2005-08-24

Mal estar...

Ó Lua
cai sobre mim,
dilacera todo o meu corpo,
transforma-me em pó, grão fino de areia,
vaporiza-me em nada
e devolve-me o vazio,
enche-me de frio,
sê de ti apenas mais uma candeia.
Que frio é este no respirar?
Porque razão fogem estas linhas às palavras?
Vem,
assim devagarinho,
segura-me as pálpebras por um momento,
deixa-me escrever a palavra carinho,
fica mais um pouco ao pé de mim,
ampara-me a cabeça difusa neste tormento,
que pensas destas palavras, são belas?
É bonito o teu sorrir,
diz-me, Lua, és tu quem canta?
talvez sejam meus ouvidos,
ou a imaginação vagueando…

É sim senhora

As pessoas comovem-me, a sinceridade e a bondade ingénua, pura, intocável... Este tipo de bondade que, por vezes, se vê apenas nos "coitadinhos" e "bons rapazinhos"...
Vi a cena há uns dias, talvez semanas, quando um senhor, humilde, tão humilde, era entrevistado por uma jornalista... A casa tinha ardido e, como tal, todo o seu recheio, o senhor, vou chamá-lo "coitadinho", que é assim que é visto, coitadinho, se calhar nunca viu a Quinta das Celebridades, deve ser de outro planeta (já estou a fugir do tema...), regressando, o senhor olhava para a jornalista, com um sorriso na face e um olhar estremecedor de tanta ingenuidade...
- Então o senhor, ardeu-lhe a casa?
- É sim senhora... (respondia com um sorriso e muito educadamente)
A câmara mostrava, ao fundo, desfocando a cara do senhor, a casa ainda fumegante...
A jornalista esperava que o senhor falasse mais, mas teve que tomar a iniciativa novamente...
- E o senhor, salvou alguma coisa?
- Só a roupa do corpo minha senhora (o mesmo sorriso, o mesmo olhar)
Mais um compasso de espera...
- E agora o que vai fazer? Sabe onde vai ficar?
- Vou para a rua minha senhora... (ainda o mesmo sorriso)
O diálogo pode ter alterado, a memória pode atraiçoar-me, mas o essencial foi isto.
O homem perdeu tudo, ou se calhar tem noção daquilo que não perdeu.
O cenário era de destruição, de desolação, mas ele tinha o sorriso.

2005-08-19

Cinzento

Sento-me no sonho à espera que as sombras das árvores imponentes devorem a minha,
este banco de jardim foi frio na noite
quando as gotas que caem não são lágrimas
mas partes de um mar solitário.
Uma barreira ergue-se no olhar
onde formas disformes dançam depois do real
formando o horizonte imaginário do vaguear,
que vento abana os cabelos do destino,
que sussurro clama a alma à solidão
que é este vulto que me estende a mão?
Enterro histórias,
descansam em palavras proferidas por um céu
juntinhas ao abandono das memórias,
agora que não vivo porque dizem que o poema morreu?
Se eu fosse o que sou,
abandonado pela paisagem onde o sorriso voou,
talvez a brisa que ondula o verde brilhar do sorrir
sentisse que o amor que dá
faz todo o tempo que me circunda cair…

2005-08-16

Finalmente...

Finalmente vivo!
Respiro o mais que consigo,
a caneta toca no papel
e derrama tinta,
é o rasto visível do meu pulsar.
Pouso em todas as flores para obter mel,
apenas agora, neste momento,
sinto o sangue correr nas veias,
as estrelas salpicam e caem do firmamento
e a sua poeira camufla os sentimentos,
derramam sobre os buracos da alma
um pouco de luz e azul celeste,
infundem em mim a calma,
soltam do mais recôndito ângulo um sorriso agreste
e aí, nas estrelas,
ou no poema,
sei que vivo em dias não medidos,
pauto a existência em sentimento,
talvez amor, talvez medo,
e por entre rimas de poemas ou fluxos de prosa
fecho as mãos em concha e,
sorrindo,
guardo para mim este segredo.

