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2014-09-19

Cada gota um rio, cada nuvem o mar. Eu sou feito de inverno, durmo sobre o dia, não me peçam para acordar.

2014-09-04

2014-08-20

Deixei as palavras a secar.
Choveu, hoje, sem que se molhassem as histórias, apenas as memórias.

2014-08-14

De braços abertos meço a distância em palmos que me falta percorrer pela linha ténue do horizonte.
Todo o ser tem sede.
Sê-de fonte.

2014-06-02

Vejo as nuvens a aproximarem-se lentamente, como se fossem o lençol que me vai tapando com ternura maternal. Falta o aconchego da almofada, mas a Lua só nascerá logo.
Eu espero.
Uns milénios mais são nada para quem tem um infinito como leito.

2014-05-28

perdido, sem vogal ou consoante, consoante o sentido, perdido
de onde partem as nuvens se se escalam ante o perigo
de um sopro as apartar
sem sombra, sem sentido, perdido
a nuvem
o chão
as notas que pelo som são
a fonte do silêncio que silencio
perdido e achado
aos quatro cantos alcoforado
diz-me cá e aqui porque me fazes falta ali?
perdido, sem ordinal ou numeral, enumerando o ido
à distância de um pequeno partido
brotado de cores ao colo de um arco em forma de i
ris
já só me restam olhos por onde não vejo
almejo
a sombra da vogal
a mim os inocentes da cor de quem não quis
bandeira de um país sem local
idade
consoante o alfabeto
eu que de fechado
me faço livro
aberto.

2014-05-23

Pelas pérolas do nada
caminham ostracizadas veleidades,
quem o que quer da levada
senão água fresca e molhada?
De que sedes te querem saciar
se de ti o orvalho brota
entre o suor do sonhado alpendre
um vento quente
pouco resta do que me toca
apertado
contra a sina.
Houve tempo,
ouve o tempo
agora
que se esgota
como um segundo paradigma
tal qual existência,
entre mim e a distância,
gota a gota,
gota
a
gota...

2014-05-20

Aguardo a alvorada de um amanhecer sem claridade,
deixar acordada a noite sem esmaecer madrugada adentro,
aguardo na certeza de envelhecer sem idade
e ombrear com o destino como quem enfrenta o vento,
aguardo a visibilidade da invisível mão que guia as palavras,
do inefável suspiro que me acorda pela manhã
ainda antes de clarear
as letras, alvas,
e a dualidade de um existir que não há,
anseio passivamente enquanto corro pelo destino
eu, adulto menino,
entregue ao ilegal sistema de uma só lei,
porque de mim, eu não hei.

2014-05-14

Montesmo

Vou erguendo o montado,
Os meus olhos caminham perdidos entre o cercado, enquanto eu procuro um rasto despegado, não trilhado.
Seja o solo virgem
E eu de mim ao mundo em vertigem,
Caio sempre na ânsia de encontrar as minhas pegadas na neve,
Sem perceber, distraído, que enquanto teço um sorriso
É a própria palavra que me escreve.

2014-05-11

Além do que me rio
só, mar,
a equação incógnita
da irredutível fracção à dízima finita,
que geometria se baseia
no expoente?
Terão as palavras
um determinado sorriso que mesmo gelado
se sente?
Fisso-me ao infinito,
o leito onde adormeço paulatinamente o cansaço
desdobra-se em solfejos de um só grito,
não sou ouro,
não sou aço,
arco ainda as passagens dos carreiros
e dos versos...
que não faço.

2014-05-03

Le(ve)mente

Vou escrever baixinho, pincelar cada letra, escolher alvura para alvorecer de olhos inexperientes o dia madrugado por quem do tempo não se rege ou tempera.
Vou caminhar lentamente, descalço sobre a erva, calibrar o batimento do meu coração com o pulsar da Terra e inspirar ar puro até transpirar tudo o que sou e não consigo ser.
Vou, rumo à noite estrelada, ao arco voltaico entre sete centelhas que se colaram no céu, no meu.
Vou, ainda que deambule, perdido apenas aquele que pensa comandar os passos e que por eles gira o planeta.
Vou, sem distância,
estou entre a ânsia e
a porta ainda por acabar
que deixo aberta.
Só em mim, a ausência que me liberta.

