2005-10-12

Pensador russo

Tese de um pensador russo que, no início do século passado, já falava em auto-conhecimento e na importância de se saber viver.
Dizia ele: "Uma boa vida tem como base o sentido do que queremos para nós em cada momento e daquilo que, realmente, vale como principal."
Assim sendo, ele traçou 20 regras de vida que foram colocadas em destaque no Instituto Francês de Ansiedade e Stress, em Paris.
Dizem os "experts" em comportamento que quem já consegue assimilar 10 delas, com certeza aprendeu a viver com qualidade interna. Ei-las:
1. Faz pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repete essas pausas na vida diária e pensa em ti, analisando as tuas atitudes.
2. Aprende a dizer não sem te sentires culpado ou achares que magoaste. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.
3. Planeia o teu dia, sim, mas deixa sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de ti.
4. Concentra-te apenas numa tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os teus quadros mentais, exaures-te.
5. Esquece, de uma vez por todas, que és imprescindível. No trabalho, casa, no grupo habitual. Por mais que isso te desagrade, tudo anda sem a tua actuação, a não ser tu mesmo.
6. Abre mão de seres o responsável pelo prazer de todos. Não és a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimónias.
7. Pede ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.
8. Diferencia problemas reais de problemas imaginários e elimina-os porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.
9. Tenta descobrir o prazer de factos quotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem também achar que é o máximo a conseguir na vida.
10. Evita envolveres-te na ansiedade e tensão alheias enquanto ansiedade e tensão. Espera um pouco e depois retoma o diálogo, a acção.
11. A família não és tu, está junto de ti, compõe o teu mundo, mas não é a tua própria identidade.
12. Entende que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trave do movimento e da busca.
13. É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente, pelo menos num raio de cem quilómetros. Não adianta estar mais longe.
14. Sabe a hora certa de sair de cena, de te retirares do palco, de deixar a roda. Nunca percas o sentido da importância subtil de uma saída discreta.
15. Não queiras saber se falaram mal de ti e nem te atormentes com esse lixo mental; escuta o que falaram bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.
16. Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é óptimo ... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.
17. A rigidez é boa na pedra, não no homem. A ele cabe firmeza, o que é muito diferente.
18. Uma hora de intenso prazer substitui sobejamente 3 horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não percas uma oportunidade de te divertires.
19.Não abandones as tuas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé!
20. E entende, de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: tu és o que te fizeres ser!

2005-10-03

Pela manhã

Eu estava em pé, ao balcão, rindo-me baixinho dos velhos que jogavam damas, em torneios mais que a honra, de vontade de viver. 
Pelo canto do olho vi-o chegar, a bicicleta maior que ele, que o obrigou a parar junto do passeio, encostar a bicicleta e pousar um pé (o direito), alçando a perna para trás, por cima do assento, e ficar em pé, meio ofegante, meio ausente. 
Segui-lhe os passos, entrou no café descendo os dois degraus, com um olhar mais ausente ainda. 
Andava como se o ar que respirasse fosse diferente de quanto em cima da bicicleta, na sua nave. 
Ao chegar ao balcão tirou a carteira, abriu-a (o som do velcro fez-me arrepiar) e ficou à espera que o atendessem. 
Era a Maria, a revista, que queria, e pagou-a com uma moeda que não vi. 
O olhar quase nunca saiu do chão, mesmo para receber o troco. 
O chapéu tapava-lhe o cabelo claro, sujo, espesso, que caía sobre os ombros, numa camisola gasta e suja e esta morria nas calças de ganga, russas, gastas e sujas também. 
O olhar era claro, verde, e a cara familiar, piramidalmente invertida, com olhos salientes, muito abertos, perdidos, raiados pelo ar desconhecido que o envolvia. 
O nariz era pequeno, fino, e um pouco elevado. 
A testa grande e saliente também. 
As maçãs do rosto elevados eram bem características, assim como a ausência de bochechas (não sei o que chamar ou como dizer, esta foi a descrição que consegui arranjar), uma boca pequena, quase sem lábios e um queijo pontiagudo e nada saliente. 
Por momentos olhou para mim, talvez sentisse que eu o observava, quando o seu olhar cruzou com o meu senti-o, vago, distante, estrangeiro, numa viagem longínqua. 
Durou poucos segundos, o suficiente para o trazer comigo. 
Ele virou costas, dobrou duas ou três vezes a revista, procurando a melhor maneira de a guardar no bolso, de forma à mesma não cair quando se sentasse na bicicleta, na sua nave. 
Arrancou e eu voltei ao meu jornal. 
Curioso, espreitei pela janela para o ver afastar e, lentamente, apenas a meus olhos, levantar e desaparecer por entre as poucas nuvens que existem pela manhã.

2005-09-22

Do que voltou

Deixei que a noite lhe cravasse as garras,
o impugnasse secretamente
ao som de um carrossel abandonado,
um café borbulhante
que suga estas penetrantes amaras…
Despedi-me dele,
infinitamente,
após o espelho me avisar
da triste figura que ostentava
solenemente…
O olhar raiada era triste,
desamparado pelos sorrisos,
de longínquos amigos,
agarrados apenas à noite
que abraçou o dia,
para não morrer quando este fosse,
pela última vez,
nascer…
Quantas rugas
e histórias,
lágrimas e memórias,
em tons de cinzento
e violeta,
em sons
de uma baioneta
rombuda e gasta,
que se despede:
“hasta!”
A corja voltou,
descendo dos céus inferiores
em urros sujos e delatores,
em frondes altaneiras
da ebriedade
que voltou…
Gasta-o vida
aos olhos do sorriso que partiu,
o corpo que o sustenta
e alimenta,
pede à alma que o atiça
e aos soluços do parto,
que o acaricie
e dignifique,
que o esquarteje
e mortifique…
Oh noite,
esses teus amigos inquietos
são filhos de quem?
Do luar que o Sol te dá
ou destes cavaleiros
que o dia sustém?

2005-09-19

O facto do nada

Isto não é poesia,
de facto não é nada
que minhas mãos possam tecer…
É uma dor fininha
que cala o silêncio,
transmuta a ilusão
em folhas negras de jornal,
isto não é o bem
nem tão pouco o mal…
As rugas na caneta
que escreve o destino,
em longo traço fino,
são pedras e sombras
molhadas,
fruto do ventre podre
de turvas águas passadas…
Mesmo o cerrar dos olhos
na claridade artificial,
ou na noite, é tudo igual,
não traz por si os sonhos,
mas sim fantasmas
enormes
irreais,
medonhos…

2005-09-18

Ser onde não estar...

Soltaram-se, na calada da noite,
os espinhos que soluçam
e me pertencem
sem serem meus...
Estão
e não são...

O vento que me trouxe
ao encontro de ti,
caneta,
é o mesmo que deambula
como um açoite,
que baila no luar
nascente da noite,
das trevas do dia...

É o oceano do sorriso,
o toque morno de carne fria,
a canção que teima em morrer
nos lábios de quem,
ou alguém,
que não sabe ainda nascer...

As mesas que ornamentam,
ou alimentam,
as mãos que se unem
e aliam aos sorrisos,
valem mais que meros suspiros
das lágrimas que suam,
que caem
e esmaecem,
matizam as minhas,
que crescem...

A bela e o senão...
O peito e a mão...
São os anos que vindimam a idade
e a jogam,
como crianças,
para longe da memória
bem dentro das entranhas
da minha história...

Percorro-te,
talvez pela última vez,
encandeado pelo negro véu
que assola e entorpece a razão.
O amor e a dor
estão prostrados na minha fria mão.
Que não morram, também,
em lento torpor
e cândido ardor,
as vossas faces em mim
e os sorrisos que são, afinal,
as mais belas flores
do meu velho jardim...
Fim?

Um desenho da alma

Olharam
e partiram,
sem querer
que o mundo as possa ver...
São fartas
nas tuas cartas,
delirantes
em almas erradas.
Espartanas
como falsas filigranas,
doentes
como sãos dementes...
Assim são os olhares que me devoram,
que nas campânulas moram...

Tangível,
mas fugidio,
o destino vai correndo atrás de mim,
ansioso e frutuoso,
tentar encontrar-se
ainda antes do fim.

Como é amargo o soçobrar
dos meus braços,
o odor da tinta
que estupra e pinta,
que me dói
e não finda...

Inibidor,
o elogio do feitiço
cobre-me de saudade
se tenta acalmar
as chamas que atiço,
mas é brando o lume
ou orvalho,
é sereno e mortiço.
Refugia-se no aperto de mão, no olhar compreensivo
da sinceridade de um amigo,
que de frágeis
papéis
gastos, sujos, velhos e mudos,
faz de um poema
vivido,
talvez sentido,
um desenho da alma
que trago comigo.

Deitas-te agora,
sobre as palavras que gasto
sem sentido,
mas sentidas,
há um vulto que se aproxima de mim...
Fim?

2005-09-14

Vivendo sucumbindo

(Há muito, muito tempo atrás... Perdi a data deste poema, mas é bonito vê-lo agora com outros olhos, sentir a energia que dela emana e pensar: "já estiveste assim"...)

Chovem a meus pés as longas tranças de força descomunal,
amputam cada membro que sustenta o tronco
como se fossem mais um sonho.
As pálpebras pesam,
quem sabe não desejarão os olhos sucumbir,
puxando para eles o manto que os cobre
e escondendo-se da imagem que o vento traz
no irreal

Não sei se inspiro
ou força o vento sua entrada no meu corpo.
A vida abandona-me
e leva para longe os telhados de xisto
prostrando no meu peito este teatro que assisto.
Desenrola-se o caminho em mim
e sulca a estrada debaixo desta matéria inerte,
mas eu quero estar parado,
permanecer calado,
ser um apêndice da vida
a quem os outros chamam sina
e esperar que o mundo se renda.
Caiam as armas defronte à apatia
elevando-se o Sol que envergonhado se pôs
fugindo da noite que a imaginação supôs.

Porque foge a paisagem quando passo?

Só em mim fica o barulho da chuva,
são gotas de algo que, indefinidamente, me abalam
e indecisas derrapam na gravidade que os atrai.
A massa disforme a que chamam corpo está inerte,
constato-o ao vê-la longe, abandonada, numa lareira
em que o tempo envolveu e acorrentou.
Restam as ervas que a cobrem como um tapete de luz
e os vermes que penetram na carne morta…
Agora que as palavras desistem de afirmar
ou pedir insoluvelmente ajuda
retorno à inebriante paisagem imaginária que me seduz.

Boa noite

Boa noite. Aparece sempre, a qualquer hora, a meu lado dizendo: "Boa noite!"
Já deveria estar habituado, há tantos anos. Com outras vozes e rostos, mas sempre o mesmo "Boa noite!", seja dia ou efectivamente noite.
Sorri a meu lado, faz uma cara de espanto quando ponho um ou outro poema no blog. "Uau, tanta coisa, é tudo teu?" E eu respondo que não, que são todos emprestados, que são chaves para portas que não querem ser abertas.
Hoje, neste preciso momento e disse-me: "Acabou a brincadeira rapaz, tens que escrever..."
Eu mando em mim, por enquanto, e com olhos de sono digo "talvez amanhã... hoje estou cansado..."

