2008-05-05

Gentes nas montanhas do meu olhar

Esqueceram-se as mãos
dos sonhos
sobre a caruma que os dias atiçam,
no leito das almas
correm memórias e fantasmas
vivos
de um futuro presente.

Não estava lá,
nem aqui,
nem onde repousam as medas
e cantam as cristas de pinheiros
moribundos,
percorria curvas e estradas
e pós
e terras calcadas por gentes
diferentes,
ausentes
dos olhares incautos,
como putos sem presenteados anéis,
quase descalços
da vida.

Sou do meu olhar,
refém de paisagens e sorrisos
e dedos que afagam trigos,
sem ver o cascalho rude a queimar
ou a sombra escorregadia de uma nuvem,
permanece cego o meu olhar
filho de ninguém...

2008-04-30

Pontos corridos

Moldei os sentidos
ao sal de mares que nunca chorei,
esperei,
parti e cheguei aonde nunca tinha respirado,
fora de tempo
e de deuses em orvalho esculpidos.

Variante,
na característica quase adjectivada
de traços contínuos
e faces de pessoas,
quase gente.

O suor nunca derramado,

o peso aflito de uma vida
que se morre
e me percorre,
ora aqui
(silêncio),
apenas aqui onde repouso um corpo
de trapos
que esvoaçam como eu
nos píncaros do destino
(suspiro),
um ponto corrido após a história,
o final que antece o início
e me devolvo à origem.

Eu não sou um porto,
...
sou vertigem...

2008-04-20

Sete Sóis

É um pouco contra o que quer fazer. Escrevo apenas para sentir a chuva. Deitado na cama, com o barulho das gotas e do vento ao meu redor, não consigo senti-lo, tenho que estar aqui, a olhar para as letras, que surgem como magia. Tenho que olhar para os meus dedos para perceber que eles é que estão a premir as teclas que a minha alma dita. Não tenho muito mais para escrever. Aos poucos, sem grandes floreios "poetísticos", vou-me resignando à estrada, às ervas molhadas e curvadas que não posso tocar, ao trigo e centeio que crescem nos campos e pelos quais não posso correr, à claridade falsa de um monitor que vai sendo o meu dia-a-dia. Vou estar por fora, volto mais tarde. Até lá, fica aqui uma pequena história escrita para o Norberto e seus alunos para o dia mundial do livro.
***

Um sonho li(n)do


Ouço choramingar.
Do meio de uns troncos velhos, cortados, chega até aos meus ouvidos um choro baixinho.
Vou até lá.
Sentado num velho pedaço de madeira, um pequeno ser olha para mim.
Tem olhos grandes e mãos pequenas.
Funga duas vezes, limpa as lágrimas e torna a fungar duas vezes.
Ajoelho-me até a minha cabeça ficar ao nível da pequena cabeça dele.
Tem um olhar meigo, ternurento, com olhos de todas as cores do arco-íris. Pouso a mão no ombro dele e pergunto:

- O que tens? Porque choras?

Olha para mim, com os olhos marejados.
Não me responde.
Coloca a sua pequena mão nos meus olhos e fecha-mos.
Agora, de olhos fechados, consigo ouvi-lo, dentro de mim, com uma voz que me aquece como um quente copo de leite com chocolate.

- Já não há desenhos no céu…

Ouço-o fungar.
Não compreendo e abro os olhos.
A mão pequena toca-me no queixo e levanta-me a cabeça para eu olhar para o céu.
Compreendo agora.
As nuvens estão muito sérias, correm com o vento, sem desenharem no céu, parecem gente grande com as suas correrias e caras fechadas, sem sorrisos.
Olho novamente para ele, nunca vi um olhar tão belo, cheio de paz.
Fungou mais duas vezes e umas pequenas lágrimas caíram rolando pela cara.

- O que são os desenhos?

Fez-me sinal para fechar os olhos.
Fechei-os.

- Os desenhos que vês no céu, com as nuvens, somos nós que os fazemos, mas agora não chegamos às nuvens.

Abro os olhos.

- Mas fazem como? O que és tu?

E fecho os olhos.

- Antes as crianças liam muito, brincavam muito umas com as outras, inventavam histórias. E quando cada criança imagina, todas as cores do arco-íris constroem uma grande escada, que vai do seu coração até ao céu, Quando a escada chega ao céu, eu e outros como eu subimos a escada com a nossa mala de ferramentas e começamos a fazer desenhos nas nuvens. Elas gostam, riem-se, dizem que fazemos cócegas enquanto aparamos aqui e além, para fazer cada desenho.

Não estava a compreender, mas estava a gostar de o ouvir falar.
Bem, eu não ouvia nem ele falava. Ele tinha uma espécie de voz que falava dentro de mim.
Abro os olhos.

- Mas, não entendo… Que desenhos são esses? Quem são vocês?

E fecho os olhos novamente.

- Somos…
(é mesmo bom ouvir de olhos fechados)
aquilo a que vocês chamam de Sonhos. De cada vez que uma criança ou alguém imagina, nós avançamos, subimos os degraus de arco-íris e vamos até uma nuvem. Depois fazemos um desenho numa nuvem, pode ser um gato, um cão, uma flor ou outra coisa qualquer. Quando o desenho está feito fica a pertencer àquela criança ou adulto, mais ninguém vê o mesmo desenho na mesma nuvem, é só para ele ou para ela. O vento leva a nuvem e baralha o desenho, para que não seja copiado. O Sol faz então um pequeno desenho dentro do peito da criança e esse desenho nunca desaparece, mesmo quando a pessoa se esquece, o desenho está sempre lá! Um dia mais tarde, quando o vento for favorável, vai trazer novamente o desenho numa nuvem e quando a pessoa vir o desenho numa nuvem, vai brilhar um Sol dentro dela e ela vai lembrar-se.
- Lembrar-se de quê?

Pergunto de olhos fechados e só então me apercebo que estou a falar a língua dos sonhos.

- Lembra-se do sonho, de mim, vai olhar para o mundo com as cores dos meus olhos e se tentar agarrar-me pela mão e prender-me não vai conseguir, porque eu tenho mãos pequenas, que se escapam, para que ninguém queira os sonhos só para si. Os sonhos são de um para todos.

Eu ri-me baixinho, para dentro e para fora. Comecei a imaginar-me num grande campo, com animais, plantas e pessoas, de mãos dados, a fazer o que estou a fazer agora: a rir para dentro e para fora.
Abri os olhos.
Quem fungou agora fui eu.
Estava sozinho.
Olhei para o céu e vi o pequeno sonho, sentado numa nuvem a sorrir.
Falou comigo e disse, na voz dos sonhos que se ouvem de olhos abertos.

- Obrigado! Levaste ao céu o teu sonho!

E um Sol aqueceu-me dentro do peito e escreveu, com os seus pequenos raios, um poema, cujas letras dançavam de mãos dadas, ao redor de mim.

Cresce, sonha, pula e dá-me a mão,
a cor dos teus olhos é Inverno e Verão!

Vive e ama, sempre a cada dia,
Para que nasça nos teus olhos a alegria.

E se alguém te prender sob um vidro
procura o teu sonho neste teu amigo, Livro!

2008-04-18

Sexta, a feira da semana

Votos tradicionais de boa sexta-feira... O tempo está mau ou bom, dependendo dos gostos de cada um (aprendi isto com Anthímio de Azevedo ontem, na Antena 3 no programa do Alvim).

