2007-03-06

Rain man... away

Era capaz de ficar para sempre a ouvir a chuva cair no telhado, com os olhos fechados, tremendo até que a roupa secasse no corpo com a ajuda de uma lareira e sentindo, arrepiado, as gotas que caíam do cabelo molhado.
Eu e a chuva. 
Dá-me conforto os dias de chuva e vento, como hoje, talvez de forma egoísta, aceito, porque muitas e muitas pessoas não têm abrigo.
Era capaz de ficar sempre feliz, sem me submeter ao que chamam de vida e aos seus caprichos, aos seus ventos de agoiro que trazem na lapela sorrisos falsos.
Era capaz de ser capaz de sorrir quando me dessem palmadinhas nas costas depois de eu contar um sonho absurdo de realização pessoal.
Era capaz de ficar a olhar despreocupado à injustiça que varre a humanidade de uma ponta à outra da sua divisão maior, a sinceridade.
Tantas e tantas coisas que eu era capaz de ser e fazer, mas que não faço, porque nem sempre chove, nem sempre tenho alpendres e ventos uivantes, nem sempre me pedem carinho os animais com que me cruzo, nem sempre os meus sonhos afloram nadando na retina.
Não era capaz de ser capaz de sorrir no quotidiano de quem labuta por uma côdea, porque os olhos de quem não sorri pesam-me na face e na alma.
Naquilo que chamam de viver, sou eu a nascer.

2007-03-04

Poemas

A Miosotis comentou, há pouco tempo, que era a primeira vez que se lembrava de ver poesia neste blog... Pois... Há mais, muito mais, neste blog e em cadernos vários, fragmentados em cadeias de bits e bytes...

Curiosamente talvez por ser, na maior parte das vezes, pessoa de poucas falas gosto de escrever poesia... Ou algo parecido... Gosto de deixar as palavras suspensas, paradas numa encruzilhada de uma qualquer estrada de montanha, para que quem lê possa levá-las em qualquer sentido e direcção...

Também já deixei por aqui ensaios para contos desconexos, que têm um sequência apenas porque os escrevi sequentemente e não consecutivamente...
Estes ficam antes dos poemas porque são menos:
(I) O chapéu
(II) O Carteiro
(III) A estrela

Deixo links para alguns poemas que estão neste blog (pelo menos até 14 de Setembro de 2005)

Cold night blues
Caronte's sons
Das palavras que vibram
Esquecimento
Porque não sou
Rugas do dia
Respirar
Em olhos de sonhar
Suspiros na noite
Let me be
Até já
Quatro de um
Hipnagogia
Náufragos
Os sons de quando chove
Mais
Sorrisos suspensos
Sorrisos escorpiões
Sorrisos amordaçados
Tardes diluídas
Pause
Canoa doutra imensidão
De nossa alma (texto e poema)
Noites tresmalhadas
Folhas vagas
Acordar
As últimas palavras
14:16 PM
2:16 PM
Sorrisos de gente simples
Dourado
Ocaso
A aguardar
Para quê um título
Formas de olhar
Repouso
Pedras revoltas
Menina quanto custa isto?
Palavras incolores
Um palmo apenas
Sobre os rostos de fantasmas solitários
Visão de vivos e idos fantasmas
Quando o tempo morre em mim
Quantos sorrisos mais?
Brando e benevolente
Teu pai, teu filho
As mentes mortiças
Adormeço
Estrias na alma
Enquanto a vida te rodeia
Quando não eram pequenos
Do que voltou
O facto do nada
Ser onde não estar
Um desenho da alma
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro

Se, eventualmente, conheceres algum editor, mostra-lhe isto, ok? Pode ser que goste :)

Fica bem.

2007-02-26

Rain in a sunny day

Chovia tanto que ele pensava morar no fundo do mar, separado do infinito azul líquido por uma fina tela de vidro.
O vento, quando uivava, parecia um navio e, assim, fechava os olhos e imaginava-se num barco, daqueles pequenos, onde não cabe um remo, apenas existe um pequeno espaço para um punhado de sonho e ilusão.
Quando a ondulação o embalava ele deixava-se adormecer, para logo depois acordar, dentro do mar que é o peito de quem sonha. 
E assim, enquanto dormia, o sonho e ilusão saltavam, como peixe acabado de pescar, e caíam novamente ao mar, deixando-se cair ao sabor da corrente, para que outros que não dormissem os vissem lá no abismo onde habitavam e pudessem, também, sonhar.
Acordava e via-se no barco, ondulando, mas no momento em que olhava para o seu pequeno barco e não via o seu punhado de sonho e ilusão, acordava. 
Para se ver encostado ao vidro, contra o qual o vento atirava pequenas gotas de chuva. 
E estas, cansadas, escorregavam e contavam-lhe baixinho: “sonha, para que os que não dormem possam encontrar alguns sonhos”.

2007-02-20

Cold night blues

Fogem de mim,
os olhares da noite
e as mãos frias,

o aceno fugidio da mentira

e a lágrima

que já ida
nem de mim me tira.


A névoa das pessoas

e máscaras,

a chuva que inunda
a noite,

pintada de verdade,
quando cair no vazio
verá,
uns olhos cavados
e mãos,
em desespero,
agarrando a vida
que a outros tirou...

2007-02-03

Até um dia destes

Olá. 
Parece-me que é a última vez que venho aqui, ao blog, para escrever. 
Acho que me cansei de cultivar o lado bucólico da vida neste espaço virtual. 
Inevitavelmente, nada é evitável, digamos que faz parte da vida sermos assim, uma sucessão de dias e horas, segundos e noites, sonhos e pesadelos. 
Confesso que esta deve ter sido a primeira vez que me sentei em frente ao computador sem um motivo, ainda que muito distante do meu fio condutor, para escrever. 
Sentei-me e assim fiquei, a olhar, sem qualquer história para escrever, sem qualquer sonho misturado com música e flores que nascem nas encostas das estrelas. 
Orgulho-me de continuar, por aí fora, sendo eu mesmo, com mais ou menos pontapés na boca, mas escrevendo em meu nome, comigo e para mim. 

2007-01-29

Cubos de todas as cores

Chego à tua beira, tens os olhos cansados e nublados por sonhos que nunca viveste e que teimam em bailar na tua retina. Olho-te de cima, como há nunca o fazia, e conto-te coisas simples, como a finta do Quaresma ou a primeira final do Porto na Taça dos Campeões. Ou as novas descobertas sobre o ADN e a Física Quântica, falo-te das teorias de conspiração e ris-te, é capaz, é capaz. Conto-te novos sonhos e projectos, como quando me ensinaste a ler com os cubos em madeira, onde desenhaste letras de várias fontes e tamanhos. E nestes momentos já os teus olhos brilham e as sombras que nublam os teus sonhos dispersam-se.
Nada mais te faço que semear a mesma alegria com que me ensinaste, mesmo sem o saberes. E assim sou feliz.

2007-01-24

Caronte's sons

Vestia de preto
a noite
quando morreu nos meus olhos.

As escadas cadentes
acompanham o ritmo das sombras
e sorriem,
os ruídos do silêncio ficam impunes
enquanto os punhos,
cerrados em raiva,
adormecem os sonhos
no ameno travo do malte.

A distância,
feliz,
recolhe-se à falsidade
verosímil
que amputa o horizonte,
para que os que nascem na barca
sejam os filhos da vida
perfilhados por Caronte.

