2008-04-12

How long

Não podia adiar por mais tempo. Chega a ser doloroso não escrever, falar e ouvir tudo o que se vê e vive.

Fez já uma semana desde que fui nuns três dias de puro relax, que cansaram o corpo, mas aliviaram a mente.

Não sei bem porque gosto da música (e em especial das letras) de Mark Knopfler, desde os tempos do "Brothers in arms" (ainda com Dire Straits) e até "Kill to get crimson", o último albúm. Fascinam-me as histórias por detrás de cada canção, cada verso e, por vezes, de cada palavra. E as letras acabam por se complementarem com os arranjos musicais, o que me causa uma certa inveja, pois apesar de ter um cavaquinho e uma viola, pouco (ou nada) sei tocar.
A semana do concerto foi vivida quase sem me aperceber, o trabalho acaba por aglutinar-me os pensamentos, que voam para longe do concerto e dos 3 dias de "férias". Mas chegou sexta-feira e, talvez pela primeira vez em quase 30 anos, os meus pais tiraram uns dias de férias, comigo, Ana e Anabela... Aproveitamos para ir a locais que eles queriam, mas que não iam há algum tempo. Passamos por Fátima (tenho tanto para escrever sobre este local/religião) e fomos para o Campo Pequeno... Bem, o trânsito de Lisboa não é o mesmo do Porto e talvez tivesse ajudado se eu levasse o GPS ou fizesse ideia onde era o Campo Pequeno com mais exactidão, mas lá acabamos por chegar ao hotel :)
O concerto foi divinal, o Campo Pequeno esgotado, 6000 pessoas de todas as idades aplaudiram o mago da guitarra e os seus comparsas. Antes de terminar em apoteose, ainda vi o meu pai assobiar e a dançar ao som da música, certamente uma imagem que jamais esquecerei. A cara de felicidade deles foi o tónico da noite que vou recordar sempre (eu, Ana e Anabela somos mais "rodados" nestas andanças). Ainda deambulei pelo recinto e fora dele, na expectativa de uma fotografia com o Mestre, mas já todos tinham saído. Restou-me ver o road-crew arrumar tudo para arrancarem para Granada, para outro concerto da Kill to get crimson tour e recolher ao hotel. Os dias seguintes foram passados em passeio, a visitar monumentos e locais emblemáticos, além de amigos de longe, que só tenho oportunidade de visitar quando vou para as bandas sulistas deste pequeno país.
Tinha mais para contar, mas, como sempre, as histórias estão dentro de mim e só daqui a uns tempos é que verão a luz do dia, eventualmente numa ou noutra linha de um poema.

Dou comigo a pensar na dor, na necessidade que tenho de escrever, em todas as coisas que se acumulam em mim que ainda não viram a cor da tinta, nem sentiram o áspero papel... Tenho vários poemas, projectos e sonhos, sempre em redor de mim, a saltar, como putos traquinas, a puxarem-me as calças e a camisola, "escreve-me! escreve-me!".
Reflicto no que já fiz pelos sonhos. Quase nada. Tudo tem surgido quase sem querer, o livro, as pessoas, as situações. Mas hoje não, hoje decidi que vou à carga, que os moinhos de vento não são tão grandes assim e que a brisa que me está no rosto pede-me montes, vales, rios e terra fértil.

Esta minha intenção parece ter acalmado as centenas de letras (sim, centenas) que pretendem sair para o papel. Está a chover, carreguei o portátil e vou até Mozinho (para quem conhece estas "bandas" sabe que fica em Penafiel. Para quem não conhece, acabou de saber), um sítio calmo, com vento, eucaliptos e os restos de uma civilização que ainda persiste, embora não os vejam.

De onde vêm estas minhas personagens? Estão lá, no local, ou serão fruto apenas da minha visão e da necessidade de encontrar histórias diferentes para locais normais? Não sei, mas agora que falei nelas, juntaram-se às letras e ao coro que fazem para que as escreva.

Tenho pelo menos três projectos ligados à escrita, dois em parceria com o Norberto e que creio verão a luz do dia com algum sucesso (assim tenha eu talento para acompanhar as fotografias do Norberto) e outro relacionado com um livro que quero escrever, num estilo algo diferente e que ainda não encontrei (isto foi só para aumentar o suspense/curiosidade)...

