2006-08-08

Rápido

Voltei...
Mini-férias, misturadas com Lua de mel, de um casamento maravilhoso no registo civil que pouca gente conheceu ou ouviu falar.
Estou aqui, com o computador ainda em casa dos meus pais, com um calor abrasador e o lamento da sirene dos bombeiros.
Não queria escrever, as teclas parecem duras demais, mas os dedos sentiam falta de conversar com elas.
Os meus olhos fechados não conhecem nenhuma paisagem, nem quando vagueio fora do corpo.
Não conheço o céu azul, nem as noites de luar... Até os poemas choram ainda antes de sair, porque o futuro parou e perguntou-me: "mas que raio queres ser tu na vida?"

Vou novamente, foi rápido.

2006-07-28

Uma coisa

Quero que saibas uma coisa.
Vocês experimentam sentimentos como a saudade, distância, esquecimento, apenas porque vivem dentro dessa grande amálgama retorcida à qual chamam realidade.
Na verdade, depois de dissipado esse nevoeiro (criado por vocês), só sentirão amor, ou Amor.
Aí, meu amigo, não existirá espaço para mais nada, está completamente distante daquilo que possas imaginar... E suportar... Com calma, os espaços em branco que existem no teu peito, serão preenchidos por algo que une tudo, mesmo os pontos mais extremos do Universo. Sensações e ilusões como distância, saudade, relações familiares, tudo será envolto, reunido, como num grande puzzle, sei que podes não compreender, mas está perto.
Até lá, tem paciência.

2006-07-14

Hipnagogia

Pousei os meus passos
no muro
de onde eu fitava os sonhos
e sorri,
despi-me da nudez
e entreguei-me à noite
plácida e altiva,
antes que o céu caísse.

O olhar deixei-o incólume,
apenas enublado
esporadicamente
pelas claras águas da imensidão,
que tingem
como quem respira.

Voltei-me
e vi ao longe a minha figura
que chegava,
ladeada de sonhos
e prospectos
onde se anunciava a partida.

Tinha já um pé sobre o muro
e um outro
sustendo um mundo ausente.

Respirei
uma única vez,
inalei resquícios de vazio
temperados com nadam
e nas folhas vazias ficaram
uns sonhos
que à sombra da vida
respondi,
talvez...

2006-07-13

Reencontros


A vida é isto mesmo, simples e complexa, um contínuo paradoxo...
Pelo menos comigo é, variável, flutuável quando não afunda :)
Pena não ter tempo (até tinha, se não dormisse...) para escrever muito do que tenho vivido nestes últimos dias (desde domingo)...
O tema é o reencontro...
E tem sido assim, reencontrar pessoas e memórias... E ver nascer sonhos, recordações que pensava já nem possuir de tão guardadas que estavam...

Apercebo-me que sou muito feliz, que o quadro da minha vida é belo, mesmo quando as cores teimam em fugir...

2006-06-28

Still

Os poemas têm sido o "escape" a nada escrever aqui... Fico parado, tentando ordenar as ideias, as histórias que vivo, ouço, vejo e sonho, para as transformar em palavras, mas invariavelmente fico apenas a olhar... No monitor vão passando todos os episódios, todos sem excepção e, por vezes, até têm relação uns com os outros e transformam-se numa espécie de filme com capítulos que apesar de não estarem relacionados uns com os outros, fazem parte de um cenário maior, como as ruas, distantes, da mesma cidade... E enquanto olho para o monitor, muitas outras histórias surgem a meu lado, à frente, por cima pairando... As histórias e seus protagonistas pedem que os escreva, mas não consigo... Surgem por vezes protagonistas de histórias que não conheço e dizem que é apenas para mandar um recado, pode ser uma linha simples de um poema, ou uma vírgula após uma palavra, que obrigue a parar um pouco nessa mesma palavra... Mas hoje, nem ultimamente, não dá... Tenho a convicção, que nem com todo o tempo deste mundo (que aliás não existe - e começaria aqui uma grande dissertação - o tempo, não o mundo - que também não existe et voilá, mais dissertações) eu conseguiria escrever tudo o que sinto...
É como os meus braços, uma envergadura de 1,90 mt, que apesar de grandes, não chegarão nunca para abraçar os meus amigos, conhecidos e desconhecidos...
É como a minha boca, que não chegará nunca a dizer o que deveria dizer, todos os recados, nem que saísse por esse mundo fora a correr e a dizer a cada pessoa: "Olá amigo(a)"...

