2007-09-29
2007-09-27
Al Ua
É tão tarde, eu quero dormir, todas as partes do meu corpo querem dormir, mas eu tinha que vir aqui, tinha que vir dizer-te, antes de qualquer pessoa, antes que olhes e vejas a diferença.
Fui com os meus pais a casa.
Espera.
Enganei-me, tenho que dar um fio condutor a isto, não que seja primordial, mas para que fiques a saber tanto quanto eu e compreendas como tudo aconteceu.
A Ana faz anos, aliás, fez, porque é já dia 27 de Setembro, tivemos, a exemplo do ano anterior, a família toda aqui e, na hora de ir embora, aproveitei e fui com os meus pais a casa deles.
Encontrei, no sábado, umas pilhas para a minha lanterna e e fui munido para a luta com a noite, calções, t-shirt, chinelos de praia e lanterna, a minha companheira quase inseparável.
Ia à frente, iluminando o caminho, mas nem era preciso, a minha amiga Lua estava no seu esplendor, desconfio que esteja apaixonada, tal é o brilho que ostenta.
Deixei os meus pais em casa, fui ao computador que está lá para buscar uns ficheiros que precisava e antes de vir embora, fui dar-lhes um beijo de boa-noite à cama. É nestas alturas que parecem meus filhos.
Venho pelo caminho, iluminei apenas uma zona que tem algum mato, mas mesmo assim piquei-me.
Depois desliguei a lanterna, venho imbuído nos meus pensamentos, algo perdido em conjecturas, ideias e ideais, umas válidas e outras que são apenas lixo/ruído mental.
Parei para ver a Lua, fiquei com a sensação que me chamava, mas não, apenas respondeu ao meu apelo e, pela primeira vez, falou comigo. O que conversamos fica entre nós. Desculpa. Sabes que gosto muito de ti, sim, tu, que me lês agora como se estivesses por cima do meu ombro, mas o que a Lua me disse era apenas para mim, como será para ti quando ela te chamar.
As estrelas rodavam na noite, mas a Lua ficou parada, mesmo depois de conversar comigo. Quando eu estava prestes a vir embora, tentando habituar os olhos à escuridão depois de a olhar, ela disse-me:
- Espera.
Depois voltou-se para cima, como se falassem com ela, ficou contrafeita, mas decidida, resmungou entre dentes "eu sei, mas é só esta vez".
E, olhando agora para mim, convidou
- Queres vir?
Fiquei sem compreender o que me dizia, queria ir onde?
- Lá, mais perto das estrelas” e sorriu…
Embora desconfiado, confiando apenas no sorriso dela, respondi:
- Sim, disse-lhe e ela baixou, desceu à Terra:
- Agarra-te bem, sobe por mim - e, pela primeira vez, fui literalmente à Lua, colocando primeiro o pé direito numa pequena cratera, dei um impulso com o pé esquerdo, erguendo-me, agarrei com a mão direita o rebordo de uma outra cratera e fiquei com a mão esquerda a baloiçar, segurando a lanterna.
A Lua começou a subir, primeiro lentamente, depois mais rápido, fazendo-me balançar um pouco o que me assustou, teria sido sensato aceitar subir? Estava tão alto, as luzes da vila, da cidade, do país eram pontos bem mais pequenos que a luz da minha lanterna na noite mal escurecida.
- Larga-os…
Mas que me dizia ela? Se me largar caía e nem lanterna me valia.
- Não, larga-os, esses medos, confia em mim, desfruta a viagem - e deu uma risada, como se eu fosse uma criança traquina e ela se risse das minhas brincadeiras e rebuliços.
Que faria eu sem os meus medos? Tanta companhia me fizeram. Mas obedeci. Também não iria desobedecer a quem me segurava a uns milhares de metros de altura, não é?
Fiquei a olhar apenas para a Lua, o insólito facto de voar com ela, de ir pendurado pelo espaço, percorrendo o Sistema Solar.
Fiquei assombrado com a quantidade de planetas que ninguém conhece e que guardam mais vida do que mil vezes a vida da Terra! Mas sobre isto, fez-me ela prometer que aguardaria o tempo necessário antes de escrever, até perceber o que era aquilo, a vida noutros locais, noutras vidas.
Disse-me que aquilo era apenas a nota introdutória ao livro da minha vida.
Enfim, cá entre nós, a Lua tem com cada coisa que não é mesmo deste mundo, creio que agora percebo porque surge ela apenas à noite, de dia ninguém a levaria a sério.
E voltamos, foi descendo suavemente, até me deixar perto do local onde me tinha encontrado com ela e, nesse momento, eis que chego à parte que te queria contar, ao descer escorreguei e fiquei pendurado pela mão direita, mas o rebordo da cratera não aguentou, deve estar gasto, creio que ela leva muitas mais pessoas, e não aguentando partiu.
