2007-07-30

É tarde

É tarde, os dias de calor colocam-me num estado de letargia. Confesso que não gosto de calor por várias razões, algumas prendem-se com a estupidez humana de, assim que chega um pouco de calor, os incêndios iniciarem em força.
Tinha, como sempre, várias coisas para escrever, vários estados de alma (gosto desta combinação de palavras, estado de alma) que capto ao longo desta minha passagem pela vida.
Desligo a luz da sala, local onde estou neste momento, a Ana dorme e ouço os acordes iniciais de Telegraph Road, versão original. A única luz que vejo é o brilho do monitor do portátil. As mãos fogem-me da posição correcta das teclas e demoro mais tempo que o usual para escrever palavras diferentes, mas com o mesmo sentimento.
Domingo. É um dia pouco usual para cerimónias fúnebres, no entanto, vicissitudes de ordem religiosa assim o obrigam. Está calor, os óculos escuros fazem mais sentido, o suor escorre-me pela cara e costas. Morreu o Sr. Faria. É “apenas” mais uma pessoa entre as várias que nascem e morrem no mundo. A vida é como um baloiço, que anda demasiado rápido, mal acabamos de nos sentar e dar balanço, já estamos no ar e a saltar para outros baloiços.
(Fenómeno usual nestas alturas de Verão, ouço ao longe o trepidar do fogo de artificio)
Habituei-me a crescer e a ver as mesmas faces, os mesmos sorrisos nas ruas desta minha aldeia. Cresço, a forma de olhar altera-se apenas porque cresço e é, assim, mais fácil olhar de frente, olhos nos olhos, para as pessoas. Habituei-me a percorrer vários caminhos e cumprimentar, ainda que timidamente, pessoas idosas e novas, em lides domésticas ou profissionais… Ao mesmo tempo que caminhava, o meu carácter, a minha forma de ser e estar foi moldando-se, adaptando-se às ruas e sombras das figueiras e castanheiros. Nestes momentos, em que morre alguém, não penso nas incongruências das vidas, na inconstância da nossa forma de estar cá. Penso, sim, que os nossos olhos ainda estão muito habituados a ver a noite, por isso mesmo não vemos o dia com outros olhos.
Emociono-me com a guarda de honra dos bombeiros, eu que sou um bombeiro que nunca o serei, com a presença de várias pessoas, com o depositar das bandeiras das associações sobre o caixão e o olhar cansado dos familiares.
A esta hora já o Sr. Faria me acena por detrás de uma nuvem. Traz os mesmos óculos, o mesmo chapéu (que levantava em cumprimento), a mesma barriga, braços e pernas, tudo é igual. Perguntei-lhe se tinha pena de ir já, apesar da idade, pois sempre pensei que mesmo não assustando, a morte levava o olhar perdido no capuz negro. Olhou em redor, sacudiu uma nuvem que passava para ver melhor e sorriu, piscou-me o olho e, soprando baixinho ao meu ouvido, disse-me “a vista daqui é mais bonita!”
Fiquei parado, enquanto entravam e saiam do cemitério, gostei das letras que estão no portão, são de 1906, quando Cête ainda se escrevia Cette. Invariavelmente, as pessoas visitam os seus familiares já falecidos, fazem do cemitério um ponto de encontro com a saudade…
É tarde, estou cansado, dói-me a cabeça e queria escrever tanto sobre isto… Vim para aqui com a ideia de deitar algumas histórias a dormir na cama dos meus sonhos, mas as palavras, como sempre, possuem vida própria e decidem como, quando e onde sair e eu, que rio sozinho para as nuvens e vejo amigos que nunca tive ou que já estão do lado de lá das estrelas, obedeço à vontade destes sorrisos que grafam pelas minhas mãos.

A Ana deu-me o DVD “Ainda há pastores?”. Vi apenas dois pequenos trechos e emocionei-me. Tenho que ganhar coragem para o ver, porque aquela vida, aquela sinceridade no olhar das gentes puras faz-me sentir seara, trigo e centeio. Aquelas serras são da minha alma um devaneio.

E, sem que o tempo mo dissesse, fiz já um ano de casado… Esta coisa a que chamam tempo, passa rápido demais, passa bem, mas rápido…
Agora que o sono chega, sonhos acordam… Não escrevo mais, nem tão pouco irei rever o que escrevi, gosto das palavras saídas tal como vieram ao mundo, simples, com ou sem qualidade, mas minhas.
Deixo alguns sonhos gravados na parede na sala, sei que os pinto com uma tinta que só eu possuo e só eu poderei ler. Talvez amanhã me sente e, fechando os olhos, leia aquilo que não escrevo agora.
Agora vou deitar-me, esperar uns momentos para que a sonolência me invada lentamente, suba pelos pés até todo eu ser dormência, até eu me ver no meu corpo de criança crescida e o sussurro da vida me dizer: “anda, acorda para o sonho” e, dando-me a mão, me levar para lá das estrelas, onde todos os meus amigos, que conheci e que ainda hei-de conhecer recebem quem salta dos baloiços.

Os sonhos não são nossos, flutuam e pousam apenas onde e quando querem e eu admiro-os por isso, apesar de querer deitá-los a dormir nos meus braços e levá-los pelo mundo, espalhando-os pelas vidas, como alguém que semeia…


2007-07-24

Quem vive?

As manhãs de Verão frescas parecem-me noites de Outono e isto faz-me feliz.
Sigo semi atento ao que me rodeia, as ultrapassagens, os gestos, as raivas e os sorrisos.
Sinto-me zonzo com o serpentear de vida não vivida à minha frente e fico sem saber: serei eu quem não vive?

2007-07-17

Numa outra altura talvez...

Os sonhos possuem tanto de concreto como as paredes dos castelos que construí em criança. Espreitam por cima das nuvens e acenam-nos, fazem com que acreditemos ser possível, vestimos o nosso melhor fato, ensaiamos o discurso e quando estamos prontos o sonho foge, para se esconder atrás de outra nuvem mais distante...
São várias as nuvens que vou deixando para trás, uma e outra a cada sorriso que passa, para imaginar que um dia, atrás de uma nuvem ainda maior, um sonho mais altivo se erga, talvez construído por todos os que me fugiram...
Amanhã vou novamente para fora, longe dos outros e um pouco de mim mesmo, sem tempo e vontade de abanar a árvore das palavras...

Agora, mais do que sonhar e sorrir para nuvens, apago o candeeiro, viro-me para o lado esquerdo, enterro a cabeça na almofada e fecho com força os meus olhos, à espera que o sono chegue rápido e eu não sinta a minha almofada húmida...
Talvez tente subir a outra nuvem.

2007-07-13

Olá

Olá...
Não pude escrever antes, por isso desculpa...
Uma questão de tempo e cansaço.
Andei sempre com o meu bloco, para anotar as fotografias que não tirei, porque não levei máquina fotográfica.
Hoje estou aqui, no Porto e tudo, mas tudo é diferente, as pessoas, o ar, a paisagem... Às vezes, em dias como este e porque não tenho vergonha de o dizer e ser como sou, sinto saudades, vontade de escrever tudo, sem parar, para pousar numa folha de papel tudo o que trago comigo.
Ainda não tenho tempo de escrever o que quero, aproveito a pausa de almoço e o intervalo antes de ir buscar um material, para vir aqui e pousar umas poucas linhas...
Vou andando... talvez logo ou depois volte aqui, com o caderno das fotografias escritas, para viver de novo o que me faz viver.
Até logo.

2007-07-07

Onde?

Onde poderei pousar o meu olhar,
agora que não vejo?
Vagueio sem viajar
nas sombras que a paisagem planta
à sombra,
nos retalhos verdes
de montes sem gente
com alma
de ser sem se saber
ser.

2007-07-01

have a nice journey home

Vou estar a semana fora, mas nem utilizo o pretexto de "vou ter tempo para escrever" porque sei que não o vou fazer... E também vi. hoje. que perdi todos os poemas (anteriores a este blog) que tinha escrito e guardado no computador... Boa semana.

2007-06-27

Uma noite de Primaveril Inverno

Pouso a caneta com carinho,
deslizo para baixo dos sonhos
e cubro-me com as folhas deste caderno,
encosto a cabeça a sorrisos que vi nascer
e, então, adormeço.

