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2016-12-18

Está a chegar o verbo

in Bird Magazine em 18/12/2016

Não sei como medir as palavras que vejo e, depois, escrevo.
A distância que me separa de agora à letra é preenchida por inúmeros pensamentos, tantos que quando penso no pensamento sobre eles já eu sou rememoração.
Será possível eu ser uma parte, um resultado retornado a meio da recursividade que é uma vida entre vidas?
Já deitei o Universo, aconcheguei-lhe o colorido manto de estrelas enquanto ele me pedia uma história. Sem me lembrar de nenhuma, contei-lhe a vida de uma estrela que tentou brilhar por duas vezes:
- Duas vezes? - perguntou-me.
Eu lá lhe expliquei, com modos de eternidade, que era uma metáfora para algo que existiu sem ter acontecido.
Não me pareceu convencido, não o censuro, é ainda um universo em expansão, uma criança.
Entre perguntas e respostas, saltando recursos expressivos, cansou-se e antes de fechar os olhos de nebulosas, perguntou-me já meio adormecido:
- Essa história é sobre amor?
Disse-lhe que sim, era o Amor.
Bastou-lhe a explicação, virou a cara, sorriu e adormeceu de imediato.
Fica ligada uma pequena luz de presença, projecta no tecto flocos de neve multicolores. Foi ele que os escolheu, disse que só sabia fazer neve branca e gostava de a ver colorida.
Por fim, enfim, adormece.
Estremece no momento em que me levanto.
Terá sonhado com um buraco negro?
Noutra cama outro universo, de cabeça levantada pergunta se ainda lá vou.
Respondo afirmativamente e apenas isso bastou para se virar para o lado e adormecer.
Tudo dorme, agora.
Gravito-me até encontrar novas palavras que me levem a outras órbitas, vendo crescer infinitos a cada madrugada em que o olhar se cruza com o teu e tu, creio que sem o saberes, levas contigo o pouco que não sei criar.
Está a chegar o verbo, o início vai começar.

2016-12-11

Advento

Crónica de Domingo na Bird Magazine em 11/12/2016.

