2008-08-18

Inocência: o final dos frutos



















(fotografia de Norberto Valério)
Despida do mundo,

trajo apenas searas
e foices alheias,

em bailados de sons dourados
com filigranas de colcheias.

Rendo-me ao vento que silvou
na despedida, nua,
entre o céu que me perfilhou
galgou-me a terra em semente,
sem Sol,
sem Lua.


Padece do tempo meu destino
final dos frutos,
porque a fragilidade das raízes
não brota desta tumefacta pele crua,
mas da gadanha cega e rombuda
que dança em mão inocente,
quão inocente é a culpa
tua...

2008-08-06

Agosto começa com o início de Setembro, para mim basta.
Tenho os olhos abertos porque o Sol é filtrado pelas muitas nuvens no céu, mas, de facto, para que preciso de olhar? Este tempo faz-me fechar os olhos, sentir o vento frio de Setembro, ainda que em início de Agosto, cruzar os braços atrás da nuca, descalçar os chinelos, procurar um pouco de terra e erva com os pés e ficar assim... Permaneço imóvel durante vários minutos, quem me vê deve certamente indagar-se porquê, mas para que servem as opiniões alheias? O vento teima em soprar, abana algumas ervas secas e pinheiros. Os eucaliptos ao longe, por serem maiores fazem-se ouvir perfeitamente e, assim, não preciso trautear qualquer música. Nestes momentos tenho pouco em que pensar, na realidade, o facto de não pensar é o que me faz sentir tão bem, estar apenas a sentir, sem racionalizar nada, apenas sentir, entrar numa dimensão onde habitualmente não temos tempo de estar, permitir ser feliz, ou nem ser feliz, apenas ser, sem qualquer adjectivo, substantivo, metáfora, apenas ser e é quando já me soltei do corpo, quando percorro locais distintos com a mente, quando ouço vozes familiares e vislumbro mesmo sem ver paisagens que ainda não percorri, mas das quais tenho saudades, é nesse momento que o frio, meu precioso aliado, me envolve, me percorre dos pés à cabeça, me abraça como ainda não se abraça no mundo, fazendo-me sorrir ao mesmo tempo que um arrepio eriça todos os meus pelos, percorrendo todos os milímetros do pescoço até aos pés...

Não sei o que me faz mais rico, se a falta de ambição (vide dicionário) se a extrema ambição de um arrepio.

Vou estar ausente uns dias, não da vida, mas do blog. Agora que começo a sentir uma vontade interior de escrever, tenho que me afastar... Tenho mais um caderno que a Ana me deu, tenho também marcado alguns dias para me dedicar a outros projectos de sensações e escrita com o Norberto... Acho que o presente já existe, nós só lhe iremos dar um papel de embrulho lindo e uma bela fita com um laço :)

Parece impossível a quantidade de personagens que me levam ao colo, pela estrada, pela vida. Ainda não digeri todo um fim-de-semana dicotómico (sobre o qual escreverei) e surge um outro, no fim-de-semana passado, em que estive na Feira Medieval de Santa Maria da Feira. Não é difícil envolver-me em todo aquele manancial de personagens, entre as reais e as fictícias, para me transportar durante todo o dia para as vidas de todos os dias de todos os que se cruzavam comigo... Entre as personagens, surgiam várias perdidas, sem perceberem muito bem em que era estavam, abrigando-se nas tendas vazias e invisíveis que vi nos descampados, fugindo de cavaleiros de indumentárias modernas e olhando de soslaio e com receio para as pessoas com estranhas vestes, leves e coloridas. Surpresos por ninguém parecer reparar neles, foi hilariante perceber e ver que um, ao ver que eu o via perfeitamente, correr a avisar os outros... Andei com eles todo o resto do domingo, pareceram surpresos com algumas das coisas que viram, alguns não terminaram o percurso, foram desvanecendo-se e desde domingo que tenho apenas um comigo. Está junto com outras personagens, de outros tempos e histórias, mais confuso com o ambiente que vê e sente, mas faz-lhe bem esta aprendizagem à força, esta visita de estudo pelo mundo moderno... Daqui a pouco vou até à sala, tenho a janela aberta por onde entra um pouco de frio, cruzo os braços atrás da nuca, fecho os olhos e, neste momento em que quase adormeço, ele vai ver pelos meus, vai perder as vestes e o impulso do arrepio que sobe dos pés até à nuca vai levá-lo a saltar, daqui para lá, onde todas as eras se encontram...
Enquanto escrevia isto vi-o sorrir. Embora não saiba ler, sabe sentir ou aperceber-se do que escrevo, da mesma forma que a vida não nos diz "amanhã vai ser melhor", nós apenas sabemos que sim, amanhã vai ser melhor, vai ser muito melhor!