2005-09-13

Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro

Desilude-me o cruel,
entre carumas que fintam o vento
onde passam raios de um Sol esmaecido
cai o pólen dos ecos perdidos do viver.
A luminosidade que vagueia é espontânea,
própria dos envidraçados redentores de sonhos
que lutam contra o embaciado da tua voz…
Um pássaro negro calca um ramo
e sorri antropomorficamente,
são os vasos que latejam canais
onde corre o líquido injector do sorrir,
que dedos frios estes do vulto,
que sede de carregar com uma nuvem
e fazer chover,
que ânsia de implodir omnipresentemente
e sucumbir,
morrer…

Heras,
galhos e outros tais que amam o tronco,
sobem e sugam seiva,
amam e correm vadios pelo passado.
Rodeiam-nos asas e ruídos
sons e tépidos olhares embevecidos,
são os que ondulam intemporalmente
aqueles a quem chamam mendigos.

Unanimidade em multi tons,
raças distintas do solver
em matizes que gorgolejam numa encruzilhada,
meias palavras que falam
ou cantam
o que sente a madrugada.
Quadrículas escritas a vermelho
indagando o rumo destas lousas negras com musgo,
corre a água nas caleiras
adormece-me a noite com o som das goteiras
e inebria-me o fumo que jorra dos colmos.
Se o salpicar salgado fura o ar perfumado
quem sou eu para contrariar
a serenidade que rompe o choro instigado?

2005-09-08

Vielas

Caminho para um deserto,
é um pilar num ermo da existência
onde cai quem se indaga,
talvez o frio límpido da demência
libertado do fumo ardente de uma saga.

Pé ante pé,
em passos rápidos omnipresentes,
calcando um futuro no retorno do sonho,
são rastos de voos errantes
por uma multidão que não sabe o que é.

Mostra-me a porta,
será por aí que sai o tempo?

Quem tem medo do linear declive do pensamento?

As esquinas onde dobra a calçada
no granítico sujo, frio, da manhã
são locais onde não cabe o amor
que um pobre mendigo me dá…

2005-09-07

O dia seguinte

Espreito, ansioso, o dia seguinte.
A tela móvel acompanha-me na jornada
onde sou actor e realizo,
cada sequência é dejá-vu
que saboreio como se fosse o mais sublime requinte,
mas as imagens que vêm beber a água dos meus olhos
pregam-me partidas,
socam-me com sonhos futuros que vivi
e olhares meus nos olhos de outros
e outras.
Agora questiono à vida que realizei,
Quem sou?

2005-09-06

Noite solitária

A maior parte dos poemas que coloco são fruto de um caminho, são pequenas pedras num rio, que me ajudaram a saltitar de margem em margem à procura de caminhos internos... Não os esqueço e pedem-me eles, agora, que os traga à luz do dia.

Sabes,
a dor que me imobiliza é amor,
é puro-sangue que voa sobre a planície,
e o respirar ofegante da noite faz as searas,
ao seu sabor,
ondular,
mas se o choro que me acomete
purga a certeza da existência
porque devo eu morrer em cada dia
que véu é este que me expõe à demência?

Mergulho no olhar morno e meigo,
o reflexo é meu e do espelho partido,
o sorriso que exibe o Sol esvaiu-se no ocaso
em respostas não perguntadas
pela fibra do tecido o
u vestes que cobrem o fino
e frágil sofrer…

Sabes,
que palavras são estas que tentam sorrir?
Pode a imensidão da noite a solidão sentir
se está ela em todo o espaço circundante,
se é ela, ai minha noite, tudo a jusante
mesmo quando em pleno dia
as estrelas teimam em cair...

De quem não conheci

Invoco a saudade da face de quem não conheci
na presença da sombra,
saboreio a ausência de um sorriso que não vivi,
a mescla de emoções no vazio da noite
entre vagas de ondas, serenas,
e bandeiras desfraldadas num barco de velas amenas.

Os passos que graduam o quotidiano inexistente
vagueiam entre fronteiras
reais,
imaginárias,
no ondular pacato da imaginação
entre veredas de olhares
que não vislumbrando o invisível
rasgam a despedida que precede a solidão.

Feições

Abandono-te na lama,
meu velho corpo
entorpecido nas feições,
de uma alma que ama
um ideal morto...

A chuva ao som da noite (reticências)

Começo a estabelecer um horário próprio, certo, e sento-me em frente ao computador, com o teclado sobre as pernas, abro o Word, aumento o zoom para 130% e relaxo na cadeira…
A inspiração já cá estava à espera, sentada, paciente… Hoje tenho chuva e só não a consigo ouvir melhor devido ao barulho do computador a funcionar…
Abençoada chuva! Permite andar por aí, com o vidro aberto, abotoando o casaco e sorrindo, como só quem gosta da chuva sorri…
À noite as paisagens são mais curiosas e os seres que encontramos também, aves raras como as que encontro são difíceis de ver… Apenas uma coisa me entristece, as árvores que se curvam sobre mim à medida que passo, à medida que as ilumino com os faróis, o castanho, negro e dourado da paisagem queimada, o sufoco das suas lamurias, dos seus choros, da sua morte lenta… Já ninguém fala nos incêndios, nas vítimas, nas perdas materiais, a preocupação reside apenas na recuperação psicológica de alguém cujo salário de um mês permitiria reconstruir a vida a muito boa gente que ficou sem nada… Não é para isto que venho escrever…

Hoje visitei a minha antiga casa, onde vivi 26 anos, onde cresci e onde tudo foi perdendo tamanho, os sofás, as cadeiras, a cama, as paredes… Fez-me bem estar lá, perto, e ver que algumas coisas permanecem… Mas também não quero escrever sobre isto… Então o quê?

Pensei que uma das minhas histórias, daquelas que estão por escrever, ficaria bem no blog… Tenho que o alimentar… Mas também não me apetece escrever histórias, verificas, baseados em factos fictícios…

Também não era isto, mas paciência… Escrever sobre estas coisas é mexer no lodo, agitar água com lixo e quando isto acontece, há que ter por perto um purificador…

Para a próxima falo sobre outras coisas ou talvez conte uma história, como a do bombeiro de almas…

A magia do mundo pelos olhos das crianças

O dia amanheceu com chuva. Na verdade, a chuva já lhe entrava pelas entranhas à medida que o Sol invisivelmente se levanta sobre as nuvens… Acordei a meio da noite, cerca das 4:00, com a melodia da água a cair na terra seca e o compasso mais ou menos ritmado das grossas gotas que caiam das telhas do alpendre…

Agora foi-se a chuva, ficaram estas nuvens escuras, cinzentas, que me devolvem a serenidade e o tempo frio, que tanta falta me faz… Ouço Carlos Paredes, só o mestre faz sentido nestas manhãs das primeiras chuvas… Paro um pouco para o escutar, gosto de apurar o ouvido e saborear a respiração dele por entre uma ou outra nota… Isto, Isabel Silvestre ou “Everybody pays” do Mark Knopfler…

Tenho saudades de ser mais baixo que os arbustos, de entrar de rompante pelo monte dentro e ficar todo molhado, sentir o frio da água com os ramos destes meus amigos que me abraçam… Lembro-me de sorver a água que ficava sobre o portão de casa… Quando se é criança tudo é magia, inocência, amizade, ingenuidade (Miguel, não sejas ingénuo) e legitimidade… Onde ficarão estes sentidos à medida que crescemos? E os nossos amigos invisíveis? E os visíveis?
Da minha janela consigo ver alguns, se calhar apenas eu, correndo pelos arbustos, escondendo-se atrás de umas giestas e largando os ramos quando eu passo ou debaixo de uma árvore que eu abano só para os molhar…

As raízes dos pinheiros e eucaliptos são ou foram as garagens dos nossos carrinhos, que andavam sobre caminhos feitos com as vassouras roubadas às mães e animados pelas nossas mãos pequenas… Se não eram os carrinhos eram as caricas, em pistas dignas de figurar nos livros de automobilismo, com curvas em relevo e várias armadilhas pelo caminho… E quando não no caminho, era no muro de minha casa, autênticas corridas que um qualquer Hidalgo gostaria de participar… Havia o jogo do canhão, o futebol que era animado quando a dona chamava a GNR para participar, pasmem-se!, que uma dúzia de crianças calcava o mato… Havia as grutas, o poço das “moutadas”, as “austrálias” e umas mãos de feno roubadas a um colmo para fazer o telhado de uma cabana… E as cabanas, de vários feitios, de vários materiais, que ora construíamos ora destruíamos, à nossa vontade ou como vingança de algo que era logo esquecido… E os jogos de cowboys? Um tiro imaginário, pum!, e ganhava-se uma baixa… As naves na areia do tanque… Puf… Tanto para dizer e lembrar, e sempre o mesmo denominador comum: sou tão feliz com todo o meu trajecto, com todos os meus amigos… E fica sempre tanto por dizer…

Ontem fui a uma das resistentes pequenas drogarias, daquelas acomodadas numa garagem em que as paredes são pintadas com a cor das caixas dos artigos, canhões de fechaduras, puxadores de várias cores e feitios, dobradiças de joelho e outras normais, latonadas ou cromadas, basculantes e até um telefone tapado com uma saca de plástico… No tecto, pendurados dizeres vários, na verdade apenas dois, aos quais não ficamos indiferentes pelas cores garridas… Ao centro, o balcão, com os seus inúmeros blocos de apontamentos e uma caligrafia de fazer inveja ao escriba dos escribas… A simpatia é ainda traço constante e o aperto de mão dos mais sólidos que conheço… É assim mais uma personagem da novela da minha vida, desta minha senda pelos sorrisos dos outros…

Aquela drogaria trouxe-me à memória brincadeiras de criança, em dias de chuva, numa barraca construída em plástico sob a pequena ramada do Sr. Carvalho (que deve sorrir agora onde quer que esteja), onde eu e mais dois amigos compúnhamos avarias imaginárias em objectos inexistentes… Olhar o mundo pelos olhos de criança é mais mágico…

2005-09-05

Os sorrisos meus, agora que fora de criança sou...

Quanto valerá um sorriso?
Dou por mim a pensar num preço, numa medida qualquer palpável, concreta, daquelas que estão padronizadas, mas não encontro medida ou valor…
O quanto custará sorrir?