O vento arrepia um pouco a noite. Os Clérigos erguem-se sem grande preocupação pelos tempos que se descem ou se sobem mediante a montra mais ou menos colorida. Por entre a escuridão perene de montras onde se compram pessoas pela suprema desnecessariedade, há luminosas escarpas onde se deitam cedo os estivadores dos sonhos, nos seus apartamentos de cartão com camas de jornal e tectos de velhos cobertores que a caridade alheia se lembrou de ali construir. Há um odor a abandono que se mistura com as fachadas lavadas (e as crianças cinzeladas a tinta colorida e olhares inocentes nos azulejos por cima da porta), aqui parece florir a prosperidade da solidão e desvio do normal. Ou seria o normal desvio da solidão prosperificada?
Esbarro os meus olhos em olhos negros e tristes de quem se vê gente, mas é vista pela gente como calçada. Desliza o dedo nos sulcos da cara como seus trilhos de eléctrico e apeia-se por momentos da memória, esquecendo as vezes, tantas!, vendida nas ruas, escuras, a transmorfeados chefes de família acabados de deixar os filhos a brincar no alcatifado chão da sala e a esposa, de quem se despede com o pousar suave dos lábios na sua testa suada de um dia de labuta. O corpo roliço e abandonado na ombreira faz a vez das luzes coloridas e o olhar parece querer agora, depois de vendido sexo, comprar amor. Há vida nas ruas e nunca me pareceu tudo tão morto. Claro que de toda a rectidão, mesmo na prosa, como na vida, sou torto.
A noite caiu sem grandes pressas, mas mesmo assim deixou-se escorregar, como é seu costume no advento do Inverno, sobre o dia de forma bem aligeirada. Ao olhar para trás apercebo-me que a sombra do meu inconsciente se encosta ao ardina e afia conversa, rindo-se acarinhadamente dos velhos fantasmas que por cá ficaram e ainda tentam descer a fajuta escadaria que dá acesso ao túnel, onde soavam saltos altos, escarros e pontas de guarda-chuva no chão húmido e pegajoso.
A cidade ganhou o cheiro dos cegos tocadores de concertina e acordeão, acompanhados pelo torpor caminhar de um suplicado pregão que não ouvia há tempos. Talvez me tenha feito surdo com o passar dos anos. Talvez a surdez me faça também cego. Talvez eu partilhe a memória do padre que, nos Congregados, celebra uma missa acelerada a uma pequena maré de cabeças alvas saltando o “saudai-vos na paz de Cristo” porque o respeito, a amizade, enfim o Amor, parecem ser fugidios estados sociais de redes onde se esperneiam a arfar os cardumes de pessoas que não se sabem estar a afogar.
Faço de conta que olho para o vendedor de castanhas com as mãos afiadas a rachar, atender, embrulhar e contar trocos lambendo as pontas dos dedos para tactear. Para lá, encostado à sua própria sombra na parede de São Bento, um mendigo vê reflectido na sua cara as tricolores luminosidades natalícias que o semáforo proporciona. Ele é-o vermelho. Ele é-o verde. Ele é-o amarelo. Ele é-o laranja e verde intermitente quando as luzes para os peões se cintilam e lhe dão à cara a solenidade de um menino Jesus grande e sujo, com o frio a reluzir na ponta do nariz e a cara sofrida de quem nem se sabe vivo. Finto as pessoas, a minha sombra, os fantasmas e as duas ambulâncias do INEM e passo por ele, para me encostar depois, em cima de um degrau, a uma das entradas de São Bento, a fitá-lo. Tem os olhos quase fechados para que (aqui deduzo apenas) por entre as pestanas lhe sobre um caleidoscópio de noites cinzentas e a sopa servida no tupperware quente lhe faça aquecer as mãos e abrir o apetite para mais uma noite no presépio citadino, onde nos falta a sobriedade e solenidade dos animais que O aqueceram quando cá esteve.
Sei que é Natal porque quando me decido ir à vida, a lutar contra a maré cheia nos meus olhos, vejo-o encostar os lábios gretados ao plástico azul e antes de sorver ruidosamente a argamassa de legumes ouço-o “Obrigado meu Deus”.

2016-12-04

Vai dar entrada na linha número dois…

in Bird Magazine, 04/12/2016.

