2007-04-20

Have a nice weekend

Sozinho, num quarto duplo, depois de um dia de trabalho, cansado, após um banho e telefonema para a Ana, dá vontade de cantar "So far away" dos Dire Straits, embora o verso "Here I am again in this mean old town" não seja muito justo com Manteigas, cidade/vila bastante aprazível e que, a confiar no placar que vi à entrada, é o concelho com a melhor qualidade de vida do País (escrevo país com letra maiúscula ou minúscula?).

Vinha ontem, quarta-feira, na carrinha e a apreciar a paisagem, as aldeias, vilas e cidades quase sem pessoas, os montes íngremes, os restos de vegetação que resistiram aos incêndios, os carros velhos e os semáforos de controlo de velocidade que não funcionam. Eu, que adoro Trás-os-Montes, faz-me confusão estes montes tão íngremes e agrestes da Serra da Estrela.Chove lá fora, o rio murmura e mais nenhum som, em profundo contraste com outras localidades, mesmo Cête. Pelo ritmo pachorrento do dia e o silêncio da noite, começo a acreditar que aqui, de facto, a qualidade de vida deve ser boa. Nada de polícias ou ladrões, apenas uns cães vadios, um deles com uma saca plástica verde na boca, uns relâmpagos que caem nuns pinheiros e nuvens negras.

2007-04-17

Ocaso(s)

Trago no corpo roupa
cansada
de me usar,
vestida,
além nascida
dos olhos de quem,
quem?

Fecho os olhos,
mas foge-me o sono,
durmo,
mas foge-me o sonho.

Que ocaso
traz de novo o reflexo da vida?

2007-04-16

Verdade

Durmo sentado
à espera que me caia
no colo
a verdade
e me diga:
é mentira!

Ausente

A visão foge-me,
repousa num horizonte imaginário
onde os sonhos moravam,
numa neblina ténue
foram beber meus sentidos
para que não se esqueçam,
também eles são fugazes,
como o olhar passageiro da noite
sobre mim
ou o aceno imaginário
de uma dicotomia sem fim...

2007-04-15

Thinking Blogger Award

antónio paiva said...

Meu caro, pela originalidade e criatividade do teu trabalho, foste nomeado pela nossa pastagem faz com ela o que achares por bem fazer.

Boa semana.


Aparentemente ganhei um Thinking Blogger Award e como tarefa irei nomear em brever cinco blogues...
Amigos, não sei bem o que dizer, escrever e agradecer...
Sabe bem saber que há alguém que partilha a vontade de viver escrevendo, de escrever vivendo e, assim, podermos deixar um pouco de nós em tudo o que faz de nós pessoas, gente!
Fiquem bem,
Miguel Gomes

2007-04-12

Boa noite

Estou moído. É um termo para expressar uma coisa que se sente, que não é bem cansaço físico, é uma espécie de cansaço indefinido.
Sento-me ao computador e tento espremer os dedos nas teclas, para que pinguem algumas histórias diluídas que trago agarradas a mim, mas nada sai. 
O meu pai, estranhando o facto de me ver aqui a esta hora, o que já não é normal depois de casado, veio ter comigo e estivemos um pouco a conversar. 
Os olhos cansados, brilhavam um pouco, não sei se cansaço ou desilusão. Antes disso a minha mãe deu-me uma chávena de leite quente e um pão, um jantar que me sabe a banquete, a hora é avançada e o dever de enviar uns emails chamam-me ao computador.
Agito as mãos, mas as histórias continuas presas a mim agarram-se à minha face e o seu peso forma o que parecem ser olheiras sob os meus olhos. 
Paro e sorrio um pouco.
Apetece-me dizer que a minha casa é o mundo.

