2010-04-20

Pendo

Tenho a memória completa

das viagens que não escrevi,
um vagão sonhador
sulcando
o vento que não vivi.
Pendo no sobressalto meus braços
para que agarrados ao vago
possam suster as nuvens
que ainda afago.
Sou da noite
porque não anoiteço
inclino-me à força da esquina
no pó em que me tornei
na pauta que me solfeja
no olhar que vertigina
o sabor do beijo
que te sonhei.

2010-04-10

Distantes

É para ti
(que moras em mim)
as páginas tantas do que fui
rasgadas vida
que de meus olhos flui.
Tocando-te vida
de mundos distantes
que me tocam
vivo as recordações do que serei
quando as nuvens que me suportam
chovem no silêncio
do que nunca te falei.

2010-03-23

Sei que Deus escreve direito por linhas tortas, mas tem cá uma caligrafia difícil de entender...

2010-03-22

Onde

Navegarei ao infinito
nas lágrimas que não choro
adormecerei na luz
do destino
porque habito um corpo
onde não moro.

2010-03-21

Há um cheiro a montanha no ar, terra fria e musgo húmido pelo manhã. 
Há um não sei quê de mim ali e eu não estou lá...

2010-03-16

Carranca

O zap, enquanto a comida não fica pronta, resulta por vezes em surpresas agradáveis e muitas vezes com um resgate de emoções que por vontade alheia se vão enterrando na areia que transportamos para as nossas vidas. Paro na RTP Memória, ouço o genérico do Verão Azul e, imediatamente, esqueço-me de onde estou. Por momentos desço a rua (agora tem outro nome, comprido, antes era rua, aliás, todas as ruas eram a rua) com os amigos do costume, assobiando... De repente, sei-o, tenho em mim aquela vontade, ingénua talvez, de ter um barco e um grelhador e lá em cima, do grelhador e das brasas, umas sardinhas, uma música, a vista para o mar e para um punhado de amigos que vão chegando, a assobiar.

Pergunto-me em que fase da minha vida passarei a ser adulto, desses carrancudos.

2010-03-15

Toque

Nos entrelaçados mundos em que vivo
um universo entra-me pelo teu olhar
movimenta-se o toque de um nada contigo
para no infinito
novamente
me aprisionar...

2010-02-22

Ainda não sei se chove. Apenas ouço o baralhar da rádio. Sem qualquer mecanismo de identificação (que não seja levantar o rabiosque) do tempo que faz, o que fazia sei-o, presencialmente, o que fará acabarei por saber, deixo-me levar pelo guarda-chuva e preparo-me para ir salpicar a chuva com um pouco da minha imaginação. É que a rua pode até ser de asfalto, mas os meus pés calcam é terra, monte, pastos e ainda que seco, deixo-me levar pelo molhado das plantas que me encharcam a alma até ao joelho.

2010-02-21

Faz-me lembrar de ti... Como se te esquecesse e, sem me aperceber, nascesses de novo em mim, no olhar.

2010-02-11

A pensar, o que faz de nós próprios aquilo que somos?
Para mim, agora, uma tijela de sopa quente, home made, o Sol a bater nos vidros, olhos fechados, com o caderno cheio de ideias que nunca escrevi e uma felicidade que brilha, mesmo sem a ver.

2010-02-10


Há qualquer coisa de mágico num cão sozinho, numa rotunda, fugindo dos faróis dos carros, farejando um chão desconhecido.
Há qualquer coisa de mágico num bocado de monte com eucaliptos e pinheiros, fumo pelo chão e o Sol a brilhar no chão encharcado.
Há qualquer coisa de mágico, que já se foi.

2010-02-08

Há um mundo no meu mundo
onde habita o que não sou,
o olhar latejante
que minha mão procurou,
onde me cais no destino
incerto na viagem que findou,
és tu porto,
ancoragem,
um corpo ausente
na saudade que não vem.

2010-02-03

Há dias assim, em que dói indefinidamente, como se viesse dos confins de algo que não se conhece e nos apanha surpresos.

2010-02-01

Há qualquer coisa de mágico no desembrulhar de um lanche... no verter um pouco de chã quente... falta-me a beira da estrada e o cheiro a erva cortada, o barulho de um riacho e o Sol tímido por entre as folhas de um plátano.
Estou no lado errado da estrada...

2010-01-25

Alma Tua

Olá!
Deixa-me que te fale um pouco do vale do Tua.
Este vale, o rio Tua e a linha com o mesmo nome, bem como uma boa parte da população do Nordeste Transmontano, estão ameaçados pelo abandono a que há muito são condenados por parte do poder político e mais recentemente pela ameaça da construção de uma barragem.
Esta barragem irá inundar o vale do Tua, submergindo a maior parte da linha férrea, e alterando irremediavelmente uma paisagem única, verdadeiro património da humanidade.
Estou a desenvolver um projecto de texto (prosa e poesia) e fotografia sobre o vale do Tua. Este projecto é desenvolvido em parceria com o meu amigo Norberto.
Sendo o Norberto Transmontano de nascença e eu de coração, estamos obviamente preocupados com a actual realidade ou sina, do vale do Tua.
O nosso projecto, procura mostrar um pouco da beleza das terras, das gentes e da sua alma e sensibilizar para a sua salvaguarda.
Visitem-nos em http://www.almatua.com
Trata-se do site de promoção do nosso projecto, que possui alguns "rebuçados" sobre o final.

"À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo.

Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, ultimamente, até porque a memória dos autores não perscruta tão longe assim, os sucessivos governantes (propositadamente com g minúsculo) tendem a fazer: fazer desaparecer o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular.
Sem ter quem defenda a bondade da arrogância política, os que não têm voz e que pela força do isolamento acreditam em quem lhes atira umas palavras caras acompanhadas de fato e gravata, que se chamou domingueiro há idos, soçobram ao genocídio mudo, à devassidão moral de quem promete e nunca cumpriu.
É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua.
É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta.
Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua e a sua linha.
Esperamos que o leitor possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras.
Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo.
Por Trás-os-Montes (o de portugueses, como Torga).
Pelo Tua."
www.almatua.com
Miguel Gomes e Norberto Valério

2010-01-11

Acordo quase todos os dias às 5:32... Há uma semana. 5:32. Adormeço. Depois acordo com o despertomóvel (mistura de despertador com telemóvel) a hora indefinida. Indefinida porque ele toca, coitado, toca, coitadinho, mas nem sempre me levanto à hora que ele quer.

E, invariavelmente, ando pelos montes de trás, lá para cima, onde mandam os que lá estão, a cortar mato ou, então, a andar numa carrinha pick-up, caixa fechada, com prateleiras de madeira e materiais presos, não vão os solavancos atirar de um lado para o outro a carga.
Depois páro, buzino, quer dizer, nem sempre preciso de buzinar, ouvem-me chegar e vão chegando, bafo a bafo no ar frio, vultos negros de gente abandonada por gente... 

