2005-08-04

When the Sun rises...

Passos

Que passos são estes?

Qual a direcção que toma o destino,
num torpor desconcertante de divagações
Onde o andar é incerto,
intangível,
ao ondular da matriz que me rodeia,
será o sorrir mais um resigno das prisões
talvez o calor dos lábios que estão perto,
não, vejo agora que o movimento é sofrível...

Acompanho o corpo,
vagueio em vidas inúmeras
por tempos que me fazem morto,
linearidade de movimento que traz o infinito,
o olhar é o começo do que foram amaras
de doce sal que corre desse labirinto.

Tocar,
sentir o que a alma seduz
em danças exóticas de bailados de luz,
limpar o húmido do Inverno com o calor
e deixar,
talvez amar,
que o simples respirar apague a dor...

O sorriso antes que partas para mim

Escrevo o sorriso antes que partas para mim,
creio que nas mediatrizes do sonho
em meandros da irreal sentença que cava fundo o olhar
tenho nos visíveis esgares o término de uma epopeia sem fim.

Quantas horas, momentos, agora ou sempre,
sombras que se medem sem dimensões
escorrem pela face esconjurando ilusões,
surgindo do nada o tudo invoca o aperto firme,
o aceno supérfluo do insondável sonho
que te nasce no ventre.

Escrevo o sorriso antes que te perca para o irreal,
o momento não existe no calor ameno da saudade
que rompe a fina camada de solidão,
espero o regaço,
talvez o abraço
da presença constante da alegria de uma visão,
será fruto do sonhar ilusório de uma árvores inerte
ou eventual destino baralhado em parte incerta?

Inanimadas figuras,
estáticas palavras que nascem de voz trémula
e procuram o sentido que as conote a um sim,
para que ao adormecer possa vislumbrar na névoa
escrevo o sorriso antes que a vida se ria de mim…

2005-08-03

Nuvem escura

Gosto de ti…

Quando vens de mansinho,
arrastando contigo o soar dos trovões,
a luz irrompe no dia
e salpica de estrelas a noite,
atinge-me com a candura do abandono
o primeiro voo do pardal fora do ninho.

Gosto de ti…

Trazes no regaço uma promessa,
o cheiro a terra molhada acorda-me,
é ainda uma miragem e eu peço-te:
Vem depressa!

Ó minha nuvem escura,
preta de água,
prenhe de temporal, onde relâmpagos anunciam o Inverno
ou o súbito marejar e a fuga dos grilos à toca,
Que se calem os homens!

O próprio Sol esmaece e as árvores curvam-se a ti,
Rainha,
que nem toda a Natureza atinge a graciosidade que tens.

Vejo-te chegar e tu,
ainda antes de me vislumbrares,
trazes o analgésico para este dia sufocante,
não sabendo que és a caneta no poema,
choves,
mas eu gosto de ti.,,

Possuis a calma que nunca vi,
trazes-me à memória pequenos riscos,
traços que surgem no papel ou na mente
como as gotas que caem no chão levantando
gloriosas
pequenas nuvens de poeiras
ou soltando na atmosfera o odor,
aroma,
sabor de chuva no Verão.
recebo-te de lágrimas a sorrir,
braços abertos, nu, sozinho numa estrada,
adormecido, sem eira nem beira,
gosto de ti!!!

Minha nuvem escura,
meu bater de asas, gotejar na caleira,
o som que pede licença aos sentidos
e, perante tanta inquietação,
olha para mim e sorri.

Fecha-me os dedos na caneta,
Que seria de mim sem ti!

Há quem te chame inspiração…

2005-08-01

Tales from August

O cão Cão

Quem nunca teve o seu fiel amigo?

Jazes na estrada,
na berma,
como se fosses um reles vadio
e olho-te, pela última vez,
com olhos de neblina molhada.

Tens aquele sorriso na cara,
sim, cara, para mim és mais que animal.
Sorrio porque sei que o tempo pára
e se antes acariciava o teu pelo engrenhado
surge agora húmus e dás vida à vida,
nasce de ti um vale
e visito-te num não muito longínquo passado.

Baptizo-te de cão,
és isso mesmo,
uma forma de voar quando agarrado ao teu pescoço descolava do chão,
apareces ainda atrás de mim,
saltando,
tentas segurar a minha mão,
lambes-me para que te acaricie,
para que sintas o amor que alguém já te deu
e somente agora,
quando te vejo morto,
compreendo que quem pedia carinho era eu.

