2008-01-25

Mantra

Tenho na mão
a noite
em comum com um mantra,
ecoo em mim
quase sem me conhecer,
nos cantos da minha casa
doce
alma,
quem me habita?

Jugos
e burgos
que não pertencem à minha pele,
senão o poema que me impele
além de outra noite
e outra,
que pesos se agarram aos sonhos
pendurados nos meus olhos?

Escrevo-te breve,
como um espasmo voluntário
e um frio
que teima em não gelar,
como a brisa leve
e um sudário
deste porto
a naufragar...

2008-01-24

Dor(es)

O cinzento dos olhares
é o arco-íris esbatido
que alguma alma almeja
perder,
são as pancadas secas do vazio
e o frio,
perdido
e solto, das ameias sofríveis,
sofridas,
aos quais as estrelas chamam medo.

O cinzento dos olhares
é a dor
que me entra na alma
ainda antes de eu ser
dia...

Dói-me...

2008-01-23

Sorrisos angulares

O ocaso repetido da manhã,
o som
da Lua a nascer-me no peito,
a tez negra de um sorriso
ido,
trago nos olhos mais ingredientes
e sabores,
sussurro entre dentes
a canção das dores.


As sombras angulares
e a caneta
nua
no caderno,
quem me guia a escrita
crua?

Há uma dor,
um latejar ritmado no peito
que dorme, apenas,
quando sobre o resto do dia
(ido)
me deito...

2008-01-22

Poesias

Dizem-me que a poesia não é fácil e não deve ser... Falam-me nela como algo de outra dimensão, quase oculta, misto de ciência e religião... Não sei bem o que é, mas escorre-me dos dedos, entranha-se na alma, salta-me aos olhos de quem se cruza comigo na vida ou numa esquina qualquer...

O meu barco não é destas águas,
ancorou
onde outros navegam,
fundeia nos locais que soluçam,
tem ameias
e escotilhas onde nunca ninguém espreitou,
veleja-me nos ombros
e na brisa que nasce na face,
invisível,
invencível.

O meu barco não é destas águas
e eu,
eu não sou deste barco...

2008-01-21

Estradas, estradas...

As sombras possuem estradas,
o pânico ansioso
das faces comidas pelo tempo
e pelo fumo do cigarro,
tudo tem caminhos.

O sorriso...
O sorriso tímido
de quem de si se acha
e perde,
na vida
e num quarto desconhecido.

Quantas interrogações cabem numa única nuvem?

Os olhares comovem-me,
movem-me
em direcção a uma estrada
que traço, em cada ruga nova
nascida no meu espelho,
em corpo féretro de novo
habita a cara de um velho...

Tenho o Sol a despontar
nas árvores das vidas,
em folhas mortas
e vagos uivos de um só vento,
agora que a noite me cobre
e dá alento
à exaustão,
fecho os olhos e vejo,
tenho todas as estradas
na minha mão...

2008-01-17

Simples orvalho

Crónica na Bird Magazine.

A vida
que me pendia dos olhos
não era medo,
era orvalho.

A neblina dos cascos no dorso da minha mão
ecoa,
onde? não sei,
talvez no veludo do chão
que descobri ser cascalho.

A surpresa do engano
e a veracidade do erro,
as somas dos olhares
que me subtraem ao espartano,
nem o quadro que pintei na madrugada das tuas telas
esconde as vidas do teu baralho.

Tenho saudades do simples, de deixar escorrer os dias numa chávena matinal de café e encontrar todas as letras e forças numa "malga" de sopa... Os meus dias têm vários anos acoplados, os horizontes escasseiam quando a estrada é imutável porque os sonhos não as pintam.


Vou partir,
quando os teus olhos nascerem
e os meus esmaecerem
já terá o Sol
suspenso, na pauta de todas as rimas
e nos versos,
ancorado as letras que escondi
por trás da noite existente no hiato
entre duas palavras.

Dorme,
é apenas orvalho...

2008-01-08

Couraças

O meu rio tem choros
e maleitas de felicidade,
nos grãos que semeio
no estio da alma nocturna
existem planícies nunca colhidas
e abraços
que não sei dar.

Os que vociferam
quando a caravana passa
sobre os trilhos ausentes,
como as mentes,
escapam
à luz que me pende dos dedos.

As lágrimas
que deixei cair
no papel principal,
que é meu,
só meu,
pedem-me companhia,
como a couraça quente
desta minha mão,
triste,tão triste
e fria...

2008-01-07

Memórias

A memória tem sons,
mãos e luzes
e frios!

A soma das verdades
é apenas entre muitas
uma,
a mentira.

Os que do passado
saem
sã polidos e húmidos
pelas lágrimas moles
que correm nas pedras duras
do amanhã
que me nasce no dia de hoje.

A memória tem sons,
vozes e pétalas
e rios!

A memória tem... aquele
que já não sou
quando morro
no amanhã,
na frase que não irei escrever
nem mesmo quando a vida
aos meus olhos
não vier...

2007-12-26

Nunca estive

Batalho
e baralho
os sorrisos rasgados
que rasgam
os ramos que trago nas mãos.

Findo
o dia
finado à conta das contas
que não sei fazer
findar.

Suponho sílabas
sibilares
nas pautas deste caderno,
tenho-te em mim
e nos vestígios
de dia
que o ocaso trouxe
à noite,
a mim.

Estou cansado,
ausente
dos recônditos locais secretos
secretamente escondidos
do cansaço...

Tenho tanto frio.

