2008-10-21

Horizontes

Vou conduzindo sonhos e estradas no meu trajecto intermitente.
Quantos caminhos se separam apenas na confluência, para se encontrarem em qualquer bola de sabão colorida?

Surpreendo-me por esta pausa no trabalho, mas mais ainda pela iniciativa em escrever algo aqui, no portátil, atrás de um painel solar algures perto de Oliveira de Frades. Confesso que o cenário ideal não é aqui, sempre pensei que estes pequenos sóis que bailam em torno de mim se manifestassem apenas junto da Natureza, mas não, creio que afinal manifestam-se junta da minha Natureza.

Uns passos errantes passam atrás de mim, sobrepostos apenas pelo som de pneus cansados de carros de donos apressados. Alguém para e olha para mim, cenário novo, um portátil em cima de um quadro eléctrico e um mendigo bem vestido, ancorado às sombras das nuvens e a montes que se perdem de vista, como se da vista não fossem, apenas do horizonte e nada mais.

Parei uns largos minutos... Creio que estes pequenos sóis surgiram apenas para dar alento, para me dizerem que não, aqui não surgem...
Bem, há que esperar por chegar aos horizontes e não apenas vê-los ao longe.

2008-10-17

Limiares do meu olhar

Detesto chegar aqui, com sono, arrastado pelo desejo das letras que me habitam e nada escrever.
Há momentos que apenas poesia pode explicar, como pequenas gotas num pavimento,que dizem mais que um aguaceiro.
Hoje, sim, hoje trago comigo as limítrofes, as fronteiras e os abismos para tudo o que sou.
Sinto-me despido, nu, sem palavras que me confortem nem letras que me abracem, apenas nu enquanto outros eus vagueiam nos limiares do meu olhar, em vidas muitas que vivo nunca.
Hoje, sim, hoje sou apenas um trocadilho daquilo que sei ser.
Sou.

2008-10-13

100 título

Às vezes acho que eu sou o poema que tento escrever.
À procura de rimas, de palavras que ainda não conheço, amparando-me numa ou noutra vírgula, sem um título definido...
Passo os dias com páginas e páginas de livros que gostava de escrever, poemas e frases que se seguram às pessoas que se cruzam no meu olhar. Escoro cada pequena sílaba, na expectativa que, mais à frente, surja uma outra que complete a frase e sim, encontro, surgem numa passadeira, num gesto cansado, no velho que conta os trocos a entregar ao dono do jornal. A minha história está cheia de histórias que vi, mas ainda mais das que se desenrolam numa infinidade de destinos que, sinceramente, nem sei se existem, nesta ou noutra dimensão.
Eu (mesmo aquele que não conheces) sou um infinito dentro do meu mundo e, mesmo assim, não tenho título.

2008-10-10

(Au) sente

Sei que tens passado aqui, olhas, nada de novo, botão retroceder e partes para outras paragens... Eu tenho andado assim, também. Nada de novo, a não ser o cansaço, o correr sem rumo certo, mas com destino tangível.
Sinto por vezes que defraudo as expectativas que algumas consoantes depositaram em mim. As vogais, por serem poucas, foram falando entre elas e do pouco que me conheciam traçaram um perfil aeiou. As consoantes ainda me acompanham, trazem vogais por arrasto, são como as costas e as palmas das mãos, ninguém vive apenas de inspirar, há que expirar, ar e vida ou vidas, que é como quem diz, suspirar de nós mesmos e das paisagens que se acumulam entre aspas.
Obrigado pela passagem aqui. Eu estou cá ou melhor, aí, porque aqui parece que não mora ninguém.
(e há quem pense, ainda, que vive apenas porque corre e o vento lhe bate na face... mas as pessoas não percebem que o vento está lá, para mostrar que faz atrito e que vivemos... o vento foge, como pode, da correria absurda que alguns levam...)

2008-09-24

João de todas as semanas

As batalhas dos dias idos
que teimam em guerrear
no correr dos olhos
gastos.

As ausências do corpo
e uma alma
terna
e alterada,
a solidão de um carinho
e a ânsia
de viver no fundo de uma essência.

2008-09-23

Gerundiando

Olha-me o mundo
mirando
o que olhos meus vislumbram,
não há espera
sem fundo,
apenas equinócios permanentes
e rugidos na noite
que me sorve
em gerúndio.

Clama-me a sina
em verdade
e consequência,
chama o grito num vazio pleno
de ermos de saudades,
mas responde apenas o silêncio
com o ofegante aperto no peito.

Olha-me cego,
o mundo,
no aconchego da minha mão
em noite minha
de vagabundo...

2008-09-15

De volta

Ausente destes espaços, pareço-me comigo mesmo. Diria que não tenho tempo para escrever, mas é mentira. Faço-o diariamente, num exercício viciado e num vício exercitado, sem colocar as mãos no papel, mas colocando as ideias na mente ou na alma, quando esta última está junto a mim.
Gostava de poder sentar-me aqui, ter um momento para simplesmente pegar em cada história, daquelas bem antigas, porque as novas ainda preciso de as bi-ver (ver duas vezes) e deitá-las no silêncio da minha escrita. Gostava de poder estar um dia sentado numa sala de espera de uma estação de comboios, simplesmente a ver as vidas que escorrem de todas as vidas que apressadamente nem vivem. Um dia, quem sabe? Para já, dedico-me a, com os olhos semicerrados pelo sono e por outras coisas que não rimam com Vida, escrever um pouco daquilo que leio nos olhos das pessoas. "corremos para onde?"...

Até agora.

2008-09-08















(fotografia de Norberto Valério)

A cor dos meus olhos

traja fantasia,
ostenta quadros de sonhos
e noites orfãs
de dia.


Sei-te o tom
a voz
da tua alma
o som.


Cobre-te de mim

e eu de ti

terra austera,

porque em cada ramo meu florescem rumores secos
e uma espiga
de Primavera.


Sombra
e frondosa postura,
se cabelos houvesse seria hera
e chuva mole aqui,
meu arado em terra
pura.


Que me aguarde a morte
e me tema a vida,

as minhas searas plantam a sorte

e entre mim e eu mesmo
abrigam-se ainda corpos
,
gente que se ama

de alma
despida...

2008-09-01













fotografia de Norberto Valério

Vejo horas nos fragmentos
das vidas
que se abatem em mim.

Quebro tempos e memórias
nos ponteiros que me viajam,
vendo dias e histórias
e arestas que se soltam
do meu olhar cego.

Pauto momentos
em indeléveis estalidos,
o tempo não se compadece do relógio,
fugaz e austero
lança esquecimentos nas mãos
e sonhos
de quem do fino frio fiava
os suspiros
de quem não chegava.

Mudo, agora,
restam-me apenas horas que não voam,
minutos que anunciavam fremente vapor
escasseiam,
como lenços e abas que mãos tremeluzindo amor
passeiam.

Amparo a solidão
da madeira cansada dos bancos
e do uivo gasto do vento,
soçobrando à ilusão
de quem me olha sem ver
ausculto a dimensão dos momentos,
não sou a espera adiantada do início
apenas prenuncio de nome:
fim-dos-tempos...

2008-08-27













(fotografia de Norberto Valério)

Sobranceira ao meu olhar,
aninho-te no regaço
da saudade que o Sol dissipa,
enquanto voltam a teu ventre cadilhos
e a teus braços, gastos,
filhos.

Perdidos passos percorrem poeira,
restos de memórias vivas
morrem lentamente à sombra do esquecimento
que um falso Sol peneira,
afasta-se o rumo,
a vida,
os cheiros e a tez,
porque já não curte o frio
os frutos
e as mãos
de petiz, que homem se fez.

