2011-05-20

pois(o)

Porque ondulam as folhas
se eu,
o vento,
repouso sem me saber ventar?
Os pequenos cerrados que se abrem ao florir,
as quadrículas sem gente e os muros musgados onde descansam melros,
são meu poiso
e das raposas
e dos canteiros com rosas
onde vou ceifar meu oiro.

2011-05-17

Sobre o chão derramado
escoam-se as vintenas de dias aflitos,
a maré do viver que se faz mantra
diviniza o profano
que em mim se levanta.
Ecoam as feras humanizadas
pelas paliçadas
sacudindo a ignorância com desprezo
de quem se sabe tanto
sem calcular por quanto.

2011-05-15

Vai-se o vento pelas portas entreabertas, entre, estão abertas, as portas, por onde se vai o vento... Que daqui ao infinito, reza a distância de um terço de eternidade, tudo porque não sabemos, ainda, que o nosso futuro está do lado de lá da idade.
Sonharei até que o vento se explique e me diga, porque voa, a razão de se ter expirado ao largo da minha mocidade.
As ruas recolhem-se, agora, à noite, para que os caminhos saiam à rua, com as suas sombras a iluminar o pouco de luz que espreita, que hoje é dia da Lua se deitar cedo. 
Mais cem anos num só dia, para que eu viva os que sou, nos locais que habitarei no passado que me fiz. 
Gosto de viajar no tempo, para descobrir que, apenas na carne e nalgum osso, o tempo não existe.

2011-05-09

Vou preenchendo os vazios que não conheço com todas as personagens que me sugam o olhar e todos os olhares que fazem abrir as mãos.
Um dia, serei por fim capa, contracapa, sem prefácio, com lombada de urze e as letras hão-de ser, quem sabe, apenas pétalas e granizo, ou nevoeiro e madrugada, ou apenas o vazio escrito com pingos de café.

2011-05-06

Curioso como vários momentos se conjugam na mesma pessoa, singular ou plural, para manter os universos em rotação.

2011-04-25

Alguém me sabe dizer que planeta é este, por favor?

Páscoa

Há ocasiões, como nestes dois últimos sábados, que volto a ser criança. Ele não me pede, fala, e eu é que peço para ir. Vou levar um móvel, uma garrafeira, uma prateleira, vou tirar medidas (na verdade vou apenas ver, segurar na fita ou no bloco), fico ali ao lado dele, com um sorriso tímido, como se ainda tivesse 10 anos. Há algo mágico, que não sei explicar, que tento escrever, mas que me deixa ainda mais frustrado, pois sei que não existem palavras. Talvez alguém que tenha/passe por algo assim ou semelhante e com melhores dotes de comunicação possa fazer, mas eu não consigo. Pegar num móvel em esforço, para depois me lembrar que tenho 35 anos, que não preciso de tanta força assim, que sou um homem. Saber para que lado virar, como pegar, como colocar os pés nos degraus, para que lado empurrar, qual a peça de ferramenta que vai precisar a seguir. É esta cumplicidade. O pouco diálogo. Cortar o silêncio com um comentário sobre futebol (do qual me desligo lentamente) ou uma nova teoria de conspiração, ou sobre o livro novo que estás a ler. É falar sobre tudo e sobre nada. O trabalho que dá fazer um parafuso. O mistério que é o Universo, o seu início, o seu fim, o nosso fim. Experimentar um novo troço de autoestrada para te ver como eu era em criança, maravilhado com algo novo. Ainda guardo um cubo de madeira, é a letra Z curiosamente, sobrou-me a última letra de todos os cubos que fizeste com todas as letras e com as quais aprendi, sozinho, a ler e a escrever ao copiar o que via escrito nos livros que lias na altura. É estar sentado no escuro, nos Invernos com trovoadas que levavam a electricidade, sob um coberto cor-de-laranja, contigo a mostrar-me a magia, ao soprares e só passados uns segundos a vela a oscilar.
Tenho 35 anos e, no entanto, quando conduzo, é como se fosse ainda a olhar para ti, a segurar com as mãos um livro do Lucky Luke e a imitar todos os teus movimentos no volante.
É entrar agora contigo no café, ser mais alto uns bons centímetros, dizerem-te "lá vêm os Casagrande", ou tu sorrires e dizeres "atenção que hoje trago guardo-costas!".
É ver-te sentado no sofá, a dormir, e eu apagar a televisão ou baixar o volume e tu responderes "eu estava a ver".
A vida já te deu vários pontapés na boca e tu ainda continuas maravilhado com ela, com a magia da vida, a acreditar na bondade das pessoas, a seres bom, ainda que nem o saibas que és.
Penso ainda, por vezes, condicionado por esta sociedade, que deveria ser riquíssimo, dar-te tudo o que me dás, mas vejo agora que, meu Deus, não há riqueza maior que esta, que nos rirmos com piadas que só nós conhecemos, sinto ainda que vou abraçado a ti, com os olhos fechados, a sentir o vento nas pernas e nas mãos, com o capacete a bambolear, sentado na traseira da barulhenta Java.
É sentir que aconteça o que acontecer, sempre nos teremos uns aos outros, a família, os verdadeiros amigos, enquanto houver pontes, grutas, erva, sol, noite, rios, enquanto houver um universo nada poderá existir que nos tire a liberdade de sermos quem somos, de nos rirmos quando mordemos uma extremidade de um cachorro especial, desses que se compra nas roulottes, e ver cair da outra extremidade um monte de batatas fritas ao mesmo tempo que fugimos com os pés para trás para não nos cair a carrada de molhos que pedimos para colocar sobre aquela saborosa mixórdia.
Se um dia eu puder ser mãos, quero ser as tuas.
E o mais fantástico é que nada disto é novo, é cíclico, já o tinha comigo antes de nascer, continuará comigo e apesar de não saber porque razão escrevo isto agora, faço-o. Porque sim. Porque estas coisas não se explicam e eu estou a aprender que nem preciso de escrever bem, de ser fiel às minhas memórias ou sonhos, porque na verdade e embora me entristeça, porque gostava de poder transmitir tudo aquilo que sinto, tudo já foi escrito, tudo já existe em cada um de nós, em cada uma das pessoas, porque somos felizes com nada e o Universo está cheio dele.
Virá o dia em que não precisaremos escrever (e tudo o que se perde do que vem do etéreo para o cérebro e deste para as mãos) e aí sim, todos saberão o que é escrever com o olhar.
Até lá, vou perdendo o olhar em tudo o que me rodeia, na tentativa de, um dia, as minhas mãos serem um pouco a extensão do que Sou.

