Do renascimento a cinza, o vento, a chuva que te leva à memória, a recordação do pó, do qual vieste, ao qual abandonarás o teu encardido corpo de betão.
A vida sobe muros para espreitar passar o amor, cantarolando e assobiando, colhendo aqui e ali um figo, para se atirar aos olhos de quem tenta ver vultos na multidão.
2010-08-23
2010-08-17
Sa bore ar
É com prazer, um lento sorver de uma noite fresca, como os suores das frutas de verão, que saboreio o pouco brilho que as estrelas tombam pela calada da noite.
O computador liga-se, chama-me, eu cedo e desfaleço os dedos no teclado, são elas, as teclas, que empurram, os dedos, de tecla em tecla, até escrever o que muito bem lhe apetece, que eu, leigo, sei lá que escrevo. Apenas junto as letras que se encostam a mim no decorrer dos dias e, já não chegasse o meu peso, fazem pender os ombros para o chão e os passos arrastarem-se até chegar a um qualquer caderno ou horizonte e, aí, em paz, prostrar aos soluços ritmados os versos que se desprendem, como os suores dos corpos de inverno.
O computador liga-se, chama-me, eu cedo e desfaleço os dedos no teclado, são elas, as teclas, que empurram, os dedos, de tecla em tecla, até escrever o que muito bem lhe apetece, que eu, leigo, sei lá que escrevo. Apenas junto as letras que se encostam a mim no decorrer dos dias e, já não chegasse o meu peso, fazem pender os ombros para o chão e os passos arrastarem-se até chegar a um qualquer caderno ou horizonte e, aí, em paz, prostrar aos soluços ritmados os versos que se desprendem, como os suores dos corpos de inverno.
2010-08-15
In cúri A
Acabamos por ser aquilo que o espelho ditou, cruéis, angustiados, baços e esquivos, porque de nós escorre a incúria de querer abraçar o intangível, sem o saber, afinal, que o intangível sucumbe à nossa própria sombra, ao nosso próprio destino...
Eu sou mau, vil, amedrontando o próprio carisma de ser ninguém.
E gosto...
2010-08-14
Sub úrbi os
Poucos são os subúrbios na vida, mas na longa cerimónia que é o dia há um caminho batido a ouro, no suor que escorre da face da saudade, para cair aos poucos nos olhos de quem não olha.
Há tanto de vida como de noite e, no entanto, quando adormecer, sei lá se vivi ou passeei ao largo dos tempos, apenas para sorrir, quando chove, sabendo que nasci apenas para sussurrar: ouve...
2010-08-05
Infinitamente infinito
Agora que se descobrem os espelhos, as molduras passam a ter uma insignificância vil, o que está para lá do ser que se observa continuamente aguarda atingir o mesmo ponto no passado, oscilando entre ontem e amanhã, até se aperceber que descreveu um oito... ou será o sinal de infinito?
Vemo-nos numa vida passada então.
2010-08-03
Puzzles
Viver é como um puzzle, do qual não se sabe o aspecto final... Sabe bem, bocadinho a bocadinho, pessoa a pessoa, amigo a amigo... No final de contas, quando encontrarmos as peças todas, os bocadinhos todos, as pessoas todas, os amigos todos... Veremos que o puzzle, de todas as pessoas juntas, é nada mais que nós próprios.
2010-08-02
Coisas
É apenas um bocadinho de nevoeiro, no entanto, para mim, este húmido algodão doce, traz no encalço um pilar num horizonte onde estendo a minha cama de rede... A outra ponta está já presa, algures, no infinito.
Embora a ausência seja notada, a verdade é que todos somos mais e melhores depois de nos cruzarmos uns com os outros, depois de bebermos do outro o que a vida por ele/a nos oferece... Ninguém é de ninguém e ninguém se separa... Somos todos um
2010-07-30
9 minutos, com Fernando Alvim
2010-07-24
Eterno
É por te saber eterno,
meu fio de água,
que choro a cegueira dos que morrem
quando à sombra das noites se erguem
para te fazer saudade.
Corro-te à nascente,
retorno à foz que te abraça em torno de um cais
para te sorver,
contente,
porque te esquecem, os homens
e outros que tais,
nadando num rio invisível
que uma curva escurece,
vou traçando a cinzel estes riscos na pele,
no papel,
meu fio de água,
que em mim te sei eterno...
meu fio de água,
que choro a cegueira dos que morrem
quando à sombra das noites se erguem
para te fazer saudade.
Corro-te à nascente,
retorno à foz que te abraça em torno de um cais
para te sorver,
contente,
porque te esquecem, os homens
e outros que tais,
nadando num rio invisível
que uma curva escurece,
vou traçando a cinzel estes riscos na pele,
no papel,
meu fio de água,
que em mim te sei eterno...
2010-07-17
Locais
Nunca arou água
a terra molhada embriagada
que a meus pés desagua.
Oh preces que me acolhem
aos vultos da madrugada,
sou de vós a ausência
na existência do nada.
Os locais que me habitam
são paisagens que não piso,
as amarras que dormitam
nos meus braços
encolhidos
são escadas enlaçadas
que vão de mim
ao teu abraço.
Nada dói mais
que a ausência da dor
no sulco precipitado de um olhar,
porque terei tudo em mim do que sou,
quando me olham
e me vêm sempre
onde não estou...
a terra molhada embriagada
que a meus pés desagua.
Oh preces que me acolhem
aos vultos da madrugada,
sou de vós a ausência
na existência do nada.
Os locais que me habitam
são paisagens que não piso,
as amarras que dormitam
nos meus braços
encolhidos
são escadas enlaçadas
que vão de mim
ao teu abraço.
Nada dói mais
que a ausência da dor
no sulco precipitado de um olhar,
porque terei tudo em mim do que sou,
quando me olham
e me vêm sempre
onde não estou...
2010-07-12
unusual
É normal o usual, vulgar como o igual, é ameno o barco que se deita ao mar encrespado de tão longe se sentir de casa...
2010-07-01
2010-06-25
Deuses vadios
Encosto-me às notas do piano,
soltas,
pelo murmurar do calor
e do silêncio
a retorcida figura no horizonte cai,
o erguer de um ganido jaz
a meio da poeira
e do abandono,
na vida não há escravos
apenas deuses vadios
sem dono...
soltas,
pelo murmurar do calor
e do silêncio
a retorcida figura no horizonte cai,
o erguer de um ganido jaz
a meio da poeira
e do abandono,
na vida não há escravos
apenas deuses vadios
sem dono...
2010-06-10
Se me dizem que as pessoas fogem de "Trás-os-Montes" porque lá não há Nada, porque razão ando à procura lá de algo que me faça Tudo?
Vi-me hoje, do lado de lá, duas vezes, agarrado a um vinhedo a podar e sentado na beira de um fontanário a molhar a maçã que pedi "emprestado" num pomar... Encontrei-me duas vezes. Estou agora com as mãos meladas da videira e um sabor agradável a maçã verde na boca...
Vi-me hoje, do lado de lá, duas vezes, agarrado a um vinhedo a podar e sentado na beira de um fontanário a molhar a maçã que pedi "emprestado" num pomar... Encontrei-me duas vezes. Estou agora com as mãos meladas da videira e um sabor agradável a maçã verde na boca...
2010-06-08
Parado, a chuva teima em cair na Primavera, ouço-a rir das vozes "isto é tempo para este tempo?", os carros empurram a água da estrada contra o passeio e ali, de repente, já eu sou barra, a estrada mar e o areal o estendal onde deixo a secar as folhas breves que escrevi e ainda não as sei, por serem apenas minhas.
2010-05-29
Subir
Subir o Marão, olhar a placa alusiva a Miguel Torga, descer para Vila Real e, mesmo parado, continuar a viajar pelas estações do ano que moram em cada cara com que me cruzo...
2010-05-23
É incontrolável, surgindo como quem brota de um muro moído pela água e pelo roçar de gado que se faz gente, incontrola-se aos poucos, na certeza do que se faz jamais se disse, porque no olhar, na procura, no vislumbre que o destino aparenta exibir, há sempre um portão a fechar-se, um som de ferro em ferro, ecoando em mim o eco e o som, sem se saber qual deles nasceu primeiro, se o ferro, se o muro.
Desde que sou tempo, passam-me a conversar pares quadrigêmeos de mãos sem se tocarem.
- Acho que vi uma pessoa.
- Não vejo. Virá para aqui?
Pouco se rende o cansaço, nem esmorecendo a esquina que não se consegue dobrar, há sempre um par de cegueiras vendadas que me faz acordar.
- Passou novamente sem parar…
- Nem abrandou?
Nada me demove, mesmo aqui parado ouço outros imóveis urdindo planos elevados onde não alcança o céu, quanto mais as estrelas…
- Vem aí alguém!
- Outra vez?
- Não, vem mesmo para aqui.
- A sério?
- Sim… E traz algo.
Os passos apressados, inquietos, trazem a cegueira que me atribuem, conspurcam a mágoa e as ombreiras do destino, pintando de negro o arco-íris da amizade.
Ladrilhando de solidão o transparente, facilmente cegou a sua irmã oposta em gestos firmes sem vida, onde chaves invisíveis jamais abrirão em par o agreste que semeia o verde.
- Quem era?
- Não sei, já não vejo…
in Alma Tua.
2010-05-22
IV Os coelhos
O barulho de uma motorizada, ao longe, fá-lo acordar. Não sabe como, mas tinha coberto a cabeça com a serapilheira, talvez para se resguardar dos primeiros raios de Sol e não acordou com o raiar do dia, como era costume.
Levanta-se de uma vez só, espreguiça-se continuamente até ao portão, afasta a meia pipa e espreita por uma nesga. O barulho da motorizada aproxima-se, estridente. Aquele zingarelho com duas rodas levava condutor, que era a modos a pessoa que agarrava aquele ferro e indicava o caminho ao cego motociclo e, atrás dele, agarrado a ele, uma menina agarrava-se ao condutor, com medo do vento a levantar. Tinha um minúsculo capacete, que premia contra as costas do pai e, ao passar pela eira onde o carteiro espreitava pareceu sorrir, como se o visse.
A motorizada segue o seu caminho, cega, com o seu domador a atiçar ora para a esquerda ora para a direita, galgando caminho por entre terra batida, terra solta, raízes de árvores e regos feitos por outras motorizadas e pela água da chuva, que teimava seguir sempre o mesmo caminho. É coisa de manias, a água.