Puta

(o título deste poema foi, inicialmente, "sugerido" alterar para outro... Dei-lhe o nome "vestido branco", mas este é o verdadeiro nome dela... e da personagem)

A soleira é fria e dura, como aquela estátua no jardim,
entretanto aparece um qualquer estranho, timidamente dizes-lhe que sim
e os sonhos, murmuras entre dois flocos de neve, onde estão?,
transformam-se agora em nada, o escudo do granito que te chama solidão.

Tens cabelos sujos, longos e pretos, envolvidos em neblina branda,
o corpo abraçando o próprio corpo, a mão pequena e fina apertando a esperança,
uma insignificante sombra a teu lado, a imagem nítida que a luz do candeeiro te dá,
em tons de pastel, serão os meus olhos, ou és tu ideia do que já não há?

Passam vultos por ti, não olham, tu dizes que precisas de ajuda, carinho
e eles chamam-te puta, batem-te, cospem, olha! Aquele pedinte deu-te uma garrafa de vinho!
Sai desse mundo, deixa-me dar-te a mão, não é oportunidade é sinceridade,
mas ninguém te alcança, estás longe, um corpo vivo nesta morta cidade.

São agora os fantasmas do presente, porque o passado já lá vai,
erguem-se entre as frinchas do pavimento, como um prisioneiro que escapa,
mas de lá nunca sai.
As paredes conhecem-te bem, não são confidentes, são apenas rugas na tua mão,
o verde dos canteiros, o húmido chão de veludo e o calor da lareira para teu coração.

Tão cedo começou a morte, aparecendo como um qualquer desígnio de um deus tempestuoso,
com a rede grossa e pesada, malha metálica e uma estrela que te sorri e dá gozo.
Chamaram-lhe inferno e tu sabes o que é, a opção do destino, o dado lançado por teus dedos,
em que viver é arfar, morrer aos bocados, sobrevivendo, resistindo aos medos.

E agora? Sim, agora, que fazer?
Afundas tua face martirizada no escuro, nas tuas mão uma concha
e escutas o som do mar, o banhar de sol as ilusões, mexer com os cabelos uma onda.
Lá está tu a sorrir, quem te vê não observa, a ausência do sofrimento na dor,
como se te fosses levantar, virar costas a essa vida,
arranjar alguém que não te queira, mas dê amor.

Chove, não dás fé, para ti já é uma amiga, arrefece o tórrido calor da alma na noite,
um pequeno riacho forma-se à tua frente, um homem qualquer tenta dar-te um açoite.
A flor que tinhas no cabelo, essa rosa branca caiu... Alguém a pisou...
e choras abraçada a ela, como se fosse uma filha, um grande amor que se ausentou.

Já não chove, é o dilúvio! E a rosa, flor, já não volta,
sonhos e ilusões, pensamentos e miragens,
tudo é agora sombra do voar de uma bela ave livre e solta.
As pernas tremem, mas tu insistes, queres ver, de pé, a chuva a cair no chão
e a dançar nos teus olhos, à flor da tua essência,
está uma bela menina que revive a estreia do branco vestido na sua primeira comunhão.

2005-08-12

Velas

A neve pousa suave
mansamente sobre a paisagem,
com flocos infinitos
na frustração da miragem.
entre xistos
e granitos,
solos flácidos de nuvem.

Vê o macio do lençol
pela mão de uma criança triste
empunhando na mão, em riste,
o calor humano
da luz do sol.

O vento forma remoinhos,
espirais de fúria
em brasa pela aridez de uma ruga.

O sal acumula-se na cicatriz,
carne tumefacta brota de uma flor
e nasce um bebé,
ser de luz,
para a vida em dor.

Beatas incandescentes imperam,
sendo esmagadas por meus próprios pés,
caindo na noite como cristais,
onde só os sentidos os visionam.

Cambaleando vêm ter comigo
estremecendo o solo,
em passos hesitantes.

São visões de um passado recente
esbatidas por lágrimas
que afluem à minha nascente,
no choro da despedida,
de alguém que é mais que alguém.

