2007-08-10

Não vivas

Fecha-te aos olhos,
olha a ténue brisa
ondulante
que segue firme,
saboreia-te,
tacteia a vida em golfadas
de vidas,
serpenteia
em espiral
rumo ao que foste
quando não eras.

Beija
o inefável,
exulta a calma
e a placidez
da tormenta,
ruma à meta
inatingível
que acalenta.

Sorri,
transparece-te ao egocentrismo
centrado
em vão,
adormece-te
ao som do teu olhar
na estrada,
cala-te,
deixa anoitecer o silêncio,
solta as amaras que és,
firma-te
ao vazio dos onirismos
que conduzem as estrelas,
planta-te,
sê das orquídeas
as torgas mais belas.

Some-te em ti,
no espelho
nu,
pula
agora que é noite
e o Sol não sussurra,
simplifica os grãos de areia
do teu oásis deserto.

Para!
Que o lótus se abra
em ti
e a calmaria se abata,
pintaste quadros
oblíquos
que ninguém vê.

Não vivas,
sê…

2007-08-01

Rajadas de Inverno (Pastor)

Trago nas mãos
as mãos
e um cajado invisível,
roço as pernas nas searas
e as searas
no sonho.

O Sol guia-me os passos
e os passos
as sombras.

Um sorrisso pende
de outro sorriso
e chama a vida,
arde-me o odor da terra
numa chama
incolor
chamada vadia.

Corro sem andar,
percorro
os vales que nunca me viram
ou conheceram-me pelo nome,
sou apenas mais
um
Home'!

Fustiga o Inverno
em rajadas de solidão
e bafos nocturnos,
face rosada
despida
de mordaças,
ondulações
que moviam somente
a mente.

Sou-te aquilo que não vivi,
adormeci ao luar
da tristeza,
abri-te as mãos
e o mundo.

Sonho,
se o Outono vier

e nas tuas mãos
eu
morrer,

fecha-me a mão
no cajado
e deita-me sob um castanheiro estrelado,
que sorriam de minha vitória
do sonho
sobre a dor.

Escreve
na alma meu nome,
Pastor.

2007-07-31

Ser de quem?

Sentei-me no sofá, tal como ontem e escrevi algumas linhas. Queria aproveitar o facto de as ideias estarem a aflorar, mas constatei que faltava-me força, os dedos não premiam ritmadamente as teclas, pareciam até com menos vida e não conseguiam fazer florir as palavras.
Escrevia sobre um certo episódio, daqueles que via quando viajava de comboio, mas as personagens pareciam agarradas a outras histórias dentro de mim e mesmo eu, que as adoro reviver, estava com dificuldades em ver por entre o nevoeiro que se levantava,
Desliguei e fechei o portátil, pousei-o na secretária e vim para a cama.
Coloquei o caderno na mesa de cabeceira e li um pouco. Preparava-me para dormir quando o caderno me chamou. Abri-o e escrevi estas linhas, sem saber porquê.
Para tudo há um tempo e o tempo não existe,..
Creio que "têm" razão, somos dos sonhos e não eles de nós, apenas governamos os sorrisos e esses, bem, saber que os posso mandar sorrir em qualquer circunstância faz de mim um rapazinho muito feliz.