Puxo o mais que posso as mangas da camisola para os pulsos. Tento evitar o contacto da pele com o frio inox do balcão do bar da estação de comboios.
Saboreio, ainda antes de sorver, o cheiro quente do café em espuma misturada com o leite.
- Está muito quente?
Respondo que não com a cabeça, apenas por educação, pois já a língua me ardia e doía e os lábios, de gretados, passaram a uma espécie de carne mal passada num braseiro de noite de Natal.
Um senhor titubeia até ao meu lado, parece uma folha que cai e não sabe que já é Outono.
- Esta merda de doença.
Tem Parkinson, fala comigo ao mesmo tempo que tenta controlar o corpo.
- Já está pronta?
O senhor do outro hemisfério do balcão responde afirmativamente e diz-lhe para trazer a outra. De repente pára, olha-me e encolhe os ombros um pouco envergonhado, parece apenas agora reflectir sobre o que disse.
- Deixe estar, eu vou buscá-la.
E dirige-se para a cadeira/veículo eléctrico, levando a bateria que tinha desligado da alimentação. Esta exibia orgulhosamente vários led's verdes, numa pujança electrónica que só os indivisíveis parecem mostrar. Regressa o produto de uma dúzia com cinco segundos depois já com a bateria que tirou da cadeira/veículo e liga-a a uma tomada.
Com a face a tremer, a voz oscilante soluça algo para mim, a meio de um sorriso vencedor, de quem não se resigna ao corpo.
- Está sem bateria. – E aponta com o queixo para a cadeira/veículo. – A cadeira e eu também.
Deixo escorregar, do fundo da chávena para a boca, a espuma da meia de leite e com ela tento limpar internamente a boca, massajando as queimaduras que me vão custar alguns tempos de ardor.
Recordo com alguma saudade o colorido dos painéis de azulejos, os tectos baixos, os bancos de madeira e as caras estranhas, quase amedrontadoras, que se moviam sobre corpos quase humanos.
Desço as escadas, deixo os degraus seguirem o seu percurso sobre os meus pés e continuo, mãos nos bolsos, a percorrer com não menos indiferença as dezenas de passos que me distanciam da escada rolante que me levará à linha dois.
Faço um esforço para não fechar os olhos e vou oscilando entre o olhar em frente e a fuga dos obstáculos em que se tornam as pessoas quando saem do comboio a correr, talvez com pressa de serem obstáculo noutro local.
As paredes mortas, sem vida.
As lojas soturnas ostentam orgulhosas pequenos papéis pendurados nas vitrines cegas.
"Fechado", dizem-me e a quem quer ler.
Lá dentro, pó, pequenos pedaços de plástico, escuro e semi-escuro, luzes onde não entra a luminosidade.
Em tempos em que se vende tudo, até as memórias parecem querer ser vendidas, pedindo que alguém as compre e as leve para outro local, uma galeria com luz, sol, pessoas e não obstáculos.
De que tanto necessitamos? Porque nos dizemos ainda mercadores quando de mercado conhecemos apenas o pregão e esse, coitado, vai caindo como as folhas de papel amarelecidas, sozinhas, no chão:
- Vai dar entrada na linha número dois…

2016-11-27

Sem dimensão ou universo

in Bird Magazine, 27/11/2016

Porventura e por ventura, o silêncio do que falo é tudo o que consigo fazer ouvir.
Lamento que o quanto de tudo que recolho na vida seja inaudito, fica a bailar nos olhos, nalguma contracção muscular que faça erguer um sorriso ou na maré que, momentaneamente, possa trazer uma ondícula salgada até onde a minha parca vista alcança.
Habito-me sem me sentir em casa, habituo-me sem me fazer quotidiano, os dias rimam apenas porque tombam e se penduram na armação invisível que se ergue em redor do que escrevo.
Coroam-se as palavras, porque lhes louvo a ventura e ousadia de lavrarem o espaço que separa o meu sopro dos teus campos férteis, no entanto, nem bom vento, nem bom advento provém da atmosférica fronteira que me separa do que habito e de onde moro.
Calcorreio por entre estrepes aguçadas o percurso, desencantado, por não saber de cor o nome das estrelas embora me faça por estrelar a cada sorriso de uns petizes, esses, sim, que não o sabem e por isso são felizes.
Há um e outro, ao redor de uma e outra, gravitando as tardes porque o que educam não é o que aprendem, mas sim o que desencontram quando se soltam da pederneira as pequenas faíscas que os fazem arder brandamente no acampamento da vida.
Um dia, quando não me calar, vou levar alforge onde caibam os estilhaços dos espelhos que fui partindo, porque no reflexo de uma taça deve luzir o nome de quem à vida e na vida se alcança.
Todos clamam pelo sol, esquecendo o imenso calor que irrompe do esforço da chuva em se fazer sentir.
Pouco mais que o dinheiro, deixo a pobreza acompanhar-me.
Só assim consigo ter os bolsos suficientemente vazios para lá caberem todos os sonhos em formas de maias floridas que não colho.
Em tudo há o valor, inavaliado, de se ser uma pequena fragmentada porção de pó cósmico aglomerado num só corpo, num só pensamento, com saudades de ser praia e areal, terra e pinhal.
Acredito que um dia, um momento, possamos ver-nos como uma frágil fatia de um elaborado bolo cujo condimento é o sorriso que podemos fazer crescer numa outra fatia.
Todos parte de um e um que se parte quando nos esquecemos de nos abraçar de encontro ao que somos, um corpo de cada vez, até não sabermos distinguir por livre e espontânea vontade a etiqueta que nos separa do que nós somos do que nos fazem.
Tenho as mãos cansadas de tanto procurarem, no espaço que permeia a distância que me separa de amanhã, aquele momento em que me sei semeado pelo sol, colhido pela chuva.
Que me desculpem as palavras se as obrigo a serem aquilo apenas que sei ser, enfim, criança homem sem dimensão ou universo onde nascer.