E eu sou nada,
a consciência do vazio
que ocamente vem ter comigo,
quando a luz se apaga
sucumbindo a vela no pavio...

Vazio na alma

Paro no tempo,
busco algo que não conheço
ou talvez já tenha visto,
sonhado em qualquer momento,
o véu de prazer que me ama quando adormeço.
Quero que venha até mim,
acordar numa cama alheia
numa face minha,
num olhar de água, amor e jasmim,
o toque suave do amor
no sorriso que impulsiona o sangue nesta veia.
Amo-vos,
perspectivas angulares da realidade abandonada,
o caminho não percorrido
ou mais curto,
na contenção de esforços para sobejarem as forças,
os braços longos e frios na pele macia,
morena,
clara,
de cores várias desfragmentadas de alegria,
o erotismo da troca de olhares no espelho
ou num corpo,
o torpor da juventude é a compreensão de um gesto gasto de velho.
Um banco de jardim,
ou uma paragem de autocarro...
Espero que passe algo, alguém, talvez eu,
a parte de mim mesmo que se conhece e,
com caridade ou através de um escarro,
me ice para a vida
ou aniquile, definitivamente, ao sono que sinto,
ao sorriso que minto,
ou talvez não,
talvez o fumo do cigarro cheire a rosas,
talvez a mão não durma sozinha e,
sem medo do fugir,
da projecção consciente do éter
se abandone ao prazer de me abraçar,
afagar os cabelos em movimentos descendentes
ou, então, pausadamente me aniquile
e com olhos raiados de sangue
em lágrimas caídas frementes
se digne o amor, enfim, a olhar para esta estátua
e, com ternura, me venha matar
ou acordar...

Universo mutando

Corro pela vida,
um pé no mundo,
um pé no sonho,
onde cada porta é um ponto de partida,
respirando o tempo numa fracção de segundo,
descansando num lago onde incauto me exponho.
Vai alto o luar,
cravejado de estrelas o céu cogita.
Pendem as rédeas de meu corcel,
ofegante o vento corre para me avisar,
cai o real sobre a fantasia num mar
que se agita
e galopeio entre quadros da tela para o pincel.
Se o horizonte aos olhos falta,
fruto do calor
ou consequência do olhar
onde cada pensamento sugere uma gralha
e as penas ondulam dentro de mim em fervor,
o Sol explode anti-matéria
e eu continuo a brincar.

Trovejar

Saúdam-me os trovões,
gritam arrastando nuvens alegres.
O vento tropeça nas rugas do tempo
e sopra o rastilho dos canhões,
o caustico sorriso vazado em lúgubres casebres
é apenas uma figura de estilo,
talvez um sentimento…
Quando brilha o Sol,
ou meus olhos de luz inundados pela manhã,
as réstias da noite são migalhas de pão amassado.
Ficou a marca quente da escuridão que amou o lençol
e as pegadas na neve de um escarlate quente,
a espuma dobrada pelo sorridente pausado
faz sonhar o presente com o ventre que lá,
no alto da imaginação,
projecta entre rochas abandonadas o frio que a solidão me dá...

2005-08-04

When the Sun rises...

Passos

Que passos são estes?

Qual a direcção que toma o destino,
num torpor desconcertante de divagações
Onde o andar é incerto,
intangível,
ao ondular da matriz que me rodeia,
será o sorrir mais um resigno das prisões
talvez o calor dos lábios que estão perto,
não, vejo agora que o movimento é sofrível...

Acompanho o corpo,
vagueio em vidas inúmeras
por tempos que me fazem morto,
linearidade de movimento que traz o infinito,
o olhar é o começo do que foram amaras
de doce sal que corre desse labirinto.

Tocar,
sentir o que a alma seduz
em danças exóticas de bailados de luz,
limpar o húmido do Inverno com o calor
e deixar,
talvez amar,
que o simples respirar apague a dor...

O sorriso antes que partas para mim

Escrevo o sorriso antes que partas para mim,
creio que nas mediatrizes do sonho
em meandros da irreal sentença que cava fundo o olhar
tenho nos visíveis esgares o término de uma epopeia sem fim.

