2006-06-12

Mais

Há segredos
que velam pela vida,
quantas verdades
se escondem
em mentiras,
que olhos
julgaram ouvir
como um eco,
das mãos rugosas,
que embalam
o chamado
da face direita,
entre dias que vivem à noite.

As linhagens
dos sorrisos voadores
pereceram
com o tempo,
que esvaiu
na fina camada do olhar.

Quando
oblíquos tesouros
me chamam no sonho
já eu sou das estrelas
e das nuvens
que embaçam a retina,
lá,
onde eu sou mais eu
e as vozes díspares
se calam,
no emaranhado
e confuso
pleonasmo,
de viver uma ilusão.

Lá,
onde eu sou mais...
Mais de mim mesmo...

2006-06-08

Sorrisos suspensos

Voltei
da vida
a tempo do medo pontapear,
enquanto degraus sustinham
um passadiço
para o errante
se afogar,
que há ainda quem cante
nas costas do olhar
um velho
suspiro mortiço...

2006-06-07

Sorrisos escorpiões

Ainda que tivesse
três estrelas
e um quarto
de Lua minguante,
jamais o dia
serão seria,
porque em cada pedra
há um escorpião
e em cada sorriso
um senão,
que a vida escalda
e dilui
cada suspiro
no coração...

2006-05-30

Sorrisos amordaçados

O segredo
encontrou caminho até mim,
pela noite
amordaçando o medo,
que silenciava a noite
e dava voz
à imaginação,
chamou-me do fundo dos sonhos
onde me encontro
ausente
e deu-me um abraço
longínquo
e cansado.

Os degraus
flutuaram na arcádia
e os sorrisos,
errantes,
deambulavam de face
em face
enquanto
não acordava a rispidez,
dialogou
com as paredes
caiadas
de mãos sem gente,
serpenteou
nos ângulos da rigidez
e assobiou,
como criança traquina
em olhar
de imaginário
nas mãos vazias do ardina.

Há cenários
cujas peças nunca iniciarão,
há actores
cujas vestes nunca utilizarão,
há rostos
cujos sonhos nunca sorrirão
e isto amordaça
meu coração…

2006-05-27

Tardes diluídas

As mãos
sobre o dorso
de um animal
cansado,
assim é a vida
em mim.

O pulsar
das nuvens que rasgam
o céu,
o latejar
da terra molhada no Verão,
o dia calado
e inquieto,
acordado pelo latir
sussurrado
de cães vadios
de carinho,
assim é a noite
em mim…

As faces,
sempre as faces,
fechadas sobre elas,
prenhes
de ânsia e medo,
alegria
e dor,
coragem e desalento,
cândido confidente
assim é o vento
em mim.

As mãos secas,
gretadas pela terra arada
e as silvas
que despontam ao desafio,
as vozes desconhecidas
em faces familiares
que se cruzam comigo,
os lúgubres muros
que albergam murmúrios
meus
em tardes de criança,
quão longe vai
o fio de Ariadne que partiu
sob o peso de um voo
que sorriu,
ainda elas, as mãos,
vazias de fugaz
e de vida que fui,
porque cheias de sonhos.
Assim é a desilusão
que me dilui…

2006-05-25

Pause

Pousei a bagagem
e a vontade de ser criança,
dos caminhos repetidos
e cansados
pendiam rugas
e fuligem,
há estradas que cruzam
o horizonte
na distância de duas lágrimas...

2006-05-17

Canoa doutra imensidão

As faces encontraram-se,
até as mãos
vazias
fitaram a noite,
que subia
escondida dos olhares
soturnos
que atacam
em pleno dia.

Somos mais
que uma canoa vaga
e fugaz,
onde o horizonte
é o verde dos olhos
frustrados,
que mais além
é o mundo dos sonhos.

Na canoa transporto
pão,
uns quantos passos
por mergulhar
e um sorriso,
que nem o peso do dia
sobre as nuvens
pretas
consegue retirar.

Sou do mundo adormecido,
as mãos seguem o reflexo
da vida
nas ondas deste lago
de ilusões,
os olhos cansados
miram ainda
(ainda…)
a centelha de solidão
que carrega a noite.

A vida,
ah,
a vida não é mais
que um infinito,
dentro doutra imensidão.

