2007-11-30

1º Feeback do lançamento

Olá.
São 1:43 da noite, mas não podia deixar mais um dia sem vir aqui entornar as gotas do bálsamo que foi a noite do lançamento do meu livro.

Tento encontrar um ponto de partida, para falar sobre o lançamento, mas as memórias estão tão presentes e vívidas, que é difícil pegar em apenas uma.
Creio que a melhor forma será ir escrevendo sobre a programação do mesmo e, eventualmente, se as minhas mãos assim o quiserem, irei dando vida a algumas palavras que me ficaram gravadas.
Ao invés do previsto, o lançamento ocorreu no auditório da Casa da Cultura e não na sala multiusos. A decisão, por iniciativa da minha adorada irmã, foi a mais sensata, pois o palco do auditório era mais adequado ao que desejava fazer, nomeadamente a actuação do ballet e a noite iria revelar que foram muitas mais pessoas do que aquelas que eu esperaria.
A noite começou com a apresentação de uma surpresa por parte da minha irmã (em conjunto com a Ana), um filme com música de Mark Knopfler e com imagens e frases referentes ao meu percurso enquanto "pessoa"... Foi comovente... Estou a preparar o vídeo para o youtube e, assim, dar a conhecer a surpresa, a primeira fatia do grande bolo que foi a noite de 24 de Novembro.
Em seguida foram lidos alguns poemas por Fernando Soares... O Fernando Soares é e será, se assim for possível, a única voz dos meus poemas. Há anos que o ouço e sempre pensei (e afirmei à Ana) que sentia que escrevia para a voz dele. Foi com curiosidade que ele me disse que os poemas estavam numa forma que ele gosta de ler. De facto, não há acasos...
Depois foi a vez do André, meu amigo de infância, apresentar o autor (eu mesmo, para quem não sabe), com palavras que me comoveram, sentidas e que eu muito agradeço. É bom saber a forma com que os outros nos vêm... É bom ser teu amigo, André.
Em seguida foi a vez do Fernando Soares declamar mais poemas, da forma como apenas ele sabe e consegue.
Foi a vez, de seguida, do Norberto, bom amigo, apresentar o livro... Ao longo de cerca de 30 minutos, cativou todos os presentes e, acima de tudo, surpreendeu-me pelo trabalho de pesquisa que fez, pela forma como encarou o meu convite e pela surpresa no final... Sendo ele, tal como eu, adepto do documentário "Ainda há Pastores?", tomou a iniciativa de contactar o Jorge Pelicano, realizador do documentário, que enviou uma mensagem para mim, lida no final da intervenção do documentário. Confesso que as lágrimas me vieram aos olhos... A mensagem que o Jorge Pelicano foi a seguinte:
"Caro Miguel.
Isto é uma espécie de surpresa a meias com o amigo Norberto.
Queria felicitar-te neste dia especial que estás a passar. Editar um livro, um CD ou um filme é como um filho que nasce. São momentos inesquecíveis aqueles que se vivem neste dias. É o culminar de todo um trabalho, de um ultrapassar de barreiras, de dúvidas, mas também de muitas certezas.Sei o que isso é. "Ainda há pastores?", o meu primeiro filme é a prova disso mesmo. No final esboçamos um leve sorriso e comunicamos com nós próprios e dizemos - "valeu a pena".
É isso que desejo para contigo próprio. Que digas - "valeu a pena". Que valeu apena lutar, que valeu a pena acreditar. Hoje estás mais rico. Felicidades e parabéns por esta tua pequena fortuna.

Jorge Pelicano
Realizador documentário "Ainda há pastores?"

Depois entrou em cena o Fernando Soares, semeando mais poemas com a voz dele e, em seguida, o meu amigo Luís cantou e tocou à viola um poema do livro (Pedras Revoltas)... Foi um momento muito bonito e há coisas que são talhadas para determinadas ocasiões. Andava com o desejo de alguém cantar e tocar um poema meu e a uma semana do lançamento não tinha, ainda, ninguém que o fizesse. E, de repente, a Ana lembrou-se do Luís! Seria imperdoável se eu me esquecesse dele :) A verdade é que de um dia para o outro o Luís tinha escolhido um dos poemas que eu lhe dei e ao final do dia tinha a melodia na cabeça... Quem sabe, sabe, não é?

Depois do Luís foi a minha vez de falar... Ninguém imagina os nervos que sentia, mas depois de começar a falar (lembro-me de ter começado com "estava tudo a correr tão bem...") tudo se desenrolou e durante uns 20 minutos falei como há muito tempo não me lembrava de falar... Tinha preparado um guião, mas coloquei-o de lado e deixei que o ambiente falasse por mim... Foi tão mágico...

Depois de mim entraram quatro alunas da escola de dança/ballet do Centro Social de Cête, que dançaram ao som de uma música Celta, lindíssima (obrigado professora Joana)... Em breve deixo também aqui a música que elas dançaram.

E para terminar, falei um pouco mais e deixei uma frase exibida no fundo do auditório, que era a seguinte:
No imenso livro da minha vida
Todos vocês são pequenas letras
que formam as palavras do meu mais belo poema:
Amizade...

(Bolas, já são 2:09)

Todos os meus amigos e família aplaudiram, eu agradeci, desci do palco e fui abraçar e beijar todas aquelas pessoas que me fizeram sentir tão feliz...

A Casa da Cultura preparou um Porto de Honra e eu estive a fazer dedicatórias nos livros que estavam à venda (tive que pedir mais à editora)...

Acima de tudo, esta foi a noite em que eu bebi, comi, senti e amei o Amor... Não existia mais nada além do amor, foi inacreditável e sei que falo por todos (cerca de 90 pessoas) que estiveram presentes ao dizer que foi uma noite, um momento inesquecível...

Foi único, poderá mesmo ser o único momento em que me verei em tal posição, mas foi meu e não há momento em que não abrace todo o sentimento, toda a energia, todo o calor humano que estava naquela sala.

Isto foi o que se passou, com mais ou menos sono tinha que o deixar aqui escrito... Amanhã ou depois deixo escrito o que de facto eu vi e vivi.

Obrigado a todos, especialmente aos que estão "Para lá do que vejo".

2007-11-23

Ausente


Não tem sido fácil, o tempo, sempre o tempo, escasso para escrever, contar, ler e viver... Prometo que daqui para a frente será diferente... Até lá, tenham um bom fim-de-semana.

Fiquem bem.

2007-11-12

Lançamento "Para lá do que vejo"

Olá.

O meu livro de poesia “Para lá do que vejo” (Corpos Editora) vai estar na
sala multiusos da Casa da Cultura de Paredes, no dia 24 de Novembro às 21:30, à espera que o teu olhar repouse em algumas das letras e palavras que também fizeste nascer.
Mais do que o lançamento, será um momento para ter os meus amigos por perto
durante alguns minutos e, por isso, se puderes, terei muito gosto em ter-te lá.

Percorro,

em passo incerto,

as rimas que tombam

sobre este dia,

o momento em que desperto

e quase morro

tem um nome:

poesia.


