Os candeeiros despertavam do seu descanso diurno. A hora exacta, era vê-los acordarem, piscando os olhos, e depois começarem a ver, primeiro lentamente, semicerrados, como que se habituando ao crepúsculo. Tinham mau feitio, tal como muitos de nós quando acordam, e enquanto não os via brilhar com todo o seu vigor ninguém falava com eles, nem entre eles mesmos.
A rua possuía um fascínio estranho, encantador. Longe dos caminhos de aldeia, orlados por muros de pedra e musgo, suportados aqui e além por um pastor que, encostado ao muro, com a perna flectida e o pé apoiado no muro, resguardado do frio pelo seu capote de palha e as melenas comprimidas pela boina, velha, quase sempre castanha, comia uma bucha e bebia um gole de vinho. Das ruas que galgou, nenhuma era como esta, pacata, inclinada, com um piso regular de alcatrão. Não se vislumbravam casas, era apenas uma estrada, no meio de algures, com muros altos e baixos, que indicavam diferentes propriedades, diferentes proprietários. A ausência de regos para a água descer livremente, mas confinada, fazia com que qualquer alma que se aventurasse a andar num dia destes, de chuva intensa, acabasse por ficar com os pés mais lavados que o habitual.
Não fazia a mínima ideia de como teria chegado ali. Do alto da rua via os candeeiros, espreguiçando–se, brilhando cada vez com mais veemência, mas ainda assim muito mortiços. A rua terminava, saindo do horizonte numa curva para a direita onde, finalmente, à mesma direita, surgia uma casa branca, velha, com um fiozinho de fumo que fazia crescer água na boca pelo imaginar de uma lareira, mãos estendidas aquecendo–se e falando com o fogo.
Inspirou prolongadamente, de olhos fechados, enchendo os pulmões com o ar gélido do lento cair da noite e pensando como seria bom que o Sol brilhasse um pouco, antes de rumar a outras paragens. Abriu os olhos e, no final da rua, antes desta fugir à visão para a direita, levantavam–se vários eucaliptos, como por magia, e de folhas verdes, muito verdes, completamente molhadas, reflectia o brilho esmaecido de um Sol cansado de um dia de labuta. A visão era estonteante, como o são todas as nossas visões de sonhos, os eucaliptos ondulavam lentamente ao sabor do vento e as folhas competiam entre si para ver qual a que ficava mais à frente, a que recebia antecipadamente os raios de Sol. Enquanto bailavam reflectiam a luz do Sol adquirindo ainda uma tonalidade mais escura, parecia daquelas aves que ele viu uma vez numa quinta. Bem, não avistou a ave, apenas adivinhou como seria, pois apenas tinha visto uma pena, de várias cores, que brilhava consoante olhávamos para ela de diferentes ângulos.
O Sol acabou por não resistir e adormeceu, talvez para acordar noutras partes do mundo, onde as pessoas andam de cabeça para baixo. Os eucaliptos pararam de ondular e as folhas deixaram–se cair numa hibernação rápida e fugidia. Era a noite que avançava, ouvia–se os passos da mesma e, de quando em vez, um suspiro. A respiração era acompanhada pelo vapor que saía da boca e, admirado por não sentir frio, começou a descer a rua com um ânimo que talvez a ausência do alforge patrocinasse. De novo o suspiro…
Ao passar pelo primeiro candeeiro, olhou para cima. Era um poste antigo, de cimento, bastante alto, que tinha uma placa, roída nalgumas zonas pela ferrugem, com bastante sujidade e que não permitia ler o que quer que estivesse escrito. Tirou a mão direita do bolso e começou a esfregar a placa, raspando–a com as unhas. Ouviu novamente o suspiro, seguido de um riso contido. Parou de raspar e olhou em redor, nada, absolutamente nada, excepto o negro da noite que empurrava o azul, agora escuro, do céu diurno. Continuou a raspar e, lentamente, surgiram umas letras pretas sobre um fundo amarelo ferrugento e cansado. Olhou as unhas, estavam sujas e partidas, mas não lhe doíam, pegou então na manga da camisola (amarela, de malha, com um nome escrito, bordado a lã azul grossa – Alcance) e agarrou–a com os dedos, prendendo–a ao punho e a metade da palma da mão. Retomou a actividade, mau grado a sujidade e o estrago na camisola, as letras surgiram todas: “Perigo de morte!”.
Saltou para trás, como pudera ser tão imprudente...
– Sujeito a morrer aqui, num sítio que nem conheço – pensou em voz alta
Novamente o suspiro, profundo, e uma voz soturna, grave, que parecia entrar no âmago do seu ser:
– Não te preocupes, não morrerás…
Olhou em redor, nada se vislumbrava, apenas o céu bem negro e estrelas que tentavam encontrar uma aberta entre as nuvens para espreitarem o que se passava neste mundo.
– Aqui, em cima – ouviu novamente.
Olhou para cima e assustou–se, incrédulo. Quem lhe falava estava no candeeiro.
– Não, não estou no candeeiro – responderam – sou o candeeiro…
Fixou o olhar, franziu os olhos e viu, ainda que pouco nitidamente, dois olhos atrás da luminosidade.
– Aproxima–te, não mordo… – riu sozinho do que acabara de dizer – Habituei–me a ver–vos passar, ouvir–vos, que na impossibilidade de vos imitar os gestos, copiei as vossas falas… Foi assim que aprendi a falar… Eu e todos os outros que vês pela rua.
Olhou para a rua, todos os candeeiros assumiram um ângulo inusitado, que os permitia ver este candeeiro e ele mesmo.
– Eu… – começou, sem saber o que dizer – Eu nunca vi nada assim…
– Nunca viste um candeeiro?
– Não, quer dizer, sim!
– Então…
– Nunca tinha visto no mundo um candeeiro assim, falante
– Oh, ficarias admirado com as coisas que não sabes e que nunca viste… – riu – Daqui vemos coisas que ninguém vê!
– Sim?
– Claro rapaz, e aquelas amigas ali, curiosas, vês? – ergueu aquilo a que podemos chamar de face para o céu – As tais a que vocês chamam de estrelas.
Olhou para o céu e, de facto, via-as atarefas, quase irritadas, esticando uns invisíveis braços que tentavam, à força, abrir espaço entre as nuvens. O vento soprava, subiu a rua rapidamente e parou por momentos junto do candeeiro. Tinha um rosto de criança, um sorriso terno e um olhar profundo que parecia atravessá-lo de um lado ao outro.
- Vejo que deixaram vir mais um! – disse o vento para o candeeiro, enquanto apontava com o olhar para o rapaz.
- Sim, tem sido assim ultimamente. Alguém tem trabalhado bem – piscou o olho ao vento.
- Rapaz, desejo-te uma boa estada aqui, aproveita! – falou, já em voz alta, enquanto corria agora para cima, empurrando as nuvens umas contra as outras, num jogo de gato e rato, abrindo brechas aqui e ali que as estrelas tentavam aproveitar.
- Ei, tu é que és o vento? – gritou o rapaz em direcção às nuvens, com as mãos em concha em frente à boca, para que o som se propagasse mais longe, como lhe tinha explicado certa vez um pastor.
- Sim! – respondeu uma voz ao seu lado.
O susto foi tão grande que quase caiu. Sentiu-se corar quando o vento soltou uma sonora gargalhada de criança e, ao longo da rua, todos os candeeiros sorriam.
Ao lado dele, cara a cara, estava o mesmo rosto de criança, o vento.
- Mas… Tu estavas ali! – apontou para o céu, na esperança de não o ver lá, mas via-o soprando, empurrando as nuvens.
Ficou muito sério a olhar para o vento, que nada mais era que um rosto de criança transparente, a sorrir, com um olhar cor de folha de eucalipto quando fecha os olhos ao brilho do Sol.
- Eu estou em todo o lado! – e perante o ar incrédulo do rapaz – Ainda não sabias disto?
- Ele chegou aqui há pouco tempo, deve ser a primeira vez que cá vem sem ser a dormir – explicou o candeeiro no seu tom pausado
- Ah! Então está tudo explicado! – sorriu de novo o vento – Vais ter tempo para descobrir isso…
O rapaz sorriu perante a certeza do vento, de facto, tudo o que ele queria saber era em que sítio estava, quem eram estas pessoas…
– Pessoas? Mas nós lá somos parecidos com pessoas? – interpelou o vento, mais uma vez parecia que lhe liam o pensamento.
- Não, não lemos – respondeu o candeeiro, enquanto o vento anuía com a cabeça, sorrindo – Olha ao redor de ti, o que vês?
Ele olhou, não via nada extraordinário, tirando o facto de ter uma camisola de lã, velha, amarela, com letras escritas a azul.
- Não, olha ao redor de ti, não para ti…- sorria o candeeiro.
E ele olhou… Imediatamente a seu lado estava um pequeno ponto luminoso, que pairava. Parecia uma partícula qualquer ondulando sobre água expelida na vertical, tal como vira uma vez na casa de um velho louco, onde tinha entregado uma estranha carta num envelope em forma de peixe, ele chamava àquilo, onde os peixes nadavam presos e tristes, de aquário.
- O que é isto? – pensou, enquanto mirava aquele estranho ponto luminoso.
Não teria passado uma fracção de segundo e um novo ponto luminoso soltou-se dele e foi pairar junto ao anterior.
- Estás a descobrir, é giro, mas tenho que ir – disse o vento, piscando o seu olho de menino ao candeeiro – aqui este teu amigo tem muito que fazer!
E arrancou, desta vez para uma outra nuvem que se desvanecia. Com mãos de artesão moldou a nuvem, com um pouco de outras nuvens.
- Que estranho – pensou novamente o rapaz.
- Sim, sou estranho! Mas apenas até te habituares à ideia! – sorriu de novo o vento, desta vez com a cara colada à cara do rapaz. Tão próximo que a respiração, ofegante, do rapaz, fazia com que a sua cara se dissipasse nas expirações, para se reagrupar novamente quando o rapaz inspirava.
- Olha – continuou – agora não posso mesmo conversar contigo, mas para teres uma ideia, vês aquelas estrelas? Algumas tentam ver-nos, outras vêm-nos já. A mim compete-me, aqui, nesta rua, zelar pela ordem natural das coisas.
O candeeiro anuía lentamente, o que fazia com que a rua de iluminasse intermitentemente à medida que ele se movia.
- Àquelas estrelas que não nos vêm ainda, permito apenas, com as minhas amigas nuvens, vislumbrar um pouco do que será, ou seremos.
- E as outras? – perguntou o rapaz.
- As outras sabem quem somos, o que somos, onde estamos e como estamos.
O rapazito abanava a cabeça, não compreendia palavra por palavra, mas encontrava algum sentido nas palavras e nos pontos luminosos que saíam do vento.
- E o que acontece quando as outras estrelas sabem quem vocês são, o que são, onde estão e como estão? – perguntou.
- Bem, aí elas já não são elas, nem nós somos nós... – continuou o candeeiro.
- Sim, é verdade, quando isso acontece…
- E não acontece ao acaso… - rematou o candeeiro
- Sim, nada é ao acaso. Quando acontece, já elas não são elas, nem nós somos nós. Elas são nós mesmos, percebes? Nós… - tentava encontrar as palavras certas, olhando para o candeeiro como que pedindo ajuda.
Por fim o candeeiro ajudou, dizendo:
- Quando nós temos consciência de nós mesmos, não precisamos de procurar. Quando nós nos descobrimos e, por conseguinte, descobrimos os outros, por muito longe que estejam, acabamos por ser apenas um…
- Não compreendo… - respondeu, desconsolado, o rapaz.
- É normal rapaz – disse o vento, enquanto descrevia uma volta completa em torno do rapaz – as palavras são sempre palavras, a nossa interpretação delas é e será sempre diferente.
- Mas o que existe, isso ninguém nega, olha para mim – dizia o candeeiro – as pessoas vêm a luz e o que dizem?
- Não sei…
- Sabes sim… Por exemplo, uns descrevem como brilhante, outros como ofuscante, outros como quente, outros como fria, outros como interminável, outros como intermitente…
- Pois…
- E se para me descreverem encontram termos tão distintos, imagina para tentar descrever isto que esse malandro te disse – e sorriu, olhando para o vento, que lhe fez uma careta divertida.
- Quer dizer, que agora que eu vos encontrei, vocês são eu?
- É parecido, vejo que começas a compreender! – respondeu, rindo, o vento.
- Pois… Então, se eu estiver numa outra estrela, vocês são sempre vocês?
- Melhor!!! – respondia o candeeiro – Tu, mesmo estando noutra estrela, vais estar aqui connosco e noutros locais ainda!
- Mas, como? Quando?
- Uma coisa de cada vez rapaz… A ansiedade não te permite pensar…
- Olha para as estrelas, o que vês?
- Vejo um ponto de luz no céu…
- Não, o que digo é para tu pensares na estrela… Seres a estrela, o que vês?
O rapaz fez um cara engraçada, com os olhos fechados franzia a testa, num esforço aparente de alguma forma mágica ir até á estrela.
- Calma, a continuar assim ainda te acontece algo que não queres! – Disse o vento, soltando uma sonora gargalhada,
- Não consigo – disse o rapaz.
- Consegues sim – tranquilizou o candeeiro - não é uma questão de estares lá, é apenas uma questão de seres!
Tornou a fechar os olhos, pensou no que lhe tinham dito, o ser e estar, o estar e não ser. De repente, sentiu que via, parecia-lhe estar a visualizar as nuvens, as estrelas e, de repente, a cara sorridente do vento surgiu mesmo à sua frente e perguntou:
- Então, já chegaste? – e deu uma gargalhada.
- Vá lá, deixa-o fazer sossegado – dizia o candeeiro, no seu tom conciliador, enquanto o rapaz tinha caído no chão com o susto e, só depois, compreendeu que estava de facto com os olhos fechados.
Deixou-se estar sentado, esticou as pernas e com as mãos no chão, inclinado para trás, fechou os olhos. Queria verificar se podia voltar a ver, de olhos fechados, o que tinha visto… Não desejou pensar o que quer que fosse, deixou apenas que o seu olhar viajasse para além dele mesmo. Lentamente, pensou-se sem corpo, tal era a leveza que sentia, e desejou estar em pé. E assim foi, ficou em pé, olhando para o candeeiro e o vento que sorria. Este último deixou de ter cara e, simplesmente, desenhou-se a si mesmo como uma mão com um polegar em sinal afirmativo e encorajador.
Sentia-se em pé, mas não estava em pé, na realidade, não tinha qualquer corpo, estava ali, a pairar, olhando as estrelas. De repente, ao seu comando, começou a viajar, no sentido ascendente, a uma velocidade vertiginosa. Passou pelas nuvens, que pareciam não o impedir, entrando e saindo delas com uma simplicidade notável. As estrelas começaram a aproximar-se dele, sentia o calor, um calor íntimo que não queimava. Começou a ver todo o universo passar por ele, a uma velocidade estonteante. As estrelas não eram estrelas, eram apenas um pequeno traço luminoso, semelhante às estrelas cadentes que tinha visto. Não conseguia perceber onde estava, pois no exacto momento em que pensava em tal, era de imediato acelerado para outro local e assim sucessivamente, até todas as estrelas serem riscos de luz na noite e estes riscos de luz eram tantos e tão intensos que começaram a sobrepor-se ao escuro da noite. A noite começava a ganhar uma tonalidade esbranquiçada, por vezes de um azul-púrpura. Sentia que se podia deslocar em todos os sentidos, em todas as direcções, não havia local onde não pudesse ir, pois já lá estava, sentia-se parado e ao mesmo tempo a uma velocidade imensa… Parado e ao mesmo tempo a uma velocidade imensa… Deslocando-se, parado…De facto, a velocidade era tanta que ele conseguia estar em dois locais ao mesmo tempo… Não, três locais…Mais locais… Começou a adquirir um sentimento imenso de felicidade, não se sentia movimentar, mas sentia-se, ao mesmo tempo, em todos os locais, em todas as estrelas, em todas as pessoas… Por momentos viu-se a dormir junto a uma lareira. Viu pelos olhos de um padre, uma visão diferente da compaixão e, de repente, um homem agradecia-lhe intimamente ter lido uma carta à sua esposa que ainda era viva. Num estranho momento, viu-se como sendo um pai natal de chocolate nas mãos de uma criança e sentiu, na sua verdadeira essência, uma ponta de tristeza por não poder nem saber escrever tudo o que vislumbrava…
Parou de pensar e de estar, agora era, em toda a concepção da palavra simplesmente era. Via… Ou melhor, sentia estar num local banhado por uma luminosidade estranha, que não iluminava, de todas as cores e ao mesmo tempo escura, consciente e ao mesmo tempo indiferente… Percepcionava em todas as direcções, via como se tivesse olhos em todo o seu corpo, como se ele próprio fosse um olho… Sem qualquer percepção de peso, de corpo, deixou-se estar ali, sentindo e vivendo cada momento num espaço de tempo que não existia. Para ele tudo parecia já ter decorrido, toda a história conhecia, todas as histórias que pudesse inventar, mesmo ele sentia-se como se não existisse sequer, como se fosse sempre assim…Abaixo de si, logo atrás do seu limite de percepção enquanto ser ou entidade, ou fosse lá o que fosse, sentia que era todas as pessoas, que ele era de facto muitas pessoas, muitos seres e, paradoxalmente, todas as pessoas, todos os seres, tudo o que ele via era ele mesmo… Sentiu que não poderia sentir mais nada, não existia espaço para outro sentimento que o calor ameno que o amparava, que a própria essência que respirava, que a própria energia que o constituía e a tudo o que o cercava naquele bocadinho de nada…
– Será isto o amor? – Deve haver mais do que isto… – pensou – O que é isto?
Continuava ali, a pairar, numa experiência tão fantástica como banal, tão real como imaginária… De repente, todo o cenário começou a movimentar-se e ele sentia o processo inverso ao de ter chegado ali, junto daquela estrela… À medida que as estrelas começavam a ser traços no céu, olhou uma última vez para aquela luz estranha que o tinha acolhido por breves momentos de uma eternidade. Sentiu que lhe piscava o olho, não viu, apenas sentiu… Sentiu que dentro dele algo crescia incomensuravelmente, infinitamente, para jamais o abandonar…Deixou-se cair no vazio, com um sorriso, feliz... Enquanto todas as estrelas pareciam abrandar e retomar o seu local no firmamento, ele ia abrindo lentamente os olhos… Uma lágrima fina escorreu lentamente pela face.
- Fácil, não é? – Perguntou o candeeiro, mas o rapaz parecia ainda atordoado, como se fosse possível resumir toda uma experiência a um corpo, a um pequeno conjunto de moléculas.
- Sim… Não sei bem onde estive…
Ainda na mesma posição, demonstrou algum cansaço e começou por tirar as mãos do chão.
Apesar da água das chuvas escorrer pela estrada, ele não sentia frio, nem tão pouco estava molhado, parecia simplesmente que a água passava por ele, por dentro dele, sem o molhar.
- Tenho frio… - disse, com um ar cansado e confuso, sem perceber ainda tudo o que presenciara, nem tão pouco onde estava e com quem estava.
- É estranho… - respondeu o candeeiro em tom preocupado – Hum…
Fez uma pausa, pensando e, depois, com um sorriso de quem tinha compreendido algo, disse:
- Fecha os olhos, dorme, estás cansado…
O rapaz deitou-se, a água corria por ele e por dentro dele. Mudou de posição…
Abriu um pouco as pálpebras, à frente dele uma fogueira ia perdendo vigor. Com o braço estendido agarrou uma videira velha e seca, que jazia no chão da eira, e empurrou um pequeno tronco para a fogueira. Esta foi ganhando vida lentamente, aos poucos libertava mais calor e mais luz. Deitou a mão sobre as pernas e ajustou a camisola amarela… Atrás dele pairavam milhões de partículas douradas e prateadas. Começava a ficar, agora, mais quente e aconchegado. Fechou os olhos…
Em poucos segundos levantou-se, mas não se mexiam as roupas, nem tão pouco o corpo no chão. Ficou em pé, olhou para trás e viu-se a ele mesmo, deitado, dormindo…
Deu um passo em frente, à sua direita encontrava-se a criança que lhe tinha dado a camisola de lã.
Olhou para mim e, sorrindo, fez um gesto com a mão sobre a cabeça, no que parecia indicar o acto de colocar um chapéu… Não compreendi e ele, lentamente, aproximou-se do monitor, bafejou-o e com o dedo estendido escreveu: chapéu…
Sorri, tirei o chapéu do bolso que a criança me tinha dado e coloquei-o à minha esquerda. Ele sorriu igualmente, saiu do monitor, piscou-me o olho enquanto passava por mim e desapareceu…
Desliguei o computador e liberto da luminosidade do monitor vi ao longe o que parecia ser uma estrela, sem brilho definido, a sorrir…
2005-11-09
2005-11-04
(II) O carteiro
A rua foi feita com pedras altas, num mosaico irregular, que o passar dos tempos, dos cascos do gado e dos carros de bois transformou em lisas pedras, carregadas de musgo onde as grandes rodas de madeira, orladas a ferro pelas gerações de latoeiros da aldeia, não calcavam.
Subia-a um vulto carregado com um alforge, sorridente, escorregando aqui e ali no musgo. A população espera-o em dias alternados. Nem sempre vem quando desejam e, quando vem, carrega às costas notícias boas e más, sonhos e pesadelos.
À medida que sobe a rua e rasga uma espécie de neblina levanta a cabeça, solta um suspiro ao constatar que ainda lhe faltam mais degraus e muitas mais casas… Bem, estas não contam, algumas estão desabitadas, mesmo por fantasmas, que gente não mora mais aqui, apenas sonhos passados, festas vividas, desfolhadas e beijos escondidos, tímidos, tempos idos…
Nesta aldeia é já conhecido, apareceu de um dia para o outro, com o saco às costas, perguntando por moradores que tinham seu nome escrito no destinatário de envelopes velhos, amarelecidos pelo tempo e pelo couro do alforge, que algumas cartas tinham aspecto de terem viajado mais que cem anos… É alto, bastante alto para os corpos curvados pela lide do tempo e dos campos, pela enxada e foice, o cabelo sai-lhe do chapéu de carteiro, meio grisalho, que se mostra mais escuro quando tira o chapéu para, por cordialidade, saudar as pessoas com quem se cruza.
Visitou a primeira pessoa há anos, ou décadas, já não há certeza, a história é contada como se tivesse passado apenas uma ou duas semanas… Entrou no centro da aldeia, um pequeno aglomerado de casas à volta de uma capela, com um cruzeiro no centro da praça. O fontanário estava, então, povoado de mulheres, novas e idosas, com mãos frias e vermelhas de bater a roupa na água fria. Não escapou aos olhares malandros das raparigas mais novas quando se abeirou delas, pousou o saco, deixando cair algumas cartas e um embrulho atado com uma fita muito tosca e amassada, e disse ao mesmo tempo que tirava o chapéu:
- Bom dia minhas senhoras!
