2009-03-19

Nascem-te pétalas onde chorou o tempo, assim são as flores do meu jardim, intemporais à Primavera para adormecerem para sempre no estio.
Os teus olhos são da cor do meu olhar e preenchem os espaços que nunca explorei.
Sacia-me a fome a sede que o calor vai beber às raízes do meu escrever. 
Faço-o sem mim, rodeado pelas tuas pétalas ausculto os sentidos ainda antes de os sentires, para ouvir reverberar o eco que vejo no silêncio do teu cinzento.

Amanhecem-te os dias ocultos quando te ressoam os passos órfãos de caminhos. 
Quantas direcções em sentidos distintos? 
A impenetrável barreira da tua solidão contrasta com o ressurgimento do ocaso. 
Saberás por acaso quantas portas tem a noite?

2009-03-13

Cubro os momentos daquilo que sou e parto para o imaginário que te habita.
Tenho mãos e sonhos com os quais tacteio o chão que flutua sob mim.
Não sou mais, nem menos, sou apenas um abraço e um olhar, um pequeno suspiro que anseia ser vento, uma tempestade que anseia um chão, um sorrir que anseia mãos e sonhos que o tacteiem.

Tenho e sou umas quantas rimas que se escondem nas rugas do caminho. Escrevo como se os meus dias fossem brisas num solo seco e árido na fertilidade de uma carícia.
Adormeço mil vezes, para mil vezes acordar do lado de lá da cortina e ver-me dormir, para me encontrar onde se perde a realidade, para retomar quando a noite termina com o que sou.

Adormeço mil vezes, para mil vezes abraçar a vida e saber que ela, a vida, é parte de mim em ti... E a tua parte é o todo que sustenta o céu...

2009-03-08

Cego aos poucos a capacidade de te olhar.
O Sol que me entra pela escuridão do destino supera-se ao brilho que a tua Lua me traz à alma. Sei lá se é noite ou dia o momento em que os braços se rompem num abraço jamais saboreado! Ouço o silêncio que soluçou na tua silhueta, haverá voz para os que escrevem sem caneta?
Sou aos poucos mais vagabundo e menos sombra, ilumina-me por momentos com aquilo que te ofusca, aquece-me as mãos com que seguro a minha vida, porque tenho medo de abrir os olhos e tu seres um vulto reflectido nas paredes da minha alma.

2009-03-06

Pensei que dias sólidos em mim seriam intemporais, mas não, as tardes escorrem languidamente no meu regaço, entranham-se naquilo que penso serem os hiatos entre os meus sonhos, grudam migalhas de tempo no que tinha como infinito.
Esqueço-me das mãos, das minhas, tacteio-as na esperança de me terem algures, entre os pós que se soltam do trabalho, escondendo os que me caíram das estrelas...
Bate-me no peito uma angústia alegre, um pouco de fachada escorada, um cheiro de madeira velha, queimada, como são todas as madeiras que sustentam a vida com o mundo a tiracolo.

Tento não esmorecer, trazer um pigarrear respirado, deixar-me ocultar pelos tempos que sei não existirem.
Escondo-me atrás deste invólucro que me cresce desde que nasci...
Há dias em que ter corpo vale uma tarde chuvosa, nos dias em que os meus olhos, cansados, perscrutam além do que vejo e é lá, atrás do que tenho, que me encontro.

E, agora, vou procurar-me...
Tudo impecavelmente arrumado, odores e sabores dispostos nos escaparates do que sou, um ou outro olhar pousado ao canto do que cada um é.
Olhas-me e perguntas, onde vais?
Volto-me, olho-te e digo, estou a chegar.

Frequentemente é assim, ter as malas prontas não para partir, mas para chegar.
O meu destino sou eu mesmo, percorro o mundo ainda antes de sentir o apelo de partida, cruzava estrelas ainda antes de serem centelhas e será daí, desses momentos, quando o meu olhar se confundia com teu, que olho e vejo-me, reflectido, atrás de todo o horizonte que retens, não no olhar, mas na própria centelha que esmaece em ti, para nascer estrela, em mim...

2009-03-03

O comboio e o olhar permaneciam ligados pelo vento. Nada une mais dois objectos que o vento. O olhar aproxima, constrói, convida e toca. O comboio leva o olhar, no olhar e ao olhar de outras paragens, transporta consigo o olhar sem ter olhar próprio. Mas o vento, o vento é o único que consegue fazer o olhar transportar o comboio, sem carris, sem rede, apenas com um olhar fugidio cujas agulhas o carril nunca tricotou. Se ao menos o vapor...