Gostava de saber de onde vêm estas lembranças de coisas que nunca vivi e que me nascem sempre aos olhos. A paixão pelo interior. A paixão apenas. A necessidade das gentes, do horizonte.

A necessidade de Ti.

2010-01-05

Tenho em mim trevas e luz,
pedaços de mundos que criei
nas centelhas que não ascendem
aos fogos que aticei.

Tenho em mim trevas e luz,
noites desiguais ao infinito
nos caminhos ao largo do caminho
onde mora ainda meu grito.

Tenho em mim trevas e luz,
no que está em tudo do meu nada,
no eu que me conduz.

Tenho em mim trevas e luz,
na metade de um irreal
é a tua mão inteira
que me seduz...

2010-01-04

Escondido ao dia
amanheço com rasante lápis no olhar,
escrevo as memórias que viverei
sobre os passos seguros
que não dei.

Ainda que olhares vislumbrem
não em mim,
que não estou,
estrelas no céu
e este vazio que é meu,
serei sempre do amanhã
apenas e porque este que te redige hoje
é pensamento
que ainda não há.
55 posts em 2009... O número tem vindo a cair... E embora seja da opinião que o tamanho ou quantidade não contam, noto que te tenho vindo a deixar abandonado, apenas com a companhia dos que (segundo o hiStats) ainda aqui passam...
Tanta "coisa" por dizer, escrever, mas vou rendendo-me à preguiça e à passividade de me deixar levar pela televisão ou por actividades infrutíferas. E de tantas actividades infrutíferas, sou eu, agora, que não dou frutos.
Vou voltar, um dia, maior, melhor, mas hoje sou apenas isto, três parágrafos, palavras, cansaço e duas mãos.

2009-12-24

2009-12-16

Onde quer que estejas

Meus braços quentes
num corpo que nunca toquei,
assim caminho na tua ausência.

Clamo um nome à cor que não te dei
sem saber que o teu silvo,
meu respirar,
é canção de embalar
a quem não abracei…

2009-11-10

A amar

Há o toque e o tocar,
há o corpo que se contorce
e uma forma no ar
a bailar.
Há o olhar e as mãos,
há o tempo que se evapora
num abraço a vagos vãos
a chorar.
Há algo que procuras,
há perdido em todos os achados
e o sentimento que seguras
no peito
a arfar.
Há ternura e solidão,
há o instante em que te vais
e o calor que deixas cá dentro
a amar...

2009-11-01

Confesso que sinto falta de vir aqui, no entanto espero que seja por um bom motivo (ou que se venha a revelar um) que o tempo me vai roubando para outras paragens...
Fim-de-semana perfeito, com um sábado em terras quentes de Trás-os-Montes, viagem de Mirandela a Vila Real com o pôr-do-Sol e o nascer-da-Lua, estrelas mais perto de nós e uma incursão pela N15 desde a Pousada, com bastante nevoeiro, até Padronelo, para assentar ideias e deixar que aquele misto de noite escura, nevoeiro, solidão e oração levem algumas pétalas. Rematar com um domingo chuvoso, em família com F e tudo o que de bom traz.
Sei que, muitas vezes, perdes-te no quotidiano e mesmo perante tantas ruas tudo te parece um beco sem saída...
Sei-o, porque em nós, que nos tentamos encontrar, mora sempre a dúvida do caminho, a procura do trilho que faça sentido a todos os passos, a todos os olhares... E no meio de tudo isto, se podermos ter uma banda sonora, que seja algo como isto...

Fica bem (sem ponto final, para ser uma "coisa" que dure)

2009-10-23

Chove.
Chove e está frio. 
Meto as chaves do carro no bolso das calças, as mãos de seguida, semicerro os olhos e avanço para debaixo das nuvens. 
Chove. 
Vou e venho já, no entanto, quando sair daqui sei que me encontrarei, aquele outro eu que vive quando chove. 
Sim, chove.

2009-10-13

Percorro meus próprios passos
ao caminho
que caminhei,
nos olhos cerrados
à noite de rostos amargos
repercute ainda o horizonte que amei.
Abraça-me o inefável
e os corpos que vestiste antes deste dia,
dá-me calor
e torpor,
mora em mim, na oitava nota da utopia.

2009-10-12

Podo os restos do Verão
que se escapam
da minha mão,
ausculto o vento
e o teu olhar,
terás ainda em ti o momento?
Serei eu tempo
por terminar?

2009-10-01

Coisas não coisas que nos fazem pensar

Sonhador da Montanha Oriah


"Não me interessa saber o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha, ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago gritar para a lua prateada: "Posso! "Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem que ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem você é e como veio parar aqui. Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará. Não me interessa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona. Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios."

(The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, Maio de 1994)

2009-09-27

Parabéns Ana

Cais-me
como as manhãs frias no acordar,
palpitas-me o peito
e a vida
na junção do dia com teu olhar.

Cresces-me
como a vida num momento,
sussurras-me o silêncio
e o sorriso
no beijar do sonho com meu vento.

Leva-me no ventre,
percorre as horas da madrugada
e dá ao Sol
quem te prometeu,
hoje dormem as estrelas em ti,
amanhã o presente não tem forma,
sou eu...

2009-09-22

Truz, truz

É a passos corridos e ritmos dedilhados que o Outono começa a cair...
É sempre assim, vai o Verão no adro, mas para mim é já copo meio vazio. Não tenho palavras para o frio que me começa a moldar, vai subindo devagarinho, sem pressa, sabe que o aprecio como quem degusta um vinho, um prato requintado ou, como eu, um olhar, um sorriso. Aos poucos o arrepio dá lugar ao conforto, a um dos poucos confortos sem os quais não sei viver, o frio, o gemer do calor ao longe, fugindo para outros corpos, o frio, sempre o frio.

Setembro traz-me vindimas, frio em forma de calor humano, as mãos pegajosas e o corpo suado, pernas e pés com pevides, cascas e vinho, salpicado em forma de aromas que não sei saborear. Tenho ainda, escondidos nos olhos, os fumos no ar que ascendem das fogueiras dos restos das podas, quase que consigo ver videiras que se espreguiçam, que se desprendem das mundanidades e ascendem ao céu em forma de nuvem.
O fumo e o cheiro do frio que pairam de mãos dadas com os dias que morrem mais cedo.
As recordações do meu corpo pequeno, com uma mochila nas costas, o sacudir dos livros e cadernos, das canetas e dos lápis, enquanto corria para casa pelos caminhos calcados no monte, subindo as "Moutadas", percorrendo os mesmos paralelos com quem falo à noite, nos meus passeios, deixando-me perder na imaginação fértil (hoje sou avião, um dos "Heróis da Esquadrilha", hoje sou Conan, hoje sou um dos Mosqueteiros, hoje sou Esteban em busca da minha Cidade do Ouro), contando chegar a casa em hora útil, de pegar na bicicleta e ser um carro de Fórmula 1...
Gosto do frio, da manhã fria, da água fria com que me banho, do aconchego de uma qualquer chávena de café ou leite, de um bocado de pão, seco ou fresco, do sorrir dos primeiros fotões na parede da cozinha ou nas sombras da sala, das histórias e suas personagens que tenazmente resistem e me resgatam do meu próprio esquecimento.
Pergunto-me frequentemente se ser feliz será isto, se a minha Cidade do Ouro será este prolongamento do que sou, de me esquecer que tenho 33 anos, de ver o corpo mudar e o olhar a permanecer, de pensar que a minha felicidade é a minha única segurança e o meu verdadeiro plano de poupança reforma, de tentar, sempre, a cada dia que passa, moldar o presente com isto mesmo, o presente de estar vivo, que se morto estiver, estarei por aí, ainda no frio, tentando levar calor a quem não se sabe aquecer.