2007-07-30

É tarde

É tarde, os dias de calor colocam-me num estado de letargia. Confesso que não gosto de calor por várias razões, algumas prendem-se com a estupidez humana de, assim que chega um pouco de calor, os incêndios iniciarem em força.
Tinha, como sempre, várias coisas para escrever, vários estados de alma (gosto desta combinação de palavras, estado de alma) que capto ao longo desta minha passagem pela vida.
Desligo a luz da sala, local onde estou neste momento, a Ana dorme e ouço os acordes iniciais de Telegraph Road, versão original. A única luz que vejo é o brilho do monitor do portátil. As mãos fogem-me da posição correcta das teclas e demoro mais tempo que o usual para escrever palavras diferentes, mas com o mesmo sentimento.
Domingo. É um dia pouco usual para cerimónias fúnebres, no entanto, vicissitudes de ordem religiosa assim o obrigam. Está calor, os óculos escuros fazem mais sentido, o suor escorre-me pela cara e costas. Morreu o Sr. Faria. É “apenas” mais uma pessoa entre as várias que nascem e morrem no mundo. A vida é como um baloiço, que anda demasiado rápido, mal acabamos de nos sentar e dar balanço, já estamos no ar e a saltar para outros baloiços.
(Fenómeno usual nestas alturas de Verão, ouço ao longe o trepidar do fogo de artificio)
Habituei-me a crescer e a ver as mesmas faces, os mesmos sorrisos nas ruas desta minha aldeia. Cresço, a forma de olhar altera-se apenas porque cresço e é, assim, mais fácil olhar de frente, olhos nos olhos, para as pessoas. Habituei-me a percorrer vários caminhos e cumprimentar, ainda que timidamente, pessoas idosas e novas, em lides domésticas ou profissionais… Ao mesmo tempo que caminhava, o meu carácter, a minha forma de ser e estar foi moldando-se, adaptando-se às ruas e sombras das figueiras e castanheiros. Nestes momentos, em que morre alguém, não penso nas incongruências das vidas, na inconstância da nossa forma de estar cá. Penso, sim, que os nossos olhos ainda estão muito habituados a ver a noite, por isso mesmo não vemos o dia com outros olhos.
Emociono-me com a guarda de honra dos bombeiros, eu que sou um bombeiro que nunca o serei, com a presença de várias pessoas, com o depositar das bandeiras das associações sobre o caixão e o olhar cansado dos familiares.
A esta hora já o Sr. Faria me acena por detrás de uma nuvem. Traz os mesmos óculos, o mesmo chapéu (que levantava em cumprimento), a mesma barriga, braços e pernas, tudo é igual. Perguntei-lhe se tinha pena de ir já, apesar da idade, pois sempre pensei que mesmo não assustando, a morte levava o olhar perdido no capuz negro. Olhou em redor, sacudiu uma nuvem que passava para ver melhor e sorriu, piscou-me o olho e, soprando baixinho ao meu ouvido, disse-me “a vista daqui é mais bonita!”
Fiquei parado, enquanto entravam e saiam do cemitério, gostei das letras que estão no portão, são de 1906, quando Cête ainda se escrevia Cette. Invariavelmente, as pessoas visitam os seus familiares já falecidos, fazem do cemitério um ponto de encontro com a saudade…
É tarde, estou cansado, dói-me a cabeça e queria escrever tanto sobre isto… Vim para aqui com a ideia de deitar algumas histórias a dormir na cama dos meus sonhos, mas as palavras, como sempre, possuem vida própria e decidem como, quando e onde sair e eu, que rio sozinho para as nuvens e vejo amigos que nunca tive ou que já estão do lado de lá das estrelas, obedeço à vontade destes sorrisos que grafam pelas minhas mãos.

A Ana deu-me o DVD “Ainda há pastores?”. Vi apenas dois pequenos trechos e emocionei-me. Tenho que ganhar coragem para o ver, porque aquela vida, aquela sinceridade no olhar das gentes puras faz-me sentir seara, trigo e centeio. Aquelas serras são da minha alma um devaneio.

E, sem que o tempo mo dissesse, fiz já um ano de casado… Esta coisa a que chamam tempo, passa rápido demais, passa bem, mas rápido…
Agora que o sono chega, sonhos acordam… Não escrevo mais, nem tão pouco irei rever o que escrevi, gosto das palavras saídas tal como vieram ao mundo, simples, com ou sem qualidade, mas minhas.
Deixo alguns sonhos gravados na parede na sala, sei que os pinto com uma tinta que só eu possuo e só eu poderei ler. Talvez amanhã me sente e, fechando os olhos, leia aquilo que não escrevo agora.
Agora vou deitar-me, esperar uns momentos para que a sonolência me invada lentamente, suba pelos pés até todo eu ser dormência, até eu me ver no meu corpo de criança crescida e o sussurro da vida me dizer: “anda, acorda para o sonho” e, dando-me a mão, me levar para lá das estrelas, onde todos os meus amigos, que conheci e que ainda hei-de conhecer recebem quem salta dos baloiços.