Inveja hipócrita

A hipocrisia tem rosto...
Escondida nos sorrisos de simpatia
que amordaçam o belo cântico em pedras frias.
Sim, tem cara desbravada,
movimentos que parecem ser de cortesia
e são, no íntimo, acenos de falsas mordomias.

O olhar de lado denuncia a matriz,
já mira o alto da Lua o Sol
julgando ser estrela,
ou universo,
a dor que agudiza o cotovelo
e a voz que em escárnio diz:
Se fosse eu…

Inveja hipócrita que nasce em globos,
os olhares lampejam mágoa
do sentir da vida de outrem no papel,
servir-se de ementa alheia em tez de tábua,
em cortes de capa escura de estudante
nasce o trono de m*rd* para os lobos.

Ser alguém num papiro,
almejar o céu em riscos cor-de-rosa,
sina de pobreza crua e dura nos livros falsos,
o pobre que do mendigo se goza...

Não o é...

eu fui assim...

Encontro restos de mim mesmo,
uma qualquer sombra numa folha branca de um diário
e sei quem fui, quem sou, quem serei
na medida linear do tempo que não o é,
a espiral que para sempre retornará, as contas perdidas de um oco rosário,
um túmulo aberto num templo,
cálculos fictícios da distancia das Plêiades ao cume de Gize.

Chamam-me bruxo,
olham-me de soslaio com medo do eu que não existe
e eu sorrio, peço carinho, estendo as minhas mãos frias,
mas não querem,
negam o meu sentimento e ameaçam-me com a ironia em riste.
Cheguem-se! Aproximem-se!
Por favor, não tu!, não te rias…

Olha para mim!
Olha para mim!
Não, não sou um vulto, sou claridade perdendo a nitidez,
quero que saibam, antes de minha resistência sucumbir,
o que quanto vos amo, o quanto vos quero aqui,
mas vocês riem-se, porquê?, não vos trato mal, porquê?,
não agridam com essa rispidez.
Será possível, questiono-me vezes sem conta, perder o tempo que não o é,
olhando continuamente o que já vi?

Continuo a dobrar, dirigindo-me à minha origem,
um local secreto meu,
só meu!
Retorno ao ponto de partida, pois não existem destino ou origem,
são frutos de dogmas divergentes e assim sendo não posso voltar a lado algum,
estou onde vocês permanecem,
onde todos vós são eu,
onde sou vosso filho,
pai e irmão,
estranho pedinte sucumbindo sabedoria a dementes.

Pedras soltas num ribeiro,
descendo o tumultuoso declive da insanidade,
quantos paus necessitarei para construir minha canoa,
um refúgio contra a convergente maré,
com as mãos nos joelhos, cabeça cambaleando sentimentos,
pedindo convulsivamente um pouco de paz, tranquilidade.
E o mundo não pára, move-se, pula, deixa para trás o passado
no tempo que não o é.

Ouvem-me?
Ouvem-me?
Talvez o meu pedido seja inaudível,
ou meu lamento uma pena nos braços do vento...
As indagações continuam, a lágrima corre,
as primaveras passam e eu aqui, com frio,
abraço a solidão a que me sujeito,
pois não sei o que quero ser, o próximo mistério a desvendar,
sei apenas esboçar-te um sorriso quando no teu rosto vejo sofrimento,
mas isto não chega, não é suficiente aqui, onde vocês estão,
só sou feliz dentro do meu peito.

As pálpebras cerram-se, como o fecho de um acto,
numa lágrima de saudade no rosto de um palhaço,
o cansaço no corpo sucede ao abandono da alma,
a tristeza não é alegria, se eu sou não posso não ser,
a visão tolda-se, vultos conhecidos assolam,
são faces de quem comigo andou no regaço
e ninguém compreende que ao aprisionarem-me, soltem-me!,
estão a cortar rente a ânsia de lá chegar, a obsessão de me rever.

Lanço o último verso à escrita,
vejo-o formar palavras,
que pouco mais são que ilusões.
Miro o negro dos olhos,
dilata-se uma vontade de partir no fundo da miragem
e o sorriso,
outrora espontâneo, nada mais é que um disfarce, oculto a tristeza
que em mim corre aos tropeções.
Acabaste o caminho, a tinta secou e o sorriso desvaneceu,

Acordarei de novo nos teus sonhos…

2005-07-28

Adeus

Sorri para mim,
é esse raio de luz radial
ou meus olhos vêm apenas o que a imaginação florida sente?