2011-04-19

Ainda pela estrada, nos paralelos molhados, com o vidro aberto a conversar com a chuva que vai caindo. É bom ter amigos assim.

2011-04-18

(lu)Ar

Aqui perto
as nuvens
chovem-me lá
ao longe
como o ribombar surdo
de uns dias que não nascem,
a cidade dissolve-se a cada Verão
as paredes, ainda que vivas,
são túmulos de velhos tocantes
numa orquestra onde todos são solistas.
Cada porta uma teia
onde habitou um conto,
uma história,
a epopeia de um Ulisses fragmentado
que se veste de memória.
Nem sempre fustiga o vento,
sopra, somente, à feição do soluçar
que pode alimentar um lamento
ou despedir-se de ti,
Luar.

2011-04-17

Não há um dia em que vá dormir, me entregue ao lado de lá, e não pense nas ideias, projectos, sonhos, que tenho, desta e doutras vidas e idealize, entre milhares de hipóteses, todos Eus que se juntam em mim.

Uma música encomendada

Um Sol no meu dia a nascente do que desejo
Um trilho abandonado no teu beijo
O amor que se entrega e devaneia
à procura da nuvem que te leia…

Um sorriso teu na timidez do que sou
Viajas comigo nas ruas onde não estou
A sombra invisível projectada no meu dia
Trinado solitário de um crepúsculo de magia…

refrão
E os quadros que pintamos serão o céu
da paixão que bailamos no liceu,
Um sulco marcado pelas águas da vida que nunca morreu…
Há em mim um pequeno tudo de ti
Sabor de vida que ainda não vivi,
Somos um segundo da eternidade futura, da canção que escrevi.

O vazio preenche-me os pequenos nadas
E inundam as velhas ondas nas barras
O porto ancorado a um mar isolado
Na ilha deserta, que se chama fado…

Olhares almejados são paredes austeras
Os dias e noites que me rosnam como feras,
A idade faz-me velho num corpo de novo
És a vida que sacia, mas que não sorvo…

refrão

Guardo o segredo de te saber ninguém
Um passado futuro que me contém,
Os passos marcados no afago adiado
As curvas da estrada pendem para o mesmo lado.

Nada do que escreva no teu caminho
Conjuga as notas dum maestro sozinho,
O acorde que se agarra à minha mão
É o voo adiado na palma desta canção…

refrão final
E os quadros pintados são o céu
da paixão que escrevemos e nasceu,
o sulco profundo do rio aberto que é teu.
Tens em ti o tudo que sou e aclama
A noite cantando na tua alma,
Nós no sonho, que suspiras na boca, que me ama.

FaDo

Transporto vários punhados de nuvens
que semeio escondido
nas memórias entrelaçadas
de um puto de ilusão vestido.
Caminho a teu lado
no doce sabor de uma surpresa,
aprendo a sorrir como quem reza
e se espanta com o negrume do fado
cantado
por uma guitarra presa.
Vou escrevendo com a respiração todas as possibilidades que as histórias que beijo me propõem. 
Um mundo abre-se, ainda que timidamente, para um dia que se põe à distância que vai do polegar ao indicador. 
Temo que não me cheguem dias para escrever, nem olhares para respirar.

2011-04-14

Na alvorada silvestre que desconheço
anseio-me ao futuro que teci,
caminhando no teu ombro onde adormeço
desconhecendo os dias
que vivi.

Ausculto as árvores
cujos frutos nunca amadureci,
sem raízes
ou folhas,
apenas vento,
aos molhes,
vou-me precipitando lentamente
sem que me evapore
a vontade de,
orvalhando,
nascer...

2011-04-11

É tão fácil perder o fio condutor, quando o mesmo conduz a tudo isto que se vê e ouve. 
Meto a mão no bolso e procuro outro novelo, emaranhado, que vou desenrolando, na expectativa de, agora, este me levar onde devo estar, junto com outros novelos.

