2006-11-08

Só mais isto

Antes de começar a trabalhar depois de almoço (ai que sono), não posso deixar de escrever meia dúzia de linhas...

Este tempo frio, com Sol quente, matas a serem limpas, montes de erguiço, fetos e ramos a serem queimados, a neblina de fumo que paira no ar, o barulho da forquilha a acomodar mais mato na fogueira e um olhar que se vê mal ao longe lança-me um aceno de mão... Traz-me à memória outros tempos, de criança, de vir da escola já noite, pousar a mochila (antes era sacola), fazer os deveres e outras coisas mais que, agora, não tenho tempo para escrever...

Uma cozinha velha, preta, onde o vento uiva porque o telhado não assenta correctamente nas paredes, um forno velho tapado com panfletos de promoções de um mercado qualquer, a pedra onde se fazia a lareira, as telhas de vidro para entrar o Sol, um rosto velho, onde o tempo gastou o olhar, umas velas retorcidas, um corpo num banco envolto em neblina invisível, uns sorrisos ténues e uns parabéns merecidos...

Pronto, era isto.

Torrada ou Maria?

O divertimento das escovas gastas e a chiarem vai ter que acabar, hoje constatei que estão de facto muito gastas e embora me divirta a ver os carros duplicados, se alguém da DGV vê este post é provável que me denuncie e não estou numa altura em que pagar multas seja um desporto, que se pratique de ânimo leve.

Vinha cansado, disposto a tomar um banho e dormir, mas o estômago também fala e à minha espera tinha outra parte de mim, a Ana. Sentei-me, tomei o meu leitinho com bolachas e o normal seria terminar aqui, tomar uma banhoca e dormir, mas não, não foi normal. E não foi normal porque além do leitinho, tinha umas bolachas, várias bolachas ou tipos de bolachas e dou por mim a olhar para uns anos atrás, ainda criança, sentado num banco com tampo em fórmica, frio ao primeiro toque, com os braços apoiados na mesa, também de fórmica, com um pano azul, bordado, e em cima, a fumegar, uma chávena de leite com mel. O cenário mudou, obviamente, mas o sentimento é o mesmo. 
Recordo, com um brilhozinho nos olhos, o luxo ou diferença que era ter alguns pacotes de bolachas. Na altura eram apenas duas qualidades, as bolachas Maria (ah grande bolacha!) e as Torradas. Pouco tempo depois surgiram outras, mas não eram compradas tão frequentemente, creio que tal facto se devia à minha gulodice, bolacha nova, mais doce, era sinónimo de acabar rapidamente. Além das duas variedades que mencionei, surgiram outras duas, as Alfa e umas outras que não sei o nome, mas recordo do sabor e da forma, pareciam de aveia, eram mais “espessas” na boca e a sua face era quadriculada.

As bolachas Maria eram óptimas para molhar no leite, enquanto que as torradas eram fantásticas para o café. Café do bom, feito na cafeteira da minha mãe. Fantástico.
As outras bolachas eram apenas para o leite, de preferência simples.

De quando em vez, numa altura de aniversário especial (o meu ou da minha irmã, porque os meus pais nunca valorizaram com bolachas especiais, ou qualquer outro luxo, como seu próprio aniversário), surgia a embalagem de sortido. Era um deleite, a boda de um rei! Corria com o olhar a caixa, tentava adivinhar se eram os sortidos de dois pisos ou de apenas um. Dois pisos simbolizavam mais contentamento, afinal eram duas camadas de bolachas! Rapidamente via a variedade que, curiosamente, não mudou muito desde os meus tempos de garoto com sonhos grandes em olhos pequenos. As bolachas baunilhas cobertas com chocolate eram as minhas favoritas, não só o seu exterior era belo, de chocolate, como o seu interior era fabuloso, de baunilha. Tal como muitas pessoas.
Depois surgiam as outras variedades de bolachas cobertas de chocolate, até parar nos “tubinhos”, bolachas com recheio e as “restantes”. Era uma felicidade. Aliás, todos os tempos eram de felicidade, pois qualquer coisa nova era sinónimo de boca doce (ah, também os pudins boca-doce, nos copos de plásticos, que saudades), de sentar à mesa e sorrir. 
Ainda hoje é tempo de sorrir, de ver que as lembranças nas quais me ergo são letras de ouro bordadas no meu coração, na minha alma.