Há quem lhe chame coração…

2006-05-15

Casta de solidão fugidia

Os meus posts podem, eventualmente os últimos, levar alguém a pensar que perdi a esperança no mundo e nas pessoas... Nada disso... Apenas olho, cansado, e admito, talvez pela primeira vez, que afinal o caminho não é tão plano ou isento de obstáculos, mas sim tortuoso que, penso, apenas uma "empreitada" diferente poderia modificar... Mas isso são outras histórias...
A agressividade com que as pessoas defendem os seus pontos de vista, leva-me a pensar que, de facto, talvez estejam a defender a segurança que sentem à sombra de determinado ideal e não o ideal em si... Mas isto, também, pertence a outro stock de histórias...
Hoje dei por mim a ver o telejornal, e eis que surge a notícias que todos aguardam... Vêm aí os incêndios, sim, os incêndios! A nova brigada da GNR está a postos, os bombeiros (o sindicato, porque os bombeiros propriamente ditos, esses "só" andam lá "vida por vida") não gostam, uns dizem que vai ser melhor o combate, outros que será pior... Bem, creio que poderão aferir em breve se de facto assim será, pois passei por três incêndios em 20 quilómetros... Coitadito de mim, andei para aí a pensar que não existia nada mais para arder, mas afinal estava errado... Sim, arde e arde bem! E lá vou eu, lacrimejando por causa do fundo e da tristeza arrebatadora que sinto ao ver arder as árvores, os ninhos, os bichos... Mas pouco importa as pessoas que perdem terra, os animais que perdem a vida, interessa sim saber quem ganha, ou seja, quem tem razão? A energumeneidade...
E nem de propósito, estou a ouvir "Asa branca" cantada pela Isabel Silvestre (CD "A Portuguesa")...
Tenho a meu lado um recorte de um jornal ("JN" de Domingo) sobre um pastor... Li e reli, com enorme prazer... E tornei a ler :)
E lembrei-me de um episódio, há alguns anos, ao ver uma vindima. Uma senhora idosa correu a apanhar as uvas e o vinho que tinha caído de uma cesta de vindima, que se virou... Foi vulgar, eu sei, mas naquele gesto estava um carinho e um desespero sem par... O esforço que se faz para extrair da terra o pão, o sustento... O carinho de fazer crescer com as mãos...
Não sei porque raio escrevi isto... Serviria de mote para escrever um poema e, lá, inserir todas as emoções que quero, mas não o faço...
A minha cabeça dava uma novela... Puxo o cordão e logo vem um novelo... Sai um episódio e entra outro... Era mais novo, cerca de 16 anos... Fui com o meu pai a uma quinta antiga, com uns portões enormes de madeira (podre), com adega, estábulos e uma casa pequena... Creio que o resto da quinta já tinha caído. Morava lá uma senhora com 80 anos, velha, de idade e aparência. O meu pai foi contratado pelos filhos, dois, um médico e outro não sei o que faria... A senhora, enquanto o meu pai preparava uma fechadura no pequeno cubículo que era o quarto dela, contou que os filhos levaram-na para um apartamento, no Porto, mas que ela disse-lhes que se atiraria da varanda (5º andar) se eles não a levassem para casa... E assim eles a trouxeram, para aquele quarto, com uma cama que ela partilha com as galinhas e as canecas de metal que enche com um café mais preto que a noite escura e com muita borra... O cheiro não era dos mais agradáveis, mas havia algo naquele local que me emocionava bastante... E ainda o faz quando o meu pensamento visita aquele local... Basta fechar os olhos para ir lá e recordar os degraus, os portões velhos (apesar de os termos posto novos), a adega, as galinhas em cima da cama... Sorrio ainda ao recordar-me da senhora a subir a custo so degraus, a levantar e pousar o fervedor com o café, a falar com as galinhas... E dou por mim a querer fazer algo pelas pessoas assim... Quando na verdade, a "única" coisa que podemos fazer por alguém é sermos nós mesmos... E quando somos nós mesmos somos amor.
E para finalizar, lembro apenas dois episódios (para terminar a telenovela) quando o meu pai falou, meio a brincar, que estava velho (deveria ter na altura uns 40 e qualquer coisas anos) e ela disse: "oh jovem, você à minha beira é um bebé" e foi assim que ela disse que tinha 80 anos (mais qualquer coisa, mas não recordo com precisão). Depois, sob o calor, a senhora ofereceu-nos vinho, eu não bebo, mas o meu pai aceitou e ela, com as suas mãos muito enrugadas, foi ao barril, pegou numa caneca de metal que estava em cima do pipo e, com a outra mão, abriu a torneira de madeira e o vinho caiu na caneca, fazendo espuma... Ela ofereceu a caneca ao meu pai e disse: "se calhar tem nojo de uma velha como eu, mas só tenho esta caneca", o meu pai sorriu e apenas disse "por amor de deus", pegando na caneca e bebendo o vinho. Quando pousou a caneca vi que tinha sobrado um pouquito de vinho. Esperei que eles saíssem e, decidido, fui provar o vinho, para matar a sede, mas também para ver a que sabia (era novo... nada de álcool, ok?)... E sabia a algo estranho... Vindo das mãos daquela senhora, velha, daquele ser humano com uma placidez no olhar fantástica... Degustei o melhor que sabia, mas percebi desde logo, aquilo era vinho diferente... Deveria ser de uma casta nova... E quando vi a senhora, fora da adega, a ver o meu pai trabalhar e a sorrir, percebi que aquele vinho era vida, era de uma casta de solidão fugidia.