Dás-me corpo ondulado,
seiva e calor
de teu regaço longínquo
e molhado,
namora-te o estio
a ausência e o pousio,
o vazio que te percorre arde
sem chama,
vivos frios olhares e labutas
guardam jardins de sonhos idos que se encontram
com a calma.

Em ti, a paz
que desejo minha,
a tépida esperança acesa
tem gotas de rio que te beija,
que não te sabendo rainha
ingenuamente murmura:
princesa...

2008-08-18

Inocência: o final dos frutos



















(fotografia de Norberto Valério)
Despida do mundo,

trajo apenas searas
e foices alheias,

em bailados de sons dourados
com filigranas de colcheias.

Rendo-me ao vento que silvou
na despedida, nua,
entre o céu que me perfilhou
galgou-me a terra em semente,
sem Sol,
sem Lua.


Padece do tempo meu destino
final dos frutos,
porque a fragilidade das raízes
não brota desta tumefacta pele crua,
mas da gadanha cega e rombuda
que dança em mão inocente,
quão inocente é a culpa
tua...

2008-08-06

Agosto começa com o início de Setembro, para mim basta.
Tenho os olhos abertos porque o Sol é filtrado pelas muitas nuvens no céu, mas, de facto, para que preciso de olhar? Este tempo faz-me fechar os olhos, sentir o vento frio de Setembro, ainda que em início de Agosto, cruzar os braços atrás da nuca, descalçar os chinelos, procurar um pouco de terra e erva com os pés e ficar assim... Permaneço imóvel durante vários minutos, quem me vê deve certamente indagar-se porquê, mas para que servem as opiniões alheias? O vento teima em soprar, abana algumas ervas secas e pinheiros. Os eucaliptos ao longe, por serem maiores fazem-se ouvir perfeitamente e, assim, não preciso trautear qualquer música. Nestes momentos tenho pouco em que pensar, na realidade, o facto de não pensar é o que me faz sentir tão bem, estar apenas a sentir, sem racionalizar nada, apenas sentir, entrar numa dimensão onde habitualmente não temos tempo de estar, permitir ser feliz, ou nem ser feliz, apenas ser, sem qualquer adjectivo, substantivo, metáfora, apenas ser e é quando já me soltei do corpo, quando percorro locais distintos com a mente, quando ouço vozes familiares e vislumbro mesmo sem ver paisagens que ainda não percorri, mas das quais tenho saudades, é nesse momento que o frio, meu precioso aliado, me envolve, me percorre dos pés à cabeça, me abraça como ainda não se abraça no mundo, fazendo-me sorrir ao mesmo tempo que um arrepio eriça todos os meus pelos, percorrendo todos os milímetros do pescoço até aos pés...

Não sei o que me faz mais rico, se a falta de ambição (vide dicionário) se a extrema ambição de um arrepio.

Vou estar ausente uns dias, não da vida, mas do blog. Agora que começo a sentir uma vontade interior de escrever, tenho que me afastar... Tenho mais um caderno que a Ana me deu, tenho também marcado alguns dias para me dedicar a outros projectos de sensações e escrita com o Norberto... Acho que o presente já existe, nós só lhe iremos dar um papel de embrulho lindo e uma bela fita com um laço :)

Parece impossível a quantidade de personagens que me levam ao colo, pela estrada, pela vida. Ainda não digeri todo um fim-de-semana dicotómico (sobre o qual escreverei) e surge um outro, no fim-de-semana passado, em que estive na Feira Medieval de Santa Maria da Feira. Não é difícil envolver-me em todo aquele manancial de personagens, entre as reais e as fictícias, para me transportar durante todo o dia para as vidas de todos os dias de todos os que se cruzavam comigo... Entre as personagens, surgiam várias perdidas, sem perceberem muito bem em que era estavam, abrigando-se nas tendas vazias e invisíveis que vi nos descampados, fugindo de cavaleiros de indumentárias modernas e olhando de soslaio e com receio para as pessoas com estranhas vestes, leves e coloridas. Surpresos por ninguém parecer reparar neles, foi hilariante perceber e ver que um, ao ver que eu o via perfeitamente, correr a avisar os outros... Andei com eles todo o resto do domingo, pareceram surpresos com algumas das coisas que viram, alguns não terminaram o percurso, foram desvanecendo-se e desde domingo que tenho apenas um comigo. Está junto com outras personagens, de outros tempos e histórias, mais confuso com o ambiente que vê e sente, mas faz-lhe bem esta aprendizagem à força, esta visita de estudo pelo mundo moderno... Daqui a pouco vou até à sala, tenho a janela aberta por onde entra um pouco de frio, cruzo os braços atrás da nuca, fecho os olhos e, neste momento em que quase adormeço, ele vai ver pelos meus, vai perder as vestes e o impulso do arrepio que sobe dos pés até à nuca vai levá-lo a saltar, daqui para lá, onde todas as eras se encontram...
Enquanto escrevia isto vi-o sorrir. Embora não saiba ler, sabe sentir ou aperceber-se do que escrevo, da mesma forma que a vida não nos diz "amanhã vai ser melhor", nós apenas sabemos que sim, amanhã vai ser melhor, vai ser muito melhor!

Gosto de poder trazer artefactos de sonhos em sonhos, de vidas em vidas, do momento em que eu, no futuro, gravo mensagens para mim mesmo no passado, onde o frio leva mensagens de nuvem em nuvem e abraça outras nuvens, apenas para não se sentir só...

Esqueci as quadras e versos que me rimavam,
soltaram-se da liberdade
a inocência
e as linhas que as ancoravam,
quanto cinzento cabe
nas rugas da idade?

Um numeral na condição
de ter nas têmporas
cãs e coração,
um quadro inacabado
na matéria-prima
de um sorriso
alado.
No dia em que tiver tempo irei fazer tudo aquilo que desejo.

Resolução sábia, poderosa, que esbarra apenas nalgumas questões, como o facto do tempo não ser passível de possuir. O tempo é-o, para ele basta, chega, para outros é uma forma de protelar algumas questões. O desejo não o é, para ele basta, chega, para outros é uma forma de protelar algumas questões.

Li os parágrafos anteriores e dou-me por feliz por não ter seguido filosofia. Estou de férias, deixo os dias escorrerem lentamente, sempre com qualquer coisa para fazer, com uma miríade de elementos e peças que não compõem o meu puzzle.
Hoje estive no Alvão, sentado numa rocha, à sombra de um pinheiro quase nu, que chorava para dentro de uma pequena saca de plástico pregada ao tronco, saltitava o olhar entre as lagoas que o rio Olo faz ao fundo e o céu azul claro com algumas nuvens em cima. Dei por mim a imaginar estar lá, mas de noite, ouvir as lagoas e as estrelas, sim, ouvir, porque as estrelas não se vêm, aqueles pequenos pontos luminosos que tremeluzem à noite são infinitamente pequenos se comparados com o brilho que me depositam no peito e que alimentam os meus sonhos, dando alguma claridade, ainda que fosca, a algumas destas "coisas" que escrevo.

Não, não é quando tiver tempo, é agora, neste exacto momento, que viro as palmas das mãos para mim, afago invisíveis calos e cicatrizes que trago já de outras vivências, deixo-me sentir o calor das mãos nas minhas próprias mãos e sorrio... Sinto que se aproxima um bom momento e não sei que momento é este. A vida é de facto bela, não é?

