2007-03-22

Singularidade vs Pluralidade

Procurar e viver a singularidade é fonte de dualidade. 
Não há poema, crónica ou conto que me permita exprimir o assombro e o espanto, o desespero e o êxtase de viver, de sentir, de permitir procurar-me e encontrar-me, para me perder em seguida e descobrir-me agora ou ao virar desta página, amanhã ao espelho ou após vidas no olhar de outra pessoa que não eu.
Neste encolher de ombros, que é a vírgula no conto de uma vida, fica a pairar a incapacidade de narrar o que as palavras ainda não sabem ler e o sorriso de um breve instante que dura apenas a distância que vai da primeira linha desta folha até o momento em que paro, levanto a caneta e sorrio para a mão que a sustenta.

2007-03-14

Back to the Future

Depois de olhar por entre os dedos e ver o futuro, longínquo e dependente ainda de passos vagarosos e firmes, torna-se difícil acordar e respirar a neblina que arde nos olhos.

2007-03-06

Rain man... away

Era capaz de ficar para sempre a ouvir a chuva cair no telhado, com os olhos fechados, tremendo até que a roupa secasse no corpo com a ajuda de uma lareira e sentindo, arrepiado, as gotas que caíam do cabelo molhado.
Eu e a chuva. 
Dá-me conforto os dias de chuva e vento, como hoje, talvez de forma egoísta, aceito, porque muitas e muitas pessoas não têm abrigo.
Era capaz de ficar sempre feliz, sem me submeter ao que chamam de vida e aos seus caprichos, aos seus ventos de agoiro que trazem na lapela sorrisos falsos.
Era capaz de ser capaz de sorrir quando me dessem palmadinhas nas costas depois de eu contar um sonho absurdo de realização pessoal.
Era capaz de ficar a olhar despreocupado à injustiça que varre a humanidade de uma ponta à outra da sua divisão maior, a sinceridade.
Tantas e tantas coisas que eu era capaz de ser e fazer, mas que não faço, porque nem sempre chove, nem sempre tenho alpendres e ventos uivantes, nem sempre me pedem carinho os animais com que me cruzo, nem sempre os meus sonhos afloram nadando na retina.
Não era capaz de ser capaz de sorrir no quotidiano de quem labuta por uma côdea, porque os olhos de quem não sorri pesam-me na face e na alma.
Naquilo que chamam de viver, sou eu a nascer.

2007-03-04

Poemas

A Miosotis comentou, há pouco tempo, que era a primeira vez que se lembrava de ver poesia neste blog... Pois... Há mais, muito mais, neste blog e em cadernos vários, fragmentados em cadeias de bits e bytes...

Curiosamente talvez por ser, na maior parte das vezes, pessoa de poucas falas gosto de escrever poesia... Ou algo parecido... Gosto de deixar as palavras suspensas, paradas numa encruzilhada de uma qualquer estrada de montanha, para que quem lê possa levá-las em qualquer sentido e direcção...

Também já deixei por aqui ensaios para contos desconexos, que têm um sequência apenas porque os escrevi sequentemente e não consecutivamente...
Estes ficam antes dos poemas porque são menos:
(I) O chapéu
(II) O Carteiro
(III) A estrela

Deixo links para alguns poemas que estão neste blog (pelo menos até 14 de Setembro de 2005)

Cold night blues
Caronte's sons
Das palavras que vibram
Esquecimento
Porque não sou
Rugas do dia
Respirar
Em olhos de sonhar
Suspiros na noite
Let me be
Até já
Quatro de um
Hipnagogia
Náufragos
Os sons de quando chove
Mais
Sorrisos suspensos
Sorrisos escorpiões
Sorrisos amordaçados
Tardes diluídas
Pause
Canoa doutra imensidão
De nossa alma (texto e poema)
Noites tresmalhadas
Folhas vagas
Acordar
As últimas palavras
14:16 PM
2:16 PM
Sorrisos de gente simples
Dourado
Ocaso
A aguardar
Para quê um título
Formas de olhar
Repouso
Pedras revoltas
Menina quanto custa isto?
Palavras incolores
Um palmo apenas
Sobre os rostos de fantasmas solitários
Visão de vivos e idos fantasmas
Quando o tempo morre em mim
Quantos sorrisos mais?
Brando e benevolente
Teu pai, teu filho
As mentes mortiças
Adormeço
Estrias na alma
Enquanto a vida te rodeia
Quando não eram pequenos
Do que voltou
O facto do nada
Ser onde não estar
Um desenho da alma
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro

Se, eventualmente, conheceres algum editor, mostra-lhe isto, ok? Pode ser que goste :)

Fica bem.