2016-11-20

Possivelmente possível

 in BirdMagazine, 20/11/2016

Possivelmente possível”

Por entre os pingos da chuva, na infinidade de espaços onde a água não se liquidificava, raiava o silêncio como se a estrada que nos levava lá fosse toda ela feita de soluços, como as sandálias a comprimirem o cascalho ou a túnica sacudida num vai e vem de gotículas a salpicar todas as outras que caíam.
Quando o tempo se sobra e se permite a veleidades veladas a quem não se dispõe ao acaso, tudo sobra para que até as tardes de Outono saboreiem sossegadas o aroma tépido de uma mão cheia de castanhas e, depois, o enfarruscado abanar das palmas, uma na outra, a modos de corpos de gente que se degusta.
Não há muito a redigir para quem, talvez como eu, uma ensolarada crepuscular idade basta para enternecer a visão gasta e os sentidos desapurados.
Talvez por isso me perca um pouco a saborear o ruído do solo que se esmigalha a cada passo que dou pelo monte.
Desconstruo as estradas por onde passo, faço por nem piscar os olhos, não me vá fugir paisagem quando as pálpebras se dedicam a claquear o horizonte como dando ordem ao cérebro gritando “acção!”.
Desconstruo, também, o futuro.
Voto-me à solidão como se apenas no calar da voz ouvisse e houvesse aquela miríade de possibilidades que se soltam de uma inspiração, de uma expiração, onde a sinceridade e honestidade típica do vazio prevalecesse.
Rio-me com o desequilibrar típico de quem se desvia de carreiros de formigas ou de gafanhotos que, garbosamente, exibem diferentes tonalidades como tontos e desconexos arco-íris monocolores precipitando-se entre mim e o verde acastanhado das folhas que se deixam outonar.
Há uma ou outra sardanisca, osga para os leigos, que corre assustada por entre dois ou três restos de ramos de pinheiros, pedras, por debaixo da caruma quem sabe imaginando-se de onde tal adamastoreidade possa surgir.
Detenho-me num ou noutro pinheiro, sem as histórias que me suportam ou as palavras retratadas nos olhares de quem não se lê, para por momentos sentir na face a aspereza subtil e cuidada da casca resinada e resignada de quem vê o tempo passar e sorri, caruma ao vento, pelas intempéries que assolam a orla marítima de quem se observa por entre o mar e o mundo.
Os dias pequenos correm lestos, primeiro pela madrugada madrugadora, depois ao subir do calor possível que o Universo catatónico permite, para vir depois por aí abaixo até se deter no alaranjado atonado céu, onde as nuvens brincam aos padrões e se esgrimam em rendilhados pedaços de imaginação que me fazem, agora com frio, sentir que o dia se vive quando se deixa ser, dentro da possibilidade, possivelmente possível ou, matematicamente falando, reciprocidade de uma hipótese sem tese.
A Lua viu-se e desejou-se para nascer a poente de um horizonte, mas destinou-se que, como o caos, as palavras se permitam orbitar o cerne de um parágrafo crucificado.
Assim foi o desfocado ocaso, na cruz ou apedrejado, por entre pares e ímpares. mantenho-me aquecido no istmo que separa o falado e o calado.
Não havia espaço para mais, a metáfora terá que servir para o espaço incólume que deixou pendente porque, como sempre, não se sabia escrever e quem o poderia fazer, não o sabia ler.