Abre a porta da eira por completo, está frio sim senhor.
Volta para dentro, calça-se, veste o casaco, olha para a fogueira que dormia agora em forma de brasas. O alforge tem já lá dentro o pão que sobrou, agora mais duro. Fica a olhar em volta, como que à procura de algo. Não fosse o sono e seria capaz de jurar que na noite anterior alguém lhe tinha coberto os pés com uma camisola amarela.
Aconchegou a palha no avental, compondo a almofada, há que deixar melhor do que estava. Certificou-se que a fogueira dormia profundamente, não fosse nenhuma brasa abrir os olhos, pegou no envelope, olhou-o, “Professora…” e saiu.
O barulho afastou-se até parar ao longe, junto a uma casa branca. Seria a escola? Se escola seria, professora teria e fez-se ao caminho.
O caminho era igual ao percorrido pela motorizada, mas parecia maior, com regos mais fundos, terra mais batida e terra mais solta, mas com umas agradáveis amoras que subiam os muros de pedra. Ainda orvalhadas, matavam a fome e a sede.
Ladeavam a estrada alguns candeeiros, toscos, agora desligados e veio-lhe à memória um sonho estranho que teve, com candeeiros que falavam.
“O cansaço leva-nos a cada sonho, cada imaginação”, pensou, e uma forte rajada de vento atirou-lhe a boina ao chão.
Dobrou-se para a apanhar, sacudiu-a e colocou-a na cabeça novamente, enfiando-a mais fundo, estragava-se o penteado e apertava-se as ideias, mas não saltaria mais com o vento.
Algumas casas surgem, o caminho começa a subir, os mesmos buracos, a mesma terra, desvia-se para dar passagem à motorizada, não vá o seu cavaleiro orientar o ferro para ele e lhe arremessar com uma cornada que certamente lhe arrancaria a boina e, pior que isso, lhe estenderia a correspondência pelo chão. Mas a motorizada passou, o cavaleiro guinava o ferro ao sabor dos buracos e regos, tivesse o carteiro visto o mar e suas barcaças e diria que este cavaleiro é marinheiro em oceano errado.
Uma senhora idosa passa por ele, com os braços cruzados atrás das costas, toda de preto a roupa contrastava com o branco do cabelo e o castanho da cor da armação dos óculos que ajudavam uns olhos azuis claros a verem melhor o caminho e a vida. Diferente das restantes pessoas, não parece ter receio esta senhora idosa ao cruzar-se com um desconhecido, ainda que com respeitável farda dos correios.
- Sabe a senhora dizer-me se aquela casa branca lá em cima é a escola? – pergunta ao mesmo tempo que levanta o chapéu em forma de cumprimento.
- Oh meu filho, escola foi e escola será, enquanto houver gente que ensine e gente que queira aprender. – respondeu sorrindo, ao mesmo tempo que retribua o cumprimento com um acenar da cabeça, sem que os olhos azuis se soltassem dos seus.
- Trazia aqui uma carta para a professora, sabe se ela está lá?
- Se não está agora, estará quando lá chegar, é quase hora da petizada entrar.
- Muito obrigado – repete o cumprimento com o chapéu – e um bom dia para a senhora!
A senhora sorri, inicia a caminhada e passado um pouco responde-lhe “Bom dia”. O carteiro, já sem estar à espera de resposta virou-se para trás, ainda pensou dizer bom dia, mas calou-se ao ver aquela simpática velhinha, vestida de preto, com os braços cruzados nas costas e nas mãos um envelope…
(continua)
Partes I, II e III
Levanta-se de uma vez só, espreguiça-se continuamente até ao portão, afasta a meia pipa e espreita por uma nesga. O barulho da motorizada aproxima-se, estridente. Aquele zingarelho com duas rodas levava condutor, que era a modos a pessoa que agarrava aquele ferro e indicava o caminho ao cego motociclo e, atrás dele, agarrado a ele, uma menina agarrava-se ao condutor, com medo do vento a levantar. Tinha um minúsculo capacete, que premia contra as costas do pai e, ao passar pela eira onde o carteiro espreitava pareceu sorrir, como se o visse.
A motorizada segue o seu caminho, cega, com o seu domador a atiçar ora para a esquerda ora para a direita, galgando caminho por entre terra batida, terra solta, raízes de árvores e regos feitos por outras motorizadas e pela água da chuva, que teimava seguir sempre o mesmo caminho. É coisa de manias, a água.
Abre a porta da eira por completo, está frio sim senhor.
Volta para dentro, calça-se, veste o casaco, olha para a fogueira que dormia agora em forma de brasas. O alforge tem já lá dentro o pão que sobrou, agora mais duro. Fica a olhar em volta, como que à procura de algo. Não fosse o sono e seria capaz de jurar que na noite anterior alguém lhe tinha coberto os pés com uma camisola amarela.
Aconchegou a palha no avental, compondo a almofada, há que deixar melhor do que estava. Certificou-se que a fogueira dormia profundamente, não fosse nenhuma brasa abrir os olhos, pegou no envelope, olhou-o, “Professora…” e saiu.
O barulho afastou-se até parar ao longe, junto a uma casa branca. Seria a escola? Se escola seria, professora teria e fez-se ao caminho.
O caminho era igual ao percorrido pela motorizada, mas parecia maior, com regos mais fundos, terra mais batida e terra mais solta, mas com umas agradáveis amoras que subiam os muros de pedra. Ainda orvalhadas, matavam a fome e a sede.
Ladeavam a estrada alguns candeeiros, toscos, agora desligados e veio-lhe à memória um sonho estranho que teve, com candeeiros que falavam.
“O cansaço leva-nos a cada sonho, cada imaginação”, pensou, e uma forte rajada de vento atirou-lhe a boina ao chão.
Dobrou-se para a apanhar, sacudiu-a e colocou-a na cabeça novamente, enfiando-a mais fundo, estragava-se o penteado e apertava-se as ideias, mas não saltaria mais com o vento.
Algumas casas surgem, o caminho começa a subir, os mesmos buracos, a mesma terra, desvia-se para dar passagem à motorizada, não vá o seu cavaleiro orientar o ferro para ele e lhe arremessar com uma cornada que certamente lhe arrancaria a boina e, pior que isso, lhe estenderia a correspondência pelo chão. Mas a motorizada passou, o cavaleiro guinava o ferro ao sabor dos buracos e regos, tivesse o carteiro visto o mar e suas barcaças e diria que este cavaleiro é marinheiro em oceano errado.
Uma senhora idosa passa por ele, com os braços cruzados atrás das costas, toda de preto a roupa contrastava com o branco do cabelo e o castanho da cor da armação dos óculos que ajudavam uns olhos azuis claros a verem melhor o caminho e a vida. Diferente das restantes pessoas, não parece ter receio esta senhora idosa ao cruzar-se com um desconhecido, ainda que com respeitável farda dos correios.
- Sabe a senhora dizer-me se aquela casa branca lá em cima é a escola? – pergunta ao mesmo tempo que levanta o chapéu em forma de cumprimento.
- Oh meu filho, escola foi e escola será, enquanto houver gente que ensine e gente que queira aprender. – respondeu sorrindo, ao mesmo tempo que retribua o cumprimento com um acenar da cabeça, sem que os olhos azuis se soltassem dos seus.
- Trazia aqui uma carta para a professora, sabe se ela está lá?
- Se não está agora, estará quando lá chegar, é quase hora da petizada entrar.
- Muito obrigado – repete o cumprimento com o chapéu – e um bom dia para a senhora!
A senhora sorri, inicia a caminhada e passado um pouco responde-lhe “Bom dia”. O carteiro, já sem estar à espera de resposta virou-se para trás, ainda pensou dizer bom dia, mas calou-se ao ver aquela simpática velhinha, vestida de preto, com os braços cruzados nas costas e nas mãos um envelope…
(continua)
Partes I, II e III
2010-05-09
Era o mundo nosso,
reino de rugas,
urzes e fragas,
solo pedregoso talhado a suor,
memórias caídas
que com teu esquecimento esmagas.
Pasto-me ao largo
e volto empastado no lombo
sem rédea, coice ou afago,
percorro meu destino redondo
enquanto não me Inverno com os estrepes da colheita
e o trotear com que na paisagem me apago.
2010-05-05
Desconhecer
Soubesse-me o Sol mundo
já prostrado à sombra
de uma verdade que floresce
Primaveria uma forma de vagabundo
às estradas que se esquivam
aos caminhos que se erguem
agora
que um outro aflora.
Sei-me
em mim e pelo universo fora
e no entanto as fábulas urdidas
fazem-me respiração
e um mundo de Sol que se sabe
desconhecer.
2010-04-29
Vozes que não abracei
Nascem-me os mundos pelo olhar,
não suporto as vozes que não abracei,
porque se me calam os acordes
das letras com que à vida brindei?
Há um cruzeiro de pedra
quatro esquinas cinzeladas a granito
e um corpo abandonado pela solidão
que saúda os ventos,
uma fonte seca por onde vertem terras inférteis
e o cabelo desgrenhado das vinhas
por não haver ninguém que lhes penteie as podas.
É mato urdido num rosto encardido
sob a Lua, sob o céu,
um naco de vida de fugida
que é tu, que sou eu.
não suporto as vozes que não abracei,
porque se me calam os acordes
das letras com que à vida brindei?
Há um cruzeiro de pedra
quatro esquinas cinzeladas a granito
e um corpo abandonado pela solidão
que saúda os ventos,
uma fonte seca por onde vertem terras inférteis
e o cabelo desgrenhado das vinhas
por não haver ninguém que lhes penteie as podas.
É mato urdido num rosto encardido
sob a Lua, sob o céu,
um naco de vida de fugida
que é tu, que sou eu.
2010-04-25
2010-04-22
Timing
No papel que me ausculto
embalo a Primavera
ao resguardo da tua vida
onde morava o amanhã.
Dou-me ao silêncio ascendente
até aos limites do infinito
que circundo
e trovejo
no teu abafado grito.
Rego meu próprio medo
e floresço
por entre o céu e a terra,
porque hoje já é tarde
e ontem era cedo.
Adiado
O teu silêncio acolhe o trovão,
a água salpica na noite
e o musgo seco adormece na minha mão,
serpenteiam-me as estradas que não conheço
em busca de um eu
que faz falta um tu,
é um pinheiro eucaliptado no relâmpago
que ascende em longas sombras de imaginação.
Tenho meio cobertor,
metros quadrados de um calor que não me chove
na madrugada em falta à prova dos nove.