O pudor de então não permitia uma resposta imediata, directa, mas passados alguns segundos, a senhora mais velha, antipática, de rugas formadas na testa por tanto franzir as sobrancelhas, num olhar ameaçador, respondeu:
- Bom dia…
O carteiro enfiou o chapéu na cabeça e disse:
- Sou o novo carteiro, ando um pouco perdido, parti a minha bicicleta atrás, antes da ponte, e por sorte não me parti a mim também – sorriu – procuro uma aldeia chamada Dalmas, pode dizer-me onde fica?
A mulher olhava ainda de desdém, desconfiada:
- Para que quer saber? Aqui não passa um carteiro há anos, nem há quem nos escreva mais… Está enganado certamente…
As mulheres e meninas pareciam esconder-se atrás desta mulher mais velha, com medo de esta lhes ver um olhar mais furtivo para o carteiro.
- Pois, acredito que sim, mas tenho aqui algumas centenas de cartas e este pacote, como pode ver, para entregar e só me pagam quando isto entregar… Procuro agora uma senhora chamada – parou e olhou melhor para a carta tentando compreender o que estava escrito - Alice Martins, creio que é este o nome…
- Sou eu, mas ninguém tenho que me escreva! E mesmo que tivesse, não sei ler, isso era tarefa do meu marido, que é ido agora, para onde todos iremos… - respondeu com azedume e tentando terminar por ali a conversa.
- A carta tem selo de há 8 anos atrás e o remetente é um senhor, creio que se chama Artur Martins…
O olhar da mulher ficou vago e distante, parecia atingida por um murro no peito, deixou de respirar por instantes e todas as outras sussurraram entre elas…
- Esse… - falou com o olhar no chão – Esse… era o meu marido…
Com um sorriso, o carteiro estendeu o braço à senhora, entregando a carta, ao que esta a recebeu e a manteve na palma das mãos, olhando, com os olhos a encherem-se de lágrimas.
O carteiro ficou em pé, olhando para ela, esperando que a emoção passasse para perguntar por outros destinatários…
- O senhor… - balbuciou – o senhor não se importa de ma ler? Nenhuma de nós sabe ler… Apenas escrevemos o nosso nome… Algumas de nós apenas assinamos com uma cruz… - e estendeu-lhe a carta ainda por abrir.
- Certamente, minha senhora – pegou novamente na carta e sorriu – Quer que a leia aqui?
- Não, não… Vamos até ali – e apontou com a cabeça para o cruzeiro do centro da praça.
Andaram um pouco, o carteiro arrastou o seu alforge e a mulher andava e limpava as mãos ao avental. Chegados ao cruzeiro, a mulher sentou-se e o carteiro, após pousar o alforge, endireitou o chapéu, retocou com a mão o cabelo que saía do chapéu, endireitou o casaco e abriu lentamente a carta. À medida que o fazia, a mulher soluçava baixinho, espaçadamente, enquanto lhe caía uma ou outra lágrima pelo rosto, que ela limpava com uma ponta do avental.
Pigarreou um pouco, clareando a voz e começou a ler:
“Querida Alice, o quanto lamento eu em vida não ter sorrido mais, não te ter amado como sei agora que é possível… Já lá vão uns anos e não sei se existe forma de te falar, de te ver…” O carteiro cambaleou um pouco, parecia cansado, a sua visão turvou-se um pouco e ele teve que se sentar, fazendo-o no chão. Baixou um pouco a cabeça, o que permitiu esconder os seus olhos turvos, quase brancos por uma névoa que os cobria agora. Continuou a ler:
“Continuas bela como sempre, mas a tua amargura sente-se até aqui onde estou e mesmo nosso filho, que morreu tão cedo, antes da sua primeira comunhão, se compadece de tua dor… Eu não tenho muito mais tempo para escrever e falar, não é sempre que o podemos fazer… Estou bem, feliz, tão liberto da vida e da dor que foi sair daí, mas agora vejo que tudo é passageiro, que o que fica somos nós, o amor… Olha, o amor aqui é tudo o que existe, aqui respira-se amor, vive-se amor, é um amor diferente do que conhecemos… Eu queria dizer-te tantas coisas, mas não tenho tempo…”
A mulher ouvia de olhos fechados, as lágrimas continuavam a correr, baixou a cabeça e pousou-a nos braços que estavam cruzados sobre os joelhos.
“Peço-te que recebes estas minha palavras com carinho e amor… Peço-te, imploro-te, que olhes para todas as pessoas como se olhasses para mim, que gostasses das outras pessoas como se fossem os teus mais queridos filhos, como se me visses em cada uma das pessoas… Sei que é difícil, mas acredita em mim, fá-lo por ti mesma e pelos outros, para que se sintam amados, libertos dos seus medos… Quem sabe eu estarei num desses olhares? Agora tenho que ir… Estou aqui à tua espera, aguardo ansiosamente a altura em que nos possamos olhar olhos nos olhos e te possa dar um abraço… Um abraço à nossa maneira… Até lá, do teu marido, Artur.”
O carteiro olhou em frente, para a senhora, compreendeu que estava sentado e levantou-se rapidamente, abanando um pouco a cabeça como que a sacudir pensamentos, limpou as calças e fechou cuidadosamente a carta. Deu dois pequenos passos e apontou a carta à senhora que o olhava, ainda de olhos húmidos, com os braços cruzados sobre as pernas. Esticou o braço e pegou na carta.
- Obrigada…
- Oh, não tem mal, faço isto muitas vezes por esses montes adiante… É a minha vida…
- Não compreendo… Parece-me que perdi tanto tempo… Com…
- Nunca perdemos tempo… Diz-me a vida que ganhamos sempre alguma experiência, que aprendemos sempre algo.
- Mas eu perdi muito tempo, já lá vão alguns anos que ele partiu… Eu apenas tenho acumulado tristeza, raiva… Não consigo olhar nos olhos ninguém, fico com raiva da felicidade dos outros… - parou um pouco, baixou a cabeça – Já olhou para aquelas pobres coitadas? Nenhuma delas namora, pelo menos que eu saiba, nenhuma delas se atreve a sorrir quando estou com elas… Acho que têm medo… Não sei… Acho que me tornei amarga, raivosa com a vida… - falava e abanava a cabeça, como que não querendo acreditar no que se tinha transformado…
- Ainda está a tempo de mudar… De sorrir… De amar…
- Estou nada… Estou velha… Cansada…
- Não está não… Olhe… Eu era para ser carteiro desde que nasci, sabia que era isto, que tinha que entregar cartas, falar e ouvir com as pessoas… Mas nunca o fiz… Passados alguns anos encontrei uma pessoa que me entregou uma carta, uma carta velha, muito velha… Nessa carta diziam-me que se eu tivesse falado, se eu tivesse dito o que sabia, que essa pessoa já seria mais feliz, teria agido de outra forma… - encolheu os ombros e sorriu - Acho que cada um de nós encontra forma de fazer o que tem que fazer, sabe? Às vezes não o fazemos por orgulho, por comodidade, mas todos sabemos o que temos que fazer…
Olhou por ele abaixo, fez um movimento com os braços como que exibindo o seu uniforme de carteiro:
- Acha que eu queria andar assim? Agora nem bicicleta tenho… Caminho por aí com cartas que ninguém lê… Mas sou feliz… Há qualquer coisa nessas cartas que me faz ver que somos mais que palavras, somos acção, e que esta acção só nós sabemos qual é… - parou um pouco – Como é que hei-de dizer… Acho que nós temos que fazer pelos outros, tudo o que faríamos por nós…
Levantou o alforge e colocou-o ao ombro, endireitou o chapéu:
- Pode ser que um dia destes, alguém me entregue uma carta assim… - sorriu – Tenha um bom dia!
Partiu em direcção à capela, tinha uma carta a entregar e sabia que encontraria a pessoa ali, na capela, não viesse no destinatário “Padre…”
Chegou à capela e pousou o alforge, olhou para trás e ficou a contemplar a senhora a quem lera a carta. Esta tinha-se levantado e caminhava em direcção ao fontanário. Levava a carta na mão e quando se abeirou de uma das raparigas esta encolheu-se, talvez com medo… A senhora Alice levantou os braços e deu-lhe um abraço forte, demorado, e quando a largou beijou-a na testa, com muito carinho… A surpresa parecia ser enorme e a repercussão desse abraço viu-se nas restantes raparigas que abraçaram Alice em conjunto… Era capaz de jurar que a própria água parecia mais límpida e Alice parecia mais nova…
Tirou a carta do alforge e caminhou em direcção à porta da capela… Gostou da capela, além da pequena igreja, possuía à frente desta um coberto, com bancos de pedra e uma antiga pia baptismal à direita da porta de entrada. Não gostou de ver as grades em forma de lança…
- Jovem, posso ajudá-lo? – perguntou uma voz muito grave.
Assustou-se, estava perdido a olhar para as grades.
- Sim, por favor, procuro o padre Bernardo, tenho uma carta para ele.
- Uma carta? Mas aqui, meu jovem, já não há carteiro que chegue… Há anos…
- Pois agora há - e sorriu, tirando o chapéu e exibindo orgulhosamente o símbolo dos carteiros.
- E diz-me que a carta é para o padre Bernardo?
- Sim, é.
- Ele não está, mas posso entregá-la pessoalmente, se assim desejar.
Pensou um pouco, as ordens que tinha era para entregar pessoalmente ao destinatário… Enfiou novamente o chapéu e sorriu, como se uma ideia o tivesse atingido.
- Está bem, se não for incómodo. – E entregou a carta ao padre.
Pegou no alforge novamente e caminhou para fora do coberto, dirigindo-se em direcção ao cruzeiro. Parou quando ouviu a porta da capela fechar e voltou para trás. Sentou-se num dos bancos frios de pedra. Por momentos sentiu a tentação de colocar algumas das cartas que trazia sobre o banco para não ter tanto frio, mas afastou o pensamento com um sorriso.
Olhava atentamente à volta, havia qualquer coisa de acolhedor naquela pequena aldeia, qualquer coisa de agradável.
Não teriam passado cinco minutos quando ouviu a porta da capela abrir repentinamente, o padre a quem tinha deixado a carta surgia, ofegante e olhava para a praça tentando encontrar o carteiro, que nem o tinha visto sentado ao lado da porta.
- Ah, está aí! – disse, surpreso e ao mesmo tempo sem saber o que dizer.
- Sim, estou cansado, descanso um pouco, se não se importa.
- Claro que não… - ficou a olhar para a carta aberta.
- Quem lhe entregou esta carta?
- Não sei, isso é do serviço, eu apenas carrego o alforge e deixo as cartas com os seus donos. – respondeu humildemente.
- Ah…
- Mas padre, são más notícias?
Ficou a olhar para o carteiro por alguns segundos.
- Não sei… Importa-se que me sente a seu lado? – perguntou com uma dose de simplicidade que o carteiro ainda não tinha visto.
- Oh meu padre, eu estou em sua casa, não precisa de me pedir autorização – respondeu divertido.
O padre sorriu, realmente, fazia sentido.
- Estou em minha casa sim… Fiz dela a minha casa… Mas não é minha… Tenho-me esquecido disso… Posso confessar-lhe uma coisa?
O carteiro olhou surpreso…
- Mas padre, como posso eu confessá-lo? O senhor confessa-se com Deus… Eu sou um carteiro…
- Sim, tens razão jovem – e pousou a sua mão esquerda sobre o joelho do carteiro – mas eu ultimamente tenho-me confessado a um Deus… - parou um pouco e olhou em frente – tenho-me confessado a um Deus que eu criei…
Ao olhar curioso e perplexo do carteiro, o padre continuou.
- Eu criei este Deus, este que vês à tua volta – e fazia um gesto com o braço direito, empunhando ainda a carta, apontando para as grades em torno do coberto – Transformei palavras de amor e libertação em grades e opressão, em medos infundados… - Suspirou – tenho-me esquecido que também eu sou carteiro…
Parou e olhou para o carteiro, tirou a mão do joelho e deu-lhe uma pequena palmada nas costas. Depois, sorrindo, tirou-lhe o chapéu e colocou-o sobre a sua cabeça.
- Que tal, pareço um carteiro?
- Se me permite senhor padre… - foi interrompido pelo padre.
- Bernardo… O meu nome é Bernardo, tenho-me esquecido disso.
- Pois… Sabe, uma vez li numa carta para outra pessoa – emendou de seguida – Espere, li numa carta para outra pessoa, porque essa pessoa me pediu para a ler! – o padre riu-se – Li que as pessoas valem pelo que são, pelo que fazem com o que têm… Eu acho que sou carteiro, mesmo sem o chapéu e o uniforme… Se calhar o senhor padre…
- Bernardo – interrompeu-o
- Se calhar o Bernardo também seria padre sem a batina e o anel…
- Sim, tens razão… Se calhar… Mas habituei-me tanto a este papel, a este poder, que tenho-me esquecido de ouvir as pessoas, para e por quem eu vim para aqui… Vou ter que mudar alguma coisa… Rapaz, dás-me uma ajuda? – perguntou levantando-se.
- Sim…
- Então agarra nessa ponta, cuidado não te piques! – disse, indo para a outra extremidade da grade.
Agarram um em cada ponta da grade e começaram a fazer força para fora, mas a grade não se mexeu.
- Acho que as grades que têm que cair, caem para dentro… - lançou o carteiro. E começaram a puxar, agora para dentro do coberto.
Não tardou muito para que as grades cedessem á força do padre e do seu recente amigo. Primeiro desencaixaram-se e depois dobraram-se, o que fê-los cair de costas, rindo.
- Ainda faltam aquelas – disse o padre, apontando para o outro lado do coberto.
Caíram com mais facilidade que as outras.
- O que vai fazer a isto? – perguntou o carteiro.
- Não sei… Isto não arde… Tive uma ideia! Ora ajuda-me aí na ponta! – falava e olhava para a grade tombada.
Agarram um em cada lado da grade e o padre foi guiando, à frente. Pararam à entrada do coberto. O padre riu-se sozinho e disse:
- Levanta essa parte da grade. Assim não, ao contrário, de forma a fazer uma escada!
O carteiro começou a levantar a grade, até que esta chegou ao tecto, apoiando numa viga de madeira. Ao lado da viga, por cima do portão, estava uma faixa que dizia: “Casa de Deus”.
O padre subiu, então, a grade transformada em escada e agarrou a faixa, retirando-a com cuidado. Desceu com a faixa e, chegado ao chão, disse:
- Segura aí, por favor, vou lá dentro buscar um material.
Regressou com um pincel e tinta, que pousou no banco de pedra. Depois, pegando na faixa, estendeu-a no chão e disse:
- Chegas-me por favor a tinta e o pincel? Quando escrevi isto, não era bem isto que queria escrever.
Começou a escrever na faixa, molhando o pincel na tinta, limpando o excesso de tinta no rebordo da lata. Quando acabou podia ler-se: “Bem-vindo à cada de todos os deuses”.
Sorria orgulhoso e olhava para o carteiro com uma expressão de felicidade, como que a pedir uma opinião abanou a cabeça.
- Está diferente… Mas o que quer dizer?
- Bem, quer dizer que esta casa não escolhe deuses, nesta casa é livre de entrar quem quiser, também podem perguntar o que quiserem…
- Mas, é mesmo assim? Acha que as pessoas aceitam bem?
- Acho que as pessoas têm que aceitar outros pontos de vista, têm que respeitar os deuses das outras pessoas.
- Mas, isso não leva as pessoas a não acreditarem em deus?
- Talvez… Mas na carta que em boa hora me entregaste, dizia que as pessoas precisam de acreditar mais nelas, nelas próprias… Dizia que transferiam muita da sua responsabilidade para um padre ou para deus… Que está na hora de acreditarem nelas com um deus, como o seu deus…
- Mas senhor padre…
- Bernardo, rapaz, chamo-me Bernardo…
- Pois, mas onde fica deus então? Não existe?
- Oh, claro que existe… Deus é tudo o que existe… Acho que é a vida… A natureza… Os animas… O espaço… Tu… Eu…
- Eu?
- Sim, tu, porque não?
- Não sei… Nunca tinha pensado nisso…
- Habituamo-nos a não pensar… A ser o que os outros são… A seguir os outros… Está na hora de sermos nós mesmos…
- Mas as pessoas são tão diferentes… Cada uma tem o seu Deus…
- Mas este planeta não deixa de ser este planeta por ter povos diferentes, animais diferentes, climas e países diferentes, ou deixa?
- Acho que não…
- E este universo não deixa de ser este universo por existirem vários planetas, estrelas, etc… Ou deixa?
- Pois não…
- Quando cada um de nós agir de acordo consigo mesmo será um deus…
- E o que acontecerá?
- Bem, acontecerá que quando todos formos um deus, deus existirá em cada um de nós…
- E isso não irá separar as pessoas?
- Não… Os valores base são iguais, respeito pelo homem, por tudo o que existe, respeito por nós próprios e pelo nosso espaço, sentido de responsabilidade perante o que nos rodeia, o que vemos e não vemos… A religião é uma questão cultural… O que existe é o amor…
- É estranho…
- Sim, muito, ainda não consigo compreender… Mas estava escrito na carta… Agora ajuda-me a colocar esta faixa lá em cima.
O carteiro subiu enquanto o padre segurava na escada improvisada. Levava a faixa presa nos dentes e agarrava-se com as duas mãos à grade. Chegado ao cimo encostou a cabeça à viga e, com medo, tirou as mãos da grade, segurando a faixa. Primeiro prendeu uma parte, segurando a faixa no prego que estava lá para o efeito, depois prendeu a outra ponta… Só quando o padre deu uma gargalhada compreendeu que tinha colocado a faixa ao contrário.
- A não ser que queiras que as pessoas façam o pino para ler, é melhor mudarmos a faixa…
- Oh, que diabo! – tapou a boca com a mão e caiu abaixo da grade.
O padre ria-se, enquanto que o carteiro esfregava, com um esgar de dor, o cotovelo…
- Estás bem?
- Sim, estou… - enquanto esfregava continuamente o cotovelo – Desculpe, não devia ter dito aquilo…
- O quê? O diabo?
- Sim…
- Oh, aqui há lugar para todos! – riu – Não devemos ter medo de nada, isso é de facto a única coisa que devemos evitar… O medo. Vamos continuar?
- Bem, sim…
E lá subiu de novo a escada, mas agora colocou a faixa correctamente.
- Rapaz, muito obrigado! – disse o padre, enquanto caminhava em direcção à capela
- De nada… - respondeu, enquanto pegava no seu chapéu e alforge.
O padre quase já tinha desaparecido, quando o carteiro correu para trás e perguntou:
- Senhor padre!
- Bernardo! – ouviu-se já do fundo da capela.
- Bernardo, quem lhe escreveu essa carta? Não tinha remetente…
O padre voltou a trás, olhou para o carteiro, pousou a lata de tinta e tirou a carta do bolso da batina. Abriu-a…
- Que engraçado, com a pressa de a ler, acabei por não ver quem a tinha assinado.
Deu uma gargalhada que fazia abanar toda a batina.
- Está aqui assinado no final: Deus…
O carteiro abanou a cabeça, tinha-lhe passado completamente ao lado esta vivência… Saiu confuso e pensativo. Parou, meteu a mão às cegas no alforge e tirou uma carta.
- Onde raio é que vou encontrar esta aldeola?
Olhou em redor, via o cruzeiro à sua frente, mais ao fundo a estrada por onde veio e, do lado direito, o fontanário onde parara, com várias mulheres jovens e adultas a cantarem. À sua esquerda erguiam-se algumas casas, do lado direito havia um pequeno largo em terra e, ao fundo, uma estrada – Talvez a continuação da estrada por onde vim – pensou e metendo a carta que tinha tirado no bolso de dentro do casaco começou a andar, assobiando.
Ao sair da aldeia olhou para trás, talvez devesse ver se tinha mais alguma carta para aquela aldeia, mas deitou pés ao caminho, para trás ficou apenas uma pequena praça com um cruzeiro no centro e, agora, dois jovens em pé a olhar para a faixa que o padre Bernardo tinha pintado riam.
Andou alguns quilómetros e parou, não pelo cansaço, mas porque não via vivalma e o céu estava já a escurecer. Olhou em redor, não via nada, decidiu continuar até encontrar sítio onde pudesse dormir.
O caminho era em terra, ladeado por muros com cerca de um metro de altura, que serpenteavam por entre campos cultivados.
Algumas árvores que não conhecia tornavam o caminho mais escuro e desejou estar num local abrigado do vento que teimava em soprar. A temperatura baixara, o ar que expirava saía em vapor e sonhava já com uma casa abandonada onde pudesse fazer uma fogueira, aquecer-se, comer um pouco do pão que trazia e dormir.
Os sonhos misturavam-se já com a realidade, perdido nos seus devaneios despertou quando ao sair de uma curva viu um pequeno celeiro com todo o aspecto de estar abandonado. Saiu da estrada, subiu o campo que antecedia e parou em frente ao celeiro. Era, de facto, uma eira, tradicional, com o seu chão em lousa. Tinha os portões fechados, decidiu empurrar para ver se estaria de facto fechado e ficou contente quando o portão pequeno abriu, rangendo. Olhou em volta e não existia nada que indiciasse que aquela eira era de alguém ou, se de facto fosse, não era utilizada vai para muitos anos…
Entrou e fechou o portão atrás de si. Havia alguma palha muito seca, que poderia utilizar como colchão… A utilidade da palha foi de imediato esquecida quando encontrou uns sacos velhos de serapilheira, alguma roupa muito gasta e com bastantes buracos. A eira parecia ter sido utilizada por alguém com os mesmos intentos, pois num dos cantos encontrou vestígios de uma velha lareira improvisada. Pousou por fim o alforge e pendurou o chapéu num dente em madeira de um ancinho abandonado. Ia tirar o casaco quando sentiu frio e decidiu ficar com ele. Meteu a mão dentro do casaco e encontrou a carta, pousou-a em cima de uma meia pipa invertida. Vasculhou um pouco mais e agora sentiu algo pequeno, que fazia barulho quando abanava, eram os fósforos.
Juntou um pouco de palha e saiu para apanhar alguns galhos que por ali tinha ido parar com o vento. Era pouco. Saiu novamente da eira e sem dificuldade vislumbrou uma videira bastante seca e velha, partiu-a facilmente pela raiz e levou-a para a eira. Ainda não chegava, saiu de novo, andou uns cem metros e regressou com dois pinheiros novos, mas secos, que algum fogo queimou e que agora não serviam nem para árvore de Natal. Com o joelho conseguiu partir os pinheiros, mas a videira apesar de seca ficou intacta.