Escrevi uma pequena história ontem, infantil para crianças grandes, a convite do Norberto para o Dia Mundial do Livro... Depois de dia 21 coloco-a aqui no blog.
Não tem dado para escrever muito, de facto não tem dado para escrever nada... Apenas histórias improváveis na minha mente, que ascendem da alma ao pensamento, apenas para me turvar os dias com lágrimas de açucar e sal. Gosto de escrever mentalmente, deixar espalhadas histórias no ar, para que alguém um dia as aproveite, plante e sonhe, quem sabe o futuro pomar da minha vida será uma livraria para crianças?

Deixo uma fotografia (no final), de há duas semanas, aquando da ida ao concerto do Mark Knopfler no Campo Pequeno...

***

Chovia e fiquei contente por ver o arrumador levantar o braço. Ia poupar-me à tradicional procura de local para estacionar. Estaciono, com a ajuda dele. Saio do carro com o guarda-chuva
- tem uma moedinha?
- não, não tenho, mas tenho um abraço, vale? Riu-se e respondeu: - pode ser
Abraçamo-nos perante o olhar incrédulo de quem passa. Continuo o meu caminho, vou ao banco e retorno, ainda sob forte chuva. O arrumador vem ter comigo e dá-me um outro abraço
- é o troco...
(ficção, óbvio, não?)

***


















mana, eu, mãe, ana e pai...

2008-04-15

Um sorriso, nada mais

Gosto de me surpreender. Isto é um facto. Gosto de sentir que me engano quando julgo alguém, pela primeira vez, de forma errada. Não gosto muito de me surpreender a ter pensamentos (como os julgamentos de primeira vez), que pensei já ter erradicado ou, pura e simplesmente, perder a calma no trânsito ou, pior ainda, junto das pessoas que amo, sem razão alguma (excepto a própria estupidez que me assola de vez em quando).
Gosto de me surpreender. Além de um facto, é uma estupidez estar a repetir o que escrevi no início do primeiro parágrafo, mas é um pequeno luxo, o rir de mim mesmo, ao qual me posso entregar.

No domingo dei uma entrevista! Queria colocar uma fotografia desse momento, mas não tenho forma de fazer download da fotografia (falta-me o cabo e o leitor de cartões ficou no escritório).
O meu sobrinho, Pedro (amigo/sobrinho 5 estrelas, que brilha mais do que todas as outras do Universo), telefona-me há dias: "Oh Zé Miguel" (maior parte das pessoas, principalmente a família do "lado" da Ana, chamam-me Zé Miguel) "tenho que fazer um trabalho de grupo para Português e queríamos fazer uma entrevista a um escritor, podes?"... Claro que não diria que não, não fosse ele a pedir, mas depois fiquei a pensar no assunto, mas que vou eu dizer, quão pretensioso terei de ser para me considerar escritor?
Foi giro. O Pedro e o Nélson trouxeram uma máquina de filmar e umas perguntas. Ainda jogamos uma partida de basketball antes, para aquecer :) Viemos, com a Ana, para casa e fui respondendo às perguntas deles, com esforço para não demorar muito tempo nem rir! A fotografia surge depois. Talvez amanhã.

Um sorriso, nada mais, creio que basta...

2008-04-12

How long

Não podia adiar por mais tempo. Chega a ser doloroso não escrever, falar e ouvir tudo o que se vê e vive.

Fez já uma semana desde que fui nuns três dias de puro relax, que cansaram o corpo, mas aliviaram a mente.

Não sei bem porque gosto da música (e em especial das letras) de Mark Knopfler, desde os tempos do "Brothers in arms" (ainda com Dire Straits) e até "Kill to get crimson", o último albúm. Fascinam-me as histórias por detrás de cada canção, cada verso e, por vezes, de cada palavra. E as letras acabam por se complementarem com os arranjos musicais, o que me causa uma certa inveja, pois apesar de ter um cavaquinho e uma viola, pouco (ou nada) sei tocar.
A semana do concerto foi vivida quase sem me aperceber, o trabalho acaba por aglutinar-me os pensamentos, que voam para longe do concerto e dos 3 dias de "férias". Mas chegou sexta-feira e, talvez pela primeira vez em quase 30 anos, os meus pais tiraram uns dias de férias, comigo, Ana e Anabela... Aproveitamos para ir a locais que eles queriam, mas que não iam há algum tempo. Passamos por Fátima (tenho tanto para escrever sobre este local/religião) e fomos para o Campo Pequeno... Bem, o trânsito de Lisboa não é o mesmo do Porto e talvez tivesse ajudado se eu levasse o GPS ou fizesse ideia onde era o Campo Pequeno com mais exactidão, mas lá acabamos por chegar ao hotel :)
O concerto foi divinal, o Campo Pequeno esgotado, 6000 pessoas de todas as idades aplaudiram o mago da guitarra e os seus comparsas. Antes de terminar em apoteose, ainda vi o meu pai assobiar e a dançar ao som da música, certamente uma imagem que jamais esquecerei. A cara de felicidade deles foi o tónico da noite que vou recordar sempre (eu, Ana e Anabela somos mais "rodados" nestas andanças). Ainda deambulei pelo recinto e fora dele, na expectativa de uma fotografia com o Mestre, mas já todos tinham saído. Restou-me ver o road-crew arrumar tudo para arrancarem para Granada, para outro concerto da Kill to get crimson tour e recolher ao hotel. Os dias seguintes foram passados em passeio, a visitar monumentos e locais emblemáticos, além de amigos de longe, que só tenho oportunidade de visitar quando vou para as bandas sulistas deste pequeno país.
Tinha mais para contar, mas, como sempre, as histórias estão dentro de mim e só daqui a uns tempos é que verão a luz do dia, eventualmente numa ou noutra linha de um poema.

Dou comigo a pensar na dor, na necessidade que tenho de escrever, em todas as coisas que se acumulam em mim que ainda não viram a cor da tinta, nem sentiram o áspero papel... Tenho vários poemas, projectos e sonhos, sempre em redor de mim, a saltar, como putos traquinas, a puxarem-me as calças e a camisola, "escreve-me! escreve-me!".
Reflicto no que já fiz pelos sonhos. Quase nada. Tudo tem surgido quase sem querer, o livro, as pessoas, as situações. Mas hoje não, hoje decidi que vou à carga, que os moinhos de vento não são tão grandes assim e que a brisa que me está no rosto pede-me montes, vales, rios e terra fértil.

Esta minha intenção parece ter acalmado as centenas de letras (sim, centenas) que pretendem sair para o papel. Está a chover, carreguei o portátil e vou até Mozinho (para quem conhece estas "bandas" sabe que fica em Penafiel. Para quem não conhece, acabou de saber), um sítio calmo, com vento, eucaliptos e os restos de uma civilização que ainda persiste, embora não os vejam.

De onde vêm estas minhas personagens? Estão lá, no local, ou serão fruto apenas da minha visão e da necessidade de encontrar histórias diferentes para locais normais? Não sei, mas agora que falei nelas, juntaram-se às letras e ao coro que fazem para que as escreva.

Tenho pelo menos três projectos ligados à escrita, dois em parceria com o Norberto e que creio verão a luz do dia com algum sucesso (assim tenha eu talento para acompanhar as fotografias do Norberto) e outro relacionado com um livro que quero escrever, num estilo algo diferente e que ainda não encontrei (isto foi só para aumentar o suspense/curiosidade)...

Creio já ter contado aqui, que encontrei vários cadernos com escritos antigos. A maioria da poesia, embora a respeite, pouco ou nada tem a ver com o que sou agora, por isso mesmo creio que nunca verão a luz do dia. As histórias, por outro lado, mostram um pequeno ensaio do que quero fazer agora, por isso, um dia, talvez as digitalize/digite e coloque aqui, no blog, um local que vou tendo prazer em actualizar e alimentar...

Venho já, ok?