2014-04-15

Pe(gadas)

Amanhã, que não existe ainda, vai certamente ver as mesmas pegadas de hoje, as que premi ao de leve no chão para não acordar a terra. Fico atento aos longos pensamentos que vou urdindo e, depois, solto à desgarrada para que amanhecam onde quiserem ser aurora. Só assim me encontrarei, amanhã, que não existo ainda.
Trato como um filho hoje o amanhã, que não existe ainda, adormece contra o meu peito enquanto afago no lugar vazio o rosto que surgirá amanhã.
Acho que nunca nos cruzamos, no momento em que nasce o amanhã e a face começa a florir como um pequeno espectro curvado pelo horizonte, já eu sou apenas mão, dedos que se esvaecem enquanto o hoje não é ainda totalmente amanhã e ontem se apressa a crescer de dentro de mim para fora até se fazer hoje.
Não,
não acredito no tempo,
apenas no infinito
que se apressa do falado ao dito
para me entrar em forma de amor
peito adentro.

2014-04-07

Subirei, de novo, dois degraus de uma vez só,
como catraio,
sem me preocupar com a distância ou o balanço a tomar.
Dois degraus.
Um salto de criança num passo de homem.
Não passaram de lages, granitos,
corredores onde gritos sofreram em silêncio, ajoelhados a pecados que não os seus,
eis-me prostrado dignamente,
Diz-me, no conforto do que sou,
que queres de mim, meu Deus?

2014-04-01

Aguas 1000

Repete-se a história,
Morte ou glória,
Uma sombra colorida no chão,
Estes vultos querem apenas circo, pão.
Dos pais de um Abril orfão
Restam apenas cartazes,
As leis e os polvos vorazes,
Quem nos alivia deste tição?

2014-03-31

Se pringue

Restam-me rebentos nos ramos que não quis podar. Ausculto o bater lento, mas ritmado do tempo ao longo dos séculos e prostro-me perante cada um dos segundos que são os primeiros do momento presente.
Nada mais resta à dicotomia além de ser complacente com quem pensa, permitir a existência e dar-me a provar um pouco de mim nos outros, outras, pessoas, situações, próprios pensamentos e ilusões.
Gosto deste momento, que não faz depender dele o rebentar das flores pelas bermas da estrada.
Gosto de sentir tudo
e ser feliz por nada.

2014-03-26

Comer o pão que o sonho amassou

Da minha ceia, Senhor,
cabem ainda em mim pregões que não benzi.
Aquilo que chamam vida
já lá mora no sacrário,
em terra de gente cinzenta
resta o branco do sudário,
e a canalhada, inocente, que de tudo ri.
E, eu,
nascido em tempos em que o suor já não fazia a ceifa,
na inocência e na recordação
desejo apenas a côdea da vida
em forma de regueifa.

2014-03-24

Monumento

Algures,
alguém,
talvez ninguém
travará a batalha dos ímpios
por entre rios e canaviais,
a solidão de toda uma legião
e a cada agrura o seu tormento.
Pudesse saber o homem,
no vácuo entre a vida e o lamento,
que ele próprio, inconsciente,
se torna monumento.

2014-03-22

703

Confesso,
Eremita,
Com fé só.
E com todas as palavras que cabem no embaciado vidro do autocarro, baixa o pano sobre um dia que parece nem ter nascido.
Ou se nasceu, há muito foi ido.
Não o sei, distante ou ausente, o que me separa do que sou tem semelhanças com o que é diferente.
Confesso. Não sou eu que me meço.

2014-03-20

(Mad)eira

A placidez do silêncio.
A candura do céu estrelado.
O frio que se amena ao cair na pele.
O vulto encrustado nos anéis da madeira, eu, que sou ele.

2014-03-17

(Vo)ar

Caber na vida, sem pertencer ao corpo.
Vestir o catálogo da indiferença e deixar descansar em qualquer prado ou socalco um pedaço de mim.
Querer laminar a vida em dias com sabores diferentes...ver saborear os mesmos aromas de quem tem palato poluído pelo que expulsa em forma de palavra.
A vida sabe-me a voo de milhafre.
Vou aprender a voar.