2010-02-08

Há um mundo no meu mundo
onde habita o que não sou,
o olhar latejante
que minha mão procurou,
onde me cais no destino
incerto na viagem que findou,
és tu porto,
ancoragem,
um corpo ausente
na saudade que não vem.

2010-02-03

Há dias assim, em que dói indefinidamente, como se viesse dos confins de algo que não se conhece e nos apanha surpresos.

2010-02-01

Há qualquer coisa de mágico no desembrulhar de um lanche... no verter um pouco de chã quente... falta-me a beira da estrada e o cheiro a erva cortada, o barulho de um riacho e o Sol tímido por entre as folhas de um plátano.
Estou no lado errado da estrada...

2010-01-25

Alma Tua

Olá!
Deixa-me que te fale um pouco do vale do Tua.
Este vale, o rio Tua e a linha com o mesmo nome, bem como uma boa parte da população do Nordeste Transmontano, estão ameaçados pelo abandono a que há muito são condenados por parte do poder político e mais recentemente pela ameaça da construção de uma barragem.
Esta barragem irá inundar o vale do Tua, submergindo a maior parte da linha férrea, e alterando irremediavelmente uma paisagem única, verdadeiro património da humanidade.
Estou a desenvolver um projecto de texto (prosa e poesia) e fotografia sobre o vale do Tua. Este projecto é desenvolvido em parceria com o meu amigo Norberto.
Sendo o Norberto Transmontano de nascença e eu de coração, estamos obviamente preocupados com a actual realidade ou sina, do vale do Tua.
O nosso projecto, procura mostrar um pouco da beleza das terras, das gentes e da sua alma e sensibilizar para a sua salvaguarda.
Visitem-nos em http://www.almatua.com
Trata-se do site de promoção do nosso projecto, que possui alguns "rebuçados" sobre o final.

"À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo.

Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, ultimamente, até porque a memória dos autores não perscruta tão longe assim, os sucessivos governantes (propositadamente com g minúsculo) tendem a fazer: fazer desaparecer o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular.
Sem ter quem defenda a bondade da arrogância política, os que não têm voz e que pela força do isolamento acreditam em quem lhes atira umas palavras caras acompanhadas de fato e gravata, que se chamou domingueiro há idos, soçobram ao genocídio mudo, à devassidão moral de quem promete e nunca cumpriu.
É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua.
É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta.
Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua e a sua linha.
Esperamos que o leitor possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras.
Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo.
Por Trás-os-Montes (o de portugueses, como Torga).
Pelo Tua."
www.almatua.com
Miguel Gomes e Norberto Valério

2010-01-11

Acordo quase todos os dias às 5:32... Há uma semana. 5:32. Adormeço. Depois acordo com o despertomóvel (mistura de despertador com telemóvel) a hora indefinida. Indefinida porque ele toca, coitado, toca, coitadinho, mas nem sempre me levanto à hora que ele quer.

E, invariavelmente, ando pelos montes de trás, lá para cima, onde mandam os que lá estão, a cortar mato ou, então, a andar numa carrinha pick-up, caixa fechada, com prateleiras de madeira e materiais presos, não vão os solavancos atirar de um lado para o outro a carga.
Depois páro, buzino, quer dizer, nem sempre preciso de buzinar, ouvem-me chegar e vão chegando, bafo a bafo no ar frio, vultos negros de gente abandonada por gente... 

Gostava de saber de onde vêm estas lembranças de coisas que nunca vivi e que me nascem sempre aos olhos. A paixão pelo interior. A paixão apenas. A necessidade das gentes, do horizonte.

A necessidade de Ti.

2010-01-05

Tenho em mim trevas e luz,
pedaços de mundos que criei
nas centelhas que não ascendem
aos fogos que aticei.

Tenho em mim trevas e luz,
noites desiguais ao infinito
nos caminhos ao largo do caminho
onde mora ainda meu grito.

Tenho em mim trevas e luz,
no que está em tudo do meu nada,
no eu que me conduz.

Tenho em mim trevas e luz,
na metade de um irreal
é a tua mão inteira
que me seduz...

2010-01-04

Escondido ao dia
amanheço com rasante lápis no olhar,
escrevo as memórias que viverei
sobre os passos seguros
que não dei.

