2009-01-05

Recantos

Ouço pelo enésima vez o tema "Stand by me" do projecto "Playing for change". Convenci-me que iria escrever hoje e, para acompanhar o ritmo bater dos dedos nas teclas, youtubei a música e fiquei a ouvir... Depois reparei que o GrandPa Elliot tem uma meia de cada cor e, lá ouvi novamente. Depois fui ver se os índios que tocam tambor fazem-no com alguma espécie de pena... E assim sucessivamente até perceber que é quase meia-noite, o sono aguarda-me encostado à ombreira, ansioso por se encontrar com os sonhos da Ana que, a esta hora, vai já saltando de estrela em estrela.
O "mal" de não me permitir escrever com outra cadência, a não ser as palavras que vão cardindo de quando em vez os pixels cinzentos da minha memória, leva a que todos os episódios gravados na alma se acotovelem para sair.
Este nao não fiz qualquer resolução de ano novo, limitei-me a comer as uvas-passas de uma só vez, a beberricar um pouco de champanhe (sem conseguir evitar o esgar de asco que só eu faço quando bebo champanhe), caminhar tacteando o escuro para subir o pequeno morro e ver, ainda com a mesma magia de criança, as ambulâncias a percorrem a rua, com os pirilampos e sirenes ligados... Depois, depois o caminho de poucas centenas de metros até casa dos pais da Ana, para assegurar que todos entraram com pelo menos um pé direito em 2009, mais umas dentadas no bolo-rei, cumprimentar vizinhos e sorrir baixinho, entre mim e as estrelas e alguns que se escondem atrás delas.
Pergunto-me onde está o ano que passou, sinto-me muitas vezes como se hoje vivesse os dias de ontem e amanhã, confortando-me estes three little birds que me respondem.
Tenho as mãos cheias de sonhos, "coisas" avulsas que me nascem há anos, ambições desambicionadas, um sentimento de união, de amizade fraterna, de amor com A, entre todos.
Guardo ainda em mim os sabores de semanas por terras de Chaves, Boticas, Montalegre, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, de pés na neve e a cabeça (oh amigo, quer um barrete?) fria no calor das lareiras que vejo em qualquer recanto vazio... E é para lá que vou agora.

2009-01-01

Paz... Tu, a Paz, em mim, em todos.

Recebi esta jóia, que me emocionou, porque estamos todos acima de crises e conflitos, se quisermos, sermos, Ser a paz, a Paz, em mim, em todos... Estou de volta.

2008-12-22

Para ti, o Natal


Que o Espírito de Natal sejas tu... E que tu, sejas tu sempre que quiseres... Feliz Natal

obs.: a imagem foi obtida na Internet, enquanto que as letras foram nevadas por mim

2008-12-19

Sentei-me na vereda da minha sombra,
arrepio sentidos
e sonho com o retorno
dos idos,
mas dos quatro ventos que uivei
todos partiram
para lá do que sonhei.

Quanto de mim tem nome de pó,
lá, no frio e quente
da vida,
sem mim
sinto-me só.

2008-12-10

Está frio. Chaves nunca foi quente, mas agora que estou cá por uns dias parece ser mais fria. Vou deslizar para debaixo dos cobertores e deixar que, quase sonâmbulo, as mãos que ainda me valem tentem desenhar as telas que me viram.

Eu volto, sei que sim, mas até lá o que vês aqui é isto, mãos com frio e palavras sozinhas.

2008-12-01

Venho aqui de passagem, lembrei-me que poderias sentir frio, de facto está bastante frio... Tenho-te deixado sozinho, as próprias letras estranham, mas, olha, não tem dado, não tenho tido tempo... Ultimamente o tempo parece-me ser de outro tempo que não o tempo que conheço, foge-me das mãos, esgueira-se por locais onde não o posso seguir... Estou em Chaves, novamente, toda a semana... A ver vamos, se o tempo me deixa escrever um pouco, na cama, à noite, no caderno, aqui, em qualquer lado, sozinho e frio.

Eu volto.

2008-11-20

Polvilho as sementes do amanhecer,
há carinhos que nos nascem pelos olhos
e germinam na ausência
do anoitecer.

Há quadros e mesas e aparas de carácteres
no repouso de um guerreiro
e na vitória de um aguaceiro,
no simples gesto do vulto na face
que a outra face ocultou,
há lugares de mim mesmo
onde vive quem sou...