2011-04-10

De repente a vida vive-se, os sonhos variam na direcção como as sombras ao longo do dia. Pudesse eu ser estrada.

2011-04-03

Procuro-me à margem do que me fazem
ausente mundanamente
das estradas onde os sonhos partem,
caminhando erroneamente
à chuva sôfrega
dos destinos que me sorvem.

2011-03-27

Gosto de pensar que depende apenas de mim mudar, de deixar para trás hábitos, trabalhos, pensamentos e ser apenas aquilo que se É ou, no mínimo, partir à descoberta, acompanhado, sem preocupações "mundanas". Um dia...

2011-03-24

A árvore da Sabedoria

A convite do meu amigo e camarada de sonhos, Norberto Valério, fiz um pequeno conto (ou lá o que seja) para o tema "Floresta". E ele, na sua infinita capacidade de fazer brilhar, juntamente com os alunos e alunas dele ilustraram, narraram e o resultado final foi uma brilhozinho nos meus olhos e a sensação, rara, de estar no local certo à hora certa.
Foi hoje, depois das 13:30, que na EB1/JI de Mouriz me vi onde acho que deveria estar sempre, entre as crianças (as verdadeiras árvores), numa escola, com a melodia doce das vozes de hoje que se repercutirão no amanhã... Fecho os olhos e é fácil ver-me, a deambular pelos corredores e a perder o olhar em cada desenho preso nas paredes. Se desse para voltar atrás...
Obrigado (de coração cheio)!

2011-03-22

Gosto de pensar que o simples acto de se ser quem é pode permitir que, do outro lado deste emaranhado de células, vejam uma janela, uma pequena abertura, para alguém sentir que pode ser quem é... 
É esta interacção que torna tudo mais interessante e sincero, o despojamento do que não se é e a descoberta daquilo que somos.

Pão

No voo calado da liberdade
a minha canção deambula eternamente,
faço da sombra do papel
minha verdade,
onde desaguam meus sonhos
a nascente.
Quantos dias sem quotidianos
e céus, azuis, sem qualquer cor,
no vazio nublado de uma multidão,
pendem as árvores de seus ramos
para nascerem ao desafio
salteadas pelo chão.
Longos dias tem uma lágrima,
no sorriso que as ondas cacofonam
a vida faz-se de impulsos e desventuras,
de corpos movidos a ilusão,
vai, carente, um ser com fome
que não se sabe, ser pão.

2011-03-21

Continuo a desejar as árvores, a sombra, as frestas de luz por entre os pinheiros... 
Continuo a desejar, mais que nunca, a simplicidade, a paz.

2011-03-16

Uma quadra para a criançada :)

Sai à rua a alegria
debaixo do Sol de todos nós,
é hoje o nosso grande dia
que chega bailando até vós.

Venham até aqui rever
as pétalas das vossas certezas,
aqui não moram tristezas
apenas a alegria de viver!

2011-03-15

O bailado que se desprende das árvores
tem na orvalhada manhã o tempo,
no sulcado sucalco nublado
o frágil suporte da vida
em que me sento,
do futuro teço a breve memória
em dias vividos num outro eu.

2011-03-14

Olhos semicerrados, o vento fustiga o telhado de zinco fazendo cair o pó que o tempo roeu ao contraplacado. 
Uns pilares de madeira vão bailando ao mesmo ritmo que o vento. 
Um grosso tronco, o que resta dele, serve de banco a um corpo que se vai cansando de o ser. 
Um barraco sem casa, um tecto sem céu. 
Os últimos dias da vida são o abandono da vida, para viver aquilo que o dia de amanhã do lado de lá trará, ao de cá.

2011-03-13

Rumo ao por-do-Sol de um Sol que não se vê. 
O céu ainda azul, várias camadas de nuvens, inconstantes tons de azul até um negro negrume, prenhe de chuva e, de repente, é como se eu me abandonasse da escada e fosse escalando, conceito a conceito, até ao topo de uma torrencialidade de emoções. 
Os céus são os mesmos, mas as nuvens de outrora divagam em ares jamais respirados.
And there's a slow, slow train coming...

2011-03-12

O mestre que, como tantos outros, com ou sem voz, falou a todos sem que todos o ouvissem, vissem e/ou sentissem. 
Mais do que nunca caminhamos em círculos, sem direcção, apenas direccionados por quem nos ordena: sejam quem queremos que sejam, não pensem, não Vivam, vivam aquilo que pensam vestir... 
E um dia descobriremos, a que custo?, que o que temos vestido é apenas o que outros querem que sejamos.

2011-03-08

Lança(r)

As ruas têm o meu nome escrito, nas calçadas, nas caras, nos ventos que se misturam e empurram o dia até à noite. 
Sou-me.
Meu. 
Do que vento. 
Da necessidade absoluta de ver, de viver... De reviver! 
De me andar por aí como se estivesse por aqui. 
De lançar-me para me apanhar.
Por pouco que fale, é a mim que escuto, nos locais onde não estou é a minha vida que se esvai pelo Eu que (ainda) não Sou e daqueles que me perguntam da vida o que tenho, só o universo entre universos que com os olhos desenho...