Era já noite, acendeu um fósforo à primeira tentativa e chegou-o à palha. Em segundos, esta ardeu e os troncos secos por cima começaram, lentamente, a ruborescer, ardendo brandamente em seguida.
Sentou-se sobre alguns dos trapos e sacos que encontrou. Arrastou o alforge para junto dele e, com todo o braço imerso em cartas e embrulhos, procurou algo. Encontrou. Tirou, era um saco de pano que abriu, retirando um pão de milho grande. Desembrulhou um guardanapo de pano e tirou a faca, que utilizou para partir o pão em fatias. Por momentos pensou em sair e voltar atrás na estrada para colher algumas das amoras que tinha visto num silvado, mas era já tarde e noite escura.
Levantou-se, pousando o pão, e dirigiu-se para a meia pipa onde estava a carta. Pegou nela, colocou-a entre os dentes e arrastou a meia pipa para a porta, de forma a ficar fechada, não fosse o vento abri-la. Pegou na carta e pousou-a ao lado do pão, sentou-se, a fogueira iluminava já as paredes da eira e dava um calor que aconchegava o corpo e a alma.
O vento começou a soprar com mais intensidade.
O sono começava a invadi-lo. É sempre assim, quando damos descanso ao corpo, o nosso outro corpo pede descanso também. Aqueceu pão quase até ficar tostado e comeu-o, fatia a fatia, deixando algum para o dia seguinte, não fosse a aldeia ser distante. Lembrou-se da carta e pegou nela, colocou-a contra a claridade que a fogueira dava, era uma carta, mais uma…
Pensou em subir uma escada de madeira que levava a um patamar superior, certamente para proteger alguns produtos dos ratos e afins, mas estava cansado demais e a fogueira era, de facto, uma excelente companhia. Guardou religiosamente o pão junto com as cartas, fechou o alforge e colocou a próxima carta a entregar por cima deste.
Estendeu os sacos no chão, limpou o chão à volta da lareira, não fosse alguma faúlha indecisa de noite incendiar as suas cartas. Com um molhe de palha e um pano, que parecia ter sido um avental, inventou uma almofada. Descalçou as botas, sentou-se, puxou o alforge para cima dos pés para os aquecer e deitou-se. O casaco serviu de cobertor e tudo o resto começou a ser longe demais, dos sentidos, da realidade.
Estava a mergulhar nos sonhos quando ouvi um ruído fora da eira, pareciam ramos a cair.
- Podes entrar… - disse meio acordado, meio adormecido
Através da porta entrou uma criança, aparentava 9 anos ou 10.
- Não te importas que fique por aqui a descansar?
- Mas tu já nem precisas de descansar…
- Pois, mas ainda não estou desabituado… Vou sentar-me aqui um pouco.
- E então, tens visitado muitos? – perguntou sem abrir os olhos.
- Visitei há pouco um… São interessantes… Deixei-lhe o meu chapéu para que não me esqueça…
Sorriu e pousou a sacola, sentando-se em cima dela, em frente à fogueira, estendendo as mãos para as aquecer.
- Tens ainda muitas cartas?
- Sim… - meio chateado por ter sido arrancado a um sonho que se aproximava
- E quando as entregares todas?
- Não sei… Não sei se isto alguma vez acaba… Sabes como andam os outros, já entregaram muitas? – ainda de olhos fechados.
- Alguns sim… Outros fazem de conta que não sabem o que têm para fazer e outros, ainda, vão adiando…
O vento parou, a fogueira crepitava num lume brando, quente, hipnotizador, que envolveu lentamente o ambiente… A criança continuava sentada, aquecendo as mãos… O carteiro respirava cada vez mais profundamente. Pelas janelas entravam sonhos de todas as cores, pareciam uma chuva de pó, mas um pó cor de ouro, dourada, prateado também, com partículas pequenas que sorriam, permaneciam juntas, de mãos dadas… Ficaram um pouco a pairar, sorriram baixinho, para não o acordar, e olharam para a criança que tinha entrado. Piscaram-lhe o olho, ele fez um movimento com a cabeça como que apontado para o carteiro e retribuiu o piscar. Então, serenamente, desceram, ainda de mãos dadas, milhões de partículas douradas, pairaram um pouco sobre o corpo do carteiro e, depois, começaram a pousar sobre ele. Umas entraram directamente por entre as roupas e a pele, outras pelos olhos, ouvidos, boca e nariz…
O carteiro suspirou e sorriu, puxou um pouco o casaco-cobertor para si, descobrindo as pernas. A criança tirou a camisola, amarela, com a palavra “Sonho” escrita, e pousou-a sobre as pernas do carteiro. Com o corpo quente, aconchegado por milhões de partículas douradas e prateadas, o carteiro caiu num sono profundo…
As partículas pareciam sair novamente do corpo, lentamente, mas desta vez traziam o carteiro, ou o que parecia ser ele, pois o seu corpo permanecia deitado, sorrindo, aquecido pelo casaco-cobertor, a caminha de Sonhos e a fogueira. Lentamente, os milhões de partículas levantaram um carteiro simples, com um corpo luminoso, mais subtil, que parecia não ter peso algum. Ainda dormiam, com os olhos fechados, os dois carteiros, o deitado no chão e este que os milhões de partículas amparavam… A criança olhou para eles e disse:
- Levem-no lá, ele tem-se esforçado… - e piscou-lhes o olho.
Os milhões de partículas envolveram-no numa esfera de luz, a sensação parecia ser agradável, pois mesmo este carteiro que estava no chão sorria de felicidade…
De repente, os milhões de partículas, de mãos dadas, começaram a movimentar-se, primeiro lentamente e, depois, tão depressa que já não se distinguiam umas das outras, até formarem uma esfera brilhante, mas transparente, numa luminosidade que feria o olhar…
Envolvido em tão fabulosa esfera, o carteiro, em posição fetal, desapareceu, ficando apenas este carteiro, que dormia profundamente, aquecido por uma fogueira, que me piscou o olho…
Meto a mão no bolso, agarro o chapéu, pisco olho e sorrio…
Subia-a um vulto carregado com um alforge, sorridente, escorregando aqui e ali no musgo. A população espera-o em dias alternados. Nem sempre vem quando desejam e, quando vem, carrega às costas notícias boas e más, sonhos e pesadelos.
À medida que sobe a rua e rasga uma espécie de neblina levanta a cabeça, solta um suspiro ao constatar que ainda lhe faltam mais degraus e muitas mais casas… Bem, estas não contam, algumas estão desabitadas, mesmo por fantasmas, que gente não mora mais aqui, apenas sonhos passados, festas vividas, desfolhadas e beijos escondidos, tímidos, tempos idos…
Nesta aldeia é já conhecido, apareceu de um dia para o outro, com o saco às costas, perguntando por moradores que tinham seu nome escrito no destinatário de envelopes velhos, amarelecidos pelo tempo e pelo couro do alforge, que algumas cartas tinham aspecto de terem viajado mais que cem anos… É alto, bastante alto para os corpos curvados pela lide do tempo e dos campos, pela enxada e foice, o cabelo sai-lhe do chapéu de carteiro, meio grisalho, que se mostra mais escuro quando tira o chapéu para, por cordialidade, saudar as pessoas com quem se cruza.
Visitou a primeira pessoa há anos, ou décadas, já não há certeza, a história é contada como se tivesse passado apenas uma ou duas semanas… Entrou no centro da aldeia, um pequeno aglomerado de casas à volta de uma capela, com um cruzeiro no centro da praça. O fontanário estava, então, povoado de mulheres, novas e idosas, com mãos frias e vermelhas de bater a roupa na água fria. Não escapou aos olhares malandros das raparigas mais novas quando se abeirou delas, pousou o saco, deixando cair algumas cartas e um embrulho atado com uma fita muito tosca e amassada, e disse ao mesmo tempo que tirava o chapéu:
- Bom dia minhas senhoras!
O pudor de então não permitia uma resposta imediata, directa, mas passados alguns segundos, a senhora mais velha, antipática, de rugas formadas na testa por tanto franzir as sobrancelhas, num olhar ameaçador, respondeu:
- Bom dia…
O carteiro enfiou o chapéu na cabeça e disse:
- Sou o novo carteiro, ando um pouco perdido, parti a minha bicicleta atrás, antes da ponte, e por sorte não me parti a mim também – sorriu – procuro uma aldeia chamada Dalmas, pode dizer-me onde fica?
A mulher olhava ainda de desdém, desconfiada:
- Para que quer saber? Aqui não passa um carteiro há anos, nem há quem nos escreva mais… Está enganado certamente…
As mulheres e meninas pareciam esconder-se atrás desta mulher mais velha, com medo de esta lhes ver um olhar mais furtivo para o carteiro.
- Pois, acredito que sim, mas tenho aqui algumas centenas de cartas e este pacote, como pode ver, para entregar e só me pagam quando isto entregar… Procuro agora uma senhora chamada – parou e olhou melhor para a carta tentando compreender o que estava escrito - Alice Martins, creio que é este o nome…
- Sou eu, mas ninguém tenho que me escreva! E mesmo que tivesse, não sei ler, isso era tarefa do meu marido, que é ido agora, para onde todos iremos… - respondeu com azedume e tentando terminar por ali a conversa.
- A carta tem selo de há 8 anos atrás e o remetente é um senhor, creio que se chama Artur Martins…
O olhar da mulher ficou vago e distante, parecia atingida por um murro no peito, deixou de respirar por instantes e todas as outras sussurraram entre elas…
- Esse… - falou com o olhar no chão – Esse… era o meu marido…
Com um sorriso, o carteiro estendeu o braço à senhora, entregando a carta, ao que esta a recebeu e a manteve na palma das mãos, olhando, com os olhos a encherem-se de lágrimas.
O carteiro ficou em pé, olhando para ela, esperando que a emoção passasse para perguntar por outros destinatários…
- O senhor… - balbuciou – o senhor não se importa de ma ler? Nenhuma de nós sabe ler… Apenas escrevemos o nosso nome… Algumas de nós apenas assinamos com uma cruz… - e estendeu-lhe a carta ainda por abrir.
- Certamente, minha senhora – pegou novamente na carta e sorriu – Quer que a leia aqui?
- Não, não… Vamos até ali – e apontou com a cabeça para o cruzeiro do centro da praça.
Andaram um pouco, o carteiro arrastou o seu alforge e a mulher andava e limpava as mãos ao avental. Chegados ao cruzeiro, a mulher sentou-se e o carteiro, após pousar o alforge, endireitou o chapéu, retocou com a mão o cabelo que saía do chapéu, endireitou o casaco e abriu lentamente a carta. À medida que o fazia, a mulher soluçava baixinho, espaçadamente, enquanto lhe caía uma ou outra lágrima pelo rosto, que ela limpava com uma ponta do avental.
Pigarreou um pouco, clareando a voz e começou a ler:
“Querida Alice, o quanto lamento eu em vida não ter sorrido mais, não te ter amado como sei agora que é possível… Já lá vão uns anos e não sei se existe forma de te falar, de te ver…” O carteiro cambaleou um pouco, parecia cansado, a sua visão turvou-se um pouco e ele teve que se sentar, fazendo-o no chão. Baixou um pouco a cabeça, o que permitiu esconder os seus olhos turvos, quase brancos por uma névoa que os cobria agora. Continuou a ler:
“Continuas bela como sempre, mas a tua amargura sente-se até aqui onde estou e mesmo nosso filho, que morreu tão cedo, antes da sua primeira comunhão, se compadece de tua dor… Eu não tenho muito mais tempo para escrever e falar, não é sempre que o podemos fazer… Estou bem, feliz, tão liberto da vida e da dor que foi sair daí, mas agora vejo que tudo é passageiro, que o que fica somos nós, o amor… Olha, o amor aqui é tudo o que existe, aqui respira-se amor, vive-se amor, é um amor diferente do que conhecemos… Eu queria dizer-te tantas coisas, mas não tenho tempo…”
A mulher ouvia de olhos fechados, as lágrimas continuavam a correr, baixou a cabeça e pousou-a nos braços que estavam cruzados sobre os joelhos.
“Peço-te que recebes estas minha palavras com carinho e amor… Peço-te, imploro-te, que olhes para todas as pessoas como se olhasses para mim, que gostasses das outras pessoas como se fossem os teus mais queridos filhos, como se me visses em cada uma das pessoas… Sei que é difícil, mas acredita em mim, fá-lo por ti mesma e pelos outros, para que se sintam amados, libertos dos seus medos… Quem sabe eu estarei num desses olhares? Agora tenho que ir… Estou aqui à tua espera, aguardo ansiosamente a altura em que nos possamos olhar olhos nos olhos e te possa dar um abraço… Um abraço à nossa maneira… Até lá, do teu marido, Artur.”
O carteiro olhou em frente, para a senhora, compreendeu que estava sentado e levantou-se rapidamente, abanando um pouco a cabeça como que a sacudir pensamentos, limpou as calças e fechou cuidadosamente a carta. Deu dois pequenos passos e apontou a carta à senhora que o olhava, ainda de olhos húmidos, com os braços cruzados sobre as pernas. Esticou o braço e pegou na carta.
- Obrigada…
- Oh, não tem mal, faço isto muitas vezes por esses montes adiante… É a minha vida…
- Não compreendo… Parece-me que perdi tanto tempo… Com…
- Nunca perdemos tempo… Diz-me a vida que ganhamos sempre alguma experiência, que aprendemos sempre algo.
- Mas eu perdi muito tempo, já lá vão alguns anos que ele partiu… Eu apenas tenho acumulado tristeza, raiva… Não consigo olhar nos olhos ninguém, fico com raiva da felicidade dos outros… - parou um pouco, baixou a cabeça – Já olhou para aquelas pobres coitadas? Nenhuma delas namora, pelo menos que eu saiba, nenhuma delas se atreve a sorrir quando estou com elas… Acho que têm medo… Não sei… Acho que me tornei amarga, raivosa com a vida… - falava e abanava a cabeça, como que não querendo acreditar no que se tinha transformado…
- Ainda está a tempo de mudar… De sorrir… De amar…
- Estou nada… Estou velha… Cansada…
- Não está não… Olhe… Eu era para ser carteiro desde que nasci, sabia que era isto, que tinha que entregar cartas, falar e ouvir com as pessoas… Mas nunca o fiz… Passados alguns anos encontrei uma pessoa que me entregou uma carta, uma carta velha, muito velha… Nessa carta diziam-me que se eu tivesse falado, se eu tivesse dito o que sabia, que essa pessoa já seria mais feliz, teria agido de outra forma… - encolheu os ombros e sorriu - Acho que cada um de nós encontra forma de fazer o que tem que fazer, sabe? Às vezes não o fazemos por orgulho, por comodidade, mas todos sabemos o que temos que fazer…
Olhou por ele abaixo, fez um movimento com os braços como que exibindo o seu uniforme de carteiro:
- Acha que eu queria andar assim? Agora nem bicicleta tenho… Caminho por aí com cartas que ninguém lê… Mas sou feliz… Há qualquer coisa nessas cartas que me faz ver que somos mais que palavras, somos acção, e que esta acção só nós sabemos qual é… - parou um pouco – Como é que hei-de dizer… Acho que nós temos que fazer pelos outros, tudo o que faríamos por nós…
Levantou o alforge e colocou-o ao ombro, endireitou o chapéu:
- Pode ser que um dia destes, alguém me entregue uma carta assim… - sorriu – Tenha um bom dia!
Partiu em direcção à capela, tinha uma carta a entregar e sabia que encontraria a pessoa ali, na capela, não viesse no destinatário “Padre…”
Chegou à capela e pousou o alforge, olhou para trás e ficou a contemplar a senhora a quem lera a carta. Esta tinha-se levantado e caminhava em direcção ao fontanário. Levava a carta na mão e quando se abeirou de uma das raparigas esta encolheu-se, talvez com medo… A senhora Alice levantou os braços e deu-lhe um abraço forte, demorado, e quando a largou beijou-a na testa, com muito carinho… A surpresa parecia ser enorme e a repercussão desse abraço viu-se nas restantes raparigas que abraçaram Alice em conjunto… Era capaz de jurar que a própria água parecia mais límpida e Alice parecia mais nova…
Tirou a carta do alforge e caminhou em direcção à porta da capela… Gostou da capela, além da pequena igreja, possuía à frente desta um coberto, com bancos de pedra e uma antiga pia baptismal à direita da porta de entrada. Não gostou de ver as grades em forma de lança…
- Jovem, posso ajudá-lo? – perguntou uma voz muito grave.
Assustou-se, estava perdido a olhar para as grades.
- Sim, por favor, procuro o padre Bernardo, tenho uma carta para ele.
- Uma carta? Mas aqui, meu jovem, já não há carteiro que chegue… Há anos…
- Pois agora há - e sorriu, tirando o chapéu e exibindo orgulhosamente o símbolo dos carteiros.
- E diz-me que a carta é para o padre Bernardo?
- Sim, é.
- Ele não está, mas posso entregá-la pessoalmente, se assim desejar.
Pensou um pouco, as ordens que tinha era para entregar pessoalmente ao destinatário… Enfiou novamente o chapéu e sorriu, como se uma ideia o tivesse atingido.
- Está bem, se não for incómodo. – E entregou a carta ao padre.
Pegou no alforge novamente e caminhou para fora do coberto, dirigindo-se em direcção ao cruzeiro. Parou quando ouviu a porta da capela fechar e voltou para trás. Sentou-se num dos bancos frios de pedra. Por momentos sentiu a tentação de colocar algumas das cartas que trazia sobre o banco para não ter tanto frio, mas afastou o pensamento com um sorriso.
Olhava atentamente à volta, havia qualquer coisa de acolhedor naquela pequena aldeia, qualquer coisa de agradável.
Não teriam passado cinco minutos quando ouviu a porta da capela abrir repentinamente, o padre a quem tinha deixado a carta surgia, ofegante e olhava para a praça tentando encontrar o carteiro, que nem o tinha visto sentado ao lado da porta.
- Ah, está aí! – disse, surpreso e ao mesmo tempo sem saber o que dizer.
- Sim, estou cansado, descanso um pouco, se não se importa.
- Claro que não… - ficou a olhar para a carta aberta.
- Quem lhe entregou esta carta?
- Não sei, isso é do serviço, eu apenas carrego o alforge e deixo as cartas com os seus donos. – respondeu humildemente.
- Ah…
- Mas padre, são más notícias?
Ficou a olhar para o carteiro por alguns segundos.
- Não sei… Importa-se que me sente a seu lado? – perguntou com uma dose de simplicidade que o carteiro ainda não tinha visto.
- Oh meu padre, eu estou em sua casa, não precisa de me pedir autorização – respondeu divertido.
O padre sorriu, realmente, fazia sentido.
- Estou em minha casa sim… Fiz dela a minha casa… Mas não é minha… Tenho-me esquecido disso… Posso confessar-lhe uma coisa?
O carteiro olhou surpreso…
- Mas padre, como posso eu confessá-lo? O senhor confessa-se com Deus… Eu sou um carteiro…
- Sim, tens razão jovem – e pousou a sua mão esquerda sobre o joelho do carteiro – mas eu ultimamente tenho-me confessado a um Deus… - parou um pouco e olhou em frente – tenho-me confessado a um Deus que eu criei…
Ao olhar curioso e perplexo do carteiro, o padre continuou.
- Eu criei este Deus, este que vês à tua volta – e fazia um gesto com o braço direito, empunhando ainda a carta, apontando para as grades em torno do coberto – Transformei palavras de amor e libertação em grades e opressão, em medos infundados… - Suspirou – tenho-me esquecido que também eu sou carteiro…
Parou e olhou para o carteiro, tirou a mão do joelho e deu-lhe uma pequena palmada nas costas. Depois, sorrindo, tirou-lhe o chapéu e colocou-o sobre a sua cabeça.
- Que tal, pareço um carteiro?
- Se me permite senhor padre… - foi interrompido pelo padre.
- Bernardo… O meu nome é Bernardo, tenho-me esquecido disso.
- Pois… Sabe, uma vez li numa carta para outra pessoa – emendou de seguida – Espere, li numa carta para outra pessoa, porque essa pessoa me pediu para a ler! – o padre riu-se – Li que as pessoas valem pelo que são, pelo que fazem com o que têm… Eu acho que sou carteiro, mesmo sem o chapéu e o uniforme… Se calhar o senhor padre…
- Bernardo – interrompeu-o
- Se calhar o Bernardo também seria padre sem a batina e o anel…
- Sim, tens razão… Se calhar… Mas habituei-me tanto a este papel, a este poder, que tenho-me esquecido de ouvir as pessoas, para e por quem eu vim para aqui… Vou ter que mudar alguma coisa… Rapaz, dás-me uma ajuda? – perguntou levantando-se.
- Sim…
- Então agarra nessa ponta, cuidado não te piques! – disse, indo para a outra extremidade da grade.
Agarram um em cada ponta da grade e começaram a fazer força para fora, mas a grade não se mexeu.
- Acho que as grades que têm que cair, caem para dentro… - lançou o carteiro. E começaram a puxar, agora para dentro do coberto.
Não tardou muito para que as grades cedessem á força do padre e do seu recente amigo. Primeiro desencaixaram-se e depois dobraram-se, o que fê-los cair de costas, rindo.
- Ainda faltam aquelas – disse o padre, apontando para o outro lado do coberto.
Caíram com mais facilidade que as outras.
- O que vai fazer a isto? – perguntou o carteiro.
- Não sei… Isto não arde… Tive uma ideia! Ora ajuda-me aí na ponta! – falava e olhava para a grade tombada.
Agarram um em cada lado da grade e o padre foi guiando, à frente. Pararam à entrada do coberto. O padre riu-se sozinho e disse:
- Levanta essa parte da grade. Assim não, ao contrário, de forma a fazer uma escada!
O carteiro começou a levantar a grade, até que esta chegou ao tecto, apoiando numa viga de madeira. Ao lado da viga, por cima do portão, estava uma faixa que dizia: “Casa de Deus”.
O padre subiu, então, a grade transformada em escada e agarrou a faixa, retirando-a com cuidado. Desceu com a faixa e, chegado ao chão, disse:
- Segura aí, por favor, vou lá dentro buscar um material.
Regressou com um pincel e tinta, que pousou no banco de pedra. Depois, pegando na faixa, estendeu-a no chão e disse:
- Chegas-me por favor a tinta e o pincel? Quando escrevi isto, não era bem isto que queria escrever.