Bem, tenho que me contentar em ter tudo isto no meu coração... (se ao menos tivesse uma janelinha por onde espreitar, só para mostrar, como aqueles adereços que têm cidades e quando abanamos cai neve...)

Desculpem lá o mau jeito, mas só deu para escrever isto...

2006-06-27

Náufragos

Os faróis afastaram-se dos meus navios,
a espuma baça bailava
contra a proa
do meu sonho,
há náufragos que nunca viram o mar...

Os fantasmas movimentaram-se em pleno dia,
as cortinas abafam a noite
numa toada surda
e cansada,
é ainda da noite o trilho da alvorada...

As faces oscilavam em ameaça sobre a mão,
as lágrimas olharam a saudade
em despedida
do que chegou à falsa vida,
o irreal digitou a dor que o sonho guardou na ilusão...

2006-06-21

Os sons de quando chove

Ia dormir, mais uma vez, sem me sentar aqui e escrever qualquer coisa... Bem, qualquer coisa não, as histórias que vou acumulando permitiam, assim houvesse tempo, paciência e vontade, estar a escrevê-las durante umas boas horas... Mas, vá lá, hoje consegui vencer a preguiça e o sentimento de: "escrever para quê?".

Andava com um poema atrás de mim, já desde dia 13 de Junho, incompleto, que por tanto esperar acabou por se completar por ele, com algumas linhas em branco, aqui vai ele...

Quando chove
a vida adormece.
A nuvem pariu ouro,
que deleita as rugas
que moldam os rostos
envoltos e amparados
por longos
lenços pretos...

E sobre que é este poema? Ou pseudo-poema? Sobre as faces das viúvas que vivem do quintal, das suas faces cobertas por luto eterno, que é o mesmo que o medo da felicidade, digo eu, que nem sou daqui... Quando chove, cai ouro... Assim é a chuva em mim...

Antes de me ir deitar, queria apenas que fizesses um exercício, coisa simples, aliás não poderia deixar de ser simples, porque para ginástica, já basta a da carteira ao longo do mês...
Então aqui vai, começa por te sentares comodamente, mas com regra, costas direitas, pernas quase unidas, antebraços apoiados na cadeira (se não tiveres cadeira, apoia-os nas coxas) e mãos abertas sobre as pernas. Assim, confortável, recorda e visualiza um sonho teu, do coração, bem lá do fundo, daqueles que te enchem a alma (lamentavelmente não enchem a carteira)
, fecha os olhos um pouco e sorri durante 5 segundos (podes contar)...

Agora, que não estás à espera, ouve
apenas (não personifiques, não sou eu a dizer, apenas ouve) a seguinte palavra: Amo-te...

É bom, não é?

2006-06-12

Mais

Há segredos
que velam pela vida,
quantas verdades
se escondem
em mentiras,
que olhos
julgaram ouvir
como um eco,
das mãos rugosas,
que embalam
o chamado
da face direita,
entre dias que vivem à noite.

As linhagens
dos sorrisos voadores
pereceram
com o tempo,
que esvaiu
na fina camada do olhar.

Quando
oblíquos tesouros
me chamam no sonho
já eu sou das estrelas
e das nuvens
que embaçam a retina,
lá,
onde eu sou mais eu
e as vozes díspares
se calam,
no emaranhado
e confuso
pleonasmo,
de viver uma ilusão.

Lá,
onde eu sou mais...
Mais de mim mesmo...

2006-06-08

Sorrisos suspensos

Voltei
da vida
a tempo do medo pontapear,
enquanto degraus sustinham
um passadiço
para o errante
se afogar,
que há ainda quem cante
nas costas do olhar
um velho
suspiro mortiço...