2006-05-14

De profundis


Ia deitar-me, mas esta vontade ou necessidade de escrever algo chamou-me aqui, ao computador...
Quando eu pensava que não se podia descer mais baixo, eis que a espiral descendente dá meia dúzia de tropeções e estende-se ao comprido...
Andei um pouco a pé (está frio como o chêbas) e isso permitiu-me colocar algumas ideias no sítio... Acho que a noite tem um efeito em mim como a água das pedras, as bolhinhas vão subindo até chegarem ao topo e rebentaram. Isso acontece-me, nomeadamente com várias ideias e pensamentos... Confesso que tenho uma má digestão para o que de (muito) mau se vê por esse mundo fora, o que faz com que tenha que sair, olhar a Lua e digerir da melhor forma... As reacções são, por vezes, díspares; o resultado podem ser umas lágrimas, umas sonoras gargalhadas ou uns tímidos sorrisos, um arroto bem português e ficamos por aqui ;)
O barómetro da sociedade tem como fundamentos alguns pressupostos que me deixam se não perplexo, pelo menos atónito (ora aqui está um ex-libris deste blog). Uma pessoa é pessoa se tem prefixo. Se não tem, deve então ter uma profissão de algum destaque (nada de trolha, carpinteiro, florista ou canalizador) e, preferencialmente, bem remunerada, se assim não for, então o melhor será encontrar algo que camufle bem o interior e permita exibir sinais exteriores de "bom viver" (roupa de marca, calçado de marca, óculos de marca, malas e acessórios de marca, cinto de marca, relógio de marca, tudo obviamente misturado com os tons/tendências da moda - isto explica o porquê de andarem todos vestidos de igual, com o mesmo penteado, com os mesmos vernáculos e a ouvirem as mesmas músicas). A pessoa pode associar as duas coisas: ter um prefixo (religioso, profissional, monárquico, etc.) e ganhar muito bem e aí é imbatível, excepto quando surge alguém com uma formação superior ainda superior a ganhar muito, mas mesmo muito dinheiro... Por isso convém ter um plano B, isto é, ter algo que mais ninguém tenha ou que seja de muito difícil aquisição, tipo uma viagem à quinta gruta a contar do 5º meridiano para a direita de Greenwich que nunca tenha sido anunciado em lado algum, ou tocar um instrumento celta em forma fálica (isto afasta muita gente)...
Levo isto na brincadeira, felizmente encontro pessoas tão boas, tão grandes enquanto "gente" que me fazem ganhar esperança que um dia as "coisas" mudem...
Existe também uma certa tendência para exagerar nas reacções, dos mais pessimistas-extremistas (isto está cada vez pior) aos mais optimistas-maioneseiros (é só amor, só amor)... Nada de mal contra as posições de cada um, aliás, defendo diferentes posições desde que li/vi o Kamasutra... No entanto, encontro as pessoas tão rígidas (agressivamente ou passivamente) que me faz uma certa confusão e me leva a desiludir quanto a um rumo diferente para nós enquanto espécie...
Por vezes imagino que tudo isto é um sonho... Que estou a sonhar... E isso reconforta-me, imagino que daqui a pouco acordo, sento-me na cama, tremo um pouco de frio, levanto-me e vou à casa-de-banho, abro a torneira da água fria e com as mãos em concha ergo água à cara, lavando-a e, depois, olho para o espelho, sorrio e digo para mim mesmo: que sonho estranho! E saio por aí fora contando aos meus amigos que tive um sonho surrealíssimo, onde estava num planeta com uma humanidade irreal, um planeta onde a meros metros poderia estar alguém a morrer à fome que ninguém fazia nada, onde se matava com a mesma facilidade com que se estala um dedo... Brrr... Um arrepio na espinha e o desejo de jamais ter aquele sonho acordam-me ainda mais...
Mas não é um sonho...
Aflige-me a falta de um plano a nível global para a humanidade enquanto espécie, não só pelo facto de ser humano, mas pelo facto de não termos nada contra nós neste berlinde azul, não termos para onde ir e continuarmos com agressões bárbaras aos nossos semelhantes, sejam físicas, intelectuais, emocionais... Talvez eu esteja errado. Eventualmente todos os seres humanos acreditarão numa vida depois da morte e, então, caminhem a passos largos para se autodestruirem e, assim, entrarem no reino dos céus ou algo que o valha...
O facto de não existir o mínimo interesse de quem nos governa num plano mais global não me surpreende, mas fico estarrecido de medo com o facto de não existirem amostras microscópicas de as pessoas/gente/maralha desejarem um futuro diferente, um mundo mais equilibrado, justo, habitável e respirável... Olho pela janela, a Lua já saiu do meu horizonte e ao longe vejo algumas luzes dos postes de iluminação da estrada que vai para Paredes. Penso que aquela estrada, que dá ligação a minha casa, também dá ligação para outras casas/barracos/brejos/lugarejos/céus estrelados onde se morre por fome... Fome!!! E enquanto comemos, à mesa, e vemos o telejornal, mastigamos gulosamente um qualquer naco de uma carne transgénica ou com uma gripe qualquer e nem reparamos nos olhos fundos e nos braços esqueléticos de uma criança com 2 minutos de esperança de vida. E se reparamos, é para mudar de canal imediatamente, porque a visão das moscas tira-nos o apetite...
Tenho nojo, confesso... Tenho um asco visceral pela ausência nos nossos corações de uma fraternidade salutar, ao contrário da solidariedade bacoca patrocinada pelos canais de televisão (ok, antes ínfimo que nada, mas querem tapar-me os olhos? Onde estariam os actos de solidariedade se as câmaras de televisão não estivessem presentes?)... Para onde caminhamos? "Não é meu problema..."; "E o que podemos nós fazer?"; "Isso é muito bonito, mas ninguém faz nada!"...
Ok, já compreendi porque razão tinha que vir escrever... Havia que libertar isto antes de me deitar, senão corro o risco de amanhã acordar com fungos na pele, tanta é a escumalha de pensamentos podres que trago comigo... Seremos nós, humanidade, como um pomar onde já não há frutos sadios, somos apenas um frutos podres?
Lembro-me de Ghandi dizer para sermos a mudança que desejamos ver no mundo... Ok, concordo... Mas, com todo o respeito, honrando e homenageando o seu triunfo, o que lhe aconteceu? Um fanático matou-o... E o resultado? Ok, a Índia ficou "independente", mas e agora? Armas nucleares, conflitos religiosos (puf, e isto nunca mais acaba), fome, miséria, maus pilotos de Fórmula 1 e vendedores de flores (com este humor, nunca hei-de ser levado a sério)...
Agora a sério... De tantas e tantas personagens com ideias fantásticas, uns mais conhecidos que outros, que passaram por este planeta, durante séculos, qual o saldo? Somos melhores? Os passos que damos são mais ponderados? Existe uma melhoria global? E a tendência é melhorar?
Seremos nós, enquanto humanidade, um solo infértil onde nem as sementes espalhadas por "grandes personagens" conseguem germinar?