O frio é isto mesmo, ter palavras que desabrocham como se uma Primavera se tratasse, ter ar respirável ao invés do calor surdo dos incêndios e do grito abafado das árvores que morrem, ter frio é saber-se calor, mesmo quando por fora, inconsciente, o calor agrilhoado das pessoas frias se tomba nos dias negros que o próprio homem pinta.
Outono tem isto em mim, faz-me ser eu plenamente, viver o que fui e alicerçar o que sou, consciente que o que serei terá sempre em mim o frio, o aconchego de uma manga mais comprida e, agora, o sono da Ana aqui ao lado, enquanto um pequeno corpo ganha frio e uma alma, maior que a minha.
Gosto de dizer que nada disto é nostalgia, é quase como um baú onde guardo tudo o que acumulo em recordações, é o caminho percorrido, que percorro diariamente.
Hoje ainda sou assim, uns dias Conan, outros dias Mosqueteiro.
Hoje sou um Esteban e acho, cá no meu intímo, que a minha Cidade do Ouro está aqui, no meu coração.

2009-08-21

Get lucky

(traduzido do Inglês para PT-BR)

Quando ficou combinado por alguma regra não escrita que artistas consagrados com uma trajetória de álbuns brilhantes ficam menos criativos ao continuarem a carreira, obviamente Mark Knopfler não estava prestando atenção. Ele estava muito ocupado compondo, gravando, fazendo turnês e curtindo tudo isso.
Assim, à medida que nos aproximamos do fim da primeira década do século XXI e outros artistas que venderam milhões de discos continuam a carreira em ritmo bem lento, Knopfler se prepara para lançar seu quinto álbum de estúdio da década e é outra jóia.
Get Lucky, gravado no premiado British Grove Studios no oeste de Londres e co-produzido com os amigos de longa data Chuck Ainlay e Guy Fletcher, é uma exploração belamente trabalhada das raízes musicais de toda uma vida.
Combinando blues e folk com letras originais, o todo contém ingredientes britânicos personalizados e um vívido lirismo observacional.
Aproveitando esse longo e intenso caminho de produtividade com gratidão o herói da guitarra, ganhador do Grammy e que tem uma reputação de mais de 30 anos, mostra seu habitual talento para se subestimar. “Eu apenas continuo aparecendo”, diz ele. “É exatamente isso. É exatamente assim que as coisas são e acho que a gente aprecia isso muito mais ao ficar mais velho. Eu costumava não dar valor a isso quando era novo. Não acho que respeitei o suficiente qualquer talento que eu tinha .— Tive que aprender isso. Então estou correndo atrás. É assim que as coisas acontecem. ”
“Posso me distrair com facilidade”, ele sorri. “É isso que os professores sempre falaram de mim. Mas mesmo assim eu ainda consigo escrever muito. Ainda sou um trapeiro de uma certa maneira. Pego essas coisas que se juntam, que estão juntas e estou gravando muito.Não falta material sobrando. Eu podia voltar para o estúdio agora se os rapazes estivessem aqui”.
Reinstalado no British Grove, o grupo habitual logo evocou uma atmosfera calma de talento artístico. “Entre nós, chegamos lá, faz parte da graça disso,” diz Mark. “Também acho que tem muito respeito mutuo.” Dessa vez, “os rapazes” ganharam o reforço dos admirados músicos Phil Cunningham e Michael McGoldrick , que se juntaram à mais recente inclusão na banda de Mark, o multi-instrumentista escocês John McCusker. “Eles já tocaram antes”, ri Knopfler admiravelmente.
Se fosse um romance, Get Lucky seria outro livro de Knopfler que você não consegue parar de ler com personagens que saem das letras como o motorista de caminhão de Glasgow da faixa que abre o álbum, “Border Reiver,” ou funcionário de parque de diversões ou apanhador de frutas da música–título ou a lembrança profunda de grandes navios em “So Far From The Clyde,” ou os tributos da vida real ao mestre na fabricação de guitarras em “Monteleone” e o tio falecido que Mark nunca conheceu em “Piper To The End.”
Esses e outros temas e personagens do álbum são vistos pelo prisma da infância de Mark em Glasgow até ele ter oito anos, quando a família se mudou para Newcastle. “Nós alguma vez saímos da infância?” reflete ele. “Algumas das coisas que nos atraiam quando éramos bem pequenos ficam conosco por toda a vida.”
Certamente isso é verdade no caso de Mark. “No fim da Salters Road em Newcastle, havia uma pequena loja de discos”, lembra ele. “Um dia tinha aquela Fender Stratocaster na vitrine e foi simplesmente mágico. Fiquei literalmente com o nariz na vitrine. Acho que ainda estava de calças curtas, e é isso, um menininho vindo da escola para casa, ficando completamente fascinado por ela.Agora eu ainda atravesso a estrada para olhar a loja de guitarras”.
O que nos mantém e o que provavelmente me faz seguir em frente é a emoção de tentar fazer algo , de simplesmente fazer algo. É isso. É óbvio que as coisas mudam um pouco mesmo, a gente cresce até certo ponto, mas tento manter esses pedacinhos de jovem em mim.”
A linha autobiográfica que perpassa Get Lucky é exemplificada pela faixa título. “O primeiro itinerante que já conheci cantava em bandas de soul no inverno e depois trabalhava em meio expediente em parques de diversão ou ‘ia para o sul colher frutas ’ quando o tempo esquentava,” explica Knopfler. “Eu tinha uns 15 anos, preso na escola e com inveja. ‘Get Lucky’ se originou a partir dele e de outros personagens viajantes que vim a conhecer em lugares em que me vi trabalhando por curtos períodos como fazendas, armazéns e obras antes de dar sorte com minhas músicas.”
”O título de “Border Reiver” vem dos invasores que corriam pelas fronteiras anglo escocesas séculos atrás. “Essa canção é sobre a dura vida de um caminhoneiro no fim dos anos 60 . Morávamos perto da fábrica da Albions em Glasgow e eu via os motoristas vestidos como grandes motociclistas com óculos de proteção e casações tirando os chassis para testá-los b antes que eles fossem encaixados nas cabines e plataformas de caminhão. A Albions era conhecida pela qualidade e ‘Certo como o nascer do sol’ era o lema da empresa.”
A canção também tem uma ligação temática com uma música do álbum de 1978 que ajudou a tornar Knopfler famoso. “ Em Newcastle morávamos perto da A1, a principal estrada ligando o norte e o sul do país,” diz ele, “e aos oito anos eu já estava começando a conhecer os uniformes das empresas de transporte à medida que os caminhões passavam pela cidade. Nos meus tempos de pegar carona na adolescência e aos vinte anos, muitos motoristas de caminhão bondosos paravam para me pegar. A música ‘Southbound Again’ do primeiro álbum do Dire Straits é sobre isso, sobre ir para o sul e o norte do país e meu romance florescente com Londres.”
Em um álbum no qual a vitalidade dos personagens se combina com o esplendor da instrumentação a música que o fecha é a tocante “Piper To The End,” escrita para o tio de Mark, Freddie. Ele era um gaiteiro do 1º Batalhão, Brigada Tyneside Scottish, o Black Watch, Royal Highland Regiment (Regimento Real Escocês) , que carregou a gaita para a batalha e foi morto com ela em Ficheux, perto de Arras em maio de 1940, com apenas 20 anos.
“Claro que não o conheci, mas eu e meu tio Kingsley, irmão de minha mãe, éramos muito íntimos. Primeiro ele me ensinou a boogie-woogie no piano e Freddie era o irmão mais velho de Kingsley. A gaita de fole sempre fez sentido para mim e como eu cresci em Glasgow e em Newcastle, havia os discos de Jimmy Shand, por isso o som da música celta sempre me pareceu familiar.”
Agora Knopfler e a banda aguardam ansiosos para cair na estrada de novo em 2010. “É como ser o capitão de um pequeno navio de guerra eu gosto dessa coisa de estar na estrada com o grupo, curto estar com a equipe. Suponho que uma das razões para eu gostar tanto disso é que saber que não vai durar um ano.”
”Em meio ao novo material, quando o público pedir músicas que fazem parte da vida de todos nós ,ele vai apreciar. “O lance das músicas antigas do Dire Straits é que elas são um marco na vida das pessoas. Obviamente, vou tocá-las de maneira diferente aqui e ali para mantê-las vivas e significativas para mim, sem essa coisa do honky tonky . Mas há casos como as partezinhas dedilhadas no fim de ‘Sultans,’ se não faço as partezinhas dedilhadas as pessoas acham que o mundo não está bem. Gosto de tocar as músicas antigas. Eu as escrevi as pessoas gostam de ouvi-las é simples assim.”
No fim , Mark Knopfler tem sucesso por nunca deixar de dar valor ao público . “Acho que ainda há lugar para o que eu toco,” reflete ele. Não é no mesmo tom que muitas outros estão tocando,o meu está em um lugar e o deles está em outro, mas as pessoas ainda querem ouvir canções trabalhadas.”