2007-02-26

Rain in a sunny day

Chovia tanto que ele pensava morar no fundo do mar, separado do infinito azul líquido por uma fina tela de vidro.
O vento, quando uivava, parecia um navio e, assim, fechava os olhos e imaginava-se num barco, daqueles pequenos, onde não cabe um remo, apenas existe um pequeno espaço para um punhado de sonho e ilusão.
Quando a ondulação o embalava ele deixava-se adormecer, para logo depois acordar, dentro do mar que é o peito de quem sonha. 
E assim, enquanto dormia, o sonho e ilusão saltavam, como peixe acabado de pescar, e caíam novamente ao mar, deixando-se cair ao sabor da corrente, para que outros que não dormissem os vissem lá no abismo onde habitavam e pudessem, também, sonhar.
Acordava e via-se no barco, ondulando, mas no momento em que olhava para o seu pequeno barco e não via o seu punhado de sonho e ilusão, acordava. 
Para se ver encostado ao vidro, contra o qual o vento atirava pequenas gotas de chuva. 
E estas, cansadas, escorregavam e contavam-lhe baixinho: “sonha, para que os que não dormem possam encontrar alguns sonhos”.

2007-02-20

Cold night blues

Fogem de mim,
os olhares da noite
e as mãos frias,

o aceno fugidio da mentira

e a lágrima

que já ida
nem de mim me tira.


A névoa das pessoas

e máscaras,

a chuva que inunda
a noite,

pintada de verdade,
quando cair no vazio
verá,
uns olhos cavados
e mãos,
em desespero,
agarrando a vida
que a outros tirou...

2007-02-03

Até um dia destes

Olá. 
Parece-me que é a última vez que venho aqui, ao blog, para escrever. 
Acho que me cansei de cultivar o lado bucólico da vida neste espaço virtual. 
Inevitavelmente, nada é evitável, digamos que faz parte da vida sermos assim, uma sucessão de dias e horas, segundos e noites, sonhos e pesadelos. 
Confesso que esta deve ter sido a primeira vez que me sentei em frente ao computador sem um motivo, ainda que muito distante do meu fio condutor, para escrever. 
Sentei-me e assim fiquei, a olhar, sem qualquer história para escrever, sem qualquer sonho misturado com música e flores que nascem nas encostas das estrelas. 
Orgulho-me de continuar, por aí fora, sendo eu mesmo, com mais ou menos pontapés na boca, mas escrevendo em meu nome, comigo e para mim. 

2007-01-29

Cubos de todas as cores

Chego à tua beira, tens os olhos cansados e nublados por sonhos que nunca viveste e que teimam em bailar na tua retina. Olho-te de cima, como há nunca o fazia, e conto-te coisas simples, como a finta do Quaresma ou a primeira final do Porto na Taça dos Campeões. Ou as novas descobertas sobre o ADN e a Física Quântica, falo-te das teorias de conspiração e ris-te, é capaz, é capaz. Conto-te novos sonhos e projectos, como quando me ensinaste a ler com os cubos em madeira, onde desenhaste letras de várias fontes e tamanhos. E nestes momentos já os teus olhos brilham e as sombras que nublam os teus sonhos dispersam-se.
Nada mais te faço que semear a mesma alegria com que me ensinaste, mesmo sem o saberes. E assim sou feliz.

2007-01-24

Caronte's sons

Vestia de preto
a noite
quando morreu nos meus olhos.

As escadas cadentes
acompanham o ritmo das sombras
e sorriem,
os ruídos do silêncio ficam impunes
enquanto os punhos,
cerrados em raiva,
adormecem os sonhos
no ameno travo do malte.

A distância,
feliz,
recolhe-se à falsidade
verosímil
que amputa o horizonte,
para que os que nascem na barca
sejam os filhos da vida
perfilhados por Caronte.

Petrifica-me a mão que não vejo,
porque morreu-me nos olhos
o desejo...

2007-01-22

Das palavras que vibram

Enquanto os sons ecoam
voam e molham-me
a alma,
a ternura da noite que me abraça
adormece
o calor
nas costas da vida,
onde sonha.