Fica bem,

José Miguel Gomes



2007-11-04

Voz

Pinto o vazio
que enche as palavras
de vida
e ausência,
procuro
um enigma
que ouço sussurrar na noite,
enquanto insiro o mundo
nesta casca de noz
escrevo o silêncio
onde só tu,
amigo,
poderás dar a Voz.

2007-11-02

Apresentação "Para lá do que vejo"

Olá.

Posso já adiantar que o lançamento do livro "Para lá do que vejo" irá realizar-se na Casa da Cultura de Paredes, dia 24 de Novembro às 21:30.


Ainda não tenho o convite pronto, mas considera-te convidado(a).

2007-11-01

Ainda há pastores?

Pouso as nuvens nos socalcos libertos,
o vento frio
acompanha o voo de um sonho
do tamanho do mundo,
no teu punho aberto.

Os arados
e pastagens nuas
e cruas
que ninguém navega,
os fantasmas
habitantes dos lares que construíram,
tudo dorme
enquanto a vida espera por dias melhores,
ainda há pastores?

2007-10-31

Oração solitária

Pende-te um rosário invisível
das mãos
e a vida,
contas as contas gastas
enrolando-as
nos dedos cobertos de rugas
e calos,
de os teres sabes já de cor
anos e meses
e dores.

Fogem-te os movimentos
de doenças e maleitas
que não sabes
o nome,
de vago e vazio
teu estômago não sabe
o que é a fome,
trajas de preto no dia
porque a noite te levou a matiz
quanto teu Sol partiu
para longe,
em terra cujo nome não se diz.

Onde guardas a juventude?
Quantas desfolhadas e vindimas
e madrugadas de geada,
quantas?
O teu mundo repousa
nos dias que trazes nos olhos
que inundam
quando o bailado das searas
te faz viver os sonhos,
mas estes são um,
um só,
cravo não florido no jardim das tuas mãos agrestes.

Fechas os olhos,
uma mais
com a força da idade
para que cheguem ao céu,
as voltas do mundo que trazes no coração
são histórias vívidas
que nunca esmaecem,
são atilhos curtidos
que comandam e afagam
cada letra invisível
na minha mão.

2007-10-29

Hold me

Tombaste quando o vento amainou,
as vozes ameaçaram
em tom de medo
e segredo,
nos dias azuis
a ânsia de ser o espelho
de outras faces,
saberás tu que a ignorância que plantas
na sementeira da vaidade
tem gosto a vermelho
sangue
vivo?

Os corpos que empurras
contra o calor
da saudade
têm fome de amar,
exibem a desnuda pele
e saliências
que desconheces existirem,
o culto que regrides
em tardes sentadas são sonetos
e poemas
que não agradeces,
apenas te entregas ao devaneio
de sentir o amor
contra o teu seio.

Quando chega o Inverno

Quando chega o Inverno ou mesmo quando apenas se aproxima, quando o Sol começa o seu período de hibernação e as nuvens se tornam cinzentas, há algures um local perfeito, com uma casa de pedra e xisto, telhado de madeira, telhas que deixam fugir o fumo da lareira, divisões pequenas, mas acolhedoras, paredes mistas de branco, pedra e madeira clara e escura, cozinha de lavrador aquecida pelas brasas, amigos à mesa rindo e putos traquinas a jogarem jogos onde só eles conhecem as regras, pão sobre panos coloridos e canecas de café fumegante, um pátio em xisto e terra depois do alpendre com pilares em madeira e telhas à vista, uma cama de rede e um estendal, uma cadela a dormitar e um vento a levantar…
As luzes ao longe dão vida à aldeia, o terreno não tem redes ou muros, é meu e de todos, vai até onde a relva acaba e se erguem pinheiros e eucaliptos, de onde se tiram umas folhas para a água fervida e se inala, lenha seca recolhida e empilhada e teias de aranha, uns degraus aquecidos pelo tímido Sol onde irei sentar-me e a cadela, ao ver-me sentado, virá deitar-se a meu lado, um poço de água e alguns pássaros atarefados trinando ao desafio…
Sou capaz de sentir o cheiro, de ver todos os sentidos ansiando por se encontrarem…
Está tudo lá, falto apenas eu…

2007-10-28

Winter's at my door

Nevava,
fazia frio
como os olhares escuros
de corpos
sem gente lá dentro.

O primeiro abrigo ocupava um vazio
opaco
e bafiento,
as histórias colavam-se aos dedos
e rezavam baixinho
expiando os seus medos.

Não te alcançam
ou tocam,
o hiato entre olhares e mãos é longo,
chama-se dor
e tem nas sombras
e trevas
a sua cor.

A noite traz, sempre, algum amigo
nas gotas do orvalho,
aquelas que se confundem
com os teus olhos molhados
de solidão,
cansados de esperar
e correr
ao encontro de um sereno
turbilhão.

Seeds

Acordo nos murmúrios das noites,
dos que me oscilam
nos gritos que não solto.

A madrugada ainda não me fez
o tempo
que vou viver,
não nasceu ainda o não
que estende o braço
e alcança,
ao de leve,
a corda que me sustém
contra o abraço.

Quantos gelos
e rios
cabem nos sulcos de uma face?

Ergo estátuas a heróis
solitários,
como os barcos que ancoraram em mim,
nos lugares atados
possuídos e mal fadados,
carregando fardos alheios
e olhares
de poesias apagadas cheios.

Muda-me o sentido,
o rumo,
ou tudo que faça nascer os locais
que surgem
por entre acordes que não sei
dedilhar...

2007-10-24

Ver, crescer

Cresces
nos corredores da vida,
enquanto entras
e sais do teu mundo.
Sente a vida no vento
e a eternidade
num só segundo
para que saibas,
amigo,
onde as estrelas te levarem
eu estarei lá,
contigo.

Semear felicidade

Nas mãos de Primavera
onde plantas Saber
há, sempre,
um amanhã que sorri.
Encosta o ouvido a uma estrela
e descobre,
ri,
a tua felicidade não chove,
nasce perto,
dentro de ti.

Arados sem mãos

A estrada não tem fim,
começa-me nos olhos
fechados
e segue adiante,
entre saídas
de árvores cinzentas e doridas,
avante!,
que ainda não
se acabaram os sonhos!

A terra por arar pariu
um pastor,
dos montes queimados
só a esperança não partiu,
que se lhe agarrava à saia
a dor.

2007-10-09

Invisível visão

Estive lá,
mas não me encontrei,
vi os montes e as nuvens
e as nuvens nos montes gravadas,
tal como sonhei.

O brilho esquálido das estrelas
e a brandura física das caravelas,
as linhas pintadas com palavras
e cada uma com o ruído das estrelas
a dançar,
apenas para rimar.

Tenho folhas novas e vazias,
odores desconhecidos
e lençóis de águas frias,
nas mãos os sorrisos idos
e no sorriso
lápis partidos.