Petrifica-me a mão que não vejo,
porque morreu-me nos olhos
o desejo...

2007-01-22

Das palavras que vibram

Enquanto os sons ecoam
voam e molham-me
a alma,
a ternura da noite que me abraça
adormece
o calor
nas costas da vida,
onde sonha.

Longe as mãos
e o dourado deambular,
de um sorriso
que outro eu quer abraçar,
das palavras
que vibram apenas no palato,
da frase que codifica
o amplo
deserto, das passadas águas
sob pontes tantas,
resta apenas o sal
que água leva, e vai
à sílaba afluente
de cristalina...

2007-01-19

Esquecimento

Há muito minhas mãos esqueceram
e meus olhos voaram,
dos caminhos nublados
às estradas,

então,
desconhecidas

outros sentidos
acordaram.


Nada do que vagueie é vago,

nem as sombras fugidias
que dançam

nas mãos,

tão pouco a memória

que sorri

na calada da noite,
quão distantes

os senãos.


As metáforas

subjugam o sentido
do olhar,

enquanto as mãos ainda
afagam

os acasos da vida,
os ocasos esmaecidos
bailam
no compasso
lento
do deambular
no infinito,

deste segundo
um momento...

2007-01-12

Feather theme

Títulos e linhas, palavras e sentidos, tudo armazenado em vários ficheiro de texto que, invariavelmente, morrem sozinhos, esquecidos no computador. Isto é fruto de padecer de um mal, o de falar comigo mesmo, o que faz com que aquilo que gostaria de escrever fosse dito e, assim, já não escrito.

Chego perto da Farrusca, deitada ao Sol, pouco faz além de abanar o rabo contra a parede, à espera de um afago. Falo-lhe e ela levanta a cabeça, à espera da habitual carícia no pescoço. Por vezes nem falo, fico a olhar para ela a sorrir e ela, sem que eu me mexa, levanta-se e encosta a cabeça às minhas pernas e fico, assim, ainda a sorrir, com os olhos fechados, partilhando com ela o prazer de estar ao Sol num dia de Inverno.

Esta minha característica contemplativa, faz com que me veja a passar por locais e olhar, reviver situações e emoções, como ontem. Apesar das mudanças impostas pelo tempo e o progresso em forma de asfalto de auto-estrada, encontrei uma escola primária onde vi o futuro em forma de olhares pequeninos e sonhos imensos. Fico a pensar onde andarão aqueles príncipes e princesas, será que cresceram muito? E de repente, quando passo lentamente pelo recreio da escola, na neblina e noite cerrada, vejo-os correr novamente, dizendo-me adeus com as mãos pequenas e os olhos gigantes de luz. Não há um episódio na vida que não me marque, parecem destinados a surpreender-me, parecem existir já, à espera apenas que eu dobre a esquina para assomarem aos meus olhos e eu, como criança, sorrio. Nessa escola, onde a professora era mesmo Professora Primária, e os alunos eram os sonhos, passei por momentos emocionantes. E, muitas vezes, esforçando-me para conter as lágrimas, sorri e agradeci a quem quer que seja que me proporciona ser feliz apenas por existir. Os desenhos tenho-os todos guardados, sei que um dia perecerão, mas os originais estão gravados no meu peito, armazenados na secção dos sentimentos, onde nada, nem o mais triste acordar pode remover. As letras que estão dentro são, cada uma, um infinito raio de Sol que ilumina todo e qualquer recanto da minha vida. As crianças. Nascem como estrelas cadentes.
Depois de sair daquela escola voltei lá apenas mais uma vez, apenas por visita, falei com a Professora, Patrícia de seu nome, e agora tenho pena de não ter ficado com contacto de mais professores e funcionários.
Não sei porque escrevo isto, todas as pessoas possuem, sei-o bem, momentos inesquecíveis, grandes ou pequenos, sonoros ou inaudíveis, visíveis ou apenas daqueles que se vêm com os olhos do coração, quando a mente dorme e os sentidos percorrem o espaço que nos separa da felicidade.

2006-12-19

Feliz Natal


Quem não está na minha lista de email, não recebeu o email, por isso aqui vai.

Que este Natal e Novo Ano que inicia, acima do consumismo tradicional, independentemente da nossa religião ou falta dela, possamos parar um pouco e perceber que os nossos passos na vida só fazem sentido se ecoarem noutros passos, que as nossas palavras podem ser mais que fonética, mas sim amizade sincera e despojada e que os nossos gestos podem reverberar de facto aquilo que somos.

Não estamos sozinhos… Estamos uns com os outros. Então que tal fazer do nosso interior um local melhor para habitarmos e também recebermos?

Desejo-vos tudo de bom,
Miguel Gomes

2006-12-15

Ameaça mortal

É de mim ou nós, seres-humanos (escrevo propositadamente com hífen, para não se confundir com o ser de existir, pois nós até existimos enquanto humanos, mas parece-me que somos menos humanos) vivemos a defendermo-nos de nós mesmos?

Escudamo-nos perante os outros, como se eles, os outros, nossos semelhantes em mais do que aparência física, mas em essência, fossem uma outra espécie mortal e mortífera (embora não pareça, são coisas diferentes, mortal pode ou não matar, mas mortífera mata mesmo, alguns só com o olhar), sanguinária e incompatível com a nossa presença neste mesmo cubículo a que uns chamam mundo…

É de mim ou parece que vivemos em realidades diferentes?

Não existe um único projecto para preservação deste planeta e de nós mesmos, enquanto habitantes da mesma “aldeia”.

Cá por mim, gosto de descobrir tempo para algumas coisas, como parar perto de um senhor com cara assustada, num Multibanco, ajudá-lo e ouvi-lo dizer: “não percebo muito destas coisas”, ou ainda “e porque é que alguém me ia roubar se soubesse o código?”. Ou ainda parar no trânsito para deixar passar outro carro e ainda ter tempo para trocar um sorriso.

Riqueza(s)

Dou por mim num pós-jantar, onde se discutem aplicações financeiras, planos poupança, reformas, seguros, etc.
Fiquei a saber que sou pobre. 
Eu, que pensava que a maior riqueza do ser humano estava à distância de um abraço.

2006-12-11

Pensamentos de Ghandi


"Nada tenho de novo para ensinar ao mundo. A verdade e a não-violência são tão antigas quanto as montanhas. Tudo o que tenho feito é tentar praticar as duas na escala mais vasta que me é possível. Assim fazendo, errei algumas vezes e aprendi com os meus erros. Toda a minha filosofia, se é que se pode dar este nome pretensioso, está contida no que tenho dito."

"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo."

"O amor e a verdade estão tão unidos entre si, que é praticamente impossível separá-los. São como as duas faces da mesma moeda."

"O amor é o meio, a verdade é o fim. Se usarmos o meio, cedo ou tarde chegaremos ao fim, à Verdade, a Deus."

"O caminho da paz é o caminho da verdade. Ser honesto é ainda mais importante do que ser pacífico. Na verdade, a mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo. Ele vai perceber, no curso de sua busca, que não tem necessidade de ser violento. Vai também descobrir que, enquanto houver nele o menor vestígio de violência, não conseguirá encontrar a verdade que está procurando."

"A não-violência não é somente um estado negativo que consiste em não fazer o mal, mas também um estado positivo que consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem nos faz mal."