Creio já ter contado aqui, que encontrei vários cadernos com escritos antigos. A maioria da poesia, embora a respeite, pouco ou nada tem a ver com o que sou agora, por isso mesmo creio que nunca verão a luz do dia. As histórias, por outro lado, mostram um pequeno ensaio do que quero fazer agora, por isso, um dia, talvez as digitalize/digite e coloque aqui, no blog, um local que vou tendo prazer em actualizar e alimentar...

Venho já, ok?

2008-04-10

Cada lugar sem tempo

Faço do nada religião,
adormeço-a
ao lado de cada sonho
que repousa na minha mão.

O calor das portas
e das palavras
com nomes,
o bronze
e dourado
das mãos, sempre das mãos,
que teceram cada lugar sem tempo,
nas cascatas do pudor
e espartano rigor,
há almas minhas
que ainda não reconheci.

Cansei o olhar
e mesmo a noite respira ofegante,
ata-me o pulso o pulsar
que a vida ainda acomete
a quem de si mesmo é amante.

No dia que nunca acorda,
na noite, escrita, por luzes sombrias,
eu estou no ocaso
e tu, sonho,
estás nos dias...

2008-04-04

Bom fim-de-semana

Não estranhes se não responder a um comentário ou ainda se não escrever nada este fim-de-semana... Vou até Lisboa, ao Campo Pequeno, ao concerto do Mark Knopfler.

Quando vier retomo a escrita, "agora é que vai ser".

Bom fim-de-semana.

Fica bem,
Miguel

2008-03-30

A linha da minha vida

Os sulcos crus que me temperam a pele
e a alma,
o ruído de vida
e faces novas
a descoberto,
um silvo que me rasga o sorriso
em flocos de vapor
e neblina.

A cor das cores
maior que uma Primavera,
o prateado ondular de um rio
num passeio agreste
da vida por um fio.

Chegou e partiu
num local deserto e ermo,
que me mova o carril
e a travessa
que me acalma o sonho,
sem ter por onde partir
serei morto
e perfilhado dos montes e fragas,
sem a certeza da cadência
de um relógio a rugir,
morrerá em mim qualquer curva que há-de vir.

Serão de meus olhos a saída,
a face crua
e a alma nua,
porque a linha da minha vida
não é minha,
é Tua…

Paredes com alma

Planto o suor
e cravo a calejada alma
na terra,
na vida.

A companhia do vento
de um destino agreste,
o ciclo de um estio
que a enxada rasga,
ser o dia madrugador meu alento,
o som ondulante
dos velhos moinhos de vento
o único livro que leste.

O escuro ocaso de um destino,
ter mãos de ceifeira
e uma alma entregue a Deus,
um odor a terra,
feno e erva,
aquilo que outros chamam de merda.

Ser relógio de Sol
e nuvens atiçadas,
dar asas a sonhos
e chorar filhos idos
que são colheitas derramadas.

Tudo esquecer
quando a mão no ventre quente
esmaecer,
ser do chão
para voltar a semear nas nossas vidas
um Verão,
orgulhar um braço forte
com o verde que nos acalma,
ser pedra e erva
em Paredes
com Alma…

2008-03-28

Fortuna navegante

Estrada,
olhar,
um suspiro perdido
na face que te ocultar,
um sono eterno
que trazes contigo,
vacila no forte,
e na esteira do sorriso
entra-te o mar
e a sorte.

Levo riqueza comigo
e tinta,
que se estende na paleta
das mãos
e de um amigo,
em frases que calei entre vidas,
pendendo do sono
e a dormida,
pinto-te no firmamento
onde entras
com torpor,
a matiz que me respira sozinha
tem nome de sonho:
amor...

Falas onde outros não escutam,
oscilas anónima
nas ameias que te prescutam,
no cálido incolor entardecer
que baila no céu
da alma (da alma?),
apesar de perdido
por entre nuvens altas e dormentes,
rio-me do dia, da noite,
de mim, da morte
e é por teus olhos
que me entra o mar
e a sorte...