Escrevo agora, aqui,
desconexo
confuso,
tudo porque estive lá
e não… não me vi…

2007-09-27

Al Ua

É tão tarde, eu quero dormir, todas as partes do meu corpo querem dormir, mas eu tinha que vir aqui, tinha que vir dizer-te, antes de qualquer pessoa, antes que olhes e vejas a diferença.
Fui com os meus pais a casa. 
Espera. 
Enganei-me, tenho que dar um fio condutor a isto, não que seja primordial, mas para que fiques a saber tanto quanto eu e compreendas como tudo aconteceu. 
A Ana faz anos, aliás, fez, porque é já dia 27 de Setembro, tivemos, a exemplo do ano anterior, a família toda aqui e, na hora de ir embora, aproveitei e fui com os meus pais a casa deles. 
Encontrei, no sábado, umas pilhas para a minha lanterna e e fui munido para a luta com a noite, calções, t-shirt, chinelos de praia e lanterna, a minha companheira quase inseparável. 
Ia à frente, iluminando o caminho, mas nem era preciso, a minha amiga Lua estava no seu esplendor, desconfio que esteja apaixonada, tal é o brilho que ostenta. 
Deixei os meus pais em casa, fui ao computador que está lá para buscar uns ficheiros que precisava e antes de vir embora, fui dar-lhes um beijo de boa-noite à cama. É nestas alturas que parecem meus filhos.
Venho pelo caminho, iluminei apenas uma zona que tem algum mato, mas mesmo assim piquei-me.
Depois desliguei a lanterna, venho imbuído nos meus pensamentos, algo perdido em conjecturas, ideias e ideais, umas válidas e outras que são apenas lixo/ruído mental.
Parei para ver a Lua, fiquei com a sensação que me chamava, mas não, apenas respondeu ao meu apelo e, pela primeira vez, falou comigo. O que conversamos fica entre nós. Desculpa. Sabes que gosto muito de ti, sim, tu, que me lês agora como se estivesses por cima do meu ombro, mas o que a Lua me disse era apenas para mim, como será para ti quando ela te chamar.
As estrelas rodavam na noite, mas a Lua ficou parada, mesmo depois de conversar comigo. Quando eu estava prestes a vir embora, tentando habituar os olhos à escuridão depois de a olhar, ela disse-me: 
- Espera. 
Depois voltou-se para cima, como se falassem com ela, ficou contrafeita, mas decidida, resmungou entre dentes "eu sei, mas é só esta vez".
E, olhando agora para mim, convidou 
- Queres vir?
Fiquei sem compreender o que me dizia, queria ir onde?
- Lá, mais perto das estrelas” e sorriu…
Embora desconfiado, confiando apenas no sorriso dela, respondi:
- Sim, disse-lhe e ela baixou, desceu à Terra:
- Agarra-te bem, sobe por mim - e, pela primeira vez, fui literalmente à Lua, colocando primeiro o pé direito numa pequena cratera, dei um impulso com o pé esquerdo, erguendo-me, agarrei com a mão direita o rebordo de uma outra cratera e fiquei com a mão esquerda a baloiçar, segurando a lanterna.
A Lua começou a subir, primeiro lentamente, depois mais rápido, fazendo-me balançar um pouco o que me assustou, teria sido sensato aceitar subir? Estava tão alto, as luzes da vila, da cidade, do país eram pontos bem mais pequenos que a luz da minha lanterna na noite mal escurecida.
- Larga-os…
Mas que me dizia ela? Se me largar caía e nem lanterna me valia.
- Não, larga-os, esses medos, confia em mim, desfruta a viagem - e deu uma risada, como se eu fosse uma criança traquina e ela se risse das minhas brincadeiras e rebuliços.
Que faria eu sem os meus medos? Tanta companhia me fizeram. Mas obedeci. Também não iria desobedecer a quem me segurava a uns milhares de metros de altura, não é?
Fiquei a olhar apenas para a Lua, o insólito facto de voar com ela, de ir pendurado pelo espaço, percorrendo o Sistema Solar. 
Fiquei assombrado com a quantidade de planetas que ninguém conhece e que guardam mais vida do que mil vezes a vida da Terra! Mas sobre isto, fez-me ela prometer que aguardaria o tempo necessário antes de escrever, até perceber o que era aquilo, a vida noutros locais, noutras vidas. 
Disse-me que aquilo era apenas a nota introdutória ao livro da minha vida. 
Enfim, cá entre nós, a Lua tem com cada coisa que não é mesmo deste mundo, creio que agora percebo porque surge ela apenas à noite, de dia ninguém a levaria a sério.
E voltamos, foi descendo suavemente, até me deixar perto do local onde me tinha encontrado com ela e, nesse momento, eis que chego à parte que te queria contar, ao descer escorreguei e fiquei pendurado pela mão direita, mas o rebordo da cratera não aguentou, deve estar gasto, creio que ela leva muitas mais pessoas, e não aguentando partiu. 
Disse-me para não me preocupar, não era o primeiro a fazê-lo, mas quando ela subiu e retomou o curso natural da sua viagem na noite vi, lá, em determinado momento da sua rotação, falta-lhe um bocado, um bocado que não sendo enorme é visível a olho nu.
Não estranhes, não chames ninguém, sinto-me um pouco envergonhado por ser tão desastrado e ter arrancado um pouco de Lua, desculpa.

2007-09-20

Guarda-me o sonho

Entrego-me,
nos teus braços meu sonho
a quem um dia chamei filho.

Embala-o,
adormece-o ao som da magia
e das estrelas,
afaga-o com os restos do meu amor
pois a paisagem dos meus olhos
está agora vazia.

Dá-lhe o meu sorriso,
saiba ele que um dia alguém o amou,
com a força da vida
e a ternura
do crepitar das lareiras em noite de Inverno.

E quando ele crescer,
de criança a florir
a rugas de candura a viver,
diz que o amei
mais que um infinito
escondido
na algibeira de uma criança.

Nas sombras despontadas
da árvore dos medos,
entrega-lhe o meu nome
para que saiba, então,
não existe horizonte mais longínquo
que um sonho não vivido
na palma da tua mão...

2007-09-18

Cordas

Tenho as mãos frias,
vazias,
num sorriso que desponta na madrugada.

Percorro-te quando as tuas cordas ondulam,
onde o teu trinido
e dedilhar
me fazem chorar...

Entre estrelas

Escrevo
no verso do amor,
nos sulcos das tuas letras,
entre palavras
que me trouxeram
aqui,
ao vai-vem da vida.

2007-09-17

Dois palmos de terra

O vento,
uma margem de um livro,
um regaço de mãe saudade,
uma nuvem sorridente,
quanto mede a ilusão?

Sei-te colorida,
nas tardes de Outono
em que o feno cheira a amor
e as folhas caídas,
mortas,
fermentam nos olhos uma flor.

Há pessoas
sem haver
que vivem num eterno Inverno,
amordaçadas
pelo sussurro da futilidade,
que me chamam
bruxo
e sonhador,
que pensam o mundo
em dois palmos de terra
numa vazia herdade.