2011-02-28

Tenho uma profunda admiração pelos jardineiros, pela simplicidade de se sentarem num canteiro, com uma navalha a descascar uma laranja, comerem e afagarem a Natureza... 
Um dia destes...

2011-02-17

Coisa parecida com pessoa oferece-se a rebanho que o aceite para pastor... Ou como ovelha...

2011-02-16

Os dias escorregam-me pela noite,
há uma loucura que se ausenta
e dos meus sonhos
a liberdade que se afugenta,
um cansaço que transpira,
uma mão nas costas, fria.

Dilui-se a vida na paisagem
e a voz,
sem preço,
que se desfaz em viagem
pelo silencioso suspiro da terra fria urdida,
agora é a chuva que uiva à ausência
da alma do transmontano
por eles vendida.



Jovem de espírito oferece-se para pastor.

2011-02-09

Embarca no horizonte,
longe as sombras do sustento,
a lavoura que se faz com um lamento,
a mão poeirenta no som da cancela rangida,
aqui só a morte parece ganhar vida.

Olhos embaçados,
nublados,
tolhidos pela recordação que se quer presente
sobre os dias que se avançam
quase de forma demente.

Nasce um quotidiano
ou uma criança,
as fragas enviúvam caladas,
ao redor da solidão um negrume que dança
veste a noite que dura um ano.

Um passo imóvel,
o tempo chove tão lentamente
que até a novidade, quando surge,
vem em aguaceiros.

Forma de gente à soleira
entrecortada num postigo semicerrado,
uma mão,
um cachaço,
a loucura abraçada pelo amor
num sussurro calado.

Ao destino da partida
a voz que pergunta “onde vais?”,
mas já os movimentos crepuscularam
caindo arfando num futuro
que não volta mais…

2011-01-30

De todos os bocadinhos que sou, uns são meus, do granito, do solo que me foge, do musgo na parede, dos degraus toscos, de uma boa amizade, de meia dúzia de olhares trocados, do que se sabe ser, do que se desconhece não ser, das palavras que nunca escrevi, das crianças, dos sorrisos, da boroa com café quente, do riso, do choro. De todos os bocadinhos que sou, sou o mais calado, sem letras. Feliz. À minha maneira.

2011-01-25

This was a big river

O tempo dirá, não a nós, talvez às gerações futuras, as vossas, que a minha já o tempo ma levou, se as cicatrizes que não curamos em forma de biodiversidade perdida, a troco de umas discussões egoístas e egóicas, de uns interesses camuflados, de uns emaranhados caminhos retorcidos e austeros, de umas pacificadas águas em torno de um frio muro de betão, semi-erguido por homens, terá sido o nosso caminho... Temo que, tal como hoje, sem sabermos para onde vamos, todo e qualquer caminho não construído a pensar no bem maior será, irremediavelmente, uma cova mais profunda, da qual não saberemos sair.

Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.

2011-01-24

A pé

Chove tristeza.
Chove e entranha-se na vida,
pintando,
gradualmente
de negro e cinzento
as cores errantes
com que construo meu lamento.

Há um bafiento odor a abandono,
um borbulhante queixume ao encontro da maré,
sempre vaza,
pelos que nos roubam o andar
sem saberem
que os sonhos
se fazem a pé.


2011-01-14

De repente, já nem os olhos sentem... O corpo, que se quer ligeiro, vai acumulando vidas num só dia. Ao longe, pelo espelho, as montanhas, os nevoeiros matinais que trazem um sabor húmido, desperto apenas pelo Sol do meio-dia, o som dos regatos que nascem como flores sob as rochas.
These mist covered mountains, are a home now for me...

2011-01-13

Poucos sabores do mundo se vislumbram também como esta vidraça, quente pelo Sol, meia dúzia de passarecos tolhidos pelas migalhas que estão entre os paralelos, o barulho de um lápis a percorrer o caderno, sôfrego, e eu a imaginar-me, nos olhos fechados, algures entre o lápis e o caderno, entre o voo e o Sol.

Vidas atadas

De vidas atadas se faz um silêncio,
de silêncios sulcados se ara um povo,
as pedras com que os lapidam
têm nome de gente,
vozes surdas que se atiçam,
num velho Sol que nasce, de novo.
Leiloem-se mãos,
cegas ocultam um céu igual
às noites caladas,
onde por elas navegaram os chãos,
roubados,
sobram agora vários farrapos de nada,
afundados,
por mar de gente
que se faz lodaçal.
Os amanheceres prometidos,
as nesgas de um tudo
nos vários pedaços de nada,
estão minhas mãos desfolhadas e cegas
abraçando mil corpos despidos.
Escuto o vosso horizonte mudo
na escuridão que se ajoelha e reza,
para ser o amortalhado
calado
povo
que vossa ganância despreza.

2011-01-10

Há uma curva infinita
no desalentado verde que se agresta,
a vida que se jorra aos invernos
na maré em forma de ombros de gigante.
Escuto o silêncio que ecoo,
as palavras que se esbatem no meu céu,
sou o pó da sombra em que voo,
a solvência de um poema
no dia que se esbateu.

2010-11-26

Sei que é Inverno pelo sorriso do frio quando me sobe e encontra as paisagens que me preenchem as mãos. 
As mesmas mãos que te abraçam quando adormeço.