2006-06-07

Sorrisos escorpiões

Ainda que tivesse
três estrelas
e um quarto
de Lua minguante,
jamais o dia
serão seria,
porque em cada pedra
há um escorpião
e em cada sorriso
um senão,
que a vida escalda
e dilui
cada suspiro
no coração...

2006-05-30

Sorrisos amordaçados

O segredo
encontrou caminho até mim,
pela noite
amordaçando o medo,
que silenciava a noite
e dava voz
à imaginação,
chamou-me do fundo dos sonhos
onde me encontro
ausente
e deu-me um abraço
longínquo
e cansado.

Os degraus
flutuaram na arcádia
e os sorrisos,
errantes,
deambulavam de face
em face
enquanto
não acordava a rispidez,
dialogou
com as paredes
caiadas
de mãos sem gente,
serpenteou
nos ângulos da rigidez
e assobiou,
como criança traquina
em olhar
de imaginário
nas mãos vazias do ardina.

Há cenários
cujas peças nunca iniciarão,
há actores
cujas vestes nunca utilizarão,
há rostos
cujos sonhos nunca sorrirão
e isto amordaça
meu coração…

2006-05-27

Tardes diluídas

As mãos
sobre o dorso
de um animal
cansado,
assim é a vida
em mim.

O pulsar
das nuvens que rasgam
o céu,
o latejar
da terra molhada no Verão,
o dia calado
e inquieto,
acordado pelo latir
sussurrado
de cães vadios
de carinho,
assim é a noite
em mim…

As faces,
sempre as faces,
fechadas sobre elas,
prenhes
de ânsia e medo,
alegria
e dor,
coragem e desalento,
cândido confidente
assim é o vento
em mim.

As mãos secas,
gretadas pela terra arada
e as silvas
que despontam ao desafio,
as vozes desconhecidas
em faces familiares
que se cruzam comigo,
os lúgubres muros
que albergam murmúrios
meus
em tardes de criança,
quão longe vai
o fio de Ariadne que partiu
sob o peso de um voo
que sorriu,
ainda elas, as mãos,
vazias de fugaz
e de vida que fui,
porque cheias de sonhos.
Assim é a desilusão
que me dilui…

2006-05-25

Pause

Pousei a bagagem
e a vontade de ser criança,
dos caminhos repetidos
e cansados
pendiam rugas
e fuligem,
há estradas que cruzam
o horizonte
na distância de duas lágrimas...

2006-05-17

Canoa doutra imensidão

As faces encontraram-se,
até as mãos
vazias
fitaram a noite,
que subia
escondida dos olhares
soturnos
que atacam
em pleno dia.

Somos mais
que uma canoa vaga
e fugaz,
onde o horizonte
é o verde dos olhos
frustrados,
que mais além
é o mundo dos sonhos.

Na canoa transporto
pão,
uns quantos passos
por mergulhar
e um sorriso,
que nem o peso do dia
sobre as nuvens
pretas
consegue retirar.

Sou do mundo adormecido,
as mãos seguem o reflexo
da vida
nas ondas deste lago
de ilusões,
os olhos cansados
miram ainda
(ainda…)
a centelha de solidão
que carrega a noite.

A vida,
ah,
a vida não é mais
que um infinito,
dentro doutra imensidão.