De nossa alma

Creio que foi a primeira vez... Sim, foi, de facto, a primeira vez que escrevi algo por "encomenda", algo meu, para transmitir sentimentos de outros em relação a outros... Complexo, não é? À falta de um postal para entregar num casamento ao qual ia minha irmã, ofereci-me para fazer um poema... Inusitado...
Deitei-me na cama comecei a escrever. Conheço bem a minha irmã, tal como conheço a pessoa para quem era o poema, são amigas desde crianças e eu acompanhei o crescimento de ambas, o que facilitou a saída da mente para a infância delas e o acompanhar dos trajectos para a escola primária, a frequência de escolas diferentes em determinada altura, a partilha de sonhos, belos, e os restantes elementos inerentes à maioria das pessoas, amigas... Fechei os olhos e lá estava eu, na mente de uma, na mente de outra... As palavras nem sempre conseguem exprimir o que se sente, muito menos quando se tratam de sentimentos de outras pessoas, experiência sempre subjectiva... Solução? Compreender e sentir à minha maneira, sui generis por sinal, abrir os olhos e permitir que os sentimentos que, então, vogavam pelo meu quarto, pairando sobre mim, espreitando outros timidamente ao fundo da cama, falassem o que desejavam... E assim nasceu um poema... Que é a fala de uma amiga para outra, que começa por escrever como se fosse criança, explicando enquanto criança o sonho, o caminho para a escola, o portão de entrada para a vida, as fantasias usuais das crianças... Para pairar em diálogos submersos na adolescência e desaguar, lentamente, com a chegada de pessoas distintas nas suas vidas, que agora culmina numa cerimónia... Li e reli o poema... Já deixei de o reler, pois encontro sempre coisas que desejaria substituir... Fico sempre com a sensação que poderia ter escrito outras coisas, pois novas e outras sensações surgem... E é aqui que me apercebo que, afinal, nunca conseguirei escrever tudo o que vejo e sinto... Não consigo deixar de me apaixonar pela vida, apesar de muitas e variadas vezes não a compreender, pela sucessão dos dias que nas suas poucas 24 horas muito me trazem, de sentimento, de alegria, de tristeza, de dor, de felicidade... E perdido que estou, muitas vezes, na experiência de omnisciência, percebo num mero poema o porquê de vivermos, o porquê de sentirmos, o porquê de aprendermos, no meio de tantas dúvidas (meu deus, basta ver o telejornal para que as dúvidas surjam) a certeza de um só segundo encerrar momentos de profunda eternidade... E é agora, creio, este sentimento de felicidade interna, o momento em que mais frustrado (não é este o termo, mas não encontro melhor) me sinto, por não conseguir passar para palavras, apenas viver...
Apenas este sono que é a vida, com duração desconhecida ao início, aproximadamente 75 anos, permite-nos degustar todos os sabores que não conseguiríamos "acordados"... Que dúvidas me assaltam! Não dúvidas... São, digamos, incompreensões... Incompreensão deste conceito de vida, de eternidade, de momentos internos e externos, a dicotomia que se quebra, a porta aberta que é a ciência, esta época em que as pessoas se sentem insatisfeitas e buscam conhecimento, facultado por elas mesmas... Que plano será este? Ou falta de plano será este? Bem, ficará para outro post...

Os muros eram altos,
distantes
e até a vida
parecia longe demais a nossos olhos,
pequenos
e sonhadores.

Os caminhos,
vastos e longínquos,
onde a amizade
despreocupadamente
cresceu,
como uma pequena nuvem,
vogando
feliz,
no céu…

As letras
e os livros,
as histórias
e os sonhos,
o sorriso que ao horizonte brilha
nos passos partilhados
a crescer,
sou eu de mim
parte de ti,
que sorrir e partilha
uma vida,
como esta flor
nos jardins da amizade
ainda a crescer…

E agora,
mais baixos os muros,
ladeiam caminhos
vastos ainda,
que tornam o amanhecer mais próximo
do olhar,
e se a vida,
ainda que mais perto,
outras veredas nos fizer percorrer,
guardo na palma da minha mão
os mesmos olhares,
maiores,
ainda sonhadores.

Não há distância
ou horizonte
que se imponha,
ou esmaecer a minha vida consiga,
pois aqui,
no peito,
guardo a pérola
de te saber
amiga…

E eis que a vida,
serenamente,
traz alguém
ao teu destino,
novos sonhos nascem
e desaguam nas vossas mãos
que se unem, hoje,
na foz,
a jusante da felicidade.

São agora os caminhos
ainda mais vastos
nos vossos passos confiantes
e seguros.

Olhos húmidos
acompanham-me a boca
que nada diz.

Enquanto o Sol parece iluminar
cada vez mais
a vossa felicidade
de amantes e aprendizes,
nossa alma tem um só murmúrio:
Sejam felizes!

2006-05-11

Noites tresmalhadas

Tinha na visão um mar,
salgado,
com lágrimas prenhes
de gritos a sufocar.
Os braços,
pendentes no desânimo,
acompanham o cair do dia
nas sombras
que a desilusão cria
ao acordar.

As letras,
longas companheiras,
ficam mudas
respeitosamente,
não há vida que cresça
no deserto
que é um coração vazio,
nem abraços
imaginários
que mutilem a dor
e acalmem
estes vultos,
que são das noites tresmalhadas
o pastor.

Esboço
e caio a vida
numa matiz plausível,
"cor dos sonhos!"
chamam-lhe as estrelas
na esteira da Lua que sorria,
pois mesmo cansado todo este corpo
meus olhos
decidem ver sempre
a alegria.

Tresmalhadas
minhas mãos,
vazias,
voaram sobre o silêncio
e calaram a noite,
galgaram veredas
e enseadas,
para que as palavras morrentes
dedilhadas em Sol
fossem mais
que uma canção.

Talvez,
talvez o silêncio
e o sorriso que acordam
a constelação
onde nasceu,
sejam,
apenas,
um ténue farol
abandonado,
para quem de si
se perdeu...

2006-05-10

Folhas vagas

Parados,
enlameados pés rescindem
com o sonho,
que brilha agora noutros olhos
e alimenta
algures
alguém.

A voz no cansaço,
ofegantes
encontram-se a caminho da vida,
reciclados,
pelas melodias trémulas
e silenciadas
por um dedo,
quase veneradas,
quase amortalhadas.

O círculo aperta
mentes fabricadas
e vozes inconstantes e alertas,
salivam-se palavras,
que caem e batem
num murmúrio aflito
ainda abertas
no frio chão de folhas de plátano.

E enquanto a mim não chegam
novas faces de gente,
velha
e puída,
guardo na retina o tacto
das mãos quentes
na vida
fria...