Gosto de poder trazer artefactos de sonhos em sonhos, de vidas em vidas, do momento em que eu, no futuro, gravo mensagens para mim mesmo no passado, onde o frio leva mensagens de nuvem em nuvem e abraça outras nuvens, apenas para não se sentir só...

Esqueci as quadras e versos que me rimavam,
soltaram-se da liberdade
a inocência
e as linhas que as ancoravam,
quanto cinzento cabe
nas rugas da idade?

Um numeral na condição
de ter nas têmporas
cãs e coração,
um quadro inacabado
na matéria-prima
de um sorriso
alado.
No dia em que tiver tempo irei fazer tudo aquilo que desejo.

Resolução sábia, poderosa, que esbarra apenas nalgumas questões, como o facto do tempo não ser passível de possuir. O tempo é-o, para ele basta, chega, para outros é uma forma de protelar algumas questões. O desejo não o é, para ele basta, chega, para outros é uma forma de protelar algumas questões.

Li os parágrafos anteriores e dou-me por feliz por não ter seguido filosofia. Estou de férias, deixo os dias escorrerem lentamente, sempre com qualquer coisa para fazer, com uma miríade de elementos e peças que não compõem o meu puzzle.
Hoje estive no Alvão, sentado numa rocha, à sombra de um pinheiro quase nu, que chorava para dentro de uma pequena saca de plástico pregada ao tronco, saltitava o olhar entre as lagoas que o rio Olo faz ao fundo e o céu azul claro com algumas nuvens em cima. Dei por mim a imaginar estar lá, mas de noite, ouvir as lagoas e as estrelas, sim, ouvir, porque as estrelas não se vêm, aqueles pequenos pontos luminosos que tremeluzem à noite são infinitamente pequenos se comparados com o brilho que me depositam no peito e que alimentam os meus sonhos, dando alguma claridade, ainda que fosca, a algumas destas "coisas" que escrevo.

Não, não é quando tiver tempo, é agora, neste exacto momento, que viro as palmas das mãos para mim, afago invisíveis calos e cicatrizes que trago já de outras vivências, deixo-me sentir o calor das mãos nas minhas próprias mãos e sorrio... Sinto que se aproxima um bom momento e não sei que momento é este. A vida é de facto bela, não é?

2008-07-31

Tenho rios de xisto a correrem na face,
agrilhoei a vida
aos papeis gastos
onde me banho.

Na peugada dos meus próprios passos
percorro a poeira
que ramos virgens ostentam,
porque todo o poema é um traço incompleto
na reticência final
de um sorriso invisível,
tal como o infinito inalcançável
que trago atado
por um cordel...