2008-03-18

Ido futuro

Ternura,
trajas vida no olhar
e nos passos
serenos
que é o teu respirar.

A mão
e o pousio,
o sorriso lateral
que faz o mundo inteiro
surgir,
vazio.

Saudade
e o Outono
que trago algures em mim,
frutos caídos
das noites ausentes
e as nuvens, cerradas,
que permeiam o vácuo
entre o não
e o sim.

Encontra-me,
nas cidades
que são as avenidas vazias,
entre cada pedra
e mão,
no ido futuro
ou agora,
no chão...

2008-03-13

A gente não lê

A quem vem aqui frequentemente peço desculpa pelas teias de aranha e pelo pó.
Este blog parece um candelabro antigo. As ideias são novas, os sonhos semelhantes aos de outras vidas. De igual, apenas eu. Não tenho escrito, trago na minha camisola dobrada, ao colo, uma quantidade imensa de histórias e poemas, prosas e rosas, mas não os/as consigo escrever, desculpa(-me).


Em breve, sim, em breve talvez consiga estar presente com P grande, agora é apenas hora de olhar para o relógio, pousar todas letras ao lado da minha almofada e adormecer, na esperança de todas elas, letras, esculpirem um sorriso permanente na face e contra-face das faces da vida.

...

Dia 20 estarei na FNAC do GaiaShopping, num evento promovido pela FNAC e pela Corpos Editora (que "editou" o meu livro), integrado nas comemorações (antecipadas) do "Dia Mundial da Poesia". Serão distribuídas 600 mini-books de livros de 46 autores (entre eles o meu) até final do dia 21. Apareçam e apoiem quem apoia a cultura.

...

Escrita por Carlos Tê (quem mais?) e tocada/cantada por Rui Veloso, a música "A gente não lê" parece feita exclusivamente para a voz de Isabel Silvestre. Resume muito daquilo que "sou".

2008-02-29

Quase lá

- Tens escrito no blog?
- Nops - respondo... Não sei bem porquê. Falta de tempo? Digamos que o tempo nunca falta quando sabemos que o temos. A verdade é que não sei bem porquê, é um torpor, um emudecimento vazio, como os dias de nevoeiro, em que mal vemos o chão que pisamos.
Passos os dias a escrever mentalmente, a passar por locais e situações e a deixar, no local, impregnado, alguns pensamentos que desejo recordar mais tarde. Ficam ali, a flutuar, algumas vezes perdidos entre pensamentos de outras pessoas, a murmurar entre eles "quando é que ele nos vem buscar?". E, mais tarde, passo lá e recolho-os, seja como pensamentos, seja como um sorriso de alguém que os apanhou antes de mim.

Gosto de ler os comentários, no blog ou pessoalmente, de pessoas que passam aqui, no blog e não deixo de pensar e de achar curioso as diferentes interpretações que cada um dá ao que escrevo, ao que lêem.
Não, não sou taciturno ou vejo apenas o lado mau (mas existe lado mau?) da realidade do quotidiano (existe outra realidade, a dos meus sonhos), simplesmente gosto de me questionar, numa perspectiva de igualmente ir conhecendo-me melhor, a cada passo, a cada nova realidade. E isso leva-me a pensar não apenas em mim (e no meu papel no meio da multidão), mas no nosso futuro enquanto humanidade, como grupo, como habitantes de um condomínio gigante chamado "Terra". Obviamente e seguindo frases (bem) feitas, tal como Ghandi ("Seja a mudança que quer ver no mundo"), tento melhorar um pouco, a cada dia, o que não significa que fique melhor ou pior humorado, apenas reflicto e vejo, sem medo, mas com receio, tudo o que sou, de bom e de mau, tentando melhorar, sem me esconder atrás de máscaras... Este é o meu movimento, cada qual tem o seu, não é melhor ou pior, é, como referi, o meu.
E tudo isto porquê? Porque acho que as pessoas estão cada vez mais a correrem atrás de nada (e será nada ter que pagar contas como educação, alimentação, habitação?), agressivas, austeras, consumistas e reféns de um sistema que lhes incute medo e insegurança, ao invés de tentar difundir uma imagem de confiança, de comunidade, de fraternidade... Nascemos diferentes, somos diferentes e morreremos diferentes, mas a nossa passagem cá, diferente para cada um de nós, pode ter um objectivo maior comum, dentro dos nossos objectivos pessoais diferentes, mas, como sempre, isto é apenas o meu ponto de vista... Sim, diferente :)