Vamos lá ver se é desta que eu vou escrevendo… Domingo foi dia de passeio – convívio. Há muito combinado, o convívio das marchas populares teve lugar no domingo a um sítio apelativo: Srª da Boa Morte…

Posso ter 30 anos, quase, quase, mas estes passeios colocam-me com 9 ou 10 anos. Quando entro na camioneta e olho aquelas faces, com mais rugas, mais velhas, mas iguais ainda, sinto-me regressar no tempo, como se fosse possível, e vejo-me a percorrer a pé o caminho da escola para casa… Agora posso andar a pé, no mesmo caminho, mas os sorrisos não são mais os meus, nem as pessoas o são… Novas caras chegaram, velhas caras partiram… Voltando ao passeio… Entrar na camioneta (de Alpendorada – mais recordações…) e ver aquelas caras, olhar com sinal de respeito, eu sem estes olhares não sou nada, ou serei bem menos do que sou agora… Todas aquelas faces fazem parte da minha história, da minha infância…

A música, tinha saudade da música, do rancho e do cantar ao desafio em letras irónicas e mordazes… Tinha saudade de sentar-me no banco e afundar-me, mas agora as pernas não deixam, batem no banco da frente…

Gostava muito de poder grafar os meus pensamentos no exacto momento em que os sinto, em que eles me escrevem… Agora, com esta dor de cabeça, torna-se difícil passar para palavras o que se viveu…

Fico a imaginar o quão fácil para ser a convivência em harmonia, apesar de todas as diferenças… Em local de convívio surgiam faces desconhecidas, gente simples de farnel às costas, que se sentava perto só para ver e ouvir cantar e tocar, viola e concertina… E esta gente simples ficava sentada perto, comendo o panado ou o rissol, beberricando um tinto, rindo, apoiando a cabeça nas mãos…

O pó que se levantava durante e após os passos de dança, mais ou menos improvisados, de gente que cresceu dando vida e corpo a folclore, a desfolhadas e bailaricos de aldeia, banhado pelo sol parecia-me ouro, ouro fino com que os sorrisos daquelas gentes me vão enriquecendo.

As malhas, nas mãos a resina dos pinheiros, o pó, novamente o pó, e a terra revolvida pelo bater do ferro e do bater no meco, desgraçado, que tomba perante o nosso divertimento…

Junto a estes homens, gente de honradez e sorriso, jogando malhas com eles, sinto-me uma criança aceite pelos homens… Esqueço que tenho 30 anos, ups, ainda não, que sou como eles, mas ainda penso como sendo criança. Ontem, domingo, o tempo voltou definitivamente atrás…

Mas o sorrisos… Sorrisos de gente feliz, de gente que vive estes convívios, estes passeios que outros poderão chamar de chungas, chulas, num país marcado pela mesquinhez intelectual… Custa-me pensar que daqui a pouco tempo, políticos (tão pouco vieram deste povo) estarão, avessamente, beijando caras e apertando estas mãos calosas de gente boa, como se fossem deles, como se tivessem comido cebola com sal acompanhada com um bom naco de boroa e uma chávena de café com borra, se fosse Inverno… Não quero falar disto, do estupro praticado pelas hienas, quero voltar ao passeio, ao convívio…

Por umas horas, somos todos iguais, sempre o fomos, obviamente, mas é diferente, agora não há distanciamentos, há sorrisos, cantares, bailaricos, panados, boroa, uns tachos aqui e acolá, um garrafão (ou vários!) e olhares de felicidade…

Não consigo deixar de me comover com estas visões… Com a felicidade das pessoas bailando, braços no ar, olhares cercados por incontáveis rugas e sorrisos desdentados de gente boa e simples, povo que amo.

A Srª da Boa Morte fica em Ponte de Lima, num alto, como convém a qualquer santuário… Rodeado de árvores, este sítio de festejo pagão foi, como todos os outros, apropriado pela igreja… Fica a pensar na religião… O povo faz a religião, não é a religião que faz as pessoas… Veneradamente as pessoas entram na igreja, eu também, contemplam as figuras e fotografias de benfeitores, santos de madeira em restauro… Há qualquer coisa de sinistro na subida para o local onde estão os santos, do meu tamanho, e um caixão aberto onde está a suposta Srª da Boa Morte, não lhe faltando sequer uns olhos moribundos ou como diz a minha mão, de “carneiro mal morto”… Detenho-me alguns instantes, o local apertado e baixo, de pedra, pouco iluminado leva-me a alma para tempos antigos, de cátaros, de encontros anónimos. Resolvo-me subir quando, a meio, tenho que voltar atrás para deixar passar pessoas que descem… Subo e contemplo as imagens primeiro e, depois, o caixão… Parece-me macabro, mas ainda assim melhor do que por aí se vê, como entrar numa capela feita em ossos… O religioso confunde-se com o místico e transcendental, num folclore que é, inegavelmente, parte integrante da nossa história… No altar todas as figuras parecem olhar para mim, rostos ovais, como antigos Maias, de crianças com harpas, violas e outras coisas mais na mão…

O sino vai chamando as pessoas para a missa… Há que apressar o passo… O delas, não o meu…

A hora do regresso chegou, todos se sentam, ainda que por breves instantes, pois as colunas trémulas soltam música da minha gente… O motor faz interferência com a rádio, junto às castanholas, cavaquinhos, reco-reco, ferrinhos e outros que tais, ouve-se um silvo… O meu povo pôs-se em pé a dançar, braço no ar, suor a pingar e sorrisos, muitos sorrisos! Não consigo deixar de me comover com estas imagens… Às vezes acho que só a mim isto não me passa indiferente… Conheço poucas pessoas que parem por momentos apenas para ver os sorrisos dos outros e apreciá-los…

Hora da chegada, desfaz-se a companhia e acaba a festa… Os tempos são outros, poucos se levantam à alvorada para ir ao campo ou pensar os animais… Agora alimenta-se a máquina dos bilhetes de comboio e a alvorada é um caminhar, rápido, para a estação da CP e esperar encontrar lugar sentado, para dar mais uma hora de sono ao corpo.

Cada qual segue o seu caminho e eu fico, aqui, com os seus sorrisos, a sonhar sozinho…

2005-09-01

Vida

Diz-me vida,
que queres que faça?

Roubas o ar que respiro,
partes os vidros onde me encontro,
sujas com lama e sangue
estes meus sonhos que são,
afinal,
um não distante retiro…

Não me deixas chorar,
lágrimas saltam sem medo e toldam-me,
não é só a visão,
é o exprimir.
Transformas o sorriso em pedra
e o júbilo de falar num torpor,
um movimento desconexo dos lábios
que não te beijam,
gritam,
arfam,
respirando muco que em meus pulmões arde,
queima o meu ser com infinita dor.

Aqui me tens,
prostrado a teus pés,
Corta minha cabeça assim como fazes ao sorriso,
tens coragem?

Coitada de ti, vida,
que nada mais és que uma vazia miragem…
Salta de mim a fúria escondida
e ri-se de ti,
de tuas tramas e encruzilhadas,
da figura que criaste com suor e saliva,
julgavas tu que me moldavas?

Vences-me,
desvias de mim o sentido,
o rumo da rosa dos ventos,
o cabelo que descai a meus olhos
e me fecha o pensamento.
Mas continuo aqui,
penso em ti,
tento entrar nessa teia,
mas meu mundo é deste lado,
olhando-te sem ter predefinida uma ideia,
descobrir que no sorriso,
atrás de um rosto fechado,
surge o crepitar do lume,
o amor na alma sem aviso.

Julgavas que conseguias enganar-me?

Dás-me papel e caneta,
fazes surgir uma nuvem no céu
e pensas que eu,
sim, eu, julgas que sou como tu?

Ah! Deixa-me rir!
Eu construo canções,
canto monumentos e solto estrelas,
dou asas à água para que corra em tições,
e isto fora de ti,
não sabes que existo,
mas digo-te que sei mais eu sobre ti, vida,
do que tu mesma sobre mim,
fazes correr o mundo,
tiras o tapete a que em ti acredita,
falsa!

Manténs-te afastado,
debruçado neste velho muro coberto de musgo,
é ele uma forma de ti, vida,
e eu...
Olho-te, levas todos contigo,
deito um último olhar melancólico,
triste sina,
pela enésima vez recuo continuar,
não quero fazer parte desse mundo,
dos dogmas que fazem chorar!

Criaste-me,
jarros brancos florem em silvados,
o pólen cai e seca as lágrimas
e eu não sei o que faço aqui,
apoiado numa folha branca,
tento lutar contigo com esta caneta
e nas palavras que espalho,
mas és mais forte do que eu…

Penso que não existo,
sou o reflexo de alguém que quer sair de ti.
Dá vida a uma grande massa de carne humana,
sonha sonhar livremente
e refugiar-se na alma errante,
mas não resulta…

Desisto!
Vida, aqui me tens!
Faz de mim o que quiseres,
rasga-me as entranhas com essa garra abominável,
tira-me os olhos que te vêem
e cose o sorriso que te atemoriza,
mas os sonhos, não, os sonhos continuam,
semeio-os aqui, numa folha de papel,
numa conversa de café,
no afago a uma criança,
no lento escutar das lamúrias alheias,
no abraço a uma árvore queimada…
Não podes combater isto, vida,
combato os teus ideais,
submeto-me a teu remoinho espiral,
sorris pensando que me rendi,
minha querida,
não faço de ti inimiga,
estou cá, em ti, vida,
mas em breve partirei,
voarei de novo para os sonhos,
sulcarei mares arenosos em busca de um beijo…

Pensas que me deglutes,
abres teus braços pensando que eu vou,
mas tu não me queres abraçar,
queres dar-me o beijo da morte,
sugar meus sonhos,
o futuro que por mim passou,
o murmúrio arrastado
que é eu mesmo
a chorar…

Não julgues que te destruo,
não te odeio,
vejo que não és verdade,
és apenas algo que não sabes que és,
como uma flor que nasce num jardim…

Beijo-te, vida,
porque te amo,
estimo,
louvo teu rápido esgar,
mas não me chames,
não estou mais em ti,
és minúscula,
rodopias como um velho pião
na palma da minha mão.

Controlo-te,
mas logo vens a mim,
como o conhecido sacrifício a que digo sim,
giro agora na tua mão
e tu sorris de escárnio,
Amo-te!,
Foi de mais para ti não foi?

Não é isto forma de viver,
resiste-se como o velho amolar
roça a faca na pedra
e dá a pedra a face à faca,
mas existem os dois.

Afia meus sentidos,
dá-me olhares negros como de um anjo
e vem até mim, como estes raios de sol
que fazem sombra sobre o que escrevo,
transformam minha mão em vida,
geram duas canetas,
duas penas que acentuam a mágoa…

Paro na minha quietude,
abandono minhas sombras
e são elas que te escrevem,
vê-me a olhar o sol,
fecho os olhos e vejo globos azuis,
pássaros de cristal que voam em mim,
mas não sabes o que isto é pois não?

Estás muito atarefada...

Permito que sombras te escrevam
como se as lágrimas arrancassem o choro,
como se a foz chamasse o rio da nascente…
Eu continuo aqui,
olhando-te,
confuso,
indiferente…

2005-08-30

Fria noite no corpo

Dorme a fria noite,
ao longe trémulas estrelas resistem
a este meu açoite,
ao orvalho que brota da alma
num soluço de ninguém.

Ao tacto
é gélida a pele
e os dedos refugiam-se,
o tempo que seria
exacto
é, afinal, dele
o vulto do Sol
que dorme em mim.

Amparo pétaldas
de rosas e flores
mortas,
hirtas e sombrias
de sangue manchadas
e isentas de dores,
absortas.

O jardim que plantei
é um canteiro
de almas,
jazentes
e dormentes,
fugazes
e ardentes,
espinhos que se cravam na mão
perfurando o sonho,
aniquilando a ilusão.