Quantas horas, momentos, agora ou sempre,
sombras que se medem sem dimensões
escorrem pela face esconjurando ilusões,
surgindo do nada o tudo invoca o aperto firme,
o aceno supérfluo do insondável sonho
que te nasce no ventre.

Escrevo o sorriso antes que te perca para o irreal,
o momento não existe no calor ameno da saudade
que rompe a fina camada de solidão,
espero o regaço,
talvez o abraço
da presença constante da alegria de uma visão,
será fruto do sonhar ilusório de uma árvores inerte
ou eventual destino baralhado em parte incerta?

Inanimadas figuras,
estáticas palavras que nascem de voz trémula
e procuram o sentido que as conote a um sim,
para que ao adormecer possa vislumbrar na névoa
escrevo o sorriso antes que a vida se ria de mim…

2005-08-03

Nuvem escura

Gosto de ti…

Quando vens de mansinho,
arrastando contigo o soar dos trovões,
a luz irrompe no dia
e salpica de estrelas a noite,
atinge-me com a candura do abandono
o primeiro voo do pardal fora do ninho.

Gosto de ti…

Trazes no regaço uma promessa,
o cheiro a terra molhada acorda-me,
é ainda uma miragem e eu peço-te:
Vem depressa!

Ó minha nuvem escura,
preta de água,
prenhe de temporal, onde relâmpagos anunciam o Inverno
ou o súbito marejar e a fuga dos grilos à toca,
Que se calem os homens!

O próprio Sol esmaece e as árvores curvam-se a ti,
Rainha,
que nem toda a Natureza atinge a graciosidade que tens.

Vejo-te chegar e tu,
ainda antes de me vislumbrares,
trazes o analgésico para este dia sufocante,
não sabendo que és a caneta no poema,
choves,
mas eu gosto de ti.,,

Possuis a calma que nunca vi,
trazes-me à memória pequenos riscos,
traços que surgem no papel ou na mente
como as gotas que caem no chão levantando
gloriosas
pequenas nuvens de poeiras
ou soltando na atmosfera o odor,
aroma,
sabor de chuva no Verão.
recebo-te de lágrimas a sorrir,
braços abertos, nu, sozinho numa estrada,
adormecido, sem eira nem beira,
gosto de ti!!!

Minha nuvem escura,
meu bater de asas, gotejar na caleira,
o som que pede licença aos sentidos
e, perante tanta inquietação,
olha para mim e sorri.

Fecha-me os dedos na caneta,
Que seria de mim sem ti!

Há quem te chame inspiração…

2005-08-01

Tales from August

O cão Cão

Quem nunca teve o seu fiel amigo?

Jazes na estrada,
na berma,
como se fosses um reles vadio
e olho-te, pela última vez,
com olhos de neblina molhada.

Tens aquele sorriso na cara,
sim, cara, para mim és mais que animal.
Sorrio porque sei que o tempo pára
e se antes acariciava o teu pelo engrenhado
surge agora húmus e dás vida à vida,
nasce de ti um vale
e visito-te num não muito longínquo passado.

Baptizo-te de cão,
és isso mesmo,
uma forma de voar quando agarrado ao teu pescoço descolava do chão,
apareces ainda atrás de mim,
saltando,
tentas segurar a minha mão,
lambes-me para que te acaricie,
para que sintas o amor que alguém já te deu
e somente agora,
quando te vejo morto,
compreendo que quem pedia carinho era eu.

Inveja hipócrita

A hipocrisia tem rosto...
Escondida nos sorrisos de simpatia
que amordaçam o belo cântico em pedras frias.
Sim, tem cara desbravada,
movimentos que parecem ser de cortesia
e são, no íntimo, acenos de falsas mordomias.