Ainda que olhares vislumbrem
não em mim,
que não estou,
estrelas no céu
e este vazio que é meu,
serei sempre do amanhã
apenas e porque este que te redige hoje
é pensamento
que ainda não há.
55 posts em 2009... O número tem vindo a cair... E embora seja da opinião que o tamanho ou quantidade não contam, noto que te tenho vindo a deixar abandonado, apenas com a companhia dos que (segundo o hiStats) ainda aqui passam...
Tanta "coisa" por dizer, escrever, mas vou rendendo-me à preguiça e à passividade de me deixar levar pela televisão ou por actividades infrutíferas. E de tantas actividades infrutíferas, sou eu, agora, que não dou frutos.
Vou voltar, um dia, maior, melhor, mas hoje sou apenas isto, três parágrafos, palavras, cansaço e duas mãos.

2009-12-24

2009-12-16

Onde quer que estejas

Meus braços quentes
num corpo que nunca toquei,
assim caminho na tua ausência.

Clamo um nome à cor que não te dei
sem saber que o teu silvo,
meu respirar,
é canção de embalar
a quem não abracei…

2009-11-10

A amar

Há o toque e o tocar,
há o corpo que se contorce
e uma forma no ar
a bailar.
Há o olhar e as mãos,
há o tempo que se evapora
num abraço a vagos vãos
a chorar.
Há algo que procuras,
há perdido em todos os achados
e o sentimento que seguras
no peito
a arfar.
Há ternura e solidão,
há o instante em que te vais
e o calor que deixas cá dentro
a amar...

2009-11-01

Confesso que sinto falta de vir aqui, no entanto espero que seja por um bom motivo (ou que se venha a revelar um) que o tempo me vai roubando para outras paragens...
Fim-de-semana perfeito, com um sábado em terras quentes de Trás-os-Montes, viagem de Mirandela a Vila Real com o pôr-do-Sol e o nascer-da-Lua, estrelas mais perto de nós e uma incursão pela N15 desde a Pousada, com bastante nevoeiro, até Padronelo, para assentar ideias e deixar que aquele misto de noite escura, nevoeiro, solidão e oração levem algumas pétalas. Rematar com um domingo chuvoso, em família com F e tudo o que de bom traz.
Sei que, muitas vezes, perdes-te no quotidiano e mesmo perante tantas ruas tudo te parece um beco sem saída...
Sei-o, porque em nós, que nos tentamos encontrar, mora sempre a dúvida do caminho, a procura do trilho que faça sentido a todos os passos, a todos os olhares... E no meio de tudo isto, se podermos ter uma banda sonora, que seja algo como isto...

Fica bem (sem ponto final, para ser uma "coisa" que dure)

2009-10-23

Chove.
Chove e está frio. 
Meto as chaves do carro no bolso das calças, as mãos de seguida, semicerro os olhos e avanço para debaixo das nuvens. 
Chove. 
Vou e venho já, no entanto, quando sair daqui sei que me encontrarei, aquele outro eu que vive quando chove. 
Sim, chove.

2009-10-13

Percorro meus próprios passos
ao caminho
que caminhei,
nos olhos cerrados
à noite de rostos amargos
repercute ainda o horizonte que amei.
Abraça-me o inefável
e os corpos que vestiste antes deste dia,
dá-me calor
e torpor,
mora em mim, na oitava nota da utopia.

2009-10-12

Podo os restos do Verão
que se escapam
da minha mão,
ausculto o vento
e o teu olhar,
terás ainda em ti o momento?
Serei eu tempo
por terminar?

2009-10-01

Coisas não coisas que nos fazem pensar

Sonhador da Montanha Oriah


"Não me interessa saber o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha, ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago gritar para a lua prateada: "Posso! "Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem que ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem você é e como veio parar aqui. Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará. Não me interessa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona. Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios."

(The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, Maio de 1994)

2009-09-27

Parabéns Ana

Cais-me
como as manhãs frias no acordar,
palpitas-me o peito
e a vida
na junção do dia com teu olhar.

Cresces-me
como a vida num momento,
sussurras-me o silêncio
e o sorriso
no beijar do sonho com meu vento.