Longe as mãos
e o dourado deambular,
de um sorriso
que outro eu quer abraçar,
das palavras
que vibram apenas no palato,
da frase que codifica
o amplo
deserto, das passadas águas
sob pontes tantas,
resta apenas o sal
que água leva, e vai
à sílaba afluente
de cristalina...

2007-01-19

Esquecimento

Há muito minhas mãos esqueceram
e meus olhos voaram,
dos caminhos nublados
às estradas,

então,
desconhecidas

outros sentidos
acordaram.


Nada do que vagueie é vago,

nem as sombras fugidias
que dançam

nas mãos,

tão pouco a memória

que sorri

na calada da noite,
quão distantes

os senãos.


As metáforas

subjugam o sentido
do olhar,

enquanto as mãos ainda
afagam

os acasos da vida,
os ocasos esmaecidos
bailam
no compasso
lento
do deambular
no infinito,

deste segundo
um momento...

2007-01-12

Feather theme

Títulos e linhas, palavras e sentidos, tudo armazenado em vários ficheiro de texto que, invariavelmente, morrem sozinhos, esquecidos no computador. Isto é fruto de padecer de um mal, o de falar comigo mesmo, o que faz com que aquilo que gostaria de escrever fosse dito e, assim, já não escrito.

Chego perto da Farrusca, deitada ao Sol, pouco faz além de abanar o rabo contra a parede, à espera de um afago. Falo-lhe e ela levanta a cabeça, à espera da habitual carícia no pescoço. Por vezes nem falo, fico a olhar para ela a sorrir e ela, sem que eu me mexa, levanta-se e encosta a cabeça às minhas pernas e fico, assim, ainda a sorrir, com os olhos fechados, partilhando com ela o prazer de estar ao Sol num dia de Inverno.

Esta minha característica contemplativa, faz com que me veja a passar por locais e olhar, reviver situações e emoções, como ontem. Apesar das mudanças impostas pelo tempo e o progresso em forma de asfalto de auto-estrada, encontrei uma escola primária onde vi o futuro em forma de olhares pequeninos e sonhos imensos. Fico a pensar onde andarão aqueles príncipes e princesas, será que cresceram muito? E de repente, quando passo lentamente pelo recreio da escola, na neblina e noite cerrada, vejo-os correr novamente, dizendo-me adeus com as mãos pequenas e os olhos gigantes de luz. Não há um episódio na vida que não me marque, parecem destinados a surpreender-me, parecem existir já, à espera apenas que eu dobre a esquina para assomarem aos meus olhos e eu, como criança, sorrio. Nessa escola, onde a professora era mesmo Professora Primária, e os alunos eram os sonhos, passei por momentos emocionantes. E, muitas vezes, esforçando-me para conter as lágrimas, sorri e agradeci a quem quer que seja que me proporciona ser feliz apenas por existir. Os desenhos tenho-os todos guardados, sei que um dia perecerão, mas os originais estão gravados no meu peito, armazenados na secção dos sentimentos, onde nada, nem o mais triste acordar pode remover. As letras que estão dentro são, cada uma, um infinito raio de Sol que ilumina todo e qualquer recanto da minha vida. As crianças. Nascem como estrelas cadentes.
Depois de sair daquela escola voltei lá apenas mais uma vez, apenas por visita, falei com a Professora, Patrícia de seu nome, e agora tenho pena de não ter ficado com contacto de mais professores e funcionários.
Não sei porque escrevo isto, todas as pessoas possuem, sei-o bem, momentos inesquecíveis, grandes ou pequenos, sonoros ou inaudíveis, visíveis ou apenas daqueles que se vêm com os olhos do coração, quando a mente dorme e os sentidos percorrem o espaço que nos separa da felicidade.

2006-12-19

Feliz Natal


Quem não está na minha lista de email, não recebeu o email, por isso aqui vai.

Que este Natal e Novo Ano que inicia, acima do consumismo tradicional, independentemente da nossa religião ou falta dela, possamos parar um pouco e perceber que os nossos passos na vida só fazem sentido se ecoarem noutros passos, que as nossas palavras podem ser mais que fonética, mas sim amizade sincera e despojada e que os nossos gestos podem reverberar de facto aquilo que somos.

Não estamos sozinhos… Estamos uns com os outros. Então que tal fazer do nosso interior um local melhor para habitarmos e também recebermos?

Desejo-vos tudo de bom,
Miguel Gomes

2006-12-15

Ameaça mortal

É de mim ou nós, seres-humanos (escrevo propositadamente com hífen, para não se confundir com o ser de existir, pois nós até existimos enquanto humanos, mas parece-me que somos menos humanos) vivemos a defendermo-nos de nós mesmos?