2016-11-13

O corpo come, mas é a alma que se alimenta.

Crónica na Bird Magazine 13/11/2016

Escondi-me sem grande necessidade, não me viu chegar acorrentado que estava à pressa de fugir dos pingos que engrossavam a cada passo. Encostou-se ao primeiro muro que lhe deu garantia de protecção adicional contra este aguaceiro de chuva caduca e aninhou-se no chão, puxou dois renegados paralelos soltos da escravatura do solo e improvisou um banco. Abriu o enorme colorido guarda-chuva que lhe amparava os passos e, nestes dias farruscos, o abrigavam da sublimação que é caminhar em estado sólido sem se saber gasoso.
Sentado, o guarda-chuva preso entre os joelhos, as varetas a tinirem quando o vendo se lembrava de açoitar um braço em redor de um vazio ainda não soprado. Todo ele, agora, parecia um acampamento, lateral à margem da morte ou da vida, aqui ao lado do portão forjado com letras de arcaísmos e números agrupados na memória de outras temporadas vazam já em dois séculos atrás. Quando o vento soprava, ao abrigo da distração da chuva, e o guarda-chuva oscilava em pequenos arcos, na vaidade de ser ser visto de cima como um arco-íris rotativo de centro o e raio r, ele fazia por alinhar as varetas nos espaços de terra por entre o granito dos paralelos, prendendo-o.
Sorrindo, inclinou-se sobre o seu lado direito e espreitou a chuva que caía, agora, copiosamente na despreocupação de ser outra coisa que não a chuva.

[Ah, a liberdade de se ser quem se é.]

Fechou os olhos, molhou o rosto, sorriu agora um pouco mais e endireitou-se no chão, sentado degustando, deduzo eu, a alcalinidade líquida das moléculas que, apenas porque sim, se agrupam aos pares de hidrogénio e aos ímpares de oxigénio.

[Não me bastasse a inquietação das respostas para as quais não tenho perguntas, ainda me perco a comiserar porque razão a água é água e não poesia que se acumula na goteira do que não vejo.]

Inclina-se para a frente, encosta a testa ao frio metal do guarda-chuva e abre a mochila (era de cor azul, já o tinha dito?) tirando um saco grande de plástico. Senta-se hirto, como a chuva que teima em não abrandar de intensidade e pousa a saca no chão. Pareceu-me ouvir um tilintar. Quando começa a tirar o conteúdo sorrio.

[Aqui a narrativa apressa-se e com ela surgem as falhas na grafia, próprias de quem se inventa entre dois aguaceiros ou, vá, duas vidas. Talvez deva abrigar-me melhor, a chuva parece cair-me na cara ou, talvez não, não me deva emocionar com o simples que se abriga na complexidade de se ser o dia, presente.]

Começa por desembrulhar com cuidado os jornais que envolvem e conservam o calor desde a madrugada, quando a esposa (ou ele, como o poderei saber?) cozinhou o que quer que seja que o tacho conserva. Embrulhou os jornais, encostou-os à cara e sorriu, deveriam estar ainda quentes e talvez da celulose se soltasse ainda o carinho com que alguém lhe preparou o almoço.

[O corpo come, mas é a alma que se alimenta.]