2010-11-24

Já tinha tomando o tempo quando se virou a mim a noite.
"É escuro", surgiu a medo.
E eu, tolhido de cansaço, voltei costas à sombra e deixa-a a falar sozinha com o barulho.
"É escuro", continuou.
Mas já lá eu não estava, voltado de costas ao mundo, segurando ao ombro a manta retalhadas de serapilheira com que me cubro, caminhei até deixar para trás o corpo.
"É escuro", murmurou.
"Eu sei"... "Abre os olhos"

2010-11-23

(a)Manhãs

Questiono-me
se és tu quem me quebra o silêncio,
se a sombra que se aninha a meus pés
possui laivos de infância
e sorrisos
que ocultam a distância.

É ao Sol,
ao sul,
que as cores do arco-íris rebolam na mão
e caem, cansadas, crianças,
no odor fresco da Primavera
que recordo,
com a saudade de não te saber aqui,
a meu lado,
saciando o silêncio
expelido de meu punho calado,
sem encontrar a cor que te vê crescer,
tropeçando e caindo nas palavras
que guardo nos olhos,
para mais tarde as dizer.

2010-11-22

Val(idade)

A imagem da serenidade e passividade. Um trabalhador dos jardins da C.M.Porto faz uma pausa para o lanche da manhã, ao Sol, sentado numa cabina telefónica enquanto que com um pé balança o carrinho, como que embalando as folhas que apanhou... 
Simples. 
Valioso.

2010-11-11

(tún)eis

Aconchego a noite antes de me deitar,
volto as costas à lassidão
para languidamente me encostar ao musgo que desponta
no muro sem caminho.

O cinzento cinzelado
do vento frio que se acomete
é o calor humano
que rodopia errante
e desaparece.

Há vida nas entrelinhas,
são meus túneis os vazios em que habitam
nos dias nascidos do crepúsculo,
para ornamentar o destino
que se escreve grande
e se recorda
minúsculo.

2010-11-10

Des-a-fio

Os versos que desafiei
moram nas quadras que me venceram,
há um tumulto desafinado no ar
pelas vozes murmuradas que açoitaram
o ocorrido grito "aqui d'El Rei".

Ainda que escreva a correnteza
jamais o leito me leva a divagar,
que meu barco ancorado no horizonte
é bitola difícil de moldar.

E é, assim, no arrastar silencioso das gotas
que me permito chover às letras,
gravando no escuro as idas
e voltas,
escondendo o mundo
para que apareças.

2010-11-09

Po(nt)e(s)

Um soluçar, na noite, baixinho, em tons de ponte entre mundos, na amedrontada sombra que prostro, vou galgando dimensões para longe daqui, até me ver, novamente, dentro do soluçar, na noite, baixinho, em tons de mundo entre pontes.

2010-11-03

Macete

Baixa-se, do alto de uns bons 60 e muitos bem vividos, como sei? pelo sorriso, apanha dois paralelos, levanta-se, atira-os para o chão, em cima da areia, ajoelha-se como quem venera, pega na maceta, duas catrapadas em cada um e está composto o chão. E
ste movimento repete-se, até a vala deixar de o ser e ele, levantar-se de vez e caminhar, quase em direcção ao pôr-do-sol, maceta na mão e a vida na outra.

Quê

Há um quê de algo nas pessoas vazias que tornam o mundo mais frio e pobre de cada vez que fazem voz ao silêncio que as habita...

2010-11-01

Med(r)onho

Medronhos, como há muito não os via ou saboreava. 
E o vento, nos eucaliptos, o sino, na igreja, repicando. 
Há mortos esmorecendo nas portas dos cemitérios, abandonados eternamente pela saudade de quem se esquece. 
Tragam flores e velas, das que cheiram e alumiam, para a noite que nunca se põe no amanhecer do crepúsculo. 
"Está morto?"
"Sim, mas não lhe digam."

2010-10-31

Fel(iz)

Domingo, chuva. 
E eu aqui, à porta desta casa velha, de xisto, telhado baixo com as traves de madeira negras, a lareira a bramir crepitações ao meu lado direito, o copo de barro na mão a fumegar com a cevada quente, o vento que abana os eucaliptos e os pinheiros. 
Eu sou aquilo que escrevo, porque me auscultam as estrelas. 
E sou feliz assim.

2010-10-29

Sol

O Sol entra-me, literalmente, pela janela da sala.
Gosto disto, do simples facto de ele me acompanhar e parar quando o faço, de me espreitar por uma nesga, por vezes duas, vendo-me escrever.
Ainda que preguiçoso, levanto algumas vezes o caderno e lanço umas letras ao desafio. Noutra ocasião, coitado, abro o caderno e escrevo apenas no ar, sem tocar o papel, apenas para não o ter, depois, amuado pelo simples facto de, pasme-se, não o escrever!
Há um tudo, nesta minha sucessão de nadas com que me visto, que me faz profundamente feliz.
Este silêncio de hora de almoço na aldeia, o copo a fumegar em cima da mesa, o pequeno bloco que se aconchega na perna, cruzada, o Sol que se encosta ao meu ombro e esta sonolência que se vai apoderando de mim até que, por fim, se instala e abre a porta para todos estes e estas que me rodeiam, que me sussurram e me sopram na face, saudando-me, falando-me, trazendo-me um pouco das paisagens que, imagino, já pisaste, correndo de um lado para o outro, com as mãos levantadas tocando o céu, os céus.
Sei que por momentos adormeço, para acordar um minuto depois com o sabor de uma vida vivida, à minha maneira, entre tique-taques assíncronos, vestido de nada com o Sol a descansar no meu ombro.

