cheio dele.
Virá o dia em que não precisaremos escrever (e tudo o que se perde do que vem do etéreo para o cérebro e deste para as mãos) e aí sim, todos saberão o que é escrever com o olhar.
Até lá, vou perdendo o olhar em tudo o que me rodeia, na tentativa de, um dia, as minhas mãos serem um pouco a extensão do que Sou.
2011-04-19
2011-04-18
(lu)Ar
Aqui perto
as nuvens
chovem-me lá
ao longe
como o ribombar surdo
de uns dias que não nascem,
a cidade dissolve-se a cada Verão
as paredes, ainda que vivas,
são túmulos de velhos tocantes
numa orquestra onde todos são solistas.
Cada porta uma teia
onde habitou um conto,
uma história,
a epopeia de um Ulisses fragmentado
que se veste de memória.
Nem sempre fustiga o vento,
sopra, somente, à feição do soluçar
que pode alimentar um lamento
ou despedir-se de ti,
Luar.
2011-04-17
Uma música encomendada
Um Sol no meu dia a nascente do que desejo
Um trilho abandonado no teu beijo
O amor que se entrega e devaneia
à procura da nuvem que te leia…
Um sorriso teu na timidez do que sou
Viajas comigo nas ruas onde não estou
A sombra invisível projectada no meu dia
Trinado solitário de um crepúsculo de magia…
refrão
E os quadros que pintamos serão o céu
da paixão que bailamos no liceu,
Um sulco marcado pelas águas da vida que nunca morreu…
Há em mim um pequeno tudo de ti
Sabor de vida que ainda não vivi,
Somos um segundo da eternidade futura, da canção que escrevi.
O vazio preenche-me os pequenos nadas
E inundam as velhas ondas nas barras
O porto ancorado a um mar isolado
Na ilha deserta, que se chama fado…
Olhares almejados são paredes austeras
Os dias e noites que me rosnam como feras,
A idade faz-me velho num corpo de novo
És a vida que sacia, mas que não sorvo…
refrão
Guardo o segredo de te saber ninguém
Um passado futuro que me contém,
Os passos marcados no afago adiado
As curvas da estrada pendem para o mesmo lado.
Nada do que escreva no teu caminho
Conjuga as notas dum maestro sozinho,
O acorde que se agarra à minha mão
É o voo adiado na palma desta canção…
refrão final
E os quadros pintados são o céu
da paixão que escrevemos e nasceu,
o sulco profundo do rio aberto que é teu.
Tens em ti o tudo que sou e aclama
A noite cantando na tua alma,
Nós no sonho, que suspiras na boca, que me ama.
FaDo
Transporto vários punhados de nuvens
que semeio escondido
nas memórias entrelaçadas
de um puto de ilusão vestido.
Caminho a teu lado
no doce sabor de uma surpresa,
aprendo a sorrir como quem reza
e se espanta com o negrume do fado
cantado
por uma guitarra presa.
2011-04-14
Na alvorada silvestre que desconheço
anseio-me ao futuro que teci,
caminhando no teu ombro onde adormeço
desconhecendo os dias
que vivi.
Ausculto as árvores
cujos frutos nunca amadureci,
sem raízes
ou folhas,
apenas vento,
aos molhes,
vou-me precipitando lentamente
sem que me evapore
a vontade de,
orvalhando,
nascer...
2011-04-11
2011-04-10
2011-04-03
2011-03-27
2011-03-24
A árvore da Sabedoria
A convite do meu amigo e camarada de sonhos, Norberto Valério, fiz um pequeno conto (ou lá o que seja) para o tema "Floresta". E ele, na sua infinita capacidade de fazer brilhar, juntamente com os alunos e alunas dele ilustraram, narraram e o resultado final foi uma brilhozinho nos meus olhos e a sensação, rara, de estar no local certo à hora certa.
Foi hoje, depois das 13:30, que na EB1/JI de Mouriz me vi onde acho que deveria estar sempre, entre as crianças (as verdadeiras árvores), numa escola, com a melodia doce das vozes de hoje que se repercutirão no amanhã... Fecho os olhos e é fácil ver-me, a deambular pelos corredores e a perder o olhar em cada desenho preso nas paredes. Se desse para voltar atrás...