Disse-me para não me preocupar, não era o primeiro a fazê-lo, mas quando ela subiu e retomou o curso natural da sua viagem na noite vi, lá, em determinado momento da sua rotação, falta-lhe um bocado, um bocado que não sendo enorme é visível a olho nu.
Não estranhes, não chames ninguém, sinto-me um pouco envergonhado por ser tão desastrado e ter arrancado um pouco de Lua, desculpa.
Fui com os meus pais a casa.
Espera.
Enganei-me, tenho que dar um fio condutor a isto, não que seja primordial, mas para que fiques a saber tanto quanto eu e compreendas como tudo aconteceu.
A Ana faz anos, aliás, fez, porque é já dia 27 de Setembro, tivemos, a exemplo do ano anterior, a família toda aqui e, na hora de ir embora, aproveitei e fui com os meus pais a casa deles.
Encontrei, no sábado, umas pilhas para a minha lanterna e e fui munido para a luta com a noite, calções, t-shirt, chinelos de praia e lanterna, a minha companheira quase inseparável.
Ia à frente, iluminando o caminho, mas nem era preciso, a minha amiga Lua estava no seu esplendor, desconfio que esteja apaixonada, tal é o brilho que ostenta.
Deixei os meus pais em casa, fui ao computador que está lá para buscar uns ficheiros que precisava e antes de vir embora, fui dar-lhes um beijo de boa-noite à cama. É nestas alturas que parecem meus filhos.
Venho pelo caminho, iluminei apenas uma zona que tem algum mato, mas mesmo assim piquei-me.
Depois desliguei a lanterna, venho imbuído nos meus pensamentos, algo perdido em conjecturas, ideias e ideais, umas válidas e outras que são apenas lixo/ruído mental.
Parei para ver a Lua, fiquei com a sensação que me chamava, mas não, apenas respondeu ao meu apelo e, pela primeira vez, falou comigo. O que conversamos fica entre nós. Desculpa. Sabes que gosto muito de ti, sim, tu, que me lês agora como se estivesses por cima do meu ombro, mas o que a Lua me disse era apenas para mim, como será para ti quando ela te chamar.
As estrelas rodavam na noite, mas a Lua ficou parada, mesmo depois de conversar comigo. Quando eu estava prestes a vir embora, tentando habituar os olhos à escuridão depois de a olhar, ela disse-me:
- Espera.
Depois voltou-se para cima, como se falassem com ela, ficou contrafeita, mas decidida, resmungou entre dentes "eu sei, mas é só esta vez".
E, olhando agora para mim, convidou
- Queres vir?
Fiquei sem compreender o que me dizia, queria ir onde?
- Lá, mais perto das estrelas” e sorriu…
Embora desconfiado, confiando apenas no sorriso dela, respondi:
- Sim, disse-lhe e ela baixou, desceu à Terra:
- Agarra-te bem, sobe por mim - e, pela primeira vez, fui literalmente à Lua, colocando primeiro o pé direito numa pequena cratera, dei um impulso com o pé esquerdo, erguendo-me, agarrei com a mão direita o rebordo de uma outra cratera e fiquei com a mão esquerda a baloiçar, segurando a lanterna.
A Lua começou a subir, primeiro lentamente, depois mais rápido, fazendo-me balançar um pouco o que me assustou, teria sido sensato aceitar subir? Estava tão alto, as luzes da vila, da cidade, do país eram pontos bem mais pequenos que a luz da minha lanterna na noite mal escurecida.
- Larga-os…
Mas que me dizia ela? Se me largar caía e nem lanterna me valia.
- Não, larga-os, esses medos, confia em mim, desfruta a viagem - e deu uma risada, como se eu fosse uma criança traquina e ela se risse das minhas brincadeiras e rebuliços.
Que faria eu sem os meus medos? Tanta companhia me fizeram. Mas obedeci. Também não iria desobedecer a quem me segurava a uns milhares de metros de altura, não é?
Fiquei a olhar apenas para a Lua, o insólito facto de voar com ela, de ir pendurado pelo espaço, percorrendo o Sistema Solar.
Fiquei assombrado com a quantidade de planetas que ninguém conhece e que guardam mais vida do que mil vezes a vida da Terra! Mas sobre isto, fez-me ela prometer que aguardaria o tempo necessário antes de escrever, até perceber o que era aquilo, a vida noutros locais, noutras vidas.
Disse-me que aquilo era apenas a nota introdutória ao livro da minha vida.
Enfim, cá entre nós, a Lua tem com cada coisa que não é mesmo deste mundo, creio que agora percebo porque surge ela apenas à noite, de dia ninguém a levaria a sério.
E voltamos, foi descendo suavemente, até me deixar perto do local onde me tinha encontrado com ela e, nesse momento, eis que chego à parte que te queria contar, ao descer escorreguei e fiquei pendurado pela mão direita, mas o rebordo da cratera não aguentou, deve estar gasto, creio que ela leva muitas mais pessoas, e não aguentando partiu.