2008-04-10

Cada lugar sem tempo

Faço do nada religião,
adormeço-a
ao lado de cada sonho
que repousa na minha mão.

O calor das portas
e das palavras
com nomes,
o bronze
e dourado
das mãos, sempre das mãos,
que teceram cada lugar sem tempo,
nas cascatas do pudor
e espartano rigor,
há almas minhas
que ainda não reconheci.

Cansei o olhar
e mesmo a noite respira ofegante,
ata-me o pulso o pulsar
que a vida ainda acomete
a quem de si mesmo é amante.

No dia que nunca acorda,
na noite, escrita, por luzes sombrias,
eu estou no ocaso
e tu, sonho,
estás nos dias...

2008-04-04

Bom fim-de-semana

Não estranhes se não responder a um comentário ou ainda se não escrever nada este fim-de-semana... Vou até Lisboa, ao Campo Pequeno, ao concerto do Mark Knopfler.

Quando vier retomo a escrita, "agora é que vai ser".

Bom fim-de-semana.

Fica bem,
Miguel

2008-03-30

A linha da minha vida

Os sulcos crus que me temperam a pele
e a alma,
o ruído de vida
e faces novas
a descoberto,
um silvo que me rasga o sorriso
em flocos de vapor
e neblina.

A cor das cores
maior que uma Primavera,
o prateado ondular de um rio
num passeio agreste
da vida por um fio.

Chegou e partiu
num local deserto e ermo,
que me mova o carril
e a travessa
que me acalma o sonho,
sem ter por onde partir
serei morto
e perfilhado dos montes e fragas,
sem a certeza da cadência
de um relógio a rugir,
morrerá em mim qualquer curva que há-de vir.

Serão de meus olhos a saída,
a face crua
e a alma nua,
porque a linha da minha vida
não é minha,
é Tua…

Paredes com alma

Planto o suor
e cravo a calejada alma
na terra,
na vida.

A companhia do vento
de um destino agreste,
o ciclo de um estio
que a enxada rasga,
ser o dia madrugador meu alento,
o som ondulante
dos velhos moinhos de vento
o único livro que leste.

O escuro ocaso de um destino,
ter mãos de ceifeira
e uma alma entregue a Deus,
um odor a terra,
feno e erva,
aquilo que outros chamam de merda.

Ser relógio de Sol
e nuvens atiçadas,
dar asas a sonhos
e chorar filhos idos
que são colheitas derramadas.

Tudo esquecer
quando a mão no ventre quente
esmaecer,
ser do chão
para voltar a semear nas nossas vidas
um Verão,
orgulhar um braço forte
com o verde que nos acalma,
ser pedra e erva
em Paredes
com Alma…

2008-03-28

Fortuna navegante

Estrada,
olhar,
um suspiro perdido
na face que te ocultar,
um sono eterno
que trazes contigo,
vacila no forte,
e na esteira do sorriso
entra-te o mar
e a sorte.

Levo riqueza comigo
e tinta,
que se estende na paleta
das mãos
e de um amigo,
em frases que calei entre vidas,
pendendo do sono
e a dormida,
pinto-te no firmamento
onde entras
com torpor,
a matiz que me respira sozinha
tem nome de sonho:
amor...

Falas onde outros não escutam,
oscilas anónima
nas ameias que te prescutam,
no cálido incolor entardecer
que baila no céu
da alma (da alma?),
apesar de perdido
por entre nuvens altas e dormentes,
rio-me do dia, da noite,
de mim, da morte
e é por teus olhos
que me entra o mar
e a sorte...

2008-03-18

Ido futuro

Ternura,
trajas vida no olhar
e nos passos
serenos
que é o teu respirar.

A mão
e o pousio,
o sorriso lateral
que faz o mundo inteiro
surgir,
vazio.

Saudade
e o Outono
que trago algures em mim,
frutos caídos
das noites ausentes
e as nuvens, cerradas,
que permeiam o vácuo
entre o não
e o sim.

Encontra-me,
nas cidades
que são as avenidas vazias,
entre cada pedra
e mão,
no ido futuro
ou agora,
no chão...

2008-03-13

A gente não lê

A quem vem aqui frequentemente peço desculpa pelas teias de aranha e pelo pó.
Este blog parece um candelabro antigo. As ideias são novas, os sonhos semelhantes aos de outras vidas. De igual, apenas eu. Não tenho escrito, trago na minha camisola dobrada, ao colo, uma quantidade imensa de histórias e poemas, prosas e rosas, mas não os/as consigo escrever, desculpa(-me).


Em breve, sim, em breve talvez consiga estar presente com P grande, agora é apenas hora de olhar para o relógio, pousar todas letras ao lado da minha almofada e adormecer, na esperança de todas elas, letras, esculpirem um sorriso permanente na face e contra-face das faces da vida.

...

Dia 20 estarei na FNAC do GaiaShopping, num evento promovido pela FNAC e pela Corpos Editora (que "editou" o meu livro), integrado nas comemorações (antecipadas) do "Dia Mundial da Poesia". Serão distribuídas 600 mini-books de livros de 46 autores (entre eles o meu) até final do dia 21. Apareçam e apoiem quem apoia a cultura.

...

Escrita por Carlos Tê (quem mais?) e tocada/cantada por Rui Veloso, a música "A gente não lê" parece feita exclusivamente para a voz de Isabel Silvestre. Resume muito daquilo que "sou".

2008-02-29

Quase lá

- Tens escrito no blog?
- Nops - respondo... Não sei bem porquê. Falta de tempo? Digamos que o tempo nunca falta quando sabemos que o temos. A verdade é que não sei bem porquê, é um torpor, um emudecimento vazio, como os dias de nevoeiro, em que mal vemos o chão que pisamos.
Passos os dias a escrever mentalmente, a passar por locais e situações e a deixar, no local, impregnado, alguns pensamentos que desejo recordar mais tarde. Ficam ali, a flutuar, algumas vezes perdidos entre pensamentos de outras pessoas, a murmurar entre eles "quando é que ele nos vem buscar?". E, mais tarde, passo lá e recolho-os, seja como pensamentos, seja como um sorriso de alguém que os apanhou antes de mim.

Gosto de ler os comentários, no blog ou pessoalmente, de pessoas que passam aqui, no blog e não deixo de pensar e de achar curioso as diferentes interpretações que cada um dá ao que escrevo, ao que lêem.
Não, não sou taciturno ou vejo apenas o lado mau (mas existe lado mau?) da realidade do quotidiano (existe outra realidade, a dos meus sonhos), simplesmente gosto de me questionar, numa perspectiva de igualmente ir conhecendo-me melhor, a cada passo, a cada nova realidade. E isso leva-me a pensar não apenas em mim (e no meu papel no meio da multidão), mas no nosso futuro enquanto humanidade, como grupo, como habitantes de um condomínio gigante chamado "Terra". Obviamente e seguindo frases (bem) feitas, tal como Ghandi ("Seja a mudança que quer ver no mundo"), tento melhorar um pouco, a cada dia, o que não significa que fique melhor ou pior humorado, apenas reflicto e vejo, sem medo, mas com receio, tudo o que sou, de bom e de mau, tentando melhorar, sem me esconder atrás de máscaras... Este é o meu movimento, cada qual tem o seu, não é melhor ou pior, é, como referi, o meu.
E tudo isto porquê? Porque acho que as pessoas estão cada vez mais a correrem atrás de nada (e será nada ter que pagar contas como educação, alimentação, habitação?), agressivas, austeras, consumistas e reféns de um sistema que lhes incute medo e insegurança, ao invés de tentar difundir uma imagem de confiança, de comunidade, de fraternidade... Nascemos diferentes, somos diferentes e morreremos diferentes, mas a nossa passagem cá, diferente para cada um de nós, pode ter um objectivo maior comum, dentro dos nossos objectivos pessoais diferentes, mas, como sempre, isto é apenas o meu ponto de vista... Sim, diferente :)

Ouvi há pouco, na rádio (creio que Antena 1) alguém dizer que a única energia renovável e inesgotável é... a alma humana. Vamos aproveitar este recurso? Sendo como somos e melhores do que julgamos ser?