"Podemos constatar (o amor) entre pai e filhos, entre irmãos, entre amigos. Mas temos de aprender a usar esta forma entre tudo que vive; no uso dela está o conhecimento de Deus. Onde existe amor, existe vida. O ódio leva à destruição."

"Tudo o que vive é teu próximo!"

"A não-violência nunca deve ser usada como um escudo para a covardia. É uma arma para bravos."

"Não vejo bravura nem sacrifício em destruir vida ou propriedade alheia."

"A não-violência não existe se apenas amamos aqueles que nos amam. Só há não-violência quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil assumir essa grande lei do amor, mas, todas as coisas grandes e boas não são difíceis de se realizar? O amor a quem nos odeia é o mais difícil de tudo; no entanto, com a graça de Deus, até mesmo essa coisa tão difícil se torna fácil de realizar, se assim quisermos."

"O teste maior da não-violência está no fato de não ficar qualquer rancor depois de um conflito não-violento, com inimigos transformando-se em amigos."

"A lei do amor pode ser melhor compreendida através das crianças."

"Se quisermos alcançar a verdadeira paz nesse mundo e se quisermos desfechar uma verdadeira guerra contra a guerra, temos de começar pelas crianças; se crescerem com sua inocência natural, não teremos que lutar; não teremos que tomar resoluções ociosas e infrutíferas, mas seguiremos do amor para o amor, da paz para a paz, até que finalmente todos os cantos do mundo estarão dominados pela paz e amor, pelo que o mundo inteiro está ansiando, consciente ou inconscientemente."

"O mundo está cansado de ódio."

"Se a corrida armamentista alucinada continuar, é inevitável que resulte em massacre como jamais ocorreu na história. Se restar um vitorioso, a própria vitória será uma morte em vida para a nação que emergir vencedora."

"A não-violência é a maior força a serviço da humanidade."

"Nesta era de maravilhas, ninguém dirá que uma coisa ou idéia não presta porque é nova. Dizer que é impossível porque é difícil não está de acordo com o espírito de nosso tempo. Coisas que jamais foram sonhadas estão sendo vistas diariamente, o impossível está a todo instante se tornando possível. Ficamos constantemente impressionados com descobertas espantosas no campo da violência. Mas afirmo que descobertas ainda mais espetaculares e aparentemente impossíveis serão feitas no campo da não-violência."

“O único tirano que aceito neste mundo é a voz interior, suave e serena.” -
- Mahatma Gandhi –

2006-12-04

Ruas

Antes de começar a fazer algum trabalho, tenho que colocar as paisagens que vejo no "papel", para poder dedicar-me com mais atenção às tarefas.
Este tempo, não o Natal, mas esta época. Hum. Que delícia, não só pelos chocolates, mas pela doçura das nuvens, chuva, frio e das paisagens que vejo.
Deixo o carro parado e percorro as ruas a pé, deixo que as ervas me molhem as calças e os pés fiquem molhados, deixo a terra ranger sob os meus passos e o guarda-chuva não consegue amparar-me de toda a chuva, o que faz que até as mãos que seguram o guarda-chuva fiquem molhadas.
Uma rajada de vento verga o guarda-chuva, que fica com as varetas torcidas e, assim, sem que me abrigue, pouso-o num caixote do lixo e continuo.
Uma nova rajada de vento faz-me baixar a cabeça e semi-cerrar os olhos e quando por fim o vento amaina, ergo a cabeça, mas é já outra paisagem que vejo. Caminho ladeado por altos muros de pedra, num caminho lamacento, com vestígios de animais terem passado por lá.
Não sei se são as ruas onde caminho, se os olhos onde sonho.

2006-11-29

Rosa vermelha

Era perto das 20:30, entrada de uma grande superfície comercial em Penafiel, entrei com a Ana e logo à nossa frente estava um homem, ar humilde (não era o ar ambiente, era mesmo o olhar que o vestia), com um fato gasto, azul escuro com finas riscas brancas, um cabelo semi-penteado, ou melhor, um semi-cabelo penteado, uma cara gasta e um olhar que não sei descrever. 
Ao seu lado estavam algumas sacas de plástico. 
Tinhas botas, castanhas, escuras, castanhas de origem e escuras de tempo. Mas o que mais me atraiu, o que os meus olhos gravaram, foi a rosa vermelha na lapela. Aquela flor conferia ao cenário um toque de génio, é como quando tentamos desenhar algo, escrever umas linhas, mas sabemos que falta algo para terminar, uma pincelada oculta, uma linha mais no poema, assim era a rosa. Desconheço a razão, seria um encontro? Não sei.
Seguimos para uma loja, tentar ser mordido pelo gordo cão do consumismo, e quando voltamos ainda lá estava. 
Fizemos as compras, andamos de um lado para o outro e quando saímos, lá estava ela, a rosa na lapela, assim como ele. 
Chegamos ao carro, pousamos as compras na mala, a Ana entrou e eu, quando fechava a porta com pressa, para fugir da chuva, algo puxava o meu casaco. Voltei e com os olhos semi-cerrados pela chuva, vi-o. Um rosto de menino. Aquele que me acompanha por vezes em tantas viagens. 
Tirou uma mão do bolso e mostrou-me uma pequena bola de algodão-doce, o sorriso perguntava-me se podia, apenas encolhi os ombros e sorri também, como que anuindo. 
Entrei depressa para o carro e só o vi, pelo espelho, sentar-se ao lado do homem da rosa na lapela e oferecer-lhe aquele pequeno berlinde de algodão-doce… O que se passou? Não sei, não vi o desenrolar da história e agora, que a queria contar, ele está deitado aos meus pés, olha para mim ensonado e diz-me: estou cansado, posso contar amanhã?

2006-11-24

A primeira vez

Para tudo existe uma primeira vez, não é mesmo?
Tudo o que fiz hoje não foi pela primeira vez absoluta, mas relativa.
Mas ontem, bem, ontem foi mesmo a primeira vez. Eu, Miguel, 1,90 mt de gente, em plena formação, consegui apoiar-me mal na cadeira e dar um tombo daqueles que eu mesmo gostaria de ter visto de outro ângulo! 
Ai, não há palavras, tive que me conter para não me rir ao longo de toda a formação e acredito que o mesmo tenha acontecido com os formandos... Embaraçoso? Nah! Muito, mas mesmo muito hilariante!!!

2006-11-16

Beyond

Acho que foi a primeira vez que te vi assim, com os olhos cansados e fundos, prenhes de desilusão. 
E eu, sem saber o que fazer. 
Se ao menos pudesse parar o mundo e andar por aí, contigo, para te mostrar o que de belo me mostraste a mim.
Tenho na boca um travo amargo, que nada consegue adoçar. 
Uma dor que nem as neblinas conseguem abrandar.
Como tu, também estou cansado.

2006-11-15

Só amanhã (aliás, ontem...)

Escrevo apenas por obrigação. Porque tenho gostado de vir este bocadinho ao computador antes de me deitar.
Deixo que as horas rebolem silenciosamente, mas as histórias, as neblinas, os sonhos, mantenho-os suspensos, ainda que eles, os sonhos, teimem em surgir.
Escrevo apenas para dizer, não, não vou dizer. Ou sim, digo, porque sou sincero e não me apetece refugiar numa aparente calma. Hoje, especialmente hoje, estou cansado.
As neblinas e sonhos, esses ficam para amanhã.