2009-08-06

Entro a medo, sei que estou em casa, mas há algum tempo que não venho aqui.
Olho em redor, tudo igual, de novo apenas o abandono que nasceu neste espaço, cheio de paredes nas palavras, prontas a serem escritas como sementes, sem medo de desabrochar ou semear de novo.
Tinha saudades de aqui estar e agora, que voltei, como se por acaso, ouço em primeira mão uma música que me enche os sentidos e me faz adormecer com um sorriso (não fossem a letra e a viola deste senhor a extensão dos meus montes). 
I may get lucky sometime...

2009-06-28

Tenho-te no olhar
e procuro-te como se jamais terminasse a noite,
palpitando o bailado
e o cenário do meu respirar,
quero-te perceber e encontrar
nas letras que percorro com o meu arado.

Que de costas se voltem os anjos
e de ti, as tuas, me percorram arfantes
passadas num singelo trocar de vidas,
dou-te a minha sem o saber
porque a tua, sem te encontrar,
tenho-a no sorrir
mais que no olhar...

2009-06-09

Let me be

Fica difícil não emocionar quando vejo, ouço e sinto, vozes e braços e cordas nos olhares com as vagas letras que compuseram um poemabafo (poema + desabafo) há algum tempo, encher-me de alegria e cor... Quem pega numa nuvem e faz dela Sol, é mais que radiante, É.
Obrigado... Quem sabe um dia, um outro poema na mesma voz e guitarra? :)
Ainda volto aqui, com mais tempo (e pleno) para falar dos sabores e valores, das cores e das dores, do respirar e do olhar, do florir e do sorrir, de mim, do não e do sim.

2009-06-04

Esc. Sec. Penafiel

A oportunidade surgiu, mais uma vez... E foi... Foi muito, mas mesmo muito bom... Depois de assimilar tudo bem assimilado, irei escrever mais por aqui.
No dia 1 de Junho, no auditório da Escola Secundária de Penafiel, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, e integrado no estudo do texto poético, os alunos do 7º ano e respectivas professoras de Língua Portuguesa participaram na actividade “Encontro com os poetas José Miguel Gomes e Maria Moura”.
Na referida actividade houve momentos de leitura expressiva, música, conversa e a habitual sessão de autógrafos. No final do encontro, o entusiasmo e a gratificação eram visíveis em todos os intervenientes.

2009-05-24

Houvesse na vida uma réstea de mim,
uma silva que me prendesse
ao caminho que a paisagem pariu.

Quando teceu o retalho
da mente que me cobre,
ninguém viu,
que há apenas de mim
peito arfante e cheio
de vida,
tão longe do fim.

2009-05-07

Saúdo a saudade que se ausenta
quando se reencontram
olhares nas mãos
da animosidade ternurenta.

Do teu silêncio
recordo apenas a ausência do teu choro inacabado,
cercando-te a matilha
e o tempo atiçado,
há lá sítio para fugir!

Além das palavras
e das cicatrizes
soçobram esteios outrora firmes
e na paisagem
abandonada
uns quantos
oscilantes
solúveis vimes...

2009-04-24

Sonata desconexa (part 3 of 1)

Escrevi e apaguei o que tinha escrito três vezes, antes de começar a escrever agora, pela quarta vez, prometendo a mim mesmo que não vou apagar isto. Hum, complicado. Hum, vai ficar... Dou um passo e volto atrás. Os poemas saem apenas em forma de música que apenas eu escuto, falta-me transformar as palavras em letras, para que as possa tactear com o olhar. Fruto dos tempos, eu, árvore, dou sementes secas que não sei colher. Coisas, dizem uns, coisas digo eu.
Mantenho a cabeça à tona da água, enquanto este percurso não me leva para outras águas. Esqueço por vezes que tenho corpo cujas mãos precisam tactear o caminho, chego ao destino onde ainda não estou... Coisas de estar de alma, mas ainda não de corpo...
Tenho que semicerrar os olhos para ler o que escrevo, quase como se toda a claridade, por muito ínfima que seja, me ferisse o pensamento.
Prometi que não apagava et voilá, não apaguei (mas custou).