Serpenteia entre fotões,
sê da vida um errante destino que me sacode
e cega a imaginação com agrestes arpões!

Vai,
segue um rumo que descrevo na areia,
a espuma negra das lágrimas sórdidas é má,
sabe a fel,
tolda o barro sujo com que te construí
e cospe no caminho.
Deixa que esta dor lentamente me eleve ao solo
e faça deste aperto no peito um pingo de mel.

Desapareces distante
e eu longe de mim permaneço.
Nas ondulações gigantes do sorrir vago e profundo
não sei se morro
ou adormeço.

Agora

Se me pudessem ver neste momento,
onde a sombra da caneta escurece
e as letras são todas iguais...
Toda a palavra é um tormento,
um profundo rasgar de emoções em platina
para que seja real,
sincero,
este pequeno barco de papel.

As rugas reflectem apenas ar,
são apêndices da idade,
repercutissem elas a saudade,
a ânsia de a mim chegar
então saberia o poema,
ou a tinta da pena,
que o suor que cai de meus olhos
é rude forma de matar,
aniquilar,
a vida que nada sabe de mim,
os caminhos de pedras gastas,
a tristeza pelas esquinas a matar...

E eu sentado no verde musgo do muro
com os punhos cerrados,
à espera que a calma chegue de uma ruga sem fim.

Casaco azul...

Visto o meu casaco de vagabundo e sonho.
O calor que a lã emana é vida
ou talvez seja o aconchego da alma esquecida,
quando a cabeça pende
e a sonolência é duro fardo
os olhos que se fecham são cristais
onde o passado sucede.
Um breve sorriso é enlouquecido
pelas mãos que agridem a face escariada,
as rugas que o espelho exibe
são fundas e sujas como as pedras da calçada.

Bermas de estrada suja e anoitecida
onde param luzes solitárias
e inalam a maresia qual fragrância pura estelar,
caras maltratadas,
quase mal amadas,
amortalhadas pelo vício corrosivo da manhã.
Palavras avulsas sem traves ou barreiras inócuas
e cabelos que ondulam sem brisa,
surgem um dia,
sob o trinque da porta do luar
e fecham-se às janelas que mostram o respirar...

2005-07-26

À sombra do prólogo

À sombra do prólogo

A sombra do desconhecido
Que contra sentido és tu
que me isolas da vida nunca saboreada?
Podes sorrir numa área a jusante do medo
circunscrita de fogo brando,
deixo-te ser o pesadelo que me devora cru
insensatamente de uma flor amada,
sussurra-me ao olhar,
quem és tu segredo?

Cobres-me de serena loucura,
no vento que me beija arremessando-me
em paredes de destino irreal
e travos de pesadelo numa lenta tortura,
rende-te ao som da brisa que embala o dormir
e saúda os pássaros em pinhais de clara escuridão,
não deixes nunca que o meu sonho deixe de sorrir...

Nas verdades do destino
onde os traços que se perdem são migalhas,
há um rumo que aguarda pelos serenos cantos.

Que ilusão me prende a ideais terrenos?
Quem se revela quando fecho os olhos?

As luzes que chamam por mim
encantam e desvendam a noite,
são o claro acordar
ou fruto de meus sonhos?

Não deixes que se abatam em mim
o desânimo do audível amordaçar
e a tristeza que teima em atacar...

Faces que se iluminam ao passar pelo mundo
como dormindo,
como sonhando nos dedos de um vagabundo.
Quem reflecte o olhar fundo da paisagem
sabe que no sorrir morre o medo da miragem.

O cabelo sucede à noite em sussurro despertando,
dança inebriado pelos falsos sentidos
que acometem os meus passos perdidos.
São cândidas folhas de Outono o pôr do Sol
ou o vulto que me acompanha é a sombra do lençol?

Diz-me quem canta esta melodia
que morde o limiar da fantasia,
talvez sejam os relvados pastos
que transpiram alegria,
talvez sejam os medos
que vão nascendo quando desaparecer o dia.

Se nasce numa nuvem o olhar
e o céu ameaça, com um trovão,
a noite cola-me ao vento como a resina
e a caruma acolhe o corpo vão,
se soubesses, vida, o quanto a solidão me ensina.