Começou a escrever na faixa, molhando o pincel na tinta, limpando o excesso de tinta no rebordo da lata. Quando acabou podia ler-se: “Bem-vindo à cada de todos os deuses”.
Sorria orgulhoso e olhava para o carteiro com uma expressão de felicidade, como que a pedir uma opinião abanou a cabeça.
- Está diferente… Mas o que quer dizer?
- Bem, quer dizer que esta casa não escolhe deuses, nesta casa é livre de entrar quem quiser, também podem perguntar o que quiserem…
- Mas, é mesmo assim? Acha que as pessoas aceitam bem?
- Acho que as pessoas têm que aceitar outros pontos de vista, têm que respeitar os deuses das outras pessoas.
- Mas, isso não leva as pessoas a não acreditarem em deus?
- Talvez… Mas na carta que em boa hora me entregaste, dizia que as pessoas precisam de acreditar mais nelas, nelas próprias… Dizia que transferiam muita da sua responsabilidade para um padre ou para deus… Que está na hora de acreditarem nelas com um deus, como o seu deus…
- Mas senhor padre…
- Bernardo, rapaz, chamo-me Bernardo…
- Pois, mas onde fica deus então? Não existe?
- Oh, claro que existe… Deus é tudo o que existe… Acho que é a vida… A natureza… Os animas… O espaço… Tu… Eu…
- Eu?
- Sim, tu, porque não?
- Não sei… Nunca tinha pensado nisso…
- Habituamo-nos a não pensar… A ser o que os outros são… A seguir os outros… Está na hora de sermos nós mesmos…
- Mas as pessoas são tão diferentes… Cada uma tem o seu Deus…
- Mas este planeta não deixa de ser este planeta por ter povos diferentes, animais diferentes, climas e países diferentes, ou deixa?
- Acho que não…
- E este universo não deixa de ser este universo por existirem vários planetas, estrelas, etc… Ou deixa?
- Pois não…
- Quando cada um de nós agir de acordo consigo mesmo será um deus…
- E o que acontecerá?
- Bem, acontecerá que quando todos formos um deus, deus existirá em cada um de nós…
- E isso não irá separar as pessoas?
- Não… Os valores base são iguais, respeito pelo homem, por tudo o que existe, respeito por nós próprios e pelo nosso espaço, sentido de responsabilidade perante o que nos rodeia, o que vemos e não vemos… A religião é uma questão cultural… O que existe é o amor…
- É estranho…
- Sim, muito, ainda não consigo compreender… Mas estava escrito na carta… Agora ajuda-me a colocar esta faixa lá em cima.
O carteiro subiu enquanto o padre segurava na escada improvisada. Levava a faixa presa nos dentes e agarrava-se com as duas mãos à grade. Chegado ao cimo encostou a cabeça à viga e, com medo, tirou as mãos da grade, segurando a faixa. Primeiro prendeu uma parte, segurando a faixa no prego que estava lá para o efeito, depois prendeu a outra ponta… Só quando o padre deu uma gargalhada compreendeu que tinha colocado a faixa ao contrário.
- A não ser que queiras que as pessoas façam o pino para ler, é melhor mudarmos a faixa…
- Oh, que diabo! – tapou a boca com a mão e caiu abaixo da grade.
O padre ria-se, enquanto que o carteiro esfregava, com um esgar de dor, o cotovelo…
- Estás bem?
- Sim, estou… - enquanto esfregava continuamente o cotovelo – Desculpe, não devia ter dito aquilo…
- O quê? O diabo?
- Sim…
- Oh, aqui há lugar para todos! – riu – Não devemos ter medo de nada, isso é de facto a única coisa que devemos evitar… O medo. Vamos continuar?
- Bem, sim…
E lá subiu de novo a escada, mas agora colocou a faixa correctamente.
- Rapaz, muito obrigado! – disse o padre, enquanto caminhava em direcção à capela
- De nada… - respondeu, enquanto pegava no seu chapéu e alforge.
O padre quase já tinha desaparecido, quando o carteiro correu para trás e perguntou:
- Senhor padre!
- Bernardo! – ouviu-se já do fundo da capela.
- Bernardo, quem lhe escreveu essa carta? Não tinha remetente…
O padre voltou a trás, olhou para o carteiro, pousou a lata de tinta e tirou a carta do bolso da batina. Abriu-a…
- Que engraçado, com a pressa de a ler, acabei por não ver quem a tinha assinado.
Deu uma gargalhada que fazia abanar toda a batina.
- Está aqui assinado no final: Deus…
O carteiro abanou a cabeça, tinha-lhe passado completamente ao lado esta vivência… Saiu confuso e pensativo. Parou, meteu a mão às cegas no alforge e tirou uma carta.
- Onde raio é que vou encontrar esta aldeola?
Olhou em redor, via o cruzeiro à sua frente, mais ao fundo a estrada por onde veio e, do lado direito, o fontanário onde parara, com várias mulheres jovens e adultas a cantarem. À sua esquerda erguiam-se algumas casas, do lado direito havia um pequeno largo em terra e, ao fundo, uma estrada – Talvez a continuação da estrada por onde vim – pensou e metendo a carta que tinha tirado no bolso de dentro do casaco começou a andar, assobiando.
Ao sair da aldeia olhou para trás, talvez devesse ver se tinha mais alguma carta para aquela aldeia, mas deitou pés ao caminho, para trás ficou apenas uma pequena praça com um cruzeiro no centro e, agora, dois jovens em pé a olhar para a faixa que o padre Bernardo tinha pintado riam.
Andou alguns quilómetros e parou, não pelo cansaço, mas porque não via vivalma e o céu estava já a escurecer. Olhou em redor, não via nada, decidiu continuar até encontrar sítio onde pudesse dormir.
O caminho era em terra, ladeado por muros com cerca de um metro de altura, que serpenteavam por entre campos cultivados.
Algumas árvores que não conhecia tornavam o caminho mais escuro e desejou estar num local abrigado do vento que teimava em soprar. A temperatura baixara, o ar que expirava saía em vapor e sonhava já com uma casa abandonada onde pudesse fazer uma fogueira, aquecer-se, comer um pouco do pão que trazia e dormir.
Os sonhos misturavam-se já com a realidade, perdido nos seus devaneios despertou quando ao sair de uma curva viu um pequeno celeiro com todo o aspecto de estar abandonado. Saiu da estrada, subiu o campo que antecedia e parou em frente ao celeiro. Era, de facto, uma eira, tradicional, com o seu chão em lousa. Tinha os portões fechados, decidiu empurrar para ver se estaria de facto fechado e ficou contente quando o portão pequeno abriu, rangendo. Olhou em volta e não existia nada que indiciasse que aquela eira era de alguém ou, se de facto fosse, não era utilizada vai para muitos anos…
Entrou e fechou o portão atrás de si. Havia alguma palha muito seca, que poderia utilizar como colchão… A utilidade da palha foi de imediato esquecida quando encontrou uns sacos velhos de serapilheira, alguma roupa muito gasta e com bastantes buracos. A eira parecia ter sido utilizada por alguém com os mesmos intentos, pois num dos cantos encontrou vestígios de uma velha lareira improvisada. Pousou por fim o alforge e pendurou o chapéu num dente em madeira de um ancinho abandonado. Ia tirar o casaco quando sentiu frio e decidiu ficar com ele. Meteu a mão dentro do casaco e encontrou a carta, pousou-a em cima de uma meia pipa invertida. Vasculhou um pouco mais e agora sentiu algo pequeno, que fazia barulho quando abanava, eram os fósforos.
Juntou um pouco de palha e saiu para apanhar alguns galhos que por ali tinha ido parar com o vento. Era pouco. Saiu novamente da eira e sem dificuldade vislumbrou uma videira bastante seca e velha, partiu-a facilmente pela raiz e levou-a para a eira. Ainda não chegava, saiu de novo, andou uns cem metros e regressou com dois pinheiros novos, mas secos, que algum fogo queimou e que agora não serviam nem para árvore de Natal. Com o joelho conseguiu partir os pinheiros, mas a videira apesar de seca ficou intacta.
Era já noite, acendeu um fósforo à primeira tentativa e chegou-o à palha. Em segundos, esta ardeu e os troncos secos por cima começaram, lentamente, a ruborescer, ardendo brandamente em seguida.
Sentou-se sobre alguns dos trapos e sacos que encontrou. Arrastou o alforge para junto dele e, com todo o braço imerso em cartas e embrulhos, procurou algo. Encontrou. Tirou, era um saco de pano que abriu, retirando um pão de milho grande. Desembrulhou um guardanapo de pano e tirou a faca, que utilizou para partir o pão em fatias. Por momentos pensou em sair e voltar atrás na estrada para colher algumas das amoras que tinha visto num silvado, mas era já tarde e noite escura.
Levantou-se, pousando o pão, e dirigiu-se para a meia pipa onde estava a carta. Pegou nela, colocou-a entre os dentes e arrastou a meia pipa para a porta, de forma a ficar fechada, não fosse o vento abri-la. Pegou na carta e pousou-a ao lado do pão, sentou-se, a fogueira iluminava já as paredes da eira e dava um calor que aconchegava o corpo e a alma.
O vento começou a soprar com mais intensidade.
O sono começava a invadi-lo. É sempre assim, quando damos descanso ao corpo, o nosso outro corpo pede descanso também. Aqueceu pão quase até ficar tostado e comeu-o, fatia a fatia, deixando algum para o dia seguinte, não fosse a aldeia ser distante. Lembrou-se da carta e pegou nela, colocou-a contra a claridade que a fogueira dava, era uma carta, mais uma…
Pensou em subir uma escada de madeira que levava a um patamar superior, certamente para proteger alguns produtos dos ratos e afins, mas estava cansado demais e a fogueira era, de facto, uma excelente companhia. Guardou religiosamente o pão junto com as cartas, fechou o alforge e colocou a próxima carta a entregar por cima deste.
Estendeu os sacos no chão, limpou o chão à volta da lareira, não fosse alguma faúlha indecisa de noite incendiar as suas cartas. Com um molhe de palha e um pano, que parecia ter sido um avental, inventou uma almofada. Descalçou as botas, sentou-se, puxou o alforge para cima dos pés para os aquecer e deitou-se. O casaco serviu de cobertor e tudo o resto começou a ser longe demais, dos sentidos, da realidade.
Estava a mergulhar nos sonhos quando ouvi um ruído fora da eira, pareciam ramos a cair.
- Podes entrar… - disse meio acordado, meio adormecido
Através da porta entrou uma criança, aparentava 9 anos ou 10.
- Não te importas que fique por aqui a descansar?
- Mas tu já nem precisas de descansar…
- Pois, mas ainda não estou desabituado… Vou sentar-me aqui um pouco.
- E então, tens visitado muitos? – perguntou sem abrir os olhos.
- Visitei há pouco um… São interessantes… Deixei-lhe o meu chapéu para que não me esqueça…
Sorriu e pousou a sacola, sentando-se em cima dela, em frente à fogueira, estendendo as mãos para as aquecer.
- Tens ainda muitas cartas?
- Sim… - meio chateado por ter sido arrancado a um sonho que se aproximava
- E quando as entregares todas?
- Não sei… Não sei se isto alguma vez acaba… Sabes como andam os outros, já entregaram muitas? – ainda de olhos fechados.
- Alguns sim… Outros fazem de conta que não sabem o que têm para fazer e outros, ainda, vão adiando…
O vento parou, a fogueira crepitava num lume brando, quente, hipnotizador, que envolveu lentamente o ambiente… A criança continuava sentada, aquecendo as mãos… O carteiro respirava cada vez mais profundamente. Pelas janelas entravam sonhos de todas as cores, pareciam uma chuva de pó, mas um pó cor de ouro, dourada, prateado também, com partículas pequenas que sorriam, permaneciam juntas, de mãos dadas… Ficaram um pouco a pairar, sorriram baixinho, para não o acordar, e olharam para a criança que tinha entrado. Piscaram-lhe o olho, ele fez um movimento com a cabeça como que apontado para o carteiro e retribuiu o piscar. Então, serenamente, desceram, ainda de mãos dadas, milhões de partículas douradas, pairaram um pouco sobre o corpo do carteiro e, depois, começaram a pousar sobre ele. Umas entraram directamente por entre as roupas e a pele, outras pelos olhos, ouvidos, boca e nariz…
O carteiro suspirou e sorriu, puxou um pouco o casaco-cobertor para si, descobrindo as pernas. A criança tirou a camisola, amarela, com a palavra “Sonho” escrita, e pousou-a sobre as pernas do carteiro. Com o corpo quente, aconchegado por milhões de partículas douradas e prateadas, o carteiro caiu num sono profundo…
As partículas pareciam sair novamente do corpo, lentamente, mas desta vez traziam o carteiro, ou o que parecia ser ele, pois o seu corpo permanecia deitado, sorrindo, aquecido pelo casaco-cobertor, a caminha de Sonhos e a fogueira. Lentamente, os milhões de partículas levantaram um carteiro simples, com um corpo luminoso, mais subtil, que parecia não ter peso algum. Ainda dormiam, com os olhos fechados, os dois carteiros, o deitado no chão e este que os milhões de partículas amparavam… A criança olhou para eles e disse:
- Levem-no lá, ele tem-se esforçado… - e piscou-lhes o olho.
Os milhões de partículas envolveram-no numa esfera de luz, a sensação parecia ser agradável, pois mesmo este carteiro que estava no chão sorria de felicidade…
De repente, os milhões de partículas, de mãos dadas, começaram a movimentar-se, primeiro lentamente e, depois, tão depressa que já não se distinguiam umas das outras, até formarem uma esfera brilhante, mas transparente, numa luminosidade que feria o olhar…
Envolvido em tão fabulosa esfera, o carteiro, em posição fetal, desapareceu, ficando apenas este carteiro, que dormia profundamente, aquecido por uma fogueira, que me piscou o olho…
Meto a mão no bolso, agarro o chapéu, pisco olho e sorrio…
2005-10-27
(I) O chapéu
Há qualquer coisa de estranho com este tempo, com esta chuva... Está tanto vento que alguns galhos dos pinheiros caem, batendo nas janelas e na porta... Na porta... Já mais do que uma vez caem dos pinheiros e batem...
Olho para o meu lado direito e assusto-me, entra uma criança, muito jovem, talvez 9 anos, e fica a olhar para mim, com olhos traquinas, sorriso de esguelha e pequenino, com a mão direita apoiada na porta, chapéu vermelho, típico de lavrador, camisola de malha amarela e um nome bordado a linha vermelha: "Sonho"... Sonho... Que raio de nome... As calças parecem feitas de um tecido similar à serapilheira e os pés tinham umas botas toscas, velhas, nas quais adivinho um buraco na sola... Nas costas trazia uma sacola, espécie de pasta, parecia feita de couro, "muito" castanha, sem fivelas a apertar, tinha apenas um arame grosso e meio ferrugento...
Tirou a mão da porta e foi andando até se sentar a meu lado, na cadeira vazia. Enquanto se aproximava, deu para ver os olhos, cor de sonho.
É pequeno, mesmo muito pequeno, sentado na cadeira os pés dificilmente chegam ao chão, fica a balançá-los, lentamente, com os braços apoiados nos braços da cadeira e as costas que não encostam na cadeira, porque ainda não tirou a sua sacola... Puto estranho... Por fim falou:
- Bati tanto à porta, como não abrias, entrei na mesma...
- Entraste? Como? - Tinha-me esquecido deste pormenor, como se já não fosse bastante estranho entrar alguém que não conheço em minha casa.
- Pareces burro, não sabes que atravessamos as paredes?
Reduzi-me à minha ignorância e continuei a escrever no computador... Ele ia olhando para mim e para o computador, sequencialmente... Às tantas lá falei:
- Pensei que eram ramos de árvores a bater na porta...
- Oh, e o que achas que todos nós somos?
- Não percebi...
- Todos nós somos uns galhos de árvores, ondulando por aí, tentando agarrar-nos à árvore mãe, mas há-de vir sempre um vento que nos atira para longe, ao encontro das portas... Como a tua... como eu...
Continuei sem perceber o que falava, mas por vergonha calei-me...
Cansado de me ver escrever desceu da cadeira e tirou a sacola das costas, pousou-a no chão e, depois, sem eu esperar, sentou-se no chão, encostado à minha perna direita, pôs as mãos sobre os meus joelhos e pousou a sua cabeça sobre as mãos... Suspirou fundo... E pareceu ficar ali a dormir, meio perdido nos seus pensamentos de criança...
Parei de escrever, tirei-lhe o chapéu e afaguei-lhe o cabelo... Era sujo e grosso e cheirava ao típico fumeiro...
Sem levantar a cabeça, falou, num tom de voz mais adulto, pausado e muito calmo:
- Esqueceram-se de mim...
- De ti? Quem? - Tinha a cabeça a "1000", nada fazia sentido...
- De mim e de todos os outros como eu... Os que cá estiveram e os que estão para vir...
Parou... Parecia cansado, não fosse eu vê-lo criança e pensaria ser um idoso que me falava...
- Esqueceram-se de nós... Os como eu, que parti e os que lá ficaram, por aí, perdidos, espalhados pelos montes...
Parou novamente... Não só parecia, estava de facto cansadíssimo...
- Fico triste pelos que ficam, sozinhos... Somos cada vez menos naquilo que poderia ser um paraíso... Condensam-se cada vez mais em grandes aglomerados, em jaulas de sentimentos e emoções, não sentem isto – e apontou para a janela, que tinha sido atingida por mais um ramo. Curioso, a fala dele era sincronizada com o vento, com a Natureza - vivem imersos num mundo pequeno, mesquinho, que é a sua própria sepultura...
Parou novamente... Eu estava atónito, olhava para longe, vendo as nuvens escuras e as copas dos eucaliptos em frente, que bailavam ao sabor do vento forte...
- Os sítios onde vivem estão apinhados de gente densa, forte, que materializam o que pensam... "Cada vez está pior"... "Isto deve ser o fim"... - abanou a cabeça um pouco, negativamente - Como é triste ver tudo isto, rapaz...
Ter-me chamado rapaz, com um tom de voz tão familiar, arrancou-me ao meu devaneio... Prestei mais atenção ao que falava...
- Sabes... Bem, sabes... Nós somos o que fazemos de nós mesmos... Tens medo? Vais encontrar situações em que terás medo... És optimista? Então, as situações, fruto do teu esforço, serão recompensadoras... És optimista parvo? - Esta assustou-me... - Então serás apenas uma pedra perdida por aí, sem fazeres nada... És pessimista? Então castras toda e qualquer hipótese de eu ou outros te ajudarem no que sonhas... E acredita, tal como eu, há tantos por aí... Vão trabalhando convosco, para vocês, para todos, porque é assim o rumo natural das coisas, mesmo que vocês insistam em continuar assim, fechados, cegos, mascarados em frente ao vosso espelho...
Suspirou fundo, pesado...
- Falta-vos um objectivo maior, que não é o sobe e desce da bolsa de valores, ou o chegar do final do mês para receber e pagar as prestações de todas as coisas que não precisas, que te fazem sentir vazio... Não me interpretes mal, essas coisas são necessárias, boas até, mas dentro de uma hierarquia de necessidades e prioridades... Mesmo tu, que ainda te preocupas minimamente, confundiste o meu bater na porta com um galho ou um ramo ou qualquer outra coisa, que não te arrancava às tuas próprias sombras... Se te batem à porta, abre! Se te chamam, pára um pouco e olha para trás, vê quem é...
Levantou-se do chão, tirou a sacola da cadeira, pousou-a ao lado e sentou-se... Encostou a cabeça para trás, na cadeira, fechou os olhos e sorriu...
- Achas estranho?
Eu nem respondi... Estranho... Sei lá... Estava apenas a ouvir, sem julgar...
- Sim, é uma boa atitude, não julgues... - Fiquei surpreendido, parecia que me tinha ouvido os pensamentos...
- Sim, leio os teus... Aliás, não os leio, quando pensas liberta-os para o ambiente sobre a forma de energia, a tua energia, a tua assinatura... Estás a ver a importância que vocês têm? Onde estejas, tudo o que pensares, ficará lá, como uma assinatura... E tu, que queres fazer? Queres andar por aí, pensando e agindo com responsabilidade, com amizade, com amor? Ou preferes vaguear, perdido em ti mesmo, perdendo a paisagem e, quem sabe, a oportunidade de amar, de ser amado, de ajudar, de ser ajudado?
Abriu os olhos, pousou os cotovelos nas pernas, inclinando-se para a frente, olhou-me e sorriu.
- Quando te perderes nos teus pensamentos, quando fores preso nesta onda de pessimismo, de tristeza e drama, pergunta-te a quem interessará tudo isto? A ti? Não percas tempo com dramas, amortiza o impacto negativo das coisas, sê responsável pelo que pensas, pelo que transmites... Não te esqueças, o que pensas concretiza-se... Vê os teus sonhos, se sonhas, se vives no sonho, tudo isso ficará no mundo dos sonhos... Se sonhas com um mundo melhor, esse mundo melhor será apenas o teu sonho... Sê a mudança que queres ver, age de acordo com os teus ideais mais profundos, sempre com agilidade suficiente para veres quando estás errado e quando podes aprender algo mais... Vocês são curiosos, estranhos, uma raça interessante... São tão dicotómicos, de extremos, sem saberem viver no meio termo, dançando sobre essa ténue linha que divide o cristalizado e o mole demais... Ou são optimistas exagerados, inconsequentes, ou são pessimistas rabugentos, velhos trapos que conspiram contra vocês mesmos...
Abanou um pouco a cabeça e ficou a olhar para o chão.
- De que têm vocês medo? Para quê o medo? O medo é útil, como aviso, como incentivo para vocês melhorarem e prepararem-se bem para uma ou outra situação, mas nada mais do que isso... Esse medo é parecido comigo, aparece assim, sem contarem, apenas atraído pelos vossos pensamentos... E tal como o medo, muitos outros, que têm medo de ser felizes, de crescer em todos os sentidos, surgem e apegam-se a vocês, sentam-se a vosso lado e pensam convosco, às vezes por vocês mesmos... Mas se vocês já os percebem, os sentem, não reajam com repugno, não se fechem em vocês mesmos, pelo contrário, abram o vosso coração, os vossos sentimentos, os vossos pensamentos, para eles, para por uma vez na vida que seja, sintam que alguém os ama, incondicionalmente, que possam sentir e discernir, que possam seguir ou dividir, mas não fiquem parciais... Também não fiquem presos a isso, só têm que dar o vosso melhor e isso é muito fácil, não custa rigorosamente nada, excepto abrir mão do vosso ego, de vós mesmos... Não sejam alimento deles, não continuem a insistir, isso apenas gerará dependência...