2009-04-23

Creio que o Sol altiva as nuvens que se sustêm. 
Eu continuo aqui, vendo sons que ninguém ouve, para me silenciar quando a surdez dos dos meus sonhos se esfuma por entre os medos.

2009-03-23

Serenata ao olhar teu.

Sabes que o olhar não é meu, nem o som dos dias que passas longe de ti e perto de mim.
Sabes que o olhar não é meu, nem o braço que te agarrou à vida com a esperança da força de um sorriso, nem a tua presença cativa sem face outrora, conhecendo-a hoje em mim, sei-te aqui no peito, num infinito condensado numa hora.
Sabes que o olhar não é meu, porque de mim os olhos são apenas o verde que reflecti dos prados onde sonhei encontrar-te, gemo com o ondular vagaroso e vago do tempo nas cearas, como se colher-te fosse tirar de mim mesmo a seiva, queimar o restolho que é o fim do dia ausente, desfalecer na vida para renascer em todas as paisagens que te vivam.
Sabes que o olhar não é meu... Sou do tempo que viveste, guardando em mim rastos da tua presença, confundo o meu olhar com o teu respirar, para respirar com o ligeiro esgar que te sorri.
Sabes que o olhar não é meu, porque sou teu.

Perante a morte alheia

Vejo-te na morte o corpo que sustem a recordação do que os olhos já não vêm. Pairando ainda no vazio que te preenche, soltas um grito que ouve o eco de quem te chora... Se te soubessem nuvem, serias céu e horizonte, ar que se traga pelos ventos passados, na ânsia de um futuro que te chega precoce, a fluidez dos dias nas noites que sucumbiram.
Vejo-te na morte a alma, o sopro indivisível de cabelos que não ondulam, a cadência desmedida de um percurso inadiável, os ombros fortes de suster o mundo, as lágrimas que choram o cegar nublando o sorriso de te saber distante, longe, na esteira de uma estrela cadente.

2009-03-19

Nascem-te pétalas onde chorou o tempo, assim são as flores do meu jardim, intemporais à Primavera para adormecerem para sempre no estio.
Os teus olhos são da cor do meu olhar e preenchem os espaços que nunca explorei.
Sacia-me a fome a sede que o calor vai beber às raízes do meu escrever. 
Faço-o sem mim, rodeado pelas tuas pétalas ausculto os sentidos ainda antes de os sentires, para ouvir reverberar o eco que vejo no silêncio do teu cinzento.

Amanhecem-te os dias ocultos quando te ressoam os passos órfãos de caminhos. 
Quantas direcções em sentidos distintos? 
A impenetrável barreira da tua solidão contrasta com o ressurgimento do ocaso. 
Saberás por acaso quantas portas tem a noite?

2009-03-13

Cubro os momentos daquilo que sou e parto para o imaginário que te habita.
Tenho mãos e sonhos com os quais tacteio o chão que flutua sob mim.
Não sou mais, nem menos, sou apenas um abraço e um olhar, um pequeno suspiro que anseia ser vento, uma tempestade que anseia um chão, um sorrir que anseia mãos e sonhos que o tacteiem.

Tenho e sou umas quantas rimas que se escondem nas rugas do caminho. Escrevo como se os meus dias fossem brisas num solo seco e árido na fertilidade de uma carícia.
Adormeço mil vezes, para mil vezes acordar do lado de lá da cortina e ver-me dormir, para me encontrar onde se perde a realidade, para retomar quando a noite termina com o que sou.

Adormeço mil vezes, para mil vezes abraçar a vida e saber que ela, a vida, é parte de mim em ti... E a tua parte é o todo que sustenta o céu...

2009-03-08

Cego aos poucos a capacidade de te olhar.
O Sol que me entra pela escuridão do destino supera-se ao brilho que a tua Lua me traz à alma. Sei lá se é noite ou dia o momento em que os braços se rompem num abraço jamais saboreado! Ouço o silêncio que soluçou na tua silhueta, haverá voz para os que escrevem sem caneta?
Sou aos poucos mais vagabundo e menos sombra, ilumina-me por momentos com aquilo que te ofusca, aquece-me as mãos com que seguro a minha vida, porque tenho medo de abrir os olhos e tu seres um vulto reflectido nas paredes da minha alma.

2009-03-06

Pensei que dias sólidos em mim seriam intemporais, mas não, as tardes escorrem languidamente no meu regaço, entranham-se naquilo que penso serem os hiatos entre os meus sonhos, grudam migalhas de tempo no que tinha como infinito.
Esqueço-me das mãos, das minhas, tacteio-as na esperança de me terem algures, entre os pós que se soltam do trabalho, escondendo os que me caíram das estrelas...
Bate-me no peito uma angústia alegre, um pouco de fachada escorada, um cheiro de madeira velha, queimada, como são todas as madeiras que sustentam a vida com o mundo a tiracolo.

Tento não esmorecer, trazer um pigarrear respirado, deixar-me ocultar pelos tempos que sei não existirem.
Escondo-me atrás deste invólucro que me cresce desde que nasci...
Há dias em que ter corpo vale uma tarde chuvosa, nos dias em que os meus olhos, cansados, perscrutam além do que vejo e é lá, atrás do que tenho, que me encontro.

E, agora, vou procurar-me...
Tudo impecavelmente arrumado, odores e sabores dispostos nos escaparates do que sou, um ou outro olhar pousado ao canto do que cada um é.
Olhas-me e perguntas, onde vais?
Volto-me, olho-te e digo, estou a chegar.

Frequentemente é assim, ter as malas prontas não para partir, mas para chegar.
O meu destino sou eu mesmo, percorro o mundo ainda antes de sentir o apelo de partida, cruzava estrelas ainda antes de serem centelhas e será daí, desses momentos, quando o meu olhar se confundia com teu, que olho e vejo-me, reflectido, atrás de todo o horizonte que retens, não no olhar, mas na própria centelha que esmaece em ti, para nascer estrela, em mim...

2009-03-03

O comboio e o olhar permaneciam ligados pelo vento. Nada une mais dois objectos que o vento. O olhar aproxima, constrói, convida e toca. O comboio leva o olhar, no olhar e ao olhar de outras paragens, transporta consigo o olhar sem ter olhar próprio. Mas o vento, o vento é o único que consegue fazer o olhar transportar o comboio, sem carris, sem rede, apenas com um olhar fugidio cujas agulhas o carril nunca tricotou. Se ao menos o vapor...

2009-03-01

Vou contando horas desde que conheço o tempo. Por vezes, nada mais tenho a fazer que contar, confiante nos números que se seguem, convicto até nas imensas fracções que me vão subtraindo.
Cansei-me de escrever sobre olhares, o recôndito de cada um de nós onde encontramos quem somos e de quem seremos.
Os dias vão-se sucedendo, contando ou não as horas. Este comboio vai chuchugando a vapor, a paisagem é conhecida e mesmo assim o comboio avança a medo.
Tenho fé que na curva seguinte apareça o meu apeadeiro...
(um intervalo de algumas horas)
Venho até aqui num movimento de esperança, sim, pode ser que esta seja a noite em que vou dormir... Já passaram quase duas semanas e o meu padrão de sono não se altera, continuo a dormir pouco, mal, em períodos curtos de tempo e o meu humor começa a escapar-me.
Até já...