Os sonhos não são nossos, flutuam e pousam apenas onde e quando querem e eu admiro-os por isso, apesar de querer deitá-los a dormir nos meus braços e levá-los pelo mundo, espalhando-os pelas vidas, como alguém que semeia…


2007-07-24

Quem vive?

As manhãs de Verão frescas parecem-me noites de Outono e isto faz-me feliz.
Sigo semi atento ao que me rodeia, as ultrapassagens, os gestos, as raivas e os sorrisos.
Sinto-me zonzo com o serpentear de vida não vivida à minha frente e fico sem saber: serei eu quem não vive?

2007-07-17

Numa outra altura talvez...

Os sonhos possuem tanto de concreto como as paredes dos castelos que construí em criança. Espreitam por cima das nuvens e acenam-nos, fazem com que acreditemos ser possível, vestimos o nosso melhor fato, ensaiamos o discurso e quando estamos prontos o sonho foge, para se esconder atrás de outra nuvem mais distante...
São várias as nuvens que vou deixando para trás, uma e outra a cada sorriso que passa, para imaginar que um dia, atrás de uma nuvem ainda maior, um sonho mais altivo se erga, talvez construído por todos os que me fugiram...
Amanhã vou novamente para fora, longe dos outros e um pouco de mim mesmo, sem tempo e vontade de abanar a árvore das palavras...

Agora, mais do que sonhar e sorrir para nuvens, apago o candeeiro, viro-me para o lado esquerdo, enterro a cabeça na almofada e fecho com força os meus olhos, à espera que o sono chegue rápido e eu não sinta a minha almofada húmida...
Talvez tente subir a outra nuvem.

2007-07-13

Olá

Olá...
Não pude escrever antes, por isso desculpa...
Uma questão de tempo e cansaço.
Andei sempre com o meu bloco, para anotar as fotografias que não tirei, porque não levei máquina fotográfica.
Hoje estou aqui, no Porto e tudo, mas tudo é diferente, as pessoas, o ar, a paisagem... Às vezes, em dias como este e porque não tenho vergonha de o dizer e ser como sou, sinto saudades, vontade de escrever tudo, sem parar, para pousar numa folha de papel tudo o que trago comigo.
Ainda não tenho tempo de escrever o que quero, aproveito a pausa de almoço e o intervalo antes de ir buscar um material, para vir aqui e pousar umas poucas linhas...
Vou andando... talvez logo ou depois volte aqui, com o caderno das fotografias escritas, para viver de novo o que me faz viver.
Até logo.

2007-07-07

Onde?

Onde poderei pousar o meu olhar,
agora que não vejo?
Vagueio sem viajar
nas sombras que a paisagem planta
à sombra,
nos retalhos verdes
de montes sem gente
com alma
de ser sem se saber
ser.

2007-07-01

have a nice journey home

Vou estar a semana fora, mas nem utilizo o pretexto de "vou ter tempo para escrever" porque sei que não o vou fazer... E também vi. hoje. que perdi todos os poemas (anteriores a este blog) que tinha escrito e guardado no computador... Boa semana.

2007-06-27

Uma noite de Primaveril Inverno

Pouso a caneta com carinho,
deslizo para baixo dos sonhos
e cubro-me com as folhas deste caderno,
encosto a cabeça a sorrisos que vi nascer
e, então, adormeço.

E noite calada murmura-me
mundo distantes
e abraços quentes,
sons abafados que gritam agrilhoados
ecoam em becos,
secos,
de gente e de vida.
A ilusão faz-me companhia,
caminha a meu lado,
dá-me a mão
e pede que sorria,
mas agora que, felizmente, a noite chega,
já os meus sorrisos partiram
presos a um qualquer colorido balão,
cheio com fantasia…

2007-06-01

Dia da Criança

É dia da Criança. 
Este deve ser o único que se pode escrever sempre com letra grande. As crianças não são como os homens, que momentaneamente merecem ter o nome escrito com letra maiúscula. As crianças, de tão pequenas serem, têm o nome sempre escrito em maiúsculas.