Pousou as mãos nos braços da cadeira e ergueu-se... Deitou-me um olhar de amizade profunda que me comoveu. Baixou-se, apanhou a sacola e colocou-a às costas, dando um pequeno salto para a ajustar melhor e, de seguida, puxou a camisola para baixo, esticando-a. Meteu as mãos nos bolsos.
- Já vais?
- Sim... Está a chegar o vento que me leva para onde tenho que ir...
- Para onde vais?
- Tu sabes, eu e muitos outros que querem vir, vamos para onde tens tentado ir...
- Não, não sei para onde tenho tentado ir...
- Sabes sim, mas apenas tens sonhado com isso, passa à acção...
- À acção?
- Sim, à acção, sem agires, sê o que queres ser, mesmo que isso não se veja, mesmo que isso não venha no "jornal"... Se te libertares do ego, os resultados serão maiores, em maior escala... Há tanto por aí por descobrir e se poderem descobrir isso ao mesmo tempo que se descobrem a vocês mesmos... Hum, seria maravilhoso!
Disse isto, nada mais, ficou um pouco parado a olhar para mim e a sorrir...
- E o teu chapéu? Não o levas? - perguntei.
- Não, fica contigo, como recordação...
- Pois, recordação de alguém que nem sei se existe... Se é fruto da minha imaginação...
- E para que precisas tu de comprovação? Não tem piada assim?
- Não!
- Tem sim... Durante tanto tempo estiveram habituados a que pensassem por vocês, que decidissem por vocês que, agora, simplesmente, têm medo de decidir sozinhos, de viver sonhos... como disse, vocês são estranhos... - E deu uma gargalhada - Bem, o chapéu sempre pode ficar como uma desculpa para eu voltar aqui, percebes?
Piscou-me o olho e virou costas... À medida que ia em direcção à porta, desvanecia-se, como se fosse fumo...
Chamei-o, tinha tantas coisas, agora, para perguntar... Corri em direcção à porta, mas já não o vi... Voltei à minha cadeira e lá estava ele, a sorrir.
- Chamaste?
- Sim... Eu... - Fiquei calado, sem saber o que dizer...
- Então?
- O que faço? Quer dizer, como faço? - perguntei gaguejando, sem saber dar sentido e palavras aos pensamentos que me povoavam a mente...
- Olha amigo, onde fores leva esse chapéu contigo, eu estarei perto, sempre, não tenhas medo...
- Mas onde hei-de eu ir?
- Onde quiseres, não é maravilhoso?
- Mas onde... - perguntei com uma lágrima de desespero...
- Onde a vida te levar... Onde fores leva-te a ti mesmo, em pleno, algo há-se surgir e, nessa busca, não te esqueças que estás já no caminho que procuras... Fala e escreve sobre isto, sobre amar, mas sobretudo sê mais do que isso, sê mais do que falar... Age com a confiança de onde quer que estejas eu estarei por lá, abre os olhos e os ouvidos quando alguém falar, tens sempre muito a aprender com todas as pessoas que se cruzam contigo...
- Mas eu nem sei onde ir... O que falar... O que fazer...
- Não te preocupes... O que tiveres que ouvir ser-te-á dito tanto pelo homem do talho, como por um médico, tanto por um trolha, como por um engenheiro, tens é que estar atento... Já perguntaste tudo?
- Acho que sim... - mas pensei para mim mesmo "sei que tenho tanto para perguntar, tanto para dizer..."
- Sim, eu sei dessas dúvidas... Mas elas são o motor para a procura, para o conhecimento e são, também, uma forma de tu te perderes em ti mesmo, deixa isso, em vez de te preocupares com isso, preocupa-te em olhar à volta e aferir "o que poderei eu fazer aqui para melhorar isto?". Preocupa-te em deixar todos os locais onde passes melhores do que estavam quando chegaste...
Ficou a olhar para mim, a sorrir... Piscou-me o olho e disse:
- Tenho que ir...
Levantou-se, sem dizer mais nada, deu-me um abraço e foi embora... Peguei no chapéu dele e guardei-o no bolso, a sorrir...
Olho para o meu lado direito e assusto-me, entra uma criança, muito jovem, talvez 9 anos, e fica a olhar para mim, com olhos traquinas, sorriso de esguelha e pequenino, com a mão direita apoiada na porta, chapéu vermelho, típico de lavrador, camisola de malha amarela e um nome bordado a linha vermelha: "Sonho"... Sonho... Que raio de nome... As calças parecem feitas de um tecido similar à serapilheira e os pés tinham umas botas toscas, velhas, nas quais adivinho um buraco na sola... Nas costas trazia uma sacola, espécie de pasta, parecia feita de couro, "muito" castanha, sem fivelas a apertar, tinha apenas um arame grosso e meio ferrugento...
Tirou a mão da porta e foi andando até se sentar a meu lado, na cadeira vazia. Enquanto se aproximava, deu para ver os olhos, cor de sonho.
É pequeno, mesmo muito pequeno, sentado na cadeira os pés dificilmente chegam ao chão, fica a balançá-los, lentamente, com os braços apoiados nos braços da cadeira e as costas que não encostam na cadeira, porque ainda não tirou a sua sacola... Puto estranho... Por fim falou:
- Bati tanto à porta, como não abrias, entrei na mesma...
- Entraste? Como? - Tinha-me esquecido deste pormenor, como se já não fosse bastante estranho entrar alguém que não conheço em minha casa.
- Pareces burro, não sabes que atravessamos as paredes?
Reduzi-me à minha ignorância e continuei a escrever no computador... Ele ia olhando para mim e para o computador, sequencialmente... Às tantas lá falei:
- Pensei que eram ramos de árvores a bater na porta...
- Oh, e o que achas que todos nós somos?
- Não percebi...
- Todos nós somos uns galhos de árvores, ondulando por aí, tentando agarrar-nos à árvore mãe, mas há-de vir sempre um vento que nos atira para longe, ao encontro das portas... Como a tua... como eu...
Continuei sem perceber o que falava, mas por vergonha calei-me...
Cansado de me ver escrever desceu da cadeira e tirou a sacola das costas, pousou-a no chão e, depois, sem eu esperar, sentou-se no chão, encostado à minha perna direita, pôs as mãos sobre os meus joelhos e pousou a sua cabeça sobre as mãos... Suspirou fundo... E pareceu ficar ali a dormir, meio perdido nos seus pensamentos de criança...
Parei de escrever, tirei-lhe o chapéu e afaguei-lhe o cabelo... Era sujo e grosso e cheirava ao típico fumeiro...
Sem levantar a cabeça, falou, num tom de voz mais adulto, pausado e muito calmo:
- Esqueceram-se de mim...
- De ti? Quem? - Tinha a cabeça a "1000", nada fazia sentido...
- De mim e de todos os outros como eu... Os que cá estiveram e os que estão para vir...
Parou... Parecia cansado, não fosse eu vê-lo criança e pensaria ser um idoso que me falava...
- Esqueceram-se de nós... Os como eu, que parti e os que lá ficaram, por aí, perdidos, espalhados pelos montes...
Parou novamente... Não só parecia, estava de facto cansadíssimo...
- Fico triste pelos que ficam, sozinhos... Somos cada vez menos naquilo que poderia ser um paraíso... Condensam-se cada vez mais em grandes aglomerados, em jaulas de sentimentos e emoções, não sentem isto – e apontou para a janela, que tinha sido atingida por mais um ramo. Curioso, a fala dele era sincronizada com o vento, com a Natureza - vivem imersos num mundo pequeno, mesquinho, que é a sua própria sepultura...
Parou novamente... Eu estava atónito, olhava para longe, vendo as nuvens escuras e as copas dos eucaliptos em frente, que bailavam ao sabor do vento forte...
- Os sítios onde vivem estão apinhados de gente densa, forte, que materializam o que pensam... "Cada vez está pior"... "Isto deve ser o fim"... - abanou a cabeça um pouco, negativamente - Como é triste ver tudo isto, rapaz...
Ter-me chamado rapaz, com um tom de voz tão familiar, arrancou-me ao meu devaneio... Prestei mais atenção ao que falava...
- Sabes... Bem, sabes... Nós somos o que fazemos de nós mesmos... Tens medo? Vais encontrar situações em que terás medo... És optimista? Então, as situações, fruto do teu esforço, serão recompensadoras... És optimista parvo? - Esta assustou-me... - Então serás apenas uma pedra perdida por aí, sem fazeres nada... És pessimista? Então castras toda e qualquer hipótese de eu ou outros te ajudarem no que sonhas... E acredita, tal como eu, há tantos por aí... Vão trabalhando convosco, para vocês, para todos, porque é assim o rumo natural das coisas, mesmo que vocês insistam em continuar assim, fechados, cegos, mascarados em frente ao vosso espelho...
Suspirou fundo, pesado...
- Falta-vos um objectivo maior, que não é o sobe e desce da bolsa de valores, ou o chegar do final do mês para receber e pagar as prestações de todas as coisas que não precisas, que te fazem sentir vazio... Não me interpretes mal, essas coisas são necessárias, boas até, mas dentro de uma hierarquia de necessidades e prioridades... Mesmo tu, que ainda te preocupas minimamente, confundiste o meu bater na porta com um galho ou um ramo ou qualquer outra coisa, que não te arrancava às tuas próprias sombras... Se te batem à porta, abre! Se te chamam, pára um pouco e olha para trás, vê quem é...
Levantou-se do chão, tirou a sacola da cadeira, pousou-a ao lado e sentou-se... Encostou a cabeça para trás, na cadeira, fechou os olhos e sorriu...
- Achas estranho?
Eu nem respondi... Estranho... Sei lá... Estava apenas a ouvir, sem julgar...
- Sim, é uma boa atitude, não julgues... - Fiquei surpreendido, parecia que me tinha ouvido os pensamentos...
- Sim, leio os teus... Aliás, não os leio, quando pensas liberta-os para o ambiente sobre a forma de energia, a tua energia, a tua assinatura... Estás a ver a importância que vocês têm? Onde estejas, tudo o que pensares, ficará lá, como uma assinatura... E tu, que queres fazer? Queres andar por aí, pensando e agindo com responsabilidade, com amizade, com amor? Ou preferes vaguear, perdido em ti mesmo, perdendo a paisagem e, quem sabe, a oportunidade de amar, de ser amado, de ajudar, de ser ajudado?
Abriu os olhos, pousou os cotovelos nas pernas, inclinando-se para a frente, olhou-me e sorriu.
- Quando te perderes nos teus pensamentos, quando fores preso nesta onda de pessimismo, de tristeza e drama, pergunta-te a quem interessará tudo isto? A ti? Não percas tempo com dramas, amortiza o impacto negativo das coisas, sê responsável pelo que pensas, pelo que transmites... Não te esqueças, o que pensas concretiza-se... Vê os teus sonhos, se sonhas, se vives no sonho, tudo isso ficará no mundo dos sonhos... Se sonhas com um mundo melhor, esse mundo melhor será apenas o teu sonho... Sê a mudança que queres ver, age de acordo com os teus ideais mais profundos, sempre com agilidade suficiente para veres quando estás errado e quando podes aprender algo mais... Vocês são curiosos, estranhos, uma raça interessante... São tão dicotómicos, de extremos, sem saberem viver no meio termo, dançando sobre essa ténue linha que divide o cristalizado e o mole demais... Ou são optimistas exagerados, inconsequentes, ou são pessimistas rabugentos, velhos trapos que conspiram contra vocês mesmos...
Abanou um pouco a cabeça e ficou a olhar para o chão.
- De que têm vocês medo? Para quê o medo? O medo é útil, como aviso, como incentivo para vocês melhorarem e prepararem-se bem para uma ou outra situação, mas nada mais do que isso... Esse medo é parecido comigo, aparece assim, sem contarem, apenas atraído pelos vossos pensamentos... E tal como o medo, muitos outros, que têm medo de ser felizes, de crescer em todos os sentidos, surgem e apegam-se a vocês, sentam-se a vosso lado e pensam convosco, às vezes por vocês mesmos... Mas se vocês já os percebem, os sentem, não reajam com repugno, não se fechem em vocês mesmos, pelo contrário, abram o vosso coração, os vossos sentimentos, os vossos pensamentos, para eles, para por uma vez na vida que seja, sintam que alguém os ama, incondicionalmente, que possam sentir e discernir, que possam seguir ou dividir, mas não fiquem parciais... Também não fiquem presos a isso, só têm que dar o vosso melhor e isso é muito fácil, não custa rigorosamente nada, excepto abrir mão do vosso ego, de vós mesmos... Não sejam alimento deles, não continuem a insistir, isso apenas gerará dependência...
Pousou as mãos nos braços da cadeira e ergueu-se... Deitou-me um olhar de amizade profunda que me comoveu. Baixou-se, apanhou a sacola e colocou-a às costas, dando um pequeno salto para a ajustar melhor e, de seguida, puxou a camisola para baixo, esticando-a. Meteu as mãos nos bolsos.
- Já vais?
- Sim... Está a chegar o vento que me leva para onde tenho que ir...
- Para onde vais?
- Tu sabes, eu e muitos outros que querem vir, vamos para onde tens tentado ir...
- Não, não sei para onde tenho tentado ir...
- Sabes sim, mas apenas tens sonhado com isso, passa à acção...
- À acção?
- Sim, à acção, sem agires, sê o que queres ser, mesmo que isso não se veja, mesmo que isso não venha no "jornal"... Se te libertares do ego, os resultados serão maiores, em maior escala... Há tanto por aí por descobrir e se poderem descobrir isso ao mesmo tempo que se descobrem a vocês mesmos... Hum, seria maravilhoso!
Disse isto, nada mais, ficou um pouco parado a olhar para mim e a sorrir...
- E o teu chapéu? Não o levas? - perguntei.
- Não, fica contigo, como recordação...
- Pois, recordação de alguém que nem sei se existe... Se é fruto da minha imaginação...
- E para que precisas tu de comprovação? Não tem piada assim?
- Não!
- Tem sim... Durante tanto tempo estiveram habituados a que pensassem por vocês, que decidissem por vocês que, agora, simplesmente, têm medo de decidir sozinhos, de viver sonhos... como disse, vocês são estranhos... - E deu uma gargalhada - Bem, o chapéu sempre pode ficar como uma desculpa para eu voltar aqui, percebes?
Piscou-me o olho e virou costas... À medida que ia em direcção à porta, desvanecia-se, como se fosse fumo...
Chamei-o, tinha tantas coisas, agora, para perguntar... Corri em direcção à porta, mas já não o vi... Voltei à minha cadeira e lá estava ele, a sorrir.
- Chamaste?
- Sim... Eu... - Fiquei calado, sem saber o que dizer...
- Então?
- O que faço? Quer dizer, como faço? - perguntei gaguejando, sem saber dar sentido e palavras aos pensamentos que me povoavam a mente...
- Olha amigo, onde fores leva esse chapéu contigo, eu estarei perto, sempre, não tenhas medo...
- Mas onde hei-de eu ir?
- Onde quiseres, não é maravilhoso?
- Mas onde... - perguntei com uma lágrima de desespero...
- Onde a vida te levar... Onde fores leva-te a ti mesmo, em pleno, algo há-se surgir e, nessa busca, não te esqueças que estás já no caminho que procuras... Fala e escreve sobre isto, sobre amar, mas sobretudo sê mais do que isso, sê mais do que falar... Age com a confiança de onde quer que estejas eu estarei por lá, abre os olhos e os ouvidos quando alguém falar, tens sempre muito a aprender com todas as pessoas que se cruzam contigo...
- Mas eu nem sei onde ir... O que falar... O que fazer...
- Não te preocupes... O que tiveres que ouvir ser-te-á dito tanto pelo homem do talho, como por um médico, tanto por um trolha, como por um engenheiro, tens é que estar atento... Já perguntaste tudo?
- Acho que sim... - mas pensei para mim mesmo "sei que tenho tanto para perguntar, tanto para dizer..."
- Sim, eu sei dessas dúvidas... Mas elas são o motor para a procura, para o conhecimento e são, também, uma forma de tu te perderes em ti mesmo, deixa isso, em vez de te preocupares com isso, preocupa-te em olhar à volta e aferir "o que poderei eu fazer aqui para melhorar isto?". Preocupa-te em deixar todos os locais onde passes melhores do que estavam quando chegaste...
Ficou a olhar para mim, a sorrir... Piscou-me o olho e disse:
- Tenho que ir...
Levantou-se, sem dizer mais nada, deu-me um abraço e foi embora... Peguei no chapéu dele e guardei-o no bolso, a sorrir...
2005-10-26
O puto do Pai Natal...
Reparei nele ainda não tinha estacionado o carro...
O parque de estacionamento estava quase vazio, coisa normal para um dia de semana, início de tarde e perto do final do mês... Uma carrinha recolhia o dinheiro da caixa multibanco e foi quando o vi, a saltar de um lado para o outro.
Tinha cabelo louro, idade a aparentar 12 anos, nariz ranhoso, cara suja, uma camisola azul clara que lhe realçava os olhos igualmente azuis, calças de ganga cor "azul muito gasto e badalhoco".. A minha reacção, à medida que ia buscar o carrinho de compras, foi de alheamento, "se fizer de conta que não estou aqui" (com o meu 1,90 mt é fácil) ele não me pede moeda. Mas ele, com aquele olhar traquina, soube de antemão que de mim não levava nada e nem me abordou... Entrei no Lidl e andei por lá às compras (como é possível ser tão barato... hum... a qualidade dos produtos não deve ser a mesma de outros locais...), não resiste e parei na secção dos chocolates, recolhendo um... Na caixa vi que uma senhora lhe tinha dado a moeda do carrinho de compras. Paguei e saí do Lidl no exacto momento em que o puto entrava...
Coloquei as poucas compras na mala do carro e quando fui levar o carrinho de compras ao local, lá estava o puto, sentado no chão, agarrado a um Pai Natal de chocolate, com as duas mãos, a mordiscar levemente a cabeça, com os olhos fechados, saboreando cada bocadinho do seu Pai Natal... Ele estava ali, de olhos fechados, enquanto eu tirava a moeda do carrinho de compras... Tirei a moeda devagar e fiz questão de fazer algum barulho, "se ele olhar para mim dou-lhe a moeda"... Mas naquele momento, tive a certeza de o ouvir pensar, enquanto mordia mais um pouco do Pai Natal, "se fizer de conta que não estou aqui ele não me dá a estúpida da moeda"...
Pois, 3500 escolas que vão fechar... Progresso tecnológico... Défice orçamental... Educação... Dentro desta sociedade há muitos outras sociedadezinhas...
O parque de estacionamento estava quase vazio, coisa normal para um dia de semana, início de tarde e perto do final do mês... Uma carrinha recolhia o dinheiro da caixa multibanco e foi quando o vi, a saltar de um lado para o outro.
Tinha cabelo louro, idade a aparentar 12 anos, nariz ranhoso, cara suja, uma camisola azul clara que lhe realçava os olhos igualmente azuis, calças de ganga cor "azul muito gasto e badalhoco".. A minha reacção, à medida que ia buscar o carrinho de compras, foi de alheamento, "se fizer de conta que não estou aqui" (com o meu 1,90 mt é fácil) ele não me pede moeda. Mas ele, com aquele olhar traquina, soube de antemão que de mim não levava nada e nem me abordou... Entrei no Lidl e andei por lá às compras (como é possível ser tão barato... hum... a qualidade dos produtos não deve ser a mesma de outros locais...), não resiste e parei na secção dos chocolates, recolhendo um... Na caixa vi que uma senhora lhe tinha dado a moeda do carrinho de compras. Paguei e saí do Lidl no exacto momento em que o puto entrava...
Coloquei as poucas compras na mala do carro e quando fui levar o carrinho de compras ao local, lá estava o puto, sentado no chão, agarrado a um Pai Natal de chocolate, com as duas mãos, a mordiscar levemente a cabeça, com os olhos fechados, saboreando cada bocadinho do seu Pai Natal... Ele estava ali, de olhos fechados, enquanto eu tirava a moeda do carrinho de compras... Tirei a moeda devagar e fiz questão de fazer algum barulho, "se ele olhar para mim dou-lhe a moeda"... Mas naquele momento, tive a certeza de o ouvir pensar, enquanto mordia mais um pouco do Pai Natal, "se fizer de conta que não estou aqui ele não me dá a estúpida da moeda"...
Pois, 3500 escolas que vão fechar... Progresso tecnológico... Défice orçamental... Educação... Dentro desta sociedade há muitos outras sociedadezinhas...
2005-10-25
Carlos Drumond de Andrade
"A cada dia que vivo,
mais me convenço que o desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que esquivando-se do sofrimento
perdemos também a nossa felicidade."
(Carlos Drummond de Andrade)
2005-10-23
Estrias na alma
Quando me ouram os sentidos
já eu não sou eu,
solto um pouco de calor
e demência,
pouco de algo
e muito de perdido...
Vários são os vultos
que me estriam a alma,
mordazmente,
na voz e olhar de outros
me atiçam um lume gélido,
que destrói e não mata...
Rodopio em mim,
sobre um caderno de memórias
e uma caneta partida,
vestida de tinta,
quebrada e não partida.
Agora,
antes que meus olhos esqueçam as trevas,
eu salto em frente à vida
parando-a,
afagando-a,
e firmemente atiro:
"sei que querias, mas não a levas!"
já eu não sou eu,
solto um pouco de calor
e demência,
pouco de algo
e muito de perdido...
Vários são os vultos
que me estriam a alma,
mordazmente,
na voz e olhar de outros
me atiçam um lume gélido,
que destrói e não mata...
Rodopio em mim,
sobre um caderno de memórias
e uma caneta partida,
vestida de tinta,
quebrada e não partida.
Agora,
antes que meus olhos esqueçam as trevas,
eu salto em frente à vida
parando-a,
afagando-a,
e firmemente atiro:
"sei que querias, mas não a levas!"
2005-10-21
Enquanto a vida te rodeia
Quantos anos caíram,
enquanto dormia pela vida
ultrapassando tempos,
aniquilando
quem de mim bebia,
quantos seriam?
O calor na face
rosada,
da cor do mel
quando de mim se ultrapasse
e, por fim, cansada
de respirar
se deixe esmaecer
no fino gume desta folha
que se faz papel...
Cavalgam pelos anos
descansando quando de si escolhe a vida,
caída,
pendente dos secos ramos
frágeis, canos de gente
que respira,
ou fustiga,
quando o bafo quente da garra
o prende
à força
do mar conta as ondas
em algazarra.
A vida escreve-se
em suores perdidos,
em corpos acometidos pelas convulsões
de viver, aos poucos,
presos a ilusões
e medos...
E são estes
os tão horrendos segredos?