O olhar de lado denuncia a matriz,
já mira o alto da Lua o Sol
julgando ser estrela,
ou universo,
a dor que agudiza o cotovelo
e a voz que em escárnio diz:
Se fosse eu…

Inveja hipócrita que nasce em globos,
os olhares lampejam mágoa
do sentir da vida de outrem no papel,
servir-se de ementa alheia em tez de tábua,
em cortes de capa escura de estudante
nasce o trono de m*rd* para os lobos.

Ser alguém num papiro,
almejar o céu em riscos cor-de-rosa,
sina de pobreza crua e dura nos livros falsos,
o pobre que do mendigo se goza...

Não o é...

eu fui assim...

Encontro restos de mim mesmo,
uma qualquer sombra numa folha branca de um diário
e sei quem fui, quem sou, quem serei
na medida linear do tempo que não o é,
a espiral que para sempre retornará, as contas perdidas de um oco rosário,
um túmulo aberto num templo,
cálculos fictícios da distancia das Plêiades ao cume de Gize.

Chamam-me bruxo,
olham-me de soslaio com medo do eu que não existe
e eu sorrio, peço carinho, estendo as minhas mãos frias,
mas não querem,
negam o meu sentimento e ameaçam-me com a ironia em riste.
Cheguem-se! Aproximem-se!
Por favor, não tu!, não te rias…

Olha para mim!
Olha para mim!
Não, não sou um vulto, sou claridade perdendo a nitidez,
quero que saibam, antes de minha resistência sucumbir,
o que quanto vos amo, o quanto vos quero aqui,
mas vocês riem-se, porquê?, não vos trato mal, porquê?,
não agridam com essa rispidez.
Será possível, questiono-me vezes sem conta, perder o tempo que não o é,
olhando continuamente o que já vi?

Continuo a dobrar, dirigindo-me à minha origem,
um local secreto meu,
só meu!
Retorno ao ponto de partida, pois não existem destino ou origem,
são frutos de dogmas divergentes e assim sendo não posso voltar a lado algum,
estou onde vocês permanecem,
onde todos vós são eu,
onde sou vosso filho,
pai e irmão,
estranho pedinte sucumbindo sabedoria a dementes.

Pedras soltas num ribeiro,
descendo o tumultuoso declive da insanidade,
quantos paus necessitarei para construir minha canoa,
um refúgio contra a convergente maré,
com as mãos nos joelhos, cabeça cambaleando sentimentos,
pedindo convulsivamente um pouco de paz, tranquilidade.
E o mundo não pára, move-se, pula, deixa para trás o passado
no tempo que não o é.

Ouvem-me?
Ouvem-me?
Talvez o meu pedido seja inaudível,
ou meu lamento uma pena nos braços do vento...
As indagações continuam, a lágrima corre,
as primaveras passam e eu aqui, com frio,
abraço a solidão a que me sujeito,
pois não sei o que quero ser, o próximo mistério a desvendar,
sei apenas esboçar-te um sorriso quando no teu rosto vejo sofrimento,
mas isto não chega, não é suficiente aqui, onde vocês estão,
só sou feliz dentro do meu peito.

As pálpebras cerram-se, como o fecho de um acto,
numa lágrima de saudade no rosto de um palhaço,
o cansaço no corpo sucede ao abandono da alma,
a tristeza não é alegria, se eu sou não posso não ser,
a visão tolda-se, vultos conhecidos assolam,
são faces de quem comigo andou no regaço
e ninguém compreende que ao aprisionarem-me, soltem-me!,
estão a cortar rente a ânsia de lá chegar, a obsessão de me rever.

Lanço o último verso à escrita,
vejo-o formar palavras,
que pouco mais são que ilusões.
Miro o negro dos olhos,
dilata-se uma vontade de partir no fundo da miragem
e o sorriso,
outrora espontâneo, nada mais é que um disfarce, oculto a tristeza
que em mim corre aos tropeções.
Acabaste o caminho, a tinta secou e o sorriso desvaneceu,

Acordarei de novo nos teus sonhos…

2005-07-28

Adeus

Sorri para mim,
é esse raio de luz radial
ou meus olhos vêm apenas o que a imaginação florida sente?

Serpenteia entre fotões,
sê da vida um errante destino que me sacode
e cega a imaginação com agrestes arpões!