2008-07-27

Chuva de verão

Desde o tempo que escrevi aqui pela última vez, a única diferença é a chuva tímida que cai lá fora.
Curioso auscultar a opinião das pessoas, que varia consideravelmente de dia para dia (e momento para momento), na semana passada era um calor abrasador, que fazia jus às previsões catastróficas do Verão deste ano como sendo o mais quente dos últimos 25 anos. Hoje (e não apenas hoje) ter que ouvir a chuva cair provoca-me um conforto maior ainda do que imaginar estar a ouvir o vento soprar no telhado de uma cozinha grande, aliás casa, com o calor de um braseiro. Parece-me que as opiniões acompanham os tempos modernos, varia com a mesma facilidade com que se muda de canal e disto sei do que falo, não fosse eu um zapper incondicional, tirando as vezes, raras, em que apanho um canal que gosto.
Tenho andado com dores de cabeça, sinal da necessidade de descanso ou simplesmente a destruição de algumas sinapses, mas não queria deitar-me sem vir aqui deixar umas linhas. Confesso que tenho andado longe deste blog, mesmo longe dos meus cadernos (e são alguns), para escrever o que quer que seja, tal como sempre. Mas hoje, não por ser domingo, não por chover, apenas porque sim, resolvo-me vir aqui, privando-me ao barulho da chuva. Tenho à minha volta todas as personagens que vivi e ainda não escrevi. Motiva-me saber o quanto tenho que escrever, embora me apavore o facto de eventualmente não saber quanto tempo tenho. Queria que soubesses que aqui, em mim, vive sempre um pouco de ti, seja numa personagem vista, vivida ou ainda por inventar. Se calhar não sabes que vivias até te leres num poema meu. Acredito que sim e não te surpreendas, comigo aconteceu o mesmo, descobri-me quando me li num poema que escrevi. Perdão, como possuo o condão de viver com o escritor (ia escrever pseudo antes), descobri-me no momento em que ele me pensou, idealizou e deu vida. Talvez por ter nascido assim, tenha pouca propensão para viver apenas num local. Na realidade, o que sou está repartido em tudo o que encontro, o que torna tão difícil sentir-me bem aqui, sabendo que poderia estar ali e, de facto, estou... Mas os tempos mudam, os reconhecimentos também, curiosamente a qualidade que mais admiro na mudança é a sua consistência, tudo muda, embora permaneça no mesmo local.
Paro um pouco e olho à esquerda. Tenho uma velha personagem comigo. Tento imaginar onde a poderei encaixar, mas não encontro local ou posição adequada. Um dos motivos pelo qual adio a escrita é a falta de paisagem onde plantar todos estes seres que habitam na minha morada, penso em várias histórias e na verdade até possuo algumas, mas não encontro narrativa para a maioria. Penso nelas como trovões ou relâmpagos, não precisam de cenário adequada, além das condições meteorológicas normais, apenas surgem, troam e desaparecem, para surgirem não se sabe quando.
Esta minha característica de perfeição ou (tentativa de) controlo impede-me de escrever mais, simplesmente porque quero que as personagens e vivências imaginári0-reais tenham um livro, sejam mais perfeitas que o momento actual, esquecendo-me obviamente que o momento actual é sempre o mais perfeito, embora compreenda algumas das personagens, como este simpático casal à minha direita, que preferem surgir, anunciarem-se e, depois, trazerem com eles todo o cenário, tempo e até indumentária... Então o que fazer? Bem, na realidade não sei. Para as personagens com vontade própria escrevo histórias, apenas porque pedem com educação, para as outras, eventualmente sairão um poema ou um pequeno texto, apenas para sentirem, elas, que encontrarão sempre solo fértil, mesmo que cresçam pouco.

Gosto disto. Gosto de vir escrever sem ter nada em mente e tudo começar a ajustar-se, a sair normalmente e fico a pensar para mim mesmo, que pena será amanhã acordar e ter esquecido tudo isto, as intenções.

Habitam em mim mais do que a parte de um todo. De facto, transporto comigo os tempos antecedentes, presentes e consequentes, como se todos caminhos que pudesse percorrer tivessem já traçados e vividos, como se num só segundo vivesse mais do que em infinitas vidas passadas e futuras. E, sabes, não me causa transtorno, não me aflige ou angustia, não me causa ansiedade. Apenas me formigam os dedos e a imaginação, com a vontade que tenho de pegar nas palavras e emoldurar corações.