Disse-me para não me preocupar, não era o primeiro a fazê-lo, mas quando ela subiu e retomou o curso natural da sua viagem na noite vi, lá, em determinado momento da sua rotação, falta-lhe um bocado, um bocado que não sendo enorme é visível a olho nu.
Não estranhes, não chames ninguém, sinto-me um pouco envergonhado por ser tão desastrado e ter arrancado um pouco de Lua, desculpa.
2007-09-20
Guarda-me o sonho
Entrego-me,
nos teus braços meu sonho
a quem um dia chamei filho.
Embala-o,
adormece-o ao som da magia
e das estrelas,
afaga-o com os restos do meu amor
pois a paisagem dos meus olhos
está agora vazia.
Dá-lhe o meu sorriso,
saiba ele que um dia alguém o amou,
com a força da vida
e a ternura
do crepitar das lareiras em noite de Inverno.
E quando ele crescer,
de criança a florir
a rugas de candura a viver,
diz que o amei
mais que um infinito
escondido
na algibeira de uma criança.
Nas sombras despontadas
da árvore dos medos,
entrega-lhe o meu nome
para que saiba, então,
não existe horizonte mais longínquo
que um sonho não vivido
na palma da tua mão...
nos teus braços meu sonho
a quem um dia chamei filho.
Embala-o,
adormece-o ao som da magia
e das estrelas,
afaga-o com os restos do meu amor
pois a paisagem dos meus olhos
está agora vazia.
Dá-lhe o meu sorriso,
saiba ele que um dia alguém o amou,
com a força da vida
e a ternura
do crepitar das lareiras em noite de Inverno.
E quando ele crescer,
de criança a florir
a rugas de candura a viver,
diz que o amei
mais que um infinito
escondido
na algibeira de uma criança.
Nas sombras despontadas
da árvore dos medos,
entrega-lhe o meu nome
para que saiba, então,
não existe horizonte mais longínquo
que um sonho não vivido
na palma da tua mão...
2007-09-18
Cordas
Tenho as mãos frias,
vazias,
num sorriso que desponta na madrugada.
Percorro-te quando as tuas cordas ondulam,
onde o teu trinido
e dedilhar
me fazem chorar...
vazias,
num sorriso que desponta na madrugada.
Percorro-te quando as tuas cordas ondulam,
onde o teu trinido
e dedilhar
me fazem chorar...
Entre estrelas
Escrevo
no verso do amor,
nos sulcos das tuas letras,
entre palavras
que me trouxeram
aqui,
ao vai-vem da vida.
no verso do amor,
nos sulcos das tuas letras,
entre palavras
que me trouxeram
aqui,
ao vai-vem da vida.
2007-09-17
Dois palmos de terra
O vento,
uma margem de um livro,
um regaço de mãe saudade,
uma nuvem sorridente,
quanto mede a ilusão?
Sei-te colorida,
nas tardes de Outono
em que o feno cheira a amor
e as folhas caídas,
mortas,
fermentam nos olhos uma flor.
Há pessoas
sem haver
que vivem num eterno Inverno,
amordaçadas
pelo sussurro da futilidade,
que me chamam
bruxo
e sonhador,
que pensam o mundo
em dois palmos de terra
numa vazia herdade.
Sono,
é nome de entrada
e saída
da vida que adormece,
é visita
que mora atrás das nuvens,
é eterno vagabundo
numa estrela sem dono.
O vento,
um livro numa margem,
saudade de um regaço de mãe,
sorrir para uma nuvem
onde mora a paixão.
Cabe muito,
muito mais,
em cada suspiro
que canto na palma da minha mão.
uma margem de um livro,
um regaço de mãe saudade,
uma nuvem sorridente,
quanto mede a ilusão?
Sei-te colorida,
nas tardes de Outono
em que o feno cheira a amor
e as folhas caídas,
mortas,
fermentam nos olhos uma flor.
Há pessoas
sem haver
que vivem num eterno Inverno,
amordaçadas
pelo sussurro da futilidade,
que me chamam
bruxo
e sonhador,
que pensam o mundo
em dois palmos de terra
numa vazia herdade.
Sono,
é nome de entrada
e saída
da vida que adormece,
é visita
que mora atrás das nuvens,
é eterno vagabundo
numa estrela sem dono.
O vento,
um livro numa margem,
saudade de um regaço de mãe,
sorrir para uma nuvem
onde mora a paixão.
Cabe muito,
muito mais,
em cada suspiro
que canto na palma da minha mão.
2007-09-15
Noites claras
Era invisível
o fio
fino
da mão que me manietava,
galopava de estrela em estrela
e caderno em caderno,
para quem o oscilar
da saudade
fosse foice
que rasga a seara a despontar.
Enquanto te escrevem
e violentam
as faces que ofereceste,
sento-te no meu joelho
e conto-te
histórias
e dias
que vivi, mas não sei onde as guardo.
Sei-te em mim
e em ti as noites claras
que se penduram nos meus olhos.