Enquanto rodas sobre ti,
dormindo na cama receosa,
um mundo invisível que tu respiras
dá lugar ao som,
beija à Lua a mão
que cora e sorri.
A compaixão fugaz,
o gesto solene que de ti nada faz,
a escrita ténue, quase só,
que ainda persiste
enquanto descanso...
Tu não és,
apenas rodas sobre ti
quando a vida te fita nos olhos e sorri...
enquanto dormia pela vida
ultrapassando tempos,
aniquilando
quem de mim bebia,
quantos seriam?
O calor na face
rosada,
da cor do mel
quando de mim se ultrapasse
e, por fim, cansada
de respirar
se deixe esmaecer
no fino gume desta folha
que se faz papel...
Cavalgam pelos anos
descansando quando de si escolhe a vida,
caída,
pendente dos secos ramos
frágeis, canos de gente
que respira,
ou fustiga,
quando o bafo quente da garra
o prende
à força
do mar conta as ondas
em algazarra.
A vida escreve-se
em suores perdidos,
em corpos acometidos pelas convulsões
de viver, aos poucos,
presos a ilusões
e medos...
E são estes
os tão horrendos segredos?
Enquanto rodas sobre ti,
dormindo na cama receosa,
um mundo invisível que tu respiras
dá lugar ao som,
beija à Lua a mão
que cora e sorri.
A compaixão fugaz,
o gesto solene que de ti nada faz,
a escrita ténue, quase só,
que ainda persiste
enquanto descanso...
Tu não és,
apenas rodas sobre ti
quando a vida te fita nos olhos e sorri...
Quando não eram pequenos
Eram pequenos,
sorriam por entre as gotas do orvalho
e, também, acenava
quando eu passava pela sombra dos carvalho...
Na mochila pendia um sonho,
caíam de si
para o mundo,
um vazio que é ser
e não estar,
estar e não esmaecer...
sorriam por entre as gotas do orvalho
e, também, acenava
quando eu passava pela sombra dos carvalho...
Na mochila pendia um sonho,
caíam de si
para o mundo,
um vazio que é ser
e não estar,
estar e não esmaecer...
Código de ética dos índios Norte-Americanos
- Levanta-te com o Sol para orar. Ora sozinho. Ora com frequência. O Grande Espírito escutar-te-á, se ao menos falares.
- Sê tolerante com aqueles que estão perdidos no caminho. A ignorância, o convencimento, a raiva, o ciúme e a avareza, originam-se de uma alma perdida. Ora para que eles encontrem o caminho do Grande Espírito.
- Procura conhecer-te por ti próprio. Não permitas que outros façam o teu caminho por ti. É a tua estrada e somente tua. Outros podem andar ao teu lado, mas ninguém pode andar por ti.
- Trata os convidados no teu lar com muita consideração. Serve-lhes o melhor alimento, a melhor cama e trata-os com respeito e honra.
- Não tomes o que não é teu. Seja de uma pessoa, da comunidade, da natureza, ou da cultura. Se não foi ganho nem foi dado, não é teu.
- Respeita todas as coisas que foram colocadas sobre a Terra. Sejam elas pessoas, plantas ou animais.
- Respeita os pensamentos, desejos e palavras das pessoas. Nunca interrompas os outros nem ridicularizas, nem rudemente os imites. Permite a cada pessoa o direito da expressão pessoal.
- Nunca fales dos outros de uma maneira má. A energia negativa que colocares para fora no universo, voltará multiplicada para ti.
- Todas as pessoas cometem erros. E todos os erros podem ser perdoados.
- Pensamentos maus causam doenças da mente, do corpo e do espírito. Pratica o optimismo.
- A natureza não é para nós, ela é uma parte de nós. Toda a natureza faz parte da nossa família Terrestre.
- As crianças são as sementes do nosso futuro. Planta amor nos seus corações e rega-as com sabedoria e lições da vida. Quando forem crescidos, dá-lhes espaço para que cresçam.
- Evita magoar os corações das pessoas. O veneno da dor causada a outros, retornará a ti.
- Sê sincero e verdadeiro em todas as situações. A honestidade é o grande teste para a nossa herança do universo.
- Mantem-tse equilibrado. O teu Mental, Espiritual, Emocional e Físico, todos necessitam ser fortes, puros e saudáveis. Trabalha o teu Físico para fortalecer o teu Mental. Enriquece o teu Espiritual para curar o teu Emocional.
- Toma decisões conscientes de como serás e como reagirás. Sê responsável pelas tuas próprias acções.
- Respeita a privacidade e o espaço pessoal dos outros. Não toques nas propriedades pessoais de outras pessoas, especialmente objectos religiosos e sagrados. Isso é proibido.
- Comeca por ser verdadeiro contigo mesmo. Se não puderes nutrir e ajudar a ti mesmo, não poderás nutrir e ajudar os outros.
- Respeita outras crenças religiosas. Não forces as tuas crenças aos outros.
- Compartilha a tua boa sorte com os outros. Participa com caridade.
(Fonte Desconhecida)
2005-10-20
Oração Celta
Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalante ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a musica seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas da tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que nos teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente no teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele amor que não se explica, só se sente. Que esse amor seja o teu acalanto secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a musica seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas da tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que nos teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente no teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele amor que não se explica, só se sente. Que esse amor seja o teu acalanto secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!
2005-10-17
Passadeira dos sorrisos
O tempo chuvoso arrasta consigo muitos e muitos sorrisos... A maior parte das vezes só é necessário saber onde procurar, saber puxá-los às tenebrosas sombras que envolvem as pessoas... E eles estão logo ali, ao virar de cada esquina, na pessoa que espera, à chuva, uma oportunidade para atravessar a estrada, com chinelos (daqueles negros, que se compravam na feira, típico das mulheres do campo), os pés molhados, olhos semicerrados devido à chuva que fustiga, que magoa. Páro o carro, levanto a mão esquerda fazendo sinal para a senhora passar e eis um sorriso! Um sorriso que rompe o negro dos pensamentos perdidos... E mais à frente, outro sorriso e outro e outro! Estão lá, à espera que eu passe por eles e os convide a bailar nos meus olhos...
Por vezes páro para alguém passar, mas apenas depois compreendo que é um vulto, que não me vê, que não se vê, e sigo viagem...
Os putos correm e fogem da chuva, abrigam-se uns aos outros, com pesos de conhecimento às costas, com sorrisos matreiros às meninas que passam, encolhidas, umas contra as outras, sob o mesmo guarda-chuva...
Um ou outro carrinho passa guiando mais uma ou outra pessoa apanhada no consumo do supérfluo, fugindo à chuva...
O meu vidro começa a ficar embaciado, abro um pouco o vidro... Estas bolas ou lá o que são teimam em correr à minha frente, por vezes fortes, tão fortes que me fazem ferir os olhos.
A estrada deixa salpicar a água, salta para os lados à medida que as rodas a calcam e calam, num silêncio abafado... Outros carros cruzam-se comigo e levam dentro caras fechadas e sisudas...
Um trovão faz-me voltar à realidade, à vossa realidade e antes que as palavras fujam para a companhia dos sorrisos, eu escrevo-as aqui...
Por vezes páro para alguém passar, mas apenas depois compreendo que é um vulto, que não me vê, que não se vê, e sigo viagem...
Os putos correm e fogem da chuva, abrigam-se uns aos outros, com pesos de conhecimento às costas, com sorrisos matreiros às meninas que passam, encolhidas, umas contra as outras, sob o mesmo guarda-chuva...
Um ou outro carrinho passa guiando mais uma ou outra pessoa apanhada no consumo do supérfluo, fugindo à chuva...
O meu vidro começa a ficar embaciado, abro um pouco o vidro... Estas bolas ou lá o que são teimam em correr à minha frente, por vezes fortes, tão fortes que me fazem ferir os olhos.
A estrada deixa salpicar a água, salta para os lados à medida que as rodas a calcam e calam, num silêncio abafado... Outros carros cruzam-se comigo e levam dentro caras fechadas e sisudas...
Um trovão faz-me voltar à realidade, à vossa realidade e antes que as palavras fujam para a companhia dos sorrisos, eu escrevo-as aqui...
2005-10-12
Pensador russo
Tese de um pensador russo que, no início do século passado, já falava em auto-conhecimento e na importância de se saber viver.
Dizia ele: "Uma boa vida tem como base o sentido do que queremos para nós em cada momento e daquilo que, realmente, vale como principal."
Assim sendo, ele traçou 20 regras de vida que foram colocadas em destaque no Instituto Francês de Ansiedade e Stress, em Paris.
Dizem os "experts" em comportamento que quem já consegue assimilar 10 delas, com certeza aprendeu a viver com qualidade interna. Ei-las:
1. Faz pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repete essas pausas na vida diária e pensa em ti, analisando as tuas atitudes.
1. Faz pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repete essas pausas na vida diária e pensa em ti, analisando as tuas atitudes.
2. Aprende a dizer não sem te sentires culpado ou achares que magoaste. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.
3. Planeia o teu dia, sim, mas deixa sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de ti.
4. Concentra-te apenas numa tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os teus quadros mentais, exaures-te.
5. Esquece, de uma vez por todas, que és imprescindível. No trabalho, casa, no grupo habitual. Por mais que isso te desagrade, tudo anda sem a tua actuação, a não ser tu mesmo.
6. Abre mão de seres o responsável pelo prazer de todos. Não és a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimónias.
7. Pede ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.
8. Diferencia problemas reais de problemas imaginários e elimina-os porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.
9. Tenta descobrir o prazer de factos quotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem também achar que é o máximo a conseguir na vida.
10. Evita envolveres-te na ansiedade e tensão alheias enquanto ansiedade e tensão. Espera um pouco e depois retoma o diálogo, a acção.
12. Entende que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trave do movimento e da busca.
13. É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente, pelo menos num raio de cem quilómetros. Não adianta estar mais longe.
14. Sabe a hora certa de sair de cena, de te retirares do palco, de deixar a roda. Nunca percas o sentido da importância subtil de uma saída discreta.
15. Não queiras saber se falaram mal de ti e nem te atormentes com esse lixo mental; escuta o que falaram bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.
16. Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é óptimo ... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.
18. Uma hora de intenso prazer substitui sobejamente 3 horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não percas uma oportunidade de te divertires.
19.Não abandones as tuas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé!
20. E entende, de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: tu és o que te fizeres ser!
2005-10-03
Pela manhã
Eu estava em pé, ao balcão, rindo-me baixinho dos velhos que jogavam damas, em torneios mais que a honra, de vontade de viver.
Pelo canto do olho vi-o chegar, a bicicleta maior que ele, que o obrigou a parar junto do passeio, encostar a bicicleta e pousar um pé (o direito), alçando a perna para trás, por cima do assento, e ficar em pé, meio ofegante, meio ausente.
Segui-lhe os passos, entrou no café descendo os dois degraus, com um olhar mais ausente ainda.
Andava como se o ar que respirasse fosse diferente de quanto em cima da bicicleta, na sua nave.
Ao chegar ao balcão tirou a carteira, abriu-a (o som do velcro fez-me arrepiar) e ficou à espera que o atendessem.
Era a Maria, a revista, que queria, e pagou-a com uma moeda que não vi.
O olhar quase nunca saiu do chão, mesmo para receber o troco.
O chapéu tapava-lhe o cabelo claro, sujo, espesso, que caía sobre os ombros, numa camisola gasta e suja e esta morria nas calças de ganga, russas, gastas e sujas também.
O olhar era claro, verde, e a cara familiar, piramidalmente invertida, com olhos salientes, muito abertos, perdidos, raiados pelo ar desconhecido que o envolvia.
O nariz era pequeno, fino, e um pouco elevado.
A testa grande e saliente também.
As maçãs do rosto elevados eram bem características, assim como a ausência de bochechas (não sei o que chamar ou como dizer, esta foi a descrição que consegui arranjar), uma boca pequena, quase sem lábios e um queijo pontiagudo e nada saliente.
Por momentos olhou para mim, talvez sentisse que eu o observava, quando o seu olhar cruzou com o meu senti-o, vago, distante, estrangeiro, numa viagem longínqua.
Durou poucos segundos, o suficiente para o trazer comigo.
Ele virou costas, dobrou duas ou três vezes a revista, procurando a melhor maneira de a guardar no bolso, de forma à mesma não cair quando se sentasse na bicicleta, na sua nave.
Arrancou e eu voltei ao meu jornal.
Curioso, espreitei pela janela para o ver afastar e, lentamente, apenas a meus olhos, levantar e desaparecer por entre as poucas nuvens que existem pela manhã.
Pelo canto do olho vi-o chegar, a bicicleta maior que ele, que o obrigou a parar junto do passeio, encostar a bicicleta e pousar um pé (o direito), alçando a perna para trás, por cima do assento, e ficar em pé, meio ofegante, meio ausente.
Segui-lhe os passos, entrou no café descendo os dois degraus, com um olhar mais ausente ainda.
Andava como se o ar que respirasse fosse diferente de quanto em cima da bicicleta, na sua nave.
Ao chegar ao balcão tirou a carteira, abriu-a (o som do velcro fez-me arrepiar) e ficou à espera que o atendessem.
Era a Maria, a revista, que queria, e pagou-a com uma moeda que não vi.
O olhar quase nunca saiu do chão, mesmo para receber o troco.
O chapéu tapava-lhe o cabelo claro, sujo, espesso, que caía sobre os ombros, numa camisola gasta e suja e esta morria nas calças de ganga, russas, gastas e sujas também.
O olhar era claro, verde, e a cara familiar, piramidalmente invertida, com olhos salientes, muito abertos, perdidos, raiados pelo ar desconhecido que o envolvia.
O nariz era pequeno, fino, e um pouco elevado.
A testa grande e saliente também.
As maçãs do rosto elevados eram bem características, assim como a ausência de bochechas (não sei o que chamar ou como dizer, esta foi a descrição que consegui arranjar), uma boca pequena, quase sem lábios e um queijo pontiagudo e nada saliente.
Por momentos olhou para mim, talvez sentisse que eu o observava, quando o seu olhar cruzou com o meu senti-o, vago, distante, estrangeiro, numa viagem longínqua.
Durou poucos segundos, o suficiente para o trazer comigo.
Ele virou costas, dobrou duas ou três vezes a revista, procurando a melhor maneira de a guardar no bolso, de forma à mesma não cair quando se sentasse na bicicleta, na sua nave.
Arrancou e eu voltei ao meu jornal.
Curioso, espreitei pela janela para o ver afastar e, lentamente, apenas a meus olhos, levantar e desaparecer por entre as poucas nuvens que existem pela manhã.
2005-09-22
Do que voltou
Deixei que a noite lhe cravasse as garras,
o impugnasse secretamente
ao som de um carrossel abandonado,
um café borbulhante
que suga estas penetrantes amaras…
Despedi-me dele,
infinitamente,
após o espelho me avisar
da triste figura que ostentava
solenemente…
O olhar raiada era triste,
desamparado pelos sorrisos,
de longínquos amigos,
agarrados apenas à noite
que abraçou o dia,
para não morrer quando este fosse,
pela última vez,
nascer…
Quantas rugas
e histórias,
lágrimas e memórias,
em tons de cinzento
e violeta,
em sons
de uma baioneta
rombuda e gasta,
que se despede:
“hasta!”
A corja voltou,
descendo dos céus inferiores
em urros sujos e delatores,
em frondes altaneiras
da ebriedade
que voltou…
Gasta-o vida
aos olhos do sorriso que partiu,
o corpo que o sustenta
e alimenta,
pede à alma que o atiça
e aos soluços do parto,
que o acaricie
e dignifique,
que o esquarteje
e mortifique…
Oh noite,
esses teus amigos inquietos
são filhos de quem?
Do luar que o Sol te dá
ou destes cavaleiros
que o dia sustém?
o impugnasse secretamente
ao som de um carrossel abandonado,
um café borbulhante
que suga estas penetrantes amaras…
Despedi-me dele,
infinitamente,
após o espelho me avisar
da triste figura que ostentava
solenemente…
O olhar raiada era triste,
desamparado pelos sorrisos,
de longínquos amigos,
agarrados apenas à noite
que abraçou o dia,
para não morrer quando este fosse,
pela última vez,
nascer…
Quantas rugas
e histórias,
lágrimas e memórias,
em tons de cinzento
e violeta,
em sons
de uma baioneta
rombuda e gasta,
que se despede:
“hasta!”
A corja voltou,
descendo dos céus inferiores
em urros sujos e delatores,
em frondes altaneiras
da ebriedade
que voltou…
Gasta-o vida
aos olhos do sorriso que partiu,
o corpo que o sustenta
e alimenta,
pede à alma que o atiça
e aos soluços do parto,
que o acaricie
e dignifique,
que o esquarteje
e mortifique…
Oh noite,
esses teus amigos inquietos
são filhos de quem?
Do luar que o Sol te dá
ou destes cavaleiros
que o dia sustém?
2005-09-19
O facto do nada
Isto não é poesia,
de facto não é nada
que minhas mãos possam tecer…
É uma dor fininha
que cala o silêncio,
transmuta a ilusão
em folhas negras de jornal,
isto não é o bem
nem tão pouco o mal…
As rugas na caneta
que escreve o destino,
em longo traço fino,
são pedras e sombras
molhadas,
fruto do ventre podre
de turvas águas passadas…
Mesmo o cerrar dos olhos
na claridade artificial,
ou na noite, é tudo igual,
não traz por si os sonhos,
mas sim fantasmas
enormes
irreais,
medonhos…
de facto não é nada
que minhas mãos possam tecer…
É uma dor fininha
que cala o silêncio,
transmuta a ilusão
em folhas negras de jornal,
isto não é o bem
nem tão pouco o mal…
As rugas na caneta
que escreve o destino,
em longo traço fino,
são pedras e sombras
molhadas,
fruto do ventre podre
de turvas águas passadas…
Mesmo o cerrar dos olhos
na claridade artificial,
ou na noite, é tudo igual,
não traz por si os sonhos,
mas sim fantasmas
enormes
irreais,
medonhos…
2005-09-18
Ser onde não estar...
Soltaram-se, na calada da noite,
os espinhos que soluçam
e me pertencem
sem serem meus...
Estão
e não são...
O vento que me trouxe
ao encontro de ti,
caneta,
é o mesmo que deambula
como um açoite,
que baila no luar
nascente da noite,
das trevas do dia...
É o oceano do sorriso,
o toque morno de carne fria,
a canção que teima em morrer
nos lábios de quem,
ou alguém,
que não sabe ainda nascer...
As mesas que ornamentam,
ou alimentam,
as mãos que se unem
e aliam aos sorrisos,
valem mais que meros suspiros
das lágrimas que suam,
que caem
e esmaecem,
matizam as minhas,
que crescem...
A bela e o senão...
O peito e a mão...
São os anos que vindimam a idade
e a jogam,
como crianças,
para longe da memória
bem dentro das entranhas
da minha história...
Percorro-te,
talvez pela última vez,
encandeado pelo negro véu
que assola e entorpece a razão.
O amor e a dor
estão prostrados na minha fria mão.
Que não morram, também,
em lento torpor
e cândido ardor,
as vossas faces em mim
e os sorrisos que são, afinal,
as mais belas flores
do meu velho jardim...
Fim?
os espinhos que soluçam
e me pertencem
sem serem meus...
Estão
e não são...
O vento que me trouxe
ao encontro de ti,
caneta,
é o mesmo que deambula
como um açoite,
que baila no luar
nascente da noite,
das trevas do dia...
É o oceano do sorriso,
o toque morno de carne fria,
a canção que teima em morrer
nos lábios de quem,
ou alguém,
que não sabe ainda nascer...
As mesas que ornamentam,
ou alimentam,
as mãos que se unem
e aliam aos sorrisos,
valem mais que meros suspiros
das lágrimas que suam,
que caem
e esmaecem,
matizam as minhas,
que crescem...
A bela e o senão...
O peito e a mão...
São os anos que vindimam a idade
e a jogam,
como crianças,
para longe da memória
bem dentro das entranhas
da minha história...
Percorro-te,
talvez pela última vez,
encandeado pelo negro véu
que assola e entorpece a razão.
O amor e a dor
estão prostrados na minha fria mão.
Que não morram, também,
em lento torpor
e cândido ardor,
as vossas faces em mim
e os sorrisos que são, afinal,
as mais belas flores
do meu velho jardim...
Fim?
Um desenho da alma
Olharam
e partiram,
sem querer
que o mundo as possa ver...
São fartas
nas tuas cartas,
delirantes
em almas erradas.
Espartanas
como falsas filigranas,
doentes
como sãos dementes...
Assim são os olhares que me devoram,
que nas campânulas moram...
Tangível,
mas fugidio,
o destino vai correndo atrás de mim,
ansioso e frutuoso,
tentar encontrar-se
ainda antes do fim.
Como é amargo o soçobrar
dos meus braços,
o odor da tinta
que estupra e pinta,
que me dói
e não finda...
Inibidor,
o elogio do feitiço
cobre-me de saudade
se tenta acalmar
as chamas que atiço,
mas é brando o lume
ou orvalho,
é sereno e mortiço.
Refugia-se no aperto de mão, no olhar compreensivo
da sinceridade de um amigo,
que de frágeis
papéis
gastos, sujos, velhos e mudos,
faz de um poema
vivido,
talvez sentido,
um desenho da alma
que trago comigo.
Deitas-te agora,
sobre as palavras que gasto
sem sentido,
mas sentidas,
há um vulto que se aproxima de mim...
Fim?
e partiram,
sem querer
que o mundo as possa ver...
São fartas
nas tuas cartas,
delirantes
em almas erradas.
Espartanas
como falsas filigranas,
doentes
como sãos dementes...
Assim são os olhares que me devoram,
que nas campânulas moram...
Tangível,
mas fugidio,
o destino vai correndo atrás de mim,
ansioso e frutuoso,
tentar encontrar-se
ainda antes do fim.
Como é amargo o soçobrar
dos meus braços,
o odor da tinta
que estupra e pinta,
que me dói
e não finda...
Inibidor,
o elogio do feitiço
cobre-me de saudade
se tenta acalmar
as chamas que atiço,
mas é brando o lume
ou orvalho,
é sereno e mortiço.
Refugia-se no aperto de mão, no olhar compreensivo
da sinceridade de um amigo,
que de frágeis
papéis
gastos, sujos, velhos e mudos,
faz de um poema
vivido,
talvez sentido,
um desenho da alma
que trago comigo.
Deitas-te agora,
sobre as palavras que gasto
sem sentido,
mas sentidas,
há um vulto que se aproxima de mim...
Fim?
2005-09-14
Vivendo sucumbindo
(Há muito, muito tempo atrás... Perdi a data deste poema, mas é bonito vê-lo agora com outros olhos, sentir a energia que dela emana e pensar: "já estiveste assim"...)