Até já, porque depois de leres isto, eu serei também um pouco de ti e tenho a certeza que, fechando os olhos momentaneamente, poderás sentir uma ligeira brisa no rosto. Não estranhes, comigo aconteceu o mesmo.

2008-07-24

Ainda estou por aqui, embora possa não parecer. A quantidade de histórias a fermentar na minha mente é surreal e, ainda por cima, encontrei uma capa com vários poemas e contos antigos (muito antigos), que irei passar para aqui um dia.

Eu volto (nunca cheguei a sair).


2008-07-16

Não há noite que não alcance as estrelas,
embalar-me num pulsar invisível
enquanto me abraço a elas.

Flutuo
enquanto percorro vários céus
sob o mesmo luar,
sou caneta e papel
encenando estes dedos meus,
que ninguém me diga:
a noite está a acabar.

Rebolo-me no próprio sorriso,
dou as mãos
às mãos que não conheço,
envolto nas circunferências
das tonalidades
em que jamais esmaeço.

A cor do que escrevo é fugaz,
tem traço de homem
e gesto irrequieto de rapaz.

Não há noite que não me faça ao infinito,
acordo esvanecendo no mundo,
hoje sou grito,
amanhã, talvez, vagabundo...

2008-07-14

2008-07-11

Os ecos inaudíveis
nas vozes abafadas
surgem já entre os sonhos,
há um imaginário real
do que a alma escuta
no vazio,
um clarão que ofusca a dor
na penumbra do desassossego,
eclode o passado presentemente no futuro
num olhar transparente
que se chama Amor.

2008-07-09

Nem as palavras me deitam,
apenas o cansaço
de uns passos rodopiados
na orla
de um jardim,
não procuro o não
ou o sim,
aguardo um serrado
com ervas como gente,
uma caneta, carvão, arado
com que possa cantar
a minha semente.

Crescem-se pinhais,
onde escondo
medos que nunca vivi,
em suspiros, sem ais.

Meço e peso cada espaço
entre as linhas,
e o saber das letras
entre as palavras
são o que sorvo,
no que resta das giestas.

Resisto ao adormecimento,
o meu corpo... meu corpo,
pesa-me como um casaco,
um pedaço de vida
que nunca viverá até onde a minha mão alcança.

No carinho deste silêncio,
quando são os que não são
do dia que me anoitece quando desperto,
há um sorriso emoldurado
no verso do teu quadro.
Pacificam as estrelas o luar
que me levam o leve caminhar
percorrido
e o quanto de encontrado, está perdido.

Há um infinito de eternos nadas,
um frio adocicado
de uma brisa que traz mar.

Há grifos ascendentes de fénixes ressarcidas,
palavras em leitos sempre frios
de poemas que me leram
sem saberem a mar...

2008-07-04

Um post - duas mensagens

Sobre quem eu não seria se não fosse quem não sou
Falava agora com o Norberto, sobre o curioso que é escrever. Adoro escrever, mas mais do que isso, gosto mesmo é de ler os comentários e de perceber o que perceberão as pessoas (deduzo que quem me leia seja pessoa) que lêem. O post anterior - Pequenitates - é sobre alguém, mas não eu. Em primeiro porque as minhas nuvens não são azuis, pelo menos não no tom azul que as pessoas pensam e em segundo porque nem tenho a certeza que tenha sido escrito por mim, apareceu por aqui no computador.
Por fim, dou por mim a olhar como criança, a iludir-me como criança, a acreditar como criança, a escrever como criança, mas a cravar garras como adulto (e às vezes tenho vergonha de ter crescido).