Neste tempo sou apenas umas botas molhadas pelo orvalho da noite, uma chávena de café e um pão seco, um afago num animal, o parar em frente ao Sol e fechar os olhos, para que aquela luz me complete e se espalhe pelo corpo, uma enxada e um pouco de erva, um sino ao longe numa capela de uma religião qualquer, a lousa dos telhados, o colmo nos campos, o gado que pasta, uma gota de suor, o entrar numa cozinha quente, o pousar a mão num muro com musgo. E acordar. Porque as neblinas e sonhos. Só amanhã

2006-11-09

Um amigo gigantesco!

Há marés, como se diz na minha terra, onde aparece tudo de repente. Ando uns dias sem escrever no blog e depois, quando toca a maré, venho para aqui escrever sobre tudo e, quase sempre, sobre nada.

Por vezes escrevo sem saber o porquê, apenas me apetece e é razão mais que suficiente. 

Estas noites frias, cada vez mais frias, embalam-me num torpor agradável, catalisam a neblina que começa a descer sobre os meus olhos e onde se movimentam outros corpos que não conheço. As zonas do céu onde não existem nuvens permitem ver estrelas, aqueles pontinhos brilhantes sobre um azul mais claro que o habitual, haja Lua para nos iluminar! Por vezes, mas só por vezes, o Universo parece querer brincar jogos comigo, quando penso em algo ouço o seu murmúrio “olha para cima”, olho e vejo, naquele preciso momento, uma “estrela cadente”. Cá entre mim e esta folha de papel, é a sua forma de me sorrir e eu retribuo, com um piscar de olhar. Tenho um amigo mesmo grande, não tenho?

Ainda sobre as bolachas, começo a compreender de onde vem a minha empatia com as bolachas baunilha. O meu pai foi comendo, comendo, comendo, até ficar apenas uma. Confesso que a deixou não porque não lhe apetecesse, mas porque é a regra da gente simples e boa, como o meu pai, deixar a última bolacha. E no meio disto tudo, enquanto olho para ele com olhos de gente grande, a neblina inunda a sala e à minha frente está uma criança, simples, de sorriso tímido, a olhar para a bolacha baunilha e para mim, e eu olho sorrindo, como que a consentir, e aquele sorriso de agradecimento que apenas eu e a neblina vimos é o reflexo mais tocante do Universo, do mesmo que me sorri.

Embora com 30 anos, a caminho dos 31, adulto (aos olhos dos outros), reflicto sem qualquer tipo de dogma ou ideia pré-concebida, sem medo de me mostrar porque não tenho medo de mim mesmo e as opiniões dos outros não são mais que a noção deles de realidade, a cada dia que passa aumento (talvez devido às bolachas!) de tamanho, a cada dia sou mais eu porque constato que sou muito de outros. Não, no meu peito não cabe todo este sentimento. A felicidade é maior do que eu mesmo, expande-se tanto de mim que temo vir a implodir. E quando impludo apercebo-me, afinal sou apenas um pontinho brilhante, maior que eu ou que todos juntos, um ponto invisível onde o nada impera, quanto mais de mim, mais dos outros me completa. Sinto-me pleno e vazio, onde cabem todos os outros e outras estrelas, acima da neblina, onde o Universo é apenas uma distância milimétrica de mim a mim mesmo, onde tu, que lês estes devaneios, sorris e dizes: “mais um que endoidou”.

Pouco importa o que sabemos de nós, dos outros, de quantas estrelas brilham no céu ou de quantos sorrisos o Universo nos dá. O importante é o que fazemos com o que somos.

2006-11-08

Só mais isto

Antes de começar a trabalhar depois de almoço (ai que sono), não posso deixar de escrever meia dúzia de linhas...

Este tempo frio, com Sol quente, matas a serem limpas, montes de erguiço, fetos e ramos a serem queimados, a neblina de fumo que paira no ar, o barulho da forquilha a acomodar mais mato na fogueira e um olhar que se vê mal ao longe lança-me um aceno de mão... Traz-me à memória outros tempos, de criança, de vir da escola já noite, pousar a mochila (antes era sacola), fazer os deveres e outras coisas mais que, agora, não tenho tempo para escrever...

Uma cozinha velha, preta, onde o vento uiva porque o telhado não assenta correctamente nas paredes, um forno velho tapado com panfletos de promoções de um mercado qualquer, a pedra onde se fazia a lareira, as telhas de vidro para entrar o Sol, um rosto velho, onde o tempo gastou o olhar, umas velas retorcidas, um corpo num banco envolto em neblina invisível, uns sorrisos ténues e uns parabéns merecidos...

Pronto, era isto.

Torrada ou Maria?

O divertimento das escovas gastas e a chiarem vai ter que acabar, hoje constatei que estão de facto muito gastas e embora me divirta a ver os carros duplicados, se alguém da DGV vê este post é provável que me denuncie e não estou numa altura em que pagar multas seja um desporto, que se pratique de ânimo leve.

Vinha cansado, disposto a tomar um banho e dormir, mas o estômago também fala e à minha espera tinha outra parte de mim, a Ana. Sentei-me, tomei o meu leitinho com bolachas e o normal seria terminar aqui, tomar uma banhoca e dormir, mas não, não foi normal. E não foi normal porque além do leitinho, tinha umas bolachas, várias bolachas ou tipos de bolachas e dou por mim a olhar para uns anos atrás, ainda criança, sentado num banco com tampo em fórmica, frio ao primeiro toque, com os braços apoiados na mesa, também de fórmica, com um pano azul, bordado, e em cima, a fumegar, uma chávena de leite com mel. O cenário mudou, obviamente, mas o sentimento é o mesmo. 
Recordo, com um brilhozinho nos olhos, o luxo ou diferença que era ter alguns pacotes de bolachas. Na altura eram apenas duas qualidades, as bolachas Maria (ah grande bolacha!) e as Torradas. Pouco tempo depois surgiram outras, mas não eram compradas tão frequentemente, creio que tal facto se devia à minha gulodice, bolacha nova, mais doce, era sinónimo de acabar rapidamente. Além das duas variedades que mencionei, surgiram outras duas, as Alfa e umas outras que não sei o nome, mas recordo do sabor e da forma, pareciam de aveia, eram mais “espessas” na boca e a sua face era quadriculada.

As bolachas Maria eram óptimas para molhar no leite, enquanto que as torradas eram fantásticas para o café. Café do bom, feito na cafeteira da minha mãe. Fantástico.
As outras bolachas eram apenas para o leite, de preferência simples.

De quando em vez, numa altura de aniversário especial (o meu ou da minha irmã, porque os meus pais nunca valorizaram com bolachas especiais, ou qualquer outro luxo, como seu próprio aniversário), surgia a embalagem de sortido. Era um deleite, a boda de um rei! Corria com o olhar a caixa, tentava adivinhar se eram os sortidos de dois pisos ou de apenas um. Dois pisos simbolizavam mais contentamento, afinal eram duas camadas de bolachas! Rapidamente via a variedade que, curiosamente, não mudou muito desde os meus tempos de garoto com sonhos grandes em olhos pequenos. As bolachas baunilhas cobertas com chocolate eram as minhas favoritas, não só o seu exterior era belo, de chocolate, como o seu interior era fabuloso, de baunilha. Tal como muitas pessoas.
Depois surgiam as outras variedades de bolachas cobertas de chocolate, até parar nos “tubinhos”, bolachas com recheio e as “restantes”. Era uma felicidade. Aliás, todos os tempos eram de felicidade, pois qualquer coisa nova era sinónimo de boca doce (ah, também os pudins boca-doce, nos copos de plásticos, que saudades), de sentar à mesa e sorrir. 
Ainda hoje é tempo de sorrir, de ver que as lembranças nas quais me ergo são letras de ouro bordadas no meu coração, na minha alma.