E noite calada murmura-me
mundo distantes
e abraços quentes,
sons abafados que gritam agrilhoados
ecoam em becos,
secos,
de gente e de vida.
A ilusão faz-me companhia,
caminha a meu lado,
dá-me a mão
e pede que sorria,
mas agora que, felizmente, a noite chega,
já os meus sorrisos partiram
presos a um qualquer colorido balão,
cheio com fantasia…

2007-06-01

Dia da Criança

É dia da Criança. 
Este deve ser o único que se pode escrever sempre com letra grande. As crianças não são como os homens, que momentaneamente merecem ter o nome escrito com letra maiúscula. As crianças, de tão pequenas serem, têm o nome sempre escrito em maiúsculas.

Continuo criança na verdadeira acepção da palavra. Sento-me apenas para ver as poças de água da chuva, pouso os cotovelos nos joelhos e apoio a cabeça nas palmas das mãos. Não preciso desfocar a visão para ver paisagens do lado de lá, que se alteram a cada novo pingo de água. Por vezes, salto para dentro da poça e caio num novo mundo e deixo-me andar por lá, falando com os seres que lá habitam.

Continuo criança, simples, que se ri dos nós das gravatas, mas que já não embrulha bens preciosos em folhas de eucalipto para os enterrar debaixo de árvores, como chicletes ou lanternas.

Nunca fui agressivo em relação a nada e continuo a não o ser. Sonho ser poeta e andar pelo mundo, conhecer pessoas de verdade e a verdade das pessoas, alimentar-me com o que encontrar e trocar sonhos por poemas ou comida por um abraço ou um braço forte de trabalho.

Continuo criança, com medo não do escuro, mas de quem se esconde no escuro, das faces fechadas e dos sorrisos de mármore plantados à beira-rio de ilusões.

Continuo criança, a tentar que a luz trémula de uma lanterna chegue aos confins do Cosmos.

Continuo criança, com saudades de querer ter sardas e de ver crescer entre as mãos guitarras imaginárias ou acelerar por pistas de Fórmula 1.


Continuo criança, onde adultos inventam síndromes com nomes de heróis de banda-desenhada.

Continuo criança, com vontade de dar a volta ao mundo na palma da minha mão, de partilhar, dar e receber vida, olhares, falar com quem não conheço, sem medo ou ilusões de ser mais do que sou e ser o que poderei não conhecer e ser.

Continuo criança, com saudades de crianças que tive a sorte de conhecer como professor, de olhares que me moldaram o viver, que mesmo longe me fazem ver e viver melhor.

Continuo criança no sonho de viver em paz com a guerra, de ver nascer das mãos sementes que lançam arco-íris e polvilham o céu com cores que só vejo do lado de lá das poças de água e onde dou apertos de mão firmes.

Continuo criança, sem medo de crescer.

Cobertor

A minha vida assemelha-se a um cobertor pequeno.
Se tapo a cabeça, destapo os pés e vice-versa.

2007-05-31

A roda

Acabei por iniciar (bela contradição) estas linhas ainda nuas de mim sem dar um título, como se desse à luz uma criança sem lhe saber a forma e o sexo.
Vou adiando o que escrevo, tenho as histórias gravadas a tinta no meu bloco e a fogo nos meus olhos.
Movo-me até aqui, a este editor, onde vou tacteando o teclado aleatoriamente, à espera que as histórias decidam qual será a primeira letra, como se percorresse um índice remissivo e encontrada a letra, toda a palavra emergisse. Mas não, hoje as mãos são minhas, tenho o poder de escolher o que escrever, de me deixar fluir ao som do cantar do cisne.

Por muito que tente. Por muito que saiba que mesmo tentando nunca o irei conseguir. Continuo a pensar que nem com a minha envergadura de braços de quase 2 metros serei capaz de abraçar o mundo e encostar a minha cara a um oceano e sorrir, como uma criança que abraça um presente numa manhã de Natal.

Ainda não dei título a “isto”… E talvez isso tenha influenciado o facto de não conseguir escrever o que queria. Ou talvez seja mesmo eu, que estou verde demais para colher umas palavras que não podem frutificar.

Vejo-te com os olhos cansados, raiados, húmidos e tristes. Já nem falas nos sonhos e isso vê-se, tem-los nos olhos partidos e vitrificados. Por muito que eu saiba que tudo passa, ver-te ser diluído por um mundo que não se importa com ninguém faz-me ter vontade de pilotar uma nuvem, trazer-te nela e levar-te comigo, para o local que não é e ao qual se chega seguindo por um caminho sem direcção ou sentido.

Caminho um pouco pela noite, repouso onde posso, olho as estrelas e o negro espaço entre elas e ofereço a quem queira os meus sonhos como troca para solidificarem os teus.
Deixo que uma ou outra lágrima caia. Chego a casa e fico a olhar-me ao espelho, vejo os teus sonhos nos meus olhos e embora quisesse, eles não saem de mim, liquidificam-se em lágrimas, mas ficam apenas a bailar no meu horizonte privado, não saltam, agarram-se o que podem aos meus olhos, dizendo que saltam apenas quando eu sorrir. Mas quando sorrio, uma porta grande abre-se bem cá dentro e os sonhos partidos caem por lá, para saltarem à boleia de um olhar desconhecido que precise de sonhar.

Não consigo deixar de pensar que a vida é uma grande roda que atropela toda e qualquer pessoa que não consiga ser igual ao seu padrão estereotipado. Mas também não deixo de pensar, que somos nós o bicho que alimenta a roda. Podemos não atropelar, mas não deixamos de dar aos pedais para movimentar a roda.

O título será a roda.

2007-05-21

De onde não estou

Por muito que tente, os meus olhos não são mais do que isto...


(fotos portal de trás-os-montes)

2007-05-06

2007-04-26

Blogger award

O repto foi-me lançado há alguns dias, mas por falta de tempo e pela dificuldade da tarefa, ainda não me tinha dedicado... Mas agora terá que ser... Assim, aqui ficam as minhas escolhas, que possuem vários critérios, mas mesmo assim injustos para os que não nomeei, pois todos os que estão ali, do lado direito do monitor, nos links, mereciam...

Blog do Capelli
Fragilidades
Isso agora
O Bloguinho da Kika
O meu umbigo

2007-04-22

Nas mãos

As noites de Primavera têm a vantagem de serem frescas e arrastarem estrelas cintilantes e uma lua que não sei se é quarto crescente ou minguante. 
Possuem também o condão de me plantarem palavras nas mãos e eu olho para elas, deixo cair os braços ao longo do corpo e compreendo, que apesar da minha altura, de uma envergadura de braços de quase 2 metros, ainda assim os meus braços são pequenos demais para abraçar o mundo.
Não sei se ria ou chore, com esta vontade de ir para algum lado sem sair do local, de escrever poemas em prosa, ou condensar prosa em poemas.

Travos amenos de uns latidos perdidos na noite,
um sorriso num murmúrio
e uma mão apoiada numa estrela.

Um cansaço que teima em cansar,
uns braços que teimam
em gotejar o suor de uns quantos sufrágios.

Estou em crer que o descrédito da canoa está na quantidade de paus que a compõem...

Disseminação

O meu coração começa a ser pequeno para armazenar tanta amizade. 
Como não considero esvaziá-lo de cada vez que conheço novas pessoas, novos amigos, vou recebendo deles a amizade e, ao mesmo tempo, transferindo para eles bocados de mim mesmo e de outros que tenho em mim.

2007-04-20

Have a nice weekend

Sozinho, num quarto duplo, depois de um dia de trabalho, cansado, após um banho e telefonema para a Ana, dá vontade de cantar "So far away" dos Dire Straits, embora o verso "Here I am again in this mean old town" não seja muito justo com Manteigas, cidade/vila bastante aprazível e que, a confiar no placar que vi à entrada, é o concelho com a melhor qualidade de vida do País (escrevo país com letra maiúscula ou minúscula?).

Vinha ontem, quarta-feira, na carrinha e a apreciar a paisagem, as aldeias, vilas e cidades quase sem pessoas, os montes íngremes, os restos de vegetação que resistiram aos incêndios, os carros velhos e os semáforos de controlo de velocidade que não funcionam. Eu, que adoro Trás-os-Montes, faz-me confusão estes montes tão íngremes e agrestes da Serra da Estrela.Chove lá fora, o rio murmura e mais nenhum som, em profundo contraste com outras localidades, mesmo Cête. Pelo ritmo pachorrento do dia e o silêncio da noite, começo a acreditar que aqui, de facto, a qualidade de vida deve ser boa. Nada de polícias ou ladrões, apenas uns cães vadios, um deles com uma saca plástica verde na boca, uns relâmpagos que caem nuns pinheiros e nuvens negras.