2008-11-13

Guardo o olhar que choveste,
deixo as nuvens florirem
nos pastos faustos do destino,
tacteio mãos e escuridões
em busca de um dorso
com outras mãos.

Curvam-se as curvas da estrada
e as margens
que me separam da madrugada.

Empobrece-me o nada
à sombra e resguardo da minha alçada,
no noctívago sentimento
de aguardar,
à candeia ténue da Lua,
o suspiro inaudível
da vida no meu peito
a ancorar...

2008-11-04

Trovoou-me o silêncio
no caos tumultuoso
de gentes irreais,
percorreu-me a calçada
e ondulou
nos semáforos que o destino teima
encarnar.

Nos espelhos que me miram
e olhos incendiados
de quem uma gota tenta sorver,
as feições esculpidas na memória
ainda antes de se terem por presente
eram já passado.

Na ponte que une as margens
do que sou aqui
(e agora)
correm as águas que não chovem,
mas nascem nuvens
no meu céu...

2008-10-31

Fall

Uma estrada sem nome,
sozinha,
vagabundeanda por folhas de plátanos que já não crescem,
percorre-me na viagem que o vento uiva
e nas curvas cegas do olhar,
saboreia o ardor e o temor
de uns passos feridos,
serpenteia entre a chuva
e a felicidade
dos idos.

Ausculto o pulso aos olhares
de gente que não vê,
faço minhas tuas mãos
para tactear no escuro uma luz esquiva,
arfante por um punhado de terra
húmida e viva...

Encerro capítulos de livros
e orvalhos,
sou sombra com sombra de plátano
numa cama fria de Outono.

Rio sozinho no final do meu reinado
aqui,
num sonho sem dono...

2008-10-28

Quero

Quero os silêncios malhados
e forjados
nas costas do destino,
quero a palma dos teus rios bravios
e o leito de desfiladeiros
onde desaguam
secos.

Quero o esquecimento dos dias
e das sombras das noites,
nos sinos que por ninguém dobram
o som aguado
da morte das mãos
e das foices.

Quero a chuva,
de uma estação abandonada
entre frestas do que seria,
de gente com alma caiada
e olhar de rebeldia,
pós e dores e ruídos e sei lá!
quem traça a linha que me separa,
do momentâneo agora
e do eterno já...

2008-10-21

Horizontes

Vou conduzindo sonhos e estradas no meu trajecto intermitente.
Quantos caminhos se separam apenas na confluência, para se encontrarem em qualquer bola de sabão colorida?

Surpreendo-me por esta pausa no trabalho, mas mais ainda pela iniciativa em escrever algo aqui, no portátil, atrás de um painel solar algures perto de Oliveira de Frades. Confesso que o cenário ideal não é aqui, sempre pensei que estes pequenos sóis que bailam em torno de mim se manifestassem apenas junto da Natureza, mas não, creio que afinal manifestam-se junta da minha Natureza.

Uns passos errantes passam atrás de mim, sobrepostos apenas pelo som de pneus cansados de carros de donos apressados. Alguém para e olha para mim, cenário novo, um portátil em cima de um quadro eléctrico e um mendigo bem vestido, ancorado às sombras das nuvens e a montes que se perdem de vista, como se da vista não fossem, apenas do horizonte e nada mais.

Parei uns largos minutos... Creio que estes pequenos sóis surgiram apenas para dar alento, para me dizerem que não, aqui não surgem...
Bem, há que esperar por chegar aos horizontes e não apenas vê-los ao longe.

2008-10-17

Limiares do meu olhar

Detesto chegar aqui, com sono, arrastado pelo desejo das letras que me habitam e nada escrever.
Há momentos que apenas poesia pode explicar, como pequenas gotas num pavimento,que dizem mais que um aguaceiro.
Hoje, sim, hoje trago comigo as limítrofes, as fronteiras e os abismos para tudo o que sou.
Sinto-me despido, nu, sem palavras que me confortem nem letras que me abracem, apenas nu enquanto outros eus vagueiam nos limiares do meu olhar, em vidas muitas que vivo nunca.
Hoje, sim, hoje sou apenas um trocadilho daquilo que sei ser.
Sou.