Ouvi há pouco, na rádio (creio que Antena 1) alguém dizer que a única energia renovável e inesgotável é... a alma humana. Vamos aproveitar este recurso? Sendo como somos e melhores do que julgamos ser?

O problema destas palavras, alma e outras derivadas, é o caminho que as pessoas seguem, a sua interpretação, o acordar neo-místico, o encontro com outras correntes e o seguimento incoerente de algo (o mesmo acontece na política) sem bom-senso e racionalidade (física e espiritual) e, depois, quando alguém atingiu uma posição de "destaque", raras são as que se mantêm firmes e serenas na sua convicção de nada saberem, pois a maioria tende, ainda, a colocar-se "acima de", em posição de guru...

No meio disto, fiquei sem saber onde queria chegar. Mais uma vez, fui escrevendo ao longo de duas horas, seja na pausa para café, no intervalo de ir ao WC ou simplesmente para respirar... Acho que tenho que tomar mais cafés, para poder escrever mais um pouco.

Sei que, por muito que as pessoas digam que isto está mau, creio que a quantidade de pessoas a pensar por elas próprias aumenta exponencialmente, o que indica, claramente, que estamos quase lá.

Bom fim-de-semana.

Fica aqui uma música que gosto muito, de Mark Knopfler, da banda sonora do filme Cal. Ah! E dia 4 de Abril lá estarei no Campo Pequeno.

2008-02-22

Cat e golias

Dou por mim a pensar (hoje concedo-me a este luxo) e a escrever um pouco aqui, no blog.
Não consigo deixar de tentar perceber porque razão (e para onde) estamos todos a correr... Não consigo, por muito que me esforce. Visto de fora, o panorama actual é engraçado, somos formiguinhas ordeiras, correndo sem saber para onde, basta uma começar a correr numa direcção e todas as outras seguem... Mas o que pretendemos atingir? Qual a finalidade?
Hoje de manhã passei por uns putos a caminho da escola... Fez-me recordar os meus tempos de garoto, onde havia tempo para achar engraçado uma nova espécie de aranha ou tentar perceber se o poço recém-descoberto era muito fundo.
Ainda consigo emocionar-me a ver um luar como o de ontem, tentar contar quantas vezes abana a Farrusca o rabo por minuto, ver as nuvens como hoje de manhã, numa tonalidade sem tom e imaginar-me saltar de uma em uma até chegar ao Sol...
Entrar no trânsito é uma aventura, a estrada transforma-se facilmente em local de agressivida, ostentação, prioridade, buzinões, palavrões e outros ões... É difícil, muito difícil, encontrar alguém a cantar no carro, a sorrir, sem estar a ranger os dentes, a esbracejar, a espumar...
Depois, bem, depois a imposição do stress negativo (porque existe o stress positivo), o cutucar o gado com o pau, mentir, olhar de soslaio para a etiqueta da camisa...
Quem, mas quem consegue ser quem é?

Olhem, bom fim-de-semana!

2008-02-15

Sulcos abandonados

São dos lírios o meu olhar,
o vaguear,
o sorrir ao vento
que uiva
nas encostas do meu alento.

Estão na passada primeira
que ergue
da terra, a poeira,
eis quem de mim me pede
a vida
no respirar,
deixo-te o claro cerrado da minha sede
adormecida
nos teus olhos, o luar.

Leva-me brisa
as sombras para o horizonte
e de lá me fite o destino,
não há um suspiro sobre a cinza
e água corrida sob a ponte,
que leve o pleno da saudade de um campo,
sozinho.