Há quem lhe chame coração…

2006-05-15

Casta de solidão fugidia

Os meus posts podem, eventualmente os últimos, levar alguém a pensar que perdi a esperança no mundo e nas pessoas... Nada disso... Apenas olho, cansado, e admito, talvez pela primeira vez, que afinal o caminho não é tão plano ou isento de obstáculos, mas sim tortuoso que, penso, apenas uma "empreitada" diferente poderia modificar... Mas isso são outras histórias...
A agressividade com que as pessoas defendem os seus pontos de vista, leva-me a pensar que, de facto, talvez estejam a defender a segurança que sentem à sombra de determinado ideal e não o ideal em si... Mas isto, também, pertence a outro stock de histórias...
Hoje dei por mim a ver o telejornal, e eis que surge a notícias que todos aguardam... Vêm aí os incêndios, sim, os incêndios! A nova brigada da GNR está a postos, os bombeiros (o sindicato, porque os bombeiros propriamente ditos, esses "só" andam lá "vida por vida") não gostam, uns dizem que vai ser melhor o combate, outros que será pior... Bem, creio que poderão aferir em breve se de facto assim será, pois passei por três incêndios em 20 quilómetros... Coitadito de mim, andei para aí a pensar que não existia nada mais para arder, mas afinal estava errado... Sim, arde e arde bem! E lá vou eu, lacrimejando por causa do fundo e da tristeza arrebatadora que sinto ao ver arder as árvores, os ninhos, os bichos... Mas pouco importa as pessoas que perdem terra, os animais que perdem a vida, interessa sim saber quem ganha, ou seja, quem tem razão? A energumeneidade...
E nem de propósito, estou a ouvir "Asa branca" cantada pela Isabel Silvestre (CD "A Portuguesa")...
Tenho a meu lado um recorte de um jornal ("JN" de Domingo) sobre um pastor... Li e reli, com enorme prazer... E tornei a ler :)
E lembrei-me de um episódio, há alguns anos, ao ver uma vindima. Uma senhora idosa correu a apanhar as uvas e o vinho que tinha caído de uma cesta de vindima, que se virou... Foi vulgar, eu sei, mas naquele gesto estava um carinho e um desespero sem par... O esforço que se faz para extrair da terra o pão, o sustento... O carinho de fazer crescer com as mãos...
Não sei porque raio escrevi isto... Serviria de mote para escrever um poema e, lá, inserir todas as emoções que quero, mas não o faço...
A minha cabeça dava uma novela... Puxo o cordão e logo vem um novelo... Sai um episódio e entra outro... Era mais novo, cerca de 16 anos... Fui com o meu pai a uma quinta antiga, com uns portões enormes de madeira (podre), com adega, estábulos e uma casa pequena... Creio que o resto da quinta já tinha caído. Morava lá uma senhora com 80 anos, velha, de idade e aparência. O meu pai foi contratado pelos filhos, dois, um médico e outro não sei o que faria... A senhora, enquanto o meu pai preparava uma fechadura no pequeno cubículo que era o quarto dela, contou que os filhos levaram-na para um apartamento, no Porto, mas que ela disse-lhes que se atiraria da varanda (5º andar) se eles não a levassem para casa... E assim eles a trouxeram, para aquele quarto, com uma cama que ela partilha com as galinhas e as canecas de metal que enche com um café mais preto que a noite escura e com muita borra... O cheiro não era dos mais agradáveis, mas havia algo naquele local que me emocionava bastante... E ainda o faz quando o meu pensamento visita aquele local... Basta fechar os olhos para ir lá e recordar os degraus, os portões velhos (apesar de os termos posto novos), a adega, as galinhas em cima da cama... Sorrio ainda ao recordar-me da senhora a subir a custo so degraus, a levantar e pousar o fervedor com o café, a falar com as galinhas... E dou por mim a querer fazer algo pelas pessoas assim... Quando na verdade, a "única" coisa que podemos fazer por alguém é sermos nós mesmos... E quando somos nós mesmos somos amor.
E para finalizar, lembro apenas dois episódios (para terminar a telenovela) quando o meu pai falou, meio a brincar, que estava velho (deveria ter na altura uns 40 e qualquer coisas anos) e ela disse: "oh jovem, você à minha beira é um bebé" e foi assim que ela disse que tinha 80 anos (mais qualquer coisa, mas não recordo com precisão). Depois, sob o calor, a senhora ofereceu-nos vinho, eu não bebo, mas o meu pai aceitou e ela, com as suas mãos muito enrugadas, foi ao barril, pegou numa caneca de metal que estava em cima do pipo e, com a outra mão, abriu a torneira de madeira e o vinho caiu na caneca, fazendo espuma... Ela ofereceu a caneca ao meu pai e disse: "se calhar tem nojo de uma velha como eu, mas só tenho esta caneca", o meu pai sorriu e apenas disse "por amor de deus", pegando na caneca e bebendo o vinho. Quando pousou a caneca vi que tinha sobrado um pouquito de vinho. Esperei que eles saíssem e, decidido, fui provar o vinho, para matar a sede, mas também para ver a que sabia (era novo... nada de álcool, ok?)... E sabia a algo estranho... Vindo das mãos daquela senhora, velha, daquele ser humano com uma placidez no olhar fantástica... Degustei o melhor que sabia, mas percebi desde logo, aquilo era vinho diferente... Deveria ser de uma casta nova... E quando vi a senhora, fora da adega, a ver o meu pai trabalhar e a sorrir, percebi que aquele vinho era vida, era de uma casta de solidão fugidia.