2007-04-17

Ocaso(s)

Trago no corpo roupa
cansada
de me usar,
vestida,
além nascida
dos olhos de quem,
quem?

Fecho os olhos,
mas foge-me o sono,
durmo,
mas foge-me o sonho.

Que ocaso
traz de novo o reflexo da vida?

2007-04-16

Verdade

Durmo sentado
à espera que me caia
no colo
a verdade
e me diga:
é mentira!

Ausente

A visão foge-me,
repousa num horizonte imaginário
onde os sonhos moravam,
numa neblina ténue
foram beber meus sentidos
para que não se esqueçam,
também eles são fugazes,
como o olhar passageiro da noite
sobre mim
ou o aceno imaginário
de uma dicotomia sem fim...

2007-04-15

Thinking Blogger Award

antónio paiva said...

Meu caro, pela originalidade e criatividade do teu trabalho, foste nomeado pela nossa pastagem faz com ela o que achares por bem fazer.

Boa semana.


Aparentemente ganhei um Thinking Blogger Award e como tarefa irei nomear em brever cinco blogues...
Amigos, não sei bem o que dizer, escrever e agradecer...
Sabe bem saber que há alguém que partilha a vontade de viver escrevendo, de escrever vivendo e, assim, podermos deixar um pouco de nós em tudo o que faz de nós pessoas, gente!
Fiquem bem,
Miguel Gomes

2007-04-12

Boa noite

Estou moído. É um termo para expressar uma coisa que se sente, que não é bem cansaço físico, é uma espécie de cansaço indefinido.
Sento-me ao computador e tento espremer os dedos nas teclas, para que pinguem algumas histórias diluídas que trago agarradas a mim, mas nada sai. 
O meu pai, estranhando o facto de me ver aqui a esta hora, o que já não é normal depois de casado, veio ter comigo e estivemos um pouco a conversar. 
Os olhos cansados, brilhavam um pouco, não sei se cansaço ou desilusão. Antes disso a minha mãe deu-me uma chávena de leite quente e um pão, um jantar que me sabe a banquete, a hora é avançada e o dever de enviar uns emails chamam-me ao computador.
Agito as mãos, mas as histórias continuas presas a mim agarram-se à minha face e o seu peso forma o que parecem ser olheiras sob os meus olhos. 
Paro e sorrio um pouco.
Apetece-me dizer que a minha casa é o mundo.

2007-04-11

Momentos

O processo que me leva a escrever é, na maioria das vezes, curioso e divertido.
Como usual, mais agora que em alturas anteriores, passo grande parte das viagens para o trabalho a fotografar movimentos de corpos humanos com um pouco de alma dentro. 
Vou pacatamente sentado no autocarro e sinto “algo” (há quem lhe chame intuição, mas eu chamo-lhe “coisa”), uma coisa, que me faz ficar alerta. 
Pouco depois sei o porquê do “alerta”, alguém entra no autocarro ou passo por algum local onde está alguém ou algumas pessoas. 
O que acontece a seguir é fruto apenas da minha realidade, senta-se uma pessoa, um corpo, eu olho e vejo um filme, um episódio daquela(s) vida(s) e um pequeno ponto luminoso chama-me à atenção, “escreve-me”, pede ele, e eu guardo-o na mente, um local mesmo atrás dos olhos, para que possa ver o que eu vejo enquanto está comigo. 
Depois chego a casa, abro este caderno e começo a escrever, e eis que chego ao processo de escrever que mencionei no início deste text(it)o, demoro um pouco, à espera que os vários pontos luminosos, que se acumularam nos meus olhos, decidam qual deles é o primeiro a saltar para o papel. 
Durante momentos baila à minha frente, na folha, mas acaba por diluir-se entre letras e palavras, não sem antes esboçar um sorriso e dizer “obrigado”.

Um estendal


Acabei por não escrever o que queria, é sempre assim, "eles" decidem o caminho a seguir.
As pessoas com as quais me cruzo vestem uma alma pálida, até as mais idosas, que mesmo na cidade são do tempo em que a cidade era menos cidade, são pálidas, brancas e baças.
Flutua, está no ar, uma nuvem invisível de pessoas que já não são pessoas, pesam sobre o ar, imiscuindo-se na própria respiração de um qualquer transeunte, até eu.
A cidade. 
A cidade é cidade desde a idade média, ou antes, desde a idade em que necessitamos de estar em grupo, para nos defendermos de nós mesmos.
Um motorista indiferente abre a porta a indiferentes passageiros, pessoas acotovelam-se ajustando-se aos espaços vazios, acoplando um pouco mais das nuvens invisíveis baças dos que nos rodeiam, são raros os sorrisos, mas quando os vejo atiço-os, não os deixo esmorecer.
Alguém fala sozinho, uma senhora com idade para ser minha avó insulta outra, que pode até ser avó, “oh puta, deves ter os cornos largos”, porque a pisou ao sair do autocarro. 
Putos entram e colam-se a mim, as conversas variam no trinómio playstation-gajas-telemóveis. 
Em 100 pessoas, uma, ou metade, passa por mim e é serena, o resto, ainda que o tentem, trazem a agitação imposta.
Fico por aqui, de tanta nuvem parece-me que vai chover e eu quero adormecer seco, porque do lado de lá não há estendal.

2007-04-10

Candle in the wind

Deixei que os olhos bebessem
dos sonhos que se soltaram
quando acordei.


Tremia ainda a chama

num pavio firme
e negro.


Guardo na boca o som

e os passos no vazio

que é a palma

desta mão...

2007-04-08

Restolhos...

Uma semana cheia, em todos os sentidos, sim, inclui-se o sentido "gula" que, nesta época festiva, enche o meu corpo com amêndoas e todo o tipo de doces típicos e atípicos.
Andar de novo de comboio e autocarro fez-me despertar ou acordar de uma hibernação lenta, daquelas em que pensei não voltar a acordar, mas a vida leva-nos para vários lados, sempre da forma que deseja e, assim, tomei de novo contacto com as formas disformes de pessoas que não são gente... Tinha-me esquecido das faces mais pálidas, dos sorrisos escondidos em faces "gargulizadas".
É impossível não olhar para o mar de pessoas, ondas constantes em movimentos, e não pensar sobre o que nos move, as necessidades normais, as vulgares regras da sobrevivência.
Sento-me nos lugares vagos ou deixo-me ir de pé, a oscilar entre curvas, paragens e arranques, ultrapassagens ou o marejar típico das estradas portuguesas, escondido atrás da capa de um livro, onde misturo fantasia com realidade, numa alquimia entre personagens fictícias, do livro, e as reais que se sentam, levantam e passam por mim. Não recordo o dia, era de manhã, pouco antes das 9:00, quando me sentei e, pouco depois, sentam-se duas senhoras, separadas por uns bons 25 anos. É impossível deixar de admirar a diferença tecnológica entre as duas. Ambas se preocupam com o seu cabelo e aparência, a mais velha tira da carteira um pequeno espelho cor de marfim e com pequenos toques arranja o cabelo, virando a cara poucos graus para ambos os lados, para ver melhor os olhos, a pintura, as madeixas a descer pelas têmporas. A seu lado, a mais nova, retira um telemóvel. O olhar mais incauto não se aperceberia que se trata de um telemóvel de terceira geração, com câmara para vídeo-chamada e foi assim, à força da tecnologia, que abriu o telemóvel e olhou para ele, vendo-se no visor, mexendo o telemóvel na direcção e inclinação necessária e fechando-o de seguida, após uma vistoria matinal... A diferença das tecnologias, as mesmas necessidades. Faz-me pensar que volvidos tantos séculos, ainda nos combatemos pelas mesmas necessidades, o que mudou foi, de facto, a tecnologia…
Passei uma semana a guardar episódios, a arquivar referências e códigos, daqueles que posso consultar quando me esqueço do livro que costumo ler… Pensei que seria hoje, domingo à noite, que teria tempo para escrever todos estes episódios, mas não…
Ainda não será agora que escrevo tudo o que desejaria, até porque há episódios que após visualizados têm que ser degustados, vividos, compreendidos, para depois verem a luz do dia…

2007-03-29

Spring tales

Há coisas que faço todo o ano, mas apenas reparo nelas na Primavera, têm uma magia que aflora apenas com o pólen verde que os pinheiros deixam.
As manhãs frias trazem orvalho, local de namoro entre a noite e o pó verde que voa nestas alturas.
O meu pai apanha-me em casa e vem, com aquela cara de meu pai, cabeça baixa, corpo novo para a idade que tem e pergunta: "vais estar em casa?" Eu rio-me, "já estou em casa". Enquanto não digo mais nada ele fica calado, até eu perguntar "queres que vá a algum lado?" e aí ele fala, lentamente "se me fosses buscar umas placas..." e eu, que até nem me apetece, vou.
E revivo, nestes momentos, coisas que só afloram nesta altura, como as flores, talvez por ser Primavera.
Deixo o computador ligado, como sempre, mudo o estado do messenger, digo "até já" a quem quer que estivesse a falar comigo e saio.
A Farrusca fica sempre a olhar para mim, com olhar de perguntar e eu, em tom de desafio, simulo o movimento de correr e ela, doida, começa aos saltos, à espera que eu corra. Não me apetece, vou andando lentamente, com ela a saltar à minha frente e a morder-me as mãos.