2009-02-25

Quatro quadras
na canção dos teus olhos,
no som de um sorriso
ou alvura
que são os tempos
onde te vi
viver...

Leva-te a brandura
e o dançar
das cordas que a minha guitarra sonha,
o ambiente cuidadoso
que as estrelas
saboreiam,
o toque quente de uma mão
e a profundidade
amena
da tua imaginação,
traz-me o futuro no teu regaço,
no sonhos encontrados
que são as imaginárias realidades
de contornos sonhados...

Uma vez apenas,

sim, uma vez,
no término de um ciclo
incompleto,
dá-me a valsa que me dançou
e a noite
cuja mão saboreou...

2009-02-15

Bom final de fim-de-semana. Nada que não se deseje, no entanto, vamos primar pela originalidade! Desejar um bom ano tem sempre um estímulo, para quem deseja (na ânsia de ouvir o mesmo do outro lado) e para quem recebe, por isso, eis o meu desejo, para ti, na ânsia de ouvir o mesmo, aqui fica: bom final de fim-de-semana!
Começo a retomar a escrita e alguns dos sonhos afloram, ainda que durante o dia. Circulava hoje de carro e surge a voz do costume, sussurrando umas letras, uma frase que tinha que converter em poema... Parei o carro, o caderno ia já aberto, de sobreaviso, não tive tempo sequer de abrir a porta, quando as palavras chegam assim, fazem-no com um misto de misticismo e física quântica, não são onda, nem são partícula, são uma espécie de materialização de pigmentos, na retina e no papel.
O avançado da hora e o desejo de dormir umas boas horas para enfrentar o amanhã, fazem com que fique por aqui, fisicamente, porque mentalmente, tu sabes, estou aqui a ver-te e a tentar que com a mesma tenacidade que os sonhos não desistem de mim, tu também não desistas de seres quem és...

2009-02-12

Diziam-me que a esperança é a última morrer... Acredito... O que significa também que morre sozinha...

2009-02-04

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousamos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos"
Fernando Pessoa

2009-01-29

Dos desejos
anseio os que ainda não possuo,
o aguardar tumultuoso
pelos dias
que irão banhar os rios
das minhas
utopias.

Chove lá fora,
como pétalas de uma flor não germinada,
queimando tempos e etapas
e quadros rústicos
de quem se atrasa na demora.

Aguardo a espera,
vivo no presente os quotidianos
futuros,
soçobrando prematuramente
antes as fiadas invisíveis
que constroem meus moinhos, muros...

Que da vida se esqueçam meu nome,
um cravo e ferradura
e sonho, um pronome.

Quando acordar o desperto
e sorrir-me o desejo,
serei já do leito, feno e forquilha
sepultado num só beijo...

2009-01-23

Sei-te minha, noite,
no interregno da madrugada
onde uiva a neve,
no afável sorriso
gasto
pelos sonhos que esvoaçam
a quem nada pede.

O cansaço
e a ironia,
a ténue fachada urbanística
que são as dedilhadas
rugas
de um abraço.

Sigo trilhos e caminhos
por onde urdi
no futuro,
entre fugazes
e eternos que teci
pernoitam,
algures do lado de lá do (meu) muro.

(ps.: este sim, deu-me prazer escrever...)

2009-01-21

Vi ontem, na televisão, por terras de meu coração (Alvão), um pastor, cara voltada ao chão, a timidez de se ser grande, respondendo à pergunta da jornalista ("E isto causa-lhe prejuízo?") com "É ao gado, que não tem que comer"...
Eu sou daquilo, de pastos que crescem, mesmo com a neve.

Voto à pobreza

a minha sobriedade,
casto o pasto
em que te deitas
na dureza
da tua idade.

Vento o ar e o trombar
e as cruchas
ébrias
de saudade,
faço-te de mim eu
para que não pare o tempo
em qualquer estrela
que nasceu...

Ah, como te subjugo,
à vontade e vaidade
de rodar
sobre o vácuo!
Que de minhas mãos pende um jugo
e dos olhos algo,
nuns temperam a vida,
em mim saboreiam
as pequenas covas
do teu pranto.

Estou pronto!

2009-01-19

Há tanto tempo que a noite adormeceu e me deixou aqui, desperto, à espera da minha madrugada.

2009-01-15

Tinha algo especial para deixar aqui...
Não é bem especial, era apenas um aglomerado de histórias e estórias que queriam nascer...
Sinto as contracções na alma, sinal que querem sair, mas, paciência, o adiantado da hora (para quem tem que se levantar cedo amanhã) e o facto de só voltar aqui domingo (sábado também vou ter que trabalhar) só me permite desejar-te um bom fim-de-semana, o parto virá depois, talvez em forma de olhares adormecidos nos montes de Valpaços e Chaves

Sei que passas aqui, sinto-o, lês, por vezes comentas e é por isso que agradeço...
Fica bem e até breve.
Canto inebriado a sobriedade da vida,
ondulo como o vazio
repleto de vozes caladas
que cegam meu escrever.

Rotundo o sentido
desnivelado
e a vapor,
claqueando palavras na perceptível noite
para que se inicie
o espectáculo,
degredo vazio
ao público atento
e hirto.

A vida cala-me o sorriso
e eu sorrio à socapa
no esconderijo da tua madrugada,
sou-te do telhado
um Zé
e tu,
acesa,
a clave de Sol
que me conduz em Ré...

2009-01-13

Terias olhos de criança
e eu asas de cedro,
mudas
de escutar
espectros raiadas de um Sol,
esgotadas
e verdejantes
da neve que corre correndo,
enquanto outros vivem
morrendo.

Quadras de versos
e rimas orfãs de mim,
que sou poema
nocturno,
de tacteados sonhos acesos.

Acorda-te em mim,
que adormeço sem te ver,
palpebreando o ardor
e expondo a cru,
o gesto nu
de ser carícia,
a humilhar o azedo meu
chamando-lhe delícia.