Há coisas que a apenas nós nos fazem sorrir. 
Será que despertam um sorriso em alguém? 
Terão estas linhas o condão de fazer sorrir alguém? 
E que sentimento é este que me impele a escrever, a anotar estas memórias? 
Para quem escrevo? 
Para mim, certamente, mas se eu já tenho estas memórias e, diga-se em abono da verdade, muitas vezes saltam a meus olhos, porque necessito de as escrever? 

Bem, é tarde. Espero que o barulho do computador não acorde a Ana, que já dorme serenamente.

A maior felicidade é constatar que, mesmo inconscientemente, todas as minhas acções foram felizes, que todos os gestos de meus pais me proporcionaram uma felicidade máxima, extrema.

Fiquem bem, as memórias e vocês...

2006-10-20

Rainy day #5

Ando para aqui a mexer de um lado para o outro no computador, sem me decidir a escrever... Abro o bloco de notas, escrevo e apago, saio e vou jogar "Solitário Spider", regresso, escrevo e apago, saio e vou dar uma vista de olhos nos meus documentos, nos ficheiros da pen-disk... E enquanto me mantenho longe do bloco de notas, todas as ideias surgem na minha mente, prontas a serem escritas, como se, inclusive, o facto de pensar fosse quase como escrever... Até que percebo que estou a procrastinar, a adiar, como se devesse escrever o mais perfeito dos poemas ou a mais fluente das prosas, afinal, escrever aqui é mostrar ao "público" e aquilo que mostramos diz muito de nós... E é assim que, dia após a dia, sem medo algum, me conheço melhor, estando atento a tudo o que penso, a tudo o que crio mentalmente. É como se vasculhasse o meu porta-cd's e visse que tenho alguns cd's riscados, demodées, que continuavam a tocar...

Tinha um outro texto para "postar", mas está no computador de casa dos meus pais...

Lá fora a chuva parou... Quer dizer, parou de cair forte, porque continua a cair, mas fraquinha :)

Saio do IDT e percorro os cerca de 30 km's até casa, o raio do vidro embacia, as escovas estão a ficar gastas e quando dou o pisca para a esquerda, especialmente quando chove muito, os máximos ligam-se :) E eu rio-me :)

Acho que parte de mim ainda quer, neste tempo, estar numa eira, sentado sobre palha e com as costas nos carolos de milho, saboreando uma sopa "de tudo", quente, a fumegar, o que me faz soprar de cada vez que levo a colher à boca... Parte de mim está a olhar para um cão, que dorme a meus pés, e ouve a chuva bater nos reforços de chapa da porta da eira... E enquanto o meu corpo se reparte por múltiplas dimensões, há um fio condutor que transporta as lembranças de vidas e vidas, a felicidade...

Confesso que me perco, por vezes, nas listas de emails e leio tudo e mais alguma coisa, de todos as temáticas... E dou por mim a espreitar pelas realidades co-criadas por várias egrégoras, pelos mundos complexos de ideais solidificados, pelas necessidades do ego em se agarrar à certeza de uma ideia que, tal como o vento, nunca está no mesmo local...

Este tempo tem uma magia qualquer, leva-me para todos os lados. Na pausa de um universo e outro, paro e encosto-me a uma parede com musgo, está molhado e uma pequena gota de água desce pela mão, pulso e entra por entre a camisa e o braço, chegando-me ao cotovelo, e aí acordo, desperto, apenas para dar mais um passo e ver-me noutro universo, num largo empedrado, com um fontanário ao centro e pessoas que passam cumprimentando-me... Noutras alturas vou parar a outros planetas, fico extasiado ao ver a quantidade de "vida" que existe espalhada por aí, dentro de mim...

Recordo-me de algumas horas de comboio, estar sentado, com um pé sobre o aquecimento (nos comboios antigos, lembram-se?), com o cotovelo apoiado no joelho e a cabeça encostada ao vidro da janela, onde a chuva caía na diagonal... Lembro-me do balançar das carruagens, do barulho das rodas nos carris, o passar as agulhas. Nestes comboios, apenas o pica-pica do revisor me trazia de volta, mal o ouvia, lá vinha eu a ondular pelo ar, como se fosse um balão atado ao comboio, descia, descia, descia até chegar novamente ao meu corpo e aí ficava, por segundos, a aconchegar-me, percebendo o que era o corpo, admirado e maravilhado com esta máquina...

Sim, este tempo leva-me para vários locais... Infelizmente, ainda não consigo estar a escrever as memórias passadas e futuras, neste corpo e neste universo, ao mesmo tempo que outro eu escreve outras memórias futuras e passadas de um outro eu, talvez escreva de um rapaz (bem, tenho que perceber que já tenho 30 anos) que está ao computador, às 0:28, rindo-se enquanto escreve umas letras...

Há tanto por onde ir... E, curiosamente, tanto onde estar sem sair de mim mesmo...

Agora tenho que ir, passou uma sombra por mim, instalou-se ao meu lado esquerdo e sorriu, disse-me que deveria dormir, que muitas das coisas que escrevi não escrevi, ficaram em suspenso, como se escrevesse apenas em pensamento e esse pensamento não tivesse, ainda, chegado à matéria... Vou guardar estas pequenas nuvens de pensamentos, de frases que estão já escritas, e guardá-las no olhar, pode ser que num outro momento, as mesmas saltem para outros olhos e eu conte histórias sem necessidade de as escrever...

Embora pareça difícil acreditar (pelo menos a mim é), todas as minhas pesquisas me levam a pensar que existe apenas uma coisa em tudo, e um milhão de possibilidades em nada... Capice?

2006-09-24

Porque não sou

Sou o frio,
a chuva que me aclara o dia,
as gotas no pára-brisas
que codificam o respirar,
a terra molhada
e os horizontes aos quais me prostro.

As ruínas crescentes
e os sorrisos carentes,
o uivo da noite
e apenas as estrelas como companhia,
uma mão cheia de sonhos
e o murmúrio da utopia...

Ainda que vagueie não me falta o rumo,
o ondular das veredas
e a sombra fugidia do simples,
o orvalho e o relento
são dos próprios olhos
meu alento.

Sou,
porque sei que não sou...

2006-09-23

Rugas do dia

A noite ainda é minha,
disse-me o reflexo do olhar nas nuvens
e até as estrelas sussurravam,
voltou...

O silêncio do relâmpago
e a cegueira pálida do trovão,
as gotas que me sorvem
dormindo na palma da minha mão.
Os traços finos das rugas do dia,
o cabelo sedoso do sonho na minha face
e o olhar
que nunca partiu...

2006-09-07

Segredos

Há coisas que, em geral, não se sabem. Porque se omitem, porque se escondem ou porque simplesmente são tão diferentes que por não termos capacidade de as compreender, simplesmente não as vemos. 
A minha escrita, por bonita ou feia que seja, nem sempre é minha, apesar de versar quase sempre o Amor, a procura de algo ou alguém, o questionamento, o auto-conhecimento, entre outros.
Todos temos os nossos segredos, a minha escrita será uma delas. Ou se calhar nem a escrita, mas as frases que ela contém e entre versos e palavras, letras até, tenta-se levantar o véu, respirar um pouco, à espera que o poema vá, percorra a estrada que deve percorrer.
Enfim, segredos.
O maior segredo que todos possuímos, é saber que temos uma imensa força e simplesmente não a utilizamos.