O problema destas palavras, alma e outras derivadas, é o caminho que as pessoas seguem, a sua interpretação, o acordar neo-místico, o encontro com outras correntes e o seguimento incoerente de algo (o mesmo acontece na política) sem bom-senso e racionalidade (física e espiritual) e, depois, quando alguém atingiu uma posição de "destaque", raras são as que se mantêm firmes e serenas na sua convicção de nada saberem, pois a maioria tende, ainda, a colocar-se "acima de", em posição de guru...

No meio disto, fiquei sem saber onde queria chegar. Mais uma vez, fui escrevendo ao longo de duas horas, seja na pausa para café, no intervalo de ir ao WC ou simplesmente para respirar... Acho que tenho que tomar mais cafés, para poder escrever mais um pouco.

Sei que, por muito que as pessoas digam que isto está mau, creio que a quantidade de pessoas a pensar por elas próprias aumenta exponencialmente, o que indica, claramente, que estamos quase lá.

Bom fim-de-semana.

Fica aqui uma música que gosto muito, de Mark Knopfler, da banda sonora do filme Cal. Ah! E dia 4 de Abril lá estarei no Campo Pequeno.

2008-02-22

Cat e golias

Dou por mim a pensar (hoje concedo-me a este luxo) e a escrever um pouco aqui, no blog.
Não consigo deixar de tentar perceber porque razão (e para onde) estamos todos a correr... Não consigo, por muito que me esforce. Visto de fora, o panorama actual é engraçado, somos formiguinhas ordeiras, correndo sem saber para onde, basta uma começar a correr numa direcção e todas as outras seguem... Mas o que pretendemos atingir? Qual a finalidade?
Hoje de manhã passei por uns putos a caminho da escola... Fez-me recordar os meus tempos de garoto, onde havia tempo para achar engraçado uma nova espécie de aranha ou tentar perceber se o poço recém-descoberto era muito fundo.
Ainda consigo emocionar-me a ver um luar como o de ontem, tentar contar quantas vezes abana a Farrusca o rabo por minuto, ver as nuvens como hoje de manhã, numa tonalidade sem tom e imaginar-me saltar de uma em uma até chegar ao Sol...
Entrar no trânsito é uma aventura, a estrada transforma-se facilmente em local de agressivida, ostentação, prioridade, buzinões, palavrões e outros ões... É difícil, muito difícil, encontrar alguém a cantar no carro, a sorrir, sem estar a ranger os dentes, a esbracejar, a espumar...
Depois, bem, depois a imposição do stress negativo (porque existe o stress positivo), o cutucar o gado com o pau, mentir, olhar de soslaio para a etiqueta da camisa...
Quem, mas quem consegue ser quem é?

Olhem, bom fim-de-semana!

2008-02-15

Sulcos abandonados

São dos lírios o meu olhar,
o vaguear,
o sorrir ao vento
que uiva
nas encostas do meu alento.

Estão na passada primeira
que ergue
da terra, a poeira,
eis quem de mim me pede
a vida
no respirar,
deixo-te o claro cerrado da minha sede
adormecida
nos teus olhos, o luar.

Leva-me brisa
as sombras para o horizonte
e de lá me fite o destino,
não há um suspiro sobre a cinza
e água corrida sob a ponte,
que leve o pleno da saudade de um campo,
sozinho.

---
A falta de tempo para escrever um pouco mais (e melhor) deixa-me assim, como hei-de dizer, "desconsolado", mas como para tudo há um tempo, eu não sou excepção... Tu não sabes, mas quando vou a locais bonitos, com os quais me identifico, levo comigo muitos dos olhares que pousam aqui... Espero que gostes.

É quase fim-de-semana e, claro, eu desejo-te um cheio, daqueles em que acordamos cheios de sonhos e dizemos para nós próprios: "vou realizá-los... hoje!"

2008-02-13

Juventude intemporal

Fico feliz, muito feliz, por ter crescido a ver, ouvir, sonhar e poder correr entre árvores imaginando todas as aventuras que uma pequena caixa a preto e branco me trazia...
Consegues ver sem sorrir inocentemente e largar uma pequena lágrima de saudade e conforto por ter isto dentro do coração?
O maior segredo era (é) ser tão feliz, com tão pouco.

2008-02-12

Primaverno

É sintoma que os tempos mudam, estas noites de Invernos e manhãs de Primavera, fazem-nos pensar que não somos nós que estamos a mudar, a Natureza adapta-se aos nossos próprios ciclos... Creio mesmo que esta espécie de auto-destruição ambiental é sintoma da Natureza a adaptar-se à nossa auto-destruição enquanto espécie (não, não acordei de mal com o mundo).

Mas eu gosto deste tempo... O dia quente passa-me um pouco ao lado, porque passo os meus dias num escritório sem janela, saindo para serviços ocasionais na "rua" ou para almoçar, mas a manhã e a noite são perfeitas para mim.
A manhã acorda fria, aquecendo facilmente, eu percorro os quilómetros que me separam em direcção contrária ao Sol, o que faz que este reflicta nos espelhos e me aqueçam a cara. Devo ser a única pessoa que se ri disto, porque no trânsito não vejo mais ninguém a sorrir.
As crianças na paragem de autocarro espremem-se por uma nesga de Sol e riem-se... Um ou outro cão corre pela estrada atrás de um osso no caixote do lixo e uma mão trémula segura uma chávena de café com leite à janela. O dia parece espreguiçar-se, lentamente, saindo de uma cama confortável para uma manhã fria depois de uma noite com aqueles sonhos que nos fazem acordar a sorrir.
A noite cai com a placidez das noites de Inverno, fria, gélida, onde brinco com o bafejar... Está tanto frio que as próprias estrelas parecem mais próximas da terra, tremendo. E eu, com pouca roupa para o frio, rio-me ao dar por mim a tremer os dentes enquanto percorro algumas ruas da minha aldeia (recém-promovida a vila), com todo o tempo do mundo para colher alguns sonhos que pendem no vazio...

2008-02-07

Por instantes

Por instantes, vim aqui, no meio de uns bits, sinais eléctricos, cabos de programação e outra panóplia de utensílios que têm feito o meu quotidiano.

Recentes comentários feitos por antigos alunos no meu hi5 têm contribuído para eu reflectir sobre várias coisas, entre elas as palavras que vamos proferindo em determinado momento, quando somos nós mesmos, sem sabermos muito bem por quê, mas que saem cá de dentro.
Não tenho tempo para colocar aqui os comentários, fá-lo-ei depois, não por uma questão de ego, mas por perceber (agora sim) o impacto daquilo que podemos dizer e ser quando somos (passe a redundância) nós mesmos...
Nenhuma palavra, proferida com amor ou ódio, fica em vão e, de facto, tudo retorna a nós próprios, seja em forma de um olá terno e ameno no coração, seja um pontapé frio na boca...

E este post porquê? Bem, além das razões supracitadas, para reflectir e agradecer a quem tem passado aqui e me tem plantado sementes de tranquilidade no olhar. Os vossos comentários são muito, mas mesmo muito bons (a minha mana Anabela e a Ana já tinham utilizado isto no lançamento do livro, na apresentação surpresa que me fizeram) e mesmo quando não comentam, saber que passaram aqui, como que deixando pegadas de amizade virtual, faz-me sentir que vale a pena ser o que se é (afinal, só assim somos nós próprios, correcto?).