---
A falta de tempo para escrever um pouco mais (e melhor) deixa-me assim, como hei-de dizer, "desconsolado", mas como para tudo há um tempo, eu não sou excepção... Tu não sabes, mas quando vou a locais bonitos, com os quais me identifico, levo comigo muitos dos olhares que pousam aqui... Espero que gostes.

É quase fim-de-semana e, claro, eu desejo-te um cheio, daqueles em que acordamos cheios de sonhos e dizemos para nós próprios: "vou realizá-los... hoje!"

2008-02-13

Juventude intemporal

Fico feliz, muito feliz, por ter crescido a ver, ouvir, sonhar e poder correr entre árvores imaginando todas as aventuras que uma pequena caixa a preto e branco me trazia...
Consegues ver sem sorrir inocentemente e largar uma pequena lágrima de saudade e conforto por ter isto dentro do coração?
O maior segredo era (é) ser tão feliz, com tão pouco.

2008-02-12

Primaverno

É sintoma que os tempos mudam, estas noites de Invernos e manhãs de Primavera, fazem-nos pensar que não somos nós que estamos a mudar, a Natureza adapta-se aos nossos próprios ciclos... Creio mesmo que esta espécie de auto-destruição ambiental é sintoma da Natureza a adaptar-se à nossa auto-destruição enquanto espécie (não, não acordei de mal com o mundo).

Mas eu gosto deste tempo... O dia quente passa-me um pouco ao lado, porque passo os meus dias num escritório sem janela, saindo para serviços ocasionais na "rua" ou para almoçar, mas a manhã e a noite são perfeitas para mim.
A manhã acorda fria, aquecendo facilmente, eu percorro os quilómetros que me separam em direcção contrária ao Sol, o que faz que este reflicta nos espelhos e me aqueçam a cara. Devo ser a única pessoa que se ri disto, porque no trânsito não vejo mais ninguém a sorrir.
As crianças na paragem de autocarro espremem-se por uma nesga de Sol e riem-se... Um ou outro cão corre pela estrada atrás de um osso no caixote do lixo e uma mão trémula segura uma chávena de café com leite à janela. O dia parece espreguiçar-se, lentamente, saindo de uma cama confortável para uma manhã fria depois de uma noite com aqueles sonhos que nos fazem acordar a sorrir.
A noite cai com a placidez das noites de Inverno, fria, gélida, onde brinco com o bafejar... Está tanto frio que as próprias estrelas parecem mais próximas da terra, tremendo. E eu, com pouca roupa para o frio, rio-me ao dar por mim a tremer os dentes enquanto percorro algumas ruas da minha aldeia (recém-promovida a vila), com todo o tempo do mundo para colher alguns sonhos que pendem no vazio...

2008-02-07

Por instantes

Por instantes, vim aqui, no meio de uns bits, sinais eléctricos, cabos de programação e outra panóplia de utensílios que têm feito o meu quotidiano.

Recentes comentários feitos por antigos alunos no meu hi5 têm contribuído para eu reflectir sobre várias coisas, entre elas as palavras que vamos proferindo em determinado momento, quando somos nós mesmos, sem sabermos muito bem por quê, mas que saem cá de dentro.
Não tenho tempo para colocar aqui os comentários, fá-lo-ei depois, não por uma questão de ego, mas por perceber (agora sim) o impacto daquilo que podemos dizer e ser quando somos (passe a redundância) nós mesmos...
Nenhuma palavra, proferida com amor ou ódio, fica em vão e, de facto, tudo retorna a nós próprios, seja em forma de um olá terno e ameno no coração, seja um pontapé frio na boca...

E este post porquê? Bem, além das razões supracitadas, para reflectir e agradecer a quem tem passado aqui e me tem plantado sementes de tranquilidade no olhar. Os vossos comentários são muito, mas mesmo muito bons (a minha mana Anabela e a Ana já tinham utilizado isto no lançamento do livro, na apresentação surpresa que me fizeram) e mesmo quando não comentam, saber que passaram aqui, como que deixando pegadas de amizade virtual, faz-me sentir que vale a pena ser o que se é (afinal, só assim somos nós próprios, correcto?).