As poças que tiveram água têm agora pólen, o vento agita um pequeno pinheiro no caminho e é giro ver o pólen bailar na esteira do vento.

A oficina está igual, apesar de não ser (muito) apegado às coisas, não consigo deixar de pensar que todos os tijolos que ali estão passaram pelas minhas mãos, em tardes de Verão, quando os vinham descarregar e eu, com a força dos 17 anos e os mesmos 1,90 mt, ia colocando-os em pilhas, mais ou menos alinhadas e sem disposição, até me ensinarem que existem regras para os alinhar, ainda antes de juntos com cimento nas paredes. Estamos sempre a aprender, não é mesmo?
E arranco, com um pequeno papel no bolso, que diz "2 faia 3 mm 1 face + barata", não, não é iniciação ao Código Da Vinci, é mesmo para comprar duas placas de faia.
Há algum tempo que não conduzia a carrinha do meu pai. Lá, sinto-me como há uns 12/13 anos atrás, no topo do mundo, a ver os carros e a estrada de cima, com a diferença de não me imaginar num camião dos bombeiros ou da protecção civil. Sonho de criança.

Entretanto, sonhos à frente, paro a meio da recta da escola preparatória, onde andei uns 5 anos, para meter combustível (são 10 € fáxavor), mas tenho que aguardar que um senhor, de canadianas, passe no passeio (redundância), pé ante pé ante canadiana. 

Ele passa e eu acelero, parando mais à frente e aí sim, são 10 euro fáxavor, não, não é preciso chave. 
Enquanto o gasolineiro mete gasóleo (deveria ser gasoleeiro?), olho o senhor, idoso, de canadianas, que me olhe, um olhar penetrante, quente e naqueles segundos percorro as suas memórias de mão dado com ele, onde me mostra os tempos de criança, as comunhões, o casamento, os filhos idos que amparam menos que as velhas canadianas, as estradas de pó, as apanhas de milho, os regadios, as festas populares, os coretos coloridos com as bandas de música como coração, as noites escuras e os candeeiros a petróleo. 
Em segundos, apenas em segundos alguém me mostra a vida, que carrega agora em duas fracas pernas, em segundos apenas. 
Abanei lentamente a cabeça para sair daquele cenário e ele, que me viu de novo no presente, deitou um sorriso rasgado e piscou-me o olho. Acordei apenas ao "quer recibo?", "sim fáxavor". 
Fui e vim buscar as placas, acabei por comprar dois rolos de folha de faia. Passei pela Ana, sem ela contar, coisas de adolescente, que ainda ficam bem agora. Deito um olhar ao pequeno ouriço-cacheiro morto na estrada e continuo viagem.
Há coisas que me acontecem todo o ano, mas apenas reparo nelas na Primavera.

2007-03-22

Circle of love

O que fazemos

Para quem conhece o filme "Contacto" e sentiu o mesmo impacto que eu, sabe do que falo... Para quem nunca viu, aconselho ver e depois ler o livro homónimo do Carl Sagan... A determinada altura, David Drumlin (Tom Skerritt) tem um diálogo com Ellie Arroway (Jodie Foster) que, para mim, exprime bastante o estado actual do mundo ou da humanidade.
O filme foca em parte algumas personagens reais, que fazem parte do projecto SETI.

"Ellie, sei que deve achar tudo isto muito injusto. Para não dizer mais. O que não sabe é... que estou de acordo... Oxalá o mundo fosse mais justo e recompensasse o idealismo que manifestou, em vez de o explorarem... Infelizmente o mundo não é assim..." (David Drumlin)

"Que engraçado! Sempre julguei que o mundo era o que fazíamos dele..." (Ellie)

Singularidade vs Pluralidade

Procurar e viver a singularidade é fonte de dualidade. 
Não há poema, crónica ou conto que me permita exprimir o assombro e o espanto, o desespero e o êxtase de viver, de sentir, de permitir procurar-me e encontrar-me, para me perder em seguida e descobrir-me agora ou ao virar desta página, amanhã ao espelho ou após vidas no olhar de outra pessoa que não eu.
Neste encolher de ombros, que é a vírgula no conto de uma vida, fica a pairar a incapacidade de narrar o que as palavras ainda não sabem ler e o sorriso de um breve instante que dura apenas a distância que vai da primeira linha desta folha até o momento em que paro, levanto a caneta e sorrio para a mão que a sustenta.

2007-03-14

Back to the Future

Depois de olhar por entre os dedos e ver o futuro, longínquo e dependente ainda de passos vagarosos e firmes, torna-se difícil acordar e respirar a neblina que arde nos olhos.

2007-03-06

Rain man... away

Era capaz de ficar para sempre a ouvir a chuva cair no telhado, com os olhos fechados, tremendo até que a roupa secasse no corpo com a ajuda de uma lareira e sentindo, arrepiado, as gotas que caíam do cabelo molhado.
Eu e a chuva. 
Dá-me conforto os dias de chuva e vento, como hoje, talvez de forma egoísta, aceito, porque muitas e muitas pessoas não têm abrigo.
Era capaz de ficar sempre feliz, sem me submeter ao que chamam de vida e aos seus caprichos, aos seus ventos de agoiro que trazem na lapela sorrisos falsos.
Era capaz de ser capaz de sorrir quando me dessem palmadinhas nas costas depois de eu contar um sonho absurdo de realização pessoal.
Era capaz de ficar a olhar despreocupado à injustiça que varre a humanidade de uma ponta à outra da sua divisão maior, a sinceridade.
Tantas e tantas coisas que eu era capaz de ser e fazer, mas que não faço, porque nem sempre chove, nem sempre tenho alpendres e ventos uivantes, nem sempre me pedem carinho os animais com que me cruzo, nem sempre os meus sonhos afloram nadando na retina.
Não era capaz de ser capaz de sorrir no quotidiano de quem labuta por uma côdea, porque os olhos de quem não sorri pesam-me na face e na alma.
Naquilo que chamam de viver, sou eu a nascer.

2007-03-04

Poemas

A Miosotis comentou, há pouco tempo, que era a primeira vez que se lembrava de ver poesia neste blog... Pois... Há mais, muito mais, neste blog e em cadernos vários, fragmentados em cadeias de bits e bytes...

Curiosamente talvez por ser, na maior parte das vezes, pessoa de poucas falas gosto de escrever poesia... Ou algo parecido... Gosto de deixar as palavras suspensas, paradas numa encruzilhada de uma qualquer estrada de montanha, para que quem lê possa levá-las em qualquer sentido e direcção...