O naperon azul pariu um par de pães alvos e farinhentos, cujos vestígios são agora as poeiras brancas no canto da boca e, logo de seguida, nas costas da mão que usou como guardanapo. O raspar da colher no metal contrasta com o burburinho da chuva e do vento a atirar um arame que serviu, certamente, de estendal. Arrumou na mochila jornais, naperon e tacho, partiu a maçã verde em duas metades, comeu uma metade por inteiro e a outra metade comeria inteira a meio da tarde, deduzo. Na falta do calor negro a rodopiar entre as bordas do universo que é uma caneca de metal, deixou-se encostado ao muro, ainda a segurar o guarda-chuva e a ouvir as grossas gotas que batiam no tecido transformando o som em embaciados óculos, salpicados por memórias secas de quando a vida poderia ser mais húmida, como as cavacas mergulhadas no leite.
Quando terminou o céu parecia já saciado, passara de um cinzento para vários cinzentos, ostentando aqui e ali uma gotícula de azul celeste e o branco que timidamente se anunciava abaixo da atmosfera que é o intervalo sagrado de quem respira para se viver.

2016-10-30

Ausente sente

Crónica de domingo na Bird Magazine, em 30/10/2016.

Arredo-me das letras como de mim. 
Deixo-as desencavadas e encostadas na leira, ao frio e à chuva que tem caído lá fora e cá dentro. 
A sementeira não se faz pela noite e, contudo, é nela que encontro terreno fértil para, como bicho, me aninhar em mim ao chegar ao ninho, ombreando força com as sombras ondulantes e erráticas que a vela projecta na sua dança sobre o pavio. 
Já nem sei do que me rio. 
Descansa o resto do pão ao meu lado e nesta côdea amarelada dou por mim fortuna de áureos nunca tidos, que não me pesam, e, talvez assim, por isso, por mim, me sinto afortunado.
Saga de quem se abriga num qualquer beirado.
O dia passa a cavalgar por mim, literalmente, graciosamente e cavalarmente, adverbiando as palavras para que possa saltar os obstáculos que se ausentam e, como tal, não se vislumbram ou percebem. 
Um pouco como eu.
O frio começa a sorrir, vem subindo as pernas da cadeira, torneando os veios da madeira e encavalitando-se nos meus pés cobre lentamente o meu corpo, como só as mães sabem, levando-me a adormecer hipotermicamente.
É neste semi-estado, desacordado e desadormecido, que me empoleiro em mim e me deixo de procurar estrelas onde elas sempre brilham para as encontrar debaixo deste bocado de pão, no isqueiro que me queima os dedos, no som do vento que se faz canção, no velho sussurrado adormecido no jardim, como o valado brotado do relógio que tiquetaqueia em mim. 
Hoje estou adiantado em relação ao meu atraso, eis a razão de chegar, agora, ao fim.

2016-10-23

Balada da voz lengalengada

Crónica na Bird Magazine em 23/10/2016.