Logo voltarei aqui, agora há que continuar com o trabalho. Fiquem bem

2008-02-03

Um abraço

O tempo não é aquilo que pensamos, tão pouco o que já ouvi (o tempo somos nós que o fazemos). O tempo vai talhando, esculpindo, desbastando e desbravando aquilo que em nós existe e não conhecemos... E quando conhecemos, mas não queremos ver, trata de nos atirar à face as arestas dos nossos próprios ângulos... Por outro lado (agradavelmente) trata de nos ventar com carícia todas as folhas de Outono que perdemos e julgamos esquecer.

Tenho a meu lado um sonho, daqueles que viveram e continuam a viver ainda que para lá do que vejo. Fala-me de um sonho sem fronteiras, umas paredes erguidas a um céu baixo com nuvens húmidas de candura e estrelas que parecem pintadas nas pálpebras dos meus olhos fechados. Fala-me das paredes, das pinturas dos amigos, dos abraços dados e nunca perdidos, dos beijos que espelham um pouco do carinho das estrelas por nós.
Sussurra-me do bem-estar, do encontro com o esquecido, da lei de não ter leis, dos risos das crianças com cores de arco-íris, das passadas rápidas no cascalho que faz os caminhos espirais. Mostra-me a planta, o projecto, as árvores, os sorrisos que chegarão dos trilhos que me levam da palma da minha mão a cada um dos dedos... A lareira a crepitar um lume que arde por dentro, temas e invocações novas, competições sem concorrentes, apenas participantes, cabeças encostadas a ombros, suspiros e uma plenitude que alcança todo e qualquer lugar inexistente do Universo.

Beija-me, envia-me um abraço pelos olhares de outras pessoas e pousa a mão no meu ombro direito. No escritório vazio (ou num qualquer cubículo, que eu peço apenas conforto para a alma e para este corpo que me mantém dentro) ecoa o som de um sorriso, uma gargalhada rasgada que parece encher o peito de ar, o meu peito... O Sol brilha por momentos, embora seja noite, tu partes, para qualquer local que existe em todo o lado, mas onde as minhas mãos não chegam e fico aqui, a olhar, a ouvir música que nem sabia que tocava, escutando ainda o riso distante e tão dentro do meu peito... Dentro dos olhos trago a planta, ainda, o projecto, todos os traços e caras de quem comigo se cruza, os alicerces, as árvores de fruto e o fruto que outros chamam Amor, está tudo aqui e embora esteja completo sei que vou dormir e acordar com as mãos vazias...

Embora tenha outras, estas foram as letras que saíram, directamente de ti, para mim, porque tudo o que te dei, foi tudo aquilo que me deram um dia, umas folhas caídas, um sorriso e um sonho em forma de terra cultivada por mãos de gente. Espero que gostes.

2008-01-30

Locais não localizáveis

Há músicas que nos colocam no nosso local, no lugar que é nosso, como se a música nos levasse de olhos fechados e sentíssemos apenas a brisa fria do céu profundo que sopra nos corações simples, para ao abrir os olhos vermos e os nossos corpos dizerem: "estou em casa".

É tarde, não tenho tido tempo para escrever e isto dói-me. Parece bizarro não ter tempo necessário para escrever apenas umas letras, mas... Mas tem sido assim, dias que começam cedo e terminam quando já o Sol entrou ventre adentro da noite. Hoje não é excepção.

Estou cansado... Perco-me imensas vezes, com a facilidade com que adormeço os sentidos ao som de uma viola ou de um saxofone, na ilusão complexa da minha necessidade do simples.

Recordo o dia do lançamento do meu livro... Perdido no trânsito, nas faces medrosas da raiva e nos laivos de loucura de pessoas com medo de ver vida, trago para mim, de novo, o momento, o odor, o sabor dos abraços que vão até à alma. Vejo ainda, porque tenho gravados nas pálpebras os momentos, todas as palavras e a frase que sempre proferi (e sonhei desde criança): "Um momento para ter os meus amigos por perto". Vejo-vos a entrar no auditório, a olharem curiosos como se todos fossemos crianças, naquele instante eu seria a mais nova criança, o olhar cúmplice, o aceno sorridente e a minha vergonha como um puto que recebeu uma prenda maior que ele próprio. Vejo-vos ávidos de ver as cores do papagaio que lancei naquela noite ventosa. Ali, naqueles minutos, todos fomos um só, raízes de uma mesma árvore, sonhos de uma noite chamada Amizade. Naquele dia fui Eu. Podia não ser (e sei que não foi) nada de especial, mas estiveste lá (ou aqui, no meu peito) e agora sinto-te aqui.