Leva-me no ventre,
percorre as horas da madrugada
e dá ao Sol
quem te prometeu,
hoje dormem as estrelas em ti,
amanhã o presente não tem forma,
sou eu...

2009-09-22

Truz, truz

É a passos corridos e ritmos dedilhados que o Outono começa a cair...
É sempre assim, vai o Verão no adro, mas para mim é já copo meio vazio. Não tenho palavras para o frio que me começa a moldar, vai subindo devagarinho, sem pressa, sabe que o aprecio como quem degusta um vinho, um prato requintado ou, como eu, um olhar, um sorriso. Aos poucos o arrepio dá lugar ao conforto, a um dos poucos confortos sem os quais não sei viver, o frio, o gemer do calor ao longe, fugindo para outros corpos, o frio, sempre o frio.

Setembro traz-me vindimas, frio em forma de calor humano, as mãos pegajosas e o corpo suado, pernas e pés com pevides, cascas e vinho, salpicado em forma de aromas que não sei saborear. Tenho ainda, escondidos nos olhos, os fumos no ar que ascendem das fogueiras dos restos das podas, quase que consigo ver videiras que se espreguiçam, que se desprendem das mundanidades e ascendem ao céu em forma de nuvem.
O fumo e o cheiro do frio que pairam de mãos dadas com os dias que morrem mais cedo.
As recordações do meu corpo pequeno, com uma mochila nas costas, o sacudir dos livros e cadernos, das canetas e dos lápis, enquanto corria para casa pelos caminhos calcados no monte, subindo as "Moutadas", percorrendo os mesmos paralelos com quem falo à noite, nos meus passeios, deixando-me perder na imaginação fértil (hoje sou avião, um dos "Heróis da Esquadrilha", hoje sou Conan, hoje sou um dos Mosqueteiros, hoje sou Esteban em busca da minha Cidade do Ouro), contando chegar a casa em hora útil, de pegar na bicicleta e ser um carro de Fórmula 1...
Gosto do frio, da manhã fria, da água fria com que me banho, do aconchego de uma qualquer chávena de café ou leite, de um bocado de pão, seco ou fresco, do sorrir dos primeiros fotões na parede da cozinha ou nas sombras da sala, das histórias e suas personagens que tenazmente resistem e me resgatam do meu próprio esquecimento.
Pergunto-me frequentemente se ser feliz será isto, se a minha Cidade do Ouro será este prolongamento do que sou, de me esquecer que tenho 33 anos, de ver o corpo mudar e o olhar a permanecer, de pensar que a minha felicidade é a minha única segurança e o meu verdadeiro plano de poupança reforma, de tentar, sempre, a cada dia que passa, moldar o presente com isto mesmo, o presente de estar vivo, que se morto estiver, estarei por aí, ainda no frio, tentando levar calor a quem não se sabe aquecer.

O frio é isto mesmo, ter palavras que desabrocham como se uma Primavera se tratasse, ter ar respirável ao invés do calor surdo dos incêndios e do grito abafado das árvores que morrem, ter frio é saber-se calor, mesmo quando por fora, inconsciente, o calor agrilhoado das pessoas frias se tomba nos dias negros que o próprio homem pinta.
Outono tem isto em mim, faz-me ser eu plenamente, viver o que fui e alicerçar o que sou, consciente que o que serei terá sempre em mim o frio, o aconchego de uma manga mais comprida e, agora, o sono da Ana aqui ao lado, enquanto um pequeno corpo ganha frio e uma alma, maior que a minha.
Gosto de dizer que nada disto é nostalgia, é quase como um baú onde guardo tudo o que acumulo em recordações, é o caminho percorrido, que percorro diariamente.
Hoje ainda sou assim, uns dias Conan, outros dias Mosqueteiro.
Hoje sou um Esteban e acho, cá no meu intímo, que a minha Cidade do Ouro está aqui, no meu coração.