Os gatos, pequenitos, enrolam-se uns aos outros no meio da erva verde, enquanto os mais afoitos cedem ao medo do desconhecido ronronar deste animal grande, negro, que segue de motor enfurecido com os pneus a baterem furiosamente nos paralelos cinzentos, e se esgueiram de encontro aos irmãos que semicerram o olhar felino, inocente, como o acordar matutino da mente.
De repente a própria erva parece, além de húmida e fumegante pelos raios inclinados do finado Verão, parda e salpicada com tons de branco, laranja, castanho, preto, pantufas dobradas sobre o corpo, bigodes, pequenos narizes cor-de-rosa e olhos esbugalhados de espanto.
A erva, essa, não se assusta nem quando apelidada de daninha e, assim, ao corpo arrancada, segue compenetrada, em foto-síntese atenta no namoro pendular entre o que se inspira e expira.
As casas, velhas, são vistas do alto como se pendessem sempre sobre uma encosta invisível, mas tangível, como o são todos os esquecimentos.
Os telhados, as paredes, as pedras emparedadas, as viúvas que permanecem casadas.
O fontanário escorre água num lacrimal choro de saudade mineralizada, a saudade do fumeiro esvaído em prateleiras de néon, há todo um manancial de superficialidades para vender a quem se pensa ser o que pode vir a ter.
Há um avental que ondula no caminho, vai preso ao pescoço que se enruga sozinho, porque o tempo é implacável para quem não sabe falar.
Implacabilidade é para quem se fala por que não vocaliza os pensamentos que ascendem directamente do soçobrar ao infinito e, chegado lá, se descobre em encruzilhada porque do menos ao mais se entras nos escombros do que não perece, de lá nunca mais sais.
Ondulam agarradas a umas pernas esbranquiças umas calças com fuligem, uns pés sem meias nuns sapatos desapertados que bailam para a frente e para trás a cada passo, a casa passo.
Um acenar lento e tímido quando agradece a cedência de passagem na cadência da passadeira e os idosos que se acotovelam com cuidado junto à grade que separa a actividade quotidiana da actividade laboral dos funcionários que, de pá e pica sobejam à terra que se deixa perfurar mais por desdém do que por necessidade, a terra clama-os já com saudade.
Se soubesse pensar, a fuligem deixaria de questionar, teria o homem forjado algum ferro endurecido, como as mãos do que é esquecido, ou seriam sobras de uma vida que o forjou a ele mesmo e a uma sombra desaparecida, um pouco mais de carne, um pouco mais do medo, um pouco de desmame da saciedade do segredo.
Vejo o som do Sol após a chuva, a neutralidade positiva da vida sua, a paisagem queimada mais pelos olhos indiferentes do que pelas labaredas carentes do fogo fajuto atiçado por homem que, certamente, nunca foi puto.
E quem se sabe puto, nunca mais quererá ser homem.
Ouço o vergasto indiferente de alguém queimado pelo álcool, quase demente.
O arrastar da ramagem seca pelo que o alpendre não cobre, a felicidade de se ser pobre, os chinelos de dedo, calções e pés molhados no rego para a água escoar, do riso ao chorar.
Há que dar passagem à água mole, que se escorra e aflija na entrada de outrem que não a minha, coitada, que cai já triste e molhada.
Findo no vento que toca a cara, sei que o universo é fonte que jorra e não para, mas quem se quer a ser voz, porque a rotação de um planeta faz calar a voz, a vida cai inanimada sem dó, ao colo de quem sabe que o universo foi bocejo de um Deus só.

2016-10-16

Cãesjos

Crónica de 16/10/2016 na Bird Magazine.

Os braços arderam, secou-se a seiva que pendia dos dedos de quem nasce verde e morre cinzento, inglório.
A cinza agrilhoa-se aos olhos, não há urgência que se torne neblina, apenas se calam os murmúrios e os chilreados trinidos de quem vive num sopro.
Os estrepes forçados de umas quantas armações de vida sobram de uma noite que se faz dia, de um nascer forçado do Sol embraseado que outros chamam Lua.
Os meus pés afundam-se no escuro, os passos que não dei deixaram pegadas à frente da minha sombra, porque, simplesmente, o horizonte que se estendia tombou e desistiu de ser verde.
Há uma sombra negra na estrada que obriga a longa e desajeitada fila dominical de condutores e suas extensões motoras serpentear. Um cão jaz na beira da estrada. Grande. Negro. Fusco.
A cabeça encostada a um pequeno e inclinado bloco de betão, como se dormisse.
Amedrontado, confuso, pensando o que os cães pensam, um outro, do lado de lá do bloco, fita-o, com as patas dianteiras pousadas no betão. E já em pé, maior ainda, menos preto fusco e mais negro brilhante, confuso e amedrontado, sendo o que os cães são, olha para o seu próprio corpo e, depois, para mim que calhei, coisas do destino, de passar ali naquele exacto momento.
Num olhar cruzam-se, sempre, pessoas e por vezes, como agora, animais.
Ali, naquela fracção de segundo, ele saltou-me para o colo e eu trouxe-o para longe da sombra que foi. Intermitente, surge e desaparece do banco do carro, ele próprio confuso, eu rindo-me.
Páro o carro. A estrada continua a passar por mim. Abro a porta, mas já ele a tinha atravessado.
Olha para mim, olhando com os cães olham.
Há um latir, surdo, que vai batendo à porta da noite como se vento se tratasse. Vai surripiando arrepios às sombras que se amedrontam com o emaranhado de emoções que as árvores coscuvilham.
Habituei-me a ouvi-los, primeiro longe, depois abrindo-lhes a porta e deixando-os falar o que lhes vai na alma. Primeiro olham em redor e, quando se apercebem que mais ninguém os fita, perdem o ar bonacheirão para se sentarem cavalheirescamente e começarem a contar histórias de patas nuas nas calçadas, sorvidelas de águas em fontanários e a inexplicável tentação de correr atrás da própria cauda.
Outro latido, grave, ergue as orelhas, olha-me e ali, longe do que ambos somos, desata a correr pelo monte acima, desaparecendo no preciso momento em que começou a chover e era como se as gotas de chuva lhe turvassem aquela pintura brilhante, para o tornar transparente, lentamente, totalmente, até ser aquilo que nasceu para ser, chuva.
Acho que os cães são como os anjos, transparentes ao olhar opaco que possuímos e lamento o prévio desalento dele, que me confidenciava em desabafo, nunca terem conseguido domesticar-nos porque não sabemos chover.