Choro-te só, assim,
quando me beija o vento e tu páras,
para me semeares (passados) sonhos.
o fio
fino
da mão que me manietava,
galopava de estrela em estrela
e caderno em caderno,
para quem o oscilar
da saudade
fosse foice
que rasga a seara a despontar.
Enquanto te escrevem
e violentam
as faces que ofereceste,
sento-te no meu joelho
e conto-te
histórias
e dias
que vivi, mas não sei onde as guardo.
Sei-te em mim
e em ti as noites claras
que se penduram nos meus olhos.
Choro-te só, assim,
quando me beija o vento e tu páras,
para me semeares (passados) sonhos.
2007-09-10
Para lá do que vejo
"Para lá do que vejo" é o nome da minha primeira (e talvez única) aventura literária.
É um pequeno livro com alguns poemas, alguns dos quais estão neste blog (não inclui os mais recentes). Tem capa dura, o que lhe dá uma rigidez que nunca consegui imprimir nos meus poemas.
A data de lançamento está a ser cogitada, mas eu gostaria que fosse para amigos e pouco mais.
A editora (a quem comprei os livros, claro) está já a aceitar encomendas no site, ainda antes do mesmo entrar em circuito comercial.
Se quiserem encomendar, podem fazê-lo no site da editora, basta acederem a www.corposeditora.com, pesquisar "José Miguel Gomes" e, lá, encomendarem os que quiserem.
Obrigado por terem comentado, apesar de gostar de escrever, os vossos comentários ajudaram a que decidisse passá-los para outro registo. E assim nasceu um sonho, pequeno ou grande é meu e, agora, quero compartilhá-lo convosco.
Fiquem bem.
É um pequeno livro com alguns poemas, alguns dos quais estão neste blog (não inclui os mais recentes). Tem capa dura, o que lhe dá uma rigidez que nunca consegui imprimir nos meus poemas.
A data de lançamento está a ser cogitada, mas eu gostaria que fosse para amigos e pouco mais.
A editora (a quem comprei os livros, claro) está já a aceitar encomendas no site, ainda antes do mesmo entrar em circuito comercial.
Se quiserem encomendar, podem fazê-lo no site da editora, basta acederem a www.corposeditora.com, pesquisar "José Miguel Gomes" e, lá, encomendarem os que quiserem.
Obrigado por terem comentado, apesar de gostar de escrever, os vossos comentários ajudaram a que decidisse passá-los para outro registo. E assim nasceu um sonho, pequeno ou grande é meu e, agora, quero compartilhá-lo convosco.
Fiquem bem.
2007-09-08
Obrigado
Sabes, escrevo, leio comentários e todos, mas mesmo todos, conseguem alegrar-me, mostram-me um pouco daquilo que eu desejo transmitir e que só sei se "chegou" com o vosso feedback.
Ao longo deste tempo nunca cheguei a dizer-te, ao ouvido, para que mais ninguém ouça e as palavras não percam a força e intensidade ao tocarem no vento, a palavra "Obrigado".
Obrigado pelos comentários e o carinho com que sinto cada letra. É bom. É muito bom.
Ao longo deste tempo nunca cheguei a dizer-te, ao ouvido, para que mais ninguém ouça e as palavras não percam a força e intensidade ao tocarem no vento, a palavra "Obrigado".
Obrigado pelos comentários e o carinho com que sinto cada letra. É bom. É muito bom.
2007-09-07
Disclaimer
Olá, tudo bem?
Ao longo destes anos que tenho escrito aqui, creio nunca ter criado um disclaimer, um elucidar sobre este blog, o que pretendo, a razão do nome e mesmo o porquê do que escrevo e o que tento transmitir.
Agora não posso, apenas porque as letras ficaram do lado de lá da janela, recusam-se entrar no escritório, creio preferirem ir à varanda e olhar as pessoas que passam, em busca de histórias que as acompanham e, assim, namorarem outras letras por momentos, mesmo que apenas as minhas palavras as vejam e nem mesmo eu as conheça. Começa por ser assim, as minhas palavras vêm histórias que não vejo e só depois de elas me descerem aos dedos, letra a letra, e escreverem num papel a sua história é que tenho contacto com o que elas viram.
Escrevo essencialmente deitado, sobre o meu lado esquerdo, com a almofada dobrada para ficar com a cabeça mais alta, mão esquerda a segurar o caderno e a mão direita vergada ao peso das palavras. Geralmente a Ana está a dormir e quando as palavras me cansam os sentidos, as mãos dela sentem-no e repousam sobre as minhas costas, ajudando ao longe as minhas mãos.
Os poemas saem em geral de um só trago, sem grandes exercícios estilísticos à posteriori. Curiosamente e como escrevo momentos antes de dormir, na maioria das vezes não recordo o que escrevi e no dia seguinte rio-me sozinho ao ler, por vezes no trânsito, outras vezes ao tomar o pequeno-almoço.