Há coisas que a apenas nós nos fazem sorrir. 
Será que despertam um sorriso em alguém? 
Terão estas linhas o condão de fazer sorrir alguém? 
E que sentimento é este que me impele a escrever, a anotar estas memórias? 
Para quem escrevo? 
Para mim, certamente, mas se eu já tenho estas memórias e, diga-se em abono da verdade, muitas vezes saltam a meus olhos, porque necessito de as escrever? 

Bem, é tarde. Espero que o barulho do computador não acorde a Ana, que já dorme serenamente.

A maior felicidade é constatar que, mesmo inconscientemente, todas as minhas acções foram felizes, que todos os gestos de meus pais me proporcionaram uma felicidade máxima, extrema.

Fiquem bem, as memórias e vocês...

2006-10-20

Rainy day #5

Ando para aqui a mexer de um lado para o outro no computador, sem me decidir a escrever... Abro o bloco de notas, escrevo e apago, saio e vou jogar "Solitário Spider", regresso, escrevo e apago, saio e vou dar uma vista de olhos nos meus documentos, nos ficheiros da pen-disk... E enquanto me mantenho longe do bloco de notas, todas as ideias surgem na minha mente, prontas a serem escritas, como se, inclusive, o facto de pensar fosse quase como escrever... Até que percebo que estou a procrastinar, a adiar, como se devesse escrever o mais perfeito dos poemas ou a mais fluente das prosas, afinal, escrever aqui é mostrar ao "público" e aquilo que mostramos diz muito de nós... E é assim que, dia após a dia, sem medo algum, me conheço melhor, estando atento a tudo o que penso, a tudo o que crio mentalmente. É como se vasculhasse o meu porta-cd's e visse que tenho alguns cd's riscados, demodées, que continuavam a tocar...

Tinha um outro texto para "postar", mas está no computador de casa dos meus pais...

Lá fora a chuva parou... Quer dizer, parou de cair forte, porque continua a cair, mas fraquinha :)

Saio do IDT e percorro os cerca de 30 km's até casa, o raio do vidro embacia, as escovas estão a ficar gastas e quando dou o pisca para a esquerda, especialmente quando chove muito, os máximos ligam-se :) E eu rio-me :)

Acho que parte de mim ainda quer, neste tempo, estar numa eira, sentado sobre palha e com as costas nos carolos de milho, saboreando uma sopa "de tudo", quente, a fumegar, o que me faz soprar de cada vez que levo a colher à boca... Parte de mim está a olhar para um cão, que dorme a meus pés, e ouve a chuva bater nos reforços de chapa da porta da eira... E enquanto o meu corpo se reparte por múltiplas dimensões, há um fio condutor que transporta as lembranças de vidas e vidas, a felicidade...

Confesso que me perco, por vezes, nas listas de emails e leio tudo e mais alguma coisa, de todos as temáticas... E dou por mim a espreitar pelas realidades co-criadas por várias egrégoras, pelos mundos complexos de ideais solidificados, pelas necessidades do ego em se agarrar à certeza de uma ideia que, tal como o vento, nunca está no mesmo local...

Este tempo tem uma magia qualquer, leva-me para todos os lados. Na pausa de um universo e outro, paro e encosto-me a uma parede com musgo, está molhado e uma pequena gota de água desce pela mão, pulso e entra por entre a camisa e o braço, chegando-me ao cotovelo, e aí acordo, desperto, apenas para dar mais um passo e ver-me noutro universo, num largo empedrado, com um fontanário ao centro e pessoas que passam cumprimentando-me... Noutras alturas vou parar a outros planetas, fico extasiado ao ver a quantidade de "vida" que existe espalhada por aí, dentro de mim...

Recordo-me de algumas horas de comboio, estar sentado, com um pé sobre o aquecimento (nos comboios antigos, lembram-se?), com o cotovelo apoiado no joelho e a cabeça encostada ao vidro da janela, onde a chuva caía na diagonal... Lembro-me do balançar das carruagens, do barulho das rodas nos carris, o passar as agulhas. Nestes comboios, apenas o pica-pica do revisor me trazia de volta, mal o ouvia, lá vinha eu a ondular pelo ar, como se fosse um balão atado ao comboio, descia, descia, descia até chegar novamente ao meu corpo e aí ficava, por segundos, a aconchegar-me, percebendo o que era o corpo, admirado e maravilhado com esta máquina...