Escudamo-nos perante os outros, como se eles, os outros, nossos semelhantes em mais do que aparência física, mas em essência, fossem uma outra espécie mortal e mortífera (embora não pareça, são coisas diferentes, mortal pode ou não matar, mas mortífera mata mesmo, alguns só com o olhar), sanguinária e incompatível com a nossa presença neste mesmo cubículo a que uns chamam mundo…

É de mim ou parece que vivemos em realidades diferentes?

Não existe um único projecto para preservação deste planeta e de nós mesmos, enquanto habitantes da mesma “aldeia”.

Cá por mim, gosto de descobrir tempo para algumas coisas, como parar perto de um senhor com cara assustada, num Multibanco, ajudá-lo e ouvi-lo dizer: “não percebo muito destas coisas”, ou ainda “e porque é que alguém me ia roubar se soubesse o código?”. Ou ainda parar no trânsito para deixar passar outro carro e ainda ter tempo para trocar um sorriso.

Riqueza(s)

Dou por mim num pós-jantar, onde se discutem aplicações financeiras, planos poupança, reformas, seguros, etc.
Fiquei a saber que sou pobre. 
Eu, que pensava que a maior riqueza do ser humano estava à distância de um abraço.

2006-12-11

Pensamentos de Ghandi


"Nada tenho de novo para ensinar ao mundo. A verdade e a não-violência são tão antigas quanto as montanhas. Tudo o que tenho feito é tentar praticar as duas na escala mais vasta que me é possível. Assim fazendo, errei algumas vezes e aprendi com os meus erros. Toda a minha filosofia, se é que se pode dar este nome pretensioso, está contida no que tenho dito."

"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo."

"O amor e a verdade estão tão unidos entre si, que é praticamente impossível separá-los. São como as duas faces da mesma moeda."

"O amor é o meio, a verdade é o fim. Se usarmos o meio, cedo ou tarde chegaremos ao fim, à Verdade, a Deus."

"O caminho da paz é o caminho da verdade. Ser honesto é ainda mais importante do que ser pacífico. Na verdade, a mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo. Ele vai perceber, no curso de sua busca, que não tem necessidade de ser violento. Vai também descobrir que, enquanto houver nele o menor vestígio de violência, não conseguirá encontrar a verdade que está procurando."

"A não-violência não é somente um estado negativo que consiste em não fazer o mal, mas também um estado positivo que consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem nos faz mal."

"Podemos constatar (o amor) entre pai e filhos, entre irmãos, entre amigos. Mas temos de aprender a usar esta forma entre tudo que vive; no uso dela está o conhecimento de Deus. Onde existe amor, existe vida. O ódio leva à destruição."

"Tudo o que vive é teu próximo!"

"A não-violência nunca deve ser usada como um escudo para a covardia. É uma arma para bravos."

"Não vejo bravura nem sacrifício em destruir vida ou propriedade alheia."

"A não-violência não existe se apenas amamos aqueles que nos amam. Só há não-violência quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil assumir essa grande lei do amor, mas, todas as coisas grandes e boas não são difíceis de se realizar? O amor a quem nos odeia é o mais difícil de tudo; no entanto, com a graça de Deus, até mesmo essa coisa tão difícil se torna fácil de realizar, se assim quisermos."

"O teste maior da não-violência está no fato de não ficar qualquer rancor depois de um conflito não-violento, com inimigos transformando-se em amigos."

"A lei do amor pode ser melhor compreendida através das crianças."

"Se quisermos alcançar a verdadeira paz nesse mundo e se quisermos desfechar uma verdadeira guerra contra a guerra, temos de começar pelas crianças; se crescerem com sua inocência natural, não teremos que lutar; não teremos que tomar resoluções ociosas e infrutíferas, mas seguiremos do amor para o amor, da paz para a paz, até que finalmente todos os cantos do mundo estarão dominados pela paz e amor, pelo que o mundo inteiro está ansiando, consciente ou inconscientemente."

"O mundo está cansado de ódio."

"Se a corrida armamentista alucinada continuar, é inevitável que resulte em massacre como jamais ocorreu na história. Se restar um vitorioso, a própria vitória será uma morte em vida para a nação que emergir vencedora."

"A não-violência é a maior força a serviço da humanidade."