2006-05-09

Esclarecimento (e a verdade)

Longe de mim pretender incutir algum cunho religioso, místico ou parassintético :) a este blog...
Postei o texto anterior porque na sua essência é belo, verdadeiro e real e, talvez por isso, tenha o condão de despertar bons e menos bons sentimentos nas pessoas.
A verdade tem este poder, arrebata-nos, procurámo-la, mas sempre com a particularidade de só a desejarmos se, de facto, for a nosso favor... Quem não conhece pessoas que não vão ao médico, apenas porque têm medo de descobrir que têm alguma doença? Verdade? Nops, apenas ignorância... Quem não conhece pessoas que se refugiam nos seus dogmatismos, apenas porque a verdade (uma nova verdade) pode destruir os alicerces com que construiu o seu mundo?
Olhando para trás, retrospectivamente, na história humana, contemos: de quantas verdades absolutas foi o homem feito? Nenhuma... No entanto, comportámo-nos como se tudo o que sabemos neste momento fosse o auge da procura do ser humano enquanto civilização, enquanto que há algumas décadas apenas defendíamos que: "Voar? Isso está reservado aos anjos. Se Deus quisesse que voássemos tinha-nos provido de asas!". Quem afirmou isto foi o pai dos irmãos Wright, profundamente religioso, não sabendo que o seu dogmatismo tinha despertado nos filhos a vontade de conquistar os céus...
Não percebo nada disto, admito-o, mas devemos estar preparados para ouvir e aceitar (nunca subjugando-nos) a novas verdades... Mas, infelizmente, estas mãos invisíveis tapam-nos a visão, atirando-nos para uma poltrona e assistindo a pseudo-programas televisivos e temas-título de jornais e revistas apenas interessados numa coisa: a emoção humana... Condensada, a emoção humana teria mais força que várias bombas atómicas... Quem não conhece crianças que jubilam apenas por assustar alguém? E o que a move? A emoção, o medo que a outra pessoa sente...
Verdade significa, no meu entender, uma mente sólida e aberta, para não vacilar ao menor vento de mudança, mas também para não estagnar no lodo espesso das verdades absolutas e instituídas...
Verdade é ser livre... Diria mais, verdade é sermos nós mesmos.

2006-05-05

Discurso do Dalai Lama

Esta noite, gostaria de falar convosco sobre a importância da bondade e da compaixão. Ao discutir esses temas, não me vejo como budista, Dalai Lama ou tibetano, mas sim como um ser humano e espero que vocês, no auditório, pensem em vocês mesmos dessa maneira. Não como americanos, ocidentais ou membros de um determinado grupo, pois essas condições são secundárias. Se interagirmos como seres humanos, podemos chegar a esse nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou budista", as afirmações serão, em comparação com a minha natureza de ser humano, temporárias. Ser humano é básico. Uma vez nascido assim, não se poderá mudar até à morte. Outras condições, ser ou não instruído, rico ou pobre, são secundárias.

Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de ideologia, religião, raça, situação económica ou outros fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em níveis mais profundos. Em nível humano, condição essa que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na confiança mútua, na compreensão, no respeito e na solidariedade, independentemente de diferenças culturais, filosóficas ou religiosas.

Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito a isso. Por outras palavras, é importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família humana. O fato de brigarmos uns com os outros deve-se a razões secundárias, e todas essas discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para se ferirem uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram, resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança. E, consequentemente, em mais divisões.

O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos, particularmente o económico. Os países estão mais próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário pensar mais em nível humano do que em termos do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam a escutar com o pensamento: "Sou um ser humano e estou a ouvir outro ser humano falar".

Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o objectivo de alcançá-la, entretanto, devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não solucionará os problemas maiores.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado de progresso material, que é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão resolvidos, se não procurarmos desenvolver o nosso interior.

No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local, ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido usada. Embora possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o ódio não são meios para solucionar problemas.

A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua reacção for semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá gradativamente. Do mesmo modo, problemas mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor, compaixão e pura bondade.

Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria força. A responsabilidade permanece na nossa mente, de onde se comandam as acções. Portanto, controlar em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou a falar de meditação profunda, mas apenas de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres humanos.

Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranquilidade, mas por causa da ignorância somos acometidos por sentimentos como esses. A raiva faz-nos perder uma das melhores qualidades humanas, o poder de discernimento. Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não têm. Esse órgão permite-nos julgar o que é certo e o que é errado. Não apenas em termos actuais, mas em projecções para daqui dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar o nosso bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos. Contudo, se a nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de discernimento e tornar-nos-emos mentalmente incompletos. Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos que criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da bondade. Se refletirmos a respeito dessas questões com frequência, podemos incorporar a idéia e, então, controlar a mente.

Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e consciencialização, isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado durante dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente. É o que penso e também o que pratico.

É perfeitamente claro que todos necessitam de paz interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da compaixão. O resultado é uma família em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre casais. Numa nação, essa atitude pode criar unidade, harmonia e cooperação com saudável motivação. A nível internacional, precisamos de confiança e respeito mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas. Tudo isso é possível.

Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes têm feito o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este, surge mais um noutro lugar. Chegou o momento então de tentar uma abordagem diferente.

É certamente difícil realizar um movimento mundial pela paz de espírito, mas é a única alternativa. Caso houvesse outro método mais fácil e prático, seria melhor, porém não há. Se com armas pudessemos chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva paz, mas tal é impossível.

As armas não permanecem empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da transformação interior. E, mesmo que essa transformação não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que, apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco de que tal visão seja considerada pouco realista, vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá, expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque mais pessoas têm sido receptivas a elas.

Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com o seu bem-estar. Mesmo que você não possa sacrificar-se inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar os seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão, em última análise, você é quem irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. O nosso próprio cérebro, o nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade.

Dalai Lama

Pseudo-conquistas

Está tudo tão habituado a querer grandes conquistas, que não reparam nas pequenas oportunidades que levam às grandes (e verdadeiras) conquistas.