Dificilmente escrevo textos "corridos" (é só para não escrever prosa) manualmente, quando alguma história me surge nos/aos olhos, pego num caderninho e anoto algumas palavras que, mais tarde, permitirão descer ao arquivo que tenho no coração, seleccionar a história e escrevê-la no computador... Inevitavelmente, tenho muitas histórias arquivadas que nunca escrevi por várias razões, as que mais saltam à (minha) vista são a preguiça (este vírus estival) e o facto de algumas delas necessitarem de um tempo de maturação, do aconchego das batidas do coração e do calor da alma... Tenho histórias escritas cujos apontamentos datam de quando era criança e ia a pé para a escola, quando as árvores eram gigantes e estas histórias surgem sem eu fazer nada por isso, basta passar por uma árvore conhecida, conversar um pouco et voilá, renasce uma história.
Tenho noção da importância do que cada um faz e, por isso mesmo, tento em todas as minhas palavras transmitir algo que deixe mensagem, para mim essencialmente e também para os outros. Sinto que, por vezes, o que escrevo são migalhas no caminho, para não me perder e saber voltar atrás nos meus percursos.
Não tenho pejo em admitir tristeza, frustração, sempre referindo-me a mim mesmo, sem me esconder atrás de máscaras ou de pseudónimos, se eu não admitir em mim aquilo que sou e sinto, nunca serei eu mesmo e se eu não for eu, que será de mim?
Olho a vida muitas vezes como um conto de fadas, um mundo encantado cheio de princesas, castelos e dragões e essa, a Vida, é a maior história que jamais escreverei.
Creio que nunca avisei, neste blog, que a leitura do mesmo pode provocar fantasias e ocasionalmente um sorriso.
Aliás, quero mesmo isso, um sorriso de quem lê.
Serenismo não é o que sou.
Serenismo é um termo que gosto, foi proposto para exemplificar uma característica de alguém permanentemente sereno, ciente de tudo o que o rodeia e que perante toda a turbulência exterior consegue manter a calma, a compostura, a integridade consciente e responsável. Quando "digo" responsável é apenas para diferenciar das pessoas cuja calma é mantida porque fogem da turbulência.
Por isso, serenismo, é uma característica que me fascina e cujo exercício tento, ainda que ingloriamente porque, perdoem-me, sou humano e ainda me indigno, frustro, enervo-me, mas acima de tudo sorrio e acredito que o ser humano, eu e tu, pode chegar a ser mais Humano.
A leitura deste blog pode causar sérios distúrbios sociais. Ainda há quem olhe com desconfiança para quem sorri.
Ao longo destes anos que tenho escrito aqui, creio nunca ter criado um disclaimer, um elucidar sobre este blog, o que pretendo, a razão do nome e mesmo o porquê do que escrevo e o que tento transmitir.
Agora não posso, apenas porque as letras ficaram do lado de lá da janela, recusam-se entrar no escritório, creio preferirem ir à varanda e olhar as pessoas que passam, em busca de histórias que as acompanham e, assim, namorarem outras letras por momentos, mesmo que apenas as minhas palavras as vejam e nem mesmo eu as conheça. Começa por ser assim, as minhas palavras vêm histórias que não vejo e só depois de elas me descerem aos dedos, letra a letra, e escreverem num papel a sua história é que tenho contacto com o que elas viram.
Escrevo essencialmente deitado, sobre o meu lado esquerdo, com a almofada dobrada para ficar com a cabeça mais alta, mão esquerda a segurar o caderno e a mão direita vergada ao peso das palavras. Geralmente a Ana está a dormir e quando as palavras me cansam os sentidos, as mãos dela sentem-no e repousam sobre as minhas costas, ajudando ao longe as minhas mãos.
Os poemas saem em geral de um só trago, sem grandes exercícios estilísticos à posteriori. Curiosamente e como escrevo momentos antes de dormir, na maioria das vezes não recordo o que escrevi e no dia seguinte rio-me sozinho ao ler, por vezes no trânsito, outras vezes ao tomar o pequeno-almoço.
Dificilmente escrevo textos "corridos" (é só para não escrever prosa) manualmente, quando alguma história me surge nos/aos olhos, pego num caderninho e anoto algumas palavras que, mais tarde, permitirão descer ao arquivo que tenho no coração, seleccionar a história e escrevê-la no computador... Inevitavelmente, tenho muitas histórias arquivadas que nunca escrevi por várias razões, as que mais saltam à (minha) vista são a preguiça (este vírus estival) e o facto de algumas delas necessitarem de um tempo de maturação, do aconchego das batidas do coração e do calor da alma... Tenho histórias escritas cujos apontamentos datam de quando era criança e ia a pé para a escola, quando as árvores eram gigantes e estas histórias surgem sem eu fazer nada por isso, basta passar por uma árvore conhecida, conversar um pouco et voilá, renasce uma história.
Tenho noção da importância do que cada um faz e, por isso mesmo, tento em todas as minhas palavras transmitir algo que deixe mensagem, para mim essencialmente e também para os outros. Sinto que, por vezes, o que escrevo são migalhas no caminho, para não me perder e saber voltar atrás nos meus percursos.