Logo voltarei aqui, agora há que continuar com o trabalho. Fiquem bem

2008-02-03

Um abraço

O tempo não é aquilo que pensamos, tão pouco o que já ouvi (o tempo somos nós que o fazemos). O tempo vai talhando, esculpindo, desbastando e desbravando aquilo que em nós existe e não conhecemos... E quando conhecemos, mas não queremos ver, trata de nos atirar à face as arestas dos nossos próprios ângulos... Por outro lado (agradavelmente) trata de nos ventar com carícia todas as folhas de Outono que perdemos e julgamos esquecer.

Tenho a meu lado um sonho, daqueles que viveram e continuam a viver ainda que para lá do que vejo. Fala-me de um sonho sem fronteiras, umas paredes erguidas a um céu baixo com nuvens húmidas de candura e estrelas que parecem pintadas nas pálpebras dos meus olhos fechados. Fala-me das paredes, das pinturas dos amigos, dos abraços dados e nunca perdidos, dos beijos que espelham um pouco do carinho das estrelas por nós.
Sussurra-me do bem-estar, do encontro com o esquecido, da lei de não ter leis, dos risos das crianças com cores de arco-íris, das passadas rápidas no cascalho que faz os caminhos espirais. Mostra-me a planta, o projecto, as árvores, os sorrisos que chegarão dos trilhos que me levam da palma da minha mão a cada um dos dedos... A lareira a crepitar um lume que arde por dentro, temas e invocações novas, competições sem concorrentes, apenas participantes, cabeças encostadas a ombros, suspiros e uma plenitude que alcança todo e qualquer lugar inexistente do Universo.

Beija-me, envia-me um abraço pelos olhares de outras pessoas e pousa a mão no meu ombro direito. No escritório vazio (ou num qualquer cubículo, que eu peço apenas conforto para a alma e para este corpo que me mantém dentro) ecoa o som de um sorriso, uma gargalhada rasgada que parece encher o peito de ar, o meu peito... O Sol brilha por momentos, embora seja noite, tu partes, para qualquer local que existe em todo o lado, mas onde as minhas mãos não chegam e fico aqui, a olhar, a ouvir música que nem sabia que tocava, escutando ainda o riso distante e tão dentro do meu peito... Dentro dos olhos trago a planta, ainda, o projecto, todos os traços e caras de quem comigo se cruza, os alicerces, as árvores de fruto e o fruto que outros chamam Amor, está tudo aqui e embora esteja completo sei que vou dormir e acordar com as mãos vazias...

Embora tenha outras, estas foram as letras que saíram, directamente de ti, para mim, porque tudo o que te dei, foi tudo aquilo que me deram um dia, umas folhas caídas, um sorriso e um sonho em forma de terra cultivada por mãos de gente. Espero que gostes.

2008-01-30

Locais não localizáveis

Há músicas que nos colocam no nosso local, no lugar que é nosso, como se a música nos levasse de olhos fechados e sentíssemos apenas a brisa fria do céu profundo que sopra nos corações simples, para ao abrir os olhos vermos e os nossos corpos dizerem: "estou em casa".

É tarde, não tenho tido tempo para escrever e isto dói-me. Parece bizarro não ter tempo necessário para escrever apenas umas letras, mas... Mas tem sido assim, dias que começam cedo e terminam quando já o Sol entrou ventre adentro da noite. Hoje não é excepção.

Estou cansado... Perco-me imensas vezes, com a facilidade com que adormeço os sentidos ao som de uma viola ou de um saxofone, na ilusão complexa da minha necessidade do simples.

Recordo o dia do lançamento do meu livro... Perdido no trânsito, nas faces medrosas da raiva e nos laivos de loucura de pessoas com medo de ver vida, trago para mim, de novo, o momento, o odor, o sabor dos abraços que vão até à alma. Vejo ainda, porque tenho gravados nas pálpebras os momentos, todas as palavras e a frase que sempre proferi (e sonhei desde criança): "Um momento para ter os meus amigos por perto". Vejo-vos a entrar no auditório, a olharem curiosos como se todos fossemos crianças, naquele instante eu seria a mais nova criança, o olhar cúmplice, o aceno sorridente e a minha vergonha como um puto que recebeu uma prenda maior que ele próprio. Vejo-vos ávidos de ver as cores do papagaio que lancei naquela noite ventosa. Ali, naqueles minutos, todos fomos um só, raízes de uma mesma árvore, sonhos de uma noite chamada Amizade. Naquele dia fui Eu. Podia não ser (e sei que não foi) nada de especial, mas estiveste lá (ou aqui, no meu peito) e agora sinto-te aqui.

Sinto tanta falta, tanta... Sinto tanta falta de abrir os braços, receber as caras esquecidas, tratar todos os ventos por Tu, apertar a mão como quem afaga a alma.

Escrevo e olho para o canto inferior direito do computador, são 0:34 e daqui a cerca de 5 horas tenho que acordar... Por favor, inspira fundo, não demorarei mais que umas horas até chegar aqui, vestir o meu casaco azul (o casaco da escrita) e deixar que todos estes meus amigos, que me rodeiam agora vestidos de sonhos e paisagens que esqueci de visitar, me pousem a mão no ombro direito e sussurrem um segredo, daqueles que não sei, porque são escritos para ti.

Paro de escrever, leio e releio, sei que entre frases tenho palavras escritas e escondidas, não sei como, nem porquê. Vejo histórias iniciadas, sem desenvolvimento ou conclusão e questiono-me porque as deixo assim, talvez seja Eu, talvez seja eu. Ficam ali, como que esquecidas, a germinarem em cada momento que penso nelas, até ao dia em que me chamam, estendem a mão frágil e afagam-me os 32 anos de vida, pedem vida e vida lhes dou, porque não sei ser diferente nem sonhar vidas que não são minhas ou correr por estradas cheias cujo fim é o vazio. Gosto de as ver, encostar-lhes letras pequenas e quentes e perguntar “estão bem?”. Ai como adoro quando me chamam, sorrindo, com a cara encostada a uma reticência e um sorriso do tamanho de um parágrafo chamado Felicidade…

Venho já.

2008-01-27

In the sky(line)

Tenho os olhos cheiiiinhos de coisas que sonho e que sinto necessidade de colocar aqui, mas que (eu sei porquê) não consigo escrever.

Vou parar com a poesia... Gosto muito de escrever, do exercício de fechar os olhos e afinizar com as várias mensagens que pairam ao meu redor. Adoro perceber o ambiente, mexer lentamente a mão e saborear as ondas harmoniosas e tépidas do próprio ar... Mas acaba por ser uma condensação de punhos fechados e histórias que dormitam num muro velho de granito com musgo...

Escrevo para perder tudo o que encontro
e as minhas mãos, como as que escrevo, pedem Sol e uma respiração pausada e breve, para além daquela linha onde estou, ainda antes de lá chegar.

2008-01-25

Mantra

Tenho na mão
a noite
em comum com um mantra,
ecoo em mim
quase sem me conhecer,
nos cantos da minha casa
doce
alma,
quem me habita?

Jugos
e burgos
que não pertencem à minha pele,
senão o poema que me impele
além de outra noite
e outra,
que pesos se agarram aos sonhos
pendurados nos meus olhos?

Escrevo-te breve,
como um espasmo voluntário
e um frio
que teima em não gelar,
como a brisa leve
e um sudário
deste porto
a naufragar...