2006-05-04

Obrigado

Dou por mim sentado, como sempre, a olhar para o monitor e a sorrir.
As ideias vão passando à minha frente e eu leio-as, revejo-as, algumas estavam já esquecidas. Outras fazem-me emocionar serenamente, de alegria. Fico perdido entre o que vejo e tento escrever tudo ao mesmo tempo, num só parágrafo, mas não consigo, porque mal começo a escrever algo, surge nova ideia e/ou episódio associada/o e tento fazer a conexão, saltando de uma história para outra, num enredo digno de uma novela, dessas novas que se fazem, que duram catrafadas de anos...
Vejo todas as imagens e por vezes sinto-me como se as visse no final desta etapa... Penso no que mudaria em relação a tudo o que fiz até aqui, mas também no dia-a-dia (é um bom exercício para antes de dormir). E em certas ocasiões o que mais receio é não ter feito o melhor que podia...
Todos damos o nosso melhor, pelo menos acredito que assim seja, e todos vemos que poderiamos ter feito melhor em determinada situação, mas é sempre sob a luz do que já aprendemos até o momento actual, ou seja, o que fizemos era o que pensavamos ser melhor na altura, isso apazigua a alma e é, sempre, uma boa aprendizagem: fui por aqui e podia ter ido por ali ou fiz isto e mesmo pensando que poderia estar mal, fiz o correcto.
No entanto, há frases que tenho receio de vir a empregar, futuramente, lamentando várias coisas que, fruto de ignorância, possa vir a cometer, como por exemplo:
- não ter sido sempre o melhor amigo que sei ser;
- não ter sido sempre o melhor amante/namorado/marido que sei ser;
- não ter demonstrado às pessoas que estou presente;
- não ter seguido o meu caminho apenas porque as pessoas não o compreendiam;
- não ter parado para ajudar alguém, apenas porque não queria ou não tinha tempo;
- não ter dito, olhos nos olhos, verdades dolorosas, apenas para não magoar, sabendo que a veracidade, dita por um amigo sincero, nos ajuda a crescer;
- não ter acreditado nos projectos vários de vida, apenas porque tive medo de arriscar;
- não ter parado para apreciar uma paisagem;
- não ter mostrado em gestos e carinhos aos meus pais e irmã a gratidão de me terem gerado e dado vida a esta carcaça;
- não ter dito aos meus alunos (Rozém, Alpendorada e EB1's de Felgueiras, Paredes e Penafiel) que os amo, que aprendi mais com eles num ano do que em vários outros anos de vida;
- não ter feito e agido como queria, apenas por medo do ridículo;
- não ter validado informações e intuições, apenas porque seria visto de forma diferente;
- não ter defendido os meus ideais, apenas por serem diferentes dos vigentes;
- não ter saído semi-nu quando chovia torrencialmente, apenas porque não tinha "lógica";
- não ter falado com um deficiente, mendigo, velho, delinquente, prostituta, apenas porque eram rejeitados pela sociedade e esta poderia falar mal de mim;
- não ter seguido um rumo apenas para poder seguir outro que me desse o estatuto e reconhecimento, elevando-me na sociedade, comparando-me com outros;
- não ter ajudado baseado em juízos prévios de valor;
- não ter sido, sempre, eu mesmo.
São várias as coisas que nos podem vir a causar amargos internos...
Olho para trás e há, de facto, algumas coisas que não fiz... Mas essas mesmas coisas, para as quais olho sem emoção negativa, permitiram-me moldar e conhecer a mim mesmo, para que possa agora trabalhá-las e alterá-las, rumo a novos conhecimentos...
Sei que à lista enumerada anteriormente poderiam ser adicionados novos pontos, aqueles foram os que me lembrei e que espero nunca vir a pensar ou sentir na sua totalidade quando o meu corpo disser "já está, segue agora tu"
Mais uma vez escrevi sem ser isto que desejava... Estive a falar com uma antiga aluna minha, de Alpendorada, e senti uma imensa felicidade e saudade, mas uma saudade sadia, de saborear os momentos que passei na escola, a felicidade de ser eu mesmo e isso se reflectir na relação com eles... Olho para trás e recordo a emoção da missa de finalistas, o entrar na escola para o jantar/baile e ter alunos à minha espera para entrarem de braço dado comigo, os momentos em que eles me torravam a paciência nas aulas e eu simplesmente não conseguia cumprir o planeado, ou quando eu ia terrivelmente de mau-humor e eles, com as suas diabruras e o seu jeito de ser, me faziam sentir melhor, ou a cara de tédio deles quando eu passava algum tempo a dar teoria, ou quando dizia algo em calão e eles riam e ficavam admirados de um "prof" falar assim, ou quando eu desligava a internet para eles prestarem atenção e eles amuavam... Tantos e tantos momentos... Todos eles e elas seguem nos seus caminhos, eu tive a imensa felicidade de me poder cruzar com eles, de ver a minha vida partilhada com eles num ano lectivo, de ver, sentir e compreender as suas alegrias e frustrações e a imensa vontade de eu poder andar, de escola em escola, como escritor (tá bem táááá) a conversar com eles, a incentivá-los a serem eles próprios, a aceitarem a vida deles e meterem mãos à obra para a moldarem segundo o que têm de melhor, a amarem com todas as forças, a viverem e aceitarem os sentimentos, a nunca desesperarem quando a vida assim lhes pede... Temo que isto seja apenas um sonho lindo... Nada mais...
Et voilá, escrevi algo mais que não contava... E fico também com um sentimento de que tenho ainda tanto para escrever, sobre as aulas e não só, mas as minhas mãos pararam e olharam para mim, cansadas, abriram-se e algumas rugas formaram-se nas suas palmas, em cada uma está uma história, um episódio, narrativas em forma de amor, que desaguam no meu coração e bombeiam-me a alma de alegria. Obrigado.