Sono,
é nome de entrada
e saída
da vida que adormece,
é visita
que mora atrás das nuvens,
é eterno vagabundo
numa estrela sem dono.

O vento,
um livro numa margem,
saudade de um regaço de mãe,
sorrir para uma nuvem
onde mora a paixão.

Cabe muito,
muito mais,
em cada suspiro
que canto na palma da minha mão.

2007-09-15

Noites claras

Era invisível
o fio
fino
da mão que me manietava,
galopava de estrela em estrela
e caderno em caderno,
para quem o oscilar
da saudade
fosse foice
que rasga a seara a despontar.

Enquanto te escrevem
e violentam
as faces que ofereceste,
sento-te no meu joelho
e conto-te
histórias
e dias
que vivi, mas não sei onde as guardo.

Sei-te em mim
e em ti as noites claras
que se penduram nos meus olhos.

Choro-te só, assim,
quando me beija o vento e tu páras,
para me semeares (passados) sonhos.

2007-09-10

Para lá do que vejo

"Para lá do que vejo" é o nome da minha primeira (e talvez única) aventura literária.

É um pequeno livro com alguns poemas, alguns dos quais estão neste blog (não inclui os mais recentes). Tem capa dura, o que lhe dá uma rigidez que nunca consegui imprimir nos meus poemas.

A data de lançamento está a ser cogitada, mas eu gostaria que fosse para amigos e pouco mais.

A
editora (a quem comprei os livros, claro) está já a aceitar encomendas no site, ainda antes do mesmo entrar em circuito comercial.
Se quiserem encomendar, podem fazê-lo no site da editora, basta acederem a www.corposeditora.com, pesquisar "José Miguel Gomes" e, lá, encomendarem os que quiserem.

Obrigado por terem comentado, apesar de gostar de escrever, os vossos comentários ajudaram a que decidisse passá-los para outro registo. E assim nasceu um sonho, pequeno ou grande é meu e, agora, quero compartilhá-lo convosco.

Fiquem bem.

2007-09-08

Obrigado

Sabes, escrevo, leio comentários e todos, mas mesmo todos, conseguem alegrar-me, mostram-me um pouco daquilo que eu desejo transmitir e que só sei se "chegou" com o vosso feedback.
Ao longo deste tempo nunca cheguei a dizer-te, ao ouvido, para que mais ninguém ouça e as palavras não percam a força e intensidade ao tocarem no vento, a palavra "Obrigado".
Obrigado pelos comentários e o carinho com que sinto cada letra. É bom. É muito bom.

2007-09-07

Disclaimer

Olá, tudo bem?

Ao longo destes anos que tenho escrito aqui, creio nunca ter criado um disclaimer, um elucidar sobre este blog, o que pretendo, a razão do nome e mesmo o porquê do que escrevo e o que tento transmitir.
Agora não posso, apenas porque as letras ficaram do lado de lá da janela, recusam-se entrar no escritório, creio preferirem ir à varanda e olhar as pessoas que passam, em busca de histórias que as acompanham e, assim, namorarem outras letras por momentos, mesmo que apenas as minhas palavras as vejam e nem mesmo eu as conheça. Começa por ser assim, as minhas palavras vêm histórias que não vejo e só depois de elas me descerem aos dedos, letra a letra, e escreverem num papel a sua história é que tenho contacto com o que elas viram.

Escrevo essencialmente deitado, sobre o meu lado esquerdo, com a almofada dobrada para ficar com a cabeça mais alta, mão esquerda a segurar o caderno e a mão direita vergada ao peso das palavras. Geralmente a Ana está a dormir e quando as palavras me cansam os sentidos, as mãos dela sentem-no e repousam sobre as minhas costas, ajudando ao longe as minhas mãos.
Os poemas saem em geral de um só trago, sem grandes exercícios estilísticos à posteriori. Curiosamente e como escrevo momentos antes de dormir, na maioria das vezes não recordo o que escrevi e no dia seguinte rio-me sozinho ao ler, por vezes no trânsito, outras vezes ao tomar o pequeno-almoço.
Dificilmente escrevo textos "corridos" (é só para não escrever prosa) manualmente, quando alguma história me surge nos/aos olhos, pego num caderninho e anoto algumas palavras que, mais tarde, permitirão descer ao arquivo que tenho no coração, seleccionar a história e escrevê-la no computador... Inevitavelmente, tenho muitas histórias arquivadas que nunca escrevi por várias razões, as que mais saltam à (minha) vista são a preguiça (este vírus estival) e o facto de algumas delas necessitarem de um tempo de maturação, do aconchego das batidas do coração e do calor da alma... Tenho histórias escritas cujos apontamentos datam de quando era criança e ia a pé para a escola, quando as árvores eram gigantes e estas histórias surgem sem eu fazer nada por isso, basta passar por uma árvore conhecida, conversar um pouco et voilá, renasce uma história.
Tenho noção da importância do que cada um faz e, por isso mesmo, tento em todas as minhas palavras transmitir algo que deixe mensagem, para mim essencialmente e também para os outros. Sinto que, por vezes, o que escrevo são migalhas no caminho, para não me perder e saber voltar atrás nos meus percursos.
Não tenho pejo em admitir tristeza, frustração, sempre referindo-me a mim mesmo, sem me esconder atrás de máscaras ou de pseudónimos, se eu não admitir em mim aquilo que sou e sinto, nunca serei eu mesmo e se eu não for eu, que será de mim?
Olho a vida muitas vezes como um conto de fadas, um mundo encantado cheio de princesas, castelos e dragões e essa, a Vida, é a maior história que jamais escreverei.
Creio que nunca avisei, neste blog, que a leitura do mesmo pode provocar fantasias e ocasionalmente um sorriso. 
Aliás, quero mesmo isso, um sorriso de quem lê.
Serenismo não é o que sou. 
Serenismo é um termo que gosto, foi proposto para exemplificar uma característica de alguém permanentemente sereno, ciente de tudo o que o rodeia e que perante toda a turbulência exterior consegue manter a calma, a compostura, a integridade consciente e responsável. Quando "digo" responsável é apenas para diferenciar das pessoas cuja calma é mantida porque fogem da turbulência.
Por isso, serenismo, é uma característica que me fascina e cujo exercício tento, ainda que ingloriamente porque, perdoem-me, sou humano e ainda me indigno, frustro, enervo-me, mas acima de tudo sorrio e acredito que o ser humano, eu e tu, pode chegar a ser mais Humano.

A leitura deste blog pode causar sérios distúrbios sociais. Ainda há quem olhe com desconfiança para quem sorri.

2007-09-06

Descansa

Encosta em mim o teu cansaço,
deixa que o cabelo caia
ao ritmo de uma lágrima.
Aguarda-te o sono no meu regaço
e três gramas de alegria,
vem,
vira a página à tristeza.

Lê-me nos olhos
as vidas que dançamos,
as nuvens que beijamos
nos sorrisos espartanos.

Leva-te pelo sonho
além,
adiante do que não será
nas asas
que te voam nas invisíveis cãs.