2007-04-11

Momentos

O processo que me leva a escrever é, na maioria das vezes, curioso e divertido.
Como usual, mais agora que em alturas anteriores, passo grande parte das viagens para o trabalho a fotografar movimentos de corpos humanos com um pouco de alma dentro. 
Vou pacatamente sentado no autocarro e sinto “algo” (há quem lhe chame intuição, mas eu chamo-lhe “coisa”), uma coisa, que me faz ficar alerta. 
Pouco depois sei o porquê do “alerta”, alguém entra no autocarro ou passo por algum local onde está alguém ou algumas pessoas. 
O que acontece a seguir é fruto apenas da minha realidade, senta-se uma pessoa, um corpo, eu olho e vejo um filme, um episódio daquela(s) vida(s) e um pequeno ponto luminoso chama-me à atenção, “escreve-me”, pede ele, e eu guardo-o na mente, um local mesmo atrás dos olhos, para que possa ver o que eu vejo enquanto está comigo. 
Depois chego a casa, abro este caderno e começo a escrever, e eis que chego ao processo de escrever que mencionei no início deste text(it)o, demoro um pouco, à espera que os vários pontos luminosos, que se acumularam nos meus olhos, decidam qual deles é o primeiro a saltar para o papel. 
Durante momentos baila à minha frente, na folha, mas acaba por diluir-se entre letras e palavras, não sem antes esboçar um sorriso e dizer “obrigado”.

Um estendal


Acabei por não escrever o que queria, é sempre assim, "eles" decidem o caminho a seguir.
As pessoas com as quais me cruzo vestem uma alma pálida, até as mais idosas, que mesmo na cidade são do tempo em que a cidade era menos cidade, são pálidas, brancas e baças.
Flutua, está no ar, uma nuvem invisível de pessoas que já não são pessoas, pesam sobre o ar, imiscuindo-se na própria respiração de um qualquer transeunte, até eu.
A cidade. 
A cidade é cidade desde a idade média, ou antes, desde a idade em que necessitamos de estar em grupo, para nos defendermos de nós mesmos.
Um motorista indiferente abre a porta a indiferentes passageiros, pessoas acotovelam-se ajustando-se aos espaços vazios, acoplando um pouco mais das nuvens invisíveis baças dos que nos rodeiam, são raros os sorrisos, mas quando os vejo atiço-os, não os deixo esmorecer.
Alguém fala sozinho, uma senhora com idade para ser minha avó insulta outra, que pode até ser avó, “oh puta, deves ter os cornos largos”, porque a pisou ao sair do autocarro. 
Putos entram e colam-se a mim, as conversas variam no trinómio playstation-gajas-telemóveis. 
Em 100 pessoas, uma, ou metade, passa por mim e é serena, o resto, ainda que o tentem, trazem a agitação imposta.
Fico por aqui, de tanta nuvem parece-me que vai chover e eu quero adormecer seco, porque do lado de lá não há estendal.

2007-04-10

Candle in the wind

Deixei que os olhos bebessem
dos sonhos que se soltaram
quando acordei.


Tremia ainda a chama

num pavio firme
e negro.


Guardo na boca o som

e os passos no vazio

que é a palma

desta mão...

2007-04-08

Restolhos...

Uma semana cheia, em todos os sentidos, sim, inclui-se o sentido "gula" que, nesta época festiva, enche o meu corpo com amêndoas e todo o tipo de doces típicos e atípicos.
Andar de novo de comboio e autocarro fez-me despertar ou acordar de uma hibernação lenta, daquelas em que pensei não voltar a acordar, mas a vida leva-nos para vários lados, sempre da forma que deseja e, assim, tomei de novo contacto com as formas disformes de pessoas que não são gente... Tinha-me esquecido das faces mais pálidas, dos sorrisos escondidos em faces "gargulizadas".
É impossível não olhar para o mar de pessoas, ondas constantes em movimentos, e não pensar sobre o que nos move, as necessidades normais, as vulgares regras da sobrevivência.
Sento-me nos lugares vagos ou deixo-me ir de pé, a oscilar entre curvas, paragens e arranques, ultrapassagens ou o marejar típico das estradas portuguesas, escondido atrás da capa de um livro, onde misturo fantasia com realidade, numa alquimia entre personagens fictícias, do livro, e as reais que se sentam, levantam e passam por mim. Não recordo o dia, era de manhã, pouco antes das 9:00, quando me sentei e, pouco depois, sentam-se duas senhoras, separadas por uns bons 25 anos. É impossível deixar de admirar a diferença tecnológica entre as duas. Ambas se preocupam com o seu cabelo e aparência, a mais velha tira da carteira um pequeno espelho cor de marfim e com pequenos toques arranja o cabelo, virando a cara poucos graus para ambos os lados, para ver melhor os olhos, a pintura, as madeixas a descer pelas têmporas. A seu lado, a mais nova, retira um telemóvel. O olhar mais incauto não se aperceberia que se trata de um telemóvel de terceira geração, com câmara para vídeo-chamada e foi assim, à força da tecnologia, que abriu o telemóvel e olhou para ele, vendo-se no visor, mexendo o telemóvel na direcção e inclinação necessária e fechando-o de seguida, após uma vistoria matinal... A diferença das tecnologias, as mesmas necessidades. Faz-me pensar que volvidos tantos séculos, ainda nos combatemos pelas mesmas necessidades, o que mudou foi, de facto, a tecnologia…
Passei uma semana a guardar episódios, a arquivar referências e códigos, daqueles que posso consultar quando me esqueço do livro que costumo ler… Pensei que seria hoje, domingo à noite, que teria tempo para escrever todos estes episódios, mas não…
Ainda não será agora que escrevo tudo o que desejaria, até porque há episódios que após visualizados têm que ser degustados, vividos, compreendidos, para depois verem a luz do dia…