Não tenho pejo em admitir tristeza, frustração, sempre referindo-me a mim mesmo, sem me esconder atrás de máscaras ou de pseudónimos, se eu não admitir em mim aquilo que sou e sinto, nunca serei eu mesmo e se eu não for eu, que será de mim?
Olho a vida muitas vezes como um conto de fadas, um mundo encantado cheio de princesas, castelos e dragões e essa, a Vida, é a maior história que jamais escreverei.
Creio que nunca avisei, neste blog, que a leitura do mesmo pode provocar fantasias e ocasionalmente um sorriso.
Aliás, quero mesmo isso, um sorriso de quem lê.
Serenismo não é o que sou.
Serenismo é um termo que gosto, foi proposto para exemplificar uma característica de alguém permanentemente sereno, ciente de tudo o que o rodeia e que perante toda a turbulência exterior consegue manter a calma, a compostura, a integridade consciente e responsável. Quando "digo" responsável é apenas para diferenciar das pessoas cuja calma é mantida porque fogem da turbulência.
Por isso, serenismo, é uma característica que me fascina e cujo exercício tento, ainda que ingloriamente porque, perdoem-me, sou humano e ainda me indigno, frustro, enervo-me, mas acima de tudo sorrio e acredito que o ser humano, eu e tu, pode chegar a ser mais Humano.
A leitura deste blog pode causar sérios distúrbios sociais. Ainda há quem olhe com desconfiança para quem sorri.
2007-09-06
Descansa
Encosta em mim o teu cansaço,
deixa que o cabelo caia
ao ritmo de uma lágrima.
Aguarda-te o sono no meu regaço
e três gramas de alegria,
vem,
vira a página à tristeza.
Lê-me nos olhos
as vidas que dançamos,
as nuvens que beijamos
nos sorrisos espartanos.
Leva-te pelo sonho
além,
adiante do que não será
nas asas
que te voam nas invisíveis cãs.
Esgrimo a sombra e vultos
com silêncios
ruidosos,
deito-te no leito
que nasce na palma da mão,
a minha,
antes de te afagar
tinha nome
solidão.
Banha-te a noite
e gotículas de luz
na face.
Nasce a vida trémula e luzidia
porque o Universo chorou,
ao saber que de teu olhar
um sorriso
fugia...
deixa que o cabelo caia
ao ritmo de uma lágrima.
Aguarda-te o sono no meu regaço
e três gramas de alegria,
vem,
vira a página à tristeza.
Lê-me nos olhos
as vidas que dançamos,
as nuvens que beijamos
nos sorrisos espartanos.
Leva-te pelo sonho
além,
adiante do que não será
nas asas
que te voam nas invisíveis cãs.
Esgrimo a sombra e vultos
com silêncios
ruidosos,
deito-te no leito
que nasce na palma da mão,
a minha,
antes de te afagar
tinha nome
solidão.
Banha-te a noite
e gotículas de luz
na face.
Nasce a vida trémula e luzidia
porque o Universo chorou,
ao saber que de teu olhar
um sorriso
fugia...
2007-09-04
Desfolhada de noites
Folheei-te tantas vezes que sou mais livro
nas tuas palavras.
Desfolho-te pleonasticamnte,
folha a folha,
e cubro-me com sonetos.
Tricoteio um Sol num céu azul
com os teus parágrafos,
pinto-lhes o vento frio
das manhãs de Inverno
que sopra ao virar da tua lombada.
Deixo que o sono venha
e me alcance,
sem eu reparar,
quando nas minhas mãos moram letras perdidas,
saltadas
das tuas folhas
que fazem minha redoma.
Nunca te pertenceram,
adormeceram
nos dedos
e acordaram
quando friccionadas em veneração
(quem és, espécie de ilusão?)
às palavras invisíveis,
que agregam e escondem os olhares
sem dono.
nas tuas palavras.
Desfolho-te pleonasticamnte,
folha a folha,
e cubro-me com sonetos.
Tricoteio um Sol num céu azul
com os teus parágrafos,
pinto-lhes o vento frio
das manhãs de Inverno
que sopra ao virar da tua lombada.
Deixo que o sono venha
e me alcance,
sem eu reparar,
quando nas minhas mãos moram letras perdidas,
saltadas
das tuas folhas
que fazem minha redoma.
Nunca te pertenceram,
adormeceram
nos dedos
e acordaram
quando friccionadas em veneração
(quem és, espécie de ilusão?)
às palavras invisíveis,
que agregam e escondem os olhares
sem dono.
2007-09-03
Apenas porque...
Deixo que a tinta escorra
para a outra face
do papel.
para a outra face
do papel.
Grafo as palavras
num sentido de catarse
de tela
no pincel.
num sentido de catarse
de tela
no pincel.
Contra-mão
as palavras não proferidas
teimam em ferir,
morrem ainda
os sorrisos
por sorrir.