Chovem a meus pés as longas tranças de força descomunal,
amputam cada membro que sustenta o tronco
como se fossem mais um sonho.
As pálpebras pesam,
quem sabe não desejarão os olhos sucumbir,
puxando para eles o manto que os cobre
e escondendo-se da imagem que o vento traz
no irreal
Não sei se inspiro
ou força o vento sua entrada no meu corpo.
A vida abandona-me
e leva para longe os telhados de xisto
prostrando no meu peito este teatro que assisto.
Desenrola-se o caminho em mim
e sulca a estrada debaixo desta matéria inerte,
mas eu quero estar parado,
permanecer calado,
ser um apêndice da vida
a quem os outros chamam sina
e esperar que o mundo se renda.
Caiam as armas defronte à apatia
elevando-se o Sol que envergonhado se pôs
fugindo da noite que a imaginação supôs.
Porque foge a paisagem quando passo?
Só em mim fica o barulho da chuva,
são gotas de algo que, indefinidamente, me abalam
e indecisas derrapam na gravidade que os atrai.
A massa disforme a que chamam corpo está inerte,
constato-o ao vê-la longe, abandonada, numa lareira
em que o tempo envolveu e acorrentou.
Restam as ervas que a cobrem como um tapete de luz
e os vermes que penetram na carne morta…
Agora que as palavras desistem de afirmar
ou pedir insoluvelmente ajuda
retorno à inebriante paisagem imaginária que me seduz.
Chovem a meus pés as longas tranças de força descomunal,
amputam cada membro que sustenta o tronco
como se fossem mais um sonho.
As pálpebras pesam,
quem sabe não desejarão os olhos sucumbir,
puxando para eles o manto que os cobre
e escondendo-se da imagem que o vento traz
no irreal
Não sei se inspiro
ou força o vento sua entrada no meu corpo.
A vida abandona-me
e leva para longe os telhados de xisto
prostrando no meu peito este teatro que assisto.
Desenrola-se o caminho em mim
e sulca a estrada debaixo desta matéria inerte,
mas eu quero estar parado,
permanecer calado,
ser um apêndice da vida
a quem os outros chamam sina
e esperar que o mundo se renda.
Caiam as armas defronte à apatia
elevando-se o Sol que envergonhado se pôs
fugindo da noite que a imaginação supôs.
Porque foge a paisagem quando passo?
Só em mim fica o barulho da chuva,
são gotas de algo que, indefinidamente, me abalam
e indecisas derrapam na gravidade que os atrai.
A massa disforme a que chamam corpo está inerte,
constato-o ao vê-la longe, abandonada, numa lareira
em que o tempo envolveu e acorrentou.
Restam as ervas que a cobrem como um tapete de luz
e os vermes que penetram na carne morta…
Agora que as palavras desistem de afirmar
ou pedir insoluvelmente ajuda
retorno à inebriante paisagem imaginária que me seduz.
Boa noite
Boa noite. Aparece sempre, a qualquer hora, a meu lado dizendo: "Boa noite!"
Já deveria estar habituado, há tantos anos. Com outras vozes e rostos, mas sempre o mesmo "Boa noite!", seja dia ou efectivamente noite.
Sorri a meu lado, faz uma cara de espanto quando ponho um ou outro poema no blog. "Uau, tanta coisa, é tudo teu?" E eu respondo que não, que são todos emprestados, que são chaves para portas que não querem ser abertas.
Hoje, neste preciso momento e disse-me: "Acabou a brincadeira rapaz, tens que escrever..."
Eu mando em mim, por enquanto, e com olhos de sono digo "talvez amanhã... hoje estou cansado..."
Já deveria estar habituado, há tantos anos. Com outras vozes e rostos, mas sempre o mesmo "Boa noite!", seja dia ou efectivamente noite.
Sorri a meu lado, faz uma cara de espanto quando ponho um ou outro poema no blog. "Uau, tanta coisa, é tudo teu?" E eu respondo que não, que são todos emprestados, que são chaves para portas que não querem ser abertas.
Hoje, neste preciso momento e disse-me: "Acabou a brincadeira rapaz, tens que escrever..."
Eu mando em mim, por enquanto, e com olhos de sono digo "talvez amanhã... hoje estou cansado..."
2005-09-13
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro
Desilude-me o cruel,
entre carumas que fintam o vento
onde passam raios de um Sol esmaecido
cai o pólen dos ecos perdidos do viver.
A luminosidade que vagueia é espontânea,
própria dos envidraçados redentores de sonhos
que lutam contra o embaciado da tua voz…
Um pássaro negro calca um ramo
e sorri antropomorficamente,
são os vasos que latejam canais
onde corre o líquido injector do sorrir,
que dedos frios estes do vulto,
que sede de carregar com uma nuvem
e fazer chover,
que ânsia de implodir omnipresentemente
e sucumbir,
morrer…
Heras,
galhos e outros tais que amam o tronco,
sobem e sugam seiva,
amam e correm vadios pelo passado.
Rodeiam-nos asas e ruídos
sons e tépidos olhares embevecidos,
são os que ondulam intemporalmente
aqueles a quem chamam mendigos.
Unanimidade em multi tons,
raças distintas do solver
em matizes que gorgolejam numa encruzilhada,
meias palavras que falam
ou cantam
o que sente a madrugada.
Quadrículas escritas a vermelho
indagando o rumo destas lousas negras com musgo,
corre a água nas caleiras
adormece-me a noite com o som das goteiras
e inebria-me o fumo que jorra dos colmos.
Se o salpicar salgado fura o ar perfumado
quem sou eu para contrariar
a serenidade que rompe o choro instigado?
entre carumas que fintam o vento
onde passam raios de um Sol esmaecido
cai o pólen dos ecos perdidos do viver.
A luminosidade que vagueia é espontânea,
própria dos envidraçados redentores de sonhos
que lutam contra o embaciado da tua voz…
Um pássaro negro calca um ramo
e sorri antropomorficamente,
são os vasos que latejam canais
onde corre o líquido injector do sorrir,
que dedos frios estes do vulto,
que sede de carregar com uma nuvem
e fazer chover,
que ânsia de implodir omnipresentemente
e sucumbir,
morrer…
Heras,
galhos e outros tais que amam o tronco,
sobem e sugam seiva,
amam e correm vadios pelo passado.
Rodeiam-nos asas e ruídos
sons e tépidos olhares embevecidos,
são os que ondulam intemporalmente
aqueles a quem chamam mendigos.
Unanimidade em multi tons,
raças distintas do solver
em matizes que gorgolejam numa encruzilhada,
meias palavras que falam
ou cantam
o que sente a madrugada.
Quadrículas escritas a vermelho
indagando o rumo destas lousas negras com musgo,
corre a água nas caleiras
adormece-me a noite com o som das goteiras
e inebria-me o fumo que jorra dos colmos.
Se o salpicar salgado fura o ar perfumado
quem sou eu para contrariar
a serenidade que rompe o choro instigado?
2005-09-08
Vielas
Caminho para um deserto,
é um pilar num ermo da existência
onde cai quem se indaga,
talvez o frio límpido da demência
libertado do fumo ardente de uma saga.
Pé ante pé,
em passos rápidos omnipresentes,
calcando um futuro no retorno do sonho,
são rastos de voos errantes
por uma multidão que não sabe o que é.
Mostra-me a porta,
será por aí que sai o tempo?
Quem tem medo do linear declive do pensamento?
As esquinas onde dobra a calçada
no granítico sujo, frio, da manhã
são locais onde não cabe o amor
que um pobre mendigo me dá…
é um pilar num ermo da existência
onde cai quem se indaga,
talvez o frio límpido da demência
libertado do fumo ardente de uma saga.
Pé ante pé,
em passos rápidos omnipresentes,
calcando um futuro no retorno do sonho,
são rastos de voos errantes
por uma multidão que não sabe o que é.
Mostra-me a porta,
será por aí que sai o tempo?
Quem tem medo do linear declive do pensamento?
As esquinas onde dobra a calçada
no granítico sujo, frio, da manhã
são locais onde não cabe o amor
que um pobre mendigo me dá…
2005-09-07
O dia seguinte
Espreito, ansioso, o dia seguinte.
A tela móvel acompanha-me na jornada
onde sou actor e realizo,
cada sequência é dejá-vu
que saboreio como se fosse o mais sublime requinte,
mas as imagens que vêm beber a água dos meus olhos
pregam-me partidas,
socam-me com sonhos futuros que vivi
e olhares meus nos olhos de outros
e outras.
Agora questiono à vida que realizei,
Quem sou?
A tela móvel acompanha-me na jornada
onde sou actor e realizo,
cada sequência é dejá-vu
que saboreio como se fosse o mais sublime requinte,
mas as imagens que vêm beber a água dos meus olhos
pregam-me partidas,
socam-me com sonhos futuros que vivi
e olhares meus nos olhos de outros
e outras.
Agora questiono à vida que realizei,
Quem sou?
2005-09-06
Noite solitária
A maior parte dos poemas que coloco são fruto de um caminho, são pequenas pedras num rio, que me ajudaram a saltitar de margem em margem à procura de caminhos internos... Não os esqueço e pedem-me eles, agora, que os traga à luz do dia.
Sabes,
a dor que me imobiliza é amor,
é puro-sangue que voa sobre a planície,
e o respirar ofegante da noite faz as searas,
ao seu sabor,
ondular,
mas se o choro que me acomete
purga a certeza da existência
porque devo eu morrer em cada dia
que véu é este que me expõe à demência?
Mergulho no olhar morno e meigo,
o reflexo é meu e do espelho partido,
o sorriso que exibe o Sol esvaiu-se no ocaso
em respostas não perguntadas
pela fibra do tecido o
u vestes que cobrem o fino
e frágil sofrer…
Sabes,
que palavras são estas que tentam sorrir?
Pode a imensidão da noite a solidão sentir
se está ela em todo o espaço circundante,
se é ela, ai minha noite, tudo a jusante
mesmo quando em pleno dia
as estrelas teimam em cair...
Sabes,
a dor que me imobiliza é amor,
é puro-sangue que voa sobre a planície,
e o respirar ofegante da noite faz as searas,
ao seu sabor,
ondular,
mas se o choro que me acomete
purga a certeza da existência
porque devo eu morrer em cada dia
que véu é este que me expõe à demência?
Mergulho no olhar morno e meigo,
o reflexo é meu e do espelho partido,
o sorriso que exibe o Sol esvaiu-se no ocaso
em respostas não perguntadas
pela fibra do tecido o
u vestes que cobrem o fino
e frágil sofrer…
Sabes,
que palavras são estas que tentam sorrir?
Pode a imensidão da noite a solidão sentir
se está ela em todo o espaço circundante,
se é ela, ai minha noite, tudo a jusante
mesmo quando em pleno dia
as estrelas teimam em cair...
De quem não conheci
Invoco a saudade da face de quem não conheci
na presença da sombra,
saboreio a ausência de um sorriso que não vivi,
a mescla de emoções no vazio da noite
entre vagas de ondas, serenas,
e bandeiras desfraldadas num barco de velas amenas.
Os passos que graduam o quotidiano inexistente
vagueiam entre fronteiras
reais,
imaginárias,
no ondular pacato da imaginação
entre veredas de olhares
que não vislumbrando o invisível
rasgam a despedida que precede a solidão.
na presença da sombra,
saboreio a ausência de um sorriso que não vivi,
a mescla de emoções no vazio da noite
entre vagas de ondas, serenas,
e bandeiras desfraldadas num barco de velas amenas.
Os passos que graduam o quotidiano inexistente
vagueiam entre fronteiras
reais,
imaginárias,
no ondular pacato da imaginação
entre veredas de olhares
que não vislumbrando o invisível
rasgam a despedida que precede a solidão.
Feições
Abandono-te na lama,
meu velho corpo
entorpecido nas feições,
de uma alma que ama
um ideal morto...
meu velho corpo
entorpecido nas feições,
de uma alma que ama
um ideal morto...
A chuva ao som da noite (reticências)
Começo a estabelecer um horário próprio, certo, e sento-me em frente ao computador, com o teclado sobre as pernas, abro o Word, aumento o zoom para 130% e relaxo na cadeira…
A inspiração já cá estava à espera, sentada, paciente… Hoje tenho chuva e só não a consigo ouvir melhor devido ao barulho do computador a funcionar…
Abençoada chuva! Permite andar por aí, com o vidro aberto, abotoando o casaco e sorrindo, como só quem gosta da chuva sorri…
À noite as paisagens são mais curiosas e os seres que encontramos também, aves raras como as que encontro são difíceis de ver… Apenas uma coisa me entristece, as árvores que se curvam sobre mim à medida que passo, à medida que as ilumino com os faróis, o castanho, negro e dourado da paisagem queimada, o sufoco das suas lamurias, dos seus choros, da sua morte lenta… Já ninguém fala nos incêndios, nas vítimas, nas perdas materiais, a preocupação reside apenas na recuperação psicológica de alguém cujo salário de um mês permitiria reconstruir a vida a muito boa gente que ficou sem nada… Não é para isto que venho escrever…
Hoje visitei a minha antiga casa, onde vivi 26 anos, onde cresci e onde tudo foi perdendo tamanho, os sofás, as cadeiras, a cama, as paredes… Fez-me bem estar lá, perto, e ver que algumas coisas permanecem… Mas também não quero escrever sobre isto… Então o quê?
Pensei que uma das minhas histórias, daquelas que estão por escrever, ficaria bem no blog… Tenho que o alimentar… Mas também não me apetece escrever histórias, verificas, baseados em factos fictícios…
Também não era isto, mas paciência… Escrever sobre estas coisas é mexer no lodo, agitar água com lixo e quando isto acontece, há que ter por perto um purificador…
Para a próxima falo sobre outras coisas ou talvez conte uma história, como a do bombeiro de almas…
A inspiração já cá estava à espera, sentada, paciente… Hoje tenho chuva e só não a consigo ouvir melhor devido ao barulho do computador a funcionar…
Abençoada chuva! Permite andar por aí, com o vidro aberto, abotoando o casaco e sorrindo, como só quem gosta da chuva sorri…
À noite as paisagens são mais curiosas e os seres que encontramos também, aves raras como as que encontro são difíceis de ver… Apenas uma coisa me entristece, as árvores que se curvam sobre mim à medida que passo, à medida que as ilumino com os faróis, o castanho, negro e dourado da paisagem queimada, o sufoco das suas lamurias, dos seus choros, da sua morte lenta… Já ninguém fala nos incêndios, nas vítimas, nas perdas materiais, a preocupação reside apenas na recuperação psicológica de alguém cujo salário de um mês permitiria reconstruir a vida a muito boa gente que ficou sem nada… Não é para isto que venho escrever…
Hoje visitei a minha antiga casa, onde vivi 26 anos, onde cresci e onde tudo foi perdendo tamanho, os sofás, as cadeiras, a cama, as paredes… Fez-me bem estar lá, perto, e ver que algumas coisas permanecem… Mas também não quero escrever sobre isto… Então o quê?
Pensei que uma das minhas histórias, daquelas que estão por escrever, ficaria bem no blog… Tenho que o alimentar… Mas também não me apetece escrever histórias, verificas, baseados em factos fictícios…
Também não era isto, mas paciência… Escrever sobre estas coisas é mexer no lodo, agitar água com lixo e quando isto acontece, há que ter por perto um purificador…
Para a próxima falo sobre outras coisas ou talvez conte uma história, como a do bombeiro de almas…
A magia do mundo pelos olhos das crianças
O dia amanheceu com chuva. Na verdade, a chuva já lhe entrava pelas entranhas à medida que o Sol invisivelmente se levanta sobre as nuvens… Acordei a meio da noite, cerca das 4:00, com a melodia da água a cair na terra seca e o compasso mais ou menos ritmado das grossas gotas que caiam das telhas do alpendre…
Agora foi-se a chuva, ficaram estas nuvens escuras, cinzentas, que me devolvem a serenidade e o tempo frio, que tanta falta me faz… Ouço Carlos Paredes, só o mestre faz sentido nestas manhãs das primeiras chuvas… Paro um pouco para o escutar, gosto de apurar o ouvido e saborear a respiração dele por entre uma ou outra nota… Isto, Isabel Silvestre ou “Everybody pays” do Mark Knopfler…
Tenho saudades de ser mais baixo que os arbustos, de entrar de rompante pelo monte dentro e ficar todo molhado, sentir o frio da água com os ramos destes meus amigos que me abraçam… Lembro-me de sorver a água que ficava sobre o portão de casa… Quando se é criança tudo é magia, inocência, amizade, ingenuidade (Miguel, não sejas ingénuo) e legitimidade… Onde ficarão estes sentidos à medida que crescemos? E os nossos amigos invisíveis? E os visíveis?
Da minha janela consigo ver alguns, se calhar apenas eu, correndo pelos arbustos, escondendo-se atrás de umas giestas e largando os ramos quando eu passo ou debaixo de uma árvore que eu abano só para os molhar…
As raízes dos pinheiros e eucaliptos são ou foram as garagens dos nossos carrinhos, que andavam sobre caminhos feitos com as vassouras roubadas às mães e animados pelas nossas mãos pequenas… Se não eram os carrinhos eram as caricas, em pistas dignas de figurar nos livros de automobilismo, com curvas em relevo e várias armadilhas pelo caminho… E quando não no caminho, era no muro de minha casa, autênticas corridas que um qualquer Hidalgo gostaria de participar… Havia o jogo do canhão, o futebol que era animado quando a dona chamava a GNR para participar, pasmem-se!, que uma dúzia de crianças calcava o mato… Havia as grutas, o poço das “moutadas”, as “austrálias” e umas mãos de feno roubadas a um colmo para fazer o telhado de uma cabana… E as cabanas, de vários feitios, de vários materiais, que ora construíamos ora destruíamos, à nossa vontade ou como vingança de algo que era logo esquecido… E os jogos de cowboys? Um tiro imaginário, pum!, e ganhava-se uma baixa… As naves na areia do tanque… Puf… Tanto para dizer e lembrar, e sempre o mesmo denominador comum: sou tão feliz com todo o meu trajecto, com todos os meus amigos… E fica sempre tanto por dizer…
Ontem fui a uma das resistentes pequenas drogarias, daquelas acomodadas numa garagem em que as paredes são pintadas com a cor das caixas dos artigos, canhões de fechaduras, puxadores de várias cores e feitios, dobradiças de joelho e outras normais, latonadas ou cromadas, basculantes e até um telefone tapado com uma saca de plástico… No tecto, pendurados dizeres vários, na verdade apenas dois, aos quais não ficamos indiferentes pelas cores garridas… Ao centro, o balcão, com os seus inúmeros blocos de apontamentos e uma caligrafia de fazer inveja ao escriba dos escribas… A simpatia é ainda traço constante e o aperto de mão dos mais sólidos que conheço… É assim mais uma personagem da novela da minha vida, desta minha senda pelos sorrisos dos outros…
Aquela drogaria trouxe-me à memória brincadeiras de criança, em dias de chuva, numa barraca construída em plástico sob a pequena ramada do Sr. Carvalho (que deve sorrir agora onde quer que esteja), onde eu e mais dois amigos compúnhamos avarias imaginárias em objectos inexistentes… Olhar o mundo pelos olhos de criança é mais mágico…
Agora foi-se a chuva, ficaram estas nuvens escuras, cinzentas, que me devolvem a serenidade e o tempo frio, que tanta falta me faz… Ouço Carlos Paredes, só o mestre faz sentido nestas manhãs das primeiras chuvas… Paro um pouco para o escutar, gosto de apurar o ouvido e saborear a respiração dele por entre uma ou outra nota… Isto, Isabel Silvestre ou “Everybody pays” do Mark Knopfler…
Tenho saudades de ser mais baixo que os arbustos, de entrar de rompante pelo monte dentro e ficar todo molhado, sentir o frio da água com os ramos destes meus amigos que me abraçam… Lembro-me de sorver a água que ficava sobre o portão de casa… Quando se é criança tudo é magia, inocência, amizade, ingenuidade (Miguel, não sejas ingénuo) e legitimidade… Onde ficarão estes sentidos à medida que crescemos? E os nossos amigos invisíveis? E os visíveis?
Da minha janela consigo ver alguns, se calhar apenas eu, correndo pelos arbustos, escondendo-se atrás de umas giestas e largando os ramos quando eu passo ou debaixo de uma árvore que eu abano só para os molhar…
As raízes dos pinheiros e eucaliptos são ou foram as garagens dos nossos carrinhos, que andavam sobre caminhos feitos com as vassouras roubadas às mães e animados pelas nossas mãos pequenas… Se não eram os carrinhos eram as caricas, em pistas dignas de figurar nos livros de automobilismo, com curvas em relevo e várias armadilhas pelo caminho… E quando não no caminho, era no muro de minha casa, autênticas corridas que um qualquer Hidalgo gostaria de participar… Havia o jogo do canhão, o futebol que era animado quando a dona chamava a GNR para participar, pasmem-se!, que uma dúzia de crianças calcava o mato… Havia as grutas, o poço das “moutadas”, as “austrálias” e umas mãos de feno roubadas a um colmo para fazer o telhado de uma cabana… E as cabanas, de vários feitios, de vários materiais, que ora construíamos ora destruíamos, à nossa vontade ou como vingança de algo que era logo esquecido… E os jogos de cowboys? Um tiro imaginário, pum!, e ganhava-se uma baixa… As naves na areia do tanque… Puf… Tanto para dizer e lembrar, e sempre o mesmo denominador comum: sou tão feliz com todo o meu trajecto, com todos os meus amigos… E fica sempre tanto por dizer…
Ontem fui a uma das resistentes pequenas drogarias, daquelas acomodadas numa garagem em que as paredes são pintadas com a cor das caixas dos artigos, canhões de fechaduras, puxadores de várias cores e feitios, dobradiças de joelho e outras normais, latonadas ou cromadas, basculantes e até um telefone tapado com uma saca de plástico… No tecto, pendurados dizeres vários, na verdade apenas dois, aos quais não ficamos indiferentes pelas cores garridas… Ao centro, o balcão, com os seus inúmeros blocos de apontamentos e uma caligrafia de fazer inveja ao escriba dos escribas… A simpatia é ainda traço constante e o aperto de mão dos mais sólidos que conheço… É assim mais uma personagem da novela da minha vida, desta minha senda pelos sorrisos dos outros…
Aquela drogaria trouxe-me à memória brincadeiras de criança, em dias de chuva, numa barraca construída em plástico sob a pequena ramada do Sr. Carvalho (que deve sorrir agora onde quer que esteja), onde eu e mais dois amigos compúnhamos avarias imaginárias em objectos inexistentes… Olhar o mundo pelos olhos de criança é mais mágico…
2005-09-05
Os sorrisos meus, agora que fora de criança sou...