2007-03-29

Spring tales

Há coisas que faço todo o ano, mas apenas reparo nelas na Primavera, têm uma magia que aflora apenas com o pólen verde que os pinheiros deixam.
As manhãs frias trazem orvalho, local de namoro entre a noite e o pó verde que voa nestas alturas.
O meu pai apanha-me em casa e vem, com aquela cara de meu pai, cabeça baixa, corpo novo para a idade que tem e pergunta: "vais estar em casa?" Eu rio-me, "já estou em casa". Enquanto não digo mais nada ele fica calado, até eu perguntar "queres que vá a algum lado?" e aí ele fala, lentamente "se me fosses buscar umas placas..." e eu, que até nem me apetece, vou.
E revivo, nestes momentos, coisas que só afloram nesta altura, como as flores, talvez por ser Primavera.
Deixo o computador ligado, como sempre, mudo o estado do messenger, digo "até já" a quem quer que estivesse a falar comigo e saio.
A Farrusca fica sempre a olhar para mim, com olhar de perguntar e eu, em tom de desafio, simulo o movimento de correr e ela, doida, começa aos saltos, à espera que eu corra. Não me apetece, vou andando lentamente, com ela a saltar à minha frente e a morder-me as mãos.

As poças que tiveram água têm agora pólen, o vento agita um pequeno pinheiro no caminho e é giro ver o pólen bailar na esteira do vento.

A oficina está igual, apesar de não ser (muito) apegado às coisas, não consigo deixar de pensar que todos os tijolos que ali estão passaram pelas minhas mãos, em tardes de Verão, quando os vinham descarregar e eu, com a força dos 17 anos e os mesmos 1,90 mt, ia colocando-os em pilhas, mais ou menos alinhadas e sem disposição, até me ensinarem que existem regras para os alinhar, ainda antes de juntos com cimento nas paredes. Estamos sempre a aprender, não é mesmo?
E arranco, com um pequeno papel no bolso, que diz "2 faia 3 mm 1 face + barata", não, não é iniciação ao Código Da Vinci, é mesmo para comprar duas placas de faia.
Há algum tempo que não conduzia a carrinha do meu pai. Lá, sinto-me como há uns 12/13 anos atrás, no topo do mundo, a ver os carros e a estrada de cima, com a diferença de não me imaginar num camião dos bombeiros ou da protecção civil. Sonho de criança.

Entretanto, sonhos à frente, paro a meio da recta da escola preparatória, onde andei uns 5 anos, para meter combustível (são 10 € fáxavor), mas tenho que aguardar que um senhor, de canadianas, passe no passeio (redundância), pé ante pé ante canadiana. 