2009-08-21

Get lucky

(traduzido do Inglês para PT-BR)

Quando ficou combinado por alguma regra não escrita que artistas consagrados com uma trajetória de álbuns brilhantes ficam menos criativos ao continuarem a carreira, obviamente Mark Knopfler não estava prestando atenção. Ele estava muito ocupado compondo, gravando, fazendo turnês e curtindo tudo isso.
Assim, à medida que nos aproximamos do fim da primeira década do século XXI e outros artistas que venderam milhões de discos continuam a carreira em ritmo bem lento, Knopfler se prepara para lançar seu quinto álbum de estúdio da década e é outra jóia.
Get Lucky, gravado no premiado British Grove Studios no oeste de Londres e co-produzido com os amigos de longa data Chuck Ainlay e Guy Fletcher, é uma exploração belamente trabalhada das raízes musicais de toda uma vida.
Combinando blues e folk com letras originais, o todo contém ingredientes britânicos personalizados e um vívido lirismo observacional.
Aproveitando esse longo e intenso caminho de produtividade com gratidão o herói da guitarra, ganhador do Grammy e que tem uma reputação de mais de 30 anos, mostra seu habitual talento para se subestimar. “Eu apenas continuo aparecendo”, diz ele. “É exatamente isso. É exatamente assim que as coisas são e acho que a gente aprecia isso muito mais ao ficar mais velho. Eu costumava não dar valor a isso quando era novo. Não acho que respeitei o suficiente qualquer talento que eu tinha .— Tive que aprender isso. Então estou correndo atrás. É assim que as coisas acontecem. ”
“Posso me distrair com facilidade”, ele sorri. “É isso que os professores sempre falaram de mim. Mas mesmo assim eu ainda consigo escrever muito. Ainda sou um trapeiro de uma certa maneira. Pego essas coisas que se juntam, que estão juntas e estou gravando muito.Não falta material sobrando. Eu podia voltar para o estúdio agora se os rapazes estivessem aqui”.
Reinstalado no British Grove, o grupo habitual logo evocou uma atmosfera calma de talento artístico. “Entre nós, chegamos lá, faz parte da graça disso,” diz Mark. “Também acho que tem muito respeito mutuo.” Dessa vez, “os rapazes” ganharam o reforço dos admirados músicos Phil Cunningham e Michael McGoldrick , que se juntaram à mais recente inclusão na banda de Mark, o multi-instrumentista escocês John McCusker. “Eles já tocaram antes”, ri Knopfler admiravelmente.
Se fosse um romance, Get Lucky seria outro livro de Knopfler que você não consegue parar de ler com personagens que saem das letras como o motorista de caminhão de Glasgow da faixa que abre o álbum, “Border Reiver,” ou funcionário de parque de diversões ou apanhador de frutas da música–título ou a lembrança profunda de grandes navios em “So Far From The Clyde,” ou os tributos da vida real ao mestre na fabricação de guitarras em “Monteleone” e o tio falecido que Mark nunca conheceu em “Piper To The End.”
Esses e outros temas e personagens do álbum são vistos pelo prisma da infância de Mark em Glasgow até ele ter oito anos, quando a família se mudou para Newcastle. “Nós alguma vez saímos da infância?” reflete ele. “Algumas das coisas que nos atraiam quando éramos bem pequenos ficam conosco por toda a vida.”
Certamente isso é verdade no caso de Mark. “No fim da Salters Road em Newcastle, havia uma pequena loja de discos”, lembra ele. “Um dia tinha aquela Fender Stratocaster na vitrine e foi simplesmente mágico. Fiquei literalmente com o nariz na vitrine. Acho que ainda estava de calças curtas, e é isso, um menininho vindo da escola para casa, ficando completamente fascinado por ela.Agora eu ainda atravesso a estrada para olhar a loja de guitarras”.
O que nos mantém e o que provavelmente me faz seguir em frente é a emoção de tentar fazer algo , de simplesmente fazer algo. É isso. É óbvio que as coisas mudam um pouco mesmo, a gente cresce até certo ponto, mas tento manter esses pedacinhos de jovem em mim.”