Quando o trevo me cobrir
e eu não for mais que húmus,
deixa que me regue
o orvalho que cair
dos espinhos da vida que se segue...

Se eu nascer de novo
e o veneno brotar, ainda,
desta alma que não finda,
foge para longe
e cobre-me com terra negra,
antes que meus olhos possam matar
e minhas mãos,
sujas e gastas,
possam tocar o triste mundo
que são teus olhos
a chorar...

Para lá

Espantadas com o meu silêncio
as palavras vêm até mim...
Empunham um espelho
onde me encontro reflectido,
longe dos olhares
e dizeres,
das falsidades
e fúteis afazeres...

A imagem chama-me,
para lá...

2005-08-24

Marés do tempo

Momentaneamente ouço o tempo passar,
sim, vai e vem,
lambe-me os sentidos
ou os pés
como uma onda prenhe de espuma a rebentar,
chama por mim, invoca os amigos,
mas não, obrigado,
é sempre a mesma resposta.

Prefiro o vazio à viagem.
De vez em quando molha-me,
convida-me a mergulhar,
nadar e sabes que mais?
aceito,
ganho corpo, forma, sexo,
sou um pequeno pensamento numa matéria sem nexo,
tenho idade,
régua e esquadro à relatividade,
taça de néctar envenenada no peito.
A onda
ou tempo,
traz-me de volta,
e estou novamente na praia em pé ou deitado,
não, não estou, apenas sou,
e entre ondas,
ou marés,
vem o tempo buscar-me com carinho.
Caio na água ou vida,
tenho mágoa ou um bilhete só de ida,
e sou agora outra forma, outra matéria,
sou um réptil venenoso,
sangue na artéria.
Invoco tropas das guaritas
corro a quatro pés ou dois,
sou corpo esquisito.
Estou cansado e a Lua
ou o Mar,
traz-me de volta como a rima num poema,
e leva o corpo consigo na rotação,
no trajecto
ou na espuma que fica quando o resto,
talvez os olhos,
me leva as lágrimas para voar...

Mal estar...

Ó Lua
cai sobre mim,
dilacera todo o meu corpo,
transforma-me em pó, grão fino de areia,
vaporiza-me em nada
e devolve-me o vazio,
enche-me de frio,
sê de ti apenas mais uma candeia.
Que frio é este no respirar?
Porque razão fogem estas linhas às palavras?
Vem,
assim devagarinho,
segura-me as pálpebras por um momento,
deixa-me escrever a palavra carinho,
fica mais um pouco ao pé de mim,
ampara-me a cabeça difusa neste tormento,
que pensas destas palavras, são belas?
É bonito o teu sorrir,
diz-me, Lua, és tu quem canta?
talvez sejam meus ouvidos,
ou a imaginação vagueando…

É sim senhora

As pessoas comovem-me, a sinceridade e a bondade ingénua, pura, intocável... Este tipo de bondade que, por vezes, se vê apenas nos "coitadinhos" e "bons rapazinhos"...
Vi a cena há uns dias, talvez semanas, quando um senhor, humilde, tão humilde, era entrevistado por uma jornalista... A casa tinha ardido e, como tal, todo o seu recheio, o senhor, vou chamá-lo "coitadinho", que é assim que é visto, coitadinho, se calhar nunca viu a Quinta das Celebridades, deve ser de outro planeta (já estou a fugir do tema...), regressando, o senhor olhava para a jornalista, com um sorriso na face e um olhar estremecedor de tanta ingenuidade...
- Então o senhor, ardeu-lhe a casa?
- É sim senhora... (respondia com um sorriso e muito educadamente)
A câmara mostrava, ao fundo, desfocando a cara do senhor, a casa ainda fumegante...
A jornalista esperava que o senhor falasse mais, mas teve que tomar a iniciativa novamente...
- E o senhor, salvou alguma coisa?
- Só a roupa do corpo minha senhora (o mesmo sorriso, o mesmo olhar)
Mais um compasso de espera...
- E agora o que vai fazer? Sabe onde vai ficar?
- Vou para a rua minha senhora... (ainda o mesmo sorriso)
O diálogo pode ter alterado, a memória pode atraiçoar-me, mas o essencial foi isto.
O homem perdeu tudo, ou se calhar tem noção daquilo que não perdeu.
O cenário era de destruição, de desolação, mas ele tinha o sorriso.

2005-08-19

Cinzento

Sento-me no sonho à espera que as sombras das árvores imponentes devorem a minha,
este banco de jardim foi frio na noite
quando as gotas que caem não são lágrimas
mas partes de um mar solitário.
Uma barreira ergue-se no olhar
onde formas disformes dançam depois do real
formando o horizonte imaginário do vaguear,
que vento abana os cabelos do destino,
que sussurro clama a alma à solidão
que é este vulto que me estende a mão?
Enterro histórias,
descansam em palavras proferidas por um céu
juntinhas ao abandono das memórias,
agora que não vivo porque dizem que o poema morreu?
Se eu fosse o que sou,
abandonado pela paisagem onde o sorriso voou,
talvez a brisa que ondula o verde brilhar do sorrir
sentisse que o amor que dá
faz todo o tempo que me circunda cair…

2005-08-16

Finalmente...

Finalmente vivo!
Respiro o mais que consigo,
a caneta toca no papel
e derrama tinta,
é o rasto visível do meu pulsar.
Pouso em todas as flores para obter mel,
apenas agora, neste momento,
sinto o sangue correr nas veias,
as estrelas salpicam e caem do firmamento
e a sua poeira camufla os sentimentos,
derramam sobre os buracos da alma
um pouco de luz e azul celeste,
infundem em mim a calma,
soltam do mais recôndito ângulo um sorriso agreste
e aí, nas estrelas,
ou no poema,
sei que vivo em dias não medidos,
pauto a existência em sentimento,
talvez amor, talvez medo,
e por entre rimas de poemas ou fluxos de prosa
fecho as mãos em concha e,
sorrindo,
guardo para mim este segredo.

Puta

(o título deste poema foi, inicialmente, "sugerido" alterar para outro... Dei-lhe o nome "vestido branco", mas este é o verdadeiro nome dela... e da personagem)

A soleira é fria e dura, como aquela estátua no jardim,
entretanto aparece um qualquer estranho, timidamente dizes-lhe que sim
e os sonhos, murmuras entre dois flocos de neve, onde estão?,
transformam-se agora em nada, o escudo do granito que te chama solidão.

Tens cabelos sujos, longos e pretos, envolvidos em neblina branda,
o corpo abraçando o próprio corpo, a mão pequena e fina apertando a esperança,
uma insignificante sombra a teu lado, a imagem nítida que a luz do candeeiro te dá,
em tons de pastel, serão os meus olhos, ou és tu ideia do que já não há?

Passam vultos por ti, não olham, tu dizes que precisas de ajuda, carinho
e eles chamam-te puta, batem-te, cospem, olha! Aquele pedinte deu-te uma garrafa de vinho!
Sai desse mundo, deixa-me dar-te a mão, não é oportunidade é sinceridade,
mas ninguém te alcança, estás longe, um corpo vivo nesta morta cidade.

São agora os fantasmas do presente, porque o passado já lá vai,
erguem-se entre as frinchas do pavimento, como um prisioneiro que escapa,
mas de lá nunca sai.
As paredes conhecem-te bem, não são confidentes, são apenas rugas na tua mão,
o verde dos canteiros, o húmido chão de veludo e o calor da lareira para teu coração.

Tão cedo começou a morte, aparecendo como um qualquer desígnio de um deus tempestuoso,
com a rede grossa e pesada, malha metálica e uma estrela que te sorri e dá gozo.
Chamaram-lhe inferno e tu sabes o que é, a opção do destino, o dado lançado por teus dedos,
em que viver é arfar, morrer aos bocados, sobrevivendo, resistindo aos medos.

E agora? Sim, agora, que fazer?
Afundas tua face martirizada no escuro, nas tuas mão uma concha
e escutas o som do mar, o banhar de sol as ilusões, mexer com os cabelos uma onda.
Lá está tu a sorrir, quem te vê não observa, a ausência do sofrimento na dor,
como se te fosses levantar, virar costas a essa vida,
arranjar alguém que não te queira, mas dê amor.

Chove, não dás fé, para ti já é uma amiga, arrefece o tórrido calor da alma na noite,
um pequeno riacho forma-se à tua frente, um homem qualquer tenta dar-te um açoite.
A flor que tinhas no cabelo, essa rosa branca caiu... Alguém a pisou...
e choras abraçada a ela, como se fosse uma filha, um grande amor que se ausentou.

Já não chove, é o dilúvio! E a rosa, flor, já não volta,
sonhos e ilusões, pensamentos e miragens,
tudo é agora sombra do voar de uma bela ave livre e solta.
As pernas tremem, mas tu insistes, queres ver, de pé, a chuva a cair no chão
e a dançar nos teus olhos, à flor da tua essência,
está uma bela menina que revive a estreia do branco vestido na sua primeira comunhão.

2005-08-12

Velas

A neve pousa suave
mansamente sobre a paisagem,
com flocos infinitos
na frustração da miragem.
entre xistos
e granitos,
solos flácidos de nuvem.

Vê o macio do lençol
pela mão de uma criança triste
empunhando na mão, em riste,
o calor humano
da luz do sol.

O vento forma remoinhos,
espirais de fúria
em brasa pela aridez de uma ruga.

O sal acumula-se na cicatriz,
carne tumefacta brota de uma flor
e nasce um bebé,
ser de luz,
para a vida em dor.

Beatas incandescentes imperam,
sendo esmagadas por meus próprios pés,
caindo na noite como cristais,
onde só os sentidos os visionam.

Cambaleando vêm ter comigo
estremecendo o solo,
em passos hesitantes.

São visões de um passado recente
esbatidas por lágrimas
que afluem à minha nascente,
no choro da despedida,
de alguém que é mais que alguém.

E eu sou nada,
a consciência do vazio
que ocamente vem ter comigo,
quando a luz se apaga
sucumbindo a vela no pavio...

Vazio na alma

Paro no tempo,
busco algo que não conheço
ou talvez já tenha visto,
sonhado em qualquer momento,
o véu de prazer que me ama quando adormeço.
Quero que venha até mim,
acordar numa cama alheia
numa face minha,
num olhar de água, amor e jasmim,
o toque suave do amor
no sorriso que impulsiona o sangue nesta veia.
Amo-vos,
perspectivas angulares da realidade abandonada,
o caminho não percorrido
ou mais curto,
na contenção de esforços para sobejarem as forças,
os braços longos e frios na pele macia,
morena,
clara,
de cores várias desfragmentadas de alegria,
o erotismo da troca de olhares no espelho
ou num corpo,
o torpor da juventude é a compreensão de um gesto gasto de velho.
Um banco de jardim,
ou uma paragem de autocarro...
Espero que passe algo, alguém, talvez eu,
a parte de mim mesmo que se conhece e,
com caridade ou através de um escarro,
me ice para a vida
ou aniquile, definitivamente, ao sono que sinto,
ao sorriso que minto,
ou talvez não,
talvez o fumo do cigarro cheire a rosas,
talvez a mão não durma sozinha e,
sem medo do fugir,
da projecção consciente do éter
se abandone ao prazer de me abraçar,
afagar os cabelos em movimentos descendentes
ou, então, pausadamente me aniquile
e com olhos raiados de sangue
em lágrimas caídas frementes
se digne o amor, enfim, a olhar para esta estátua
e, com ternura, me venha matar
ou acordar...