Sobre a mais velha profissão do mundo (professor) e um amigo
De vez em quando "falo" no Norberto neste blog, mas ainda não o conhecem (creio eu). Estava na converseta com ele, via messenger, quando ele envia umas imagens de um livro de final de curso da escola onde ele lecciona. Amante das tecnologias, construíram um blog onde até colocaram uma historieta minha, e para final de ano surgiria algo diferente para todos: o livro de final de curso... Calma, coloco já uma imagem... O Norberto foi quem que apresentou o meu livro na Casa da Cultura de Paredes, mas foi ainda mais, pois foi ele, perante a minha passividade (e medo) para programar a apresentação (visto ter preferido apresentar primeiro em "casa" do que num "bar" com a editora), ele simplesmente "emailou" ao Vereador da Cultura, que respondeu prontamente e, num espaço de poucas horas, já tinha local, data e hora de apresentação. Curioso foi, também, na apresentação surpresa que a minha irmã e a Ana fizeram para o dia/noite/momento o primeiro comentário (retirado do blog) que surge ser do Norberto. E mais curioso foi o facto de antes, muito antes, tê-lo encontrado num hipermercado e ele, brincalhão como ninguém, dizer que alguém andava a fazer desaparecer os carteiros. Bolas. Naquele tempo eu ainda tinha quatro neurónios (restam dois, embora um esteja em recuperação), mas mesmo assim não consegui perceber sobre o que ele falava, até deduzir que era sobre uma pseudo-história (em três partes: do tipo uma, duas e três) e, claro, para surpresa minha, ele acompanhava o meu blog...

Foi um momento mágico, pelo menos para mim, ainda por cima com uma mensagem do Jorge Pelicano, realizador do documentário "Ainda há Pastores?", com quem ele falou e "pediu" umas frases para o lançamento. Mas isto não acaba aqui. Ambos admiradores (moi même e ele) do documentário, conseguimos/convidámos (com a suprema ajuda da Casa da Cultura de Paredes) que o documentário fosse exibido na Casa da Cultura, com a presença do Jorge e da Rosa, confraternizamos com eles, foi demais. Enfim. Já tive que ir buscar outra mochila para guardar tantos sonhos... Conhecemo-nos quase por acaso, num projecto chamado "Internet@EB1" ou "Internet nas Escolas" ou outros nomes mais pomposos que não vêm ao caso. E agora, quero que o conheçam, a pessoa que tem uma profissão que admiro: professor do 1º ciclo ou como gosto de dizer "Professor Primário" (com iniciais maiúsculas).

Já tentamos umas brincadeiras, como esta, e novos projectos estão na forja, né amigo? :)

A fotografia foi retirada do livro de curso e publicada com a permissão do mister.


2008-07-02

Pequenitates

Nascido e criado em terras de gente grande, o pequeno Pequenitates fazia dos seus dias de traquina o horizonte do seu futuro.
Corriam os dias e o Pequenitates, com a cabeça no ar, saltava de nuvem azul em nuvem azul, das que se soltam dos sonhos de infância.
Nenhuma das grandiosas aventuras era pequena para o seu corpo, lá cabiam todas as realidades, mesmo as mais irreais…
De salto em salto, a jogo em jogo, Pequenitates fazia do Sol Lua e da Lua brincadeira.
Abrigado em esconderijos que só ele via, os pequenos pés anunciavam a sua presença e ninguém, mesmo ninguém, o denunciava, fazendo com que os risos fossem crescentes e enchessem as divisões de alegria.
As letras juntaram-se e até as notas musicais apareceram para colorir a meninice do garoto.
Falava e cantava, tocava e sorria, nos dias em que Pequenitates descobria que lhe cresciam ossos e carne, cabelos e espinhas, como se a realidade de pré-adolescente tentasse sair por todos os poros do seu corpo.
Aos poucos a voz de Pequenitates não parecia a de Pequenitates, assemelhava-se a um grasnar de gente crescida dentre de gente pequena.
Corriam os dias e as nuvens azuis eram já pequenas para os saltos do garoto, mas Pequenitates continuava a correr e a saltar, deixando que os dias saíssem da sacola para o teclado do computador e para a tabela do cesto de basquetebol e assim, de salto em salto e distracção em distracção, Pequenitates de pequeno se fez grande, provando que mesmo nos dias de Inverno, há uma Primavera na vida de alguém.