2006-09-06

Respirar

Recebe-me a placidez dos dias de Inverno,
ternamente ondulam,
nos cabelos soltos de fantasia,
as ausências prescritas
pelo adeus.

Neste vaivém quasi-eterno
de sorrir
e encontrar,
de mim ao mundo,
comovo-me
com partículas nos olhares
que julguei nunca ver...

Vivo,
sonâmbulo,
até ao momento em que olhas
e me afundo no mundo,
para vir à tona da vida
nadar no meu sonho...

2006-08-29

Em olhos de sonhar

Trago no peito um sorriso alado,
miro atrás das nuvens
e além mar
a entrada para o sonho,
das quatro faces da claridade
e da mão
que embala o mundo,
ao som da amizade,
com o saber da certeza
e o travo doce do amor.

Agora,
mais que acordar
procuro nos teus olhos
o meu sonhar...

2006-08-26

Suspiros na noite

Enquanto as estrelas teimam em não descer
tudo em mim é saudade,
da música que inebria
ao tacto da amizade profunda...

Enquanto as estrelas teimam em não descer,
eu sou fragmento de mim mesmo,
peça incompleta
no puzzle da vida,
porque de mim são sorrisos vossos
e de vocês,
ai de vocês,
minh'alma
em segredos
e distantes suspiros,
que hoje amigos
e amanhã...
Amanhã suspiros...

2006-08-25

Let me be

Deixa,
deixa que pelo menos uma vez o cansaço me vença,
que eu feche os olhos
cansados
e fundos.

Deixa,
deixa que meu corpo tombe à força dos arpões,
que descanse as mãos
e a noite seja minha cama,
fria como sorrisos vagos
e húmida,
como as que brotam
no escuro.

Deixa,
deixa que chore,
que soluce e minha alma respire,
que possa dizer, ainda que unicamente,
“estou tão cansado…”

Deixa,
deixa que sobre os meus ombros não pesem as pedras perdidas
da vida
e dos sorrisos,
que carrego em mim
para que outros não esmaeçam.

Deixa,
deixa-me sentir uma vez mais as estrelas,
sentir-lhes o cheiro doce
e o calor que aconchega a saudade,
que tão longe me traz
o Amor.

Deixa,
deixa-me prostrar,
esmorecer,
sussurrar a medo
para que os vultos não me ouçam,
segurar a cabeça na parede fria e áspera,
raspar uns traços de tinta no papel,
adormecer aos poucos
como a neblina das manhãs de Verão,
olhar o Sol que mais um dia no meu infinito impera
e sorrir,
sorrir porque agora, eu, já não sou eu.

Deixa,
deixa-me dar alento à vida,
respirar pesado e fundo,
esperar que a chuva me chame,
ver as suas lágrimas,
filhas,
e dizer:
“deixa… deixa-me sonhar nos teus olhos…”

2006-08-19

Coisas...

Tenho um caderno que me acompanha. Bem, tenho vários cadernos que me acompanham, perdidos em vários locais, onde escrevo as ideias que aparecem, é como andar sempre com uma cesta e guardar os cogumelos (comestíveis, de preferência) que se encontram por aí.
Geralmente nos cadernos escrevo as ideias, ou os sentimentos decorrentes de quando encontro alguém, pela primeira ou enésima vez. As pessoas são estes bocadinhos de nós próprios, não são?
Quem me mandou esquecer do caderno? Deixei-o na porta do carro, mas entre parar, sair do carro e entrar novamente, ele conseguiu fugir, voando. Vislumbrei-o ainda por entre nuvens, olhando para mim e sorrindo, enquanto continuava a subir até encontrar algo invisível. Aí, pegaram nele e anotaram um recado para mim. Só voltei a mim quando o carro atrás buzinou, arranquei e, mais à frente, li o que tinham escrito para mim. Coisas.

2006-08-18

Aqui, entre cá e lá

A chuva que cai, em Agosto sabe-me sempre bem, permite-me andar por aí, entre cá e lá, quando estou aqui.
Nada me tira a vontade e o sonho, este estado passageiro, físico, de saborear a chuva e sorrir. 
Há coisas que me animam e com as quais ainda consigo sorrir, que até eu fico surpreendido.
Constato que este lado infantil ainda permanece em mim, saltar nas poças de água, sentir o vento e a chuva na face, rir sozinho dos meus "defeitos".
E ficar arreliado quando toca o telefone e eu tenho que me levantar. 
Até já, aqui, entre cá e lá.

2006-08-15

Até já

Transcende
os limites do limitado,
os jardins
mudos de pedras gastas
e flores sempre
serenas.

Ultrapassa,
nasce,
morre e torna a ultrapassar
o visível
visto apenas por quem não vê,
há mistérios tão simples
como a mão
que me guia os dedos.

Trajado de sonho
e pontilhado de ilusão,
as estradas fazem das palavras
um veículo
que conduz às veredas
das ilhas inexistentes
e abraços,
que de nunca dados,
são degustados
com saudade.

2006-08-13

Quatro de um

Quatro de mim
em olhares furtivos
e sorrisos de cetim,
tangencias de vidas
e sonhos,
poderia
a vida ser mais feliz?

2006-08-08

Rápido

Voltei...
Mini-férias, misturadas com Lua de mel, de um casamento maravilhoso no registo civil que pouca gente conheceu ou ouviu falar.
Estou aqui, com o computador ainda em casa dos meus pais, com um calor abrasador e o lamento da sirene dos bombeiros.
Não queria escrever, as teclas parecem duras demais, mas os dedos sentiam falta de conversar com elas.
Os meus olhos fechados não conhecem nenhuma paisagem, nem quando vagueio fora do corpo.
Não conheço o céu azul, nem as noites de luar... Até os poemas choram ainda antes de sair, porque o futuro parou e perguntou-me: "mas que raio queres ser tu na vida?"

Vou novamente, foi rápido.

2006-07-28

Uma coisa

Quero que saibas uma coisa.
Vocês experimentam sentimentos como a saudade, distância, esquecimento, apenas porque vivem dentro dessa grande amálgama retorcida à qual chamam realidade.
Na verdade, depois de dissipado esse nevoeiro (criado por vocês), só sentirão amor, ou Amor.
Aí, meu amigo, não existirá espaço para mais nada, está completamente distante daquilo que possas imaginar... E suportar... Com calma, os espaços em branco que existem no teu peito, serão preenchidos por algo que une tudo, mesmo os pontos mais extremos do Universo. Sensações e ilusões como distância, saudade, relações familiares, tudo será envolto, reunido, como num grande puzzle, sei que podes não compreender, mas está perto.
Até lá, tem paciência.

2006-07-14

Hipnagogia

Pousei os meus passos
no muro
de onde eu fitava os sonhos
e sorri,
despi-me da nudez
e entreguei-me à noite
plácida e altiva,
antes que o céu caísse.

O olhar deixei-o incólume,
apenas enublado
esporadicamente
pelas claras águas da imensidão,
que tingem
como quem respira.

Voltei-me
e vi ao longe a minha figura
que chegava,
ladeada de sonhos
e prospectos
onde se anunciava a partida.