É um acordar adiado
e um adeus
num corpo contorcido inerte,
assim ecoa o arrastado gotejar
da nuvem da vida
que nos meus olhos verte.
2010-04-20
Pendo
Tenho a memória completa
das viagens que não escrevi,
um vagão sonhador
sulcando
o vento que não vivi.
Pendo no sobressalto meus braços
para que agarrados ao vago
possam suster as nuvens
que ainda afago.
Sou da noite
porque não anoiteço
inclino-me à força da esquina
no pó em que me tornei
na pauta que me solfeja
no olhar que vertigina
o sabor do beijo
que te sonhei.
2010-04-10
Distantes
É para ti
(que moras em mim)
as páginas tantas do que fui
rasgadas vida
que de meus olhos flui.
Tocando-te vida
de mundos distantes
que me tocam
vivo as recordações do que serei
quando as nuvens que me suportam
chovem no silêncio
do que nunca te falei.
2010-03-23
2010-03-22
Onde
Navegarei ao infinito
nas lágrimas que não choro
adormecerei na luz
do destino
porque habito um corpo
onde não moro.
nas lágrimas que não choro
adormecerei na luz
do destino
porque habito um corpo
onde não moro.
2010-03-21
2010-03-16
Carranca
O zap, enquanto a comida não fica pronta, resulta por vezes em surpresas agradáveis e muitas vezes com um resgate de emoções que por vontade alheia se vão enterrando na areia que transportamos para as nossas vidas. Paro na RTP Memória, ouço o genérico do Verão Azul e, imediatamente, esqueço-me de onde estou. Por momentos desço a rua (agora tem outro nome, comprido, antes era rua, aliás, todas as ruas eram a rua) com os amigos do costume, assobiando... De repente, sei-o, tenho em mim aquela vontade, ingénua talvez, de ter um barco e um grelhador e lá em cima, do grelhador e das brasas, umas sardinhas, uma música, a vista para o mar e para um punhado de amigos que vão chegando, a assobiar.
Pergunto-me em que fase da minha vida passarei a ser adulto, desses carrancudos.
2010-03-15
Toque
Nos entrelaçados mundos em que vivo
um universo entra-me pelo teu olhar
movimenta-se o toque de um nada contigo
para no infinito
novamente
me aprisionar...
2010-02-22
Ainda não sei se chove. Apenas ouço o baralhar da rádio. Sem qualquer mecanismo de identificação (que não seja levantar o rabiosque) do tempo que faz, o que fazia sei-o, presencialmente, o que fará acabarei por saber, deixo-me levar pelo guarda-chuva e preparo-me para ir salpicar a chuva com um pouco da minha imaginação. É que a rua pode até ser de asfalto, mas os meus pés calcam é terra, monte, pastos e ainda que seco, deixo-me levar pelo molhado das plantas que me encharcam a alma até ao joelho.
2010-02-21
2010-02-11
2010-02-10
2010-02-08
2010-02-03
2010-02-01
2010-01-25
Alma Tua
Olá!
Deixa-me que te fale um pouco do vale do Tua.
Este vale, o rio Tua e a linha com o mesmo nome, bem como uma boa parte da população do Nordeste Transmontano, estão ameaçados pelo abandono a que há muito são condenados por parte do poder político e mais recentemente pela ameaça da construção de uma barragem.
Esta barragem irá inundar o vale do Tua, submergindo a maior parte da linha férrea, e alterando irremediavelmente uma paisagem única, verdadeiro património da humanidade.
Estou a desenvolver um projecto de texto (prosa e poesia) e fotografia sobre o vale do Tua. Este projecto é desenvolvido em parceria com o meu amigo Norberto.
Sendo o Norberto Transmontano de nascença e eu de coração, estamos obviamente preocupados com a actual realidade ou sina, do vale do Tua.
O nosso projecto, procura mostrar um pouco da beleza das terras, das gentes e da sua alma e sensibilizar para a sua salvaguarda.
Visitem-nos em http://www.almatua.com
Trata-se do site de promoção do nosso projecto, que possui alguns "rebuçados" sobre o final.
Deixa-me que te fale um pouco do vale do Tua.
Este vale, o rio Tua e a linha com o mesmo nome, bem como uma boa parte da população do Nordeste Transmontano, estão ameaçados pelo abandono a que há muito são condenados por parte do poder político e mais recentemente pela ameaça da construção de uma barragem.
Esta barragem irá inundar o vale do Tua, submergindo a maior parte da linha férrea, e alterando irremediavelmente uma paisagem única, verdadeiro património da humanidade.
Estou a desenvolver um projecto de texto (prosa e poesia) e fotografia sobre o vale do Tua. Este projecto é desenvolvido em parceria com o meu amigo Norberto.
Sendo o Norberto Transmontano de nascença e eu de coração, estamos obviamente preocupados com a actual realidade ou sina, do vale do Tua.
O nosso projecto, procura mostrar um pouco da beleza das terras, das gentes e da sua alma e sensibilizar para a sua salvaguarda.
Visitem-nos em http://www.almatua.com
Trata-se do site de promoção do nosso projecto, que possui alguns "rebuçados" sobre o final.
"À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo.
Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, ultimamente, até porque a memória dos autores não perscruta tão longe assim, os sucessivos governantes (propositadamente com g minúsculo) tendem a fazer: fazer desaparecer o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular.
Sem ter quem defenda a bondade da arrogância política, os que não têm voz e que pela força do isolamento acreditam em quem lhes atira umas palavras caras acompanhadas de fato e gravata, que se chamou domingueiro há idos, soçobram ao genocídio mudo, à devassidão moral de quem promete e nunca cumpriu.
É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua.
É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta.
Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua e a sua linha.
Esperamos que o leitor possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras.
Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo.
Por Trás-os-Montes (o de portugueses, como Torga).
Pelo Tua."
www.almatua.com
Miguel Gomes e Norberto Valério
2010-01-11
Acordo quase todos os dias às 5:32... Há uma semana. 5:32. Adormeço. Depois acordo com o despertomóvel (mistura de despertador com telemóvel) a hora indefinida. Indefinida porque ele toca, coitado, toca, coitadinho, mas nem sempre me levanto à hora que ele quer.
E, invariavelmente, ando pelos montes de trás, lá para cima, onde mandam os que lá estão, a cortar mato ou, então, a andar numa carrinha pick-up, caixa fechada, com prateleiras de madeira e materiais presos, não vão os solavancos atirar de um lado para o outro a carga.
Depois páro, buzino, quer dizer, nem sempre preciso de buzinar, ouvem-me chegar e vão chegando, bafo a bafo no ar frio, vultos negros de gente abandonada por gente...
Gostava de saber de onde vêm estas lembranças de coisas que nunca vivi e que me nascem sempre aos olhos. A paixão pelo interior. A paixão apenas. A necessidade das gentes, do horizonte.
A necessidade de Ti.
2010-01-05
Tenho em mim trevas e luz,
pedaços de mundos que criei
nas centelhas que não ascendem
aos fogos que aticei.
Tenho em mim trevas e luz,
noites desiguais ao infinito
nos caminhos ao largo do caminho
onde mora ainda meu grito.
Tenho em mim trevas e luz,
no que está em tudo do meu nada,
no eu que me conduz.
Tenho em mim trevas e luz,
na metade de um irreal
é a tua mão inteira
que me seduz...
pedaços de mundos que criei
nas centelhas que não ascendem
aos fogos que aticei.
Tenho em mim trevas e luz,
noites desiguais ao infinito
nos caminhos ao largo do caminho
onde mora ainda meu grito.
Tenho em mim trevas e luz,
no que está em tudo do meu nada,
no eu que me conduz.
Tenho em mim trevas e luz,
na metade de um irreal
é a tua mão inteira
que me seduz...
2010-01-04
55 posts em 2009... O número tem vindo a cair... E embora seja da opinião que o tamanho ou quantidade não contam, noto que te tenho vindo a deixar abandonado, apenas com a companhia dos que (segundo o hiStats) ainda aqui passam...
Tanta "coisa" por dizer, escrever, mas vou rendendo-me à preguiça e à passividade de me deixar levar pela televisão ou por actividades infrutíferas. E de tantas actividades infrutíferas, sou eu, agora, que não dou frutos.
Vou voltar, um dia, maior, melhor, mas hoje sou apenas isto, três parágrafos, palavras, cansaço e duas mãos.
Tanta "coisa" por dizer, escrever, mas vou rendendo-me à preguiça e à passividade de me deixar levar pela televisão ou por actividades infrutíferas. E de tantas actividades infrutíferas, sou eu, agora, que não dou frutos.
Vou voltar, um dia, maior, melhor, mas hoje sou apenas isto, três parágrafos, palavras, cansaço e duas mãos.
2009-12-24
2009-12-16
Onde quer que estejas
Meus braços quentes
num corpo que nunca toquei,
assim caminho na tua ausência.
num corpo que nunca toquei,
assim caminho na tua ausência.
Clamo um nome à cor que não te dei
sem saber que o teu silvo,
meu respirar,
é canção de embalar
a quem não abracei…
sem saber que o teu silvo,
meu respirar,
é canção de embalar
a quem não abracei…
2009-11-10
A amar
Há o toque e o tocar,
há o corpo que se contorce
e uma forma no ar
a bailar.
Há o olhar e as mãos,
há o tempo que se evapora
num abraço a vagos vãos
a chorar.
Há algo que procuras,
há perdido em todos os achados
e o sentimento que seguras
no peito
a arfar.
Há ternura e solidão,
há o instante em que te vais
e o calor que deixas cá dentro
a amar...
2009-11-01
Confesso que sinto falta de vir aqui, no entanto espero que seja por um bom motivo (ou que se venha a revelar um) que o tempo me vai roubando para outras paragens...
Fim-de-semana perfeito, com um sábado em terras quentes de Trás-os-Montes, viagem de Mirandela a Vila Real com o pôr-do-Sol e o nascer-da-Lua, estrelas mais perto de nós e uma incursão pela N15 desde a Pousada, com bastante nevoeiro, até Padronelo, para assentar ideias e deixar que aquele misto de noite escura, nevoeiro, solidão e oração levem algumas pétalas. Rematar com um domingo chuvoso, em família com F e tudo o que de bom traz.
Sei que, muitas vezes, perdes-te no quotidiano e mesmo perante tantas ruas tudo te parece um beco sem saída...