Ele passa e eu acelero, parando mais à frente e aí sim, são 10 euro fáxavor, não, não é preciso chave. 
Enquanto o gasolineiro mete gasóleo (deveria ser gasoleeiro?), olho o senhor, idoso, de canadianas, que me olhe, um olhar penetrante, quente e naqueles segundos percorro as suas memórias de mão dado com ele, onde me mostra os tempos de criança, as comunhões, o casamento, os filhos idos que amparam menos que as velhas canadianas, as estradas de pó, as apanhas de milho, os regadios, as festas populares, os coretos coloridos com as bandas de música como coração, as noites escuras e os candeeiros a petróleo. 
Em segundos, apenas em segundos alguém me mostra a vida, que carrega agora em duas fracas pernas, em segundos apenas. 
Abanei lentamente a cabeça para sair daquele cenário e ele, que me viu de novo no presente, deitou um sorriso rasgado e piscou-me o olho. Acordei apenas ao "quer recibo?", "sim fáxavor". 
Fui e vim buscar as placas, acabei por comprar dois rolos de folha de faia. Passei pela Ana, sem ela contar, coisas de adolescente, que ainda ficam bem agora. Deito um olhar ao pequeno ouriço-cacheiro morto na estrada e continuo viagem.
Há coisas que me acontecem todo o ano, mas apenas reparo nelas na Primavera.

2007-03-22

Circle of love

O que fazemos

Para quem conhece o filme "Contacto" e sentiu o mesmo impacto que eu, sabe do que falo... Para quem nunca viu, aconselho ver e depois ler o livro homónimo do Carl Sagan... A determinada altura, David Drumlin (Tom Skerritt) tem um diálogo com Ellie Arroway (Jodie Foster) que, para mim, exprime bastante o estado actual do mundo ou da humanidade.
O filme foca em parte algumas personagens reais, que fazem parte do projecto SETI.

"Ellie, sei que deve achar tudo isto muito injusto. Para não dizer mais. O que não sabe é... que estou de acordo... Oxalá o mundo fosse mais justo e recompensasse o idealismo que manifestou, em vez de o explorarem... Infelizmente o mundo não é assim..." (David Drumlin)

"Que engraçado! Sempre julguei que o mundo era o que fazíamos dele..." (Ellie)

Singularidade vs Pluralidade

Procurar e viver a singularidade é fonte de dualidade. 
Não há poema, crónica ou conto que me permita exprimir o assombro e o espanto, o desespero e o êxtase de viver, de sentir, de permitir procurar-me e encontrar-me, para me perder em seguida e descobrir-me agora ou ao virar desta página, amanhã ao espelho ou após vidas no olhar de outra pessoa que não eu.
Neste encolher de ombros, que é a vírgula no conto de uma vida, fica a pairar a incapacidade de narrar o que as palavras ainda não sabem ler e o sorriso de um breve instante que dura apenas a distância que vai da primeira linha desta folha até o momento em que paro, levanto a caneta e sorrio para a mão que a sustenta.

2007-03-14

Back to the Future

Depois de olhar por entre os dedos e ver o futuro, longínquo e dependente ainda de passos vagarosos e firmes, torna-se difícil acordar e respirar a neblina que arde nos olhos.

2007-03-06

Rain man... away

Era capaz de ficar para sempre a ouvir a chuva cair no telhado, com os olhos fechados, tremendo até que a roupa secasse no corpo com a ajuda de uma lareira e sentindo, arrepiado, as gotas que caíam do cabelo molhado.
Eu e a chuva. 
Dá-me conforto os dias de chuva e vento, como hoje, talvez de forma egoísta, aceito, porque muitas e muitas pessoas não têm abrigo.
Era capaz de ficar sempre feliz, sem me submeter ao que chamam de vida e aos seus caprichos, aos seus ventos de agoiro que trazem na lapela sorrisos falsos.
Era capaz de ser capaz de sorrir quando me dessem palmadinhas nas costas depois de eu contar um sonho absurdo de realização pessoal.
Era capaz de ficar a olhar despreocupado à injustiça que varre a humanidade de uma ponta à outra da sua divisão maior, a sinceridade.
Tantas e tantas coisas que eu era capaz de ser e fazer, mas que não faço, porque nem sempre chove, nem sempre tenho alpendres e ventos uivantes, nem sempre me pedem carinho os animais com que me cruzo, nem sempre os meus sonhos afloram nadando na retina.
Não era capaz de ser capaz de sorrir no quotidiano de quem labuta por uma côdea, porque os olhos de quem não sorri pesam-me na face e na alma.
Naquilo que chamam de viver, sou eu a nascer.