Vai,
segue um rumo que descrevo na areia,
a espuma negra das lágrimas sórdidas é má,
sabe a fel,
tolda o barro sujo com que te construí
e cospe no caminho.
Deixa que esta dor lentamente me eleve ao solo
e faça deste aperto no peito um pingo de mel.

Desapareces distante
e eu longe de mim permaneço.
Nas ondulações gigantes do sorrir vago e profundo
não sei se morro
ou adormeço.

Agora

Se me pudessem ver neste momento,
onde a sombra da caneta escurece
e as letras são todas iguais...
Toda a palavra é um tormento,
um profundo rasgar de emoções em platina
para que seja real,
sincero,
este pequeno barco de papel.

As rugas reflectem apenas ar,
são apêndices da idade,
repercutissem elas a saudade,
a ânsia de a mim chegar
então saberia o poema,
ou a tinta da pena,
que o suor que cai de meus olhos
é rude forma de matar,
aniquilar,
a vida que nada sabe de mim,
os caminhos de pedras gastas,
a tristeza pelas esquinas a matar...

E eu sentado no verde musgo do muro
com os punhos cerrados,
à espera que a calma chegue de uma ruga sem fim.

Casaco azul...

Visto o meu casaco de vagabundo e sonho.
O calor que a lã emana é vida
ou talvez seja o aconchego da alma esquecida,
quando a cabeça pende
e a sonolência é duro fardo
os olhos que se fecham são cristais
onde o passado sucede.
Um breve sorriso é enlouquecido
pelas mãos que agridem a face escariada,
as rugas que o espelho exibe
são fundas e sujas como as pedras da calçada.

Bermas de estrada suja e anoitecida
onde param luzes solitárias
e inalam a maresia qual fragrância pura estelar,
caras maltratadas,
quase mal amadas,
amortalhadas pelo vício corrosivo da manhã.
Palavras avulsas sem traves ou barreiras inócuas
e cabelos que ondulam sem brisa,
surgem um dia,
sob o trinque da porta do luar
e fecham-se às janelas que mostram o respirar...

2005-07-26

À sombra do prólogo

À sombra do prólogo

A sombra do desconhecido
Que contra sentido és tu
que me isolas da vida nunca saboreada?
Podes sorrir numa área a jusante do medo
circunscrita de fogo brando,
deixo-te ser o pesadelo que me devora cru
insensatamente de uma flor amada,
sussurra-me ao olhar,
quem és tu segredo?

Cobres-me de serena loucura,
no vento que me beija arremessando-me
em paredes de destino irreal
e travos de pesadelo numa lenta tortura,
rende-te ao som da brisa que embala o dormir
e saúda os pássaros em pinhais de clara escuridão,
não deixes nunca que o meu sonho deixe de sorrir...

Nas verdades do destino
onde os traços que se perdem são migalhas,
há um rumo que aguarda pelos serenos cantos.

Que ilusão me prende a ideais terrenos?
Quem se revela quando fecho os olhos?

As luzes que chamam por mim
encantam e desvendam a noite,
são o claro acordar
ou fruto de meus sonhos?

Não deixes que se abatam em mim
o desânimo do audível amordaçar
e a tristeza que teima em atacar...

Faces que se iluminam ao passar pelo mundo
como dormindo,
como sonhando nos dedos de um vagabundo.
Quem reflecte o olhar fundo da paisagem
sabe que no sorrir morre o medo da miragem.

O cabelo sucede à noite em sussurro despertando,
dança inebriado pelos falsos sentidos
que acometem os meus passos perdidos.
São cândidas folhas de Outono o pôr do Sol
ou o vulto que me acompanha é a sombra do lençol?

Diz-me quem canta esta melodia
que morde o limiar da fantasia,
talvez sejam os relvados pastos
que transpiram alegria,
talvez sejam os medos
que vão nascendo quando desaparecer o dia.

Se nasce numa nuvem o olhar
e o céu ameaça, com um trovão,
a noite cola-me ao vento como a resina
e a caruma acolhe o corpo vão,
se soubesses, vida, o quanto a solidão me ensina.