Também já deixei por aqui ensaios para contos desconexos, que têm um sequência apenas porque os escrevi sequentemente e não consecutivamente...
Estes ficam antes dos poemas porque são menos:
(I) O chapéu
(II) O Carteiro
(III) A estrela

Deixo links para alguns poemas que estão neste blog (pelo menos até 14 de Setembro de 2005)

Cold night blues
Caronte's sons
Das palavras que vibram
Esquecimento
Porque não sou
Rugas do dia
Respirar
Em olhos de sonhar
Suspiros na noite
Let me be
Até já
Quatro de um
Hipnagogia
Náufragos
Os sons de quando chove
Mais
Sorrisos suspensos
Sorrisos escorpiões
Sorrisos amordaçados
Tardes diluídas
Pause
Canoa doutra imensidão
De nossa alma (texto e poema)
Noites tresmalhadas
Folhas vagas
Acordar
As últimas palavras
14:16 PM
2:16 PM
Sorrisos de gente simples
Dourado
Ocaso
A aguardar
Para quê um título
Formas de olhar
Repouso
Pedras revoltas
Menina quanto custa isto?
Palavras incolores
Um palmo apenas
Sobre os rostos de fantasmas solitários
Visão de vivos e idos fantasmas
Quando o tempo morre em mim
Quantos sorrisos mais?
Brando e benevolente
Teu pai, teu filho
As mentes mortiças
Adormeço
Estrias na alma
Enquanto a vida te rodeia
Quando não eram pequenos
Do que voltou
O facto do nada
Ser onde não estar
Um desenho da alma
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro

Se, eventualmente, conheceres algum editor, mostra-lhe isto, ok? Pode ser que goste :)

Fica bem.

2007-02-26

Rain in a sunny day

Chovia tanto que ele pensava morar no fundo do mar, separado do infinito azul líquido por uma fina tela de vidro.
O vento, quando uivava, parecia um navio e, assim, fechava os olhos e imaginava-se num barco, daqueles pequenos, onde não cabe um remo, apenas existe um pequeno espaço para um punhado de sonho e ilusão.
Quando a ondulação o embalava ele deixava-se adormecer, para logo depois acordar, dentro do mar que é o peito de quem sonha. 
E assim, enquanto dormia, o sonho e ilusão saltavam, como peixe acabado de pescar, e caíam novamente ao mar, deixando-se cair ao sabor da corrente, para que outros que não dormissem os vissem lá no abismo onde habitavam e pudessem, também, sonhar.
Acordava e via-se no barco, ondulando, mas no momento em que olhava para o seu pequeno barco e não via o seu punhado de sonho e ilusão, acordava. 
Para se ver encostado ao vidro, contra o qual o vento atirava pequenas gotas de chuva. 
E estas, cansadas, escorregavam e contavam-lhe baixinho: “sonha, para que os que não dormem possam encontrar alguns sonhos”.

2007-02-20

Cold night blues

Fogem de mim,
os olhares da noite
e as mãos frias,

o aceno fugidio da mentira

e a lágrima

que já ida
nem de mim me tira.


A névoa das pessoas

e máscaras,

a chuva que inunda
a noite,

pintada de verdade,
quando cair no vazio
verá,
uns olhos cavados
e mãos,
em desespero,
agarrando a vida
que a outros tirou...

2007-02-03

Até um dia destes

Olá. 
Parece-me que é a última vez que venho aqui, ao blog, para escrever. 
Acho que me cansei de cultivar o lado bucólico da vida neste espaço virtual. 
Inevitavelmente, nada é evitável, digamos que faz parte da vida sermos assim, uma sucessão de dias e horas, segundos e noites, sonhos e pesadelos. 
Confesso que esta deve ter sido a primeira vez que me sentei em frente ao computador sem um motivo, ainda que muito distante do meu fio condutor, para escrever. 
Sentei-me e assim fiquei, a olhar, sem qualquer história para escrever, sem qualquer sonho misturado com música e flores que nascem nas encostas das estrelas. 
Orgulho-me de continuar, por aí fora, sendo eu mesmo, com mais ou menos pontapés na boca, mas escrevendo em meu nome, comigo e para mim. 

2007-01-29

Cubos de todas as cores

Chego à tua beira, tens os olhos cansados e nublados por sonhos que nunca viveste e que teimam em bailar na tua retina. Olho-te de cima, como há nunca o fazia, e conto-te coisas simples, como a finta do Quaresma ou a primeira final do Porto na Taça dos Campeões. Ou as novas descobertas sobre o ADN e a Física Quântica, falo-te das teorias de conspiração e ris-te, é capaz, é capaz. Conto-te novos sonhos e projectos, como quando me ensinaste a ler com os cubos em madeira, onde desenhaste letras de várias fontes e tamanhos. E nestes momentos já os teus olhos brilham e as sombras que nublam os teus sonhos dispersam-se.
Nada mais te faço que semear a mesma alegria com que me ensinaste, mesmo sem o saberes. E assim sou feliz.

2007-01-24

Caronte's sons

Vestia de preto
a noite
quando morreu nos meus olhos.

As escadas cadentes
acompanham o ritmo das sombras
e sorriem,
os ruídos do silêncio ficam impunes
enquanto os punhos,
cerrados em raiva,
adormecem os sonhos
no ameno travo do malte.

A distância,
feliz,
recolhe-se à falsidade
verosímil
que amputa o horizonte,
para que os que nascem na barca
sejam os filhos da vida
perfilhados por Caronte.

Petrifica-me a mão que não vejo,
porque morreu-me nos olhos
o desejo...

2007-01-22

Das palavras que vibram

Enquanto os sons ecoam
voam e molham-me
a alma,
a ternura da noite que me abraça
adormece
o calor
nas costas da vida,
onde sonha.

Longe as mãos
e o dourado deambular,
de um sorriso
que outro eu quer abraçar,
das palavras
que vibram apenas no palato,
da frase que codifica
o amplo
deserto, das passadas águas
sob pontes tantas,
resta apenas o sal
que água leva, e vai
à sílaba afluente
de cristalina...

2007-01-19

Esquecimento

Há muito minhas mãos esqueceram
e meus olhos voaram,
dos caminhos nublados
às estradas,

então,
desconhecidas

outros sentidos
acordaram.


Nada do que vagueie é vago,

nem as sombras fugidias
que dançam

nas mãos,

tão pouco a memória

que sorri

na calada da noite,
quão distantes

os senãos.


As metáforas

subjugam o sentido
do olhar,

enquanto as mãos ainda
afagam

os acasos da vida,
os ocasos esmaecidos
bailam
no compasso
lento
do deambular
no infinito,

deste segundo
um momento...

2007-01-12

Feather theme

Títulos e linhas, palavras e sentidos, tudo armazenado em vários ficheiro de texto que, invariavelmente, morrem sozinhos, esquecidos no computador. Isto é fruto de padecer de um mal, o de falar comigo mesmo, o que faz com que aquilo que gostaria de escrever fosse dito e, assim, já não escrito.

Chego perto da Farrusca, deitada ao Sol, pouco faz além de abanar o rabo contra a parede, à espera de um afago. Falo-lhe e ela levanta a cabeça, à espera da habitual carícia no pescoço. Por vezes nem falo, fico a olhar para ela a sorrir e ela, sem que eu me mexa, levanta-se e encosta a cabeça às minhas pernas e fico, assim, ainda a sorrir, com os olhos fechados, partilhando com ela o prazer de estar ao Sol num dia de Inverno.

Esta minha característica contemplativa, faz com que me veja a passar por locais e olhar, reviver situações e emoções, como ontem. Apesar das mudanças impostas pelo tempo e o progresso em forma de asfalto de auto-estrada, encontrei uma escola primária onde vi o futuro em forma de olhares pequeninos e sonhos imensos. Fico a pensar onde andarão aqueles príncipes e princesas, será que cresceram muito? E de repente, quando passo lentamente pelo recreio da escola, na neblina e noite cerrada, vejo-os correr novamente, dizendo-me adeus com as mãos pequenas e os olhos gigantes de luz. Não há um episódio na vida que não me marque, parecem destinados a surpreender-me, parecem existir já, à espera apenas que eu dobre a esquina para assomarem aos meus olhos e eu, como criança, sorrio. Nessa escola, onde a professora era mesmo Professora Primária, e os alunos eram os sonhos, passei por momentos emocionantes. E, muitas vezes, esforçando-me para conter as lágrimas, sorri e agradeci a quem quer que seja que me proporciona ser feliz apenas por existir. Os desenhos tenho-os todos guardados, sei que um dia perecerão, mas os originais estão gravados no meu peito, armazenados na secção dos sentimentos, onde nada, nem o mais triste acordar pode remover. As letras que estão dentro são, cada uma, um infinito raio de Sol que ilumina todo e qualquer recanto da minha vida. As crianças. Nascem como estrelas cadentes.
Depois de sair daquela escola voltei lá apenas mais uma vez, apenas por visita, falei com a Professora, Patrícia de seu nome, e agora tenho pena de não ter ficado com contacto de mais professores e funcionários.
Não sei porque escrevo isto, todas as pessoas possuem, sei-o bem, momentos inesquecíveis, grandes ou pequenos, sonoros ou inaudíveis, visíveis ou apenas daqueles que se vêm com os olhos do coração, quando a mente dorme e os sentidos percorrem o espaço que nos separa da felicidade.