Continuo criança na verdadeira acepção da palavra. Sento-me apenas para ver as poças de água da chuva, pouso os cotovelos nos joelhos e apoio a cabeça nas palmas das mãos. Não preciso desfocar a visão para ver paisagens do lado de lá, que se alteram a cada novo pingo de água. Por vezes, salto para dentro da poça e caio num novo mundo e deixo-me andar por lá, falando com os seres que lá habitam.

Continuo criança, simples, que se ri dos nós das gravatas, mas que já não embrulha bens preciosos em folhas de eucalipto para os enterrar debaixo de árvores, como chicletes ou lanternas.

Nunca fui agressivo em relação a nada e continuo a não o ser. Sonho ser poeta e andar pelo mundo, conhecer pessoas de verdade e a verdade das pessoas, alimentar-me com o que encontrar e trocar sonhos por poemas ou comida por um abraço ou um braço forte de trabalho.

Continuo criança, com medo não do escuro, mas de quem se esconde no escuro, das faces fechadas e dos sorrisos de mármore plantados à beira-rio de ilusões.

Continuo criança, a tentar que a luz trémula de uma lanterna chegue aos confins do Cosmos.

Continuo criança, com saudades de querer ter sardas e de ver crescer entre as mãos guitarras imaginárias ou acelerar por pistas de Fórmula 1.


Continuo criança, onde adultos inventam síndromes com nomes de heróis de banda-desenhada.

Continuo criança, com vontade de dar a volta ao mundo na palma da minha mão, de partilhar, dar e receber vida, olhares, falar com quem não conheço, sem medo ou ilusões de ser mais do que sou e ser o que poderei não conhecer e ser.

Continuo criança, com saudades de crianças que tive a sorte de conhecer como professor, de olhares que me moldaram o viver, que mesmo longe me fazem ver e viver melhor.

Continuo criança no sonho de viver em paz com a guerra, de ver nascer das mãos sementes que lançam arco-íris e polvilham o céu com cores que só vejo do lado de lá das poças de água e onde dou apertos de mão firmes.

Continuo criança, sem medo de crescer.

Cobertor

A minha vida assemelha-se a um cobertor pequeno.
Se tapo a cabeça, destapo os pés e vice-versa.

2007-05-31

A roda

Acabei por iniciar (bela contradição) estas linhas ainda nuas de mim sem dar um título, como se desse à luz uma criança sem lhe saber a forma e o sexo.
Vou adiando o que escrevo, tenho as histórias gravadas a tinta no meu bloco e a fogo nos meus olhos.
Movo-me até aqui, a este editor, onde vou tacteando o teclado aleatoriamente, à espera que as histórias decidam qual será a primeira letra, como se percorresse um índice remissivo e encontrada a letra, toda a palavra emergisse. Mas não, hoje as mãos são minhas, tenho o poder de escolher o que escrever, de me deixar fluir ao som do cantar do cisne.

Por muito que tente. Por muito que saiba que mesmo tentando nunca o irei conseguir. Continuo a pensar que nem com a minha envergadura de braços de quase 2 metros serei capaz de abraçar o mundo e encostar a minha cara a um oceano e sorrir, como uma criança que abraça um presente numa manhã de Natal.

Ainda não dei título a “isto”… E talvez isso tenha influenciado o facto de não conseguir escrever o que queria. Ou talvez seja mesmo eu, que estou verde demais para colher umas palavras que não podem frutificar.

Vejo-te com os olhos cansados, raiados, húmidos e tristes. Já nem falas nos sonhos e isso vê-se, tem-los nos olhos partidos e vitrificados. Por muito que eu saiba que tudo passa, ver-te ser diluído por um mundo que não se importa com ninguém faz-me ter vontade de pilotar uma nuvem, trazer-te nela e levar-te comigo, para o local que não é e ao qual se chega seguindo por um caminho sem direcção ou sentido.