Tinha já um pé sobre o muro
e um outro
sustendo um mundo ausente.

Respirei
uma única vez,
inalei resquícios de vazio
temperados com nadam
e nas folhas vazias ficaram
uns sonhos
que à sombra da vida
respondi,
talvez...

2006-07-13

Reencontros


A vida é isto mesmo, simples e complexa, um contínuo paradoxo...
Pelo menos comigo é, variável, flutuável quando não afunda :)
Pena não ter tempo (até tinha, se não dormisse...) para escrever muito do que tenho vivido nestes últimos dias (desde domingo)...
O tema é o reencontro...
E tem sido assim, reencontrar pessoas e memórias... E ver nascer sonhos, recordações que pensava já nem possuir de tão guardadas que estavam...

Apercebo-me que sou muito feliz, que o quadro da minha vida é belo, mesmo quando as cores teimam em fugir...

2006-06-28

Still

Os poemas têm sido o "escape" a nada escrever aqui... Fico parado, tentando ordenar as ideias, as histórias que vivo, ouço, vejo e sonho, para as transformar em palavras, mas invariavelmente fico apenas a olhar... No monitor vão passando todos os episódios, todos sem excepção e, por vezes, até têm relação uns com os outros e transformam-se numa espécie de filme com capítulos que apesar de não estarem relacionados uns com os outros, fazem parte de um cenário maior, como as ruas, distantes, da mesma cidade... E enquanto olho para o monitor, muitas outras histórias surgem a meu lado, à frente, por cima pairando... As histórias e seus protagonistas pedem que os escreva, mas não consigo... Surgem por vezes protagonistas de histórias que não conheço e dizem que é apenas para mandar um recado, pode ser uma linha simples de um poema, ou uma vírgula após uma palavra, que obrigue a parar um pouco nessa mesma palavra... Mas hoje, nem ultimamente, não dá... Tenho a convicção, que nem com todo o tempo deste mundo (que aliás não existe - e começaria aqui uma grande dissertação - o tempo, não o mundo - que também não existe et voilá, mais dissertações) eu conseguiria escrever tudo o que sinto...
É como os meus braços, uma envergadura de 1,90 mt, que apesar de grandes, não chegarão nunca para abraçar os meus amigos, conhecidos e desconhecidos...
É como a minha boca, que não chegará nunca a dizer o que deveria dizer, todos os recados, nem que saísse por esse mundo fora a correr e a dizer a cada pessoa: "Olá amigo(a)"...

Bem, tenho que me contentar em ter tudo isto no meu coração... (se ao menos tivesse uma janelinha por onde espreitar, só para mostrar, como aqueles adereços que têm cidades e quando abanamos cai neve...)

Desculpem lá o mau jeito, mas só deu para escrever isto...

2006-06-27

Náufragos

Os faróis afastaram-se dos meus navios,
a espuma baça bailava
contra a proa
do meu sonho,
há náufragos que nunca viram o mar...

Os fantasmas movimentaram-se em pleno dia,
as cortinas abafam a noite
numa toada surda
e cansada,
é ainda da noite o trilho da alvorada...

As faces oscilavam em ameaça sobre a mão,
as lágrimas olharam a saudade
em despedida
do que chegou à falsa vida,
o irreal digitou a dor que o sonho guardou na ilusão...

2006-06-21

Os sons de quando chove

Ia dormir, mais uma vez, sem me sentar aqui e escrever qualquer coisa... Bem, qualquer coisa não, as histórias que vou acumulando permitiam, assim houvesse tempo, paciência e vontade, estar a escrevê-las durante umas boas horas... Mas, vá lá, hoje consegui vencer a preguiça e o sentimento de: "escrever para quê?".

Andava com um poema atrás de mim, já desde dia 13 de Junho, incompleto, que por tanto esperar acabou por se completar por ele, com algumas linhas em branco, aqui vai ele...

Quando chove
a vida adormece.
A nuvem pariu ouro,
que deleita as rugas
que moldam os rostos
envoltos e amparados
por longos
lenços pretos...

E sobre que é este poema? Ou pseudo-poema? Sobre as faces das viúvas que vivem do quintal, das suas faces cobertas por luto eterno, que é o mesmo que o medo da felicidade, digo eu, que nem sou daqui... Quando chove, cai ouro... Assim é a chuva em mim...

Antes de me ir deitar, queria apenas que fizesses um exercício, coisa simples, aliás não poderia deixar de ser simples, porque para ginástica, já basta a da carteira ao longo do mês...
Então aqui vai, começa por te sentares comodamente, mas com regra, costas direitas, pernas quase unidas, antebraços apoiados na cadeira (se não tiveres cadeira, apoia-os nas coxas) e mãos abertas sobre as pernas. Assim, confortável, recorda e visualiza um sonho teu, do coração, bem lá do fundo, daqueles que te enchem a alma (lamentavelmente não enchem a carteira)
, fecha os olhos um pouco e sorri durante 5 segundos (podes contar)...

Agora, que não estás à espera, ouve
apenas (não personifiques, não sou eu a dizer, apenas ouve) a seguinte palavra: Amo-te...

É bom, não é?

2006-06-12

Mais

Há segredos
que velam pela vida,
quantas verdades
se escondem
em mentiras,
que olhos
julgaram ouvir
como um eco,
das mãos rugosas,
que embalam
o chamado
da face direita,
entre dias que vivem à noite.

As linhagens
dos sorrisos voadores
pereceram
com o tempo,
que esvaiu
na fina camada do olhar.

Quando
oblíquos tesouros
me chamam no sonho
já eu sou das estrelas
e das nuvens
que embaçam a retina,
lá,
onde eu sou mais eu
e as vozes díspares
se calam,
no emaranhado
e confuso
pleonasmo,
de viver uma ilusão.

Lá,
onde eu sou mais...
Mais de mim mesmo...

2006-06-08

Sorrisos suspensos

Voltei
da vida
a tempo do medo pontapear,
enquanto degraus sustinham
um passadiço
para o errante
se afogar,
que há ainda quem cante
nas costas do olhar
um velho
suspiro mortiço...

2006-06-07

Sorrisos escorpiões

Ainda que tivesse
três estrelas
e um quarto
de Lua minguante,
jamais o dia
serão seria,
porque em cada pedra
há um escorpião
e em cada sorriso
um senão,
que a vida escalda
e dilui
cada suspiro
no coração...

2006-05-30

Sorrisos amordaçados

O segredo
encontrou caminho até mim,
pela noite
amordaçando o medo,
que silenciava a noite
e dava voz
à imaginação,
chamou-me do fundo dos sonhos
onde me encontro
ausente
e deu-me um abraço
longínquo
e cansado.

Os degraus
flutuaram na arcádia
e os sorrisos,
errantes,
deambulavam de face
em face
enquanto
não acordava a rispidez,
dialogou
com as paredes
caiadas
de mãos sem gente,
serpenteou
nos ângulos da rigidez
e assobiou,
como criança traquina
em olhar
de imaginário
nas mãos vazias do ardina.

Há cenários
cujas peças nunca iniciarão,
há actores
cujas vestes nunca utilizarão,
há rostos
cujos sonhos nunca sorrirão
e isto amordaça
meu coração…

2006-05-27

Tardes diluídas

As mãos
sobre o dorso
de um animal
cansado,
assim é a vida
em mim.