Desaguar

Os carreiros cauterizados pelo silêncio
são o leito firme
onde descansam, agora,
os pedidos do destino que esgrime
terra de dias, sem hora.

Abandonado o abandono
sobre uma encosta, esticada,
que se veste de verde primavera
para se despir,
à noitinha,
nos tons pintados de nada...

De onde partem os regatos
agora que se desaguou a foz?

2010-10-27

Santíssima Trindade

Adormeço com o pequeno bloco a meu lado. Rio-me, agora, desconcertado e desiludido com o abandono que dou às palavras. O tanto em mim que se quer ajuntar de mansinho em letras, sucumbe ao eu que decalca as vidas que observa caírem da vida, todos os dias, todas as horas. É como a dor, o abraço e o segredo. É como tudo aquilo que é por fora e não se sente, por dentro.

Gente(S)

Parte de mim é, hoje, carteiro em terras de interior, percorrendo freguesias e saudando gentes, levando notícias e recados e recebendo, como nunca, sorrisos e humildade.

S er

As rugas, na face, na vida, pelo que se é, o que não se foi e o que nunca, mas nunca será.

Just my imagination

O vento causa-me frio nos pés quando entra de rompante no apeadeiro, levando com ele umas quantas folhas de jornal. Sentado neste banco de madeira, queixo enfiado no casaco, braços e pernas cruzados e pés a trautear no chão "just my imagination" dos Cranberies... Se existir riqueza no nada, sou multimilionário.

2010-10-25

Se(de)

Orvalho a sede
pelas paisagens que não sorvo,
há um dia que se põe
em cada esquina da parede
no crepúsculo em que moro.

São meus olhos cordéis
tecendo as curvas que me afogam,
o negro mascarado dos túneis,
a voz ausente dos agrilhoados
que me evocam.

Dá-me a vida
e o sonhar,
a água que em ti brota
ó luar,
há gente ainda em ti
meu paraíso?
Ou não serão chuva
as saudades
que me teimam em chorar...

2010-10-22

Cor(del)

Cintilante
o cordel do passado
que me ata aos anos,
às noites,
aos segredos que trovejam
no final da tarde
ou aos sobressaltos coloridos
por entre o fantasma
que me arde.

2010-10-19

Em mi(m)

A chuva cai no oleado e escorrega por fora da tenda. Quanto é? Há alguns que não vendo. Não sei porquê. Uns são mais meus que do papel. Quanto é? É o que quiser dar. E dão-me. Quer que embrulhe? Na maioria utilizo uma folha de jornal, para que as minhas letras não se sintam sozinhas. Noutras vezes pedem para levar na mão. E ainda que os venda, os poemas são sempre meus, repercutem ainda em mim, nas mãos.

2010-10-18

Ce(vad)a

Mais um cavaco para o fogão. A água deve estar quente e vai saber-me bem o cheiro da cevada, a esbatida espuma na negridão da caneca, as mãos em torno da cerâmica e alma a acomodar-se ao corpo, na tentativa de se aquecer além do usual, porque o Sol não é mais quente que o calor humano. E o calor humano, ainda que num corpo pequeno, sabe que também ele se aquece com o Universo que lá habita.

Musgo

Vou saltando de pedra em pedra. O musgo ainda não cresceu. O rio corre mais cheio, tem melhor cara agora que nos dias quentes de Verão. Há qualquer coisa de criança em mim. Sei que do lado de lá, para lá dos canaviais e das margens barrentas, está o meu lar. Vou saltando de pedra em pedra. O musgo ainda não cresceu. Mas eu já e continua a caber em mim o Universo.

Outono

Chegam os dias de queimar os restos das vindimas... Os dias em o gelo desce à pele, em que as fontes jorram água mais fria, em que as casas abandonadas ganham vida com as sombras dos silvados, em que eu, inebriado pelo Sol que se despede, me despeço também com um piscar de olhos à Lua... Continua a caber no meu mundo o Universo.

2010-09-29

Leito

Há um lamurio escorrido
das frontes,
do rio,
das cansadas enxadas
e das calosas mãos de rosas,
em borbulhar desatento
às curvas gémeas do leito
que namoram à janela do tempo
com as faces,
com o vento.

Criançalizar

As ameias do castelo eram feitas de imaginação,
o fosso cavado tinha laivos de sonhos
e Verão,
eram as tardes dias a fio,
caminhos feitos no ar
sem conhecer um navio,
mas comandar o mar.

2010-09-28

Desisto de tentar escrever no papel e faço-o no chão, primeiro com o pé, depois, aninhado, com ambas as mãos. Está lá tudo, na terra, castanha, como só as raízes conhecem. Ponho-me de pé, tudo agora em perspectiva, sacudo as mãos nas calças, uma gota de suor escorre pela fronte. Com os braços estendidos contemplo a minha (des)arte e, de repente, é como se me abraçasse e adormecesse, com a certeza de jamais acordar.