Sei-o, porque em nós, que nos tentamos encontrar, mora sempre a dúvida do caminho, a procura do trilho que faça sentido a todos os passos, a todos os olhares... E no meio de tudo isto, se podermos ter uma banda sonora, que seja algo como isto...
Fica bem (sem ponto final, para ser uma "coisa" que dure)
2009-10-23
2009-10-13
2009-10-12
2009-10-01
Coisas não coisas que nos fazem pensar
Sonhador da Montanha Oriah
(The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, Maio de 1994)
"Não me interessa saber o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha, ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago gritar para a lua prateada: "Posso! "Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem que ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem você é e como veio parar aqui. Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará. Não me interessa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona. Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios."
(The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, Maio de 1994)
2009-09-27
Parabéns Ana
Cais-me
como as manhãs frias no acordar,
palpitas-me o peito
e a vida
na junção do dia com teu olhar.
Cresces-me
como a vida num momento,
sussurras-me o silêncio
e o sorriso
no beijar do sonho com meu vento.
Leva-me no ventre,
percorre as horas da madrugada
e dá ao Sol
quem te prometeu,
hoje dormem as estrelas em ti,
amanhã o presente não tem forma,
sou eu...
como as manhãs frias no acordar,
palpitas-me o peito
e a vida
na junção do dia com teu olhar.
Cresces-me
como a vida num momento,
sussurras-me o silêncio
e o sorriso
no beijar do sonho com meu vento.
Leva-me no ventre,
percorre as horas da madrugada
e dá ao Sol
quem te prometeu,
hoje dormem as estrelas em ti,
amanhã o presente não tem forma,
sou eu...
2009-09-22
Truz, truz
É a passos corridos e ritmos dedilhados que o Outono começa a cair...
É sempre assim, vai o Verão no adro, mas para mim é já copo meio vazio. Não tenho palavras para o frio que me começa a moldar, vai subindo devagarinho, sem pressa, sabe que o aprecio como quem degusta um vinho, um prato requintado ou, como eu, um olhar, um sorriso. Aos poucos o arrepio dá lugar ao conforto, a um dos poucos confortos sem os quais não sei viver, o frio, o gemer do calor ao longe, fugindo para outros corpos, o frio, sempre o frio.
Setembro traz-me vindimas, frio em forma de calor humano, as mãos pegajosas e o corpo suado, pernas e pés com pevides, cascas e vinho, salpicado em forma de aromas que não sei saborear. Tenho ainda, escondidos nos olhos, os fumos no ar que ascendem das fogueiras dos restos das podas, quase que consigo ver videiras que se espreguiçam, que se desprendem das mundanidades e ascendem ao céu em forma de nuvem.
O fumo e o cheiro do frio que pairam de mãos dadas com os dias que morrem mais cedo.
As recordações do meu corpo pequeno, com uma mochila nas costas, o sacudir dos livros e cadernos, das canetas e dos lápis, enquanto corria para casa pelos caminhos calcados no monte, subindo as "Moutadas", percorrendo os mesmos paralelos com quem falo à noite, nos meus passeios, deixando-me perder na imaginação fértil (hoje sou avião, um dos "Heróis da Esquadrilha", hoje sou Conan, hoje sou um dos Mosqueteiros, hoje sou Esteban em busca da minha Cidade do Ouro), contando chegar a casa em hora útil, de pegar na bicicleta e ser um carro de Fórmula 1...
Gosto do frio, da manhã fria, da água fria com que me banho, do aconchego de uma qualquer chávena de café ou leite, de um bocado de pão, seco ou fresco, do sorrir dos primeiros fotões na parede da cozinha ou nas sombras da sala, das histórias e suas personagens que tenazmente resistem e me resgatam do meu próprio esquecimento.
Pergunto-me frequentemente se ser feliz será isto, se a minha Cidade do Ouro será este prolongamento do que sou, de me esquecer que tenho 33 anos, de ver o corpo mudar e o olhar a permanecer, de pensar que a minha felicidade é a minha única segurança e o meu verdadeiro plano de poupança reforma, de tentar, sempre, a cada dia que passa, moldar o presente com isto mesmo, o presente de estar vivo, que se morto estiver, estarei por aí, ainda no frio, tentando levar calor a quem não se sabe aquecer.
O frio é isto mesmo, ter palavras que desabrocham como se uma Primavera se tratasse, ter ar respirável ao invés do calor surdo dos incêndios e do grito abafado das árvores que morrem, ter frio é saber-se calor, mesmo quando por fora, inconsciente, o calor agrilhoado das pessoas frias se tomba nos dias negros que o próprio homem pinta.
Outono tem isto em mim, faz-me ser eu plenamente, viver o que fui e alicerçar o que sou, consciente que o que serei terá sempre em mim o frio, o aconchego de uma manga mais comprida e, agora, o sono da Ana aqui ao lado, enquanto um pequeno corpo ganha frio e uma alma, maior que a minha.
Gosto de dizer que nada disto é nostalgia, é quase como um baú onde guardo tudo o que acumulo em recordações, é o caminho percorrido, que percorro diariamente.
Hoje ainda sou assim, uns dias Conan, outros dias Mosqueteiro.
Hoje sou um Esteban e acho, cá no meu intímo, que a minha Cidade do Ouro está aqui, no meu coração.
É sempre assim, vai o Verão no adro, mas para mim é já copo meio vazio. Não tenho palavras para o frio que me começa a moldar, vai subindo devagarinho, sem pressa, sabe que o aprecio como quem degusta um vinho, um prato requintado ou, como eu, um olhar, um sorriso. Aos poucos o arrepio dá lugar ao conforto, a um dos poucos confortos sem os quais não sei viver, o frio, o gemer do calor ao longe, fugindo para outros corpos, o frio, sempre o frio.
Setembro traz-me vindimas, frio em forma de calor humano, as mãos pegajosas e o corpo suado, pernas e pés com pevides, cascas e vinho, salpicado em forma de aromas que não sei saborear. Tenho ainda, escondidos nos olhos, os fumos no ar que ascendem das fogueiras dos restos das podas, quase que consigo ver videiras que se espreguiçam, que se desprendem das mundanidades e ascendem ao céu em forma de nuvem.
O fumo e o cheiro do frio que pairam de mãos dadas com os dias que morrem mais cedo.
As recordações do meu corpo pequeno, com uma mochila nas costas, o sacudir dos livros e cadernos, das canetas e dos lápis, enquanto corria para casa pelos caminhos calcados no monte, subindo as "Moutadas", percorrendo os mesmos paralelos com quem falo à noite, nos meus passeios, deixando-me perder na imaginação fértil (hoje sou avião, um dos "Heróis da Esquadrilha", hoje sou Conan, hoje sou um dos Mosqueteiros, hoje sou Esteban em busca da minha Cidade do Ouro), contando chegar a casa em hora útil, de pegar na bicicleta e ser um carro de Fórmula 1...
Gosto do frio, da manhã fria, da água fria com que me banho, do aconchego de uma qualquer chávena de café ou leite, de um bocado de pão, seco ou fresco, do sorrir dos primeiros fotões na parede da cozinha ou nas sombras da sala, das histórias e suas personagens que tenazmente resistem e me resgatam do meu próprio esquecimento.
Pergunto-me frequentemente se ser feliz será isto, se a minha Cidade do Ouro será este prolongamento do que sou, de me esquecer que tenho 33 anos, de ver o corpo mudar e o olhar a permanecer, de pensar que a minha felicidade é a minha única segurança e o meu verdadeiro plano de poupança reforma, de tentar, sempre, a cada dia que passa, moldar o presente com isto mesmo, o presente de estar vivo, que se morto estiver, estarei por aí, ainda no frio, tentando levar calor a quem não se sabe aquecer.
O frio é isto mesmo, ter palavras que desabrocham como se uma Primavera se tratasse, ter ar respirável ao invés do calor surdo dos incêndios e do grito abafado das árvores que morrem, ter frio é saber-se calor, mesmo quando por fora, inconsciente, o calor agrilhoado das pessoas frias se tomba nos dias negros que o próprio homem pinta.
Outono tem isto em mim, faz-me ser eu plenamente, viver o que fui e alicerçar o que sou, consciente que o que serei terá sempre em mim o frio, o aconchego de uma manga mais comprida e, agora, o sono da Ana aqui ao lado, enquanto um pequeno corpo ganha frio e uma alma, maior que a minha.
Gosto de dizer que nada disto é nostalgia, é quase como um baú onde guardo tudo o que acumulo em recordações, é o caminho percorrido, que percorro diariamente.
Hoje ainda sou assim, uns dias Conan, outros dias Mosqueteiro.
Hoje sou um Esteban e acho, cá no meu intímo, que a minha Cidade do Ouro está aqui, no meu coração.
2009-08-21
Get lucky
(traduzido do Inglês para PT-BR)
Quando ficou combinado por alguma regra não escrita que artistas consagrados com uma trajetória de álbuns brilhantes ficam menos criativos ao continuarem a carreira, obviamente Mark Knopfler não estava prestando atenção. Ele estava muito ocupado compondo, gravando, fazendo turnês e curtindo tudo isso.
Assim, à medida que nos aproximamos do fim da primeira década do século XXI e outros artistas que venderam milhões de discos continuam a carreira em ritmo bem lento, Knopfler se prepara para lançar seu quinto álbum de estúdio da década e é outra jóia.
Get Lucky, gravado no premiado British Grove Studios no oeste de Londres e co-produzido com os amigos de longa data Chuck Ainlay e Guy Fletcher, é uma exploração belamente trabalhada das raízes musicais de toda uma vida.
Combinando blues e folk com letras originais, o todo contém ingredientes britânicos personalizados e um vívido lirismo observacional.
Aproveitando esse longo e intenso caminho de produtividade com gratidão o herói da guitarra, ganhador do Grammy e que tem uma reputação de mais de 30 anos, mostra seu habitual talento para se subestimar. “Eu apenas continuo aparecendo”, diz ele. “É exatamente isso. É exatamente assim que as coisas são e acho que a gente aprecia isso muito mais ao ficar mais velho. Eu costumava não dar valor a isso quando era novo. Não acho que respeitei o suficiente qualquer talento que eu tinha .— Tive que aprender isso. Então estou correndo atrás. É assim que as coisas acontecem. ”
“Posso me distrair com facilidade”, ele sorri. “É isso que os professores sempre falaram de mim. Mas mesmo assim eu ainda consigo escrever muito. Ainda sou um trapeiro de uma certa maneira. Pego essas coisas que se juntam, que estão juntas e estou gravando muito.Não falta material sobrando. Eu podia voltar para o estúdio agora se os rapazes estivessem aqui”.