2008-10-13

100 título

Às vezes acho que eu sou o poema que tento escrever.
À procura de rimas, de palavras que ainda não conheço, amparando-me numa ou noutra vírgula, sem um título definido...
Passo os dias com páginas e páginas de livros que gostava de escrever, poemas e frases que se seguram às pessoas que se cruzam no meu olhar. Escoro cada pequena sílaba, na expectativa que, mais à frente, surja uma outra que complete a frase e sim, encontro, surgem numa passadeira, num gesto cansado, no velho que conta os trocos a entregar ao dono do jornal. A minha história está cheia de histórias que vi, mas ainda mais das que se desenrolam numa infinidade de destinos que, sinceramente, nem sei se existem, nesta ou noutra dimensão.
Eu (mesmo aquele que não conheces) sou um infinito dentro do meu mundo e, mesmo assim, não tenho título.

2008-10-10

(Au) sente

Sei que tens passado aqui, olhas, nada de novo, botão retroceder e partes para outras paragens... Eu tenho andado assim, também. Nada de novo, a não ser o cansaço, o correr sem rumo certo, mas com destino tangível.
Sinto por vezes que defraudo as expectativas que algumas consoantes depositaram em mim. As vogais, por serem poucas, foram falando entre elas e do pouco que me conheciam traçaram um perfil aeiou. As consoantes ainda me acompanham, trazem vogais por arrasto, são como as costas e as palmas das mãos, ninguém vive apenas de inspirar, há que expirar, ar e vida ou vidas, que é como quem diz, suspirar de nós mesmos e das paisagens que se acumulam entre aspas.
Obrigado pela passagem aqui. Eu estou cá ou melhor, aí, porque aqui parece que não mora ninguém.
(e há quem pense, ainda, que vive apenas porque corre e o vento lhe bate na face... mas as pessoas não percebem que o vento está lá, para mostrar que faz atrito e que vivemos... o vento foge, como pode, da correria absurda que alguns levam...)

2008-09-24

João de todas as semanas

As batalhas dos dias idos
que teimam em guerrear
no correr dos olhos
gastos.

As ausências do corpo
e uma alma
terna
e alterada,
a solidão de um carinho
e a ânsia
de viver no fundo de uma essência.

2008-09-23

Gerundiando

Olha-me o mundo
mirando
o que olhos meus vislumbram,
não há espera
sem fundo,
apenas equinócios permanentes
e rugidos na noite
que me sorve
em gerúndio.

Clama-me a sina
em verdade
e consequência,
chama o grito num vazio pleno
de ermos de saudades,
mas responde apenas o silêncio
com o ofegante aperto no peito.

Olha-me cego,
o mundo,
no aconchego da minha mão
em noite minha
de vagabundo...

2008-09-15

De volta

Ausente destes espaços, pareço-me comigo mesmo. Diria que não tenho tempo para escrever, mas é mentira. Faço-o diariamente, num exercício viciado e num vício exercitado, sem colocar as mãos no papel, mas colocando as ideias na mente ou na alma, quando esta última está junto a mim.
Gostava de poder sentar-me aqui, ter um momento para simplesmente pegar em cada história, daquelas bem antigas, porque as novas ainda preciso de as bi-ver (ver duas vezes) e deitá-las no silêncio da minha escrita. Gostava de poder estar um dia sentado numa sala de espera de uma estação de comboios, simplesmente a ver as vidas que escorrem de todas as vidas que apressadamente nem vivem. Um dia, quem sabe? Para já, dedico-me a, com os olhos semicerrados pelo sono e por outras coisas que não rimam com Vida, escrever um pouco daquilo que leio nos olhos das pessoas. "corremos para onde?"...

Até agora.

2008-09-08















(fotografia de Norberto Valério)

A cor dos meus olhos

traja fantasia,
ostenta quadros de sonhos
e noites orfãs
de dia.


Sei-te o tom
a voz
da tua alma
o som.


Cobre-te de mim

e eu de ti

terra austera,

porque em cada ramo meu florescem rumores secos
e uma espiga
de Primavera.


Sombra
e frondosa postura,
se cabelos houvesse seria hera
e chuva mole aqui,
meu arado em terra
pura.


Que me aguarde a morte
e me tema a vida,

as minhas searas plantam a sorte

e entre mim e eu mesmo
abrigam-se ainda corpos
,
gente que se ama

de alma
despida...