2006-05-03

Até já

Podia ser plágio ao slogan da tmn, mas não é...
Passo o dia, ou melhor, os dias a anotar histórias que não são histórias, são apenas situações que vejo, na esperança de vir aqui, ao blog, e digitar alguma coisa... De facto, por vezes acontece, mas são mais as vezes em que não consigo escrever, seja por falta de inspiração (ou seja, quando expiro) ou por falta de tempo (que pode ser entendido como desorganização)...
Algumas histórias, apesar de anotadas, não têm história e permanecem apenas como título no meu caderno. Outras possuem, se não carne e osso, alma. Abro o caderno, coloco o título no blog e ali vou eu, mergulho numa espécie de espiral e aterro no local ou situação que anotei, depois saio, novamente em espiral, desta vez acompanhado pelas personagens e trazendo comigo os locais e cenários (
hum, talvez isto explique a sujidade que por vezes encontro por aqui) para o meu lado. Depois, bem, depois as personagens após eu narrar o que vi, ganham vida e salta da minha história construindo a sua, saltam entre a história fictícia e a real (a meus olhos), pincelando aqui e ali com palavras que algumas vezes não sei porque as escrevo, mas apenas me dizem que tem que ser assim... Mensagens para alguém, sem se saber quem (muitas das vezes para mim)...
São infinitos os caminhos para chegar ao coração das pessoas (um livro, uma música, um olhar, um sorriso, um gesto, um toque, um silêncio, um ouvir, um escrever, um falar, etc.) e desbravar caminho, para que possa, neles e em mim, brilhar o amor (que é afinal o que tento escrever) e a leveza de se ser quem é...
(o que disto é fictício é real)

2006-04-19

Paragens na vida

É difícil encontrar momentos em que a vida pára... Tal como me parece difícil lembrar e escrever tudo o que vejo e desejo colocar neste blog... Ficam os momentos que mais me marcam, quais marcas de varicela...
Um Mercedes, classe E, preto, parado à minha frente. Atrás de mim outros carros param. À esquerda um senhor, velhinho, com um chapéu (chamo-lhe chapéu de lavrador, sem saber qual o nome que deva atribuir) cinzento, camisa e camisola sem condizerem em termos de cor (segundo uma famosa socialite, e outras pessoas que tais, isto é trágico), tapadas por uma samarra (em plena Primavera... Bem, o que protege do frio protege do calor). O corpo curvado olha para o outro lado da estrada, onde se encontra um carro parado, com os quatro piscas ligados e uma senhora, mais nova, com olhar preocupado, estendendo o braço fora do carro em sinal de paragem. É uma curva. O Mercedes continua parado, eu também, assim como os outros atrás de mim. No outro sentido circulam vários carros, sem parar, rápido, rápido, rapido. Surge depois um momento em que não há carros a circular, a senhora do outro lado acena rapidamente, em sinal de "pode vir" e o senhor, idoso, idoso, idoso, começa a atravessar a estrada e, ao passar em frente ao Mercedes, levanta um pouco o chapéu em sinal de agradecimento, enquanto que a senhora do outro lado, agradece também ao condutor... O velhinho passou a estrada, o Mercedes arrancou numa nuvem de fumo negro, enquanto eu, atónito (como é frequente), via pedaços de vida cruzarem-se e mesclarem-se, unindo-se ao mesmo tempo que a vida, que a sociedade impõe, parecia tremer e degradar-se, caindo velhos painéis que são padrões enraízados, como fachadas de edifícios que caem e deixam ver outras paredes mais ricas... Mas a vida não é arqueologia ou gestão de património, nem algo que se pareça, não se compadece.
Acho interessante quando alguém encontra um pouco de tempo para parar e saltar desta vida, vivendo.

De novo nos CTT

Cada saída de casa, deambulando ou não pelas ruas desta vila e redondezas, proporciona-me visões de ternura e amor, carinho, medo e cansaço, todos eles enriquecedores...
Fui aos CTT, posto de Paço de Sousa (nós daqui, deste lado, chamamos-lhe "Espanhóis") enviar uma carta (comissão de festas oblige) e enquanto esperava, uma senhora falava com a menina dos CTT (ainda há pessoas simpáticas), tinha recebido e aberto uma carta dirigida a uma pessoa com o mesmo nome do marido, com o mesmo lugar, mas com uma freguesia diferente. A menina disse-lhe que deveria escrever no verso do envelope algo como "abri por engano carta enviada para o mesmo lugar onde resido" e assinar o primeiro e último nome... Depois a mesma senhora pediu se podia enviar umas "coisas" para a Suíça e tirou do saco uma pequena bolsa de plástico, transparente, com alguns parafusos. "A menina pode pôr a morada? Assim vai lá parar direitinha" e ao mesmo tempo que disse isto sorriu, coçou a cara com a mão direita num toque nervoso e de timidez, enquanto a menina dos CTT sorria, dizendo que sim, que o fazia, e olhava para mim sorrindo... São gestos pequenos, atitudes que parecendo ínfimas, que nos enaltecem aos sentidos aquilo que o ser humano, nós, temos de melhor, a ajuda ao próximo quando necessária... Temo que estas atitudes se vejam cada vez menos no geral, mas mantêm-se ainda nestes meios pequenos... E mais uma vez as estações de CTT proporcionam-me sentimentos de aconchego pessoal, de carinho entre pessoas... Readquiri a esperança num mundo melhor, feito por pessoas cada vez melhores.
Como vêm, não foi nada de mais..