2008-06-27

Se por acaso (ou propositadamente) não voltar aqui hoje, sexta-feira, fica desde já os votos de bom fim-de-semana.

O suor que me escorre

brota das fotografias
nos sorrisos falsos,
a bestialidade da besta resume-se
à complexidade dos corpos
que a habitam
sem nunca os viverem.

Amortalho um corpo
resto de gente, ossos e carnes fecundas
para que descanse enfim eu
longe,
bem longe,
das pobres gentes maiúsculas
com vogais fúteis e imundas,

Dorme-me,
cansa-te do peso do irreal,
absolve-te do delito a que muitos
(quantos serão?)
chamam respirar,
tu não és aquele,
és o tal...

2008-06-26

Talvez seja isto a quem chamam crescer

Olhei-me hoje ao espelho com a mesma ingenuidade de criança, não fosse eu uma criança (bem) grande. Enquanto o cabelo cai e algumas pequenas partes começam a ficar brancas/grisalhas, dou por mim a ver que a barba está a ficar branca com mais rapidez que o (suposto) normal. E, assim, deixo-a crescer, durante uma semana (aproximadamente) vou vendo ao espelho, aqui no escritório ou em casa, o avançar, a conquista da barba branca sobre a negra. Um dia visto-me de verde, com uma espécie de veste, um chapéu à Robin dos Bosques (não confundir com o imposto) e fico o Peter Pan completo!
Gosto de me rir, ainda, com estas pequenas coisas de mim mesmo. Longe vão os dias em que me debruçava sobre o lavatório para chegar mais perto do espelho e contava (sim, contava!) os pelos aos quais já eu chamava barba e orgulhosamente cortava-os (e algumas vezes a pele), na esperança de nascerem mais, mais abundantes, mais rápido e mais negros. Agora... Agora vejo-os crescer brancos e não os corto. Cada cabeça com sua sentença. Neste caso, cada eu comigo mesmo.

O poema seguinte nada tem a ver com nada que escrevi acima, é apenas um poema, num registo que não fazia há bastante tempo e, pasmo-me, gostei de o fazer.

Não são meus os torpores,
nem o frio que a noite semeou,
são de meus braços amores
o tempo que de mim se apossou.

Um empedrado caminho oculto
que conduz ao olhar que não existe,
é tudo o que em mim resiste
na agreste mão fechada de um vulto.

2008-06-21

As esferas que oscilam
na perpendicular do meu sentir,
profetizam novos dias
que amanhecem
entre um suspiro e o sorrir.

2008-06-15

Há tanto tempo. Há tanto tempo que procurava e assim, de repente, surge um dia sem computador. Apenas desejo de escrever, de ler, de ouvir, de partir o silêncio com um silêncio ainda maior.

Tenho escrito pouco por aqui... Tenho saudades de vir deitar os meus personagens antes de ir dormir, de lhes dar asas, de pousar algumas das histórias aqui, para que leiam e para que eu desperte um pouco mais. Mas não tem dado.

Ando cansado desta máquina, vence-me aos poucos.
Não sei se planto o tempo
ou a vida
me colhe da semente,
na eira dos meus sentidos
não há Sol
que seque
alguns grãos em mim
feridos...
Enquanto o Sol não me faz nascer
germino na terra
das minhas palavras,
onde me banham húmus atenuantes
da vida
e do papel,
que rasgo e onde desenho
o Sol
que me fará nascer...
Repousaram as sombras
e os degraus que me galgaram,
não há chuva que caia em vão
nem terra
que não mereça ser chamada
chão...