Quanto valerá um sorriso?
Dou por mim a pensar num preço, numa medida qualquer palpável, concreta, daquelas que estão padronizadas, mas não encontro medida ou valor…
O quanto custará sorrir?
Vamos lá ver se é desta que eu vou escrevendo… Domingo foi dia de passeio – convívio. Há muito combinado, o convívio das marchas populares teve lugar no domingo a um sítio apelativo: Srª da Boa Morte…
Posso ter 30 anos, quase, quase, mas estes passeios colocam-me com 9 ou 10 anos. Quando entro na camioneta e olho aquelas faces, com mais rugas, mais velhas, mas iguais ainda, sinto-me regressar no tempo, como se fosse possível, e vejo-me a percorrer a pé o caminho da escola para casa… Agora posso andar a pé, no mesmo caminho, mas os sorrisos não são mais os meus, nem as pessoas o são… Novas caras chegaram, velhas caras partiram… Voltando ao passeio… Entrar na camioneta (de Alpendorada – mais recordações…) e ver aquelas caras, olhar com sinal de respeito, eu sem estes olhares não sou nada, ou serei bem menos do que sou agora… Todas aquelas faces fazem parte da minha história, da minha infância…
A música, tinha saudade da música, do rancho e do cantar ao desafio em letras irónicas e mordazes… Tinha saudade de sentar-me no banco e afundar-me, mas agora as pernas não deixam, batem no banco da frente…
Gostava muito de poder grafar os meus pensamentos no exacto momento em que os sinto, em que eles me escrevem… Agora, com esta dor de cabeça, torna-se difícil passar para palavras o que se viveu…
Fico a imaginar o quão fácil para ser a convivência em harmonia, apesar de todas as diferenças… Em local de convívio surgiam faces desconhecidas, gente simples de farnel às costas, que se sentava perto só para ver e ouvir cantar e tocar, viola e concertina… E esta gente simples ficava sentada perto, comendo o panado ou o rissol, beberricando um tinto, rindo, apoiando a cabeça nas mãos…
O pó que se levantava durante e após os passos de dança, mais ou menos improvisados, de gente que cresceu dando vida e corpo a folclore, a desfolhadas e bailaricos de aldeia, banhado pelo sol parecia-me ouro, ouro fino com que os sorrisos daquelas gentes me vão enriquecendo.
As malhas, nas mãos a resina dos pinheiros, o pó, novamente o pó, e a terra revolvida pelo bater do ferro e do bater no meco, desgraçado, que tomba perante o nosso divertimento…
Junto a estes homens, gente de honradez e sorriso, jogando malhas com eles, sinto-me uma criança aceite pelos homens… Esqueço que tenho 30 anos, ups, ainda não, que sou como eles, mas ainda penso como sendo criança. Ontem, domingo, o tempo voltou definitivamente atrás…
Mas o sorrisos… Sorrisos de gente feliz, de gente que vive estes convívios, estes passeios que outros poderão chamar de chungas, chulas, num país marcado pela mesquinhez intelectual… Custa-me pensar que daqui a pouco tempo, políticos (tão pouco vieram deste povo) estarão, avessamente, beijando caras e apertando estas mãos calosas de gente boa, como se fossem deles, como se tivessem comido cebola com sal acompanhada com um bom naco de boroa e uma chávena de café com borra, se fosse Inverno… Não quero falar disto, do estupro praticado pelas hienas, quero voltar ao passeio, ao convívio…
Por umas horas, somos todos iguais, sempre o fomos, obviamente, mas é diferente, agora não há distanciamentos, há sorrisos, cantares, bailaricos, panados, boroa, uns tachos aqui e acolá, um garrafão (ou vários!) e olhares de felicidade…
Não consigo deixar de me comover com estas visões… Com a felicidade das pessoas bailando, braços no ar, olhares cercados por incontáveis rugas e sorrisos desdentados de gente boa e simples, povo que amo.
A Srª da Boa Morte fica em Ponte de Lima, num alto, como convém a qualquer santuário… Rodeado de árvores, este sítio de festejo pagão foi, como todos os outros, apropriado pela igreja… Fica a pensar na religião… O povo faz a religião, não é a religião que faz as pessoas… Veneradamente as pessoas entram na igreja, eu também, contemplam as figuras e fotografias de benfeitores, santos de madeira em restauro… Há qualquer coisa de sinistro na subida para o local onde estão os santos, do meu tamanho, e um caixão aberto onde está a suposta Srª da Boa Morte, não lhe faltando sequer uns olhos moribundos ou como diz a minha mão, de “carneiro mal morto”… Detenho-me alguns instantes, o local apertado e baixo, de pedra, pouco iluminado leva-me a alma para tempos antigos, de cátaros, de encontros anónimos. Resolvo-me subir quando, a meio, tenho que voltar atrás para deixar passar pessoas que descem… Subo e contemplo as imagens primeiro e, depois, o caixão… Parece-me macabro, mas ainda assim melhor do que por aí se vê, como entrar numa capela feita em ossos… O religioso confunde-se com o místico e transcendental, num folclore que é, inegavelmente, parte integrante da nossa história… No altar todas as figuras parecem olhar para mim, rostos ovais, como antigos Maias, de crianças com harpas, violas e outras coisas mais na mão…
O sino vai chamando as pessoas para a missa… Há que apressar o passo… O delas, não o meu…
A hora do regresso chegou, todos se sentam, ainda que por breves instantes, pois as colunas trémulas soltam música da minha gente… O motor faz interferência com a rádio, junto às castanholas, cavaquinhos, reco-reco, ferrinhos e outros que tais, ouve-se um silvo… O meu povo pôs-se em pé a dançar, braço no ar, suor a pingar e sorrisos, muitos sorrisos! Não consigo deixar de me comover com estas imagens… Às vezes acho que só a mim isto não me passa indiferente… Conheço poucas pessoas que parem por momentos apenas para ver os sorrisos dos outros e apreciá-los…
Hora da chegada, desfaz-se a companhia e acaba a festa… Os tempos são outros, poucos se levantam à alvorada para ir ao campo ou pensar os animais… Agora alimenta-se a máquina dos bilhetes de comboio e a alvorada é um caminhar, rápido, para a estação da CP e esperar encontrar lugar sentado, para dar mais uma hora de sono ao corpo.
Cada qual segue o seu caminho e eu fico, aqui, com os seus sorrisos, a sonhar sozinho…
Dou por mim a pensar num preço, numa medida qualquer palpável, concreta, daquelas que estão padronizadas, mas não encontro medida ou valor…
O quanto custará sorrir?
Vamos lá ver se é desta que eu vou escrevendo… Domingo foi dia de passeio – convívio. Há muito combinado, o convívio das marchas populares teve lugar no domingo a um sítio apelativo: Srª da Boa Morte…
Posso ter 30 anos, quase, quase, mas estes passeios colocam-me com 9 ou 10 anos. Quando entro na camioneta e olho aquelas faces, com mais rugas, mais velhas, mas iguais ainda, sinto-me regressar no tempo, como se fosse possível, e vejo-me a percorrer a pé o caminho da escola para casa… Agora posso andar a pé, no mesmo caminho, mas os sorrisos não são mais os meus, nem as pessoas o são… Novas caras chegaram, velhas caras partiram… Voltando ao passeio… Entrar na camioneta (de Alpendorada – mais recordações…) e ver aquelas caras, olhar com sinal de respeito, eu sem estes olhares não sou nada, ou serei bem menos do que sou agora… Todas aquelas faces fazem parte da minha história, da minha infância…
A música, tinha saudade da música, do rancho e do cantar ao desafio em letras irónicas e mordazes… Tinha saudade de sentar-me no banco e afundar-me, mas agora as pernas não deixam, batem no banco da frente…
Gostava muito de poder grafar os meus pensamentos no exacto momento em que os sinto, em que eles me escrevem… Agora, com esta dor de cabeça, torna-se difícil passar para palavras o que se viveu…
Fico a imaginar o quão fácil para ser a convivência em harmonia, apesar de todas as diferenças… Em local de convívio surgiam faces desconhecidas, gente simples de farnel às costas, que se sentava perto só para ver e ouvir cantar e tocar, viola e concertina… E esta gente simples ficava sentada perto, comendo o panado ou o rissol, beberricando um tinto, rindo, apoiando a cabeça nas mãos…
O pó que se levantava durante e após os passos de dança, mais ou menos improvisados, de gente que cresceu dando vida e corpo a folclore, a desfolhadas e bailaricos de aldeia, banhado pelo sol parecia-me ouro, ouro fino com que os sorrisos daquelas gentes me vão enriquecendo.
As malhas, nas mãos a resina dos pinheiros, o pó, novamente o pó, e a terra revolvida pelo bater do ferro e do bater no meco, desgraçado, que tomba perante o nosso divertimento…
Junto a estes homens, gente de honradez e sorriso, jogando malhas com eles, sinto-me uma criança aceite pelos homens… Esqueço que tenho 30 anos, ups, ainda não, que sou como eles, mas ainda penso como sendo criança. Ontem, domingo, o tempo voltou definitivamente atrás…
Mas o sorrisos… Sorrisos de gente feliz, de gente que vive estes convívios, estes passeios que outros poderão chamar de chungas, chulas, num país marcado pela mesquinhez intelectual… Custa-me pensar que daqui a pouco tempo, políticos (tão pouco vieram deste povo) estarão, avessamente, beijando caras e apertando estas mãos calosas de gente boa, como se fossem deles, como se tivessem comido cebola com sal acompanhada com um bom naco de boroa e uma chávena de café com borra, se fosse Inverno… Não quero falar disto, do estupro praticado pelas hienas, quero voltar ao passeio, ao convívio…
Por umas horas, somos todos iguais, sempre o fomos, obviamente, mas é diferente, agora não há distanciamentos, há sorrisos, cantares, bailaricos, panados, boroa, uns tachos aqui e acolá, um garrafão (ou vários!) e olhares de felicidade…
Não consigo deixar de me comover com estas visões… Com a felicidade das pessoas bailando, braços no ar, olhares cercados por incontáveis rugas e sorrisos desdentados de gente boa e simples, povo que amo.
A Srª da Boa Morte fica em Ponte de Lima, num alto, como convém a qualquer santuário… Rodeado de árvores, este sítio de festejo pagão foi, como todos os outros, apropriado pela igreja… Fica a pensar na religião… O povo faz a religião, não é a religião que faz as pessoas… Veneradamente as pessoas entram na igreja, eu também, contemplam as figuras e fotografias de benfeitores, santos de madeira em restauro… Há qualquer coisa de sinistro na subida para o local onde estão os santos, do meu tamanho, e um caixão aberto onde está a suposta Srª da Boa Morte, não lhe faltando sequer uns olhos moribundos ou como diz a minha mão, de “carneiro mal morto”… Detenho-me alguns instantes, o local apertado e baixo, de pedra, pouco iluminado leva-me a alma para tempos antigos, de cátaros, de encontros anónimos. Resolvo-me subir quando, a meio, tenho que voltar atrás para deixar passar pessoas que descem… Subo e contemplo as imagens primeiro e, depois, o caixão… Parece-me macabro, mas ainda assim melhor do que por aí se vê, como entrar numa capela feita em ossos… O religioso confunde-se com o místico e transcendental, num folclore que é, inegavelmente, parte integrante da nossa história… No altar todas as figuras parecem olhar para mim, rostos ovais, como antigos Maias, de crianças com harpas, violas e outras coisas mais na mão…
O sino vai chamando as pessoas para a missa… Há que apressar o passo… O delas, não o meu…
A hora do regresso chegou, todos se sentam, ainda que por breves instantes, pois as colunas trémulas soltam música da minha gente… O motor faz interferência com a rádio, junto às castanholas, cavaquinhos, reco-reco, ferrinhos e outros que tais, ouve-se um silvo… O meu povo pôs-se em pé a dançar, braço no ar, suor a pingar e sorrisos, muitos sorrisos! Não consigo deixar de me comover com estas imagens… Às vezes acho que só a mim isto não me passa indiferente… Conheço poucas pessoas que parem por momentos apenas para ver os sorrisos dos outros e apreciá-los…
Hora da chegada, desfaz-se a companhia e acaba a festa… Os tempos são outros, poucos se levantam à alvorada para ir ao campo ou pensar os animais… Agora alimenta-se a máquina dos bilhetes de comboio e a alvorada é um caminhar, rápido, para a estação da CP e esperar encontrar lugar sentado, para dar mais uma hora de sono ao corpo.
Cada qual segue o seu caminho e eu fico, aqui, com os seus sorrisos, a sonhar sozinho…
2005-09-01
Vida
Diz-me vida,
que queres que faça?
Roubas o ar que respiro,
partes os vidros onde me encontro,
sujas com lama e sangue
estes meus sonhos que são,
afinal,
um não distante retiro…
Não me deixas chorar,
lágrimas saltam sem medo e toldam-me,
não é só a visão,
é o exprimir.
Transformas o sorriso em pedra
e o júbilo de falar num torpor,
um movimento desconexo dos lábios
que não te beijam,
gritam,
arfam,
respirando muco que em meus pulmões arde,
queima o meu ser com infinita dor.
Aqui me tens,
prostrado a teus pés,
Corta minha cabeça assim como fazes ao sorriso,
tens coragem?
Coitada de ti, vida,
que nada mais és que uma vazia miragem…
Salta de mim a fúria escondida
e ri-se de ti,
de tuas tramas e encruzilhadas,
da figura que criaste com suor e saliva,
julgavas tu que me moldavas?
Vences-me,
desvias de mim o sentido,
o rumo da rosa dos ventos,
o cabelo que descai a meus olhos
e me fecha o pensamento.
Mas continuo aqui,
penso em ti,
tento entrar nessa teia,
mas meu mundo é deste lado,
olhando-te sem ter predefinida uma ideia,
descobrir que no sorriso,
atrás de um rosto fechado,
surge o crepitar do lume,
o amor na alma sem aviso.
Julgavas que conseguias enganar-me?
Dás-me papel e caneta,
fazes surgir uma nuvem no céu
e pensas que eu,
sim, eu, julgas que sou como tu?
Ah! Deixa-me rir!
Eu construo canções,
canto monumentos e solto estrelas,
dou asas à água para que corra em tições,
e isto fora de ti,
não sabes que existo,
mas digo-te que sei mais eu sobre ti, vida,
do que tu mesma sobre mim,
fazes correr o mundo,
tiras o tapete a que em ti acredita,
falsa!
Manténs-te afastado,
debruçado neste velho muro coberto de musgo,
é ele uma forma de ti, vida,
e eu...
Olho-te, levas todos contigo,
deito um último olhar melancólico,
triste sina,
pela enésima vez recuo continuar,
não quero fazer parte desse mundo,
dos dogmas que fazem chorar!
Criaste-me,
jarros brancos florem em silvados,
o pólen cai e seca as lágrimas
e eu não sei o que faço aqui,
apoiado numa folha branca,
tento lutar contigo com esta caneta
e nas palavras que espalho,
mas és mais forte do que eu…
Penso que não existo,
sou o reflexo de alguém que quer sair de ti.
Dá vida a uma grande massa de carne humana,
sonha sonhar livremente
e refugiar-se na alma errante,
mas não resulta…
Desisto!
Vida, aqui me tens!
Faz de mim o que quiseres,
rasga-me as entranhas com essa garra abominável,
tira-me os olhos que te vêem
e cose o sorriso que te atemoriza,
mas os sonhos, não, os sonhos continuam,
semeio-os aqui, numa folha de papel,
numa conversa de café,
no afago a uma criança,
no lento escutar das lamúrias alheias,
no abraço a uma árvore queimada…
Não podes combater isto, vida,
combato os teus ideais,
submeto-me a teu remoinho espiral,
sorris pensando que me rendi,
minha querida,
não faço de ti inimiga,
estou cá, em ti, vida,
mas em breve partirei,
voarei de novo para os sonhos,
sulcarei mares arenosos em busca de um beijo…
Pensas que me deglutes,
abres teus braços pensando que eu vou,
mas tu não me queres abraçar,
queres dar-me o beijo da morte,
sugar meus sonhos,
o futuro que por mim passou,
o murmúrio arrastado
que é eu mesmo
a chorar…
Não julgues que te destruo,
não te odeio,
vejo que não és verdade,
és apenas algo que não sabes que és,
como uma flor que nasce num jardim…
Beijo-te, vida,
porque te amo,
estimo,
louvo teu rápido esgar,
mas não me chames,
não estou mais em ti,
és minúscula,
rodopias como um velho pião
na palma da minha mão.
Controlo-te,
mas logo vens a mim,
como o conhecido sacrifício a que digo sim,
giro agora na tua mão
e tu sorris de escárnio,
Amo-te!,
Foi de mais para ti não foi?
Não é isto forma de viver,
resiste-se como o velho amolar
roça a faca na pedra
e dá a pedra a face à faca,
mas existem os dois.
Afia meus sentidos,
dá-me olhares negros como de um anjo
e vem até mim, como estes raios de sol
que fazem sombra sobre o que escrevo,
transformam minha mão em vida,
geram duas canetas,
duas penas que acentuam a mágoa…
Paro na minha quietude,
abandono minhas sombras
e são elas que te escrevem,
vê-me a olhar o sol,
fecho os olhos e vejo globos azuis,
pássaros de cristal que voam em mim,
mas não sabes o que isto é pois não?
Estás muito atarefada...
Permito que sombras te escrevam
como se as lágrimas arrancassem o choro,
como se a foz chamasse o rio da nascente…
Eu continuo aqui,
olhando-te,
confuso,
indiferente…
que queres que faça?
Roubas o ar que respiro,
partes os vidros onde me encontro,
sujas com lama e sangue
estes meus sonhos que são,
afinal,
um não distante retiro…
Não me deixas chorar,
lágrimas saltam sem medo e toldam-me,
não é só a visão,
é o exprimir.
Transformas o sorriso em pedra
e o júbilo de falar num torpor,
um movimento desconexo dos lábios
que não te beijam,
gritam,
arfam,
respirando muco que em meus pulmões arde,
queima o meu ser com infinita dor.
Aqui me tens,
prostrado a teus pés,
Corta minha cabeça assim como fazes ao sorriso,
tens coragem?
Coitada de ti, vida,
que nada mais és que uma vazia miragem…
Salta de mim a fúria escondida
e ri-se de ti,
de tuas tramas e encruzilhadas,
da figura que criaste com suor e saliva,
julgavas tu que me moldavas?
Vences-me,
desvias de mim o sentido,
o rumo da rosa dos ventos,
o cabelo que descai a meus olhos
e me fecha o pensamento.
Mas continuo aqui,
penso em ti,
tento entrar nessa teia,
mas meu mundo é deste lado,
olhando-te sem ter predefinida uma ideia,
descobrir que no sorriso,
atrás de um rosto fechado,
surge o crepitar do lume,
o amor na alma sem aviso.
Julgavas que conseguias enganar-me?
Dás-me papel e caneta,
fazes surgir uma nuvem no céu
e pensas que eu,
sim, eu, julgas que sou como tu?
Ah! Deixa-me rir!
Eu construo canções,
canto monumentos e solto estrelas,
dou asas à água para que corra em tições,
e isto fora de ti,
não sabes que existo,
mas digo-te que sei mais eu sobre ti, vida,
do que tu mesma sobre mim,
fazes correr o mundo,
tiras o tapete a que em ti acredita,
falsa!
Manténs-te afastado,
debruçado neste velho muro coberto de musgo,
é ele uma forma de ti, vida,
e eu...
Olho-te, levas todos contigo,
deito um último olhar melancólico,
triste sina,
pela enésima vez recuo continuar,
não quero fazer parte desse mundo,
dos dogmas que fazem chorar!
Criaste-me,
jarros brancos florem em silvados,
o pólen cai e seca as lágrimas
e eu não sei o que faço aqui,
apoiado numa folha branca,
tento lutar contigo com esta caneta
e nas palavras que espalho,
mas és mais forte do que eu…
Penso que não existo,
sou o reflexo de alguém que quer sair de ti.
Dá vida a uma grande massa de carne humana,
sonha sonhar livremente
e refugiar-se na alma errante,
mas não resulta…
Desisto!
Vida, aqui me tens!
Faz de mim o que quiseres,
rasga-me as entranhas com essa garra abominável,
tira-me os olhos que te vêem
e cose o sorriso que te atemoriza,
mas os sonhos, não, os sonhos continuam,
semeio-os aqui, numa folha de papel,
numa conversa de café,
no afago a uma criança,
no lento escutar das lamúrias alheias,
no abraço a uma árvore queimada…
Não podes combater isto, vida,
combato os teus ideais,
submeto-me a teu remoinho espiral,
sorris pensando que me rendi,
minha querida,
não faço de ti inimiga,
estou cá, em ti, vida,
mas em breve partirei,
voarei de novo para os sonhos,
sulcarei mares arenosos em busca de um beijo…
Pensas que me deglutes,
abres teus braços pensando que eu vou,
mas tu não me queres abraçar,
queres dar-me o beijo da morte,
sugar meus sonhos,
o futuro que por mim passou,
o murmúrio arrastado
que é eu mesmo
a chorar…
Não julgues que te destruo,
não te odeio,
vejo que não és verdade,
és apenas algo que não sabes que és,
como uma flor que nasce num jardim…
Beijo-te, vida,
porque te amo,
estimo,
louvo teu rápido esgar,
mas não me chames,
não estou mais em ti,
és minúscula,
rodopias como um velho pião
na palma da minha mão.
Controlo-te,
mas logo vens a mim,
como o conhecido sacrifício a que digo sim,
giro agora na tua mão
e tu sorris de escárnio,
Amo-te!,
Foi de mais para ti não foi?
Não é isto forma de viver,
resiste-se como o velho amolar
roça a faca na pedra
e dá a pedra a face à faca,
mas existem os dois.
Afia meus sentidos,
dá-me olhares negros como de um anjo
e vem até mim, como estes raios de sol
que fazem sombra sobre o que escrevo,
transformam minha mão em vida,
geram duas canetas,
duas penas que acentuam a mágoa…
Paro na minha quietude,
abandono minhas sombras
e são elas que te escrevem,
vê-me a olhar o sol,
fecho os olhos e vejo globos azuis,
pássaros de cristal que voam em mim,
mas não sabes o que isto é pois não?
Estás muito atarefada...
Permito que sombras te escrevam
como se as lágrimas arrancassem o choro,
como se a foz chamasse o rio da nascente…
Eu continuo aqui,
olhando-te,
confuso,
indiferente…
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