Não sou eu que te escrevo,
nem tão pouco a luz do dia,
desculpa, noite, pensei que era o Sol que morria…


Serenata à noite minha

Quando clamo à noite que é minha
Minto,
Sabe ela no azul escuro ou celeste
O que no fundo sinto,
Sorrio ao luar frio do Outono que me arrepia a espinha
Como um vagabundo ergue sua garrafa de líquido tinto.

Quando sóbrio estendo um dedo às estrelas
Choro,
O cintilar é código que cai em meus olhos
E pede que regresse ao vazio onde moro,
Nas mãos frias que entram nos bolsos prenhes de sonhos
Um pensamento solta-se à luz que decoro.

Na noite vadia que atrai em mim o fogo
Ressuscita o ímpeto de sorrir,
Talvez queimar folhas secas de Outubro,
Pisar o som do vento nas calçadas graníticas
Ou deixar que a felicidade possa fugir.

São rimas órfãs que lamentam a razão,
Esclarecem o poema de sombra reflectida
Na palma de minha mão.

Agora o lume crepita na imaginação
E no escuro um vulto inócuo que se aproxima,
Clamo à noite, amante, és minha…


Prólogo

Acabou-se…
Algum dia tinha que te dizer,
Que os medos que possuía
Além do prazer,
Ganharam nomes
E faces,
São agora companheiros e realidades
De dimensões onde se movimentam.

2005-07-17

Tanto o que queria...

Tanto o que queria...
Queria estar convosco sem pensar na despedida,
saborear cada toque
e olhar
com amizade,
amor,
sem render a minha mão à saudade.

Queria que todos poemas fossem música,
melodias que ouvissem
e palpassem de olhos fechados,
tocados por mãos invisíveis
que em teclas
incolores
bailam sensíveis.

Queria que não acabassem,
que fossem mais uma rima
no poema
da minha vida...

Há quanto tempo vos espero,
quanta vida me tocou
e voou
porque eu vos aguardava,
quantos anos e sonhos
ou desencontros
com o futuro
eu deixei que me mordessem,
quantos...

Queria esses olhares vagos apenas para mim,
as vossas mãos
os sorrisos,
esses braços abertos
que se estendem para lá do fim,
como queria...

Queria ver além do amanhã,
virar a página
do bailar na multidão,
sentar-me no chão
e chamar por ti, irmã,
irmão...

Queria que não terminasse este poema,
não voltasse à vida
efémera e fugaz,
sequência de pleonasmos,
não fosse sequiosa devoradora de sonhos
e dias,
ensombrada apenas por melodias
que teimam em chamar-me,
aos soluços,
do lado de lá da vida...

Do lado de lá da redoma
onde vos conheço como ninguém,
onde a tristeza nos abandona,
onde eu e tu,
todos nós,
somos muito mais que alguém...

2005-07-16

Três tristes filhos do Alvão

(I)

Sento-me.
Espero que os meus olhos vislumbrem
um pouco
mais
esta paisagem.
Enquanto o vento suaviza o calor
e esta mão,
vazia,
tenta em palavras atenuar a dor,
esta parte de mim descansa.
Ouço ao longe alguém,
uma voz que em silêncio me chama
e seduz,
oscilando uma foice
com olhares que inflamam
e um rosto escondido por um capuz.

Atiça-se a água
ou lume
que incendeia e apaga
de uma só vez
a mágoa,
o queixume
da vida, que sofregamente me agarra...

(II)

Queria ser mais que poesia,
agarrar o vento que fustiga
e clamar, antes que nasça o dia
sobre a noite,
este sabor a vida
a que chamam de maresia...
Queria que os meus braços se abrissem,
em ângulo tal
que os amigos, mesmo não sabendo,
no meu coração
em mim
morassem.
Queria que as palavras não fossem apenas minhas,
que não as tivesse que falar
e tratar,
que não fossem como eu
sozinhas...

(III)

As sombras projectam-se no horizonte,
ao longo do olhar
em que repousam vadios
sentimentos,
onde sorrisos anónimos vivem
apenas
para superar este monte.
A luz é já fraca,
balança lentamente na caneta
ao sabor do momento,
recolhem ao leito pequenos raios
e saem de lá,
quase em tormento,
suaves estrelas de papel
que pincelam o meu gasto olhar...
Faz-me companhia Solidão,
baptizei-o assim,
não é meu
creio que de ninguém,
apareceu a meu lado surpreendendo-me
contra o azul esbatido do céu...
Ao vê-lo assim perdido
questiono-me,
será ele apenas eu?
Partiu com as sombras,
desaparece no horizonte em pegadas toscas
deambulando no caminho,
enquanto Solidão busca um novo dono
sento-me no calor do Sol ido
que faz no meu olhar o seu ninho...