Pedras Revoltas II

2007-12-23

"Let me be" musicado

Ontem foi dia de emoções. Daquelas fortes. Após um dia aniversário em que estive pouquíssimo tempo em casa, fui jantar a casa dos meus pais e a Ana e a minha irmã, como sempre, prepararam uma surpresa ao convidarem alguns dos meus amigos. Entre os amigos surgiu o Luís, que fez uma dupla surpresa. Primeiro, na sua infinita fé ofereceu-me uma viola (é a que podem ver no vídeo) e, depois, cantou o poema "Let me be", do livro "Para lá do que vejo". Foi bonito demais! Embora a capacidade da câmara que gravou não seja a melhor, sei que a continuar assim é de esperar um cd :) O pormenor final. Ele a limpar a "emoção" dos olhos. Uma prova da extrema sensibilidade de quem é um verdadeiro "artista". Obrigado Amigo!


2007-12-21

Lista de Livrarias

Antes de rumar em mais uma viagem de trabalho, fica aqui a lista de livrarias onde podem encontrar o livro "Para lá do que vejo".
  • Poetria (Baixa do Porto)
  • Lello (Clérigos - Porto)
  • Almedina (Arrábida Shopping - V. N. Gaia)
  • Leitura (Baixa do Porto)
  • Sá da Costa (Chiado - Lisboa)
  • Bertrand Stª Catarina (Porto)
  • Bertrand Parque Nascente (Rio Tinto)
  • Bertrand Maia shopping (Maia)
  • Centro Elisabete Teixeira (V. N. Gaia)
  • Livraria Culsete (Setúbal)
  • Livraria Garfos e Letras (Porto)
  • O Livreiro (Chaves)
  • Melo e Castro (Felgueiras)
  • Livraria Esperança (Funchal - Madeira)
Fiquem bem e até breve.

Tenho orgulho "nisto"

Jury Award – First Place
ARE THERE STILL ANY SHEPHERDS?
Dir. Jorge Pelicano, Portugal 2006



















A perfect blend of good cinema and quality research on a subject that generally finds place in academic study and international workshops. The stunning visuals, choice of the protagonist, catchy music, songs with profound lyrics and superbly imaginative editing complements the artful story-telling in the film. We get a profound understanding of the fatigue of those men who are used to the loneliness of the mountains. The filmmakers commitment to the subject and mastery over the cinematic tools have combined well to produce the film that touches the inner chord of the romantic, provides the proverbial food for thought for the intellectual and excellent message recall for others.

2007-12-17

Viagens

Quase perco as mãos para a noite.
O frio não serve de desculpa para não escrever.
Vejo agora que pouco observo. As viagens que fazia em textos eram tão ricas como efémeras, eram e são ainda os sonhos.
Ultimamente não sonho, observo, mas não vejo. Tenho saudades de mim mesmo, escrever tudo o que não sei redigir, sorrir com o olhar e fechar os olhos , dar dois beijos aos sonhos perdidos antes de ter frio e dizer-lhes baixinho: amo-vos.
Tenho a sensação que o barco que estava ancorado no meu coração, onde estavam fundeados os sonhos e seus frutos, vai deslizando pela água para mar alto, onde não sei nadar ou sorrir.

As...

As tua mãos,
as mesmas que embalam o meu sonho,
pousam nos meus ombros
caídos.

As mãos mirradas
e a letra pequena,
saída agora do ventre materno
que é o medo
de ter coragem.

As palavras
plantadas
na terra fértil do pensamento,
os sussurros
que dão voz ao inaudito
em poemas
improváveis.

As futilidades,
as guerras esgrimidas em batalhas não lutadas
no luto
do teu dia.

As noites,
as noites de rumores,
as noites de suores,
as noites que sorvo,
os amores...

As sombras escondidas
que me doem.

As estrelas fugazes
que me constroem...

2007-12-13

De onde sou




















Eu sou daqui... 
Ainda que lá não esteja, 
mesmo quando não 
vou 
lá 
encontro-me por lá.

2007-12-08

Dentro de mim

Dentro de mim habita nevoeiro,
denso e delgado
como uma garra eremita,
que prende na timidez da noite
a leve fuligem
de um braseiro.

Dentro de mim estou, eu,
escondido
num cortinado incolor
com paletas de sons,
numa pauta
de notas coloridas
que iludem a dor
e me silenciam as mãos.

Dentro de mim sorrio,
nadam os soturnos
e os vagos,
os fúteis
e os tragos,
num invólucro sem som,
com sombras
que beijam o papel que me cobre,
nos dias em que
dentro de mim choro.

2007-12-06

Não há duas sem três

O tempo sabe a Natal, mas o quotidiano não tem sabor, é igual a todos os outros dias, um a seguir ao outro, sem nenhum existir, exceptuando o momento actual.

Escrevo num intervalo para beberricar um pouco de chã (tenho que diminuir ao café), tenho a chávena da thermos à minha frente e o calor que emana dá-me sono (isto e o facto de estar a dormir pouco). Não tenho qualquer motivo aparente para escrever, tirando o facto de ainda não ter saído do escritório, nem para sentir se a maresia chega aqui ou se de facto o quotidiano sabe a Natal.

Não, tudo igual... E eu ali atrás de uma nuvem a olhar para mim mesmo.

3º Feedback - Pedras revoltas (musicado)

Aos poucos vou conseguindo colocar aqui os momentos do lançamento do livro.
Acabei de receber um vídeo feito por um telemóvel (obrigado Cláudio). A qualidade não é a melhor, mas quis colocar aqui de qualquer forma, para que possam ver e ouvir o magnífico trabalho do Luís.
Convidei-o uma semana antes do lançamento, no dia seguinte já ele tinha escolhido o poema, a forma como o cantar e a melodia. Passados dois dias já eu ouvia a música... E diz ele que não é músico :)
Em breve coloco mais filmagens de outros momentos e desta música também.