2006-04-18

Atitude

Vinha aqui, prometi a mim mesmo e a quem me ouve quando falo sozinho, apenas para colocar uma fotografia... E não consigo... Sento-me, fico com sono, a cabeça ondula um pouco (felizmente não bebo) e logo esta sala ganha vida própria. As paredes começam a agitar, como se as visse através de um aquário, ondulam, possuem a sua forma, mas menos densa. Tenho vontade de tocá-las com um dedo, para aferir se estão mesmo num estado gelatinoso ou se eu me terei enganado nas ervas do chã... Mas não, é cidreira de facto na caneca "Sailing to Philadelphia-Tour 2004-Mark Knopfler"...
Permaneço assim algum tempo... Vejo o ondular das paredes, dos objectos e começo também a ondular, a sentir-me em estado gelatinoso (e não é falta de banho... Hum, talvez um pouco de banha)... Enquanto luto com a sensação de controlar o corpo físico, a necessidade de sentir que eu o domino, tudo à volta parece ganhar uma tonalidade mais clara, não brilhante ou daquele branco pregado pelos místicos, apenas mais clara... Abandonei a sensação de controlar o corpo, deixei-me seguir pela ondulação e, aí, tudo ganhou mais consistência. Tirando o facto de eu estar em pé, ou sentir-me em pé e ver-me sentado, tudo parece normal. As paredes deixaram de ondular... De facto, quando olho através delas, as mesmas parecem desaparecer... Não resisto e toco na parede. O meu dedo indicador entrou uns milímetros na parede e senti um pequeno formigueiro, algo frio, com a sensação que a parede existe, mas menos densa do que aquilo a que estou habituado. O computador continua a emitir os sons e a luminosidade, mas parece um pouco baço, obscurecido por algo que o cerca... Olho com atenção e vejo o que parecem ser pensamentos, enraízados... Consigo ver inclusive o que são... São emails... Centenas! Que permanecem agarrados ao computador, ao teclado, ao monitor... Passam sempre em claro quando limpo este velho companheiro... Pensei num pano e eis que o mesmo surge na minha mão translúcida... Nah... Não preciso de pano algum, sei que basta pensar e eles saem. E assim fiz, pensei no melhor para os pensamentos (que não faço ideia do que seja) e eles desvaneceram-se... Era emails, pensamentos e emoções ainda agregados ao computador que, coitado, não podendo limpar-se a ele mesmo, ao contrário de nós, que ainda fazemos um desporto ou um hobbie e esquecemos aquelas "formas", fica com aquela "sujidade" acoplada... Hum... Creio que consigo ver melhor agora os autocolantes, especialmente o "RFM-Mark Knopfler-Miguel Gomes" de que tanto me orgulho :)
Aproveito e percorro a casa, apercebendo-me melhor nos objectos e em mim mesmo, o quanto de mim não sou eu, o quanto de mim é também emocional que se colou... Hum, faz-me pensar... Atitude... Sim, atitude, é tudo o quanto é necessário... Para quem gostar de ser minimalista, pode simplesmente "ser" ao invés de seguir mestres e gurus, seitas e religiões, basta ser nós próprios para sermos autênticos, aceitando-nos para não necessitarmos de sermos aceites... O quanto nos tentam vender e convencer (com boa fé e intenção, acredito) que precisamos desta e daquela técnica, deste ou daquele curso, deste aquisição ou libertação de conhecimento, desta ou daquela cidade, deste ou daquele livro para obter qualquer resultado, para nos ajudar no que quer que seja... Nada de errado em livros ou técnicas, desde que utilizados porque assim nós queremos, não porque necessitemos, mas porque desejamos, porque nos facilita e catalisa o nosso processo, seja ele qual for: estudar, trabalhar, lavar a louça, montar uma porta, energizar-mo-nos, etc...
A leveza deste estado é incomparável e incompreensível... Creio até que o raciocínio toma outra dimensão, penso mais e além de mim mesmo, parece que os meus pensamentos se expandem pelo Universo...
Creio ter atingido o limite para esta noite... Auto impus um limite ao ver as horas... O meu corpo precisa de um descanso mais eficaz que digitar estas linhas enquanto uma outra parte de mim explora, novamente, este espaço...
Atitude... Sim, atitude...
Gostava de poder escrever sem limites, não me ver preso à velocidade a que os dedos conseguem premir um conjunto de letras, espaços e pontuações, mas deve ter o seu motivo... Escrever, falar, o que pensamos e vivemos faz-nos viver ainda mais convictamente o que se pensa, mesmo que por vezes seja para reciclarmos o que sabemos por algo novo, para aferirmos que as nossas velhas emoções estão gastas e não precisamos delas, quem diz emoções diz meias, calças, revistas... Não que não possamos continuar com elas, mas podemos não querer sentir e viver o que elas nos avivam...
Falar... Escrever... É difícil... É complicado, porque o que quer que possamos escrever pode ser subvertido, pode ser mal entendido e, assim, para não se ser mal entendido, há que escrever e negar, deixar sempre o leitor com a possibilidade de utilizar e/ou rejeitar o que lê...
Também dá mais autonomia, pois não se diz ou escreve: "é assim que deves fazer, comer, sentir, viver", mas sim "oh, sei lá, eu nem sou daqui, mas vê lá se faz sentido, para mim é válido, o que não quer dizer que para ti não seja, experimenta e depois ensina-me também"...
Por isso, sei lá, eu nem sou daqui... Ajuda-me a compreender cada vez mais, mas cuidado, não me venhas dar sermões se tu, primeiro, não aplicares algo novo, não me venhas falar com os braços cruzados, a cara carrancuda, dizendo apenas "oh, está mal, está errado", sem me explicares muito bem o porquê da tua exposição...
Às vezes confundi-mos teimosia salutar (cepticismo moderado ou apenas prevalecer firme nas nossas convicções quando não temos a certeza da validade aos olhos da nossa verdade de uma nova verdade que se avizinha) com burrice (egocentrismo puro e duro, gostamos de sofrer, de lamber sempre a mesma ferida sabemos apenas o quão é reconfortante, esquecendo o quão bom é não ter a ferida), eu sei, fi-lo e faço-o algumas vezes (orgulhosamente tento fazer cada vez menos) :)
É tarde e vou dormir...