2005-07-12

O sorriso no olhar

Quando no escuro
brilharam pela primeira vez,
teus olhos sorriram.

Escalando este muro
e estocando ao de leve a altivez,
teus olhos sorriram.

Sorriram apenas
como se me abraçassem,
viessem de longe,
distassem ao meu sonho mil veredas
e seria eu cansaço
na noite,
nas estrelas.

Mas eu sou abraço,
elo algures de uma corrente
imaginária e longínqua,
que une os fios invisíveis
dos corpos que possuo,
um etéreo e navegante
o outro peso,
errante...

E o escuro torna
como serpente,
como sempre,
traz este esmaecer que me adorna
quando me divido
em gente,
e ausente.

E esta brisa
ou sonhar
que te embala o sorrir,
é mais que um soluçar
ou prenuncio do que há-de vir,
é a recordação
efémera
do que é teu destino,
o infinito...

Quando teus olhos sorrirem,
fecharem,
e na alma a felicidade nascer,
não é cansaço do tempo ido
sou apenas eu,
que tenta sussurrar,
no teu ouvido...

Meus olhos sorriem...

2005-07-07

A new world

"O universo não é exactamente como julgastes que fosse. O melhor será alterar aquilo em que acreditais. Porque o universo, esse, certamente não o podereis alterar"
Isaac Asimov

2005-07-02

Quase nada

Antes de me deitar escrevo. Nem sempre poesia. Nem sempre palavras. Nalgumas ocasiões fico deitado a falar, não sozinho, para o escuro, sobre o dia, as pessoas, tudo. Noutras ocasiões peço-me que escreva, coisas que por vezes não são minhas, apenas a caligrafia. Acaba por ser uma surpresa no dia seguinte, ler o que escrevi. Acho que é assim que liberto dos pecados alguns perdidos da vida, quase como eu. Mas mesmo esses perdidos são mais sinceros, têm mais ética, mais cosmoética que muitos outros que conheço.
Vou-me à vida, a esta coisa passageira.
Se me vires por aí perdido, chama-me, porque nessa altura já perdi o rumo dos vossos olhares.


Quase nada

Sorrio até à próxima lágrima,
até o teu olhar me recordar
que existe mais que esta vida.

Quando surgir novamente
pintado de alegria
seguirei rumo à insensatez.
ancorando apenas
por momentos
no sorriso que nasce
(ou morre?)
nos lábios da vida.

Ao virar da esquina
onde dorme um sentimento,
um dedo bastará
para que sinta eu na carne
(na alma...)
os teus inseguros passos,
os débeis sorrisos,
que frágil parece ser esse teu viver...

Não vás para longe,
porque o sorriso ausente
é mais do que eu...
E eu sou quase nada...

Raiado...

Raiado...
A sangue...
Com revolta...
Com asco...
Este verso vai durar apenas uma noite...
Aproveita...

2005-07-01

Cansaço

Estou cansado de chorar,
de sorrir
para não esmaecer,
cansado de lutar
e desfalecer
quando me encontro sozinho,
com ninguém
em mim,
vazio...

Estou cansado do cansaço,
do lento entorpecer
dos dedos,
dos olhares turvos
longínquos
que respiram do medo.

2005-06-30

Em passo incerto

Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.

Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...

Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...

2005-06-25

Levem-me convosco

Deixa-me seguir teus passos,
percorrer os trilhos
dos sonhos,
fazer deles meus
como se fosse sempre a teu lado,
como se a amizade
ou a saudade
fossem apenas um espaço vazio
onde não cabe a idade...

Inunda-me um hiato
que sustenta a falta de firmeza,
não quero,
não vivo,
não respiro esta nuvem de tristeza...

2005-06-23

Coisas que não se dizem

Quando estou com amigos há pormenores que lhes escapam, faces que se mostram e há, sempre, muita coisa que não se diz.

Coisas que não se dizem (fora do silêncio)

Cada pessoa é um mar
tumultuoso
e incerto,
que busca uma reentrâncias na vida
que ampare as suas marés,
que receba com alegria
as ondas rebentando
a seus pés...