Sinto tanta falta, tanta... Sinto tanta falta de abrir os braços, receber as caras esquecidas, tratar todos os ventos por Tu, apertar a mão como quem afaga a alma.

Escrevo e olho para o canto inferior direito do computador, são 0:34 e daqui a cerca de 5 horas tenho que acordar... Por favor, inspira fundo, não demorarei mais que umas horas até chegar aqui, vestir o meu casaco azul (o casaco da escrita) e deixar que todos estes meus amigos, que me rodeiam agora vestidos de sonhos e paisagens que esqueci de visitar, me pousem a mão no ombro direito e sussurrem um segredo, daqueles que não sei, porque são escritos para ti.

Paro de escrever, leio e releio, sei que entre frases tenho palavras escritas e escondidas, não sei como, nem porquê. Vejo histórias iniciadas, sem desenvolvimento ou conclusão e questiono-me porque as deixo assim, talvez seja Eu, talvez seja eu. Ficam ali, como que esquecidas, a germinarem em cada momento que penso nelas, até ao dia em que me chamam, estendem a mão frágil e afagam-me os 32 anos de vida, pedem vida e vida lhes dou, porque não sei ser diferente nem sonhar vidas que não são minhas ou correr por estradas cheias cujo fim é o vazio. Gosto de as ver, encostar-lhes letras pequenas e quentes e perguntar “estão bem?”. Ai como adoro quando me chamam, sorrindo, com a cara encostada a uma reticência e um sorriso do tamanho de um parágrafo chamado Felicidade…

Venho já.

2008-01-27

In the sky(line)

Tenho os olhos cheiiiinhos de coisas que sonho e que sinto necessidade de colocar aqui, mas que (eu sei porquê) não consigo escrever.

Vou parar com a poesia... Gosto muito de escrever, do exercício de fechar os olhos e afinizar com as várias mensagens que pairam ao meu redor. Adoro perceber o ambiente, mexer lentamente a mão e saborear as ondas harmoniosas e tépidas do próprio ar... Mas acaba por ser uma condensação de punhos fechados e histórias que dormitam num muro velho de granito com musgo...

Escrevo para perder tudo o que encontro
e as minhas mãos, como as que escrevo, pedem Sol e uma respiração pausada e breve, para além daquela linha onde estou, ainda antes de lá chegar.

2008-01-25

Mantra

Tenho na mão
a noite
em comum com um mantra,
ecoo em mim
quase sem me conhecer,
nos cantos da minha casa
doce
alma,
quem me habita?

Jugos
e burgos
que não pertencem à minha pele,
senão o poema que me impele
além de outra noite
e outra,
que pesos se agarram aos sonhos
pendurados nos meus olhos?

Escrevo-te breve,
como um espasmo voluntário
e um frio
que teima em não gelar,
como a brisa leve
e um sudário
deste porto
a naufragar...

2008-01-24

Dor(es)

O cinzento dos olhares
é o arco-íris esbatido
que alguma alma almeja
perder,
são as pancadas secas do vazio
e o frio,
perdido
e solto, das ameias sofríveis,
sofridas,
aos quais as estrelas chamam medo.

O cinzento dos olhares
é a dor
que me entra na alma
ainda antes de eu ser
dia...

Dói-me...

2008-01-23

Sorrisos angulares

O ocaso repetido da manhã,
o som
da Lua a nascer-me no peito,
a tez negra de um sorriso
ido,
trago nos olhos mais ingredientes
e sabores,
sussurro entre dentes
a canção das dores.


As sombras angulares
e a caneta
nua
no caderno,
quem me guia a escrita
crua?

Há uma dor,
um latejar ritmado no peito
que dorme, apenas,
quando sobre o resto do dia
(ido)
me deito...