2008-07-31

Tenho rios de xisto a correrem na face,
agrilhoei a vida
aos papeis gastos
onde me banho.

Na peugada dos meus próprios passos
percorro a poeira
que ramos virgens ostentam,
porque todo o poema é um traço incompleto
na reticência final
de um sorriso invisível,
tal como o infinito inalcançável
que trago atado
por um cordel...

2008-07-27

Chuva de verão

Desde o tempo que escrevi aqui pela última vez, a única diferença é a chuva tímida que cai lá fora.
Curioso auscultar a opinião das pessoas, que varia consideravelmente de dia para dia (e momento para momento), na semana passada era um calor abrasador, que fazia jus às previsões catastróficas do Verão deste ano como sendo o mais quente dos últimos 25 anos. Hoje (e não apenas hoje) ter que ouvir a chuva cair provoca-me um conforto maior ainda do que imaginar estar a ouvir o vento soprar no telhado de uma cozinha grande, aliás casa, com o calor de um braseiro. Parece-me que as opiniões acompanham os tempos modernos, varia com a mesma facilidade com que se muda de canal e disto sei do que falo, não fosse eu um zapper incondicional, tirando as vezes, raras, em que apanho um canal que gosto.
Tenho andado com dores de cabeça, sinal da necessidade de descanso ou simplesmente a destruição de algumas sinapses, mas não queria deitar-me sem vir aqui deixar umas linhas. Confesso que tenho andado longe deste blog, mesmo longe dos meus cadernos (e são alguns), para escrever o que quer que seja, tal como sempre. Mas hoje, não por ser domingo, não por chover, apenas porque sim, resolvo-me vir aqui, privando-me ao barulho da chuva. Tenho à minha volta todas as personagens que vivi e ainda não escrevi. Motiva-me saber o quanto tenho que escrever, embora me apavore o facto de eventualmente não saber quanto tempo tenho. Queria que soubesses que aqui, em mim, vive sempre um pouco de ti, seja numa personagem vista, vivida ou ainda por inventar. Se calhar não sabes que vivias até te leres num poema meu. Acredito que sim e não te surpreendas, comigo aconteceu o mesmo, descobri-me quando me li num poema que escrevi. Perdão, como possuo o condão de viver com o escritor (ia escrever pseudo antes), descobri-me no momento em que ele me pensou, idealizou e deu vida. Talvez por ter nascido assim, tenha pouca propensão para viver apenas num local. Na realidade, o que sou está repartido em tudo o que encontro, o que torna tão difícil sentir-me bem aqui, sabendo que poderia estar ali e, de facto, estou... Mas os tempos mudam, os reconhecimentos também, curiosamente a qualidade que mais admiro na mudança é a sua consistência, tudo muda, embora permaneça no mesmo local.
Paro um pouco e olho à esquerda. Tenho uma velha personagem comigo. Tento imaginar onde a poderei encaixar, mas não encontro local ou posição adequada. Um dos motivos pelo qual adio a escrita é a falta de paisagem onde plantar todos estes seres que habitam na minha morada, penso em várias histórias e na verdade até possuo algumas, mas não encontro narrativa para a maioria. Penso nelas como trovões ou relâmpagos, não precisam de cenário adequada, além das condições meteorológicas normais, apenas surgem, troam e desaparecem, para surgirem não se sabe quando.
Esta minha característica de perfeição ou (tentativa de) controlo impede-me de escrever mais, simplesmente porque quero que as personagens e vivências imaginári0-reais tenham um livro, sejam mais perfeitas que o momento actual, esquecendo-me obviamente que o momento actual é sempre o mais perfeito, embora compreenda algumas das personagens, como este simpático casal à minha direita, que preferem surgir, anunciarem-se e, depois, trazerem com eles todo o cenário, tempo e até indumentária... Então o que fazer? Bem, na realidade não sei. Para as personagens com vontade própria escrevo histórias, apenas porque pedem com educação, para as outras, eventualmente sairão um poema ou um pequeno texto, apenas para sentirem, elas, que encontrarão sempre solo fértil, mesmo que cresçam pouco.

Gosto disto. Gosto de vir escrever sem ter nada em mente e tudo começar a ajustar-se, a sair normalmente e fico a pensar para mim mesmo, que pena será amanhã acordar e ter esquecido tudo isto, as intenções.

Habitam em mim mais do que a parte de um todo. De facto, transporto comigo os tempos antecedentes, presentes e consequentes, como se todos caminhos que pudesse percorrer tivessem já traçados e vividos, como se num só segundo vivesse mais do que em infinitas vidas passadas e futuras. E, sabes, não me causa transtorno, não me aflige ou angustia, não me causa ansiedade. Apenas me formigam os dedos e a imaginação, com a vontade que tenho de pegar nas palavras e emoldurar corações.

Até já, porque depois de leres isto, eu serei também um pouco de ti e tenho a certeza que, fechando os olhos momentaneamente, poderás sentir uma ligeira brisa no rosto. Não estranhes, comigo aconteceu o mesmo.

2008-07-24

Ainda estou por aqui, embora possa não parecer. A quantidade de histórias a fermentar na minha mente é surreal e, ainda por cima, encontrei uma capa com vários poemas e contos antigos (muito antigos), que irei passar para aqui um dia.

Eu volto (nunca cheguei a sair).


2008-07-16

Não há noite que não alcance as estrelas,
embalar-me num pulsar invisível
enquanto me abraço a elas.

Flutuo
enquanto percorro vários céus
sob o mesmo luar,
sou caneta e papel
encenando estes dedos meus,
que ninguém me diga:
a noite está a acabar.

Rebolo-me no próprio sorriso,
dou as mãos
às mãos que não conheço,
envolto nas circunferências
das tonalidades
em que jamais esmaeço.

A cor do que escrevo é fugaz,
tem traço de homem
e gesto irrequieto de rapaz.

Não há noite que não me faça ao infinito,
acordo esvanecendo no mundo,
hoje sou grito,
amanhã, talvez, vagabundo...

2008-07-14

2008-07-11

Os ecos inaudíveis
nas vozes abafadas
surgem já entre os sonhos,
há um imaginário real
do que a alma escuta
no vazio,
um clarão que ofusca a dor
na penumbra do desassossego,
eclode o passado presentemente no futuro
num olhar transparente
que se chama Amor.

2008-07-09

Nem as palavras me deitam,
apenas o cansaço
de uns passos rodopiados
na orla
de um jardim,
não procuro o não
ou o sim,
aguardo um serrado
com ervas como gente,
uma caneta, carvão, arado
com que possa cantar
a minha semente.

Crescem-se pinhais,
onde escondo
medos que nunca vivi,
em suspiros, sem ais.

Meço e peso cada espaço
entre as linhas,
e o saber das letras
entre as palavras
são o que sorvo,
no que resta das giestas.

Resisto ao adormecimento,
o meu corpo... meu corpo,
pesa-me como um casaco,
um pedaço de vida
que nunca viverá até onde a minha mão alcança.

No carinho deste silêncio,
quando são os que não são
do dia que me anoitece quando desperto,
há um sorriso emoldurado
no verso do teu quadro.
Pacificam as estrelas o luar
que me levam o leve caminhar
percorrido
e o quanto de encontrado, está perdido.

Há um infinito de eternos nadas,
um frio adocicado
de uma brisa que traz mar.

Há grifos ascendentes de fénixes ressarcidas,
palavras em leitos sempre frios
de poemas que me leram
sem saberem a mar...