Universo mutando

Corro pela vida,
um pé no mundo,
um pé no sonho,
onde cada porta é um ponto de partida,
respirando o tempo numa fracção de segundo,
descansando num lago onde incauto me exponho.
Vai alto o luar,
cravejado de estrelas o céu cogita.
Pendem as rédeas de meu corcel,
ofegante o vento corre para me avisar,
cai o real sobre a fantasia num mar
que se agita
e galopeio entre quadros da tela para o pincel.
Se o horizonte aos olhos falta,
fruto do calor
ou consequência do olhar
onde cada pensamento sugere uma gralha
e as penas ondulam dentro de mim em fervor,
o Sol explode anti-matéria
e eu continuo a brincar.

Trovejar

Saúdam-me os trovões,
gritam arrastando nuvens alegres.
O vento tropeça nas rugas do tempo
e sopra o rastilho dos canhões,
o caustico sorriso vazado em lúgubres casebres
é apenas uma figura de estilo,
talvez um sentimento…
Quando brilha o Sol,
ou meus olhos de luz inundados pela manhã,
as réstias da noite são migalhas de pão amassado.
Ficou a marca quente da escuridão que amou o lençol
e as pegadas na neve de um escarlate quente,
a espuma dobrada pelo sorridente pausado
faz sonhar o presente com o ventre que lá,
no alto da imaginação,
projecta entre rochas abandonadas o frio que a solidão me dá...

2005-08-04

When the Sun rises...

Passos

Que passos são estes?

Qual a direcção que toma o destino,
num torpor desconcertante de divagações
Onde o andar é incerto,
intangível,
ao ondular da matriz que me rodeia,
será o sorrir mais um resigno das prisões
talvez o calor dos lábios que estão perto,
não, vejo agora que o movimento é sofrível...

Acompanho o corpo,
vagueio em vidas inúmeras
por tempos que me fazem morto,
linearidade de movimento que traz o infinito,
o olhar é o começo do que foram amaras
de doce sal que corre desse labirinto.

Tocar,
sentir o que a alma seduz
em danças exóticas de bailados de luz,
limpar o húmido do Inverno com o calor
e deixar,
talvez amar,
que o simples respirar apague a dor...

O sorriso antes que partas para mim

Escrevo o sorriso antes que partas para mim,
creio que nas mediatrizes do sonho
em meandros da irreal sentença que cava fundo o olhar
tenho nos visíveis esgares o término de uma epopeia sem fim.

Quantas horas, momentos, agora ou sempre,
sombras que se medem sem dimensões
escorrem pela face esconjurando ilusões,
surgindo do nada o tudo invoca o aperto firme,
o aceno supérfluo do insondável sonho
que te nasce no ventre.

Escrevo o sorriso antes que te perca para o irreal,
o momento não existe no calor ameno da saudade
que rompe a fina camada de solidão,
espero o regaço,
talvez o abraço
da presença constante da alegria de uma visão,
será fruto do sonhar ilusório de uma árvores inerte
ou eventual destino baralhado em parte incerta?

Inanimadas figuras,
estáticas palavras que nascem de voz trémula
e procuram o sentido que as conote a um sim,
para que ao adormecer possa vislumbrar na névoa
escrevo o sorriso antes que a vida se ria de mim…

2005-08-03

Nuvem escura

Gosto de ti…

Quando vens de mansinho,
arrastando contigo o soar dos trovões,
a luz irrompe no dia
e salpica de estrelas a noite,
atinge-me com a candura do abandono
o primeiro voo do pardal fora do ninho.

Gosto de ti…

Trazes no regaço uma promessa,
o cheiro a terra molhada acorda-me,
é ainda uma miragem e eu peço-te:
Vem depressa!

Ó minha nuvem escura,
preta de água,
prenhe de temporal, onde relâmpagos anunciam o Inverno
ou o súbito marejar e a fuga dos grilos à toca,
Que se calem os homens!

O próprio Sol esmaece e as árvores curvam-se a ti,
Rainha,
que nem toda a Natureza atinge a graciosidade que tens.

Vejo-te chegar e tu,
ainda antes de me vislumbrares,
trazes o analgésico para este dia sufocante,
não sabendo que és a caneta no poema,
choves,
mas eu gosto de ti.,,

Possuis a calma que nunca vi,
trazes-me à memória pequenos riscos,
traços que surgem no papel ou na mente
como as gotas que caem no chão levantando
gloriosas
pequenas nuvens de poeiras
ou soltando na atmosfera o odor,
aroma,
sabor de chuva no Verão.
recebo-te de lágrimas a sorrir,
braços abertos, nu, sozinho numa estrada,
adormecido, sem eira nem beira,
gosto de ti!!!

Minha nuvem escura,
meu bater de asas, gotejar na caleira,
o som que pede licença aos sentidos
e, perante tanta inquietação,
olha para mim e sorri.

Fecha-me os dedos na caneta,
Que seria de mim sem ti!

Há quem te chame inspiração…

2005-08-01

Tales from August

O cão Cão

Quem nunca teve o seu fiel amigo?

Jazes na estrada,
na berma,
como se fosses um reles vadio
e olho-te, pela última vez,
com olhos de neblina molhada.

Tens aquele sorriso na cara,
sim, cara, para mim és mais que animal.
Sorrio porque sei que o tempo pára
e se antes acariciava o teu pelo engrenhado
surge agora húmus e dás vida à vida,
nasce de ti um vale
e visito-te num não muito longínquo passado.

Baptizo-te de cão,
és isso mesmo,
uma forma de voar quando agarrado ao teu pescoço descolava do chão,
apareces ainda atrás de mim,
saltando,
tentas segurar a minha mão,
lambes-me para que te acaricie,
para que sintas o amor que alguém já te deu
e somente agora,
quando te vejo morto,
compreendo que quem pedia carinho era eu.

Inveja hipócrita

A hipocrisia tem rosto...
Escondida nos sorrisos de simpatia
que amordaçam o belo cântico em pedras frias.
Sim, tem cara desbravada,
movimentos que parecem ser de cortesia
e são, no íntimo, acenos de falsas mordomias.

O olhar de lado denuncia a matriz,
já mira o alto da Lua o Sol
julgando ser estrela,
ou universo,
a dor que agudiza o cotovelo
e a voz que em escárnio diz:
Se fosse eu…

Inveja hipócrita que nasce em globos,
os olhares lampejam mágoa
do sentir da vida de outrem no papel,
servir-se de ementa alheia em tez de tábua,
em cortes de capa escura de estudante
nasce o trono de m*rd* para os lobos.

Ser alguém num papiro,
almejar o céu em riscos cor-de-rosa,
sina de pobreza crua e dura nos livros falsos,
o pobre que do mendigo se goza...

Não o é...

eu fui assim...

Encontro restos de mim mesmo,
uma qualquer sombra numa folha branca de um diário
e sei quem fui, quem sou, quem serei
na medida linear do tempo que não o é,
a espiral que para sempre retornará, as contas perdidas de um oco rosário,
um túmulo aberto num templo,
cálculos fictícios da distancia das Plêiades ao cume de Gize.

Chamam-me bruxo,
olham-me de soslaio com medo do eu que não existe
e eu sorrio, peço carinho, estendo as minhas mãos frias,
mas não querem,
negam o meu sentimento e ameaçam-me com a ironia em riste.
Cheguem-se! Aproximem-se!
Por favor, não tu!, não te rias…

Olha para mim!
Olha para mim!
Não, não sou um vulto, sou claridade perdendo a nitidez,
quero que saibam, antes de minha resistência sucumbir,
o que quanto vos amo, o quanto vos quero aqui,
mas vocês riem-se, porquê?, não vos trato mal, porquê?,
não agridam com essa rispidez.
Será possível, questiono-me vezes sem conta, perder o tempo que não o é,
olhando continuamente o que já vi?

Continuo a dobrar, dirigindo-me à minha origem,
um local secreto meu,
só meu!
Retorno ao ponto de partida, pois não existem destino ou origem,
são frutos de dogmas divergentes e assim sendo não posso voltar a lado algum,
estou onde vocês permanecem,
onde todos vós são eu,
onde sou vosso filho,
pai e irmão,
estranho pedinte sucumbindo sabedoria a dementes.

Pedras soltas num ribeiro,
descendo o tumultuoso declive da insanidade,
quantos paus necessitarei para construir minha canoa,
um refúgio contra a convergente maré,
com as mãos nos joelhos, cabeça cambaleando sentimentos,
pedindo convulsivamente um pouco de paz, tranquilidade.
E o mundo não pára, move-se, pula, deixa para trás o passado
no tempo que não o é.

Ouvem-me?
Ouvem-me?
Talvez o meu pedido seja inaudível,
ou meu lamento uma pena nos braços do vento...
As indagações continuam, a lágrima corre,
as primaveras passam e eu aqui, com frio,
abraço a solidão a que me sujeito,
pois não sei o que quero ser, o próximo mistério a desvendar,
sei apenas esboçar-te um sorriso quando no teu rosto vejo sofrimento,
mas isto não chega, não é suficiente aqui, onde vocês estão,
só sou feliz dentro do meu peito.

As pálpebras cerram-se, como o fecho de um acto,
numa lágrima de saudade no rosto de um palhaço,
o cansaço no corpo sucede ao abandono da alma,
a tristeza não é alegria, se eu sou não posso não ser,
a visão tolda-se, vultos conhecidos assolam,
são faces de quem comigo andou no regaço
e ninguém compreende que ao aprisionarem-me, soltem-me!,
estão a cortar rente a ânsia de lá chegar, a obsessão de me rever.

Lanço o último verso à escrita,
vejo-o formar palavras,
que pouco mais são que ilusões.
Miro o negro dos olhos,
dilata-se uma vontade de partir no fundo da miragem
e o sorriso,
outrora espontâneo, nada mais é que um disfarce, oculto a tristeza
que em mim corre aos tropeções.
Acabaste o caminho, a tinta secou e o sorriso desvaneceu,

Acordarei de novo nos teus sonhos…

2005-07-28

Adeus

Sorri para mim,
é esse raio de luz radial
ou meus olhos vêm apenas o que a imaginação florida sente?

Serpenteia entre fotões,
sê da vida um errante destino que me sacode
e cega a imaginação com agrestes arpões!

Vai,
segue um rumo que descrevo na areia,
a espuma negra das lágrimas sórdidas é má,
sabe a fel,
tolda o barro sujo com que te construí
e cospe no caminho.
Deixa que esta dor lentamente me eleve ao solo
e faça deste aperto no peito um pingo de mel.

Desapareces distante
e eu longe de mim permaneço.
Nas ondulações gigantes do sorrir vago e profundo
não sei se morro
ou adormeço.

Agora

Se me pudessem ver neste momento,
onde a sombra da caneta escurece
e as letras são todas iguais...
Toda a palavra é um tormento,
um profundo rasgar de emoções em platina
para que seja real,
sincero,
este pequeno barco de papel.