Esgrimo a sombra e vultos
com silêncios
ruidosos,
deito-te no leito
que nasce na palma da mão,
a minha,
antes de te afagar
tinha nome
solidão.

Banha-te a noite
e gotículas de luz
na face.
Nasce a vida trémula e luzidia
porque o Universo chorou,
ao saber que de teu olhar
um sorriso
fugia...

2007-09-04

Desfolhada de noites

Folheei-te tantas vezes que sou mais livro
nas tuas palavras.
Desfolho-te pleonasticamnte,
folha a folha,
e cubro-me com sonetos.
Tricoteio um Sol num céu azul
com os teus parágrafos,
pinto-lhes o vento frio
das manhãs de Inverno
que sopra ao virar da tua lombada.
Deixo que o sono venha
e me alcance,
sem eu reparar,
quando nas minhas mãos moram letras perdidas,
saltadas
das tuas folhas
que fazem minha redoma.

Nunca te pertenceram,
adormeceram
nos dedos
e acordaram
quando friccionadas em veneração
(quem és, espécie de ilusão?)
às palavras invisíveis,
que agregam e escondem os olhares
sem dono.

2007-09-03

Apenas porque...

Deixo que a tinta escorra
para a outra face
do papel.
Grafo as palavras
num sentido de catarse
de tela
no pincel.

Contra-mão
as palavras não proferidas
teimam em ferir,
morrem ainda
os sorrisos
por sorrir.
São-no
como o nada
de umas letras no espelho,
fúteis e banais
como um rubor
jamais vermelho.

Planaram solidamente
na agrura
do fingimento,
sorriram da noite escura
apenas porque,
apenas porque…
Porque almejam o vazio
pensando alcançar-te
firmamento…

Estatelam-se
nas minhas mãos
vidas que carreguei
em sonhos que pari,
varro os cacos da ilusão
que povoam o polvilhado
areal,
que faço meu chão.

Não nasceu ainda o dia
e já eu sou madrugada,
percorro a grafia
da outra face,
talvez errada,
talvez fria,
enquanto o respirar impele o peito ao céu
o retrato vive
por quem viveu.
Viro a página,
tenho letras marcadas
onde julguei existir um espaço em branco.
Subo os degraus,
tenho órbitas vazias
onde julguei encontrar um sorriso franco.

Apenas porque sonho…

2007-08-29

Uivos

Senti o afago lento,
demorado,
das letras sob mim.

Deitei-me num leito só meu,
onde repousam lágrimas
e sorrisos
que tenho para dar.

Que horas são?

O sonho veio leve,
tremeu um pouco
e gemeu
nos frios lençóis,
já as palavras dormiam
encostadas
ao cheiro morno de um papel
virgem,
que luzes soluçam
entre as árvores
que as cingem?

Devolve-me à noite,
aos passos no escuro,
ouve-me nos uivos do teu ser
para que saibas,
ou esqueças
que no fundo dos meus olhos
está vida,
a morrer...

2007-08-28

A sustentável leveza do não ser

Construo-te com tufos de vento,
a tua casa é o vazio
onde a vida é majestade,
teu trono
o infinito
que descansa no horizonte.

Estas palavras
cansadas
perderam a vontade.

Quanto pesam duas lágrimas?

2007-08-24

Perfume(i)

Abracei-te
quando o tempo parou para descansar,
os caminhos cruzavam-se
nos sorrisos,
os céus e as árvores dormiam
à sombra
de uma nuvem.

Que toque é esse?

Bailaram
as partículas do teu manto
quando acordaste,
braços acenavam
em despedida
antes de chegares a lado algum.

As contas do colar
pendiam oscilantes no vazio,
o cabelo afagava o vento
e na palma da mão
ficam as rugas
depois dos rios secarem.

Dá-me o ronronar dos teus portos de abrigo
e soltarei as velas da minha ilusão,
para que sintas o perfume das estrelas,
comigo...

Vi(m)ver

Há determinadas coisas em que acreditamos que são como histórias subliminares em livros desconhecidos. O livro existe, mas a história em que acreditamos está acima do livro.
Quando o mundo que vivo me sufoca e todos os caminhos parecem ser o início de uma íngreme montanha, eu paro, sento-me, pouso os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Fecho os olhos e vejo a vida como um longo caminho cujo fim parece estar sempre além da próxima curva. Nesse caminho sou uma nova pessoa a cada novo troço, olhando o chão com diferentes tipos de piso e com novas companhias a cada caminhada, mas sempre com as mesmas árvores, céu e nuvens.
Vou percorrendo o caminho, esquecendo quem fui no troço anterior, lembrando-me de mim e de outros apenas em sonhos e se, por acaso do caminho, encontro quem fui, então esse eu transforma-se em mim mesmo eu, bem, eu vou percorrendo o caminho, na esperança de ser árvore, céu e nuvem simultaneamente.
É tao bom viver vários troços ao longo do caminho e saber que também eu sou sombra de árvore para as nuvens que bailam no céu dos teus olhos.

Vivo-te e não sabia.

2007-08-23

Apelo

Enquanto a música embalava
umas mãos
vazias,
meus olhos não te viam,
sequer sentiam
o prateado socalco da vida.

Umas paredes sujas do respirar,
bafientas
e altas,
suportando os ponteiros de um relógio
hirto demais
cujas horas não respeitavam.

Há montes que nunca me escalaram,
pernoitaram num quente forno
humano,
sucumbindo então à incerteza
do caminho
e um fumegante café,
quase inodoro.

Entre vírgulas e fogos
existem nomes e abraços
que se chamam pelo beijar.

Sentes o apelo?

2007-08-22

Areal

A luz pousava-te nas mãos
ainda antes de seres dia,
enquanto eu era noite
os teus olhos eram como vida
que me sorria.

Tenho saudades de não ter,
o encanto desmistificado
da neblina
sob o teu ser.

2007-08-21

Papagaio de poemas

Saio fora do escritório, noto pela primeira vez que está um vento mais forte do que o usual.
Habituo-me às condições atmosféricas pouco usuais para a época, principalmente quando a temperatura é mais baixa que o normal (eu e o frio...).
Entro novamente no escritório, tinha-me esquecido do caderno onde escrevo alguns poemas. Ao ver-me entrar, o caderno entra em sobressalto, sabe que vou levá-lo comigo, agita-se tentando abrir-se sozinho. Pego nele e encosto-o a mim, acaricio-o, percorro os poucos metros até à porta e pouso-o na palma da minha mão. O vento abre-o e folheia-o, as folhas soltam-se do caderno e juntam-se no ar, formam um aglomerado de poemas, as rimas rimam-se e agarram-se às virgulas, os pontos-finais, em minoria face às reticências, unem-se e formam um desenho, um coração alado.
O vento pegou nele com carinho, ergueu-o e convidou-me a voar...
Segui pelo céu, a princípio com medo, os pés sentiram a liberdade das nuvens e eu nem me atrevi a abrir os olhos, porque é quando os sonhos nos fazem voar, que as mais belas imagens se gravam na palma das mãos.