2008-07-04

Um post - duas mensagens

Sobre quem eu não seria se não fosse quem não sou
Falava agora com o Norberto, sobre o curioso que é escrever. Adoro escrever, mas mais do que isso, gosto mesmo é de ler os comentários e de perceber o que perceberão as pessoas (deduzo que quem me leia seja pessoa) que lêem. O post anterior - Pequenitates - é sobre alguém, mas não eu. Em primeiro porque as minhas nuvens não são azuis, pelo menos não no tom azul que as pessoas pensam e em segundo porque nem tenho a certeza que tenha sido escrito por mim, apareceu por aqui no computador.
Por fim, dou por mim a olhar como criança, a iludir-me como criança, a acreditar como criança, a escrever como criança, mas a cravar garras como adulto (e às vezes tenho vergonha de ter crescido).

Sobre a mais velha profissão do mundo (professor) e um amigo
De vez em quando "falo" no Norberto neste blog, mas ainda não o conhecem (creio eu). Estava na converseta com ele, via messenger, quando ele envia umas imagens de um livro de final de curso da escola onde ele lecciona. Amante das tecnologias, construíram um blog onde até colocaram uma historieta minha, e para final de ano surgiria algo diferente para todos: o livro de final de curso... Calma, coloco já uma imagem... O Norberto foi quem que apresentou o meu livro na Casa da Cultura de Paredes, mas foi ainda mais, pois foi ele, perante a minha passividade (e medo) para programar a apresentação (visto ter preferido apresentar primeiro em "casa" do que num "bar" com a editora), ele simplesmente "emailou" ao Vereador da Cultura, que respondeu prontamente e, num espaço de poucas horas, já tinha local, data e hora de apresentação. Curioso foi, também, na apresentação surpresa que a minha irmã e a Ana fizeram para o dia/noite/momento o primeiro comentário (retirado do blog) que surge ser do Norberto. E mais curioso foi o facto de antes, muito antes, tê-lo encontrado num hipermercado e ele, brincalhão como ninguém, dizer que alguém andava a fazer desaparecer os carteiros. Bolas. Naquele tempo eu ainda tinha quatro neurónios (restam dois, embora um esteja em recuperação), mas mesmo assim não consegui perceber sobre o que ele falava, até deduzir que era sobre uma pseudo-história (em três partes: do tipo uma, duas e três) e, claro, para surpresa minha, ele acompanhava o meu blog...

Foi um momento mágico, pelo menos para mim, ainda por cima com uma mensagem do Jorge Pelicano, realizador do documentário "Ainda há Pastores?", com quem ele falou e "pediu" umas frases para o lançamento. Mas isto não acaba aqui. Ambos admiradores (moi même e ele) do documentário, conseguimos/convidámos (com a suprema ajuda da Casa da Cultura de Paredes) que o documentário fosse exibido na Casa da Cultura, com a presença do Jorge e da Rosa, confraternizamos com eles, foi demais. Enfim. Já tive que ir buscar outra mochila para guardar tantos sonhos... Conhecemo-nos quase por acaso, num projecto chamado "Internet@EB1" ou "Internet nas Escolas" ou outros nomes mais pomposos que não vêm ao caso. E agora, quero que o conheçam, a pessoa que tem uma profissão que admiro: professor do 1º ciclo ou como gosto de dizer "Professor Primário" (com iniciais maiúsculas).

Já tentamos umas brincadeiras, como esta, e novos projectos estão na forja, né amigo? :)

A fotografia foi retirada do livro de curso e publicada com a permissão do mister.


2008-07-02

Pequenitates

Nascido e criado em terras de gente grande, o pequeno Pequenitates fazia dos seus dias de traquina o horizonte do seu futuro.
Corriam os dias e o Pequenitates, com a cabeça no ar, saltava de nuvem azul em nuvem azul, das que se soltam dos sonhos de infância.
Nenhuma das grandiosas aventuras era pequena para o seu corpo, lá cabiam todas as realidades, mesmo as mais irreais…
De salto em salto, a jogo em jogo, Pequenitates fazia do Sol Lua e da Lua brincadeira.
Abrigado em esconderijos que só ele via, os pequenos pés anunciavam a sua presença e ninguém, mesmo ninguém, o denunciava, fazendo com que os risos fossem crescentes e enchessem as divisões de alegria.
As letras juntaram-se e até as notas musicais apareceram para colorir a meninice do garoto.
Falava e cantava, tocava e sorria, nos dias em que Pequenitates descobria que lhe cresciam ossos e carne, cabelos e espinhas, como se a realidade de pré-adolescente tentasse sair por todos os poros do seu corpo.
Aos poucos a voz de Pequenitates não parecia a de Pequenitates, assemelhava-se a um grasnar de gente crescida dentre de gente pequena.
Corriam os dias e as nuvens azuis eram já pequenas para os saltos do garoto, mas Pequenitates continuava a correr e a saltar, deixando que os dias saíssem da sacola para o teclado do computador e para a tabela do cesto de basquetebol e assim, de salto em salto e distracção em distracção, Pequenitates de pequeno se fez grande, provando que mesmo nos dias de Inverno, há uma Primavera na vida de alguém.

2008-06-27

Se por acaso (ou propositadamente) não voltar aqui hoje, sexta-feira, fica desde já os votos de bom fim-de-semana.

O suor que me escorre

brota das fotografias
nos sorrisos falsos,
a bestialidade da besta resume-se
à complexidade dos corpos
que a habitam
sem nunca os viverem.

Amortalho um corpo
resto de gente, ossos e carnes fecundas
para que descanse enfim eu
longe,
bem longe,
das pobres gentes maiúsculas
com vogais fúteis e imundas,

Dorme-me,
cansa-te do peso do irreal,
absolve-te do delito a que muitos
(quantos serão?)
chamam respirar,
tu não és aquele,
és o tal...

2008-06-26

Talvez seja isto a quem chamam crescer

Olhei-me hoje ao espelho com a mesma ingenuidade de criança, não fosse eu uma criança (bem) grande. Enquanto o cabelo cai e algumas pequenas partes começam a ficar brancas/grisalhas, dou por mim a ver que a barba está a ficar branca com mais rapidez que o (suposto) normal. E, assim, deixo-a crescer, durante uma semana (aproximadamente) vou vendo ao espelho, aqui no escritório ou em casa, o avançar, a conquista da barba branca sobre a negra. Um dia visto-me de verde, com uma espécie de veste, um chapéu à Robin dos Bosques (não confundir com o imposto) e fico o Peter Pan completo!
Gosto de me rir, ainda, com estas pequenas coisas de mim mesmo. Longe vão os dias em que me debruçava sobre o lavatório para chegar mais perto do espelho e contava (sim, contava!) os pelos aos quais já eu chamava barba e orgulhosamente cortava-os (e algumas vezes a pele), na esperança de nascerem mais, mais abundantes, mais rápido e mais negros. Agora... Agora vejo-os crescer brancos e não os corto. Cada cabeça com sua sentença. Neste caso, cada eu comigo mesmo.

O poema seguinte nada tem a ver com nada que escrevi acima, é apenas um poema, num registo que não fazia há bastante tempo e, pasmo-me, gostei de o fazer.

Não são meus os torpores,
nem o frio que a noite semeou,
são de meus braços amores
o tempo que de mim se apossou.

Um empedrado caminho oculto
que conduz ao olhar que não existe,
é tudo o que em mim resiste
na agreste mão fechada de um vulto.

2008-06-21

As esferas que oscilam
na perpendicular do meu sentir,
profetizam novos dias
que amanhecem
entre um suspiro e o sorrir.