2005-06-17

Da terra

Queria escrever ainda mais.
O "post" anterior soube-me a pouco. Sabe a pouco porque consigo escrever apenas um décima parte do que penso, do que sinto. Que falta me faz um mecanismo que traduza, digitalize, automaticamente, o que se cogita.
Andei a percorrer alguns dos poemas, encontro tantos, quero escrever sobre tantos, escrever tantos mais, mas tenho que parar, respirar, escolher um que me sorri.
Mais um poema. Um que tem rastos de passeios pelo monte, pelas aldeias perdidas, pelas gentes agrestes do campo, do fim do mundo. Da minha gente. Que amo.

Da terra

Cheiro da terra,
Carícia de mão rude e calosa,
Alfabeto decorado entre tojos e medas,
O odor do presunto,
calor do lume brando,
Paro o tempo para dar de comer a esta alma gulosa.

Fumo nos telhados,
Colmos molhados,
Paredes negras de fuligem que sai dos olhos,
Imaginação do lado de lá,
A cidade surge apenas em sonhos,
Caminhos de pedra forrados a merda de gado,
O chiar de rodas,
O aceno inocente de quem em sorrisos se dá.

Saias corridas,
Cortinas de folhos até aos pés,
As chinelas ribombam no pátio como o trovão,
Um pôr do Sol indica se amanhã é dia de monção.

Corre o negro da cinza nas mãos dos putos,
Lousa que grava apenas o riscar do giz,
O nome mal escrito como o sotaque torcido de quem o diz,
Mãos e olhos,
Talvez rostos,
Gente esquecida pelo próprio tempo,
Sorrisos sinceros e bocas que soltam um só sentimento,
Quando os novos por serem velhos para longe vão
Resta à minha gente apenas um momento,
O frio modo de dizer solidão.
Boinas cumprimentam-me,
Sílabas cortadas às palavras saúdam-me,
O sorriso tímido na face apoiada à enxada,
O corpo torcido amparado no muro que ladeia a estrada.

Sempre os mesmos rostos,
Ficam para trás como uma árvore ou um cercado,
Correm os pastos quase negros, quase sós,
Morrem os olhos pela alma,
Mirra a alma por a idade,
traiçoeira,
Não deixar que a forquilha trabalhe na eira.

São cidades fantasmas por aí,
Crescem em percentagens,
números ocos como o ar,
Fantasmas vivos,
farrapos, habitam em noites chuvosas
E dias de calor ou tempestade.

O olhar continua aqui, em mim,
Furtei-o ao último pastor que saudei,
O cajado escreve umas quantas rimas, ou ovelhas,
Perpetua as gentes do campo,
A pureza com que sonhei.

2005-06-16

Saudade ou não...

Há mais histórias, contos e poemas num minuto de vida do que em todas os livros do mundo.
Escrever o que vejo, como vejo, as pessoas, os locais, cenas e cenários, tudo é imenso, tudo é enorme para poder reduzi-las a meia dúzia de palavras.
Posso tentar, sempre, que cresçam das mãos palavras, frases, tal como saem de meus olhos, mas é difícil.

Tudo é saudade

Tudo me sabe a saudade,
A terra molhada nas unhas e palmas das mãos,
O suor e seiva dos olhos
Que caem e fertilizam os chãos.

Tudo me cheira a saudade,
O corpo, um corpo estranho visto de longe,
Uma qualquer aparição consciente de meus sonhos,
Um beijo de alegria na face,
O calor tórrido, excitante, de névoas sobre a cidade.

Tudo me sabe a saudade,
Cores,
Negros, brancos, amarelos, vermelhos,
Todas as cores de um arco-íris nas faces,
O mesmo olhar, raiado ou não, da tristeza nos espelhos,
Dores,
Partos de um sorriso que teima em não morrer,
Esgares paridos de encontrões no meu peito,
A lama onde me deito,
O sumo da vida que é espesso e ambíguo,
A faca nas costas,
Falsos amigos que induzem ao sofrer
E são o meu consciente declínio
Que espreita em cada casa,
Em cada postigo.

Tudo me mata à saudade,
O aperto de mão, ou um abraço amigo,
A sensação de liberdade
Quando não estou comigo,
O vento, a luz, o escuro, a água
Tudo, mas tudo, é melancolia,
Estrangeirismo do amor afundado na mágoa.

Tudo me lembra saudade,
O vazio, o pleno, a solidão, a multidão,
O sorriso, o chorar, o amar (ai o amar…).