2008-01-24

Dor(es)

O cinzento dos olhares
é o arco-íris esbatido
que alguma alma almeja
perder,
são as pancadas secas do vazio
e o frio,
perdido
e solto, das ameias sofríveis,
sofridas,
aos quais as estrelas chamam medo.

O cinzento dos olhares
é a dor
que me entra na alma
ainda antes de eu ser
dia...

Dói-me...

2008-01-23

Sorrisos angulares

O ocaso repetido da manhã,
o som
da Lua a nascer-me no peito,
a tez negra de um sorriso
ido,
trago nos olhos mais ingredientes
e sabores,
sussurro entre dentes
a canção das dores.


As sombras angulares
e a caneta
nua
no caderno,
quem me guia a escrita
crua?

Há uma dor,
um latejar ritmado no peito
que dorme, apenas,
quando sobre o resto do dia
(ido)
me deito...

2008-01-22

Poesias

Dizem-me que a poesia não é fácil e não deve ser... Falam-me nela como algo de outra dimensão, quase oculta, misto de ciência e religião... Não sei bem o que é, mas escorre-me dos dedos, entranha-se na alma, salta-me aos olhos de quem se cruza comigo na vida ou numa esquina qualquer...

O meu barco não é destas águas,
ancorou
onde outros navegam,
fundeia nos locais que soluçam,
tem ameias
e escotilhas onde nunca ninguém espreitou,
veleja-me nos ombros
e na brisa que nasce na face,
invisível,
invencível.

O meu barco não é destas águas
e eu,
eu não sou deste barco...

2008-01-21

Estradas, estradas...

As sombras possuem estradas,
o pânico ansioso
das faces comidas pelo tempo
e pelo fumo do cigarro,
tudo tem caminhos.

O sorriso...
O sorriso tímido
de quem de si se acha
e perde,
na vida
e num quarto desconhecido.

Quantas interrogações cabem numa única nuvem?

Os olhares comovem-me,
movem-me
em direcção a uma estrada
que traço, em cada ruga nova
nascida no meu espelho,
em corpo féretro de novo
habita a cara de um velho...

Tenho o Sol a despontar
nas árvores das vidas,
em folhas mortas
e vagos uivos de um só vento,
agora que a noite me cobre
e dá alento
à exaustão,
fecho os olhos e vejo,
tenho todas as estradas
na minha mão...

2008-01-17

Simples orvalho

Crónica na Bird Magazine.

A vida
que me pendia dos olhos
não era medo,
era orvalho.

A neblina dos cascos no dorso da minha mão
ecoa,
onde? não sei,
talvez no veludo do chão
que descobri ser cascalho.

A surpresa do engano
e a veracidade do erro,
as somas dos olhares
que me subtraem ao espartano,
nem o quadro que pintei na madrugada das tuas telas
esconde as vidas do teu baralho.

Tenho saudades do simples, de deixar escorrer os dias numa chávena matinal de café e encontrar todas as letras e forças numa "malga" de sopa... Os meus dias têm vários anos acoplados, os horizontes escasseiam quando a estrada é imutável porque os sonhos não as pintam.


Vou partir,
quando os teus olhos nascerem
e os meus esmaecerem
já terá o Sol
suspenso, na pauta de todas as rimas
e nos versos,
ancorado as letras que escondi
por trás da noite existente no hiato
entre duas palavras.

Dorme,
é apenas orvalho...

2008-01-08

Couraças

O meu rio tem choros
e maleitas de felicidade,
nos grãos que semeio
no estio da alma nocturna
existem planícies nunca colhidas
e abraços
que não sei dar.

Os que vociferam
quando a caravana passa
sobre os trilhos ausentes,
como as mentes,
escapam
à luz que me pende dos dedos.

As lágrimas
que deixei cair
no papel principal,
que é meu,
só meu,
pedem-me companhia,
como a couraça quente
desta minha mão,
triste,tão triste
e fria...

2008-01-07

Memórias

A memória tem sons,
mãos e luzes
e frios!

A soma das verdades
é apenas entre muitas
uma,
a mentira.

Os que do passado
saem
sã polidos e húmidos
pelas lágrimas moles
que correm nas pedras duras
do amanhã
que me nasce no dia de hoje.

A memória tem sons,
vozes e pétalas
e rios!

A memória tem... aquele
que já não sou
quando morro
no amanhã,
na frase que não irei escrever
nem mesmo quando a vida
aos meus olhos
não vier...

2007-12-26

Nunca estive

Batalho
e baralho
os sorrisos rasgados
que rasgam
os ramos que trago nas mãos.

Findo
o dia
finado à conta das contas
que não sei fazer
findar.

Suponho sílabas
sibilares
nas pautas deste caderno,
tenho-te em mim
e nos vestígios
de dia
que o ocaso trouxe
à noite,
a mim.

Estou cansado,
ausente
dos recônditos locais secretos
secretamente escondidos
do cansaço...

Tenho tanto frio.

Pedras Revoltas II

2007-12-23

"Let me be" musicado

Ontem foi dia de emoções. Daquelas fortes. Após um dia aniversário em que estive pouquíssimo tempo em casa, fui jantar a casa dos meus pais e a Ana e a minha irmã, como sempre, prepararam uma surpresa ao convidarem alguns dos meus amigos. Entre os amigos surgiu o Luís, que fez uma dupla surpresa. Primeiro, na sua infinita fé ofereceu-me uma viola (é a que podem ver no vídeo) e, depois, cantou o poema "Let me be", do livro "Para lá do que vejo". Foi bonito demais! Embora a capacidade da câmara que gravou não seja a melhor, sei que a continuar assim é de esperar um cd :) O pormenor final. Ele a limpar a "emoção" dos olhos. Uma prova da extrema sensibilidade de quem é um verdadeiro "artista". Obrigado Amigo!


2007-12-21

Lista de Livrarias

Antes de rumar em mais uma viagem de trabalho, fica aqui a lista de livrarias onde podem encontrar o livro "Para lá do que vejo".
  • Poetria (Baixa do Porto)
  • Lello (Clérigos - Porto)
  • Almedina (Arrábida Shopping - V. N. Gaia)
  • Leitura (Baixa do Porto)
  • Sá da Costa (Chiado - Lisboa)
  • Bertrand Stª Catarina (Porto)
  • Bertrand Parque Nascente (Rio Tinto)
  • Bertrand Maia shopping (Maia)
  • Centro Elisabete Teixeira (V. N. Gaia)
  • Livraria Culsete (Setúbal)
  • Livraria Garfos e Letras (Porto)
  • O Livreiro (Chaves)
  • Melo e Castro (Felgueiras)
  • Livraria Esperança (Funchal - Madeira)
Fiquem bem e até breve.

Tenho orgulho "nisto"

Jury Award – First Place
ARE THERE STILL ANY SHEPHERDS?
Dir. Jorge Pelicano, Portugal 2006



















A perfect blend of good cinema and quality research on a subject that generally finds place in academic study and international workshops. The stunning visuals, choice of the protagonist, catchy music, songs with profound lyrics and superbly imaginative editing complements the artful story-telling in the film. We get a profound understanding of the fatigue of those men who are used to the loneliness of the mountains. The filmmakers commitment to the subject and mastery over the cinematic tools have combined well to produce the film that touches the inner chord of the romantic, provides the proverbial food for thought for the intellectual and excellent message recall for others.