São-no
como o nada
de umas letras no espelho,
fúteis e banais
como um rubor
jamais vermelho.
Planaram solidamente
na agrura
do fingimento,
sorriram da noite escura
apenas porque,
apenas porque…
Porque almejam o vazio
pensando alcançar-te
firmamento…
Estatelam-se
nas minhas mãos
vidas que carreguei
em sonhos que pari,
varro os cacos da ilusão
que povoam o polvilhado
areal,
que faço meu chão.
Não nasceu ainda o dia
e já eu sou madrugada,
percorro a grafia
da outra face,
talvez errada,
talvez fria,
enquanto o respirar impele o peito ao céu
o retrato vive
por quem viveu.
Viro a página,
tenho letras marcadas
onde julguei existir um espaço em branco.
Subo os degraus,
tenho órbitas vazias
onde julguei encontrar um sorriso franco.
Apenas porque sonho…
2007-08-29
Uivos
Senti o afago lento,
demorado,
das letras sob mim.
Deitei-me num leito só meu,
onde repousam lágrimas
e sorrisos
que tenho para dar.
Que horas são?
O sonho veio leve,
tremeu um pouco
e gemeu
nos frios lençóis,
já as palavras dormiam
encostadas
ao cheiro morno de um papel
virgem,
que luzes soluçam
entre as árvores
que as cingem?
Devolve-me à noite,
aos passos no escuro,
ouve-me nos uivos do teu ser
para que saibas,
ou esqueças
que no fundo dos meus olhos
está vida,
a morrer...
demorado,
das letras sob mim.
Deitei-me num leito só meu,
onde repousam lágrimas
e sorrisos
que tenho para dar.
Que horas são?
O sonho veio leve,
tremeu um pouco
e gemeu
nos frios lençóis,
já as palavras dormiam
encostadas
ao cheiro morno de um papel
virgem,
que luzes soluçam
entre as árvores
que as cingem?
Devolve-me à noite,
aos passos no escuro,
ouve-me nos uivos do teu ser
para que saibas,
ou esqueças
que no fundo dos meus olhos
está vida,
a morrer...
2007-08-28
A sustentável leveza do não ser
Construo-te com tufos de vento,
a tua casa é o vazio
onde a vida é majestade,
teu trono
o infinito
que descansa no horizonte.
Estas palavras
cansadas
perderam a vontade.
Quanto pesam duas lágrimas?
a tua casa é o vazio
onde a vida é majestade,
teu trono
o infinito
que descansa no horizonte.
Estas palavras
cansadas
perderam a vontade.
Quanto pesam duas lágrimas?
2007-08-24
Perfume(i)
Abracei-te
quando o tempo parou para descansar,
os caminhos cruzavam-se
nos sorrisos,
os céus e as árvores dormiam
à sombra
de uma nuvem.
Que toque é esse?
Bailaram
as partículas do teu manto
quando acordaste,
braços acenavam
em despedida
antes de chegares a lado algum.
As contas do colar
pendiam oscilantes no vazio,
o cabelo afagava o vento
e na palma da mão
ficam as rugas
depois dos rios secarem.
Dá-me o ronronar dos teus portos de abrigo
e soltarei as velas da minha ilusão,
para que sintas o perfume das estrelas,
comigo...
quando o tempo parou para descansar,
os caminhos cruzavam-se
nos sorrisos,
os céus e as árvores dormiam
à sombra
de uma nuvem.
Que toque é esse?
Bailaram
as partículas do teu manto
quando acordaste,
braços acenavam
em despedida
antes de chegares a lado algum.
As contas do colar
pendiam oscilantes no vazio,
o cabelo afagava o vento
e na palma da mão
ficam as rugas
depois dos rios secarem.
Dá-me o ronronar dos teus portos de abrigo
e soltarei as velas da minha ilusão,
para que sintas o perfume das estrelas,
comigo...
Vi(m)ver
Há determinadas coisas em que acreditamos que são como histórias subliminares em livros desconhecidos. O livro existe, mas a história em que acreditamos está acima do livro.
Quando o mundo que vivo me sufoca e todos os caminhos parecem ser o início de uma íngreme montanha, eu paro, sento-me, pouso os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Fecho os olhos e vejo a vida como um longo caminho cujo fim parece estar sempre além da próxima curva. Nesse caminho sou uma nova pessoa a cada novo troço, olhando o chão com diferentes tipos de piso e com novas companhias a cada caminhada, mas sempre com as mesmas árvores, céu e nuvens.
Vou percorrendo o caminho, esquecendo quem fui no troço anterior, lembrando-me de mim e de outros apenas em sonhos e se, por acaso do caminho, encontro quem fui, então esse eu transforma-se em mim mesmo eu, bem, eu vou percorrendo o caminho, na esperança de ser árvore, céu e nuvem simultaneamente.