2008-06-15

Há tanto tempo. Há tanto tempo que procurava e assim, de repente, surge um dia sem computador. Apenas desejo de escrever, de ler, de ouvir, de partir o silêncio com um silêncio ainda maior.

Tenho escrito pouco por aqui... Tenho saudades de vir deitar os meus personagens antes de ir dormir, de lhes dar asas, de pousar algumas das histórias aqui, para que leiam e para que eu desperte um pouco mais. Mas não tem dado.

Ando cansado desta máquina, vence-me aos poucos.
Não sei se planto o tempo
ou a vida
me colhe da semente,
na eira dos meus sentidos
não há Sol
que seque
alguns grãos em mim
feridos...
Enquanto o Sol não me faz nascer
germino na terra
das minhas palavras,
onde me banham húmus atenuantes
da vida
e do papel,
que rasgo e onde desenho
o Sol
que me fará nascer...
Repousaram as sombras
e os degraus que me galgaram,
não há chuva que caia em vão
nem terra
que não mereça ser chamada
chão...

2008-06-12

Foi assim (e eu gostei tanto...)

"Encontro com o poeta: José Miguel"
No dia 6 de Junho de 2008, no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa, os alunos do 7º ano puderam contactar directamente com o poeta José Miguel Alves Gomes, que gentilmente acedeu ao nosso convite e se deslocou à nossa Escola.
A sessão subordinada ao tema “ A Poesia”, contou com vários momentos: visualização de um vídeo com um excerto da apresentação oficial do livro do autor: Para Lá do Que Vejo, na Casa da Cultura em Paredes; espaço de diálogo, onde os alunos questionaram o autor sobre a sua vida pessoal, profissional e literária; leitura expressiva de poemas do José Miguel Gomes e, finalmente, os participantes do concurso literário de poesia dinamizado pela Equipa da Biblioteca brindaram-nos com a leitura dos trabalhos vencedores e tiveram a honra de receber, pelas mãos do nosso convidado, os diplomas de participação.
Em suma, foi uma actividade enriquecedora, com uma participação empenhada dos alunos e pensamos ter desenvolvido o gosto pela poesia.
Mais uma vez gostaríamos de agradecer ao José Miguel Gomes pelo momento agradável que nos proporcionou…
As professoras de Língua Portuguesa do 7º Ano."

2008-06-09

Mosto

A música
dos sons que ainda não ouvi,
os sorrisos
nas cartas que ainda não li,
o eco das palavras
que ainda não proferi,
nas costas que prenunciam um adeus
que nunca vivi
moram as vitórias,
abraços e glórias
do que sou
por ti...

Nas nuvens que dissiparam
as agruras
e lágrimas
que me lavaram
moram corpos sem rosto
e lagares velhos
sem mosto.

Traço a meta no que sou
e nos caminhos
que escondi,
na poeira
e luz
mora o tépido sonho
onde de mim
nasci...

06 de Junho (não apenas uma data qualquer)

Gosto de escrever sobre isto, as pequenas conquistas. Não sabia era que estas pequenas conquistas chegariam até mim e escreveria sobre elas.

O programa de Português, no 7º ano, da Escola Secundária de Penafiel, incluía a divulgação de jovens escritores da região (Vale do Sousa). Palavra puxa palavra e a Eulália, minha cunhada, pergunta-me se estaria disponível para ir à escola falar com os alunos, integrado nas actividades da disciplina. Aceitei, claro, como sempre faço, sem pensar nas consequências que, quase sempre, redundam na minha ansiedade a lutar contra o tempo. Vivi os dias anteriores com muito stress, pelo que poderia dizer, pelo que iria dizer, por ir levar alguém que não sou, por tudo e por nada.
Confesso que adorei e aprendi muito. As perguntas dos alunos reflectiam a análise que fizeram nas aulas (sim, durante umas aulas, o sumário foi algo do género: "Preparação para a visita do escritor José Miguel Gomes"), muitos questionaram as professoras sobre o que queria dizer "trago no corpo roupa cansada de me usar" e a maior parte tirou dos poemas algumas ilações que me fazem pensar.

Cheguei nervoso à escola, dentro do timing, mas confesso que depois de ver as 3 turmas do 7º ano tudo passou. Sabe tão bem ser bem recebido. Eu não sabia, mas, mais uma vez, a Ana e a minha irmã Anabela prepararam uma apresentação para os alunos visualizarem antes da sessão de perguntas. Composta por partes da apresentação feita no dia do lançamento, fotografias do lançamento, a música do Luís e outras "coisas", foi um momento engraçado, em que os alunos riram-se da minha abundante "trunfa" de criança :)
Algumas perguntas, pensadas na sala de aula, versavam sobre os poemas e sobre mim, quem sou, o que faço, idade, onde gosto de escrever, o que me inspira, etc. Mas algumas perguntas bateram bem cá no fundo, pela profundidade das mesmas e por serem algo que eles "assimilaram" na leitura dos meus poemas. Uma delas foi, curta e pura: "é feliz?".
Compreendo a questão, rio-me e tento responder. Sim, sou feliz, à minha maneira, na minha insatisfação, mas também porque muitos dos sentimentos que estão nos poemas não são meus, são das personagens que vejo, encontro e invento.
Seguem-se mais perguntas e eu a responder, num exercício mais enriquecedor para mim do que para eles...
"Para si o que é o amor?" - pergunta chave do encontro. Creio que já nem recordo o que disse, mas sei dentro de mim a resposta.
A primeira sessão completou-se com umas palavras do Presidente do Conselho Executivo, a entrega dos prémios de poesia e a leitura dos poemas premiados.
Esqueci-me (ainda estou algo desconexo) que no início leram poemas meus.
Hora de café e regresso ao auditório para nova sessão com as restantes turmas do 7º ano.

Desculpem-me... Estas coisas só poderiam ser escritas mais tarde, depois de estarem bem assentes em mim, mas ainda estou extasiado, com os miúdos, com a forma como fui tratado e por uma pequeníssima conquista (como a alegria de ter juntado dinheiro suficiente para um pequeno chocolate enquanto pequena pessoa) que vale por todas as possíveis derrotas, passadas e futuras.

Obrigado a todos, do coração.

2008-05-30

Desertos por escrever

Despertam-me
os vivos e a chuva.
O latejar ardente de cansaço eclodido
repousa arfando
na tua mão,
o peso morto e mirrado
que habita no teu peito
não é pedra,
é coração.

Profetizo as palavras
na pausa de um suspiro,
quando à vida as vidas viro
percorrem tempos e alentos
os momentos angulares,
julgando serem infinitos
são apenas da noite,
esgares.

Tenho-te no centro do que não sou,
augúrios e angustias
e desertos por escrever,
ouço badalos nas montanhas
dos meus olhos a percorrer,
será ali que estou?

Os medos afugentam nuvens
e pessoas,
dilaceram pastos
bastos,
cerro os dias e sorrio
enquanto semeiam temor
e um amanhecer atiçado.
Eu não sou pastor,
sou cajado...

2008-05-29

Fruta fora da época

O que têm em comum a chuva que tenho visto (e sentido) neste mês e as rabanadas que de vez em quando como no Verão? Ambos me sabem melhor fora da época...
Enquanto uns reclamam com mais (agricultores) ou menos (veraneantes ultrajados por causa das suas férias ou da indumentária que não podem utilizar) razão, eu delicio-me com a chuva...