2007-03-04

Poemas

A Miosotis comentou, há pouco tempo, que era a primeira vez que se lembrava de ver poesia neste blog... Pois... Há mais, muito mais, neste blog e em cadernos vários, fragmentados em cadeias de bits e bytes...

Curiosamente talvez por ser, na maior parte das vezes, pessoa de poucas falas gosto de escrever poesia... Ou algo parecido... Gosto de deixar as palavras suspensas, paradas numa encruzilhada de uma qualquer estrada de montanha, para que quem lê possa levá-las em qualquer sentido e direcção...

Também já deixei por aqui ensaios para contos desconexos, que têm um sequência apenas porque os escrevi sequentemente e não consecutivamente...
Estes ficam antes dos poemas porque são menos:
(I) O chapéu
(II) O Carteiro
(III) A estrela

Deixo links para alguns poemas que estão neste blog (pelo menos até 14 de Setembro de 2005)

Cold night blues
Caronte's sons
Das palavras que vibram
Esquecimento
Porque não sou
Rugas do dia
Respirar
Em olhos de sonhar
Suspiros na noite
Let me be
Até já
Quatro de um
Hipnagogia
Náufragos
Os sons de quando chove
Mais
Sorrisos suspensos
Sorrisos escorpiões
Sorrisos amordaçados
Tardes diluídas
Pause
Canoa doutra imensidão
De nossa alma (texto e poema)
Noites tresmalhadas
Folhas vagas
Acordar
As últimas palavras
14:16 PM
2:16 PM
Sorrisos de gente simples
Dourado
Ocaso
A aguardar
Para quê um título
Formas de olhar
Repouso
Pedras revoltas
Menina quanto custa isto?
Palavras incolores
Um palmo apenas
Sobre os rostos de fantasmas solitários
Visão de vivos e idos fantasmas
Quando o tempo morre em mim
Quantos sorrisos mais?
Brando e benevolente
Teu pai, teu filho
As mentes mortiças
Adormeço
Estrias na alma
Enquanto a vida te rodeia
Quando não eram pequenos
Do que voltou
O facto do nada
Ser onde não estar
Um desenho da alma
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro

Se, eventualmente, conheceres algum editor, mostra-lhe isto, ok? Pode ser que goste :)

Fica bem.

2007-02-26

Rain in a sunny day

Chovia tanto que ele pensava morar no fundo do mar, separado do infinito azul líquido por uma fina tela de vidro.
O vento, quando uivava, parecia um navio e, assim, fechava os olhos e imaginava-se num barco, daqueles pequenos, onde não cabe um remo, apenas existe um pequeno espaço para um punhado de sonho e ilusão.
Quando a ondulação o embalava ele deixava-se adormecer, para logo depois acordar, dentro do mar que é o peito de quem sonha. 
E assim, enquanto dormia, o sonho e ilusão saltavam, como peixe acabado de pescar, e caíam novamente ao mar, deixando-se cair ao sabor da corrente, para que outros que não dormissem os vissem lá no abismo onde habitavam e pudessem, também, sonhar.
Acordava e via-se no barco, ondulando, mas no momento em que olhava para o seu pequeno barco e não via o seu punhado de sonho e ilusão, acordava. 
Para se ver encostado ao vidro, contra o qual o vento atirava pequenas gotas de chuva. 
E estas, cansadas, escorregavam e contavam-lhe baixinho: “sonha, para que os que não dormem possam encontrar alguns sonhos”.

2007-02-20

Cold night blues

Fogem de mim,
os olhares da noite
e as mãos frias,

o aceno fugidio da mentira

e a lágrima

que já ida
nem de mim me tira.


A névoa das pessoas

e máscaras,

a chuva que inunda
a noite,

pintada de verdade,
quando cair no vazio
verá,
uns olhos cavados
e mãos,
em desespero,
agarrando a vida
que a outros tirou...