Reinstalado no British Grove, o grupo habitual logo evocou uma atmosfera calma de talento artístico. “Entre nós, chegamos lá, faz parte da graça disso,” diz Mark. “Também acho que tem muito respeito mutuo.” Dessa vez, “os rapazes” ganharam o reforço dos admirados músicos Phil Cunningham e Michael McGoldrick , que se juntaram à mais recente inclusão na banda de Mark, o multi-instrumentista escocês John McCusker. “Eles já tocaram antes”, ri Knopfler admiravelmente.
Se fosse um romance, Get Lucky seria outro livro de Knopfler que você não consegue parar de ler com personagens que saem das letras como o motorista de caminhão de Glasgow da faixa que abre o álbum, “Border Reiver,” ou funcionário de parque de diversões ou apanhador de frutas da música–título ou a lembrança profunda de grandes navios em “So Far From The Clyde,” ou os tributos da vida real ao mestre na fabricação de guitarras em “Monteleone” e o tio falecido que Mark nunca conheceu em “Piper To The End.”
Esses e outros temas e personagens do álbum são vistos pelo prisma da infância de Mark em Glasgow até ele ter oito anos, quando a família se mudou para Newcastle. “Nós alguma vez saímos da infância?” reflete ele. “Algumas das coisas que nos atraiam quando éramos bem pequenos ficam conosco por toda a vida.”
Certamente isso é verdade no caso de Mark. “No fim da Salters Road em Newcastle, havia uma pequena loja de discos”, lembra ele. “Um dia tinha aquela Fender Stratocaster na vitrine e foi simplesmente mágico. Fiquei literalmente com o nariz na vitrine. Acho que ainda estava de calças curtas, e é isso, um menininho vindo da escola para casa, ficando completamente fascinado por ela.Agora eu ainda atravesso a estrada para olhar a loja de guitarras”.
O que nos mantém e o que provavelmente me faz seguir em frente é a emoção de tentar fazer algo , de simplesmente fazer algo. É isso. É óbvio que as coisas mudam um pouco mesmo, a gente cresce até certo ponto, mas tento manter esses pedacinhos de jovem em mim.”
A linha autobiográfica que perpassa Get Lucky é exemplificada pela faixa título. “O primeiro itinerante que já conheci cantava em bandas de soul no inverno e depois trabalhava em meio expediente em parques de diversão ou ‘ia para o sul colher frutas ’ quando o tempo esquentava,” explica Knopfler. “Eu tinha uns 15 anos, preso na escola e com inveja. ‘Get Lucky’ se originou a partir dele e de outros personagens viajantes que vim a conhecer em lugares em que me vi trabalhando por curtos períodos como fazendas, armazéns e obras antes de dar sorte com minhas músicas.”
”O título de “Border Reiver” vem dos invasores que corriam pelas fronteiras anglo escocesas séculos atrás. “Essa canção é sobre a dura vida de um caminhoneiro no fim dos anos 60 . Morávamos perto da fábrica da Albions em Glasgow e eu via os motoristas vestidos como grandes motociclistas com óculos de proteção e casações tirando os chassis para testá-los b antes que eles fossem encaixados nas cabines e plataformas de caminhão. A Albions era conhecida pela qualidade e ‘Certo como o nascer do sol’ era o lema da empresa.”
A canção também tem uma ligação temática com uma música do álbum de 1978 que ajudou a tornar Knopfler famoso. “ Em Newcastle morávamos perto da A1, a principal estrada ligando o norte e o sul do país,” diz ele, “e aos oito anos eu já estava começando a conhecer os uniformes das empresas de transporte à medida que os caminhões passavam pela cidade. Nos meus tempos de pegar carona na adolescência e aos vinte anos, muitos motoristas de caminhão bondosos paravam para me pegar. A música ‘Southbound Again’ do primeiro álbum do Dire Straits é sobre isso, sobre ir para o sul e o norte do país e meu romance florescente com Londres.”
Em um álbum no qual a vitalidade dos personagens se combina com o esplendor da instrumentação a música que o fecha é a tocante “Piper To The End,” escrita para o tio de Mark, Freddie. Ele era um gaiteiro do 1º Batalhão, Brigada Tyneside Scottish, o Black Watch, Royal Highland Regiment (Regimento Real Escocês) , que carregou a gaita para a batalha e foi morto com ela em Ficheux, perto de Arras em maio de 1940, com apenas 20 anos.
“Claro que não o conheci, mas eu e meu tio Kingsley, irmão de minha mãe, éramos muito íntimos. Primeiro ele me ensinou a boogie-woogie no piano e Freddie era o irmão mais velho de Kingsley. A gaita de fole sempre fez sentido para mim e como eu cresci em Glasgow e em Newcastle, havia os discos de Jimmy Shand, por isso o som da música celta sempre me pareceu familiar.”
Agora Knopfler e a banda aguardam ansiosos para cair na estrada de novo em 2010. “É como ser o capitão de um pequeno navio de guerra eu gosto dessa coisa de estar na estrada com o grupo, curto estar com a equipe. Suponho que uma das razões para eu gostar tanto disso é que saber que não vai durar um ano.”
”Em meio ao novo material, quando o público pedir músicas que fazem parte da vida de todos nós ,ele vai apreciar. “O lance das músicas antigas do Dire Straits é que elas são um marco na vida das pessoas. Obviamente, vou tocá-las de maneira diferente aqui e ali para mantê-las vivas e significativas para mim, sem essa coisa do honky tonky . Mas há casos como as partezinhas dedilhadas no fim de ‘Sultans,’ se não faço as partezinhas dedilhadas as pessoas acham que o mundo não está bem. Gosto de tocar as músicas antigas. Eu as escrevi as pessoas gostam de ouvi-las é simples assim.”
No fim , Mark Knopfler tem sucesso por nunca deixar de dar valor ao público . “Acho que ainda há lugar para o que eu toco,” reflete ele. Não é no mesmo tom que muitas outros estão tocando,o meu está em um lugar e o deles está em outro, mas as pessoas ainda querem ouvir canções trabalhadas.”
Quando ficou combinado por alguma regra não escrita que artistas consagrados com uma trajetória de álbuns brilhantes ficam menos criativos ao continuarem a carreira, obviamente Mark Knopfler não estava prestando atenção. Ele estava muito ocupado compondo, gravando, fazendo turnês e curtindo tudo isso.
Assim, à medida que nos aproximamos do fim da primeira década do século XXI e outros artistas que venderam milhões de discos continuam a carreira em ritmo bem lento, Knopfler se prepara para lançar seu quinto álbum de estúdio da década e é outra jóia.
Get Lucky, gravado no premiado British Grove Studios no oeste de Londres e co-produzido com os amigos de longa data Chuck Ainlay e Guy Fletcher, é uma exploração belamente trabalhada das raízes musicais de toda uma vida.
Combinando blues e folk com letras originais, o todo contém ingredientes britânicos personalizados e um vívido lirismo observacional.
Aproveitando esse longo e intenso caminho de produtividade com gratidão o herói da guitarra, ganhador do Grammy e que tem uma reputação de mais de 30 anos, mostra seu habitual talento para se subestimar. “Eu apenas continuo aparecendo”, diz ele. “É exatamente isso. É exatamente assim que as coisas são e acho que a gente aprecia isso muito mais ao ficar mais velho. Eu costumava não dar valor a isso quando era novo. Não acho que respeitei o suficiente qualquer talento que eu tinha .— Tive que aprender isso. Então estou correndo atrás. É assim que as coisas acontecem. ”
“Posso me distrair com facilidade”, ele sorri. “É isso que os professores sempre falaram de mim. Mas mesmo assim eu ainda consigo escrever muito. Ainda sou um trapeiro de uma certa maneira. Pego essas coisas que se juntam, que estão juntas e estou gravando muito.Não falta material sobrando. Eu podia voltar para o estúdio agora se os rapazes estivessem aqui”.
Reinstalado no British Grove, o grupo habitual logo evocou uma atmosfera calma de talento artístico. “Entre nós, chegamos lá, faz parte da graça disso,” diz Mark. “Também acho que tem muito respeito mutuo.” Dessa vez, “os rapazes” ganharam o reforço dos admirados músicos Phil Cunningham e Michael McGoldrick , que se juntaram à mais recente inclusão na banda de Mark, o multi-instrumentista escocês John McCusker. “Eles já tocaram antes”, ri Knopfler admiravelmente.
Se fosse um romance, Get Lucky seria outro livro de Knopfler que você não consegue parar de ler com personagens que saem das letras como o motorista de caminhão de Glasgow da faixa que abre o álbum, “Border Reiver,” ou funcionário de parque de diversões ou apanhador de frutas da música–título ou a lembrança profunda de grandes navios em “So Far From The Clyde,” ou os tributos da vida real ao mestre na fabricação de guitarras em “Monteleone” e o tio falecido que Mark nunca conheceu em “Piper To The End.”
Esses e outros temas e personagens do álbum são vistos pelo prisma da infância de Mark em Glasgow até ele ter oito anos, quando a família se mudou para Newcastle. “Nós alguma vez saímos da infância?” reflete ele. “Algumas das coisas que nos atraiam quando éramos bem pequenos ficam conosco por toda a vida.”
Certamente isso é verdade no caso de Mark. “No fim da Salters Road em Newcastle, havia uma pequena loja de discos”, lembra ele. “Um dia tinha aquela Fender Stratocaster na vitrine e foi simplesmente mágico. Fiquei literalmente com o nariz na vitrine. Acho que ainda estava de calças curtas, e é isso, um menininho vindo da escola para casa, ficando completamente fascinado por ela.Agora eu ainda atravesso a estrada para olhar a loja de guitarras”.
O que nos mantém e o que provavelmente me faz seguir em frente é a emoção de tentar fazer algo , de simplesmente fazer algo. É isso. É óbvio que as coisas mudam um pouco mesmo, a gente cresce até certo ponto, mas tento manter esses pedacinhos de jovem em mim.”
A linha autobiográfica que perpassa Get Lucky é exemplificada pela faixa título. “O primeiro itinerante que já conheci cantava em bandas de soul no inverno e depois trabalhava em meio expediente em parques de diversão ou ‘ia para o sul colher frutas ’ quando o tempo esquentava,” explica Knopfler. “Eu tinha uns 15 anos, preso na escola e com inveja. ‘Get Lucky’ se originou a partir dele e de outros personagens viajantes que vim a conhecer em lugares em que me vi trabalhando por curtos períodos como fazendas, armazéns e obras antes de dar sorte com minhas músicas.”