Estou de volta após uma enxaqueca (creio ter sido a primeira a "sério" que tive em 32 anos de vida) na segunda-feira... Mas no meio das alucinantes dores de cabeça e das náuseas, há sempre algo de bom... A meio da tarde, quando o meu estômago deixou que algo entrasse, comi um caldo-verde feito pela D. Amélia (fica mais bonito escrever assim ao invés de sogra), directamente de uma marmita... Chovia, eu de pijama sentado no sofá da sala, com as janelas e as persianas quase fechadas, apenas um pouco de luz para os meus olhos ainda doridos, o vento compunha a banda-sonora de uma tarde de dor, mas de um prazer há muito esquecido, o prazer de uma coisa simples, quente, essencial, na singularidade de um recipiente como uma marmita. Não sou rei, mas tive um banquete.

Até já.

2008-05-22

Sonhos e o caminho para os mesmos


Fica tão fácil ser feliz quando os nossos sonhos são pequenos. E o que dizer daqueles sonhos que se realizam, sem sabermos que eram sonhos?
Não sei o que me fascina no olhar das pessoas, mas escrevo-o, vejo-o, vivo-o e vou acumulando as pequenas centelhas de sonhos e concretizações suspensas, na esperança de lhes dar vida numa ou noutra história.
Não consigo estar estando, só sou presença quando estou ausente, como os sonhos grandes.
Esqueci-me de postar a imagem de um aluno da EB1 Soutelo - Mouriz, que captou aquilo que eu quis transmitir com o conto "Um sonho li(n)do", aqui fica a "homenagem".

2008-05-20

To have or not to have...

Este blog quase que se transforma num repositório de poesia, longe do que inicialmente tinha em mente (até em prosa o raio da poesia teima em surgir). Lembro-me de colocar poemas no blog porque nada tinha para escrever (ou, essencialmente, por falta de vontade) e agora, recentemente, a poesia tem ganho mais dimensão.
O motivo deve estar relacionado com o facto de eu gostar de escrever "à mão". Para poupar tempo vou escrevendo a "prosa" (aquelas coisas estranhas que alguns chamam pensamentos) directo no computador, mas quando chego a casa estou "algo" saturado do PC e não vou escrever (apenas faço outras coisas). Outra das razões é a preguiça, bolas, com um poema e consequente menor número de palavras, digo mais, sinto mais e poupo mais.

Sinto falta de escrever, de inventar histórias, de dar corpo às personagens que me vestem.

Sinto falta do que tenho e este vazio é espesso, preenche tudo o que sou, para me dizer sarcasticamente: tu... tu não tens nada.

(e eu sorrio... sei que é verdade)

2008-05-19

Paredes com alma (II)

Apenas o que escondo é visível,
somente ramos,
nada mais.
Sei de memórias trechos
que a noite nunca avivou,
omito-me ao tempo e aos olhares
que não me procuram
e encontram,
sombras e fuligem.
Desenho-me na bruma
e na paisagem,
habito gentes sem casa
num lar que os ramos conhecem,
percorrem-me ainda rostos
de almas mortas
desconhecendo que vivem.
Sopro brisas
e planto mãos os olhares do entardecer,
cresço-te no sonho sem o saberes
e pernoito na tua imaginação,
porque ainda antes de vos nascer
já os ramos eram semente
e eu de pedra,
feito gente.

2008-05-07

Flavour

Tenho a meta onde outros fazem partida,
a minha verdade
é nos olhos de outrém
mentira.

A noite cai-me
das mãos e dos olhos
(e noutros poemas)
quando nasce o dia.

No sorriso
existiu outrora alegria...

2008-05-06

Ainda há pastores? - Paredes - 17 de Maio!






Olá.
Aceita este convite para um "evento" que irá decorrer no dia 17 de Maio, na Casa de Cultura de Paredes, às 21:00: Apresentação de "Ainda há Pastores?" de Jorge Pelicano.

Este documentário (e a sua banda-sonora), para quem não conhece, é uma obra-prima, divinal!
Galardoado com prémios internacionais e menções honrosas é o reconhecimento não só do trabalho de uma equipa, mas também do que mais puro, genuíno e enriquecedor existe neste país.

Será à "toa" que a maior parte do reconhecimento vem de além-fronteiras?
Não percas a oportunidade de ver este documentário e valorizar o que de bom se faz em Portugal... Poderás igualmente ouvir e questionar o realizador, Jorge Pelicano, naquilo que será, certamente, uma noite agradável e diferente.

Blog
http://aindahapastores.blogspot.com

Alguns trailers:
http://www.youtube.com/watch?v=lZ6ZoezlfN8
http://www.youtube.com/watch?v=Nq4w_gaf560
http://www.youtube.com/watch?v=H6xOWHvcvKk
http://www.youtube.com/watch?v=mxwsW5wp5lI
http://www.youtube.com/watch?v=EexTcbTFO5s

2008-05-05

Gentes nas montanhas do meu olhar

Esqueceram-se as mãos
dos sonhos
sobre a caruma que os dias atiçam,
no leito das almas
correm memórias e fantasmas
vivos
de um futuro presente.

Não estava lá,
nem aqui,
nem onde repousam as medas
e cantam as cristas de pinheiros
moribundos,
percorria curvas e estradas
e pós
e terras calcadas por gentes
diferentes,
ausentes
dos olhares incautos,
como putos sem presenteados anéis,
quase descalços
da vida.

Sou do meu olhar,
refém de paisagens e sorrisos
e dedos que afagam trigos,
sem ver o cascalho rude a queimar
ou a sombra escorregadia de uma nuvem,
permanece cego o meu olhar
filho de ninguém...

2008-04-30

Pontos corridos

Moldei os sentidos
ao sal de mares que nunca chorei,
esperei,
parti e cheguei aonde nunca tinha respirado,
fora de tempo
e de deuses em orvalho esculpidos.

Variante,
na característica quase adjectivada
de traços contínuos
e faces de pessoas,
quase gente.

O suor nunca derramado,

o peso aflito de uma vida
que se morre
e me percorre,
ora aqui
(silêncio),
apenas aqui onde repouso um corpo
de trapos
que esvoaçam como eu
nos píncaros do destino
(suspiro),
um ponto corrido após a história,
o final que antece o início
e me devolvo à origem.

Eu não sou um porto,
...
sou vertigem...

2008-04-20

Sete Sóis

É um pouco contra o que quer fazer. Escrevo apenas para sentir a chuva. Deitado na cama, com o barulho das gotas e do vento ao meu redor, não consigo senti-lo, tenho que estar aqui, a olhar para as letras, que surgem como magia. Tenho que olhar para os meus dedos para perceber que eles é que estão a premir as teclas que a minha alma dita. Não tenho muito mais para escrever. Aos poucos, sem grandes floreios "poetísticos", vou-me resignando à estrada, às ervas molhadas e curvadas que não posso tocar, ao trigo e centeio que crescem nos campos e pelos quais não posso correr, à claridade falsa de um monitor que vai sendo o meu dia-a-dia. Vou estar por fora, volto mais tarde. Até lá, fica aqui uma pequena história escrita para o Norberto e seus alunos para o dia mundial do livro.
***

Um sonho li(n)do


Ouço choramingar.
Do meio de uns troncos velhos, cortados, chega até aos meus ouvidos um choro baixinho.
Vou até lá.
Sentado num velho pedaço de madeira, um pequeno ser olha para mim.
Tem olhos grandes e mãos pequenas.
Funga duas vezes, limpa as lágrimas e torna a fungar duas vezes.
Ajoelho-me até a minha cabeça ficar ao nível da pequena cabeça dele.
Tem um olhar meigo, ternurento, com olhos de todas as cores do arco-íris. Pouso a mão no ombro dele e pergunto:

- O que tens? Porque choras?