As rugas reflectem apenas ar,
são apêndices da idade,
repercutissem elas a saudade,
a ânsia de a mim chegar
então saberia o poema,
ou a tinta da pena,
que o suor que cai de meus olhos
é rude forma de matar,
aniquilar,
a vida que nada sabe de mim,
os caminhos de pedras gastas,
a tristeza pelas esquinas a matar...

E eu sentado no verde musgo do muro
com os punhos cerrados,
à espera que a calma chegue de uma ruga sem fim.

Casaco azul...

Visto o meu casaco de vagabundo e sonho.
O calor que a lã emana é vida
ou talvez seja o aconchego da alma esquecida,
quando a cabeça pende
e a sonolência é duro fardo
os olhos que se fecham são cristais
onde o passado sucede.
Um breve sorriso é enlouquecido
pelas mãos que agridem a face escariada,
as rugas que o espelho exibe
são fundas e sujas como as pedras da calçada.

Bermas de estrada suja e anoitecida
onde param luzes solitárias
e inalam a maresia qual fragrância pura estelar,
caras maltratadas,
quase mal amadas,
amortalhadas pelo vício corrosivo da manhã.
Palavras avulsas sem traves ou barreiras inócuas
e cabelos que ondulam sem brisa,
surgem um dia,
sob o trinque da porta do luar
e fecham-se às janelas que mostram o respirar...

2005-07-26

À sombra do prólogo

À sombra do prólogo

A sombra do desconhecido
Que contra sentido és tu
que me isolas da vida nunca saboreada?
Podes sorrir numa área a jusante do medo
circunscrita de fogo brando,
deixo-te ser o pesadelo que me devora cru
insensatamente de uma flor amada,
sussurra-me ao olhar,
quem és tu segredo?

Cobres-me de serena loucura,
no vento que me beija arremessando-me
em paredes de destino irreal
e travos de pesadelo numa lenta tortura,
rende-te ao som da brisa que embala o dormir
e saúda os pássaros em pinhais de clara escuridão,
não deixes nunca que o meu sonho deixe de sorrir...

Nas verdades do destino
onde os traços que se perdem são migalhas,
há um rumo que aguarda pelos serenos cantos.

Que ilusão me prende a ideais terrenos?
Quem se revela quando fecho os olhos?

As luzes que chamam por mim
encantam e desvendam a noite,
são o claro acordar
ou fruto de meus sonhos?

Não deixes que se abatam em mim
o desânimo do audível amordaçar
e a tristeza que teima em atacar...

Faces que se iluminam ao passar pelo mundo
como dormindo,
como sonhando nos dedos de um vagabundo.
Quem reflecte o olhar fundo da paisagem
sabe que no sorrir morre o medo da miragem.

O cabelo sucede à noite em sussurro despertando,
dança inebriado pelos falsos sentidos
que acometem os meus passos perdidos.
São cândidas folhas de Outono o pôr do Sol
ou o vulto que me acompanha é a sombra do lençol?

Diz-me quem canta esta melodia
que morde o limiar da fantasia,
talvez sejam os relvados pastos
que transpiram alegria,
talvez sejam os medos
que vão nascendo quando desaparecer o dia.

Se nasce numa nuvem o olhar
e o céu ameaça, com um trovão,
a noite cola-me ao vento como a resina
e a caruma acolhe o corpo vão,
se soubesses, vida, o quanto a solidão me ensina.

Não sou eu que te escrevo,
nem tão pouco a luz do dia,
desculpa, noite, pensei que era o Sol que morria…


Serenata à noite minha

Quando clamo à noite que é minha
Minto,
Sabe ela no azul escuro ou celeste
O que no fundo sinto,
Sorrio ao luar frio do Outono que me arrepia a espinha
Como um vagabundo ergue sua garrafa de líquido tinto.

Quando sóbrio estendo um dedo às estrelas
Choro,
O cintilar é código que cai em meus olhos
E pede que regresse ao vazio onde moro,
Nas mãos frias que entram nos bolsos prenhes de sonhos
Um pensamento solta-se à luz que decoro.

Na noite vadia que atrai em mim o fogo
Ressuscita o ímpeto de sorrir,
Talvez queimar folhas secas de Outubro,
Pisar o som do vento nas calçadas graníticas
Ou deixar que a felicidade possa fugir.

São rimas órfãs que lamentam a razão,
Esclarecem o poema de sombra reflectida
Na palma de minha mão.

Agora o lume crepita na imaginação
E no escuro um vulto inócuo que se aproxima,
Clamo à noite, amante, és minha…


Prólogo

Acabou-se…
Algum dia tinha que te dizer,
Que os medos que possuía
Além do prazer,
Ganharam nomes
E faces,
São agora companheiros e realidades
De dimensões onde se movimentam.

2005-07-17

Tanto o que queria...

Tanto o que queria...
Queria estar convosco sem pensar na despedida,
saborear cada toque
e olhar
com amizade,
amor,
sem render a minha mão à saudade.

Queria que todos poemas fossem música,
melodias que ouvissem
e palpassem de olhos fechados,
tocados por mãos invisíveis
que em teclas
incolores
bailam sensíveis.

Queria que não acabassem,
que fossem mais uma rima
no poema
da minha vida...

Há quanto tempo vos espero,
quanta vida me tocou
e voou
porque eu vos aguardava,
quantos anos e sonhos
ou desencontros
com o futuro
eu deixei que me mordessem,
quantos...

Queria esses olhares vagos apenas para mim,
as vossas mãos
os sorrisos,
esses braços abertos
que se estendem para lá do fim,
como queria...

Queria ver além do amanhã,
virar a página
do bailar na multidão,
sentar-me no chão
e chamar por ti, irmã,
irmão...

Queria que não terminasse este poema,
não voltasse à vida
efémera e fugaz,
sequência de pleonasmos,
não fosse sequiosa devoradora de sonhos
e dias,
ensombrada apenas por melodias
que teimam em chamar-me,
aos soluços,
do lado de lá da vida...

Do lado de lá da redoma
onde vos conheço como ninguém,
onde a tristeza nos abandona,
onde eu e tu,
todos nós,
somos muito mais que alguém...

2005-07-16

Três tristes filhos do Alvão

(I)

Sento-me.
Espero que os meus olhos vislumbrem
um pouco
mais
esta paisagem.
Enquanto o vento suaviza o calor
e esta mão,
vazia,
tenta em palavras atenuar a dor,
esta parte de mim descansa.
Ouço ao longe alguém,
uma voz que em silêncio me chama
e seduz,
oscilando uma foice
com olhares que inflamam
e um rosto escondido por um capuz.

Atiça-se a água
ou lume
que incendeia e apaga
de uma só vez
a mágoa,
o queixume
da vida, que sofregamente me agarra...

(II)

Queria ser mais que poesia,
agarrar o vento que fustiga
e clamar, antes que nasça o dia
sobre a noite,
este sabor a vida
a que chamam de maresia...
Queria que os meus braços se abrissem,
em ângulo tal
que os amigos, mesmo não sabendo,
no meu coração
em mim
morassem.
Queria que as palavras não fossem apenas minhas,
que não as tivesse que falar
e tratar,
que não fossem como eu
sozinhas...

(III)

As sombras projectam-se no horizonte,
ao longo do olhar
em que repousam vadios
sentimentos,
onde sorrisos anónimos vivem
apenas
para superar este monte.
A luz é já fraca,
balança lentamente na caneta
ao sabor do momento,
recolhem ao leito pequenos raios
e saem de lá,
quase em tormento,
suaves estrelas de papel
que pincelam o meu gasto olhar...
Faz-me companhia Solidão,
baptizei-o assim,
não é meu
creio que de ninguém,
apareceu a meu lado surpreendendo-me
contra o azul esbatido do céu...
Ao vê-lo assim perdido
questiono-me,
será ele apenas eu?
Partiu com as sombras,
desaparece no horizonte em pegadas toscas
deambulando no caminho,
enquanto Solidão busca um novo dono
sento-me no calor do Sol ido
que faz no meu olhar o seu ninho...

2005-07-12

O sorriso no olhar

Quando no escuro
brilharam pela primeira vez,
teus olhos sorriram.

Escalando este muro
e estocando ao de leve a altivez,
teus olhos sorriram.

Sorriram apenas
como se me abraçassem,
viessem de longe,
distassem ao meu sonho mil veredas
e seria eu cansaço
na noite,
nas estrelas.

Mas eu sou abraço,
elo algures de uma corrente
imaginária e longínqua,
que une os fios invisíveis
dos corpos que possuo,
um etéreo e navegante
o outro peso,
errante...

E o escuro torna
como serpente,
como sempre,
traz este esmaecer que me adorna
quando me divido
em gente,
e ausente.

E esta brisa
ou sonhar
que te embala o sorrir,
é mais que um soluçar
ou prenuncio do que há-de vir,
é a recordação
efémera
do que é teu destino,
o infinito...

Quando teus olhos sorrirem,
fecharem,
e na alma a felicidade nascer,
não é cansaço do tempo ido
sou apenas eu,
que tenta sussurrar,
no teu ouvido...

Meus olhos sorriem...

2005-07-07

A new world

"O universo não é exactamente como julgastes que fosse. O melhor será alterar aquilo em que acreditais. Porque o universo, esse, certamente não o podereis alterar"
Isaac Asimov

2005-07-02

Quase nada

Antes de me deitar escrevo. Nem sempre poesia. Nem sempre palavras. Nalgumas ocasiões fico deitado a falar, não sozinho, para o escuro, sobre o dia, as pessoas, tudo. Noutras ocasiões peço-me que escreva, coisas que por vezes não são minhas, apenas a caligrafia. Acaba por ser uma surpresa no dia seguinte, ler o que escrevi. Acho que é assim que liberto dos pecados alguns perdidos da vida, quase como eu. Mas mesmo esses perdidos são mais sinceros, têm mais ética, mais cosmoética que muitos outros que conheço.
Vou-me à vida, a esta coisa passageira.
Se me vires por aí perdido, chama-me, porque nessa altura já perdi o rumo dos vossos olhares.


Quase nada

Sorrio até à próxima lágrima,
até o teu olhar me recordar
que existe mais que esta vida.

Quando surgir novamente
pintado de alegria
seguirei rumo à insensatez.
ancorando apenas
por momentos
no sorriso que nasce
(ou morre?)
nos lábios da vida.

Ao virar da esquina
onde dorme um sentimento,
um dedo bastará
para que sinta eu na carne
(na alma...)
os teus inseguros passos,
os débeis sorrisos,
que frágil parece ser esse teu viver...

Não vás para longe,
porque o sorriso ausente
é mais do que eu...
E eu sou quase nada...

Raiado...

Raiado...
A sangue...
Com revolta...
Com asco...
Este verso vai durar apenas uma noite...
Aproveita...

2005-07-01

Cansaço

Estou cansado de chorar,
de sorrir
para não esmaecer,
cansado de lutar
e desfalecer
quando me encontro sozinho,
com ninguém
em mim,
vazio...