2006-05-14

De profundis


Ia deitar-me, mas esta vontade ou necessidade de escrever algo chamou-me aqui, ao computador...
Quando eu pensava que não se podia descer mais baixo, eis que a espiral descendente dá meia dúzia de tropeções e estende-se ao comprido...
Andei um pouco a pé (está frio como o chêbas) e isso permitiu-me colocar algumas ideias no sítio... Acho que a noite tem um efeito em mim como a água das pedras, as bolhinhas vão subindo até chegarem ao topo e rebentaram. Isso acontece-me, nomeadamente com várias ideias e pensamentos... Confesso que tenho uma má digestão para o que de (muito) mau se vê por esse mundo fora, o que faz com que tenha que sair, olhar a Lua e digerir da melhor forma... As reacções são, por vezes, díspares; o resultado podem ser umas lágrimas, umas sonoras gargalhadas ou uns tímidos sorrisos, um arroto bem português e ficamos por aqui ;)
O barómetro da sociedade tem como fundamentos alguns pressupostos que me deixam se não perplexo, pelo menos atónito (ora aqui está um ex-libris deste blog). Uma pessoa é pessoa se tem prefixo. Se não tem, deve então ter uma profissão de algum destaque (nada de trolha, carpinteiro, florista ou canalizador) e, preferencialmente, bem remunerada, se assim não for, então o melhor será encontrar algo que camufle bem o interior e permita exibir sinais exteriores de "bom viver" (roupa de marca, calçado de marca, óculos de marca, malas e acessórios de marca, cinto de marca, relógio de marca, tudo obviamente misturado com os tons/tendências da moda - isto explica o porquê de andarem todos vestidos de igual, com o mesmo penteado, com os mesmos vernáculos e a ouvirem as mesmas músicas). A pessoa pode associar as duas coisas: ter um prefixo (religioso, profissional, monárquico, etc.) e ganhar muito bem e aí é imbatível, excepto quando surge alguém com uma formação superior ainda superior a ganhar muito, mas mesmo muito dinheiro... Por isso convém ter um plano B, isto é, ter algo que mais ninguém tenha ou que seja de muito difícil aquisição, tipo uma viagem à quinta gruta a contar do 5º meridiano para a direita de Greenwich que nunca tenha sido anunciado em lado algum, ou tocar um instrumento celta em forma fálica (isto afasta muita gente)...
Levo isto na brincadeira, felizmente encontro pessoas tão boas, tão grandes enquanto "gente" que me fazem ganhar esperança que um dia as "coisas" mudem...
Existe também uma certa tendência para exagerar nas reacções, dos mais pessimistas-extremistas (isto está cada vez pior) aos mais optimistas-maioneseiros (é só amor, só amor)... Nada de mal contra as posições de cada um, aliás, defendo diferentes posições desde que li/vi o Kamasutra... No entanto, encontro as pessoas tão rígidas (agressivamente ou passivamente) que me faz uma certa confusão e me leva a desiludir quanto a um rumo diferente para nós enquanto espécie...
Por vezes imagino que tudo isto é um sonho... Que estou a sonhar... E isso reconforta-me, imagino que daqui a pouco acordo, sento-me na cama, tremo um pouco de frio, levanto-me e vou à casa-de-banho, abro a torneira da água fria e com as mãos em concha ergo água à cara, lavando-a e, depois, olho para o espelho, sorrio e digo para mim mesmo: que sonho estranho! E saio por aí fora contando aos meus amigos que tive um sonho surrealíssimo, onde estava num planeta com uma humanidade irreal, um planeta onde a meros metros poderia estar alguém a morrer à fome que ninguém fazia nada, onde se matava com a mesma facilidade com que se estala um dedo... Brrr... Um arrepio na espinha e o desejo de jamais ter aquele sonho acordam-me ainda mais...