2009-01-05

Recantos

Ouço pelo enésima vez o tema "Stand by me" do projecto "Playing for change". Convenci-me que iria escrever hoje e, para acompanhar o ritmo bater dos dedos nas teclas, youtubei a música e fiquei a ouvir... Depois reparei que o GrandPa Elliot tem uma meia de cada cor e, lá ouvi novamente. Depois fui ver se os índios que tocam tambor fazem-no com alguma espécie de pena... E assim sucessivamente até perceber que é quase meia-noite, o sono aguarda-me encostado à ombreira, ansioso por se encontrar com os sonhos da Ana que, a esta hora, vai já saltando de estrela em estrela.
O "mal" de não me permitir escrever com outra cadência, a não ser as palavras que vão cardindo de quando em vez os pixels cinzentos da minha memória, leva a que todos os episódios gravados na alma se acotovelem para sair.
Este nao não fiz qualquer resolução de ano novo, limitei-me a comer as uvas-passas de uma só vez, a beberricar um pouco de champanhe (sem conseguir evitar o esgar de asco que só eu faço quando bebo champanhe), caminhar tacteando o escuro para subir o pequeno morro e ver, ainda com a mesma magia de criança, as ambulâncias a percorrem a rua, com os pirilampos e sirenes ligados... Depois, depois o caminho de poucas centenas de metros até casa dos pais da Ana, para assegurar que todos entraram com pelo menos um pé direito em 2009, mais umas dentadas no bolo-rei, cumprimentar vizinhos e sorrir baixinho, entre mim e as estrelas e alguns que se escondem atrás delas.
Pergunto-me onde está o ano que passou, sinto-me muitas vezes como se hoje vivesse os dias de ontem e amanhã, confortando-me estes three little birds que me respondem.
Tenho as mãos cheias de sonhos, "coisas" avulsas que me nascem há anos, ambições desambicionadas, um sentimento de união, de amizade fraterna, de amor com A, entre todos.
Guardo ainda em mim os sabores de semanas por terras de Chaves, Boticas, Montalegre, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, de pés na neve e a cabeça (oh amigo, quer um barrete?) fria no calor das lareiras que vejo em qualquer recanto vazio... E é para lá que vou agora.

2009-01-01

Paz... Tu, a Paz, em mim, em todos.

Recebi esta jóia, que me emocionou, porque estamos todos acima de crises e conflitos, se quisermos, sermos, Ser a paz, a Paz, em mim, em todos... Estou de volta.

2008-12-22

Para ti, o Natal


Que o Espírito de Natal sejas tu... E que tu, sejas tu sempre que quiseres... Feliz Natal

obs.: a imagem foi obtida na Internet, enquanto que as letras foram nevadas por mim

2008-12-19

Sentei-me na vereda da minha sombra,
arrepio sentidos
e sonho com o retorno
dos idos,
mas dos quatro ventos que uivei
todos partiram
para lá do que sonhei.

Quanto de mim tem nome de pó,
lá, no frio e quente
da vida,
sem mim
sinto-me só.

2008-12-10

Está frio. Chaves nunca foi quente, mas agora que estou cá por uns dias parece ser mais fria. Vou deslizar para debaixo dos cobertores e deixar que, quase sonâmbulo, as mãos que ainda me valem tentem desenhar as telas que me viram.

Eu volto, sei que sim, mas até lá o que vês aqui é isto, mãos com frio e palavras sozinhas.

2008-12-01

Venho aqui de passagem, lembrei-me que poderias sentir frio, de facto está bastante frio... Tenho-te deixado sozinho, as próprias letras estranham, mas, olha, não tem dado, não tenho tido tempo... Ultimamente o tempo parece-me ser de outro tempo que não o tempo que conheço, foge-me das mãos, esgueira-se por locais onde não o posso seguir... Estou em Chaves, novamente, toda a semana... A ver vamos, se o tempo me deixa escrever um pouco, na cama, à noite, no caderno, aqui, em qualquer lado, sozinho e frio.

Eu volto.

2008-11-20

Polvilho as sementes do amanhecer,
há carinhos que nos nascem pelos olhos
e germinam na ausência
do anoitecer.

Há quadros e mesas e aparas de carácteres
no repouso de um guerreiro
e na vitória de um aguaceiro,
no simples gesto do vulto na face
que a outra face ocultou,
há lugares de mim mesmo
onde vive quem sou...

2008-11-13

Guardo o olhar que choveste,
deixo as nuvens florirem
nos pastos faustos do destino,
tacteio mãos e escuridões
em busca de um dorso
com outras mãos.

Curvam-se as curvas da estrada
e as margens
que me separam da madrugada.

Empobrece-me o nada
à sombra e resguardo da minha alçada,
no noctívago sentimento
de aguardar,
à candeia ténue da Lua,
o suspiro inaudível
da vida no meu peito
a ancorar...

2008-11-04

Trovoou-me o silêncio
no caos tumultuoso
de gentes irreais,
percorreu-me a calçada
e ondulou
nos semáforos que o destino teima
encarnar.

Nos espelhos que me miram
e olhos incendiados
de quem uma gota tenta sorver,
as feições esculpidas na memória
ainda antes de se terem por presente
eram já passado.

Na ponte que une as margens
do que sou aqui
(e agora)
correm as águas que não chovem,
mas nascem nuvens
no meu céu...

2008-10-31

Fall

Uma estrada sem nome,
sozinha,
vagabundeanda por folhas de plátanos que já não crescem,
percorre-me na viagem que o vento uiva
e nas curvas cegas do olhar,
saboreia o ardor e o temor
de uns passos feridos,
serpenteia entre a chuva
e a felicidade
dos idos.

Ausculto o pulso aos olhares
de gente que não vê,
faço minhas tuas mãos
para tactear no escuro uma luz esquiva,
arfante por um punhado de terra
húmida e viva...

Encerro capítulos de livros
e orvalhos,
sou sombra com sombra de plátano
numa cama fria de Outono.

Rio sozinho no final do meu reinado
aqui,
num sonho sem dono...

2008-10-28

Quero

Quero os silêncios malhados
e forjados
nas costas do destino,
quero a palma dos teus rios bravios
e o leito de desfiladeiros
onde desaguam
secos.

Quero o esquecimento dos dias
e das sombras das noites,
nos sinos que por ninguém dobram
o som aguado
da morte das mãos
e das foices.

Quero a chuva,
de uma estação abandonada
entre frestas do que seria,
de gente com alma caiada
e olhar de rebeldia,
pós e dores e ruídos e sei lá!
quem traça a linha que me separa,
do momentâneo agora
e do eterno já...

2008-10-21

Horizontes

Vou conduzindo sonhos e estradas no meu trajecto intermitente.
Quantos caminhos se separam apenas na confluência, para se encontrarem em qualquer bola de sabão colorida?

Surpreendo-me por esta pausa no trabalho, mas mais ainda pela iniciativa em escrever algo aqui, no portátil, atrás de um painel solar algures perto de Oliveira de Frades. Confesso que o cenário ideal não é aqui, sempre pensei que estes pequenos sóis que bailam em torno de mim se manifestassem apenas junto da Natureza, mas não, creio que afinal manifestam-se junta da minha Natureza.

Uns passos errantes passam atrás de mim, sobrepostos apenas pelo som de pneus cansados de carros de donos apressados. Alguém para e olha para mim, cenário novo, um portátil em cima de um quadro eléctrico e um mendigo bem vestido, ancorado às sombras das nuvens e a montes que se perdem de vista, como se da vista não fossem, apenas do horizonte e nada mais.

Parei uns largos minutos... Creio que estes pequenos sóis surgiram apenas para dar alento, para me dizerem que não, aqui não surgem...
Bem, há que esperar por chegar aos horizontes e não apenas vê-los ao longe.