2007-08-15

Ao sabor de mim

Caminho ao sabor do caminho,
o vento molda-me
as rugas
e as mãos,
sempre as mãos,
que se encolhem quando as tocam outras mãos
que não tacteiam.

O vento acalma-me o sorriso
e ondula nos sonhos
que trago
presos
por um trago de água sem sabor,
como uma frase sem fim
e frio sem frio,
nos calmos
serenos
braços do amor.

2007-08-10

Não vivas

Fecha-te aos olhos,
olha a ténue brisa
ondulante
que segue firme,
saboreia-te,
tacteia a vida em golfadas
de vidas,
serpenteia
em espiral
rumo ao que foste
quando não eras.

Beija
o inefável,
exulta a calma
e a placidez
da tormenta,
ruma à meta
inatingível
que acalenta.

Sorri,
transparece-te ao egocentrismo
centrado
em vão,
adormece-te
ao som do teu olhar
na estrada,
cala-te,
deixa anoitecer o silêncio,
solta as amaras que és,
firma-te
ao vazio dos onirismos
que conduzem as estrelas,
planta-te,
sê das orquídeas
as torgas mais belas.

Some-te em ti,
no espelho
nu,
pula
agora que é noite
e o Sol não sussurra,
simplifica os grãos de areia
do teu oásis deserto.

Para!
Que o lótus se abra
em ti
e a calmaria se abata,
pintaste quadros
oblíquos
que ninguém vê.

Não vivas,
sê…

2007-08-01

Rajadas de Inverno (Pastor)

Trago nas mãos
as mãos
e um cajado invisível,
roço as pernas nas searas
e as searas
no sonho.

O Sol guia-me os passos
e os passos
as sombras.

Um sorrisso pende
de outro sorriso
e chama a vida,
arde-me o odor da terra
numa chama
incolor
chamada vadia.

Corro sem andar,
percorro
os vales que nunca me viram
ou conheceram-me pelo nome,
sou apenas mais
um
Home'!

Fustiga o Inverno
em rajadas de solidão
e bafos nocturnos,
face rosada
despida
de mordaças,
ondulações
que moviam somente
a mente.

Sou-te aquilo que não vivi,
adormeci ao luar
da tristeza,
abri-te as mãos
e o mundo.

Sonho,
se o Outono vier

e nas tuas mãos
eu
morrer,

fecha-me a mão
no cajado
e deita-me sob um castanheiro estrelado,
que sorriam de minha vitória
do sonho
sobre a dor.

Escreve
na alma meu nome,
Pastor.

2007-07-31

Ser de quem?

Sentei-me no sofá, tal como ontem e escrevi algumas linhas. Queria aproveitar o facto de as ideias estarem a aflorar, mas constatei que faltava-me força, os dedos não premiam ritmadamente as teclas, pareciam até com menos vida e não conseguiam fazer florir as palavras.
Escrevia sobre um certo episódio, daqueles que via quando viajava de comboio, mas as personagens pareciam agarradas a outras histórias dentro de mim e mesmo eu, que as adoro reviver, estava com dificuldades em ver por entre o nevoeiro que se levantava,
Desliguei e fechei o portátil, pousei-o na secretária e vim para a cama.
Coloquei o caderno na mesa de cabeceira e li um pouco. Preparava-me para dormir quando o caderno me chamou. Abri-o e escrevi estas linhas, sem saber porquê.
Para tudo há um tempo e o tempo não existe,..
Creio que "têm" razão, somos dos sonhos e não eles de nós, apenas governamos os sorrisos e esses, bem, saber que os posso mandar sorrir em qualquer circunstância faz de mim um rapazinho muito feliz.

2007-07-30

É tarde

É tarde, os dias de calor colocam-me num estado de letargia. Confesso que não gosto de calor por várias razões, algumas prendem-se com a estupidez humana de, assim que chega um pouco de calor, os incêndios iniciarem em força.
Tinha, como sempre, várias coisas para escrever, vários estados de alma (gosto desta combinação de palavras, estado de alma) que capto ao longo desta minha passagem pela vida.
Desligo a luz da sala, local onde estou neste momento, a Ana dorme e ouço os acordes iniciais de Telegraph Road, versão original. A única luz que vejo é o brilho do monitor do portátil. As mãos fogem-me da posição correcta das teclas e demoro mais tempo que o usual para escrever palavras diferentes, mas com o mesmo sentimento.
Domingo. É um dia pouco usual para cerimónias fúnebres, no entanto, vicissitudes de ordem religiosa assim o obrigam. Está calor, os óculos escuros fazem mais sentido, o suor escorre-me pela cara e costas. Morreu o Sr. Faria. É “apenas” mais uma pessoa entre as várias que nascem e morrem no mundo. A vida é como um baloiço, que anda demasiado rápido, mal acabamos de nos sentar e dar balanço, já estamos no ar e a saltar para outros baloiços.
(Fenómeno usual nestas alturas de Verão, ouço ao longe o trepidar do fogo de artificio)
Habituei-me a crescer e a ver as mesmas faces, os mesmos sorrisos nas ruas desta minha aldeia. Cresço, a forma de olhar altera-se apenas porque cresço e é, assim, mais fácil olhar de frente, olhos nos olhos, para as pessoas. Habituei-me a percorrer vários caminhos e cumprimentar, ainda que timidamente, pessoas idosas e novas, em lides domésticas ou profissionais… Ao mesmo tempo que caminhava, o meu carácter, a minha forma de ser e estar foi moldando-se, adaptando-se às ruas e sombras das figueiras e castanheiros. Nestes momentos, em que morre alguém, não penso nas incongruências das vidas, na inconstância da nossa forma de estar cá. Penso, sim, que os nossos olhos ainda estão muito habituados a ver a noite, por isso mesmo não vemos o dia com outros olhos.
Emociono-me com a guarda de honra dos bombeiros, eu que sou um bombeiro que nunca o serei, com a presença de várias pessoas, com o depositar das bandeiras das associações sobre o caixão e o olhar cansado dos familiares.
A esta hora já o Sr. Faria me acena por detrás de uma nuvem. Traz os mesmos óculos, o mesmo chapéu (que levantava em cumprimento), a mesma barriga, braços e pernas, tudo é igual. Perguntei-lhe se tinha pena de ir já, apesar da idade, pois sempre pensei que mesmo não assustando, a morte levava o olhar perdido no capuz negro. Olhou em redor, sacudiu uma nuvem que passava para ver melhor e sorriu, piscou-me o olho e, soprando baixinho ao meu ouvido, disse-me “a vista daqui é mais bonita!”
Fiquei parado, enquanto entravam e saiam do cemitério, gostei das letras que estão no portão, são de 1906, quando Cête ainda se escrevia Cette. Invariavelmente, as pessoas visitam os seus familiares já falecidos, fazem do cemitério um ponto de encontro com a saudade…
É tarde, estou cansado, dói-me a cabeça e queria escrever tanto sobre isto… Vim para aqui com a ideia de deitar algumas histórias a dormir na cama dos meus sonhos, mas as palavras, como sempre, possuem vida própria e decidem como, quando e onde sair e eu, que rio sozinho para as nuvens e vejo amigos que nunca tive ou que já estão do lado de lá das estrelas, obedeço à vontade destes sorrisos que grafam pelas minhas mãos.