Mas não é um sonho...
Aflige-me a falta de um plano a nível global para a humanidade enquanto espécie, não só pelo facto de ser humano, mas pelo facto de não termos nada contra nós neste berlinde azul, não termos para onde ir e continuarmos com agressões bárbaras aos nossos semelhantes, sejam físicas, intelectuais, emocionais... Talvez eu esteja errado. Eventualmente todos os seres humanos acreditarão numa vida depois da morte e, então, caminhem a passos largos para se autodestruirem e, assim, entrarem no reino dos céus ou algo que o valha...
O facto de não existir o mínimo interesse de quem nos governa num plano mais global não me surpreende, mas fico estarrecido de medo com o facto de não existirem amostras microscópicas de as pessoas/gente/maralha desejarem um futuro diferente, um mundo mais equilibrado, justo, habitável e respirável... Olho pela janela, a Lua já saiu do meu horizonte e ao longe vejo algumas luzes dos postes de iluminação da estrada que vai para Paredes. Penso que aquela estrada, que dá ligação a minha casa, também dá ligação para outras casas/barracos/brejos/lugarejos/céus estrelados onde se morre por fome... Fome!!! E enquanto comemos, à mesa, e vemos o telejornal, mastigamos gulosamente um qualquer naco de uma carne transgénica ou com uma gripe qualquer e nem reparamos nos olhos fundos e nos braços esqueléticos de uma criança com 2 minutos de esperança de vida. E se reparamos, é para mudar de canal imediatamente, porque a visão das moscas tira-nos o apetite...
Tenho nojo, confesso... Tenho um asco visceral pela ausência nos nossos corações de uma fraternidade salutar, ao contrário da solidariedade bacoca patrocinada pelos canais de televisão (ok, antes ínfimo que nada, mas querem tapar-me os olhos? Onde estariam os actos de solidariedade se as câmaras de televisão não estivessem presentes?)... Para onde caminhamos? "Não é meu problema..."; "E o que podemos nós fazer?"; "Isso é muito bonito, mas ninguém faz nada!"...
Ok, já compreendi porque razão tinha que vir escrever... Havia que libertar isto antes de me deitar, senão corro o risco de amanhã acordar com fungos na pele, tanta é a escumalha de pensamentos podres que trago comigo... Seremos nós, humanidade, como um pomar onde já não há frutos sadios, somos apenas um frutos podres?
Lembro-me de Ghandi dizer para sermos a mudança que desejamos ver no mundo... Ok, concordo... Mas, com todo o respeito, honrando e homenageando o seu triunfo, o que lhe aconteceu? Um fanático matou-o... E o resultado? Ok, a Índia ficou "independente", mas e agora? Armas nucleares, conflitos religiosos (puf, e isto nunca mais acaba), fome, miséria, maus pilotos de Fórmula 1 e vendedores de flores (com este humor, nunca hei-de ser levado a sério)...
Agora a sério... De tantas e tantas personagens com ideias fantásticas, uns mais conhecidos que outros, que passaram por este planeta, durante séculos, qual o saldo? Somos melhores? Os passos que damos são mais ponderados? Existe uma melhoria global? E a tendência é melhorar?
Seremos nós, enquanto humanidade, um solo infértil onde nem as sementes espalhadas por "grandes personagens" conseguem germinar?