Estou cansado do cansaço,
do lento entorpecer
dos dedos,
dos olhares turvos
longínquos
que respiram do medo.

2005-06-30

Em passo incerto

Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.

Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...

Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...

2005-06-25

Levem-me convosco

Deixa-me seguir teus passos,
percorrer os trilhos
dos sonhos,
fazer deles meus
como se fosse sempre a teu lado,
como se a amizade
ou a saudade
fossem apenas um espaço vazio
onde não cabe a idade...

Inunda-me um hiato
que sustenta a falta de firmeza,
não quero,
não vivo,
não respiro esta nuvem de tristeza...

2005-06-23

Coisas que não se dizem

Quando estou com amigos há pormenores que lhes escapam, faces que se mostram e há, sempre, muita coisa que não se diz.

Coisas que não se dizem (fora do silêncio)

Cada pessoa é um mar
tumultuoso
e incerto,
que busca uma reentrâncias na vida
que ampare as suas marés,
que receba com alegria
as ondas rebentando
a seus pés...

2005-06-17

Da terra

Queria escrever ainda mais.
O "post" anterior soube-me a pouco. Sabe a pouco porque consigo escrever apenas um décima parte do que penso, do que sinto. Que falta me faz um mecanismo que traduza, digitalize, automaticamente, o que se cogita.
Andei a percorrer alguns dos poemas, encontro tantos, quero escrever sobre tantos, escrever tantos mais, mas tenho que parar, respirar, escolher um que me sorri.
Mais um poema. Um que tem rastos de passeios pelo monte, pelas aldeias perdidas, pelas gentes agrestes do campo, do fim do mundo. Da minha gente. Que amo.

Da terra

Cheiro da terra,
Carícia de mão rude e calosa,
Alfabeto decorado entre tojos e medas,
O odor do presunto,
calor do lume brando,
Paro o tempo para dar de comer a esta alma gulosa.

Fumo nos telhados,
Colmos molhados,
Paredes negras de fuligem que sai dos olhos,
Imaginação do lado de lá,
A cidade surge apenas em sonhos,
Caminhos de pedra forrados a merda de gado,
O chiar de rodas,
O aceno inocente de quem em sorrisos se dá.

Saias corridas,
Cortinas de folhos até aos pés,
As chinelas ribombam no pátio como o trovão,
Um pôr do Sol indica se amanhã é dia de monção.

Corre o negro da cinza nas mãos dos putos,
Lousa que grava apenas o riscar do giz,
O nome mal escrito como o sotaque torcido de quem o diz,
Mãos e olhos,
Talvez rostos,
Gente esquecida pelo próprio tempo,
Sorrisos sinceros e bocas que soltam um só sentimento,
Quando os novos por serem velhos para longe vão
Resta à minha gente apenas um momento,
O frio modo de dizer solidão.
Boinas cumprimentam-me,
Sílabas cortadas às palavras saúdam-me,
O sorriso tímido na face apoiada à enxada,
O corpo torcido amparado no muro que ladeia a estrada.

Sempre os mesmos rostos,
Ficam para trás como uma árvore ou um cercado,
Correm os pastos quase negros, quase sós,
Morrem os olhos pela alma,
Mirra a alma por a idade,
traiçoeira,
Não deixar que a forquilha trabalhe na eira.

São cidades fantasmas por aí,
Crescem em percentagens,
números ocos como o ar,
Fantasmas vivos,
farrapos, habitam em noites chuvosas
E dias de calor ou tempestade.

O olhar continua aqui, em mim,
Furtei-o ao último pastor que saudei,
O cajado escreve umas quantas rimas, ou ovelhas,
Perpetua as gentes do campo,
A pureza com que sonhei.

2005-06-16

Saudade ou não...

Há mais histórias, contos e poemas num minuto de vida do que em todas os livros do mundo.
Escrever o que vejo, como vejo, as pessoas, os locais, cenas e cenários, tudo é imenso, tudo é enorme para poder reduzi-las a meia dúzia de palavras.
Posso tentar, sempre, que cresçam das mãos palavras, frases, tal como saem de meus olhos, mas é difícil.

Tudo é saudade

Tudo me sabe a saudade,
A terra molhada nas unhas e palmas das mãos,
O suor e seiva dos olhos
Que caem e fertilizam os chãos.

Tudo me cheira a saudade,
O corpo, um corpo estranho visto de longe,
Uma qualquer aparição consciente de meus sonhos,
Um beijo de alegria na face,
O calor tórrido, excitante, de névoas sobre a cidade.

Tudo me sabe a saudade,
Cores,
Negros, brancos, amarelos, vermelhos,
Todas as cores de um arco-íris nas faces,
O mesmo olhar, raiado ou não, da tristeza nos espelhos,
Dores,
Partos de um sorriso que teima em não morrer,
Esgares paridos de encontrões no meu peito,
A lama onde me deito,
O sumo da vida que é espesso e ambíguo,
A faca nas costas,
Falsos amigos que induzem ao sofrer
E são o meu consciente declínio
Que espreita em cada casa,
Em cada postigo.

Tudo me mata à saudade,
O aperto de mão, ou um abraço amigo,
A sensação de liberdade
Quando não estou comigo,
O vento, a luz, o escuro, a água
Tudo, mas tudo, é melancolia,
Estrangeirismo do amor afundado na mágoa.

Tudo me lembra saudade,
O vazio, o pleno, a solidão, a multidão,
O sorriso, o chorar, o amar (ai o amar…).

Tudo…
Tudo me faz sorrir,
Caminhar lentamente pela estrada acima,
Calcar merda, afagar uma planta, aspirar olhares meus vindos de outros, outras,
Mirar movimentos e saber quem sou eu,
Apenas eu e mais ninguém,
As faces, membros, olhos, tons, as estrelas do céu,
O negro do incêndio, as flores que germinam para a água dos meus sonhos a cair,
O deserto, o polar, o neutro, o ácido,
O poema, a prosa, o homem, a mulher,
O corpo sozinho que bebe e que outro corpo quer…
Tudo me cheira a poesia,
O ar quente da montanha, o salpico da maresia,
A gota leve que cai da ampulheta do sangue que vivi,
A eterna saudade do conto,
O poema que ainda não escrevi.

Lençóis

Atado em sonhos,
Sulcando novos rumos que desconheço
E que, sinceramente,
Não sei onde vão dar.

Crescem à medida que se enchem de água meus olhos,
Em loucos bailados desconexos
Num aperto de mão e sangue quente.

Memória, fustiga a paz de negro cantada,
Acordes de uma guitarra a amar,
O movimento dos dedos na estrada
Traçando linhas,
Traços longitudinais,
Paralelos, trópicos,
Guias imaginárias que percorrem a saudade.
Lágrimas que brotam
Sob o aperto surdo do coração,
Que emana medo
E consome felicidade.

Orifícios num portal,
Ferro forjado e retorcido
Que enclausura o meu segredo,
Um laço azul e amarelo
Que lidera o meu dormir,
Apaziguando o calor do corpo,
Aquecendo o frio do sofrer
De olhar para o vazio interior,
Perscrutar a parede rugosa,
Ver gotas salinas correndo,
Dançando em rugas movediças,
Saltando cicatrizes do sorrir
Que afluem ao grito inaudível
Desta que é, enfim, maneira de doer.

Respiro…
Involuntário inspirar de estrelas,
Soprando o verde de um jardim
Que nasce na palma da minha mão.
São rosas, senhor!

O canto de uma coruja,
Enquanto escrevo à luz das velas,
Um pensamento que surge e indaga:
- Porque estás assim?
São as incertezas do corpo que some,
Foge a alma para o abrigo sem guarda
Onde espera a vinda do sorrir,
E escreve o sal no vento errante
O sonho que vislumbro antes de dormir.

2005-06-15

Na matéria

Há já alguns dias que nada tenho escrito. 
Confio na memória, gravo tudo o que vejo, ouço, sinto e falo, mas no final nada tenho escrito.
Encontrei alguns poemas que escrevi, antigos, e é curioso ler com outros olhos, diferentes dos que os escreveram, mais claros. Poderia rasgar alguns, mas os poemas, o que escrevo, são como experiências vividas, são momentos gravados, fundo, vivi-os, escrevi-os.

Matéria

Quero deixar a matéria,
Que se aglomerem nas abóbadas centelhas de sorrisos
Palpitando a cada lua que passa.
Nas veredas de Inverno onde descansa num solstício
Mora o sonho de vaguear em todo o momento,
Porque tenho eu de ser corpo?

Sentimentos que se comprimem no meu peito
Fugindo à imensidão do vazio, da voz no escuro.
Sorrio apenas quando exausto me deito.
Na fria porta de saída aberta para tão alto muro,
Não cabem mais indagações à relatividade,
Nos escombros da carne crua e fria,
Mas do alto do nevoeiro que surge à madrugada
As canções que ouço são frutos,
E emergem em golfadas de água acetinada.

Estou preso numa masmorra fria e solitária,
Quero mover-me, mas o tecido tolda os movimentos.
Isto que chamam corpo é sólido,
As emoções que sou não envolvem o tudo
Pois crescem infinitamente desde sempre a nunca,
Tendem às ilações do sozinho fogo que abomina
E correm vagamente para fora da matéria
Que se ilumina.

2005-06-08

These mist covered mountais

Regresso a casa e vejo a neblina em torno das montanhas, não muito altas, com muitas casas, à boa maneira escocesa, daquilo que chamam "mist covered mountains".
O termómetro do carro assinala 30º C, um ar bastante abafado para as 21:00 tolda-me o raciocínio (se não é o calor é o frio) e vejo o nevoeiro. 
Nevoeiro? 
Parei o carro numa curva, do lado exterior, com vista para uma parte do Vale do Sousa, contemplando a paisagem, as casas como cogumelos, algumas estradas e aquele nevoeiro. 
Nevoeiro?
Não era nevoeiro, não, era fumo, despojos dos incêndios que lavram por estes lados, fumo misturado com suor dos heróis ou bombeiros. Da janela, porque é noite, vejo umas labaredas que se estendem ao longo do contorno do monte, o fumo é laranja e eleva-se no céu escuro, como se fosse uma grande fogueira de São João. Pelo meio estão homens abnegados que travam uma luta desigual. Amanhã, antes de sair para a escola, devo ver novamente "this mist covered mountains", mas este nevoeiro arde, não me permite abrir a janela e sentir o seu frio, não, arde, faz doer os olhos e quando ele se levanta ou dissipa, a paisagem que descobre faz doer a alma. Não é preocupação nossa, para quê? Natureza? Incêndios?

As pessoas estão ocas de valores, privadas dos seus sonhos, são fruto apenas da m**** que lhes enfiam através da televisão, das revistas. São marionetas movimentadas por cordas de uma guitarra tocada por energumenos, daqueles que poderiam fazer algo em prol das pessoas e não em prol da sua conta bancária, do share de audiências, são ocos. São falácias ambulantes, crentes apenas na progressão da sua carreira, de um deus qualquer, com letra minúscula, que observa do alto, de todo o lado, que "proteja os meus quando precisar".