”O título de “Border Reiver” vem dos invasores que corriam pelas fronteiras anglo escocesas séculos atrás. “Essa canção é sobre a dura vida de um caminhoneiro no fim dos anos 60 . Morávamos perto da fábrica da Albions em Glasgow e eu via os motoristas vestidos como grandes motociclistas com óculos de proteção e casações tirando os chassis para testá-los b antes que eles fossem encaixados nas cabines e plataformas de caminhão. A Albions era conhecida pela qualidade e ‘Certo como o nascer do sol’ era o lema da empresa.”
A canção também tem uma ligação temática com uma música do álbum de 1978 que ajudou a tornar Knopfler famoso. “ Em Newcastle morávamos perto da A1, a principal estrada ligando o norte e o sul do país,” diz ele, “e aos oito anos eu já estava começando a conhecer os uniformes das empresas de transporte à medida que os caminhões passavam pela cidade. Nos meus tempos de pegar carona na adolescência e aos vinte anos, muitos motoristas de caminhão bondosos paravam para me pegar. A música ‘Southbound Again’ do primeiro álbum do Dire Straits é sobre isso, sobre ir para o sul e o norte do país e meu romance florescente com Londres.”
Em um álbum no qual a vitalidade dos personagens se combina com o esplendor da instrumentação a música que o fecha é a tocante “Piper To The End,” escrita para o tio de Mark, Freddie. Ele era um gaiteiro do 1º Batalhão, Brigada Tyneside Scottish, o Black Watch, Royal Highland Regiment (Regimento Real Escocês) , que carregou a gaita para a batalha e foi morto com ela em Ficheux, perto de Arras em maio de 1940, com apenas 20 anos.
“Claro que não o conheci, mas eu e meu tio Kingsley, irmão de minha mãe, éramos muito íntimos. Primeiro ele me ensinou a boogie-woogie no piano e Freddie era o irmão mais velho de Kingsley. A gaita de fole sempre fez sentido para mim e como eu cresci em Glasgow e em Newcastle, havia os discos de Jimmy Shand, por isso o som da música celta sempre me pareceu familiar.”
Agora Knopfler e a banda aguardam ansiosos para cair na estrada de novo em 2010. “É como ser o capitão de um pequeno navio de guerra eu gosto dessa coisa de estar na estrada com o grupo, curto estar com a equipe. Suponho que uma das razões para eu gostar tanto disso é que saber que não vai durar um ano.”
”Em meio ao novo material, quando o público pedir músicas que fazem parte da vida de todos nós ,ele vai apreciar. “O lance das músicas antigas do Dire Straits é que elas são um marco na vida das pessoas. Obviamente, vou tocá-las de maneira diferente aqui e ali para mantê-las vivas e significativas para mim, sem essa coisa do honky tonky . Mas há casos como as partezinhas dedilhadas no fim de ‘Sultans,’ se não faço as partezinhas dedilhadas as pessoas acham que o mundo não está bem. Gosto de tocar as músicas antigas. Eu as escrevi as pessoas gostam de ouvi-las é simples assim.”
No fim , Mark Knopfler tem sucesso por nunca deixar de dar valor ao público . “Acho que ainda há lugar para o que eu toco,” reflete ele. Não é no mesmo tom que muitas outros estão tocando,o meu está em um lugar e o deles está em outro, mas as pessoas ainda querem ouvir canções trabalhadas.”
2009-08-06
Entro a medo, sei que estou em casa, mas há algum tempo que não venho aqui.
Olho em redor, tudo igual, de novo apenas o abandono que nasceu neste espaço, cheio de paredes nas palavras, prontas a serem escritas como sementes, sem medo de desabrochar ou semear de novo.
Tinha saudades de aqui estar e agora, que voltei, como se por acaso, ouço em primeira mão uma música que me enche os sentidos e me faz adormecer com um sorriso (não fossem a letra e a viola deste senhor a extensão dos meus montes).
I may get lucky sometime...
Olho em redor, tudo igual, de novo apenas o abandono que nasceu neste espaço, cheio de paredes nas palavras, prontas a serem escritas como sementes, sem medo de desabrochar ou semear de novo.
Tinha saudades de aqui estar e agora, que voltei, como se por acaso, ouço em primeira mão uma música que me enche os sentidos e me faz adormecer com um sorriso (não fossem a letra e a viola deste senhor a extensão dos meus montes).
I may get lucky sometime...
2009-06-28
Tenho-te no olhar
e procuro-te como se jamais terminasse a noite,
palpitando o bailado
e o cenário do meu respirar,
quero-te perceber e encontrar
nas letras que percorro com o meu arado.
Que de costas se voltem os anjos
e de ti, as tuas, me percorram arfantes
passadas num singelo trocar de vidas,
dou-te a minha sem o saber
porque a tua, sem te encontrar,
tenho-a no sorrir
mais que no olhar...
e procuro-te como se jamais terminasse a noite,
palpitando o bailado
e o cenário do meu respirar,
quero-te perceber e encontrar
nas letras que percorro com o meu arado.
Que de costas se voltem os anjos
e de ti, as tuas, me percorram arfantes
passadas num singelo trocar de vidas,
dou-te a minha sem o saber
porque a tua, sem te encontrar,
tenho-a no sorrir
mais que no olhar...
2009-06-09
2009-06-04
Esc. Sec. Penafiel
A oportunidade surgiu, mais uma vez... E foi... Foi muito, mas mesmo muito bom... Depois de assimilar tudo bem assimilado, irei escrever mais por aqui.
No dia 1 de Junho, no auditório da Escola Secundária de Penafiel, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, e integrado no estudo do texto poético, os alunos do 7º ano e respectivas professoras de Língua Portuguesa participaram na actividade “Encontro com os poetas José Miguel Gomes e Maria Moura”.
Na referida actividade houve momentos de leitura expressiva, música, conversa e a habitual sessão de autógrafos. No final do encontro, o entusiasmo e a gratificação eram visíveis em todos os intervenientes.
No dia 1 de Junho, no auditório da Escola Secundária de Penafiel, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, e integrado no estudo do texto poético, os alunos do 7º ano e respectivas professoras de Língua Portuguesa participaram na actividade “Encontro com os poetas José Miguel Gomes e Maria Moura”.
Na referida actividade houve momentos de leitura expressiva, música, conversa e a habitual sessão de autógrafos. No final do encontro, o entusiasmo e a gratificação eram visíveis em todos os intervenientes.
2009-05-24
2009-05-07
Saúdo a saudade que se ausenta
quando se reencontram
olhares nas mãos
da animosidade ternurenta.
Do teu silêncio
recordo apenas a ausência do teu choro inacabado,
cercando-te a matilha
e o tempo atiçado,
há lá sítio para fugir!
Além das palavras
e das cicatrizes
soçobram esteios outrora firmes
e na paisagem
abandonada
uns quantos
oscilantes
solúveis vimes...
quando se reencontram
olhares nas mãos
da animosidade ternurenta.
Do teu silêncio
recordo apenas a ausência do teu choro inacabado,
cercando-te a matilha
e o tempo atiçado,
há lá sítio para fugir!
Além das palavras
e das cicatrizes
soçobram esteios outrora firmes
e na paisagem
abandonada
uns quantos
oscilantes
solúveis vimes...
2009-04-24
Sonata desconexa (part 3 of 1)
Escrevi e apaguei o que tinha escrito três vezes, antes de começar a escrever agora, pela quarta vez, prometendo a mim mesmo que não vou apagar isto. Hum, complicado. Hum, vai ficar... Dou um passo e volto atrás. Os poemas saem apenas em forma de música que apenas eu escuto, falta-me transformar as palavras em letras, para que as possa tactear com o olhar. Fruto dos tempos, eu, árvore, dou sementes secas que não sei colher. Coisas, dizem uns, coisas digo eu.
Mantenho a cabeça à tona da água, enquanto este percurso não me leva para outras águas. Esqueço por vezes que tenho corpo cujas mãos precisam tactear o caminho, chego ao destino onde ainda não estou... Coisas de estar de alma, mas ainda não de corpo...
Tenho que semicerrar os olhos para ler o que escrevo, quase como se toda a claridade, por muito ínfima que seja, me ferisse o pensamento.
Prometi que não apagava et voilá, não apaguei (mas custou).
Mantenho a cabeça à tona da água, enquanto este percurso não me leva para outras águas. Esqueço por vezes que tenho corpo cujas mãos precisam tactear o caminho, chego ao destino onde ainda não estou... Coisas de estar de alma, mas ainda não de corpo...
Tenho que semicerrar os olhos para ler o que escrevo, quase como se toda a claridade, por muito ínfima que seja, me ferisse o pensamento.
Prometi que não apagava et voilá, não apaguei (mas custou).
2009-04-23
2009-03-23
Serenata ao olhar teu.
Sabes que o olhar não é meu, nem o som dos dias que passas longe de ti e perto de mim.
Sabes que o olhar não é meu, nem o braço que te agarrou à vida com a esperança da força de um sorriso, nem a tua presença cativa sem face outrora, conhecendo-a hoje em mim, sei-te aqui no peito, num infinito condensado numa hora.
Sabes que o olhar não é meu, porque de mim os olhos são apenas o verde que reflecti dos prados onde sonhei encontrar-te, gemo com o ondular vagaroso e vago do tempo nas cearas, como se colher-te fosse tirar de mim mesmo a seiva, queimar o restolho que é o fim do dia ausente, desfalecer na vida para renascer em todas as paisagens que te vivam.
Sabes que o olhar não é meu... Sou do tempo que viveste, guardando em mim rastos da tua presença, confundo o meu olhar com o teu respirar, para respirar com o ligeiro esgar que te sorri.
Sabes que o olhar não é meu, porque sou teu.
Sabes que o olhar não é meu, nem o braço que te agarrou à vida com a esperança da força de um sorriso, nem a tua presença cativa sem face outrora, conhecendo-a hoje em mim, sei-te aqui no peito, num infinito condensado numa hora.
Sabes que o olhar não é meu, porque de mim os olhos são apenas o verde que reflecti dos prados onde sonhei encontrar-te, gemo com o ondular vagaroso e vago do tempo nas cearas, como se colher-te fosse tirar de mim mesmo a seiva, queimar o restolho que é o fim do dia ausente, desfalecer na vida para renascer em todas as paisagens que te vivam.