De nossa alma

Creio que foi a primeira vez... Sim, foi, de facto, a primeira vez que escrevi algo por "encomenda", algo meu, para transmitir sentimentos de outros em relação a outros... Complexo, não é? À falta de um postal para entregar num casamento ao qual ia minha irmã, ofereci-me para fazer um poema... Inusitado...
Deitei-me na cama comecei a escrever. Conheço bem a minha irmã, tal como conheço a pessoa para quem era o poema, são amigas desde crianças e eu acompanhei o crescimento de ambas, o que facilitou a saída da mente para a infância delas e o acompanhar dos trajectos para a escola primária, a frequência de escolas diferentes em determinada altura, a partilha de sonhos, belos, e os restantes elementos inerentes à maioria das pessoas, amigas... Fechei os olhos e lá estava eu, na mente de uma, na mente de outra... As palavras nem sempre conseguem exprimir o que se sente, muito menos quando se tratam de sentimentos de outras pessoas, experiência sempre subjectiva... Solução? Compreender e sentir à minha maneira, sui generis por sinal, abrir os olhos e permitir que os sentimentos que, então, vogavam pelo meu quarto, pairando sobre mim, espreitando outros timidamente ao fundo da cama, falassem o que desejavam... E assim nasceu um poema... Que é a fala de uma amiga para outra, que começa por escrever como se fosse criança, explicando enquanto criança o sonho, o caminho para a escola, o portão de entrada para a vida, as fantasias usuais das crianças... Para pairar em diálogos submersos na adolescência e desaguar, lentamente, com a chegada de pessoas distintas nas suas vidas, que agora culmina numa cerimónia... Li e reli o poema... Já deixei de o reler, pois encontro sempre coisas que desejaria substituir... Fico sempre com a sensação que poderia ter escrito outras coisas, pois novas e outras sensações surgem... E é aqui que me apercebo que, afinal, nunca conseguirei escrever tudo o que vejo e sinto... Não consigo deixar de me apaixonar pela vida, apesar de muitas e variadas vezes não a compreender, pela sucessão dos dias que nas suas poucas 24 horas muito me trazem, de sentimento, de alegria, de tristeza, de dor, de felicidade... E perdido que estou, muitas vezes, na experiência de omnisciência, percebo num mero poema o porquê de vivermos, o porquê de sentirmos, o porquê de aprendermos, no meio de tantas dúvidas (meu deus, basta ver o telejornal para que as dúvidas surjam) a certeza de um só segundo encerrar momentos de profunda eternidade... E é agora, creio, este sentimento de felicidade interna, o momento em que mais frustrado (não é este o termo, mas não encontro melhor) me sinto, por não conseguir passar para palavras, apenas viver...
Apenas este sono que é a vida, com duração desconhecida ao início, aproximadamente 75 anos, permite-nos degustar todos os sabores que não conseguiríamos "acordados"... Que dúvidas me assaltam! Não dúvidas... São, digamos, incompreensões... Incompreensão deste conceito de vida, de eternidade, de momentos internos e externos, a dicotomia que se quebra, a porta aberta que é a ciência, esta época em que as pessoas se sentem insatisfeitas e buscam conhecimento, facultado por elas mesmas... Que plano será este? Ou falta de plano será este? Bem, ficará para outro post...

Os muros eram altos,
distantes
e até a vida
parecia longe demais a nossos olhos,
pequenos
e sonhadores.

Os caminhos,
vastos e longínquos,
onde a amizade
despreocupadamente
cresceu,
como uma pequena nuvem,
vogando
feliz,
no céu…

As letras
e os livros,
as histórias
e os sonhos,
o sorriso que ao horizonte brilha
nos passos partilhados
a crescer,
sou eu de mim
parte de ti,
que sorrir e partilha
uma vida,
como esta flor
nos jardins da amizade
ainda a crescer…

E agora,
mais baixos os muros,
ladeiam caminhos
vastos ainda,
que tornam o amanhecer mais próximo
do olhar,
e se a vida,
ainda que mais perto,
outras veredas nos fizer percorrer,
guardo na palma da minha mão
os mesmos olhares,
maiores,
ainda sonhadores.

Não há distância
ou horizonte
que se imponha,
ou esmaecer a minha vida consiga,
pois aqui,
no peito,
guardo a pérola
de te saber
amiga…

E eis que a vida,
serenamente,
traz alguém
ao teu destino,
novos sonhos nascem
e desaguam nas vossas mãos
que se unem, hoje,
na foz,
a jusante da felicidade.

São agora os caminhos
ainda mais vastos
nos vossos passos confiantes
e seguros.

Olhos húmidos
acompanham-me a boca
que nada diz.

Enquanto o Sol parece iluminar
cada vez mais
a vossa felicidade
de amantes e aprendizes,
nossa alma tem um só murmúrio:
Sejam felizes!