Sim, este tempo leva-me para vários locais... Infelizmente, ainda não consigo estar a escrever as memórias passadas e futuras, neste corpo e neste universo, ao mesmo tempo que outro eu escreve outras memórias futuras e passadas de um outro eu, talvez escreva de um rapaz (bem, tenho que perceber que já tenho 30 anos) que está ao computador, às 0:28, rindo-se enquanto escreve umas letras...

Há tanto por onde ir... E, curiosamente, tanto onde estar sem sair de mim mesmo...

Agora tenho que ir, passou uma sombra por mim, instalou-se ao meu lado esquerdo e sorriu, disse-me que deveria dormir, que muitas das coisas que escrevi não escrevi, ficaram em suspenso, como se escrevesse apenas em pensamento e esse pensamento não tivesse, ainda, chegado à matéria... Vou guardar estas pequenas nuvens de pensamentos, de frases que estão já escritas, e guardá-las no olhar, pode ser que num outro momento, as mesmas saltem para outros olhos e eu conte histórias sem necessidade de as escrever...

Embora pareça difícil acreditar (pelo menos a mim é), todas as minhas pesquisas me levam a pensar que existe apenas uma coisa em tudo, e um milhão de possibilidades em nada... Capice?

2006-09-24

Porque não sou

Sou o frio,
a chuva que me aclara o dia,
as gotas no pára-brisas
que codificam o respirar,
a terra molhada
e os horizontes aos quais me prostro.

As ruínas crescentes
e os sorrisos carentes,
o uivo da noite
e apenas as estrelas como companhia,
uma mão cheia de sonhos
e o murmúrio da utopia...

Ainda que vagueie não me falta o rumo,
o ondular das veredas
e a sombra fugidia do simples,
o orvalho e o relento
são dos próprios olhos
meu alento.

Sou,
porque sei que não sou...

2006-09-23

Rugas do dia

A noite ainda é minha,
disse-me o reflexo do olhar nas nuvens
e até as estrelas sussurravam,
voltou...

O silêncio do relâmpago
e a cegueira pálida do trovão,
as gotas que me sorvem
dormindo na palma da minha mão.
Os traços finos das rugas do dia,
o cabelo sedoso do sonho na minha face
e o olhar
que nunca partiu...

2006-09-07

Segredos

Há coisas que, em geral, não se sabem. Porque se omitem, porque se escondem ou porque simplesmente são tão diferentes que por não termos capacidade de as compreender, simplesmente não as vemos. 
A minha escrita, por bonita ou feia que seja, nem sempre é minha, apesar de versar quase sempre o Amor, a procura de algo ou alguém, o questionamento, o auto-conhecimento, entre outros.
Todos temos os nossos segredos, a minha escrita será uma delas. Ou se calhar nem a escrita, mas as frases que ela contém e entre versos e palavras, letras até, tenta-se levantar o véu, respirar um pouco, à espera que o poema vá, percorra a estrada que deve percorrer.
Enfim, segredos.
O maior segredo que todos possuímos, é saber que temos uma imensa força e simplesmente não a utilizamos.

2006-09-06

Respirar

Recebe-me a placidez dos dias de Inverno,
ternamente ondulam,
nos cabelos soltos de fantasia,
as ausências prescritas
pelo adeus.

Neste vaivém quasi-eterno
de sorrir
e encontrar,
de mim ao mundo,
comovo-me
com partículas nos olhares
que julguei nunca ver...

Vivo,
sonâmbulo,
até ao momento em que olhas
e me afundo no mundo,
para vir à tona da vida
nadar no meu sonho...

2006-08-29

Em olhos de sonhar

Trago no peito um sorriso alado,
miro atrás das nuvens
e além mar
a entrada para o sonho,
das quatro faces da claridade
e da mão
que embala o mundo,
ao som da amizade,
com o saber da certeza
e o travo doce do amor.

Agora,
mais que acordar
procuro nos teus olhos
o meu sonhar...

2006-08-26

Suspiros na noite

Enquanto as estrelas teimam em não descer
tudo em mim é saudade,
da música que inebria
ao tacto da amizade profunda...

Enquanto as estrelas teimam em não descer,
eu sou fragmento de mim mesmo,
peça incompleta
no puzzle da vida,
porque de mim são sorrisos vossos
e de vocês,
ai de vocês,
minh'alma
em segredos
e distantes suspiros,
que hoje amigos
e amanhã...
Amanhã suspiros...

2006-08-25

Let me be

Deixa,
deixa que pelo menos uma vez o cansaço me vença,
que eu feche os olhos
cansados
e fundos.