2006-12-19

Feliz Natal


Quem não está na minha lista de email, não recebeu o email, por isso aqui vai.

Que este Natal e Novo Ano que inicia, acima do consumismo tradicional, independentemente da nossa religião ou falta dela, possamos parar um pouco e perceber que os nossos passos na vida só fazem sentido se ecoarem noutros passos, que as nossas palavras podem ser mais que fonética, mas sim amizade sincera e despojada e que os nossos gestos podem reverberar de facto aquilo que somos.

Não estamos sozinhos… Estamos uns com os outros. Então que tal fazer do nosso interior um local melhor para habitarmos e também recebermos?

Desejo-vos tudo de bom,
Miguel Gomes

2006-12-15

Ameaça mortal

É de mim ou nós, seres-humanos (escrevo propositadamente com hífen, para não se confundir com o ser de existir, pois nós até existimos enquanto humanos, mas parece-me que somos menos humanos) vivemos a defendermo-nos de nós mesmos?

Escudamo-nos perante os outros, como se eles, os outros, nossos semelhantes em mais do que aparência física, mas em essência, fossem uma outra espécie mortal e mortífera (embora não pareça, são coisas diferentes, mortal pode ou não matar, mas mortífera mata mesmo, alguns só com o olhar), sanguinária e incompatível com a nossa presença neste mesmo cubículo a que uns chamam mundo…

É de mim ou parece que vivemos em realidades diferentes?

Não existe um único projecto para preservação deste planeta e de nós mesmos, enquanto habitantes da mesma “aldeia”.

Cá por mim, gosto de descobrir tempo para algumas coisas, como parar perto de um senhor com cara assustada, num Multibanco, ajudá-lo e ouvi-lo dizer: “não percebo muito destas coisas”, ou ainda “e porque é que alguém me ia roubar se soubesse o código?”. Ou ainda parar no trânsito para deixar passar outro carro e ainda ter tempo para trocar um sorriso.

Riqueza(s)

Dou por mim num pós-jantar, onde se discutem aplicações financeiras, planos poupança, reformas, seguros, etc.
Fiquei a saber que sou pobre. 
Eu, que pensava que a maior riqueza do ser humano estava à distância de um abraço.

2006-12-11

Pensamentos de Ghandi


"Nada tenho de novo para ensinar ao mundo. A verdade e a não-violência são tão antigas quanto as montanhas. Tudo o que tenho feito é tentar praticar as duas na escala mais vasta que me é possível. Assim fazendo, errei algumas vezes e aprendi com os meus erros. Toda a minha filosofia, se é que se pode dar este nome pretensioso, está contida no que tenho dito."

"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo."

"O amor e a verdade estão tão unidos entre si, que é praticamente impossível separá-los. São como as duas faces da mesma moeda."

"O amor é o meio, a verdade é o fim. Se usarmos o meio, cedo ou tarde chegaremos ao fim, à Verdade, a Deus."

"O caminho da paz é o caminho da verdade. Ser honesto é ainda mais importante do que ser pacífico. Na verdade, a mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo. Ele vai perceber, no curso de sua busca, que não tem necessidade de ser violento. Vai também descobrir que, enquanto houver nele o menor vestígio de violência, não conseguirá encontrar a verdade que está procurando."

"A não-violência não é somente um estado negativo que consiste em não fazer o mal, mas também um estado positivo que consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem nos faz mal."

"Podemos constatar (o amor) entre pai e filhos, entre irmãos, entre amigos. Mas temos de aprender a usar esta forma entre tudo que vive; no uso dela está o conhecimento de Deus. Onde existe amor, existe vida. O ódio leva à destruição."

"Tudo o que vive é teu próximo!"

"A não-violência nunca deve ser usada como um escudo para a covardia. É uma arma para bravos."

"Não vejo bravura nem sacrifício em destruir vida ou propriedade alheia."

"A não-violência não existe se apenas amamos aqueles que nos amam. Só há não-violência quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil assumir essa grande lei do amor, mas, todas as coisas grandes e boas não são difíceis de se realizar? O amor a quem nos odeia é o mais difícil de tudo; no entanto, com a graça de Deus, até mesmo essa coisa tão difícil se torna fácil de realizar, se assim quisermos."

"O teste maior da não-violência está no fato de não ficar qualquer rancor depois de um conflito não-violento, com inimigos transformando-se em amigos."

"A lei do amor pode ser melhor compreendida através das crianças."

"Se quisermos alcançar a verdadeira paz nesse mundo e se quisermos desfechar uma verdadeira guerra contra a guerra, temos de começar pelas crianças; se crescerem com sua inocência natural, não teremos que lutar; não teremos que tomar resoluções ociosas e infrutíferas, mas seguiremos do amor para o amor, da paz para a paz, até que finalmente todos os cantos do mundo estarão dominados pela paz e amor, pelo que o mundo inteiro está ansiando, consciente ou inconscientemente."

"O mundo está cansado de ódio."

"Se a corrida armamentista alucinada continuar, é inevitável que resulte em massacre como jamais ocorreu na história. Se restar um vitorioso, a própria vitória será uma morte em vida para a nação que emergir vencedora."

"A não-violência é a maior força a serviço da humanidade."

"Nesta era de maravilhas, ninguém dirá que uma coisa ou idéia não presta porque é nova. Dizer que é impossível porque é difícil não está de acordo com o espírito de nosso tempo. Coisas que jamais foram sonhadas estão sendo vistas diariamente, o impossível está a todo instante se tornando possível. Ficamos constantemente impressionados com descobertas espantosas no campo da violência. Mas afirmo que descobertas ainda mais espetaculares e aparentemente impossíveis serão feitas no campo da não-violência."

“O único tirano que aceito neste mundo é a voz interior, suave e serena.” -
- Mahatma Gandhi –

2006-12-04

Ruas

Antes de começar a fazer algum trabalho, tenho que colocar as paisagens que vejo no "papel", para poder dedicar-me com mais atenção às tarefas.
Este tempo, não o Natal, mas esta época. Hum. Que delícia, não só pelos chocolates, mas pela doçura das nuvens, chuva, frio e das paisagens que vejo.
Deixo o carro parado e percorro as ruas a pé, deixo que as ervas me molhem as calças e os pés fiquem molhados, deixo a terra ranger sob os meus passos e o guarda-chuva não consegue amparar-me de toda a chuva, o que faz que até as mãos que seguram o guarda-chuva fiquem molhadas.
Uma rajada de vento verga o guarda-chuva, que fica com as varetas torcidas e, assim, sem que me abrigue, pouso-o num caixote do lixo e continuo.
Uma nova rajada de vento faz-me baixar a cabeça e semi-cerrar os olhos e quando por fim o vento amaina, ergo a cabeça, mas é já outra paisagem que vejo. Caminho ladeado por altos muros de pedra, num caminho lamacento, com vestígios de animais terem passado por lá.
Não sei se são as ruas onde caminho, se os olhos onde sonho.

2006-11-29

Rosa vermelha

Era perto das 20:30, entrada de uma grande superfície comercial em Penafiel, entrei com a Ana e logo à nossa frente estava um homem, ar humilde (não era o ar ambiente, era mesmo o olhar que o vestia), com um fato gasto, azul escuro com finas riscas brancas, um cabelo semi-penteado, ou melhor, um semi-cabelo penteado, uma cara gasta e um olhar que não sei descrever. 
Ao seu lado estavam algumas sacas de plástico. 
Tinhas botas, castanhas, escuras, castanhas de origem e escuras de tempo. Mas o que mais me atraiu, o que os meus olhos gravaram, foi a rosa vermelha na lapela. Aquela flor conferia ao cenário um toque de génio, é como quando tentamos desenhar algo, escrever umas linhas, mas sabemos que falta algo para terminar, uma pincelada oculta, uma linha mais no poema, assim era a rosa. Desconheço a razão, seria um encontro? Não sei.
Seguimos para uma loja, tentar ser mordido pelo gordo cão do consumismo, e quando voltamos ainda lá estava. 
Fizemos as compras, andamos de um lado para o outro e quando saímos, lá estava ela, a rosa na lapela, assim como ele. 
Chegamos ao carro, pousamos as compras na mala, a Ana entrou e eu, quando fechava a porta com pressa, para fugir da chuva, algo puxava o meu casaco. Voltei e com os olhos semi-cerrados pela chuva, vi-o. Um rosto de menino. Aquele que me acompanha por vezes em tantas viagens. 
Tirou uma mão do bolso e mostrou-me uma pequena bola de algodão-doce, o sorriso perguntava-me se podia, apenas encolhi os ombros e sorri também, como que anuindo. 
Entrei depressa para o carro e só o vi, pelo espelho, sentar-se ao lado do homem da rosa na lapela e oferecer-lhe aquele pequeno berlinde de algodão-doce… O que se passou? Não sei, não vi o desenrolar da história e agora, que a queria contar, ele está deitado aos meus pés, olha para mim ensonado e diz-me: estou cansado, posso contar amanhã?