Olha para mim, com os olhos marejados.
Não me responde.
Coloca a sua pequena mão nos meus olhos e fecha-mos.
Agora, de olhos fechados, consigo ouvi-lo, dentro de mim, com uma voz que me aquece como um quente copo de leite com chocolate.

- Já não há desenhos no céu…

Ouço-o fungar.
Não compreendo e abro os olhos.
A mão pequena toca-me no queixo e levanta-me a cabeça para eu olhar para o céu.
Compreendo agora.
As nuvens estão muito sérias, correm com o vento, sem desenharem no céu, parecem gente grande com as suas correrias e caras fechadas, sem sorrisos.
Olho novamente para ele, nunca vi um olhar tão belo, cheio de paz.
Fungou mais duas vezes e umas pequenas lágrimas caíram rolando pela cara.

- O que são os desenhos?

Fez-me sinal para fechar os olhos.
Fechei-os.

- Os desenhos que vês no céu, com as nuvens, somos nós que os fazemos, mas agora não chegamos às nuvens.

Abro os olhos.

- Mas fazem como? O que és tu?

E fecho os olhos.

- Antes as crianças liam muito, brincavam muito umas com as outras, inventavam histórias. E quando cada criança imagina, todas as cores do arco-íris constroem uma grande escada, que vai do seu coração até ao céu, Quando a escada chega ao céu, eu e outros como eu subimos a escada com a nossa mala de ferramentas e começamos a fazer desenhos nas nuvens. Elas gostam, riem-se, dizem que fazemos cócegas enquanto aparamos aqui e além, para fazer cada desenho.

Não estava a compreender, mas estava a gostar de o ouvir falar.
Bem, eu não ouvia nem ele falava. Ele tinha uma espécie de voz que falava dentro de mim.
Abro os olhos.

- Mas, não entendo… Que desenhos são esses? Quem são vocês?

E fecho os olhos novamente.

- Somos…
(é mesmo bom ouvir de olhos fechados)
aquilo a que vocês chamam de Sonhos. De cada vez que uma criança ou alguém imagina, nós avançamos, subimos os degraus de arco-íris e vamos até uma nuvem. Depois fazemos um desenho numa nuvem, pode ser um gato, um cão, uma flor ou outra coisa qualquer. Quando o desenho está feito fica a pertencer àquela criança ou adulto, mais ninguém vê o mesmo desenho na mesma nuvem, é só para ele ou para ela. O vento leva a nuvem e baralha o desenho, para que não seja copiado. O Sol faz então um pequeno desenho dentro do peito da criança e esse desenho nunca desaparece, mesmo quando a pessoa se esquece, o desenho está sempre lá! Um dia mais tarde, quando o vento for favorável, vai trazer novamente o desenho numa nuvem e quando a pessoa vir o desenho numa nuvem, vai brilhar um Sol dentro dela e ela vai lembrar-se.
- Lembrar-se de quê?

Pergunto de olhos fechados e só então me apercebo que estou a falar a língua dos sonhos.

- Lembra-se do sonho, de mim, vai olhar para o mundo com as cores dos meus olhos e se tentar agarrar-me pela mão e prender-me não vai conseguir, porque eu tenho mãos pequenas, que se escapam, para que ninguém queira os sonhos só para si. Os sonhos são de um para todos.

Eu ri-me baixinho, para dentro e para fora. Comecei a imaginar-me num grande campo, com animais, plantas e pessoas, de mãos dados, a fazer o que estou a fazer agora: a rir para dentro e para fora.
Abri os olhos.
Quem fungou agora fui eu.
Estava sozinho.
Olhei para o céu e vi o pequeno sonho, sentado numa nuvem a sorrir.
Falou comigo e disse, na voz dos sonhos que se ouvem de olhos abertos.

- Obrigado! Levaste ao céu o teu sonho!

E um Sol aqueceu-me dentro do peito e escreveu, com os seus pequenos raios, um poema, cujas letras dançavam de mãos dadas, ao redor de mim.

Cresce, sonha, pula e dá-me a mão,
a cor dos teus olhos é Inverno e Verão!

Vive e ama, sempre a cada dia,
Para que nasça nos teus olhos a alegria.

E se alguém te prender sob um vidro
procura o teu sonho neste teu amigo, Livro!

2008-04-18

Sexta, a feira da semana

Votos tradicionais de boa sexta-feira... O tempo está mau ou bom, dependendo dos gostos de cada um (aprendi isto com Anthímio de Azevedo ontem, na Antena 3 no programa do Alvim).

Escrevi uma pequena história ontem, infantil para crianças grandes, a convite do Norberto para o Dia Mundial do Livro... Depois de dia 21 coloco-a aqui no blog.
Não tem dado para escrever muito, de facto não tem dado para escrever nada... Apenas histórias improváveis na minha mente, que ascendem da alma ao pensamento, apenas para me turvar os dias com lágrimas de açucar e sal. Gosto de escrever mentalmente, deixar espalhadas histórias no ar, para que alguém um dia as aproveite, plante e sonhe, quem sabe o futuro pomar da minha vida será uma livraria para crianças?

Deixo uma fotografia (no final), de há duas semanas, aquando da ida ao concerto do Mark Knopfler no Campo Pequeno...

***

Chovia e fiquei contente por ver o arrumador levantar o braço. Ia poupar-me à tradicional procura de local para estacionar. Estaciono, com a ajuda dele. Saio do carro com o guarda-chuva
- tem uma moedinha?
- não, não tenho, mas tenho um abraço, vale? Riu-se e respondeu: - pode ser
Abraçamo-nos perante o olhar incrédulo de quem passa. Continuo o meu caminho, vou ao banco e retorno, ainda sob forte chuva. O arrumador vem ter comigo e dá-me um outro abraço
- é o troco...
(ficção, óbvio, não?)

***


















mana, eu, mãe, ana e pai...

2008-04-15

Um sorriso, nada mais

Gosto de me surpreender. Isto é um facto. Gosto de sentir que me engano quando julgo alguém, pela primeira vez, de forma errada. Não gosto muito de me surpreender a ter pensamentos (como os julgamentos de primeira vez), que pensei já ter erradicado ou, pura e simplesmente, perder a calma no trânsito ou, pior ainda, junto das pessoas que amo, sem razão alguma (excepto a própria estupidez que me assola de vez em quando).
Gosto de me surpreender. Além de um facto, é uma estupidez estar a repetir o que escrevi no início do primeiro parágrafo, mas é um pequeno luxo, o rir de mim mesmo, ao qual me posso entregar.

No domingo dei uma entrevista! Queria colocar uma fotografia desse momento, mas não tenho forma de fazer download da fotografia (falta-me o cabo e o leitor de cartões ficou no escritório).
O meu sobrinho, Pedro (amigo/sobrinho 5 estrelas, que brilha mais do que todas as outras do Universo), telefona-me há dias: "Oh Zé Miguel" (maior parte das pessoas, principalmente a família do "lado" da Ana, chamam-me Zé Miguel) "tenho que fazer um trabalho de grupo para Português e queríamos fazer uma entrevista a um escritor, podes?"... Claro que não diria que não, não fosse ele a pedir, mas depois fiquei a pensar no assunto, mas que vou eu dizer, quão pretensioso terei de ser para me considerar escritor?
Foi giro. O Pedro e o Nélson trouxeram uma máquina de filmar e umas perguntas. Ainda jogamos uma partida de basketball antes, para aquecer :) Viemos, com a Ana, para casa e fui respondendo às perguntas deles, com esforço para não demorar muito tempo nem rir! A fotografia surge depois. Talvez amanhã.