A coerência não faz parte do dicionário de cada um, pelo menos de muitos que conheço... Existiram culturas que exultavam a seriedade, os valores pessoais, a honra, a ética (uma ética muito além da subserviência dos dias que correm), porque caíram?

Como é possível passar ao lado de problemas, varrê-los para debaixo do tapete, sentir o cheiro a m**** e nada fazer para limpar e desinfectar. Vivemos o medievalismo mental, cheira mal, não há ideias, varre-se a m**** para debaixo do tapete e continua-se a dançar sobre ela, pisando-a, sentindo o cheiro fétido, mas sorrindo pois não se vê.

Sente-se, mas não se vê.

Mas para quê preocupar? Não é meu problema. Arde e depois? Quase me consigo imaginar com os pés sobre o tapete e calcando a m****, sorrindo de desdém para alguém com uma preocupação diferente, com ideias e ideais e dizendo "isso é utopia".

A utopia é apenas um termo utilizado para nos desculparmos e fugirmos de uma ideia válida, que no entanto nos irá obrigar a mudar as nossas prioridades, que permitirá deixarmos de olhar para o nosso umbigo.

Quero estar aqui para ver a reacção das pessoas quando o verdadeiro nevoeiro se dissipar.

"These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms"
(...)
There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones
(...)"
Dire Straits, Brothers in arms

2005-06-01

Os vossos olhares fundos de solidão

Olhares fundos de solidão,
saliências na noite
e reentrâncias no alvorecer
que sucumbem na solidão,
longas nuvens de fumo negro
que sai da alma
e do sonho
para em teus anseios morrer.

O toque na pele é lapidar,
é frio e distante
e, no entanto,
é mais que carente,
é fremente,
é dor contida nesta lágrima
é o embalar surdo do teu chorar.

Quantas cadeiras e divãs,
quantas?
Quantas das faces te escondem
o chão,
onde te sentas e sentes
os olhares fundos de solidão...
Olhos fundos de esperança
Sou de mim eu mesmo
algo que encontra em ti,
noutro
ou noutra,
um novo sorrir
um velho olhar
que ofusca as paredes espessas de fumo.
São mais que as carências
essas rodas de algodão doce voador
em mãos vazias de outras mãos,
em sorrisos ausentes de amor.
Sobem e caem nas ausências
no âmago das tuas existências,
fazem deste fio de Ariadne
uma ténue lembrança
da água que fugia desta fonte
para cair, serena,
embalando os corpos numa indistinta dança.
Se os dedos esgrimam no ar
a ânsia de tudo dizer,
os olhos fundos de esperança
trazem à memória
mais que sonhos a viver,
toda uma vontade,
utópica,
de tudo amar...
Vem ter comigo neste recanto
onde descanso,
das almas doutros
que carrego,
que sustento,
sou eu da solidão
como o mar da gota,
da ansiedade ao tormento
um mar que não alcanço.
Termina em ti
ou na próxima vez
as mãos que suspiram
"Ainda não foi desta que vivi",
vacilam
com altivez
nos meandros da estátua que a todos sorri...

2005-05-31

Abandono

As palavras abandonam-me
assim como a frustração,
como se morressem
quando em sentimento se transforma a emoção.
Uma carcaça de pão seco
e um saco velho de pano,
entreaberto o portal do sonho
onde falo e não se levanta o eco,
que faces me cumprimentam
e entoam meu nome?

Gostava de ser sequencial
como os ponteiros
doidos
dos relógios de sombra,
para poder sorrir quando alguém,
talvez tu,
me conta algo que já sei...

Quantas faces que desconheço
e surgem na noite
num qualquer livro de endereços,
quantas mãos inabitadas
me seguram
como se fosse, eu, fugir novamente
de mim.
A música que não canto
e embala o sono que repercuto
é o hino da doçura,
que adormece
e entristece
um sonho nesta calçada
fria e dura.

E remeto umas linhas
que escrevo sem respirar,
não vá a lucidez surgir
e de novo tudo apagar.
São os quatro versos
ou sopros
que alentam os detractores,
permite-lhes esgrimir
e suas demagogias surgir
para escamotear,
adormecer,
as suas próprias fragilidades
com os seus segredos,
seus medos...

2005-05-28

Há lágrimas que não podemos parar

Há momentos, faces, olhares.
Há lágrimas que não podemos parar.
Aninhado, vejo os mesmos olhares que via no espelho há quinze anos. Quinze. Olhares de esperança e sonho, de perda e ganho. Olhares que vêm ainda além do olhar aconchegados pelo sorriso, ainda além do sorrir. São tantos os olhares. Olhares marejados onde nadam ambições e poucas frustrações. Olhares de timidez e que acompanham a cara num movimento de fitar o solo. Olhares de solidão e despojo de vida. Olhares dos quais sinto já falta.Nos mesmos olhares descansam lágrimas que saltaram, que irão fazer sorrir e chorar. Lágrimas que ao correrem pela face, pelo corpo, irão moldar a identidade. Antecipam já sorrisos e dores, abraços e desencontros, amizades e saudades. Nos olhos deles e delas, crianças ainda, vejo alguns dos caminhos que trilhei, as mesmas alegrias, ilusões, sonhos, perdas, namoros e desencontros e também tristezas.
Por muito que se queira abraçar o mundo, há lágrimas que descansam agora à espera da ocasião traçada anteriormente. São lágrimas que irão sarar feridas, cicatrizarão mágoas.
Estas lágrimas não as podemos parar.

2005-05-25

De quem se escondem

Os sorrisos chegam até mim
inconstantes,
não seguem uma ordem
lógica,
exacta ou friamente sem fim,
são errantes
que não sei de quem,
alguém,
que não sei porquê.

Não sei se apenas adornam
como quem mente,
talvez,
talvez seja o momento que o sorriso vence
e se desprende,
se liberta,
talvez,
talvez seja a porta da sinceridade aberta.

Mas chegam tão espaçados,
tão ténues por vezes,
que são eventualmente reflexos passados
de longas amizades
de velhas e gastas idades.

São idos,
tão fugazes existem
que não sabem que viveram
ou sorriram.

Fugidos,
do cárcere dogmático com que os pinto
às ruas e montes em vales floridos,
não são mais que as faces que os escondem,
nem menos que a amizade que sinto,
são idos,
fugidos.

E eu sorrio,
uma e outra vez,
aos sorrisos que conheço
e escapam das faces hirtas.
Tenazmente permaneço
uma e outra vez
à espera que das ondas, que se formam no rio,
surja o verdadeiro amigo
e não este ser desconhecido
que me mente...

2005-05-24

Pitágoras

Pitágoras numa outra perspectiva.
"Anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las."
"A vida é como uma sala de espectáculos: entra-se, vê-se e sai-se. "
"Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem".
"O que fala, semeia - o que escuta, recolhe".
"Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga, mas não a carregues".
"Educai as crianças e não será preciso punir os homens".

2005-05-23

Ao fundo da noite

Noite de domingo.
As amizades não solidificadas são ainda uma paisagem que se desloca, não sabemos onde está ou estará. Talvez seja por isso que a mesma amizade dói, dói porque ainda depende do sentir, do amar.
Venho sempre cheio de intenção para aqui, sento-me e nada. Devo ter obstipação mental. Com a vontade de escrever, os neurónios devem vir todos a correr e entopem as vias pensantes do cérebro. Ou é disso ou do sono.

Novamente à Amizade...

Gostava que a amizade fosse governante! Que apanhássemos com ela todos os dias, nos telejornais, nas rádios, nas revistas.
Gostava que a amizade vingasse, que fosse rainha em todos os momentos, que ninguém nunca em parte alguma se sentisse só. Que em todos os momentos todas as pessoas se sentissem amadas por amigos.
Este mundo é tão grande, este universo é tão enorme, que a única coisa que torna este vazio suportável é a amizade...

Fim de ano

Está a acabar um ano lectivo...
Por muito ou pouco cansado que esteja e que queira que as aulas acabem, não me liberto desta saudade que começa a crescer.
Vou ter saudades dos alunos, dos putos.
Não consigo estar chateado com eles, não os deveria compreender tanto, mas compreendo, afinal, os meus 15 anos não estão muito longe assim!
Cada aluno é diferente, tem olhares diferentes, sonhos diferentes, são poços de virtudes que nem eles conhecem e/ou exploram.
Afundam-se tão facilmente nas modas, nos pensamentos vigentes, que nem sequer se dão ao trabalho de começarem a auto-conhecerem-se, de perguntar o que é andam aqui a fazer, o que querem fazer, quem são, de onde vêm, para onde vão. Ainda bem.

Sonhar

As faces aproximam-se discretamente do olhar,
Como se fosse água que brota da luz
Ou timbre profundo que no silêncio me seduz,
Nas madeixas rubras do vento
Onde o verde tremor a felicidade faz alcançar.

Quando,
A expressão por mim iniciada antes,
Um pouco antes de proferir o som,
Ou grito,
O jogo de contrastes do veludo
E do marfim,
Sim,
Que o branco é pardo na noite que se segue,
São actos,
São sorrisos de quem de si esconde tudo.

Vem,
Venham a mim as ressonâncias incógnitas
Saberes de prismas gelados num corpo hirto,
Que se encarrega o tempo de vos moldar,
Acariciar,
Sobrepor à placidez do áureo
O negro que no dia se abate,
Vem, ensina-me a sonhar.

O cultivo da amizade

Não sabia, nem sei, o que escrever. Lembrei-me de falar sobre o serenismo o que é (ou será), mas depois de hoje apenas me apetece escrever sobre a amizade.
Fico triste, ou talvez não saiba ainda o que sinto, quando se cultiva a amizade, pouco a pouco e, no entanto, chega uma altura em que as pessoas se separam. É tão difícil encontrar pessoas com afinidades, pessoas que são amigos ainda antes de o serem, são de outros tempos, nasce-se amigo sem se conhecer os amigos e, passados uns tempos, encontramos. 
Serenismo será não ficar triste? Serenismo deve ser compreender e louvar a nós mesmos o termos encontrado algo mais de nós nos outros e, no final, não nos podemos sentir vazios ou sós, pois somos, inevitavelmente, um pouco mais do que éramos antes de conhecermos os amigos. Somos nós, também, mais um pouco da outra pessoa...
Fico feliz por conhecer pessoas espectaculares e isto vai contrapondo-se ao vazio ou "medo" de não encontrar as pessoas novamente. Se as encontrei agora, neste momento, certamente as reencontrarei noutros momentos, é, pelo menos, o meu mais profundo desejo.
Poderia começar a divagar sobre as realidades paralelas, sobre os conhecer de outras "vidas", de os vir a reencontrar novamente, de "isto" ser passageiro e a nossa existência ser, então, algo mais vivencial. Será apenas uma experiência? Se for, os amigos e os momentos felizes, são janelas que se abrem para visualizar o mais que existe? E se eu escrever mais, irão internar-me?
Vinha no carro a pensar em milhentas coisas para escrever e, no entanto, fico sempre parado a olhar para o monitor, teclado no colo, a pensar novamente em mais milhentas coisas para escrever e não o fazer.
Por agora é tudo. 
É tarde, tenho sono e amanhã é dia de trabalho.
Àqueles que são meus amigos sinceros obrigado...