A Ana deu-me o DVD “Ainda há pastores?”. Vi apenas dois pequenos trechos e emocionei-me. Tenho que ganhar coragem para o ver, porque aquela vida, aquela sinceridade no olhar das gentes puras faz-me sentir seara, trigo e centeio. Aquelas serras são da minha alma um devaneio.

E, sem que o tempo mo dissesse, fiz já um ano de casado… Esta coisa a que chamam tempo, passa rápido demais, passa bem, mas rápido…
Agora que o sono chega, sonhos acordam… Não escrevo mais, nem tão pouco irei rever o que escrevi, gosto das palavras saídas tal como vieram ao mundo, simples, com ou sem qualidade, mas minhas.
Deixo alguns sonhos gravados na parede na sala, sei que os pinto com uma tinta que só eu possuo e só eu poderei ler. Talvez amanhã me sente e, fechando os olhos, leia aquilo que não escrevo agora.
Agora vou deitar-me, esperar uns momentos para que a sonolência me invada lentamente, suba pelos pés até todo eu ser dormência, até eu me ver no meu corpo de criança crescida e o sussurro da vida me dizer: “anda, acorda para o sonho” e, dando-me a mão, me levar para lá das estrelas, onde todos os meus amigos, que conheci e que ainda hei-de conhecer recebem quem salta dos baloiços.

Os sonhos não são nossos, flutuam e pousam apenas onde e quando querem e eu admiro-os por isso, apesar de querer deitá-los a dormir nos meus braços e levá-los pelo mundo, espalhando-os pelas vidas, como alguém que semeia…


2007-07-24

Quem vive?

As manhãs de Verão frescas parecem-me noites de Outono e isto faz-me feliz.
Sigo semi atento ao que me rodeia, as ultrapassagens, os gestos, as raivas e os sorrisos.
Sinto-me zonzo com o serpentear de vida não vivida à minha frente e fico sem saber: serei eu quem não vive?

2007-07-17

Numa outra altura talvez...

Os sonhos possuem tanto de concreto como as paredes dos castelos que construí em criança. Espreitam por cima das nuvens e acenam-nos, fazem com que acreditemos ser possível, vestimos o nosso melhor fato, ensaiamos o discurso e quando estamos prontos o sonho foge, para se esconder atrás de outra nuvem mais distante...
São várias as nuvens que vou deixando para trás, uma e outra a cada sorriso que passa, para imaginar que um dia, atrás de uma nuvem ainda maior, um sonho mais altivo se erga, talvez construído por todos os que me fugiram...
Amanhã vou novamente para fora, longe dos outros e um pouco de mim mesmo, sem tempo e vontade de abanar a árvore das palavras...

Agora, mais do que sonhar e sorrir para nuvens, apago o candeeiro, viro-me para o lado esquerdo, enterro a cabeça na almofada e fecho com força os meus olhos, à espera que o sono chegue rápido e eu não sinta a minha almofada húmida...
Talvez tente subir a outra nuvem.

2007-07-13

Olá

Olá...
Não pude escrever antes, por isso desculpa...
Uma questão de tempo e cansaço.
Andei sempre com o meu bloco, para anotar as fotografias que não tirei, porque não levei máquina fotográfica.
Hoje estou aqui, no Porto e tudo, mas tudo é diferente, as pessoas, o ar, a paisagem... Às vezes, em dias como este e porque não tenho vergonha de o dizer e ser como sou, sinto saudades, vontade de escrever tudo, sem parar, para pousar numa folha de papel tudo o que trago comigo.
Ainda não tenho tempo de escrever o que quero, aproveito a pausa de almoço e o intervalo antes de ir buscar um material, para vir aqui e pousar umas poucas linhas...
Vou andando... talvez logo ou depois volte aqui, com o caderno das fotografias escritas, para viver de novo o que me faz viver.
Até logo.

2007-07-07

Onde?

Onde poderei pousar o meu olhar,
agora que não vejo?
Vagueio sem viajar
nas sombras que a paisagem planta
à sombra,
nos retalhos verdes
de montes sem gente
com alma
de ser sem se saber
ser.

2007-07-01

have a nice journey home

Vou estar a semana fora, mas nem utilizo o pretexto de "vou ter tempo para escrever" porque sei que não o vou fazer... E também vi. hoje. que perdi todos os poemas (anteriores a este blog) que tinha escrito e guardado no computador... Boa semana.

2007-06-27

Uma noite de Primaveril Inverno

Pouso a caneta com carinho,
deslizo para baixo dos sonhos
e cubro-me com as folhas deste caderno,
encosto a cabeça a sorrisos que vi nascer
e, então, adormeço.

E noite calada murmura-me
mundo distantes
e abraços quentes,
sons abafados que gritam agrilhoados
ecoam em becos,
secos,
de gente e de vida.
A ilusão faz-me companhia,
caminha a meu lado,
dá-me a mão
e pede que sorria,
mas agora que, felizmente, a noite chega,
já os meus sorrisos partiram
presos a um qualquer colorido balão,
cheio com fantasia…

2007-06-01

Dia da Criança

É dia da Criança. 
Este deve ser o único que se pode escrever sempre com letra grande. As crianças não são como os homens, que momentaneamente merecem ter o nome escrito com letra maiúscula. As crianças, de tão pequenas serem, têm o nome sempre escrito em maiúsculas.

Continuo criança na verdadeira acepção da palavra. Sento-me apenas para ver as poças de água da chuva, pouso os cotovelos nos joelhos e apoio a cabeça nas palmas das mãos. Não preciso desfocar a visão para ver paisagens do lado de lá, que se alteram a cada novo pingo de água. Por vezes, salto para dentro da poça e caio num novo mundo e deixo-me andar por lá, falando com os seres que lá habitam.

Continuo criança, simples, que se ri dos nós das gravatas, mas que já não embrulha bens preciosos em folhas de eucalipto para os enterrar debaixo de árvores, como chicletes ou lanternas.

Nunca fui agressivo em relação a nada e continuo a não o ser. Sonho ser poeta e andar pelo mundo, conhecer pessoas de verdade e a verdade das pessoas, alimentar-me com o que encontrar e trocar sonhos por poemas ou comida por um abraço ou um braço forte de trabalho.

Continuo criança, com medo não do escuro, mas de quem se esconde no escuro, das faces fechadas e dos sorrisos de mármore plantados à beira-rio de ilusões.

Continuo criança, a tentar que a luz trémula de uma lanterna chegue aos confins do Cosmos.

Continuo criança, com saudades de querer ter sardas e de ver crescer entre as mãos guitarras imaginárias ou acelerar por pistas de Fórmula 1.


Continuo criança, onde adultos inventam síndromes com nomes de heróis de banda-desenhada.