Tudo…
Tudo me faz sorrir,
Caminhar lentamente pela estrada acima,
Calcar merda, afagar uma planta, aspirar olhares meus vindos de outros, outras,
Mirar movimentos e saber quem sou eu,
Apenas eu e mais ninguém,
As faces, membros, olhos, tons, as estrelas do céu,
O negro do incêndio, as flores que germinam para a água dos meus sonhos a cair,
O deserto, o polar, o neutro, o ácido,
O poema, a prosa, o homem, a mulher,
O corpo sozinho que bebe e que outro corpo quer…
Tudo me cheira a poesia,
O ar quente da montanha, o salpico da maresia,
A gota leve que cai da ampulheta do sangue que vivi,
A eterna saudade do conto,
O poema que ainda não escrevi.

Lençóis

Atado em sonhos,
Sulcando novos rumos que desconheço
E que, sinceramente,
Não sei onde vão dar.

Crescem à medida que se enchem de água meus olhos,
Em loucos bailados desconexos
Num aperto de mão e sangue quente.

Memória, fustiga a paz de negro cantada,
Acordes de uma guitarra a amar,
O movimento dos dedos na estrada
Traçando linhas,
Traços longitudinais,
Paralelos, trópicos,
Guias imaginárias que percorrem a saudade.
Lágrimas que brotam
Sob o aperto surdo do coração,
Que emana medo
E consome felicidade.

Orifícios num portal,
Ferro forjado e retorcido
Que enclausura o meu segredo,
Um laço azul e amarelo
Que lidera o meu dormir,
Apaziguando o calor do corpo,
Aquecendo o frio do sofrer
De olhar para o vazio interior,
Perscrutar a parede rugosa,
Ver gotas salinas correndo,
Dançando em rugas movediças,
Saltando cicatrizes do sorrir
Que afluem ao grito inaudível
Desta que é, enfim, maneira de doer.

Respiro…
Involuntário inspirar de estrelas,
Soprando o verde de um jardim
Que nasce na palma da minha mão.
São rosas, senhor!

O canto de uma coruja,
Enquanto escrevo à luz das velas,
Um pensamento que surge e indaga:
- Porque estás assim?
São as incertezas do corpo que some,
Foge a alma para o abrigo sem guarda
Onde espera a vinda do sorrir,
E escreve o sal no vento errante
O sonho que vislumbro antes de dormir.

2005-06-15

Na matéria

Há já alguns dias que nada tenho escrito. 
Confio na memória, gravo tudo o que vejo, ouço, sinto e falo, mas no final nada tenho escrito.
Encontrei alguns poemas que escrevi, antigos, e é curioso ler com outros olhos, diferentes dos que os escreveram, mais claros. Poderia rasgar alguns, mas os poemas, o que escrevo, são como experiências vividas, são momentos gravados, fundo, vivi-os, escrevi-os.

Matéria

Quero deixar a matéria,
Que se aglomerem nas abóbadas centelhas de sorrisos
Palpitando a cada lua que passa.
Nas veredas de Inverno onde descansa num solstício
Mora o sonho de vaguear em todo o momento,
Porque tenho eu de ser corpo?

Sentimentos que se comprimem no meu peito
Fugindo à imensidão do vazio, da voz no escuro.
Sorrio apenas quando exausto me deito.
Na fria porta de saída aberta para tão alto muro,
Não cabem mais indagações à relatividade,
Nos escombros da carne crua e fria,
Mas do alto do nevoeiro que surge à madrugada
As canções que ouço são frutos,
E emergem em golfadas de água acetinada.

Estou preso numa masmorra fria e solitária,
Quero mover-me, mas o tecido tolda os movimentos.
Isto que chamam corpo é sólido,
As emoções que sou não envolvem o tudo
Pois crescem infinitamente desde sempre a nunca,
Tendem às ilações do sozinho fogo que abomina
E correm vagamente para fora da matéria
Que se ilumina.