Deixa,
deixa que meu corpo tombe à força dos arpões,
que descanse as mãos
e a noite seja minha cama,
fria como sorrisos vagos
e húmida,
como as que brotam
no escuro.

Deixa,
deixa que chore,
que soluce e minha alma respire,
que possa dizer, ainda que unicamente,
“estou tão cansado…”

Deixa,
deixa que sobre os meus ombros não pesem as pedras perdidas
da vida
e dos sorrisos,
que carrego em mim
para que outros não esmaeçam.

Deixa,
deixa-me sentir uma vez mais as estrelas,
sentir-lhes o cheiro doce
e o calor que aconchega a saudade,
que tão longe me traz
o Amor.

Deixa,
deixa-me prostrar,
esmorecer,
sussurrar a medo
para que os vultos não me ouçam,
segurar a cabeça na parede fria e áspera,
raspar uns traços de tinta no papel,
adormecer aos poucos
como a neblina das manhãs de Verão,
olhar o Sol que mais um dia no meu infinito impera
e sorrir,
sorrir porque agora, eu, já não sou eu.

Deixa,
deixa-me dar alento à vida,
respirar pesado e fundo,
esperar que a chuva me chame,
ver as suas lágrimas,
filhas,
e dizer:
“deixa… deixa-me sonhar nos teus olhos…”

2006-08-19

Coisas...

Tenho um caderno que me acompanha. Bem, tenho vários cadernos que me acompanham, perdidos em vários locais, onde escrevo as ideias que aparecem, é como andar sempre com uma cesta e guardar os cogumelos (comestíveis, de preferência) que se encontram por aí.
Geralmente nos cadernos escrevo as ideias, ou os sentimentos decorrentes de quando encontro alguém, pela primeira ou enésima vez. As pessoas são estes bocadinhos de nós próprios, não são?
Quem me mandou esquecer do caderno? Deixei-o na porta do carro, mas entre parar, sair do carro e entrar novamente, ele conseguiu fugir, voando. Vislumbrei-o ainda por entre nuvens, olhando para mim e sorrindo, enquanto continuava a subir até encontrar algo invisível. Aí, pegaram nele e anotaram um recado para mim. Só voltei a mim quando o carro atrás buzinou, arranquei e, mais à frente, li o que tinham escrito para mim. Coisas.

2006-08-18

Aqui, entre cá e lá

A chuva que cai, em Agosto sabe-me sempre bem, permite-me andar por aí, entre cá e lá, quando estou aqui.
Nada me tira a vontade e o sonho, este estado passageiro, físico, de saborear a chuva e sorrir. 
Há coisas que me animam e com as quais ainda consigo sorrir, que até eu fico surpreendido.
Constato que este lado infantil ainda permanece em mim, saltar nas poças de água, sentir o vento e a chuva na face, rir sozinho dos meus "defeitos".
E ficar arreliado quando toca o telefone e eu tenho que me levantar. 
Até já, aqui, entre cá e lá.

2006-08-15

Até já

Transcende
os limites do limitado,
os jardins
mudos de pedras gastas
e flores sempre
serenas.

Ultrapassa,
nasce,
morre e torna a ultrapassar
o visível
visto apenas por quem não vê,
há mistérios tão simples
como a mão
que me guia os dedos.

Trajado de sonho
e pontilhado de ilusão,
as estradas fazem das palavras
um veículo
que conduz às veredas
das ilhas inexistentes
e abraços,
que de nunca dados,
são degustados
com saudade.

2006-08-13

Quatro de um

Quatro de mim
em olhares furtivos
e sorrisos de cetim,
tangencias de vidas
e sonhos,
poderia
a vida ser mais feliz?

2006-08-08

Rápido

Voltei...
Mini-férias, misturadas com Lua de mel, de um casamento maravilhoso no registo civil que pouca gente conheceu ou ouviu falar.
Estou aqui, com o computador ainda em casa dos meus pais, com um calor abrasador e o lamento da sirene dos bombeiros.
Não queria escrever, as teclas parecem duras demais, mas os dedos sentiam falta de conversar com elas.
Os meus olhos fechados não conhecem nenhuma paisagem, nem quando vagueio fora do corpo.
Não conheço o céu azul, nem as noites de luar... Até os poemas choram ainda antes de sair, porque o futuro parou e perguntou-me: "mas que raio queres ser tu na vida?"

Vou novamente, foi rápido.