Um sorriso, nada mais, creio que basta...

2008-04-12

How long

Não podia adiar por mais tempo. Chega a ser doloroso não escrever, falar e ouvir tudo o que se vê e vive.

Fez já uma semana desde que fui nuns três dias de puro relax, que cansaram o corpo, mas aliviaram a mente.

Não sei bem porque gosto da música (e em especial das letras) de Mark Knopfler, desde os tempos do "Brothers in arms" (ainda com Dire Straits) e até "Kill to get crimson", o último albúm. Fascinam-me as histórias por detrás de cada canção, cada verso e, por vezes, de cada palavra. E as letras acabam por se complementarem com os arranjos musicais, o que me causa uma certa inveja, pois apesar de ter um cavaquinho e uma viola, pouco (ou nada) sei tocar.
A semana do concerto foi vivida quase sem me aperceber, o trabalho acaba por aglutinar-me os pensamentos, que voam para longe do concerto e dos 3 dias de "férias". Mas chegou sexta-feira e, talvez pela primeira vez em quase 30 anos, os meus pais tiraram uns dias de férias, comigo, Ana e Anabela... Aproveitamos para ir a locais que eles queriam, mas que não iam há algum tempo. Passamos por Fátima (tenho tanto para escrever sobre este local/religião) e fomos para o Campo Pequeno... Bem, o trânsito de Lisboa não é o mesmo do Porto e talvez tivesse ajudado se eu levasse o GPS ou fizesse ideia onde era o Campo Pequeno com mais exactidão, mas lá acabamos por chegar ao hotel :)
O concerto foi divinal, o Campo Pequeno esgotado, 6000 pessoas de todas as idades aplaudiram o mago da guitarra e os seus comparsas. Antes de terminar em apoteose, ainda vi o meu pai assobiar e a dançar ao som da música, certamente uma imagem que jamais esquecerei. A cara de felicidade deles foi o tónico da noite que vou recordar sempre (eu, Ana e Anabela somos mais "rodados" nestas andanças). Ainda deambulei pelo recinto e fora dele, na expectativa de uma fotografia com o Mestre, mas já todos tinham saído. Restou-me ver o road-crew arrumar tudo para arrancarem para Granada, para outro concerto da Kill to get crimson tour e recolher ao hotel. Os dias seguintes foram passados em passeio, a visitar monumentos e locais emblemáticos, além de amigos de longe, que só tenho oportunidade de visitar quando vou para as bandas sulistas deste pequeno país.
Tinha mais para contar, mas, como sempre, as histórias estão dentro de mim e só daqui a uns tempos é que verão a luz do dia, eventualmente numa ou noutra linha de um poema.

Dou comigo a pensar na dor, na necessidade que tenho de escrever, em todas as coisas que se acumulam em mim que ainda não viram a cor da tinta, nem sentiram o áspero papel... Tenho vários poemas, projectos e sonhos, sempre em redor de mim, a saltar, como putos traquinas, a puxarem-me as calças e a camisola, "escreve-me! escreve-me!".
Reflicto no que já fiz pelos sonhos. Quase nada. Tudo tem surgido quase sem querer, o livro, as pessoas, as situações. Mas hoje não, hoje decidi que vou à carga, que os moinhos de vento não são tão grandes assim e que a brisa que me está no rosto pede-me montes, vales, rios e terra fértil.

Esta minha intenção parece ter acalmado as centenas de letras (sim, centenas) que pretendem sair para o papel. Está a chover, carreguei o portátil e vou até Mozinho (para quem conhece estas "bandas" sabe que fica em Penafiel. Para quem não conhece, acabou de saber), um sítio calmo, com vento, eucaliptos e os restos de uma civilização que ainda persiste, embora não os vejam.

De onde vêm estas minhas personagens? Estão lá, no local, ou serão fruto apenas da minha visão e da necessidade de encontrar histórias diferentes para locais normais? Não sei, mas agora que falei nelas, juntaram-se às letras e ao coro que fazem para que as escreva.

Tenho pelo menos três projectos ligados à escrita, dois em parceria com o Norberto e que creio verão a luz do dia com algum sucesso (assim tenha eu talento para acompanhar as fotografias do Norberto) e outro relacionado com um livro que quero escrever, num estilo algo diferente e que ainda não encontrei (isto foi só para aumentar o suspense/curiosidade)...

Creio já ter contado aqui, que encontrei vários cadernos com escritos antigos. A maioria da poesia, embora a respeite, pouco ou nada tem a ver com o que sou agora, por isso mesmo creio que nunca verão a luz do dia. As histórias, por outro lado, mostram um pequeno ensaio do que quero fazer agora, por isso, um dia, talvez as digitalize/digite e coloque aqui, no blog, um local que vou tendo prazer em actualizar e alimentar...

Venho já, ok?

2008-04-10

Cada lugar sem tempo

Faço do nada religião,
adormeço-a
ao lado de cada sonho
que repousa na minha mão.

O calor das portas
e das palavras
com nomes,
o bronze
e dourado
das mãos, sempre das mãos,
que teceram cada lugar sem tempo,
nas cascatas do pudor
e espartano rigor,
há almas minhas
que ainda não reconheci.

Cansei o olhar
e mesmo a noite respira ofegante,
ata-me o pulso o pulsar
que a vida ainda acomete
a quem de si mesmo é amante.

No dia que nunca acorda,
na noite, escrita, por luzes sombrias,
eu estou no ocaso
e tu, sonho,
estás nos dias...

2008-04-04

Bom fim-de-semana

Não estranhes se não responder a um comentário ou ainda se não escrever nada este fim-de-semana... Vou até Lisboa, ao Campo Pequeno, ao concerto do Mark Knopfler.

Quando vier retomo a escrita, "agora é que vai ser".

Bom fim-de-semana.

Fica bem,
Miguel

2008-03-30

A linha da minha vida

Os sulcos crus que me temperam a pele
e a alma,
o ruído de vida
e faces novas
a descoberto,
um silvo que me rasga o sorriso
em flocos de vapor
e neblina.

A cor das cores
maior que uma Primavera,
o prateado ondular de um rio
num passeio agreste
da vida por um fio.

Chegou e partiu
num local deserto e ermo,
que me mova o carril
e a travessa
que me acalma o sonho,
sem ter por onde partir
serei morto
e perfilhado dos montes e fragas,
sem a certeza da cadência
de um relógio a rugir,
morrerá em mim qualquer curva que há-de vir.

Serão de meus olhos a saída,
a face crua
e a alma nua,
porque a linha da minha vida
não é minha,
é Tua…

Paredes com alma

Planto o suor
e cravo a calejada alma
na terra,
na vida.

A companhia do vento
de um destino agreste,
o ciclo de um estio
que a enxada rasga,
ser o dia madrugador meu alento,
o som ondulante
dos velhos moinhos de vento
o único livro que leste.

O escuro ocaso de um destino,
ter mãos de ceifeira
e uma alma entregue a Deus,
um odor a terra,
feno e erva,
aquilo que outros chamam de merda.

Ser relógio de Sol
e nuvens atiçadas,
dar asas a sonhos
e chorar filhos idos
que são colheitas derramadas.

Tudo esquecer
quando a mão no ventre quente
esmaecer,
ser do chão
para voltar a semear nas nossas vidas
um Verão,
orgulhar um braço forte
com o verde que nos acalma,
ser pedra e erva
em Paredes
com Alma…