2006-05-11

Noites tresmalhadas

Tinha na visão um mar,
salgado,
com lágrimas prenhes
de gritos a sufocar.
Os braços,
pendentes no desânimo,
acompanham o cair do dia
nas sombras
que a desilusão cria
ao acordar.

As letras,
longas companheiras,
ficam mudas
respeitosamente,
não há vida que cresça
no deserto
que é um coração vazio,
nem abraços
imaginários
que mutilem a dor
e acalmem
estes vultos,
que são das noites tresmalhadas
o pastor.

Esboço
e caio a vida
numa matiz plausível,
"cor dos sonhos!"
chamam-lhe as estrelas
na esteira da Lua que sorria,
pois mesmo cansado todo este corpo
meus olhos
decidem ver sempre
a alegria.

Tresmalhadas
minhas mãos,
vazias,
voaram sobre o silêncio
e calaram a noite,
galgaram veredas
e enseadas,
para que as palavras morrentes
dedilhadas em Sol
fossem mais
que uma canção.

Talvez,
talvez o silêncio
e o sorriso que acordam
a constelação
onde nasceu,
sejam,
apenas,
um ténue farol
abandonado,
para quem de si
se perdeu...

2006-05-10

Folhas vagas

Parados,
enlameados pés rescindem
com o sonho,
que brilha agora noutros olhos
e alimenta
algures
alguém.

A voz no cansaço,
ofegantes
encontram-se a caminho da vida,
reciclados,
pelas melodias trémulas
e silenciadas
por um dedo,
quase veneradas,
quase amortalhadas.

O círculo aperta
mentes fabricadas
e vozes inconstantes e alertas,
salivam-se palavras,
que caem e batem
num murmúrio aflito
ainda abertas
no frio chão de folhas de plátano.

E enquanto a mim não chegam
novas faces de gente,
velha
e puída,
guardo na retina o tacto
das mãos quentes
na vida
fria...

2006-05-09

Esclarecimento (e a verdade)

Longe de mim pretender incutir algum cunho religioso, místico ou parassintético :) a este blog...
Postei o texto anterior porque na sua essência é belo, verdadeiro e real e, talvez por isso, tenha o condão de despertar bons e menos bons sentimentos nas pessoas.
A verdade tem este poder, arrebata-nos, procurámo-la, mas sempre com a particularidade de só a desejarmos se, de facto, for a nosso favor... Quem não conhece pessoas que não vão ao médico, apenas porque têm medo de descobrir que têm alguma doença? Verdade? Nops, apenas ignorância... Quem não conhece pessoas que se refugiam nos seus dogmatismos, apenas porque a verdade (uma nova verdade) pode destruir os alicerces com que construiu o seu mundo?
Olhando para trás, retrospectivamente, na história humana, contemos: de quantas verdades absolutas foi o homem feito? Nenhuma... No entanto, comportámo-nos como se tudo o que sabemos neste momento fosse o auge da procura do ser humano enquanto civilização, enquanto que há algumas décadas apenas defendíamos que: "Voar? Isso está reservado aos anjos. Se Deus quisesse que voássemos tinha-nos provido de asas!". Quem afirmou isto foi o pai dos irmãos Wright, profundamente religioso, não sabendo que o seu dogmatismo tinha despertado nos filhos a vontade de conquistar os céus...
Não percebo nada disto, admito-o, mas devemos estar preparados para ouvir e aceitar (nunca subjugando-nos) a novas verdades... Mas, infelizmente, estas mãos invisíveis tapam-nos a visão, atirando-nos para uma poltrona e assistindo a pseudo-programas televisivos e temas-título de jornais e revistas apenas interessados numa coisa: a emoção humana... Condensada, a emoção humana teria mais força que várias bombas atómicas... Quem não conhece crianças que jubilam apenas por assustar alguém? E o que a move? A emoção, o medo que a outra pessoa sente...
Verdade significa, no meu entender, uma mente sólida e aberta, para não vacilar ao menor vento de mudança, mas também para não estagnar no lodo espesso das verdades absolutas e instituídas...
Verdade é ser livre... Diria mais, verdade é sermos nós mesmos.