Contra(´)rio

Senta-se no banco. Um sorriso. Um esgar. Posição 3/4. Agora a cabeça, isso, um bocadinho. Tanto não. Isso. Sorri. (espera) Um bocadinho. Agora sim. Sorri. Clique. Vum! Por artes mágicas, saem 6 ou 8?, tipo passe, esta é oferta. O clarão, o barulho, a carteirinha de plástico, 8 fotografias quentinhas. Meia dúzia de passos fora e, eu sou assim? Curioso como olhamos uma vida inteira para alguém que somos ao contrário.

2010-09-27

A vida em 5:46. O tempo em que se vive uma vida. O segundo em que a vida nos pontapeia na boca. O minuto em que parece que tudo nasce à minha volta. A paisagem que muda e eu, mudo, sem escrever, sem claudicar à vontade de ser mais que palavras, apenas e porque me perguntam, a mim, 34 anos de encadernação, o que (ainda) quero ser, quando descobri, há milhentos, que eu sou eu... e vivo bem com isto.

2010-09-22

Dificilmente a terra tornará a rodar no sentido que a conheci, para lá, para cá, de uma forma que, a meus olhos, até os meus passos pareciam ter direcção.

2010-09-14

Encontrar a sombra mesmo atrás de nós, um vulto que não nos pertence, nos dias em que caminhamos contra o Sol, é aterrador. Como o é ser sombra num vulto que não somos.

2010-09-04

Arraia lar

Ainda que me morda, a vida vai despertando-me para as memórias vividas agora, no presente.
Percorro novos caminhos, mas o granito parece ser o mesmo que sucumbe primeiro e, depois, altivamente, nos suga aos confins dele mesmo, para sabermos o que é ser estrada, a direcção sem sentido, o fazer parte do percurso sem nunca ter caminhado.
O arraial arrailado está, as velas vão iluminando sem o mesmo vigor, agora que a enxurrada de orações passou e ecoa apenas nos olhares que se lançam às vestes alheias ou nos vultos que se vestem de espuma no fundo do copo.
A banda bandaliza o que pode, de música apenas o baixo, grave, que me acerta como se alguém batesse ao corpo com pressa de entrar.
A música musicada está, ameaçando com os seus espectáculos espectrantes romper o que sobra do tempo que ainda se cola à igreja.
A igreja igrejada está, teima em tentar perceber, não eu, que desisti, a característica desumanidade de humanizar a religião construindo muros em torno de altares, destruindo liberdades em torno de olhares, sem saber, a humanidade, não a igreja, que o altar mais sagrado é aquele que somos, cada um de nós, mais ou menos granitizado, mais ou menos marmorizado, dentro e fora, para dentro e para fora, do que existimos e fazemos existir, para sermos nada mais nada menos que um mero e fulcral paralelo no caminho de alguém, uma estrada sem direcção, um altar que, sem o saber, venera as fachadas que quem não se sabe luz faz erguer.
Ergue-te, altar, tu, que te esperam já as estrelas para te verem sorrir, sonhar...

2010-09-03

Com bal ido

Pousei a alma sem me lembrar onde e o meu corpo, combalido, vasculha pela mente uma acendalha que ajude a atiçar uma sombra que ilumine o cansaço e o derreta, até o curto pavio sucumbir à memória e a alma, que mora onde não estou, possa surgir novamente.

2010-08-31

Dor mência

É na cal da dormência azul
que te solto à vida.
No tempestuoso fio de ariadne
que se partiu
quando encontrei a saída...

T ronco

No regaço quente da montanha, um uivo ecoa ainda na minha noite... 
Morrem-se-me os troncos pelas folhas que reguei com o vento.

2010-08-30

L'ar do celar

A casa que me habita vai ao encontro de um alpendre, veste-se de negro e paisagem, nos cumes aguçados do que chamam pastagem. Ser de lá e daqui, de onde estou e onde fui, é viver enquanto me adormeço, nos locais onde não morei, na casa onde não estou, é abraçar o mundo e encontrar, no regresso, as minhas mãos... nas minhas costas.

2010-08-28

Decla mar

É como se as estrelas me elevassem para lá do infinito, sem pressa ou ardor, dia-a-dia, na quilha de um navio sem rumo, sem se perder, sem se ser. Levando o horizonte esférico que a poesia não declamada faz nascer, em mim, que não rimo as palavras com outras, apenas comigo.

2010-08-23

Renas cimento

Do renascimento a cinza, o vento, a chuva que te leva à memória, a recordação do pó, do qual vieste, ao qual abandonarás o teu encardido corpo de betão.
A vida sobe muros para espreitar passar o amor, cantarolando e assobiando, colhendo aqui e ali um figo, para se atirar aos olhos de quem tenta ver vultos na multidão.

2010-08-17

Sa bore ar

É com prazer, um lento sorver de uma noite fresca, como os suores das frutas de verão, que saboreio o pouco brilho que as estrelas tombam pela calada da noite.
O computador liga-se, chama-me, eu cedo e desfaleço os dedos no teclado, são elas, as teclas, que empurram, os dedos, de tecla em tecla, até escrever o que muito bem lhe apetece, que eu, leigo, sei lá que escrevo. Apenas junto as letras que se encostam a mim no decorrer dos dias e, já não chegasse o meu peso, fazem pender os ombros para o chão e os passos arrastarem-se até chegar a um qualquer caderno ou horizonte e, aí, em paz, prostrar aos soluços ritmados os versos que se desprendem, como os suores dos corpos de inverno.