2008-10-17

Limiares do meu olhar

Detesto chegar aqui, com sono, arrastado pelo desejo das letras que me habitam e nada escrever.
Há momentos que apenas poesia pode explicar, como pequenas gotas num pavimento,que dizem mais que um aguaceiro.
Hoje, sim, hoje trago comigo as limítrofes, as fronteiras e os abismos para tudo o que sou.
Sinto-me despido, nu, sem palavras que me confortem nem letras que me abracem, apenas nu enquanto outros eus vagueiam nos limiares do meu olhar, em vidas muitas que vivo nunca.
Hoje, sim, hoje sou apenas um trocadilho daquilo que sei ser.
Sou.

2008-10-13

100 título

Às vezes acho que eu sou o poema que tento escrever.
À procura de rimas, de palavras que ainda não conheço, amparando-me numa ou noutra vírgula, sem um título definido...
Passo os dias com páginas e páginas de livros que gostava de escrever, poemas e frases que se seguram às pessoas que se cruzam no meu olhar. Escoro cada pequena sílaba, na expectativa que, mais à frente, surja uma outra que complete a frase e sim, encontro, surgem numa passadeira, num gesto cansado, no velho que conta os trocos a entregar ao dono do jornal. A minha história está cheia de histórias que vi, mas ainda mais das que se desenrolam numa infinidade de destinos que, sinceramente, nem sei se existem, nesta ou noutra dimensão.
Eu (mesmo aquele que não conheces) sou um infinito dentro do meu mundo e, mesmo assim, não tenho título.

2008-10-10

(Au) sente

Sei que tens passado aqui, olhas, nada de novo, botão retroceder e partes para outras paragens... Eu tenho andado assim, também. Nada de novo, a não ser o cansaço, o correr sem rumo certo, mas com destino tangível.
Sinto por vezes que defraudo as expectativas que algumas consoantes depositaram em mim. As vogais, por serem poucas, foram falando entre elas e do pouco que me conheciam traçaram um perfil aeiou. As consoantes ainda me acompanham, trazem vogais por arrasto, são como as costas e as palmas das mãos, ninguém vive apenas de inspirar, há que expirar, ar e vida ou vidas, que é como quem diz, suspirar de nós mesmos e das paisagens que se acumulam entre aspas.
Obrigado pela passagem aqui. Eu estou cá ou melhor, aí, porque aqui parece que não mora ninguém.
(e há quem pense, ainda, que vive apenas porque corre e o vento lhe bate na face... mas as pessoas não percebem que o vento está lá, para mostrar que faz atrito e que vivemos... o vento foge, como pode, da correria absurda que alguns levam...)

2008-09-24

João de todas as semanas

As batalhas dos dias idos
que teimam em guerrear
no correr dos olhos
gastos.

As ausências do corpo
e uma alma
terna
e alterada,
a solidão de um carinho
e a ânsia
de viver no fundo de uma essência.

2008-09-23

Gerundiando

Olha-me o mundo
mirando
o que olhos meus vislumbram,
não há espera
sem fundo,
apenas equinócios permanentes
e rugidos na noite
que me sorve
em gerúndio.

Clama-me a sina
em verdade
e consequência,
chama o grito num vazio pleno
de ermos de saudades,
mas responde apenas o silêncio
com o ofegante aperto no peito.

Olha-me cego,
o mundo,
no aconchego da minha mão
em noite minha
de vagabundo...

2008-09-15

De volta

Ausente destes espaços, pareço-me comigo mesmo. Diria que não tenho tempo para escrever, mas é mentira. Faço-o diariamente, num exercício viciado e num vício exercitado, sem colocar as mãos no papel, mas colocando as ideias na mente ou na alma, quando esta última está junto a mim.
Gostava de poder sentar-me aqui, ter um momento para simplesmente pegar em cada história, daquelas bem antigas, porque as novas ainda preciso de as bi-ver (ver duas vezes) e deitá-las no silêncio da minha escrita. Gostava de poder estar um dia sentado numa sala de espera de uma estação de comboios, simplesmente a ver as vidas que escorrem de todas as vidas que apressadamente nem vivem. Um dia, quem sabe? Para já, dedico-me a, com os olhos semicerrados pelo sono e por outras coisas que não rimam com Vida, escrever um pouco daquilo que leio nos olhos das pessoas. "corremos para onde?"...

Até agora.

2008-09-08















(fotografia de Norberto Valério)

A cor dos meus olhos

traja fantasia,
ostenta quadros de sonhos
e noites orfãs
de dia.


Sei-te o tom
a voz
da tua alma
o som.


Cobre-te de mim

e eu de ti

terra austera,

porque em cada ramo meu florescem rumores secos
e uma espiga
de Primavera.


Sombra
e frondosa postura,
se cabelos houvesse seria hera
e chuva mole aqui,
meu arado em terra
pura.


Que me aguarde a morte
e me tema a vida,

as minhas searas plantam a sorte

e entre mim e eu mesmo
abrigam-se ainda corpos
,
gente que se ama

de alma
despida...

2008-09-01













fotografia de Norberto Valério

Vejo horas nos fragmentos
das vidas
que se abatem em mim.

Quebro tempos e memórias
nos ponteiros que me viajam,
vendo dias e histórias
e arestas que se soltam
do meu olhar cego.

Pauto momentos
em indeléveis estalidos,
o tempo não se compadece do relógio,
fugaz e austero
lança esquecimentos nas mãos
e sonhos
de quem do fino frio fiava
os suspiros
de quem não chegava.

Mudo, agora,
restam-me apenas horas que não voam,
minutos que anunciavam fremente vapor
escasseiam,
como lenços e abas que mãos tremeluzindo amor
passeiam.

Amparo a solidão
da madeira cansada dos bancos
e do uivo gasto do vento,
soçobrando à ilusão
de quem me olha sem ver
ausculto a dimensão dos momentos,
não sou a espera adiantada do início
apenas prenuncio de nome:
fim-dos-tempos...

2008-08-27













(fotografia de Norberto Valério)

Sobranceira ao meu olhar,
aninho-te no regaço
da saudade que o Sol dissipa,
enquanto voltam a teu ventre cadilhos
e a teus braços, gastos,
filhos.

Perdidos passos percorrem poeira,
restos de memórias vivas
morrem lentamente à sombra do esquecimento
que um falso Sol peneira,
afasta-se o rumo,
a vida,
os cheiros e a tez,
porque já não curte o frio
os frutos
e as mãos
de petiz, que homem se fez.

Dás-me corpo ondulado,
seiva e calor
de teu regaço longínquo
e molhado,
namora-te o estio
a ausência e o pousio,
o vazio que te percorre arde
sem chama,
vivos frios olhares e labutas
guardam jardins de sonhos idos que se encontram
com a calma.

Em ti, a paz
que desejo minha,
a tépida esperança acesa
tem gotas de rio que te beija,
que não te sabendo rainha
ingenuamente murmura:
princesa...