Obrigado (de coração cheio)!
Foi hoje, depois das 13:30, que na EB1/JI de Mouriz me vi onde acho que deveria estar sempre, entre as crianças (as verdadeiras árvores), numa escola, com a melodia doce das vozes de hoje que se repercutirão no amanhã... Fecho os olhos e é fácil ver-me, a deambular pelos corredores e a perder o olhar em cada desenho preso nas paredes. Se desse para voltar atrás...
Obrigado (de coração cheio)!
2011-03-22
Gosto de pensar que o simples acto de se ser quem é pode permitir que, do outro lado deste emaranhado de células, vejam uma janela, uma pequena abertura, para alguém sentir que pode ser quem é...
É esta interacção que torna tudo mais interessante e sincero, o despojamento do que não se é e a descoberta daquilo que somos.
Pão
No voo calado da liberdade
a minha canção deambula eternamente,
faço da sombra do papel
minha verdade,
onde desaguam meus sonhos
a nascente.
Quantos dias sem quotidianos
e céus, azuis, sem qualquer cor,
no vazio nublado de uma multidão,
pendem as árvores de seus ramos
para nascerem ao desafio
salteadas pelo chão.
Longos dias tem uma lágrima,
no sorriso que as ondas cacofonam
a vida faz-se de impulsos e desventuras,
de corpos movidos a ilusão,
vai, carente, um ser com fome
que não se sabe, ser pão.
2011-03-21
2011-03-16
2011-03-15
2011-03-14
Olhos semicerrados, o vento fustiga o telhado de zinco fazendo cair o pó que o tempo roeu ao contraplacado.
Uns pilares de madeira vão bailando ao mesmo ritmo que o vento.
Um grosso tronco, o que resta dele, serve de banco a um corpo que se vai cansando de o ser.
Um barraco sem casa, um tecto sem céu.
Os últimos dias da vida são o abandono da vida, para viver aquilo que o dia de amanhã do lado de lá trará, ao de cá.
2011-03-13
Rumo ao por-do-Sol de um Sol que não se vê.
O céu ainda azul, várias camadas de nuvens, inconstantes tons de azul até um negro negrume, prenhe de chuva e, de repente, é como se eu me abandonasse da escada e fosse escalando, conceito a conceito, até ao topo de uma torrencialidade de emoções.
Os céus são os mesmos, mas as nuvens de outrora divagam em ares jamais respirados.
And there's a slow, slow train coming...
2011-03-12
O mestre que, como tantos outros, com ou sem voz, falou a todos sem que todos o ouvissem, vissem e/ou sentissem.
Mais do que nunca caminhamos em círculos, sem direcção, apenas direccionados por quem nos ordena: sejam quem queremos que sejam, não pensem, não Vivam, vivam aquilo que pensam vestir...
E um dia descobriremos, a que custo?, que o que temos vestido é apenas o que outros querem que sejamos.
2011-03-08
Lança(r)
As ruas têm o meu nome escrito, nas calçadas, nas caras, nos ventos que se misturam e empurram o dia até à noite.
Sou-me.
Meu.
Do que vento.
Da necessidade absoluta de ver, de viver... De reviver!
De me andar por aí como se estivesse por aqui.
De lançar-me para me apanhar.
Por pouco que fale, é a mim que escuto, nos locais onde não estou é a minha vida que se esvai pelo Eu que (ainda) não Sou e daqueles que me perguntam da vida o que tenho, só o universo entre universos que com os olhos desenho...
2011-02-28
2011-02-17
2011-02-16
Os dias escorregam-me pela noite,
há uma loucura que se ausenta
e dos meus sonhos
a liberdade que se afugenta,
um cansaço que transpira,
uma mão nas costas, fria.
Dilui-se a vida na paisagem
e a voz,
sem preço,
que se desfaz em viagem
pelo silencioso suspiro da terra fria urdida,
agora é a chuva que uiva à ausência
da alma do transmontano
por eles vendida.