2009-03-01

Vou contando horas desde que conheço o tempo. Por vezes, nada mais tenho a fazer que contar, confiante nos números que se seguem, convicto até nas imensas fracções que me vão subtraindo.
Cansei-me de escrever sobre olhares, o recôndito de cada um de nós onde encontramos quem somos e de quem seremos.
Os dias vão-se sucedendo, contando ou não as horas. Este comboio vai chuchugando a vapor, a paisagem é conhecida e mesmo assim o comboio avança a medo.
Tenho fé que na curva seguinte apareça o meu apeadeiro...
(um intervalo de algumas horas)
Venho até aqui num movimento de esperança, sim, pode ser que esta seja a noite em que vou dormir... Já passaram quase duas semanas e o meu padrão de sono não se altera, continuo a dormir pouco, mal, em períodos curtos de tempo e o meu humor começa a escapar-me.
Até já...

2009-02-25

Quatro quadras
na canção dos teus olhos,
no som de um sorriso
ou alvura
que são os tempos
onde te vi
viver...

Leva-te a brandura
e o dançar
das cordas que a minha guitarra sonha,
o ambiente cuidadoso
que as estrelas
saboreiam,
o toque quente de uma mão
e a profundidade
amena
da tua imaginação,
traz-me o futuro no teu regaço,
no sonhos encontrados
que são as imaginárias realidades
de contornos sonhados...

Uma vez apenas,

sim, uma vez,
no término de um ciclo
incompleto,
dá-me a valsa que me dançou
e a noite
cuja mão saboreou...

2009-02-15

Bom final de fim-de-semana. Nada que não se deseje, no entanto, vamos primar pela originalidade! Desejar um bom ano tem sempre um estímulo, para quem deseja (na ânsia de ouvir o mesmo do outro lado) e para quem recebe, por isso, eis o meu desejo, para ti, na ânsia de ouvir o mesmo, aqui fica: bom final de fim-de-semana!
Começo a retomar a escrita e alguns dos sonhos afloram, ainda que durante o dia. Circulava hoje de carro e surge a voz do costume, sussurrando umas letras, uma frase que tinha que converter em poema... Parei o carro, o caderno ia já aberto, de sobreaviso, não tive tempo sequer de abrir a porta, quando as palavras chegam assim, fazem-no com um misto de misticismo e física quântica, não são onda, nem são partícula, são uma espécie de materialização de pigmentos, na retina e no papel.
O avançado da hora e o desejo de dormir umas boas horas para enfrentar o amanhã, fazem com que fique por aqui, fisicamente, porque mentalmente, tu sabes, estou aqui a ver-te e a tentar que com a mesma tenacidade que os sonhos não desistem de mim, tu também não desistas de seres quem és...

2009-02-12

Diziam-me que a esperança é a última morrer... Acredito... O que significa também que morre sozinha...

2009-02-04

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousamos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos"
Fernando Pessoa

2009-01-29

Dos desejos
anseio os que ainda não possuo,
o aguardar tumultuoso
pelos dias
que irão banhar os rios
das minhas
utopias.

Chove lá fora,
como pétalas de uma flor não germinada,
queimando tempos e etapas
e quadros rústicos
de quem se atrasa na demora.

Aguardo a espera,
vivo no presente os quotidianos
futuros,
soçobrando prematuramente
antes as fiadas invisíveis
que constroem meus moinhos, muros...

Que da vida se esqueçam meu nome,
um cravo e ferradura
e sonho, um pronome.

Quando acordar o desperto
e sorrir-me o desejo,
serei já do leito, feno e forquilha
sepultado num só beijo...

2009-01-23

Sei-te minha, noite,
no interregno da madrugada
onde uiva a neve,
no afável sorriso
gasto
pelos sonhos que esvoaçam
a quem nada pede.

O cansaço
e a ironia,
a ténue fachada urbanística
que são as dedilhadas
rugas
de um abraço.

Sigo trilhos e caminhos
por onde urdi
no futuro,
entre fugazes
e eternos que teci
pernoitam,
algures do lado de lá do (meu) muro.

(ps.: este sim, deu-me prazer escrever...)

2009-01-21

Vi ontem, na televisão, por terras de meu coração (Alvão), um pastor, cara voltada ao chão, a timidez de se ser grande, respondendo à pergunta da jornalista ("E isto causa-lhe prejuízo?") com "É ao gado, que não tem que comer"...
Eu sou daquilo, de pastos que crescem, mesmo com a neve.

Voto à pobreza

a minha sobriedade,
casto o pasto
em que te deitas
na dureza
da tua idade.

Vento o ar e o trombar
e as cruchas
ébrias
de saudade,
faço-te de mim eu
para que não pare o tempo
em qualquer estrela
que nasceu...