2006-07-28

Uma coisa

Quero que saibas uma coisa.
Vocês experimentam sentimentos como a saudade, distância, esquecimento, apenas porque vivem dentro dessa grande amálgama retorcida à qual chamam realidade.
Na verdade, depois de dissipado esse nevoeiro (criado por vocês), só sentirão amor, ou Amor.
Aí, meu amigo, não existirá espaço para mais nada, está completamente distante daquilo que possas imaginar... E suportar... Com calma, os espaços em branco que existem no teu peito, serão preenchidos por algo que une tudo, mesmo os pontos mais extremos do Universo. Sensações e ilusões como distância, saudade, relações familiares, tudo será envolto, reunido, como num grande puzzle, sei que podes não compreender, mas está perto.
Até lá, tem paciência.

2006-07-14

Hipnagogia

Pousei os meus passos
no muro
de onde eu fitava os sonhos
e sorri,
despi-me da nudez
e entreguei-me à noite
plácida e altiva,
antes que o céu caísse.

O olhar deixei-o incólume,
apenas enublado
esporadicamente
pelas claras águas da imensidão,
que tingem
como quem respira.

Voltei-me
e vi ao longe a minha figura
que chegava,
ladeada de sonhos
e prospectos
onde se anunciava a partida.

Tinha já um pé sobre o muro
e um outro
sustendo um mundo ausente.

Respirei
uma única vez,
inalei resquícios de vazio
temperados com nadam
e nas folhas vazias ficaram
uns sonhos
que à sombra da vida
respondi,
talvez...

2006-07-13

Reencontros


A vida é isto mesmo, simples e complexa, um contínuo paradoxo...
Pelo menos comigo é, variável, flutuável quando não afunda :)
Pena não ter tempo (até tinha, se não dormisse...) para escrever muito do que tenho vivido nestes últimos dias (desde domingo)...
O tema é o reencontro...
E tem sido assim, reencontrar pessoas e memórias... E ver nascer sonhos, recordações que pensava já nem possuir de tão guardadas que estavam...

Apercebo-me que sou muito feliz, que o quadro da minha vida é belo, mesmo quando as cores teimam em fugir...

2006-06-28

Still

Os poemas têm sido o "escape" a nada escrever aqui... Fico parado, tentando ordenar as ideias, as histórias que vivo, ouço, vejo e sonho, para as transformar em palavras, mas invariavelmente fico apenas a olhar... No monitor vão passando todos os episódios, todos sem excepção e, por vezes, até têm relação uns com os outros e transformam-se numa espécie de filme com capítulos que apesar de não estarem relacionados uns com os outros, fazem parte de um cenário maior, como as ruas, distantes, da mesma cidade... E enquanto olho para o monitor, muitas outras histórias surgem a meu lado, à frente, por cima pairando... As histórias e seus protagonistas pedem que os escreva, mas não consigo... Surgem por vezes protagonistas de histórias que não conheço e dizem que é apenas para mandar um recado, pode ser uma linha simples de um poema, ou uma vírgula após uma palavra, que obrigue a parar um pouco nessa mesma palavra... Mas hoje, nem ultimamente, não dá... Tenho a convicção, que nem com todo o tempo deste mundo (que aliás não existe - e começaria aqui uma grande dissertação - o tempo, não o mundo - que também não existe et voilá, mais dissertações) eu conseguiria escrever tudo o que sinto...
É como os meus braços, uma envergadura de 1,90 mt, que apesar de grandes, não chegarão nunca para abraçar os meus amigos, conhecidos e desconhecidos...
É como a minha boca, que não chegará nunca a dizer o que deveria dizer, todos os recados, nem que saísse por esse mundo fora a correr e a dizer a cada pessoa: "Olá amigo(a)"...

Bem, tenho que me contentar em ter tudo isto no meu coração... (se ao menos tivesse uma janelinha por onde espreitar, só para mostrar, como aqueles adereços que têm cidades e quando abanamos cai neve...)

Desculpem lá o mau jeito, mas só deu para escrever isto...

2006-06-27

Náufragos

Os faróis afastaram-se dos meus navios,
a espuma baça bailava
contra a proa
do meu sonho,
há náufragos que nunca viram o mar...

Os fantasmas movimentaram-se em pleno dia,
as cortinas abafam a noite
numa toada surda
e cansada,
é ainda da noite o trilho da alvorada...

As faces oscilavam em ameaça sobre a mão,
as lágrimas olharam a saudade
em despedida
do que chegou à falsa vida,
o irreal digitou a dor que o sonho guardou na ilusão...