2011-02-09
Embarca no horizonte,
longe as sombras do sustento,
a lavoura que se faz com um lamento,
a mão poeirenta no som da cancela rangida,
aqui só a morte parece ganhar vida.
Olhos embaçados,
nublados,
tolhidos pela recordação que se quer presente
sobre os dias que se avançam
quase de forma demente.
Nasce um quotidiano
ou uma criança,
as fragas enviúvam caladas,
ao redor da solidão um negrume que dança
veste a noite que dura um ano.
Um passo imóvel,
o tempo chove tão lentamente
que até a novidade, quando surge,
vem em aguaceiros.
Forma de gente à soleira
entrecortada num postigo semicerrado,
uma mão,
um cachaço,
a loucura abraçada pelo amor
num sussurro calado.
Ao destino da partida
a voz que pergunta “onde vais?”,
mas já os movimentos crepuscularam
caindo arfando num futuro
que não volta mais…
2011-01-30
De todos os bocadinhos que sou, uns são meus, do granito, do solo que me foge, do musgo na parede, dos degraus toscos, de uma boa amizade, de meia dúzia de olhares trocados, do que se sabe ser, do que se desconhece não ser, das palavras que nunca escrevi, das crianças, dos sorrisos, da boroa com café quente, do riso, do choro. De todos os bocadinhos que sou, sou o mais calado, sem letras. Feliz. À minha maneira.
2011-01-25
This was a big river
O tempo dirá, não a nós, talvez às gerações futuras, as vossas, que a minha já o tempo ma levou, se as cicatrizes que não curamos em forma de biodiversidade perdida, a troco de umas discussões egoístas e egóicas, de uns interesses camuflados, de uns emaranhados caminhos retorcidos e austeros, de umas pacificadas águas em torno de um frio muro de betão, semi-erguido por homens, terá sido o nosso caminho... Temo que, tal como hoje, sem sabermos para onde vamos, todo e qualquer caminho não construído a pensar no bem maior será, irremediavelmente, uma cova mais profunda, da qual não saberemos sair.
Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.
Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.
2011-01-24
A pé
Chove tristeza.
Chove e entranha-se na vida,
pintando,
gradualmente
de negro e cinzento
as cores errantes
com que construo meu lamento.
Há um bafiento odor a abandono,
um borbulhante queixume ao encontro da maré,
sempre vaza,
pelos que nos roubam o andar
sem saberem
que os sonhos
se fazem a pé.
2011-01-14
De repente, já nem os olhos sentem... O corpo, que se quer ligeiro, vai acumulando vidas num só dia. Ao longe, pelo espelho, as montanhas, os nevoeiros matinais que trazem um sabor húmido, desperto apenas pelo Sol do meio-dia, o som dos regatos que nascem como flores sob as rochas.
These mist covered mountains, are a home now for me...
2011-01-13
Poucos sabores do mundo se vislumbram também como esta vidraça, quente pelo Sol, meia dúzia de passarecos tolhidos pelas migalhas que estão entre os paralelos, o barulho de um lápis a percorrer o caderno, sôfrego, e eu a imaginar-me, nos olhos fechados, algures entre o lápis e o caderno, entre o voo e o Sol.
Vidas atadas
De vidas atadas se faz um silêncio,
de silêncios sulcados se ara um povo,
as pedras com que os lapidam
têm nome de gente,
vozes surdas que se atiçam,
num velho Sol que nasce, de novo.
Leiloem-se mãos,
cegas ocultam um céu igual
às noites caladas,
onde por elas navegaram os chãos,
roubados,
sobram agora vários farrapos de nada,
afundados,
por mar de gente
que se faz lodaçal.
Os amanheceres prometidos,
as nesgas de um tudo
nos vários pedaços de nada,
estão minhas mãos desfolhadas e cegas
abraçando mil corpos despidos.
Escuto o vosso horizonte mudo
na escuridão que se ajoelha e reza,
para ser o amortalhado
calado
povo
que vossa ganância despreza.
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