2010-08-15

In cúri A

Acabamos por ser aquilo que o espelho ditou, cruéis, angustiados, baços e esquivos, porque de nós escorre a incúria de querer abraçar o intangível, sem o saber, afinal, que o intangível sucumbe à nossa própria sombra, ao nosso próprio destino...
Eu sou mau, vil, amedrontando o próprio carisma de ser ninguém. 
E gosto...

2010-08-14

Sub úrbi os

Poucos são os subúrbios na vida, mas na longa cerimónia que é o dia há um caminho batido a ouro, no suor que escorre da face da saudade, para cair aos poucos nos olhos de quem não olha.
Há tanto de vida como de noite e, no entanto, quando adormecer, sei lá se vivi ou passeei ao largo dos tempos, apenas para sorrir, quando chove, sabendo que nasci apenas para sussurrar: ouve...

2010-08-05

Infinitamente infinito

Agora que se descobrem os espelhos, as molduras passam a ter uma insignificância vil, o que está para lá do ser que se observa continuamente aguarda atingir o mesmo ponto no passado, oscilando entre ontem e amanhã, até se aperceber que descreveu um oito... ou será o sinal de infinito? 
Vemo-nos numa vida passada então.

2010-08-03

Puzzles

Viver é como um puzzle, do qual não se sabe o aspecto final... Sabe bem, bocadinho a bocadinho, pessoa a pessoa, amigo a amigo... No final de contas, quando encontrarmos as peças todas, os bocadinhos todos, as pessoas todas, os amigos todos... Veremos que o puzzle, de todas as pessoas juntas, é nada mais que nós próprios.

2010-08-02

Coisas

É apenas um bocadinho de nevoeiro, no entanto, para mim, este húmido algodão doce, traz no encalço um pilar num horizonte onde estendo a minha cama de rede... A outra ponta está já presa, algures, no infinito.

Embora a ausência seja notada, a verdade é que todos somos mais e melhores depois de nos cruzarmos uns com os outros, depois de bebermos do outro o que a vida por ele/a nos oferece... Ninguém é de ninguém e ninguém se separa... Somos todos um

2010-07-30

9 minutos, com Fernando Alvim

Um tema sério, falado muito a brincar.
9 minutos para falar, rir, expor fotografias e... e soube a pouco.
Aqui ficam as fotografias.


Pós-entrevista e uma pequena amostra do trabalho...


Falas tu ou falo eu? Eu? Não, o combinado eras tu!


a começar.

2010-07-24

Eterno

É por te saber eterno,
meu fio de água,
que choro a cegueira dos que morrem
quando à sombra das noites se erguem
para te fazer saudade.

Corro-te à nascente,
retorno à foz que te abraça em torno de um cais
para te sorver,
contente,
porque te esquecem, os homens
e outros que tais,
nadando num rio invisível
que uma curva escurece,
vou traçando a cinzel estes riscos na pele,
no papel,
meu fio de água,
que em mim te sei eterno...

2010-07-17

Locais

Nunca arou água
a terra molhada embriagada
que a meus pés desagua.

Oh preces que me acolhem
aos vultos da madrugada,
sou de vós a ausência
na existência do nada.

Os locais que me habitam
são paisagens que não piso,
as amarras que dormitam
nos meus braços
encolhidos
são escadas enlaçadas
que vão de mim
ao teu abraço.

Nada dói mais
que a ausência da dor
no sulco precipitado de um olhar,
porque terei tudo em mim do que sou,
quando me olham
e me vêm sempre
onde não estou...

2010-07-12

unusual

É normal o usual, vulgar como o igual, é ameno o barco que se deita ao mar encrespado de tão longe se sentir de casa...

2010-06-25

Deuses vadios

Encosto-me às notas do piano,
soltas,
pelo murmurar do calor
e do silêncio
a retorcida figura no horizonte cai,
o erguer de um ganido jaz
a meio da poeira
e do abandono,
na vida não há escravos
apenas deuses vadios
sem dono...

2010-06-10

Se me dizem que as pessoas fogem de "Trás-os-Montes" porque lá não há Nada, porque razão ando à procura lá de algo que me faça Tudo?

Vi-me hoje, do lado de lá, duas vezes, agarrado a um vinhedo a podar e sentado na beira de um fontanário a molhar a maçã que pedi "emprestado" num pomar... Encontrei-me duas vezes. Estou agora com as mãos meladas da videira e um sabor agradável a maçã verde na boca...

2010-06-08

Parado, a chuva teima em cair na Primavera, ouço-a rir das vozes "isto é tempo para este tempo?", os carros empurram a água da estrada contra o passeio e ali, de repente, já eu sou barra, a estrada mar e o areal o estendal onde deixo a secar as folhas breves que escrevi e ainda não as sei, por serem apenas minhas.

2010-05-29

Subir

Subir o Marão, olhar a placa alusiva a Miguel Torga, descer para Vila Real e, mesmo parado, continuar a viajar pelas estações do ano que moram em cada cara com que me cruzo...