Sabes que o olhar não é meu... Sou do tempo que viveste, guardando em mim rastos da tua presença, confundo o meu olhar com o teu respirar, para respirar com o ligeiro esgar que te sorri.
Sabes que o olhar não é meu, porque sou teu.
Perante a morte alheia
Vejo-te na morte o corpo que sustem a recordação do que os olhos já não vêm. Pairando ainda no vazio que te preenche, soltas um grito que ouve o eco de quem te chora... Se te soubessem nuvem, serias céu e horizonte, ar que se traga pelos ventos passados, na ânsia de um futuro que te chega precoce, a fluidez dos dias nas noites que sucumbiram.
Vejo-te na morte a alma, o sopro indivisível de cabelos que não ondulam, a cadência desmedida de um percurso inadiável, os ombros fortes de suster o mundo, as lágrimas que choram o cegar nublando o sorriso de te saber distante, longe, na esteira de uma estrela cadente.
Vejo-te na morte a alma, o sopro indivisível de cabelos que não ondulam, a cadência desmedida de um percurso inadiável, os ombros fortes de suster o mundo, as lágrimas que choram o cegar nublando o sorriso de te saber distante, longe, na esteira de uma estrela cadente.
2009-03-19
Nascem-te pétalas onde chorou o tempo, assim são as flores do meu jardim, intemporais à Primavera para adormecerem para sempre no estio.
Os teus olhos são da cor do meu olhar e preenchem os espaços que nunca explorei.
Sacia-me a fome a sede que o calor vai beber às raízes do meu escrever.
Faço-o sem mim, rodeado pelas tuas pétalas ausculto os sentidos ainda antes de os sentires, para ouvir reverberar o eco que vejo no silêncio do teu cinzento.
Amanhecem-te os dias ocultos quando te ressoam os passos órfãos de caminhos.
Quantas direcções em sentidos distintos?
A impenetrável barreira da tua solidão contrasta com o ressurgimento do ocaso.
Saberás por acaso quantas portas tem a noite?
Os teus olhos são da cor do meu olhar e preenchem os espaços que nunca explorei.
Sacia-me a fome a sede que o calor vai beber às raízes do meu escrever.
Faço-o sem mim, rodeado pelas tuas pétalas ausculto os sentidos ainda antes de os sentires, para ouvir reverberar o eco que vejo no silêncio do teu cinzento.
Amanhecem-te os dias ocultos quando te ressoam os passos órfãos de caminhos.
Quantas direcções em sentidos distintos?
A impenetrável barreira da tua solidão contrasta com o ressurgimento do ocaso.
Saberás por acaso quantas portas tem a noite?
2009-03-13
Cubro os momentos daquilo que sou e parto para o imaginário que te habita.
Tenho mãos e sonhos com os quais tacteio o chão que flutua sob mim.
Não sou mais, nem menos, sou apenas um abraço e um olhar, um pequeno suspiro que anseia ser vento, uma tempestade que anseia um chão, um sorrir que anseia mãos e sonhos que o tacteiem.
Tenho e sou umas quantas rimas que se escondem nas rugas do caminho. Escrevo como se os meus dias fossem brisas num solo seco e árido na fertilidade de uma carícia.
Adormeço mil vezes, para mil vezes acordar do lado de lá da cortina e ver-me dormir, para me encontrar onde se perde a realidade, para retomar quando a noite termina com o que sou.
Adormeço mil vezes, para mil vezes abraçar a vida e saber que ela, a vida, é parte de mim em ti... E a tua parte é o todo que sustenta o céu...
Tenho mãos e sonhos com os quais tacteio o chão que flutua sob mim.
Não sou mais, nem menos, sou apenas um abraço e um olhar, um pequeno suspiro que anseia ser vento, uma tempestade que anseia um chão, um sorrir que anseia mãos e sonhos que o tacteiem.
Tenho e sou umas quantas rimas que se escondem nas rugas do caminho. Escrevo como se os meus dias fossem brisas num solo seco e árido na fertilidade de uma carícia.
Adormeço mil vezes, para mil vezes acordar do lado de lá da cortina e ver-me dormir, para me encontrar onde se perde a realidade, para retomar quando a noite termina com o que sou.
Adormeço mil vezes, para mil vezes abraçar a vida e saber que ela, a vida, é parte de mim em ti... E a tua parte é o todo que sustenta o céu...
2009-03-08
Cego aos poucos a capacidade de te olhar.
O Sol que me entra pela escuridão do destino supera-se ao brilho que a tua Lua me traz à alma. Sei lá se é noite ou dia o momento em que os braços se rompem num abraço jamais saboreado! Ouço o silêncio que soluçou na tua silhueta, haverá voz para os que escrevem sem caneta?Sou aos poucos mais vagabundo e menos sombra, ilumina-me por momentos com aquilo que te ofusca, aquece-me as mãos com que seguro a minha vida, porque tenho medo de abrir os olhos e tu seres um vulto reflectido nas paredes da minha alma.
O Sol que me entra pela escuridão do destino supera-se ao brilho que a tua Lua me traz à alma. Sei lá se é noite ou dia o momento em que os braços se rompem num abraço jamais saboreado! Ouço o silêncio que soluçou na tua silhueta, haverá voz para os que escrevem sem caneta?Sou aos poucos mais vagabundo e menos sombra, ilumina-me por momentos com aquilo que te ofusca, aquece-me as mãos com que seguro a minha vida, porque tenho medo de abrir os olhos e tu seres um vulto reflectido nas paredes da minha alma.
2009-03-06
Pensei que dias sólidos em mim seriam intemporais, mas não, as tardes escorrem languidamente no meu regaço, entranham-se naquilo que penso serem os hiatos entre os meus sonhos, grudam migalhas de tempo no que tinha como infinito.
Esqueço-me das mãos, das minhas, tacteio-as na esperança de me terem algures, entre os pós que se soltam do trabalho, escondendo os que me caíram das estrelas...
Bate-me no peito uma angústia alegre, um pouco de fachada escorada, um cheiro de madeira velha, queimada, como são todas as madeiras que sustentam a vida com o mundo a tiracolo.
Tento não esmorecer, trazer um pigarrear respirado, deixar-me ocultar pelos tempos que sei não existirem.
Escondo-me atrás deste invólucro que me cresce desde que nasci...
Há dias em que ter corpo vale uma tarde chuvosa, nos dias em que os meus olhos, cansados, perscrutam além do que vejo e é lá, atrás do que tenho, que me encontro.
E, agora, vou procurar-me...
Esqueço-me das mãos, das minhas, tacteio-as na esperança de me terem algures, entre os pós que se soltam do trabalho, escondendo os que me caíram das estrelas...
Bate-me no peito uma angústia alegre, um pouco de fachada escorada, um cheiro de madeira velha, queimada, como são todas as madeiras que sustentam a vida com o mundo a tiracolo.
Tento não esmorecer, trazer um pigarrear respirado, deixar-me ocultar pelos tempos que sei não existirem.
Escondo-me atrás deste invólucro que me cresce desde que nasci...
Há dias em que ter corpo vale uma tarde chuvosa, nos dias em que os meus olhos, cansados, perscrutam além do que vejo e é lá, atrás do que tenho, que me encontro.
E, agora, vou procurar-me...
Tudo impecavelmente arrumado, odores e sabores dispostos nos escaparates do que sou, um ou outro olhar pousado ao canto do que cada um é.
Olhas-me e perguntas, onde vais?
Volto-me, olho-te e digo, estou a chegar.
Frequentemente é assim, ter as malas prontas não para partir, mas para chegar.
O meu destino sou eu mesmo, percorro o mundo ainda antes de sentir o apelo de partida, cruzava estrelas ainda antes de serem centelhas e será daí, desses momentos, quando o meu olhar se confundia com teu, que olho e vejo-me, reflectido, atrás de todo o horizonte que retens, não no olhar, mas na própria centelha que esmaece em ti, para nascer estrela, em mim...
Olhas-me e perguntas, onde vais?
Volto-me, olho-te e digo, estou a chegar.
Frequentemente é assim, ter as malas prontas não para partir, mas para chegar.
O meu destino sou eu mesmo, percorro o mundo ainda antes de sentir o apelo de partida, cruzava estrelas ainda antes de serem centelhas e será daí, desses momentos, quando o meu olhar se confundia com teu, que olho e vejo-me, reflectido, atrás de todo o horizonte que retens, não no olhar, mas na própria centelha que esmaece em ti, para nascer estrela, em mim...
2009-03-03
O comboio e o olhar permaneciam ligados pelo vento. Nada une mais dois objectos que o vento. O olhar aproxima, constrói, convida e toca. O comboio leva o olhar, no olhar e ao olhar de outras paragens, transporta consigo o olhar sem ter olhar próprio. Mas o vento, o vento é o único que consegue fazer o olhar transportar o comboio, sem carris, sem rede, apenas com um olhar fugidio cujas agulhas o carril nunca tricotou. Se ao menos o vapor...
2009-03-01
Vou contando horas desde que conheço o tempo. Por vezes, nada mais tenho a fazer que contar, confiante nos números que se seguem, convicto até nas imensas fracções que me vão subtraindo.
Cansei-me de escrever sobre olhares, o recôndito de cada um de nós onde encontramos quem somos e de quem seremos.
Os dias vão-se sucedendo, contando ou não as horas. Este comboio vai chuchugando a vapor, a paisagem é conhecida e mesmo assim o comboio avança a medo.
Tenho fé que na curva seguinte apareça o meu apeadeiro...
(um intervalo de algumas horas)
Venho até aqui num movimento de esperança, sim, pode ser que esta seja a noite em que vou dormir... Já passaram quase duas semanas e o meu padrão de sono não se altera, continuo a dormir pouco, mal, em períodos curtos de tempo e o meu humor começa a escapar-me.
Até já...
Cansei-me de escrever sobre olhares, o recôndito de cada um de nós onde encontramos quem somos e de quem seremos.
Os dias vão-se sucedendo, contando ou não as horas. Este comboio vai chuchugando a vapor, a paisagem é conhecida e mesmo assim o comboio avança a medo.
Tenho fé que na curva seguinte apareça o meu apeadeiro...