Continuo criança, com vontade de dar a volta ao mundo na palma da minha mão, de partilhar, dar e receber vida, olhares, falar com quem não conheço, sem medo ou ilusões de ser mais do que sou e ser o que poderei não conhecer e ser.

Continuo criança, com saudades de crianças que tive a sorte de conhecer como professor, de olhares que me moldaram o viver, que mesmo longe me fazem ver e viver melhor.

Continuo criança no sonho de viver em paz com a guerra, de ver nascer das mãos sementes que lançam arco-íris e polvilham o céu com cores que só vejo do lado de lá das poças de água e onde dou apertos de mão firmes.

Continuo criança, sem medo de crescer.

Cobertor

A minha vida assemelha-se a um cobertor pequeno.
Se tapo a cabeça, destapo os pés e vice-versa.

2007-05-31

A roda

Acabei por iniciar (bela contradição) estas linhas ainda nuas de mim sem dar um título, como se desse à luz uma criança sem lhe saber a forma e o sexo.
Vou adiando o que escrevo, tenho as histórias gravadas a tinta no meu bloco e a fogo nos meus olhos.
Movo-me até aqui, a este editor, onde vou tacteando o teclado aleatoriamente, à espera que as histórias decidam qual será a primeira letra, como se percorresse um índice remissivo e encontrada a letra, toda a palavra emergisse. Mas não, hoje as mãos são minhas, tenho o poder de escolher o que escrever, de me deixar fluir ao som do cantar do cisne.

Por muito que tente. Por muito que saiba que mesmo tentando nunca o irei conseguir. Continuo a pensar que nem com a minha envergadura de braços de quase 2 metros serei capaz de abraçar o mundo e encostar a minha cara a um oceano e sorrir, como uma criança que abraça um presente numa manhã de Natal.

Ainda não dei título a “isto”… E talvez isso tenha influenciado o facto de não conseguir escrever o que queria. Ou talvez seja mesmo eu, que estou verde demais para colher umas palavras que não podem frutificar.

Vejo-te com os olhos cansados, raiados, húmidos e tristes. Já nem falas nos sonhos e isso vê-se, tem-los nos olhos partidos e vitrificados. Por muito que eu saiba que tudo passa, ver-te ser diluído por um mundo que não se importa com ninguém faz-me ter vontade de pilotar uma nuvem, trazer-te nela e levar-te comigo, para o local que não é e ao qual se chega seguindo por um caminho sem direcção ou sentido.

Caminho um pouco pela noite, repouso onde posso, olho as estrelas e o negro espaço entre elas e ofereço a quem queira os meus sonhos como troca para solidificarem os teus.
Deixo que uma ou outra lágrima caia. Chego a casa e fico a olhar-me ao espelho, vejo os teus sonhos nos meus olhos e embora quisesse, eles não saem de mim, liquidificam-se em lágrimas, mas ficam apenas a bailar no meu horizonte privado, não saltam, agarram-se o que podem aos meus olhos, dizendo que saltam apenas quando eu sorrir. Mas quando sorrio, uma porta grande abre-se bem cá dentro e os sonhos partidos caem por lá, para saltarem à boleia de um olhar desconhecido que precise de sonhar.

Não consigo deixar de pensar que a vida é uma grande roda que atropela toda e qualquer pessoa que não consiga ser igual ao seu padrão estereotipado. Mas também não deixo de pensar, que somos nós o bicho que alimenta a roda. Podemos não atropelar, mas não deixamos de dar aos pedais para movimentar a roda.

O título será a roda.

2007-05-21

De onde não estou

Por muito que tente, os meus olhos não são mais do que isto...


(fotos portal de trás-os-montes)

2007-05-06

2007-04-26

Blogger award

O repto foi-me lançado há alguns dias, mas por falta de tempo e pela dificuldade da tarefa, ainda não me tinha dedicado... Mas agora terá que ser... Assim, aqui ficam as minhas escolhas, que possuem vários critérios, mas mesmo assim injustos para os que não nomeei, pois todos os que estão ali, do lado direito do monitor, nos links, mereciam...

Blog do Capelli
Fragilidades
Isso agora
O Bloguinho da Kika
O meu umbigo

2007-04-22

Nas mãos

As noites de Primavera têm a vantagem de serem frescas e arrastarem estrelas cintilantes e uma lua que não sei se é quarto crescente ou minguante. 
Possuem também o condão de me plantarem palavras nas mãos e eu olho para elas, deixo cair os braços ao longo do corpo e compreendo, que apesar da minha altura, de uma envergadura de braços de quase 2 metros, ainda assim os meus braços são pequenos demais para abraçar o mundo.
Não sei se ria ou chore, com esta vontade de ir para algum lado sem sair do local, de escrever poemas em prosa, ou condensar prosa em poemas.

Travos amenos de uns latidos perdidos na noite,
um sorriso num murmúrio
e uma mão apoiada numa estrela.

Um cansaço que teima em cansar,
uns braços que teimam
em gotejar o suor de uns quantos sufrágios.

Estou em crer que o descrédito da canoa está na quantidade de paus que a compõem...

Disseminação

O meu coração começa a ser pequeno para armazenar tanta amizade. 
Como não considero esvaziá-lo de cada vez que conheço novas pessoas, novos amigos, vou recebendo deles a amizade e, ao mesmo tempo, transferindo para eles bocados de mim mesmo e de outros que tenho em mim.

2007-04-20

Have a nice weekend

Sozinho, num quarto duplo, depois de um dia de trabalho, cansado, após um banho e telefonema para a Ana, dá vontade de cantar "So far away" dos Dire Straits, embora o verso "Here I am again in this mean old town" não seja muito justo com Manteigas, cidade/vila bastante aprazível e que, a confiar no placar que vi à entrada, é o concelho com a melhor qualidade de vida do País (escrevo país com letra maiúscula ou minúscula?).

Vinha ontem, quarta-feira, na carrinha e a apreciar a paisagem, as aldeias, vilas e cidades quase sem pessoas, os montes íngremes, os restos de vegetação que resistiram aos incêndios, os carros velhos e os semáforos de controlo de velocidade que não funcionam. Eu, que adoro Trás-os-Montes, faz-me confusão estes montes tão íngremes e agrestes da Serra da Estrela.Chove lá fora, o rio murmura e mais nenhum som, em profundo contraste com outras localidades, mesmo Cête. Pelo ritmo pachorrento do dia e o silêncio da noite, começo a acreditar que aqui, de facto, a qualidade de vida deve ser boa. Nada de polícias ou ladrões, apenas uns cães vadios, um deles com uma saca plástica verde na boca, uns relâmpagos que caem nuns pinheiros e nuvens negras.

2007-04-17

Ocaso(s)

Trago no corpo roupa
cansada
de me usar,
vestida,
além nascida
dos olhos de quem,
quem?

Fecho os olhos,
mas foge-me o sono,
durmo,
mas foge-me o sonho.

Que ocaso
traz de novo o reflexo da vida?

2007-04-16