Não sou eu que te escrevo,
nem tão pouco a luz do dia,
desculpa, noite, pensei que era o Sol que morria…


Serenata à noite minha

Quando clamo à noite que é minha
Minto,
Sabe ela no azul escuro ou celeste
O que no fundo sinto,
Sorrio ao luar frio do Outono que me arrepia a espinha
Como um vagabundo ergue sua garrafa de líquido tinto.

Quando sóbrio estendo um dedo às estrelas
Choro,
O cintilar é código que cai em meus olhos
E pede que regresse ao vazio onde moro,
Nas mãos frias que entram nos bolsos prenhes de sonhos
Um pensamento solta-se à luz que decoro.

Na noite vadia que atrai em mim o fogo
Ressuscita o ímpeto de sorrir,
Talvez queimar folhas secas de Outubro,
Pisar o som do vento nas calçadas graníticas
Ou deixar que a felicidade possa fugir.

São rimas órfãs que lamentam a razão,
Esclarecem o poema de sombra reflectida
Na palma de minha mão.

Agora o lume crepita na imaginação
E no escuro um vulto inócuo que se aproxima,
Clamo à noite, amante, és minha…


Prólogo

Acabou-se…
Algum dia tinha que te dizer,
Que os medos que possuía
Além do prazer,
Ganharam nomes
E faces,
São agora companheiros e realidades
De dimensões onde se movimentam.

2005-07-17

Tanto o que queria...

Tanto o que queria...
Queria estar convosco sem pensar na despedida,
saborear cada toque
e olhar
com amizade,
amor,
sem render a minha mão à saudade.

Queria que todos poemas fossem música,
melodias que ouvissem
e palpassem de olhos fechados,
tocados por mãos invisíveis
que em teclas
incolores
bailam sensíveis.

Queria que não acabassem,
que fossem mais uma rima
no poema
da minha vida...

Há quanto tempo vos espero,
quanta vida me tocou
e voou
porque eu vos aguardava,
quantos anos e sonhos
ou desencontros
com o futuro
eu deixei que me mordessem,
quantos...

Queria esses olhares vagos apenas para mim,
as vossas mãos
os sorrisos,
esses braços abertos
que se estendem para lá do fim,
como queria...

Queria ver além do amanhã,
virar a página
do bailar na multidão,
sentar-me no chão
e chamar por ti, irmã,
irmão...

Queria que não terminasse este poema,
não voltasse à vida
efémera e fugaz,
sequência de pleonasmos,
não fosse sequiosa devoradora de sonhos
e dias,
ensombrada apenas por melodias
que teimam em chamar-me,
aos soluços,
do lado de lá da vida...

Do lado de lá da redoma
onde vos conheço como ninguém,
onde a tristeza nos abandona,
onde eu e tu,
todos nós,
somos muito mais que alguém...

2005-07-16

Três tristes filhos do Alvão

(I)

Sento-me.
Espero que os meus olhos vislumbrem
um pouco
mais
esta paisagem.
Enquanto o vento suaviza o calor
e esta mão,
vazia,
tenta em palavras atenuar a dor,
esta parte de mim descansa.
Ouço ao longe alguém,
uma voz que em silêncio me chama
e seduz,
oscilando uma foice
com olhares que inflamam
e um rosto escondido por um capuz.

Atiça-se a água
ou lume
que incendeia e apaga
de uma só vez
a mágoa,
o queixume
da vida, que sofregamente me agarra...

(II)

Queria ser mais que poesia,
agarrar o vento que fustiga
e clamar, antes que nasça o dia
sobre a noite,
este sabor a vida
a que chamam de maresia...
Queria que os meus braços se abrissem,
em ângulo tal
que os amigos, mesmo não sabendo,
no meu coração
em mim
morassem.
Queria que as palavras não fossem apenas minhas,
que não as tivesse que falar
e tratar,
que não fossem como eu
sozinhas...