O pulsar
das nuvens que rasgam
o céu,
o latejar
da terra molhada no Verão,
o dia calado
e inquieto,
acordado pelo latir
sussurrado
de cães vadios
de carinho,
assim é a noite
em mim…

As faces,
sempre as faces,
fechadas sobre elas,
prenhes
de ânsia e medo,
alegria
e dor,
coragem e desalento,
cândido confidente
assim é o vento
em mim.

As mãos secas,
gretadas pela terra arada
e as silvas
que despontam ao desafio,
as vozes desconhecidas
em faces familiares
que se cruzam comigo,
os lúgubres muros
que albergam murmúrios
meus
em tardes de criança,
quão longe vai
o fio de Ariadne que partiu
sob o peso de um voo
que sorriu,
ainda elas, as mãos,
vazias de fugaz
e de vida que fui,
porque cheias de sonhos.
Assim é a desilusão
que me dilui…

2006-05-25

Pause

Pousei a bagagem
e a vontade de ser criança,
dos caminhos repetidos
e cansados
pendiam rugas
e fuligem,
há estradas que cruzam
o horizonte
na distância de duas lágrimas...

2006-05-17

Canoa doutra imensidão

As faces encontraram-se,
até as mãos
vazias
fitaram a noite,
que subia
escondida dos olhares
soturnos
que atacam
em pleno dia.

Somos mais
que uma canoa vaga
e fugaz,
onde o horizonte
é o verde dos olhos
frustrados,
que mais além
é o mundo dos sonhos.

Na canoa transporto
pão,
uns quantos passos
por mergulhar
e um sorriso,
que nem o peso do dia
sobre as nuvens
pretas
consegue retirar.

Sou do mundo adormecido,
as mãos seguem o reflexo
da vida
nas ondas deste lago
de ilusões,
os olhos cansados
miram ainda
(ainda…)
a centelha de solidão
que carrega a noite.

A vida,
ah,
a vida não é mais
que um infinito,
dentro doutra imensidão.

Há quem lhe chame coração…

2006-05-15

Casta de solidão fugidia

Os meus posts podem, eventualmente os últimos, levar alguém a pensar que perdi a esperança no mundo e nas pessoas... Nada disso... Apenas olho, cansado, e admito, talvez pela primeira vez, que afinal o caminho não é tão plano ou isento de obstáculos, mas sim tortuoso que, penso, apenas uma "empreitada" diferente poderia modificar... Mas isso são outras histórias...
A agressividade com que as pessoas defendem os seus pontos de vista, leva-me a pensar que, de facto, talvez estejam a defender a segurança que sentem à sombra de determinado ideal e não o ideal em si... Mas isto, também, pertence a outro stock de histórias...
Hoje dei por mim a ver o telejornal, e eis que surge a notícias que todos aguardam... Vêm aí os incêndios, sim, os incêndios! A nova brigada da GNR está a postos, os bombeiros (o sindicato, porque os bombeiros propriamente ditos, esses "só" andam lá "vida por vida") não gostam, uns dizem que vai ser melhor o combate, outros que será pior... Bem, creio que poderão aferir em breve se de facto assim será, pois passei por três incêndios em 20 quilómetros... Coitadito de mim, andei para aí a pensar que não existia nada mais para arder, mas afinal estava errado... Sim, arde e arde bem! E lá vou eu, lacrimejando por causa do fundo e da tristeza arrebatadora que sinto ao ver arder as árvores, os ninhos, os bichos... Mas pouco importa as pessoas que perdem terra, os animais que perdem a vida, interessa sim saber quem ganha, ou seja, quem tem razão? A energumeneidade...
E nem de propósito, estou a ouvir "Asa branca" cantada pela Isabel Silvestre (CD "A Portuguesa")...
Tenho a meu lado um recorte de um jornal ("JN" de Domingo) sobre um pastor... Li e reli, com enorme prazer... E tornei a ler :)
E lembrei-me de um episódio, há alguns anos, ao ver uma vindima. Uma senhora idosa correu a apanhar as uvas e o vinho que tinha caído de uma cesta de vindima, que se virou... Foi vulgar, eu sei, mas naquele gesto estava um carinho e um desespero sem par... O esforço que se faz para extrair da terra o pão, o sustento... O carinho de fazer crescer com as mãos...
Não sei porque raio escrevi isto... Serviria de mote para escrever um poema e, lá, inserir todas as emoções que quero, mas não o faço...
A minha cabeça dava uma novela... Puxo o cordão e logo vem um novelo... Sai um episódio e entra outro... Era mais novo, cerca de 16 anos... Fui com o meu pai a uma quinta antiga, com uns portões enormes de madeira (podre), com adega, estábulos e uma casa pequena... Creio que o resto da quinta já tinha caído. Morava lá uma senhora com 80 anos, velha, de idade e aparência. O meu pai foi contratado pelos filhos, dois, um médico e outro não sei o que faria... A senhora, enquanto o meu pai preparava uma fechadura no pequeno cubículo que era o quarto dela, contou que os filhos levaram-na para um apartamento, no Porto, mas que ela disse-lhes que se atiraria da varanda (5º andar) se eles não a levassem para casa... E assim eles a trouxeram, para aquele quarto, com uma cama que ela partilha com as galinhas e as canecas de metal que enche com um café mais preto que a noite escura e com muita borra... O cheiro não era dos mais agradáveis, mas havia algo naquele local que me emocionava bastante... E ainda o faz quando o meu pensamento visita aquele local... Basta fechar os olhos para ir lá e recordar os degraus, os portões velhos (apesar de os termos posto novos), a adega, as galinhas em cima da cama... Sorrio ainda ao recordar-me da senhora a subir a custo so degraus, a levantar e pousar o fervedor com o café, a falar com as galinhas... E dou por mim a querer fazer algo pelas pessoas assim... Quando na verdade, a "única" coisa que podemos fazer por alguém é sermos nós mesmos... E quando somos nós mesmos somos amor.
E para finalizar, lembro apenas dois episódios (para terminar a telenovela) quando o meu pai falou, meio a brincar, que estava velho (deveria ter na altura uns 40 e qualquer coisas anos) e ela disse: "oh jovem, você à minha beira é um bebé" e foi assim que ela disse que tinha 80 anos (mais qualquer coisa, mas não recordo com precisão). Depois, sob o calor, a senhora ofereceu-nos vinho, eu não bebo, mas o meu pai aceitou e ela, com as suas mãos muito enrugadas, foi ao barril, pegou numa caneca de metal que estava em cima do pipo e, com a outra mão, abriu a torneira de madeira e o vinho caiu na caneca, fazendo espuma... Ela ofereceu a caneca ao meu pai e disse: "se calhar tem nojo de uma velha como eu, mas só tenho esta caneca", o meu pai sorriu e apenas disse "por amor de deus", pegando na caneca e bebendo o vinho. Quando pousou a caneca vi que tinha sobrado um pouquito de vinho. Esperei que eles saíssem e, decidido, fui provar o vinho, para matar a sede, mas também para ver a que sabia (era novo... nada de álcool, ok?)... E sabia a algo estranho... Vindo das mãos daquela senhora, velha, daquele ser humano com uma placidez no olhar fantástica... Degustei o melhor que sabia, mas percebi desde logo, aquilo era vinho diferente... Deveria ser de uma casta nova... E quando vi a senhora, fora da adega, a ver o meu pai trabalhar e a sorrir, percebi que aquele vinho era vida, era de uma casta de solidão fugidia.