2007-12-17

Viagens

Quase perco as mãos para a noite.
O frio não serve de desculpa para não escrever.
Vejo agora que pouco observo. As viagens que fazia em textos eram tão ricas como efémeras, eram e são ainda os sonhos.
Ultimamente não sonho, observo, mas não vejo. Tenho saudades de mim mesmo, escrever tudo o que não sei redigir, sorrir com o olhar e fechar os olhos , dar dois beijos aos sonhos perdidos antes de ter frio e dizer-lhes baixinho: amo-vos.
Tenho a sensação que o barco que estava ancorado no meu coração, onde estavam fundeados os sonhos e seus frutos, vai deslizando pela água para mar alto, onde não sei nadar ou sorrir.

As...

As tua mãos,
as mesmas que embalam o meu sonho,
pousam nos meus ombros
caídos.

As mãos mirradas
e a letra pequena,
saída agora do ventre materno
que é o medo
de ter coragem.

As palavras
plantadas
na terra fértil do pensamento,
os sussurros
que dão voz ao inaudito
em poemas
improváveis.

As futilidades,
as guerras esgrimidas em batalhas não lutadas
no luto
do teu dia.

As noites,
as noites de rumores,
as noites de suores,
as noites que sorvo,
os amores...

As sombras escondidas
que me doem.

As estrelas fugazes
que me constroem...

2007-12-13

De onde sou




















Eu sou daqui... 
Ainda que lá não esteja, 
mesmo quando não 
vou 
lá 
encontro-me por lá.

2007-12-08

Dentro de mim

Dentro de mim habita nevoeiro,
denso e delgado
como uma garra eremita,
que prende na timidez da noite
a leve fuligem
de um braseiro.

Dentro de mim estou, eu,
escondido
num cortinado incolor
com paletas de sons,
numa pauta
de notas coloridas
que iludem a dor
e me silenciam as mãos.

Dentro de mim sorrio,
nadam os soturnos
e os vagos,
os fúteis
e os tragos,
num invólucro sem som,
com sombras
que beijam o papel que me cobre,
nos dias em que
dentro de mim choro.

2007-12-06

Não há duas sem três

O tempo sabe a Natal, mas o quotidiano não tem sabor, é igual a todos os outros dias, um a seguir ao outro, sem nenhum existir, exceptuando o momento actual.

Escrevo num intervalo para beberricar um pouco de chã (tenho que diminuir ao café), tenho a chávena da thermos à minha frente e o calor que emana dá-me sono (isto e o facto de estar a dormir pouco). Não tenho qualquer motivo aparente para escrever, tirando o facto de ainda não ter saído do escritório, nem para sentir se a maresia chega aqui ou se de facto o quotidiano sabe a Natal.

Não, tudo igual... E eu ali atrás de uma nuvem a olhar para mim mesmo.

3º Feedback - Pedras revoltas (musicado)

Aos poucos vou conseguindo colocar aqui os momentos do lançamento do livro.
Acabei de receber um vídeo feito por um telemóvel (obrigado Cláudio). A qualidade não é a melhor, mas quis colocar aqui de qualquer forma, para que possam ver e ouvir o magnífico trabalho do Luís.
Convidei-o uma semana antes do lançamento, no dia seguinte já ele tinha escolhido o poema, a forma como o cantar e a melodia. Passados dois dias já eu ouvia a música... E diz ele que não é músico :)
Em breve coloco mais filmagens de outros momentos e desta música também.

Excluído


Veste-me de sonho
a vida
que o frio faz,
não,
não é para ti que olho,
mas para o deserto
que o teu olhar ausente me traz.

As mãos que pendem da vida,
na vida que sorriu
vida frias,
como as minhas mãos
vazias...

Sonhos
e barcos
e aviões de papel,
amigos
e estrelas cadentes
que pendem do vazio,
frio,
quantos mundos cabem ainda
numa só folha de papel?

Pariu-me o mundo
aqui neste muro,
sozinho.

Vive-me
nos olhos do que serei,
veste-me de carinho...

(fotografia de Norberto Valério)

2007-12-03

Reencontros perdidos

Vozes,
silêncios que falam a ausência
de ti,
de mim.

Este corpo inerte,
com sussurros no peito
e um gelo,
que derrete
por ti,
por mim.

Uma mão quente,
reencontros desencontrados, na vida
que palpita
em ti,
em mim.

A tristeza,
o sorriso que pende do teu olhar,
que pede mãos
e na penúria leveza
de ti,
de mim.

O agri-doce,
o sabor inodoro de sentidos
que o céu cozinha
na tua alma,
por ti,
por mim.

A cadência do infinito,
o Universo que é um sorriso teu
como meu é o pôr-do-Soal
em ti,
apenas em ti...

2007-12-01

Quando eu era como eu fui

A Ana encontrou montes de folhas de coisas, mesmo coisas, que escrevi. Olhar para trás e ler, ver, sentir aquilo que fui, é bastante estranho. Sou eu, sim, mas não o eu que se formou. Sinto-me como uma casa, autoconsciente, que se olha enquanto tijolo, alicerce ou cimento e não se reconhece. Aquilo ali, sabes, direi eu a alguém que me guarde as tardes frias quando os meus olhos dormirem, aquilo ali também fui eu.

São uma série de contos, alguns que gosto e talvez os venha a digitar aqui, enquanto posts, poemas e algumas coisas escritas, em forma de desabafo. Embora não tenha passado muito tempo, é curioso, para mim, não se esqueçam que este post é para eu mesmo ver quando eu era como eu fui, olhar para trás, para o dia de ontem que já não existe e constatar que muito do que escrevi ficou preso pelo caminho, sombras e silvas gastas e secas, velhas e mortas.

Há muitos anos, sim, mesmo muitos, nos primórdios do meu namoro com a Ana, ela, conhecendo a minha artéria (em contraste com a veia) poética, compilou (ou seja, recolheu e digitou, pois sempre escrevi bastante "à mão") e imprimiu tudo num registo em tudo semelhante a um livro... Só agora constato que esta ideia de escrever para um livro, ao invés de escrever para um caderno, é antiga e teve uma primeira edição nos idos anos de quanto eu era como eu fui.

Cheguei há pouco de ver o Sérgio Godinho. Há pessoas que tratam bem as palavras, não há?
Ele falava e tudo era esclarecedor, mas quando tocava, quando as mãos batiam nas cordas e as faziam vibrar, as notas desprendiam-se e saltavam, voando como restos de fogo-de-artifício numa noite de arraial. Algumas pareciam ter vida, brilhando, batendo no tecto, nas paredes, dividindo-se em várias ou pura e simplesmente apagando-se poucos instantes depois de se soltarem. Por que será que algumas notas têm vida? Quem as alimenta? Será quem as canta, quem as ouve, quem as sustém no peito e no olhar?

A maior virtude do lançamento do meu livro, da "cerimónia" propriamente dita, é ter possibilitado retomar o contacto com amigos de longa data, tão longa que lembro-me deles desde que me lembro ser pessoa (mesmo de outras vidas enquanto pessoa). Fico feliz, intimamente, sem floreados ou pseudo-arquétipos, por ser como sou e ter muitos e bons amigos.

Ah! Já não me incomoda o facto de eu querer "falar" sobre a amizade e outras "coisas" que são o combustível do meu coração e não o conseguir. Há coisas que não se falam, não se escrevem, apenas se são. E estas coisas não são coisas.

O passar das horas não costuma perdoar e embora eu saiba que não existem, saber que elas sucumbem a cada 60 segundos conquista-me o respeito. É por elas, pelas horas, que vou desligar o computador e dormir...
e também porque a Ana já aqueceu a cama :)

2007-11-30

2º Feedback (apresentação surpresa)

Sei que não estiveste lá apenas porque não pudeste, mas não queria deixar passar em claro a apresentação surpresa que a minha irmã Anabela e a Ana me fizeram no lançamento, no início... Fiquei sem palavras.