(III)

As sombras projectam-se no horizonte,
ao longo do olhar
em que repousam vadios
sentimentos,
onde sorrisos anónimos vivem
apenas
para superar este monte.
A luz é já fraca,
balança lentamente na caneta
ao sabor do momento,
recolhem ao leito pequenos raios
e saem de lá,
quase em tormento,
suaves estrelas de papel
que pincelam o meu gasto olhar...
Faz-me companhia Solidão,
baptizei-o assim,
não é meu
creio que de ninguém,
apareceu a meu lado surpreendendo-me
contra o azul esbatido do céu...
Ao vê-lo assim perdido
questiono-me,
será ele apenas eu?
Partiu com as sombras,
desaparece no horizonte em pegadas toscas
deambulando no caminho,
enquanto Solidão busca um novo dono
sento-me no calor do Sol ido
que faz no meu olhar o seu ninho...

2005-07-12

O sorriso no olhar

Quando no escuro
brilharam pela primeira vez,
teus olhos sorriram.

Escalando este muro
e estocando ao de leve a altivez,
teus olhos sorriram.

Sorriram apenas
como se me abraçassem,
viessem de longe,
distassem ao meu sonho mil veredas
e seria eu cansaço
na noite,
nas estrelas.

Mas eu sou abraço,
elo algures de uma corrente
imaginária e longínqua,
que une os fios invisíveis
dos corpos que possuo,
um etéreo e navegante
o outro peso,
errante...

E o escuro torna
como serpente,
como sempre,
traz este esmaecer que me adorna
quando me divido
em gente,
e ausente.

E esta brisa
ou sonhar
que te embala o sorrir,
é mais que um soluçar
ou prenuncio do que há-de vir,
é a recordação
efémera
do que é teu destino,
o infinito...

Quando teus olhos sorrirem,
fecharem,
e na alma a felicidade nascer,
não é cansaço do tempo ido
sou apenas eu,
que tenta sussurrar,
no teu ouvido...

Meus olhos sorriem...

2005-07-07

A new world

"O universo não é exactamente como julgastes que fosse. O melhor será alterar aquilo em que acreditais. Porque o universo, esse, certamente não o podereis alterar"
Isaac Asimov

2005-07-02

Quase nada

Antes de me deitar escrevo. Nem sempre poesia. Nem sempre palavras. Nalgumas ocasiões fico deitado a falar, não sozinho, para o escuro, sobre o dia, as pessoas, tudo. Noutras ocasiões peço-me que escreva, coisas que por vezes não são minhas, apenas a caligrafia. Acaba por ser uma surpresa no dia seguinte, ler o que escrevi. Acho que é assim que liberto dos pecados alguns perdidos da vida, quase como eu. Mas mesmo esses perdidos são mais sinceros, têm mais ética, mais cosmoética que muitos outros que conheço.
Vou-me à vida, a esta coisa passageira.
Se me vires por aí perdido, chama-me, porque nessa altura já perdi o rumo dos vossos olhares.


Quase nada

Sorrio até à próxima lágrima,
até o teu olhar me recordar
que existe mais que esta vida.

Quando surgir novamente
pintado de alegria
seguirei rumo à insensatez.
ancorando apenas
por momentos
no sorriso que nasce
(ou morre?)
nos lábios da vida.

Ao virar da esquina
onde dorme um sentimento,
um dedo bastará
para que sinta eu na carne
(na alma...)
os teus inseguros passos,
os débeis sorrisos,
que frágil parece ser esse teu viver...

Não vás para longe,
porque o sorriso ausente
é mais do que eu...
E eu sou quase nada...

Raiado...

Raiado...
A sangue...
Com revolta...
Com asco...
Este verso vai durar apenas uma noite...
Aproveita...

2005-07-01

Cansaço

Estou cansado de chorar,
de sorrir
para não esmaecer,
cansado de lutar
e desfalecer
quando me encontro sozinho,
com ninguém
em mim,
vazio...

Estou cansado do cansaço,
do lento entorpecer
dos dedos,
dos olhares turvos
longínquos
que respiram do medo.