2006-11-24

A primeira vez

Para tudo existe uma primeira vez, não é mesmo?
Tudo o que fiz hoje não foi pela primeira vez absoluta, mas relativa.
Mas ontem, bem, ontem foi mesmo a primeira vez. Eu, Miguel, 1,90 mt de gente, em plena formação, consegui apoiar-me mal na cadeira e dar um tombo daqueles que eu mesmo gostaria de ter visto de outro ângulo! 
Ai, não há palavras, tive que me conter para não me rir ao longo de toda a formação e acredito que o mesmo tenha acontecido com os formandos... Embaraçoso? Nah! Muito, mas mesmo muito hilariante!!!

2006-11-16

Beyond

Acho que foi a primeira vez que te vi assim, com os olhos cansados e fundos, prenhes de desilusão. 
E eu, sem saber o que fazer. 
Se ao menos pudesse parar o mundo e andar por aí, contigo, para te mostrar o que de belo me mostraste a mim.
Tenho na boca um travo amargo, que nada consegue adoçar. 
Uma dor que nem as neblinas conseguem abrandar.
Como tu, também estou cansado.

2006-11-15

Só amanhã (aliás, ontem...)

Escrevo apenas por obrigação. Porque tenho gostado de vir este bocadinho ao computador antes de me deitar.
Deixo que as horas rebolem silenciosamente, mas as histórias, as neblinas, os sonhos, mantenho-os suspensos, ainda que eles, os sonhos, teimem em surgir.
Escrevo apenas para dizer, não, não vou dizer. Ou sim, digo, porque sou sincero e não me apetece refugiar numa aparente calma. Hoje, especialmente hoje, estou cansado.
As neblinas e sonhos, esses ficam para amanhã.

Neste tempo sou apenas umas botas molhadas pelo orvalho da noite, uma chávena de café e um pão seco, um afago num animal, o parar em frente ao Sol e fechar os olhos, para que aquela luz me complete e se espalhe pelo corpo, uma enxada e um pouco de erva, um sino ao longe numa capela de uma religião qualquer, a lousa dos telhados, o colmo nos campos, o gado que pasta, uma gota de suor, o entrar numa cozinha quente, o pousar a mão num muro com musgo. E acordar. Porque as neblinas e sonhos. Só amanhã

2006-11-09

Um amigo gigantesco!

Há marés, como se diz na minha terra, onde aparece tudo de repente. Ando uns dias sem escrever no blog e depois, quando toca a maré, venho para aqui escrever sobre tudo e, quase sempre, sobre nada.

Por vezes escrevo sem saber o porquê, apenas me apetece e é razão mais que suficiente. 

Estas noites frias, cada vez mais frias, embalam-me num torpor agradável, catalisam a neblina que começa a descer sobre os meus olhos e onde se movimentam outros corpos que não conheço. As zonas do céu onde não existem nuvens permitem ver estrelas, aqueles pontinhos brilhantes sobre um azul mais claro que o habitual, haja Lua para nos iluminar! Por vezes, mas só por vezes, o Universo parece querer brincar jogos comigo, quando penso em algo ouço o seu murmúrio “olha para cima”, olho e vejo, naquele preciso momento, uma “estrela cadente”. Cá entre mim e esta folha de papel, é a sua forma de me sorrir e eu retribuo, com um piscar de olhar. Tenho um amigo mesmo grande, não tenho?

Ainda sobre as bolachas, começo a compreender de onde vem a minha empatia com as bolachas baunilha. O meu pai foi comendo, comendo, comendo, até ficar apenas uma. Confesso que a deixou não porque não lhe apetecesse, mas porque é a regra da gente simples e boa, como o meu pai, deixar a última bolacha. E no meio disto tudo, enquanto olho para ele com olhos de gente grande, a neblina inunda a sala e à minha frente está uma criança, simples, de sorriso tímido, a olhar para a bolacha baunilha e para mim, e eu olho sorrindo, como que a consentir, e aquele sorriso de agradecimento que apenas eu e a neblina vimos é o reflexo mais tocante do Universo, do mesmo que me sorri.

Embora com 30 anos, a caminho dos 31, adulto (aos olhos dos outros), reflicto sem qualquer tipo de dogma ou ideia pré-concebida, sem medo de me mostrar porque não tenho medo de mim mesmo e as opiniões dos outros não são mais que a noção deles de realidade, a cada dia que passa aumento (talvez devido às bolachas!) de tamanho, a cada dia sou mais eu porque constato que sou muito de outros. Não, no meu peito não cabe todo este sentimento. A felicidade é maior do que eu mesmo, expande-se tanto de mim que temo vir a implodir. E quando impludo apercebo-me, afinal sou apenas um pontinho brilhante, maior que eu ou que todos juntos, um ponto invisível onde o nada impera, quanto mais de mim, mais dos outros me completa. Sinto-me pleno e vazio, onde cabem todos os outros e outras estrelas, acima da neblina, onde o Universo é apenas uma distância milimétrica de mim a mim mesmo, onde tu, que lês estes devaneios, sorris e dizes: “mais um que endoidou”.

Pouco importa o que sabemos de nós, dos outros, de quantas estrelas brilham no céu ou de quantos sorrisos o Universo nos dá. O importante é o que fazemos com o que somos.

2006-11-08

Só mais isto

Antes de começar a trabalhar depois de almoço (ai que sono), não posso deixar de escrever meia dúzia de linhas...

Este tempo frio, com Sol quente, matas a serem limpas, montes de erguiço, fetos e ramos a serem queimados, a neblina de fumo que paira no ar, o barulho da forquilha a acomodar mais mato na fogueira e um olhar que se vê mal ao longe lança-me um aceno de mão... Traz-me à memória outros tempos, de criança, de vir da escola já noite, pousar a mochila (antes era sacola), fazer os deveres e outras coisas mais que, agora, não tenho tempo para escrever...

Uma cozinha velha, preta, onde o vento uiva porque o telhado não assenta correctamente nas paredes, um forno velho tapado com panfletos de promoções de um mercado qualquer, a pedra onde se fazia a lareira, as telhas de vidro para entrar o Sol, um rosto velho, onde o tempo gastou o olhar, umas velas retorcidas, um corpo num banco envolto em neblina invisível, uns sorrisos ténues e uns parabéns merecidos...

Pronto, era isto.

Torrada ou Maria?

O divertimento das escovas gastas e a chiarem vai ter que acabar, hoje constatei que estão de facto muito gastas e embora me divirta a ver os carros duplicados, se alguém da DGV vê este post é provável que me denuncie e não estou numa altura em que pagar multas seja um desporto, que se pratique de ânimo leve.

Vinha cansado, disposto a tomar um banho e dormir, mas o estômago também fala e à minha espera tinha outra parte de mim, a Ana. Sentei-me, tomei o meu leitinho com bolachas e o normal seria terminar aqui, tomar uma banhoca e dormir, mas não, não foi normal. E não foi normal porque além do leitinho, tinha umas bolachas, várias bolachas ou tipos de bolachas e dou por mim a olhar para uns anos atrás, ainda criança, sentado num banco com tampo em fórmica, frio ao primeiro toque, com os braços apoiados na mesa, também de fórmica, com um pano azul, bordado, e em cima, a fumegar, uma chávena de leite com mel. O cenário mudou, obviamente, mas o sentimento é o mesmo. 
Recordo, com um brilhozinho nos olhos, o luxo ou diferença que era ter alguns pacotes de bolachas. Na altura eram apenas duas qualidades, as bolachas Maria (ah grande bolacha!) e as Torradas. Pouco tempo depois surgiram outras, mas não eram compradas tão frequentemente, creio que tal facto se devia à minha gulodice, bolacha nova, mais doce, era sinónimo de acabar rapidamente. Além das duas variedades que mencionei, surgiram outras duas, as Alfa e umas outras que não sei o nome, mas recordo do sabor e da forma, pareciam de aveia, eram mais “espessas” na boca e a sua face era quadriculada.