2º Feedback (apresentação surpresa)

Sei que não estiveste lá apenas porque não pudeste, mas não queria deixar passar em claro Eis a apresentação surpresa que a minha irmã Anabela e a Ana me fizeram no lançamento, no início... Fiquei sem palavras.

1º Feeback do lançamento

Olá.
São 1:43 da noite, mas não podia deixar mais um dia sem vir aqui entornar as gotas do bálsamo que foi a noite do lançamento do meu livro.

Tento encontrar um ponto de partida, para falar sobre o lançamento, mas as memórias estão tão presentes e vívidas, que é difícil pegar em apenas uma.
Creio que a melhor forma será ir escrevendo sobre a programação do mesmo e, eventualmente, se as minhas mãos assim o quiserem, irei dando vida a algumas palavras que me ficaram gravadas.
Ao invés do previsto, o lançamento ocorreu no auditório da Casa da Cultura e não na sala multiusos. A decisão, por iniciativa da minha adorada irmã, foi a mais sensata, pois o palco do auditório era mais adequado ao que desejava fazer, nomeadamente a actuação do ballet e a noite iria revelar que foram muitas mais pessoas do que aquelas que eu esperaria.
A noite começou com a apresentação de uma surpresa por parte da minha irmã (em conjunto com a Ana), um filme com música de Mark Knopfler e com imagens e frases referentes ao meu percurso enquanto "pessoa"... Foi comovente... Estou a preparar o vídeo para o youtube e, assim, dar a conhecer a surpresa, a primeira fatia do grande bolo que foi a noite de 24 de Novembro.
Em seguida foram lidos alguns poemas por Fernando Soares... O Fernando Soares é e será, se assim for possível, a única voz dos meus poemas. Há anos que o ouço e sempre pensei (e afirmei à Ana) que sentia que escrevia para a voz dele. Foi com curiosidade que ele me disse que os poemas estavam numa forma que ele gosta de ler. De facto, não há acasos...
Depois foi a vez do André, meu amigo de infância, apresentar o autor (eu mesmo, para quem não sabe), com palavras que me comoveram, sentidas e que eu muito agradeço. É bom saber a forma com que os outros nos vêm... É bom ser teu amigo, André.
Em seguida foi a vez do Fernando Soares declamar mais poemas, da forma como apenas ele sabe e consegue.
Foi a vez, de seguida, do Norberto, bom amigo, apresentar o livro... Ao longo de cerca de 30 minutos, cativou todos os presentes e, acima de tudo, surpreendeu-me pelo trabalho de pesquisa que fez, pela forma como encarou o meu convite e pela surpresa no final... Sendo ele, tal como eu, adepto do documentário "Ainda há Pastores?", tomou a iniciativa de contactar o Jorge Pelicano, realizador do documentário, que enviou uma mensagem para mim, lida no final da intervenção do documentário. Confesso que as lágrimas me vieram aos olhos... A mensagem que o Jorge Pelicano foi a seguinte:
"Caro Miguel.
Isto é uma espécie de surpresa a meias com o amigo Norberto.
Queria felicitar-te neste dia especial que estás a passar. Editar um livro, um CD ou um filme é como um filho que nasce. São momentos inesquecíveis aqueles que se vivem neste dias. É o culminar de todo um trabalho, de um ultrapassar de barreiras, de dúvidas, mas também de muitas certezas.Sei o que isso é. "Ainda há pastores?", o meu primeiro filme é a prova disso mesmo. No final esboçamos um leve sorriso e comunicamos com nós próprios e dizemos - "valeu a pena".
É isso que desejo para contigo próprio. Que digas - "valeu a pena". Que valeu apena lutar, que valeu a pena acreditar. Hoje estás mais rico. Felicidades e parabéns por esta tua pequena fortuna.

Jorge Pelicano
Realizador documentário "Ainda há pastores?"

Depois entrou em cena o Fernando Soares, semeando mais poemas com a voz dele e, em seguida, o meu amigo Luís cantou e tocou à viola um poema do livro (Pedras Revoltas)... Foi um momento muito bonito e há coisas que são talhadas para determinadas ocasiões. Andava com o desejo de alguém cantar e tocar um poema meu e a uma semana do lançamento não tinha, ainda, ninguém que o fizesse. E, de repente, a Ana lembrou-se do Luís! Seria imperdoável se eu me esquecesse dele :) A verdade é que de um dia para o outro o Luís tinha escolhido um dos poemas que eu lhe dei e ao final do dia tinha a melodia na cabeça... Quem sabe, sabe, não é?

Depois do Luís foi a minha vez de falar... Ninguém imagina os nervos que sentia, mas depois de começar a falar (lembro-me de ter começado com "estava tudo a correr tão bem...") tudo se desenrolou e durante uns 20 minutos falei como há muito tempo não me lembrava de falar... Tinha preparado um guião, mas coloquei-o de lado e deixei que o ambiente falasse por mim... Foi tão mágico...

Depois de mim entraram quatro alunas da escola de dança/ballet do Centro Social de Cête, que dançaram ao som de uma música Celta, lindíssima (obrigado professora Joana)... Em breve deixo também aqui a música que elas dançaram.

E para terminar, falei um pouco mais e deixei uma frase exibida no fundo do auditório, que era a seguinte:
No imenso livro da minha vida
Todos vocês são pequenas letras
que formam as palavras do meu mais belo poema:
Amizade...

(Bolas, já são 2:09)

Todos os meus amigos e família aplaudiram, eu agradeci, desci do palco e fui abraçar e beijar todas aquelas pessoas que me fizeram sentir tão feliz...

A Casa da Cultura preparou um Porto de Honra e eu estive a fazer dedicatórias nos livros que estavam à venda (tive que pedir mais à editora)...

Acima de tudo, esta foi a noite em que eu bebi, comi, senti e amei o Amor... Não existia mais nada além do amor, foi inacreditável e sei que falo por todos (cerca de 90 pessoas) que estiveram presentes ao dizer que foi uma noite, um momento inesquecível...

Foi único, poderá mesmo ser o único momento em que me verei em tal posição, mas foi meu e não há momento em que não abrace todo o sentimento, toda a energia, todo o calor humano que estava naquela sala.

Isto foi o que se passou, com mais ou menos sono tinha que o deixar aqui escrito... Amanhã ou depois deixo escrito o que de facto eu vi e vivi.

Obrigado a todos, especialmente aos que estão "Para lá do que vejo".

2007-11-23

Ausente


Não tem sido fácil, o tempo, sempre o tempo, escasso para escrever, contar, ler e viver... Prometo que daqui para a frente será diferente... Até lá, tenham um bom fim-de-semana.

Fiquem bem.

2007-11-12

Lançamento "Para lá do que vejo"

Olá.

O meu livro de poesia “Para lá do que vejo” (Corpos Editora) vai estar na
sala multiusos da Casa da Cultura de Paredes, no dia 24 de Novembro às 21:30, à espera que o teu olhar repouse em algumas das letras e palavras que também fizeste nascer.
Mais do que o lançamento, será um momento para ter os meus amigos por perto
durante alguns minutos e, por isso, se puderes, terei muito gosto em ter-te lá.

Percorro,

em passo incerto,

as rimas que tombam

sobre este dia,

o momento em que desperto

e quase morro

tem um nome:

poesia.


Fica bem,

José Miguel Gomes



2007-11-04

Voz

Pinto o vazio
que enche as palavras
de vida
e ausência,
procuro
um enigma
que ouço sussurrar na noite,
enquanto insiro o mundo
nesta casca de noz
escrevo o silêncio
onde só tu,
amigo,
poderás dar a Voz.