Ah, como te subjugo,
à vontade e vaidade
de rodar
sobre o vácuo!
Que de minhas mãos pende um jugo
e dos olhos algo,
nuns temperam a vida,
em mim saboreiam
as pequenas covas
do teu pranto.

Estou pronto!

2009-01-19

Há tanto tempo que a noite adormeceu e me deixou aqui, desperto, à espera da minha madrugada.

2009-01-15

Tinha algo especial para deixar aqui...
Não é bem especial, era apenas um aglomerado de histórias e estórias que queriam nascer...
Sinto as contracções na alma, sinal que querem sair, mas, paciência, o adiantado da hora (para quem tem que se levantar cedo amanhã) e o facto de só voltar aqui domingo (sábado também vou ter que trabalhar) só me permite desejar-te um bom fim-de-semana, o parto virá depois, talvez em forma de olhares adormecidos nos montes de Valpaços e Chaves

Sei que passas aqui, sinto-o, lês, por vezes comentas e é por isso que agradeço...
Fica bem e até breve.
Canto inebriado a sobriedade da vida,
ondulo como o vazio
repleto de vozes caladas
que cegam meu escrever.

Rotundo o sentido
desnivelado
e a vapor,
claqueando palavras na perceptível noite
para que se inicie
o espectáculo,
degredo vazio
ao público atento
e hirto.

A vida cala-me o sorriso
e eu sorrio à socapa
no esconderijo da tua madrugada,
sou-te do telhado
um Zé
e tu,
acesa,
a clave de Sol
que me conduz em Ré...

2009-01-13

Terias olhos de criança
e eu asas de cedro,
mudas
de escutar
espectros raiadas de um Sol,
esgotadas
e verdejantes
da neve que corre correndo,
enquanto outros vivem
morrendo.

Quadras de versos
e rimas orfãs de mim,
que sou poema
nocturno,
de tacteados sonhos acesos.

Acorda-te em mim,
que adormeço sem te ver,
palpebreando o ardor
e expondo a cru,
o gesto nu
de ser carícia,
a humilhar o azedo meu
chamando-lhe delícia.

2009-01-05

Recantos

Ouço pelo enésima vez o tema "Stand by me" do projecto "Playing for change". Convenci-me que iria escrever hoje e, para acompanhar o ritmo bater dos dedos nas teclas, youtubei a música e fiquei a ouvir... Depois reparei que o GrandPa Elliot tem uma meia de cada cor e, lá ouvi novamente. Depois fui ver se os índios que tocam tambor fazem-no com alguma espécie de pena... E assim sucessivamente até perceber que é quase meia-noite, o sono aguarda-me encostado à ombreira, ansioso por se encontrar com os sonhos da Ana que, a esta hora, vai já saltando de estrela em estrela.
O "mal" de não me permitir escrever com outra cadência, a não ser as palavras que vão cardindo de quando em vez os pixels cinzentos da minha memória, leva a que todos os episódios gravados na alma se acotovelem para sair.
Este nao não fiz qualquer resolução de ano novo, limitei-me a comer as uvas-passas de uma só vez, a beberricar um pouco de champanhe (sem conseguir evitar o esgar de asco que só eu faço quando bebo champanhe), caminhar tacteando o escuro para subir o pequeno morro e ver, ainda com a mesma magia de criança, as ambulâncias a percorrem a rua, com os pirilampos e sirenes ligados... Depois, depois o caminho de poucas centenas de metros até casa dos pais da Ana, para assegurar que todos entraram com pelo menos um pé direito em 2009, mais umas dentadas no bolo-rei, cumprimentar vizinhos e sorrir baixinho, entre mim e as estrelas e alguns que se escondem atrás delas.
Pergunto-me onde está o ano que passou, sinto-me muitas vezes como se hoje vivesse os dias de ontem e amanhã, confortando-me estes three little birds que me respondem.
Tenho as mãos cheias de sonhos, "coisas" avulsas que me nascem há anos, ambições desambicionadas, um sentimento de união, de amizade fraterna, de amor com A, entre todos.
Guardo ainda em mim os sabores de semanas por terras de Chaves, Boticas, Montalegre, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, de pés na neve e a cabeça (oh amigo, quer um barrete?) fria no calor das lareiras que vejo em qualquer recanto vazio... E é para lá que vou agora.

2009-01-01

Paz... Tu, a Paz, em mim, em todos.

Recebi esta jóia, que me emocionou, porque estamos todos acima de crises e conflitos, se quisermos, sermos, Ser a paz, a Paz, em mim, em todos... Estou de volta.