A linha autobiográfica que perpassa Get Lucky é exemplificada pela faixa título. “O primeiro itinerante que já conheci cantava em bandas de soul no inverno e depois trabalhava em meio expediente em parques de diversão ou ‘ia para o sul colher frutas ’ quando o tempo esquentava,” explica Knopfler. “Eu tinha uns 15 anos, preso na escola e com inveja. ‘Get Lucky’ se originou a partir dele e de outros personagens viajantes que vim a conhecer em lugares em que me vi trabalhando por curtos períodos como fazendas, armazéns e obras antes de dar sorte com minhas músicas.”
”O título de “Border Reiver” vem dos invasores que corriam pelas fronteiras anglo escocesas séculos atrás. “Essa canção é sobre a dura vida de um caminhoneiro no fim dos anos 60 . Morávamos perto da fábrica da Albions em Glasgow e eu via os motoristas vestidos como grandes motociclistas com óculos de proteção e casações tirando os chassis para testá-los b antes que eles fossem encaixados nas cabines e plataformas de caminhão. A Albions era conhecida pela qualidade e ‘Certo como o nascer do sol’ era o lema da empresa.”
A canção também tem uma ligação temática com uma música do álbum de 1978 que ajudou a tornar Knopfler famoso. “ Em Newcastle morávamos perto da A1, a principal estrada ligando o norte e o sul do país,” diz ele, “e aos oito anos eu já estava começando a conhecer os uniformes das empresas de transporte à medida que os caminhões passavam pela cidade. Nos meus tempos de pegar carona na adolescência e aos vinte anos, muitos motoristas de caminhão bondosos paravam para me pegar. A música ‘Southbound Again’ do primeiro álbum do Dire Straits é sobre isso, sobre ir para o sul e o norte do país e meu romance florescente com Londres.”
Em um álbum no qual a vitalidade dos personagens se combina com o esplendor da instrumentação a música que o fecha é a tocante “Piper To The End,” escrita para o tio de Mark, Freddie. Ele era um gaiteiro do 1º Batalhão, Brigada Tyneside Scottish, o Black Watch, Royal Highland Regiment (Regimento Real Escocês) , que carregou a gaita para a batalha e foi morto com ela em Ficheux, perto de Arras em maio de 1940, com apenas 20 anos.
“Claro que não o conheci, mas eu e meu tio Kingsley, irmão de minha mãe, éramos muito íntimos. Primeiro ele me ensinou a boogie-woogie no piano e Freddie era o irmão mais velho de Kingsley. A gaita de fole sempre fez sentido para mim e como eu cresci em Glasgow e em Newcastle, havia os discos de Jimmy Shand, por isso o som da música celta sempre me pareceu familiar.”
Agora Knopfler e a banda aguardam ansiosos para cair na estrada de novo em 2010. “É como ser o capitão de um pequeno navio de guerra eu gosto dessa coisa de estar na estrada com o grupo, curto estar com a equipe. Suponho que uma das razões para eu gostar tanto disso é que saber que não vai durar um ano.”
”Em meio ao novo material, quando o público pedir músicas que fazem parte da vida de todos nós ,ele vai apreciar. “O lance das músicas antigas do Dire Straits é que elas são um marco na vida das pessoas. Obviamente, vou tocá-las de maneira diferente aqui e ali para mantê-las vivas e significativas para mim, sem essa coisa do honky tonky . Mas há casos como as partezinhas dedilhadas no fim de ‘Sultans,’ se não faço as partezinhas dedilhadas as pessoas acham que o mundo não está bem. Gosto de tocar as músicas antigas. Eu as escrevi as pessoas gostam de ouvi-las é simples assim.”
No fim , Mark Knopfler tem sucesso por nunca deixar de dar valor ao público . “Acho que ainda há lugar para o que eu toco,” reflete ele. Não é no mesmo tom que muitas outros estão tocando,o meu está em um lugar e o deles está em outro, mas as pessoas ainda querem ouvir canções trabalhadas.”

2009-08-06

Entro a medo, sei que estou em casa, mas há algum tempo que não venho aqui.
Olho em redor, tudo igual, de novo apenas o abandono que nasceu neste espaço, cheio de paredes nas palavras, prontas a serem escritas como sementes, sem medo de desabrochar ou semear de novo.
Tinha saudades de aqui estar e agora, que voltei, como se por acaso, ouço em primeira mão uma música que me enche os sentidos e me faz adormecer com um sorriso (não fossem a letra e a viola deste senhor a extensão dos meus montes). 
I may get lucky sometime...