As bolachas Maria eram óptimas para molhar no leite, enquanto que as torradas eram fantásticas para o café. Café do bom, feito na cafeteira da minha mãe. Fantástico.
As outras bolachas eram apenas para o leite, de preferência simples.

De quando em vez, numa altura de aniversário especial (o meu ou da minha irmã, porque os meus pais nunca valorizaram com bolachas especiais, ou qualquer outro luxo, como seu próprio aniversário), surgia a embalagem de sortido. Era um deleite, a boda de um rei! Corria com o olhar a caixa, tentava adivinhar se eram os sortidos de dois pisos ou de apenas um. Dois pisos simbolizavam mais contentamento, afinal eram duas camadas de bolachas! Rapidamente via a variedade que, curiosamente, não mudou muito desde os meus tempos de garoto com sonhos grandes em olhos pequenos. As bolachas baunilhas cobertas com chocolate eram as minhas favoritas, não só o seu exterior era belo, de chocolate, como o seu interior era fabuloso, de baunilha. Tal como muitas pessoas.
Depois surgiam as outras variedades de bolachas cobertas de chocolate, até parar nos “tubinhos”, bolachas com recheio e as “restantes”. Era uma felicidade. Aliás, todos os tempos eram de felicidade, pois qualquer coisa nova era sinónimo de boca doce (ah, também os pudins boca-doce, nos copos de plásticos, que saudades), de sentar à mesa e sorrir. 
Ainda hoje é tempo de sorrir, de ver que as lembranças nas quais me ergo são letras de ouro bordadas no meu coração, na minha alma.

Há coisas que a apenas nós nos fazem sorrir. 
Será que despertam um sorriso em alguém? 
Terão estas linhas o condão de fazer sorrir alguém? 
E que sentimento é este que me impele a escrever, a anotar estas memórias? 
Para quem escrevo? 
Para mim, certamente, mas se eu já tenho estas memórias e, diga-se em abono da verdade, muitas vezes saltam a meus olhos, porque necessito de as escrever? 

Bem, é tarde. Espero que o barulho do computador não acorde a Ana, que já dorme serenamente.

A maior felicidade é constatar que, mesmo inconscientemente, todas as minhas acções foram felizes, que todos os gestos de meus pais me proporcionaram uma felicidade máxima, extrema.

Fiquem bem, as memórias e vocês...

2006-10-20

Rainy day #5

Ando para aqui a mexer de um lado para o outro no computador, sem me decidir a escrever... Abro o bloco de notas, escrevo e apago, saio e vou jogar "Solitário Spider", regresso, escrevo e apago, saio e vou dar uma vista de olhos nos meus documentos, nos ficheiros da pen-disk... E enquanto me mantenho longe do bloco de notas, todas as ideias surgem na minha mente, prontas a serem escritas, como se, inclusive, o facto de pensar fosse quase como escrever... Até que percebo que estou a procrastinar, a adiar, como se devesse escrever o mais perfeito dos poemas ou a mais fluente das prosas, afinal, escrever aqui é mostrar ao "público" e aquilo que mostramos diz muito de nós... E é assim que, dia após a dia, sem medo algum, me conheço melhor, estando atento a tudo o que penso, a tudo o que crio mentalmente. É como se vasculhasse o meu porta-cd's e visse que tenho alguns cd's riscados, demodées, que continuavam a tocar...

Tinha um outro texto para "postar", mas está no computador de casa dos meus pais...

Lá fora a chuva parou... Quer dizer, parou de cair forte, porque continua a cair, mas fraquinha :)

Saio do IDT e percorro os cerca de 30 km's até casa, o raio do vidro embacia, as escovas estão a ficar gastas e quando dou o pisca para a esquerda, especialmente quando chove muito, os máximos ligam-se :) E eu rio-me :)

Acho que parte de mim ainda quer, neste tempo, estar numa eira, sentado sobre palha e com as costas nos carolos de milho, saboreando uma sopa "de tudo", quente, a fumegar, o que me faz soprar de cada vez que levo a colher à boca... Parte de mim está a olhar para um cão, que dorme a meus pés, e ouve a chuva bater nos reforços de chapa da porta da eira... E enquanto o meu corpo se reparte por múltiplas dimensões, há um fio condutor que transporta as lembranças de vidas e vidas, a felicidade...

Confesso que me perco, por vezes, nas listas de emails e leio tudo e mais alguma coisa, de todos as temáticas... E dou por mim a espreitar pelas realidades co-criadas por várias egrégoras, pelos mundos complexos de ideais solidificados, pelas necessidades do ego em se agarrar à certeza de uma ideia que, tal como o vento, nunca está no mesmo local...

Este tempo tem uma magia qualquer, leva-me para todos os lados. Na pausa de um universo e outro, paro e encosto-me a uma parede com musgo, está molhado e uma pequena gota de água desce pela mão, pulso e entra por entre a camisa e o braço, chegando-me ao cotovelo, e aí acordo, desperto, apenas para dar mais um passo e ver-me noutro universo, num largo empedrado, com um fontanário ao centro e pessoas que passam cumprimentando-me... Noutras alturas vou parar a outros planetas, fico extasiado ao ver a quantidade de "vida" que existe espalhada por aí, dentro de mim...

Recordo-me de algumas horas de comboio, estar sentado, com um pé sobre o aquecimento (nos comboios antigos, lembram-se?), com o cotovelo apoiado no joelho e a cabeça encostada ao vidro da janela, onde a chuva caía na diagonal... Lembro-me do balançar das carruagens, do barulho das rodas nos carris, o passar as agulhas. Nestes comboios, apenas o pica-pica do revisor me trazia de volta, mal o ouvia, lá vinha eu a ondular pelo ar, como se fosse um balão atado ao comboio, descia, descia, descia até chegar novamente ao meu corpo e aí ficava, por segundos, a aconchegar-me, percebendo o que era o corpo, admirado e maravilhado com esta máquina...

Sim, este tempo leva-me para vários locais... Infelizmente, ainda não consigo estar a escrever as memórias passadas e futuras, neste corpo e neste universo, ao mesmo tempo que outro eu escreve outras memórias futuras e passadas de um outro eu, talvez escreva de um rapaz (bem, tenho que perceber que já tenho 30 anos) que está ao computador, às 0:28, rindo-se enquanto escreve umas letras...

Há tanto por onde ir... E, curiosamente, tanto onde estar sem sair de mim mesmo...

Agora tenho que ir, passou uma sombra por mim, instalou-se ao meu lado esquerdo e sorriu, disse-me que deveria dormir, que muitas das coisas que escrevi não escrevi, ficaram em suspenso, como se escrevesse apenas em pensamento e esse pensamento não tivesse, ainda, chegado à matéria... Vou guardar estas pequenas nuvens de pensamentos, de frases que estão já escritas, e guardá-las no olhar, pode ser que num outro momento, as mesmas saltem para outros olhos e eu conte histórias sem necessidade de as escrever...

Embora pareça difícil acreditar (pelo menos a mim é), todas as minhas pesquisas me levam a pensar que existe apenas uma coisa em tudo, e um milhão de possibilidades em nada... Capice?

2006-09-24

Porque não sou

Sou o frio,
a chuva que me aclara o dia,
as gotas no pára-brisas
que codificam o respirar,
a terra molhada
e os horizontes aos quais me prostro.

As ruínas crescentes
e os sorrisos carentes,
o uivo da noite
e apenas as estrelas como companhia,
uma mão cheia de sonhos
e o murmúrio da utopia...

Ainda que vagueie não me falta o rumo,
o ondular das veredas
e a sombra fugidia do simples,
o orvalho e o relento
são dos próprios olhos
meu alento.

Sou,
porque sei que não sou...

2006-09-23

Rugas do dia

A noite ainda é minha,
disse-me o reflexo do olhar nas nuvens
e até as estrelas sussurravam,
voltou...

O silêncio do relâmpago
e a cegueira pálida do trovão,
as gotas que me sorvem
dormindo na palma da minha mão.
Os traços finos das rugas do dia,
o cabelo sedoso do sonho na minha face
e o olhar
que nunca partiu...