É tao bom viver vários troços ao longo do caminho e saber que também eu sou sombra de árvore para as nuvens que bailam no céu dos teus olhos.
Vivo-te e não sabia.
Quando o mundo que vivo me sufoca e todos os caminhos parecem ser o início de uma íngreme montanha, eu paro, sento-me, pouso os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Fecho os olhos e vejo a vida como um longo caminho cujo fim parece estar sempre além da próxima curva. Nesse caminho sou uma nova pessoa a cada novo troço, olhando o chão com diferentes tipos de piso e com novas companhias a cada caminhada, mas sempre com as mesmas árvores, céu e nuvens.
Vou percorrendo o caminho, esquecendo quem fui no troço anterior, lembrando-me de mim e de outros apenas em sonhos e se, por acaso do caminho, encontro quem fui, então esse eu transforma-se em mim mesmo eu, bem, eu vou percorrendo o caminho, na esperança de ser árvore, céu e nuvem simultaneamente.
É tao bom viver vários troços ao longo do caminho e saber que também eu sou sombra de árvore para as nuvens que bailam no céu dos teus olhos.
Vivo-te e não sabia.
2007-08-23
Apelo
Enquanto a música embalava
umas mãos
vazias,
meus olhos não te viam,
sequer sentiam
o prateado socalco da vida.
Umas paredes sujas do respirar,
bafientas
e altas,
suportando os ponteiros de um relógio
hirto demais
cujas horas não respeitavam.
Há montes que nunca me escalaram,
pernoitaram num quente forno
humano,
sucumbindo então à incerteza
do caminho
e um fumegante café,
quase inodoro.
Entre vírgulas e fogos
existem nomes e abraços
que se chamam pelo beijar.
Sentes o apelo?
umas mãos
vazias,
meus olhos não te viam,
sequer sentiam
o prateado socalco da vida.
Umas paredes sujas do respirar,
bafientas
e altas,
suportando os ponteiros de um relógio
hirto demais
cujas horas não respeitavam.
Há montes que nunca me escalaram,
pernoitaram num quente forno
humano,
sucumbindo então à incerteza
do caminho
e um fumegante café,
quase inodoro.
Entre vírgulas e fogos
existem nomes e abraços
que se chamam pelo beijar.
Sentes o apelo?
2007-08-22
Areal
A luz pousava-te nas mãos
ainda antes de seres dia,
enquanto eu era noite
os teus olhos eram como vida
que me sorria.
Tenho saudades de não ter,
o encanto desmistificado
da neblina
sob o teu ser.
ainda antes de seres dia,
enquanto eu era noite
os teus olhos eram como vida
que me sorria.
Tenho saudades de não ter,
o encanto desmistificado
da neblina
sob o teu ser.
2007-08-21
Papagaio de poemas
Saio fora do escritório, noto pela primeira vez que está um vento mais forte do que o usual.
Habituo-me às condições atmosféricas pouco usuais para a época, principalmente quando a temperatura é mais baixa que o normal (eu e o frio...).
Entro novamente no escritório, tinha-me esquecido do caderno onde escrevo alguns poemas. Ao ver-me entrar, o caderno entra em sobressalto, sabe que vou levá-lo comigo, agita-se tentando abrir-se sozinho. Pego nele e encosto-o a mim, acaricio-o, percorro os poucos metros até à porta e pouso-o na palma da minha mão. O vento abre-o e folheia-o, as folhas soltam-se do caderno e juntam-se no ar, formam um aglomerado de poemas, as rimas rimam-se e agarram-se às virgulas, os pontos-finais, em minoria face às reticências, unem-se e formam um desenho, um coração alado.
O vento pegou nele com carinho, ergueu-o e convidou-me a voar...
Segui pelo céu, a princípio com medo, os pés sentiram a liberdade das nuvens e eu nem me atrevi a abrir os olhos, porque é quando os sonhos nos fazem voar, que as mais belas imagens se gravam na palma das mãos.
Habituo-me às condições atmosféricas pouco usuais para a época, principalmente quando a temperatura é mais baixa que o normal (eu e o frio...).
Entro novamente no escritório, tinha-me esquecido do caderno onde escrevo alguns poemas. Ao ver-me entrar, o caderno entra em sobressalto, sabe que vou levá-lo comigo, agita-se tentando abrir-se sozinho. Pego nele e encosto-o a mim, acaricio-o, percorro os poucos metros até à porta e pouso-o na palma da minha mão. O vento abre-o e folheia-o, as folhas soltam-se do caderno e juntam-se no ar, formam um aglomerado de poemas, as rimas rimam-se e agarram-se às virgulas, os pontos-finais, em minoria face às reticências, unem-se e formam um desenho, um coração alado.
O vento pegou nele com carinho, ergueu-o e convidou-me a voar...
Segui pelo céu, a princípio com medo, os pés sentiram a liberdade das nuvens e eu nem me atrevi a abrir os olhos, porque é quando os sonhos nos fazem voar, que as mais belas imagens se gravam na palma das mãos.
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