"Nesta era de maravilhas, ninguém dirá que uma coisa ou idéia não presta porque é nova. Dizer que é impossível porque é difícil não está de acordo com o espírito de nosso tempo. Coisas que jamais foram sonhadas estão sendo vistas diariamente, o impossível está a todo instante se tornando possível. Ficamos constantemente impressionados com descobertas espantosas no campo da violência. Mas afirmo que descobertas ainda mais espetaculares e aparentemente impossíveis serão feitas no campo da não-violência."

“O único tirano que aceito neste mundo é a voz interior, suave e serena.” -
- Mahatma Gandhi –

2006-12-04

Ruas

Antes de começar a fazer algum trabalho, tenho que colocar as paisagens que vejo no "papel", para poder dedicar-me com mais atenção às tarefas.
Este tempo, não o Natal, mas esta época. Hum. Que delícia, não só pelos chocolates, mas pela doçura das nuvens, chuva, frio e das paisagens que vejo.
Deixo o carro parado e percorro as ruas a pé, deixo que as ervas me molhem as calças e os pés fiquem molhados, deixo a terra ranger sob os meus passos e o guarda-chuva não consegue amparar-me de toda a chuva, o que faz que até as mãos que seguram o guarda-chuva fiquem molhadas.
Uma rajada de vento verga o guarda-chuva, que fica com as varetas torcidas e, assim, sem que me abrigue, pouso-o num caixote do lixo e continuo.
Uma nova rajada de vento faz-me baixar a cabeça e semi-cerrar os olhos e quando por fim o vento amaina, ergo a cabeça, mas é já outra paisagem que vejo. Caminho ladeado por altos muros de pedra, num caminho lamacento, com vestígios de animais terem passado por lá.
Não sei se são as ruas onde caminho, se os olhos onde sonho.

2006-11-29

Rosa vermelha

Era perto das 20:30, entrada de uma grande superfície comercial em Penafiel, entrei com a Ana e logo à nossa frente estava um homem, ar humilde (não era o ar ambiente, era mesmo o olhar que o vestia), com um fato gasto, azul escuro com finas riscas brancas, um cabelo semi-penteado, ou melhor, um semi-cabelo penteado, uma cara gasta e um olhar que não sei descrever. 
Ao seu lado estavam algumas sacas de plástico. 
Tinhas botas, castanhas, escuras, castanhas de origem e escuras de tempo. Mas o que mais me atraiu, o que os meus olhos gravaram, foi a rosa vermelha na lapela. Aquela flor conferia ao cenário um toque de génio, é como quando tentamos desenhar algo, escrever umas linhas, mas sabemos que falta algo para terminar, uma pincelada oculta, uma linha mais no poema, assim era a rosa. Desconheço a razão, seria um encontro? Não sei.
Seguimos para uma loja, tentar ser mordido pelo gordo cão do consumismo, e quando voltamos ainda lá estava. 
Fizemos as compras, andamos de um lado para o outro e quando saímos, lá estava ela, a rosa na lapela, assim como ele. 
Chegamos ao carro, pousamos as compras na mala, a Ana entrou e eu, quando fechava a porta com pressa, para fugir da chuva, algo puxava o meu casaco. Voltei e com os olhos semi-cerrados pela chuva, vi-o. Um rosto de menino. Aquele que me acompanha por vezes em tantas viagens. 
Tirou uma mão do bolso e mostrou-me uma pequena bola de algodão-doce, o sorriso perguntava-me se podia, apenas encolhi os ombros e sorri também, como que anuindo. 
Entrei depressa para o carro e só o vi, pelo espelho, sentar-se ao lado do homem da rosa na lapela e oferecer-lhe aquele pequeno berlinde de algodão-doce… O que se passou? Não sei, não vi o desenrolar da história e agora, que a queria contar, ele está deitado aos meus pés, olha para mim ensonado e diz-me: estou cansado, posso contar amanhã?

2006-11-24

A primeira vez

Para tudo existe uma primeira vez, não é mesmo?
Tudo o que fiz hoje não foi pela primeira vez absoluta, mas relativa.
Mas ontem, bem, ontem foi mesmo a primeira vez. Eu, Miguel, 1,90 mt de gente, em plena formação, consegui apoiar-me mal na cadeira e dar um tombo daqueles que eu mesmo gostaria de ter visto de outro ângulo! 
Ai, não há palavras, tive que me conter para não me rir ao longo de toda a formação e acredito que o mesmo tenha acontecido com os formandos... Embaraçoso? Nah! Muito, mas mesmo muito hilariante!!!