2005-06-08

These mist covered mountais

Regresso a casa e vejo a neblina em torno das montanhas, não muito altas, com muitas casas, à boa maneira escocesa, daquilo que chamam "mist covered mountains".
O termómetro do carro assinala 30º C, um ar bastante abafado para as 21:00 tolda-me o raciocínio (se não é o calor é o frio) e vejo o nevoeiro. 
Nevoeiro? 
Parei o carro numa curva, do lado exterior, com vista para uma parte do Vale do Sousa, contemplando a paisagem, as casas como cogumelos, algumas estradas e aquele nevoeiro. 
Nevoeiro?
Não era nevoeiro, não, era fumo, despojos dos incêndios que lavram por estes lados, fumo misturado com suor dos heróis ou bombeiros. Da janela, porque é noite, vejo umas labaredas que se estendem ao longo do contorno do monte, o fumo é laranja e eleva-se no céu escuro, como se fosse uma grande fogueira de São João. Pelo meio estão homens abnegados que travam uma luta desigual. Amanhã, antes de sair para a escola, devo ver novamente "this mist covered mountains", mas este nevoeiro arde, não me permite abrir a janela e sentir o seu frio, não, arde, faz doer os olhos e quando ele se levanta ou dissipa, a paisagem que descobre faz doer a alma. Não é preocupação nossa, para quê? Natureza? Incêndios?

As pessoas estão ocas de valores, privadas dos seus sonhos, são fruto apenas da m**** que lhes enfiam através da televisão, das revistas. São marionetas movimentadas por cordas de uma guitarra tocada por energumenos, daqueles que poderiam fazer algo em prol das pessoas e não em prol da sua conta bancária, do share de audiências, são ocos. São falácias ambulantes, crentes apenas na progressão da sua carreira, de um deus qualquer, com letra minúscula, que observa do alto, de todo o lado, que "proteja os meus quando precisar".

A coerência não faz parte do dicionário de cada um, pelo menos de muitos que conheço... Existiram culturas que exultavam a seriedade, os valores pessoais, a honra, a ética (uma ética muito além da subserviência dos dias que correm), porque caíram?

Como é possível passar ao lado de problemas, varrê-los para debaixo do tapete, sentir o cheiro a m**** e nada fazer para limpar e desinfectar. Vivemos o medievalismo mental, cheira mal, não há ideias, varre-se a m**** para debaixo do tapete e continua-se a dançar sobre ela, pisando-a, sentindo o cheiro fétido, mas sorrindo pois não se vê.

Sente-se, mas não se vê.

Mas para quê preocupar? Não é meu problema. Arde e depois? Quase me consigo imaginar com os pés sobre o tapete e calcando a m****, sorrindo de desdém para alguém com uma preocupação diferente, com ideias e ideais e dizendo "isso é utopia".

A utopia é apenas um termo utilizado para nos desculparmos e fugirmos de uma ideia válida, que no entanto nos irá obrigar a mudar as nossas prioridades, que permitirá deixarmos de olhar para o nosso umbigo.

Quero estar aqui para ver a reacção das pessoas quando o verdadeiro nevoeiro se dissipar.

"These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms"
(...)
There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones
(...)"
Dire Straits, Brothers in arms

2005-06-01

Os vossos olhares fundos de solidão

Olhares fundos de solidão,
saliências na noite
e reentrâncias no alvorecer
que sucumbem na solidão,
longas nuvens de fumo negro
que sai da alma
e do sonho
para em teus anseios morrer.

O toque na pele é lapidar,
é frio e distante
e, no entanto,
é mais que carente,
é fremente,
é dor contida nesta lágrima
é o embalar surdo do teu chorar.

Quantas cadeiras e divãs,
quantas?
Quantas das faces te escondem
o chão,
onde te sentas e sentes
os olhares fundos de solidão...
Olhos fundos de esperança
Sou de mim eu mesmo
algo que encontra em ti,
noutro
ou noutra,
um novo sorrir
um velho olhar
que ofusca as paredes espessas de fumo.
São mais que as carências
essas rodas de algodão doce voador
em mãos vazias de outras mãos,
em sorrisos ausentes de amor.
Sobem e caem nas ausências
no âmago das tuas existências,
fazem deste fio de Ariadne
uma ténue lembrança
da água que fugia desta fonte
para cair, serena,
embalando os corpos numa indistinta dança.
Se os dedos esgrimam no ar
a ânsia de tudo dizer,
os olhos fundos de esperança
trazem à memória
mais que sonhos a viver,
toda uma vontade,
utópica,
de tudo amar...
Vem ter comigo neste recanto
onde descanso,
das almas doutros
que carrego,
que sustento,
sou eu da solidão
como o mar da gota,
da ansiedade ao tormento
um mar que não alcanço.
Termina em ti
ou na próxima vez
as mãos que suspiram
"Ainda não foi desta que vivi",
vacilam
com altivez
nos meandros da estátua que a todos sorri...