Caminho um pouco pela noite, repouso onde posso, olho as estrelas e o negro espaço entre elas e ofereço a quem queira os meus sonhos como troca para solidificarem os teus.
Deixo que uma ou outra lágrima caia. Chego a casa e fico a olhar-me ao espelho, vejo os teus sonhos nos meus olhos e embora quisesse, eles não saem de mim, liquidificam-se em lágrimas, mas ficam apenas a bailar no meu horizonte privado, não saltam, agarram-se o que podem aos meus olhos, dizendo que saltam apenas quando eu sorrir. Mas quando sorrio, uma porta grande abre-se bem cá dentro e os sonhos partidos caem por lá, para saltarem à boleia de um olhar desconhecido que precise de sonhar.

Não consigo deixar de pensar que a vida é uma grande roda que atropela toda e qualquer pessoa que não consiga ser igual ao seu padrão estereotipado. Mas também não deixo de pensar, que somos nós o bicho que alimenta a roda. Podemos não atropelar, mas não deixamos de dar aos pedais para movimentar a roda.

O título será a roda.

2007-05-21

De onde não estou

Por muito que tente, os meus olhos não são mais do que isto...


(fotos portal de trás-os-montes)

2007-05-06

2007-04-26

Blogger award

O repto foi-me lançado há alguns dias, mas por falta de tempo e pela dificuldade da tarefa, ainda não me tinha dedicado... Mas agora terá que ser... Assim, aqui ficam as minhas escolhas, que possuem vários critérios, mas mesmo assim injustos para os que não nomeei, pois todos os que estão ali, do lado direito do monitor, nos links, mereciam...

Blog do Capelli
Fragilidades
Isso agora
O Bloguinho da Kika
O meu umbigo

2007-04-22

Nas mãos

As noites de Primavera têm a vantagem de serem frescas e arrastarem estrelas cintilantes e uma lua que não sei se é quarto crescente ou minguante. 
Possuem também o condão de me plantarem palavras nas mãos e eu olho para elas, deixo cair os braços ao longo do corpo e compreendo, que apesar da minha altura, de uma envergadura de braços de quase 2 metros, ainda assim os meus braços são pequenos demais para abraçar o mundo.
Não sei se ria ou chore, com esta vontade de ir para algum lado sem sair do local, de escrever poemas em prosa, ou condensar prosa em poemas.

Travos amenos de uns latidos perdidos na noite,
um sorriso num murmúrio
e uma mão apoiada numa estrela.

Um cansaço que teima em cansar,
uns braços que teimam
em gotejar o suor de uns quantos sufrágios.

Estou em crer que o descrédito da canoa está na quantidade de paus que a compõem...

Disseminação

O meu coração começa a ser pequeno para armazenar tanta amizade. 
Como não considero esvaziá-lo de cada vez que conheço novas pessoas, novos amigos, vou recebendo deles a amizade e, ao mesmo tempo, transferindo para eles bocados de mim mesmo e de outros que tenho em mim.

2007-04-20

Have a nice weekend

Sozinho, num quarto duplo, depois de um dia de trabalho, cansado, após um banho e telefonema para a Ana, dá vontade de cantar "So far away" dos Dire Straits, embora o verso "Here I am again in this mean old town" não seja muito justo com Manteigas, cidade/vila bastante aprazível e que, a confiar no placar que vi à entrada, é o concelho com a melhor qualidade de vida do País (escrevo país com letra maiúscula ou minúscula?).

Vinha ontem, quarta-feira, na carrinha e a apreciar a paisagem, as aldeias, vilas e cidades quase sem pessoas, os montes íngremes, os restos de vegetação que resistiram aos incêndios, os carros velhos e os semáforos de controlo de velocidade que não funcionam. Eu, que adoro Trás-os-Montes, faz-me confusão estes montes tão íngremes e agrestes da Serra da Estrela.Chove lá fora, o rio murmura e mais nenhum som, em profundo contraste com outras localidades, mesmo Cête. Pelo ritmo pachorrento do dia e o silêncio da noite, começo a acreditar que aqui, de facto, a qualidade de vida deve ser boa. Nada de polícias ou ladrões, apenas uns cães vadios, um deles com uma saca plástica verde na boca, uns relâmpagos que caem nuns pinheiros e nuvens negras.