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2014-12-09

É tempo do frio me mostrar uma esquina e fazer-me sentar e sentir o calor do silêncio de um entardecer de inverno, mais saboroso de olhos fechados, até o que resta de luminosidade começar a efervescer em memórias que se diluem ao encontrarem a realidade que outros constroem. O mundo é vosso. Eu sou meu.

2014-11-27

Queria contar-te que vi, hoje, o Outono. Estava encostado à sombra de uma folha com seis tons de cores. Sabes, se estivesses aqui, com a tua cor, todas as folhas teriam a cor de um Sol que espreita por entre a neblina e aquece as pálpebras, as mesmas que cerrei para ver nascer do escuro a luminosidade que só se vislumbra quando se vê de olhos fechados a sétima cor do arco-íris.

2014-11-25

Cabem no fundo de uma inocente madrugada e, contudo, prostram-se aleatoriamente e tumultuosamente ao longo do dia.

2014-11-12

Esvazio os bolsos quando chego a casa. Todos os bocadinhos de nada, ou seja quase tudo, ficam um pouco esquecidos, de lado, até amadurecidos se transformarem nalgo mais que hoje. Depois separo do ruído as pepitas do meu ouro, breves momentos da mais pura simplicidade, ignorância e inocência. Esta é a minha riqueza. Procurar noutros e noutras, no fundo do olhar, a essência do que são ainda que eventualmente possam nem o saber. Há momentos em que o presente se eterniza.

2014-11-07

Dá-me apenas o crepitar e um salpico de odor a lenha recém cortada. Não preciso de lareira, o lume não sendo criança, ainda se desprende da lenha e sobe o possível, para se deixar cair, uma e outra vez, na cadeira sem braços.

2014-11-06

Vou dizer-te que a vida arrefece nas mãos. Tenho-a no fundo da concha que formei. Sinto sede, mas não sei beber. Nem viver. Vou dizer-te que a vida sente-se mais leve quando nos ajoelhamos perante o frio e, tremendo, ganho coragem e peço-lhe caminhos com palavras que sonhei escrever

2014-11-02

Olha o reflexo do sol no vidro. As cores que dele se soltam são um pequeno arco íris de intenções, a tua visão dir-te-á que são espectros, eu chamo-lhe restos de um final de dia, com abertura para minha fantasia, é em cada cor que vivo o que não vivia. O sol desceu, o reflexo esmaeceu, sem cores de mim um outro, quem não sou eu?

2014-10-29

Se me visses, de que cor me pintarias? Será que os sonhos se esbatem e orbitam em torno do meu corpo, como uma neblina, uma névoa onde por vezes habito para deixar vago o local destinado à terra?

2014-10-27

Selecciono letras para que as palavras possam escolher que frases formar. A liberdade habita no bico, no aparo, na tinta que se desliza pelo canelado friso do texto ainda antes de ser lido. Hoje decidem-se pelo raspar no áspero papel, sem olhar para trás. Palavras de homem, em desejo de rapaz.

2014-10-25

Sonho com a proporção entre o sonho e o sonhado. Desejar sonho e entrar sonhado pelos dias em que nem um, nem outro, fazem crescer o caminho à frente, subtraindo o que se percorreu, ou sonhou, já não sei.

2014-10-19

Pouco de mais resta que o menos ao lado do subtraente. Os caminhos acima do solo são percorridos sem caminhar, as órbitas caóticos de um universo multifacetado são apenas o olhar pela espiral descendente que nos leva de volta a nós próprios. Do que hei-de dizer, hoje, que o Sol nasceu a Este, sem o fazer para este, que vai já a caminho de um novo paradigma? Boa viagem.

2014-10-15

À sombra de um aguaceiro, espero que o frio arrefeça só para sonhar com um fim de tarde sentado, aninhado, com o calor de um pequeno púcaro de café, as migalhas no colo, mãos aquecidas e um mundo húmido visto pelos meus olhos. Adormeço a contar pingos de chuva, cada vez mais distantes, até serem o ruído branco que me guia o espírito de volta a ti.

2014-10-14

As palavras foram atiçar o lume, para se deitarem sob a minha cabeça e adormecerem, enquanto chove lá fora e troveja dentro de mim.

2014-10-07

Deixei que a chuva caísse em quantidade suficiente para me levar os rastos que deixei até chegar aqui. Agora, para trás, num passado que não existe, já não existo. Nada existe. Acumulo em mim tudo aquilo que penso ter havido, no corpo, na mente, na alma. Amanhã, que ainda não há, nem sequer o segundo seguinte, terei um pouco mais de mim, de ti, de quem me vê pregar em silêncio longos sermões ao vento que passa, só para me sentir, novamente. Ontem não existe, não existiu. Hei.

2014-10-01

Vou caminhar a uma só letra. Passos correrão, certamente, para que do agitar da geada que se forma enquanto durmo novas grafias transformem palavras em dias. Faz-me falta calendário, em branco, para prolongar presentes e colmatar passados, ali, com o futuro ao virar da folha rasgada pelo picotado.

2014-09-29

Ao adormecer não fechei os olhos. Ficaram acordados para verem a claridade que se desdobra na obscuridade da noite caída há muito. Talvez assim me concedam crédito quando lhes falo dos reinos que vi quando eles dormiam, fechados. Felizmente são cegos, dizem, para poderem decifrar a seu bel prazer os impulsos que lhes chegam dos parcos espectros que visualizamos.
Mais cego não é aquele que não quer ver, mas o que não sabe que vê.

2014-09-27

Terminam as noites de se aclamarem para estenderem, de imediato, a grande lona esburacada onde me protejo das chuvas civis. Não quis letras, mas elas descem pelo espaço entre eu e tu.

2014-09-16

Aninho-me em torno de mim mesmo, puxo o cobertor e espero que me aqueça enquanto a chuva vai caindo timidamente, uma gota aqui, outra ali. O vento traz novas de Outono, nuvens pintadas de cinzento e azul, um caderno, um uivo e um desejo realizado. Que bom o presente de ontem ser hoje passado.

2014-08-26

Queria digitar o quanto me doem as mãos de escrever no embaciado espelho que lancetou algumas imagens que tinha de tudo e se partiu. Felizmente, ninguém se feriu.

2014-08-20

Quando for grande quero ser manhã fresca, temperada por uma chuva que escorre aos riscos, por vezes salpicos, ao longo de todo o ar que nos separa do próximo passo na estrada.