(um intervalo de algumas horas)
Venho até aqui num movimento de esperança, sim, pode ser que esta seja a noite em que vou dormir... Já passaram quase duas semanas e o meu padrão de sono não se altera, continuo a dormir pouco, mal, em períodos curtos de tempo e o meu humor começa a escapar-me.
Até já...
2009-02-25
Quatro quadras
na canção dos teus olhos,
no som de um sorriso
ou alvura
que são os tempos
onde te vi
viver...
Leva-te a brandura
e o dançar
das cordas que a minha guitarra sonha,
o ambiente cuidadoso
que as estrelas
saboreiam,
o toque quente de uma mão
e a profundidade
amena
da tua imaginação,
traz-me o futuro no teu regaço,
no sonhos encontrados
que são as imaginárias realidades
de contornos sonhados...
Uma vez apenas,
sim, uma vez,
no término de um ciclo incompleto,
dá-me a valsa que me dançou
e a noite
cuja mão saboreou...
na canção dos teus olhos,
no som de um sorriso
ou alvura
que são os tempos
onde te vi
viver...
Leva-te a brandura
e o dançar
das cordas que a minha guitarra sonha,
o ambiente cuidadoso
que as estrelas
saboreiam,
o toque quente de uma mão
e a profundidade
amena
da tua imaginação,
traz-me o futuro no teu regaço,
no sonhos encontrados
que são as imaginárias realidades
de contornos sonhados...
Uma vez apenas,
sim, uma vez,
no término de um ciclo incompleto,
dá-me a valsa que me dançou
e a noite
cuja mão saboreou...
2009-02-15
Bom final de fim-de-semana. Nada que não se deseje, no entanto, vamos primar pela originalidade! Desejar um bom ano tem sempre um estímulo, para quem deseja (na ânsia de ouvir o mesmo do outro lado) e para quem recebe, por isso, eis o meu desejo, para ti, na ânsia de ouvir o mesmo, aqui fica: bom final de fim-de-semana!
Começo a retomar a escrita e alguns dos sonhos afloram, ainda que durante o dia. Circulava hoje de carro e surge a voz do costume, sussurrando umas letras, uma frase que tinha que converter em poema... Parei o carro, o caderno ia já aberto, de sobreaviso, não tive tempo sequer de abrir a porta, quando as palavras chegam assim, fazem-no com um misto de misticismo e física quântica, não são onda, nem são partícula, são uma espécie de materialização de pigmentos, na retina e no papel.
O avançado da hora e o desejo de dormir umas boas horas para enfrentar o amanhã, fazem com que fique por aqui, fisicamente, porque mentalmente, tu sabes, estou aqui a ver-te e a tentar que com a mesma tenacidade que os sonhos não desistem de mim, tu também não desistas de seres quem és...
Começo a retomar a escrita e alguns dos sonhos afloram, ainda que durante o dia. Circulava hoje de carro e surge a voz do costume, sussurrando umas letras, uma frase que tinha que converter em poema... Parei o carro, o caderno ia já aberto, de sobreaviso, não tive tempo sequer de abrir a porta, quando as palavras chegam assim, fazem-no com um misto de misticismo e física quântica, não são onda, nem são partícula, são uma espécie de materialização de pigmentos, na retina e no papel.
O avançado da hora e o desejo de dormir umas boas horas para enfrentar o amanhã, fazem com que fique por aqui, fisicamente, porque mentalmente, tu sabes, estou aqui a ver-te e a tentar que com a mesma tenacidade que os sonhos não desistem de mim, tu também não desistas de seres quem és...
2009-02-12
2009-02-04
2009-01-29
Dos desejos
anseio os que ainda não possuo,
o aguardar tumultuoso
pelos dias
que irão banhar os rios
das minhas
utopias.
Chove lá fora,
como pétalas de uma flor não germinada,
queimando tempos e etapas
e quadros rústicos
de quem se atrasa na demora.
Aguardo a espera,
vivo no presente os quotidianos
futuros,
soçobrando prematuramente
antes as fiadas invisíveis
que constroem meus moinhos, muros...
Que da vida se esqueçam meu nome,
um cravo e ferradura
e sonho, um pronome.
Quando acordar o desperto
e sorrir-me o desejo,
serei já do leito, feno e forquilha
sepultado num só beijo...
anseio os que ainda não possuo,
o aguardar tumultuoso
pelos dias
que irão banhar os rios
das minhas
utopias.
Chove lá fora,
como pétalas de uma flor não germinada,
queimando tempos e etapas
e quadros rústicos
de quem se atrasa na demora.
Aguardo a espera,
vivo no presente os quotidianos
futuros,
soçobrando prematuramente
antes as fiadas invisíveis
que constroem meus moinhos, muros...
Que da vida se esqueçam meu nome,
um cravo e ferradura
e sonho, um pronome.
Quando acordar o desperto
e sorrir-me o desejo,
serei já do leito, feno e forquilha
sepultado num só beijo...
2009-01-23
Sei-te minha, noite,
no interregno da madrugada
onde uiva a neve,
no afável sorriso
gasto
pelos sonhos que esvoaçam
a quem nada pede.
O cansaço
e a ironia,
a ténue fachada urbanística
que são as dedilhadas
rugas
de um abraço.
Sigo trilhos e caminhos
por onde urdi
no futuro,
entre fugazes
e eternos que teci
pernoitam,
algures do lado de lá do (meu) muro.
(ps.: este sim, deu-me prazer escrever...)
no interregno da madrugada
onde uiva a neve,
no afável sorriso
gasto
pelos sonhos que esvoaçam
a quem nada pede.
O cansaço
e a ironia,
a ténue fachada urbanística
que são as dedilhadas
rugas
de um abraço.
Sigo trilhos e caminhos
por onde urdi
no futuro,
entre fugazes
e eternos que teci
pernoitam,
algures do lado de lá do (meu) muro.
(ps.: este sim, deu-me prazer escrever...)
2009-01-21
Vi ontem, na televisão, por terras de meu coração (Alvão), um pastor, cara voltada ao chão, a timidez de se ser grande, respondendo à pergunta da jornalista ("E isto causa-lhe prejuízo?") com "É ao gado, que não tem que comer"...
Eu sou daquilo, de pastos que crescem, mesmo com a neve.
Voto à pobreza
a minha sobriedade,
casto o pasto
em que te deitas
na dureza
da tua idade.
Vento o ar e o trombar
e as cruchas
ébrias
de saudade,
faço-te de mim eu
para que não pare o tempo
em qualquer estrela
que nasceu...
Ah, como te subjugo,
à vontade e vaidade
de rodar
sobre o vácuo!
Que de minhas mãos pende um jugo
e dos olhos algo,
nuns temperam a vida,
em mim saboreiam
as pequenas covas
do teu pranto.
Estou pronto!
Eu sou daquilo, de pastos que crescem, mesmo com a neve.
Voto à pobreza
a minha sobriedade,
casto o pasto
em que te deitas
na dureza
da tua idade.
Vento o ar e o trombar
e as cruchas
ébrias
de saudade,
faço-te de mim eu
para que não pare o tempo
em qualquer estrela
que nasceu...
Ah, como te subjugo,
à vontade e vaidade
de rodar
sobre o vácuo!
Que de minhas mãos pende um jugo
e dos olhos algo,
nuns temperam a vida,
em mim saboreiam
as pequenas covas
do teu pranto.
Estou pronto!
2009-01-19
2009-01-15
Tinha algo especial para deixar aqui...
Não é bem especial, era apenas um aglomerado de histórias e estórias que queriam nascer...
Sinto as contracções na alma, sinal que querem sair, mas, paciência, o adiantado da hora (para quem tem que se levantar cedo amanhã) e o facto de só voltar aqui domingo (sábado também vou ter que trabalhar) só me permite desejar-te um bom fim-de-semana, o parto virá depois, talvez em forma de olhares adormecidos nos montes de Valpaços e Chaves
Sei que passas aqui, sinto-o, lês, por vezes comentas e é por isso que agradeço...
Fica bem e até breve.
Não é bem especial, era apenas um aglomerado de histórias e estórias que queriam nascer...
Sinto as contracções na alma, sinal que querem sair, mas, paciência, o adiantado da hora (para quem tem que se levantar cedo amanhã) e o facto de só voltar aqui domingo (sábado também vou ter que trabalhar) só me permite desejar-te um bom fim-de-semana, o parto virá depois, talvez em forma de olhares adormecidos nos montes de Valpaços e Chaves
Sei que passas aqui, sinto-o, lês, por vezes comentas e é por isso que agradeço...
Fica bem e até breve.
Canto inebriado a sobriedade da vida,
ondulo como o vazio
repleto de vozes caladas
que cegam meu escrever.
Rotundo o sentido
desnivelado
e a vapor,
claqueando palavras na perceptível noite
para que se inicie
o espectáculo,
degredo vazio
ao público atento
e hirto.
A vida cala-me o sorriso
e eu sorrio à socapa
no esconderijo da tua madrugada,
sou-te do telhado
um Zé
e tu,
acesa,
a clave de Sol
que me conduz em Ré...
ondulo como o vazio
repleto de vozes caladas
que cegam meu escrever.
Rotundo o sentido
desnivelado
e a vapor,
claqueando palavras na perceptível noite
para que se inicie
o espectáculo,
degredo vazio
ao público atento
e hirto.
A vida cala-me o sorriso
e eu sorrio à socapa
no esconderijo da tua madrugada,
sou-te do telhado
um Zé
e tu,
acesa,
a clave de Sol
que me conduz em Ré...
2009-01-13
Terias olhos de criança
e eu asas de cedro,
mudas
de escutar
espectros raiadas de um Sol,
esgotadas
e verdejantes
da neve que corre correndo,
enquanto outros vivem
morrendo.
Quadras de versos
e rimas orfãs de mim,
que sou poema
nocturno,
de tacteados sonhos acesos.
Acorda-te em mim,
que adormeço sem te ver,
palpebreando o ardor
e expondo a cru,
o gesto nu
de ser carícia,
a humilhar o azedo meu
chamando-lhe delícia.
e eu asas de cedro,
mudas
de escutar
espectros raiadas de um Sol,
esgotadas
e verdejantes
da neve que corre correndo,
enquanto outros vivem
morrendo.
Quadras de versos
e rimas orfãs de mim,
que sou poema
nocturno,
de tacteados sonhos acesos.
Acorda-te em mim,
que adormeço sem te ver,
palpebreando o ardor
e expondo a cru,
o gesto nu
de ser carícia,
a humilhar o azedo meu
chamando-lhe delícia.
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