- É chuva senhor.
- Isto?
- Sim, senhor.
- Mas cai assim, sem mais nem menos?
- Sim, senhor.
- E porque me faz sentir assim?
- Porque é a chuva, senhor.

2016-10-09

Isto é apenas o vento

Crónica na Bird Magazine em 09/10/2016

À semelhança do climatérico dia, acordo sem saber muito bem onde estou, ao que vim, para onde vou e porque me escrevo na primeira pessoa, que me encontra.
Apetece-me deixar dormente o despertar, ver os restos de noite fugirem das frestas luminosas que assomam por entre os buracos da persiana, tapar-me com o lençol até ao queixo, como se estivesse sobre a caruma do monte a dois passos donde estou e tivesse medo do cair do dia.
Consigo levantar-me, a custo, a muito custo. Espera-me a tarefa de nebular a manhã e anima-me, pelo menos por enquanto, a volatilidade da mediocridade que promete terminar quando todos se vestirem de lírios. 
Pouso a caneca negra na banca, deixei a flutuar o resto da espuma branca já fria da maré que tomei quente e, agora a custo, cinjo o cinto, abotoo o pano velho ao corpo, enfio os pés nos largos sapatos frios e preparo-me para sair de casa. 
Coloco um pé na soleira, a porta rangeu menos hoje, olho para trás e rio-me de mim e do tão pouco que necessito para ser eu mesmo. 
Fecho a porta, desloco o ferrolho e nem fecho à chave, limitando-me a esconder dentro do espanta espíritos o meu tesouro. 
Visto o nevoeiro e saio para a rua. 
O estômago ronca um pouco, receoso que não o trate tão bem hoje, mas a corpusculidade que volita traz odores de pão quente, e isto parece bastar para lhe apaziguar a dor no odor. 
Umas mãos cheias de passos levam-me rápido à entrada da padaria. 
Vejo que há funcionária nova atrás do balcão, bato à montra, ela olha em redor e sem nada ver fita perplexa a porta à espera de alguém que entre. Nada.
Bato novamente, desta vez dando um pouco mais de força aos nós dos dedos, a rapariga assusta-se e pelo postigo que separa o balcão da cozinha espreita uma senhora, mais velha, que sorri. 
Dá-lhe um toque nas costas e pede-lhe, que é como fala quem manda, que prepare um café curto, duas tostas pequenas e a vassoura grande de ramos de giestas secas.
“Agora leva isso lá fora”, sem que a rapariga percebesse para quê e para quem ia levar um pires com uma chávena de café, duas tostas pequenas e aquele travesso pequeno de vassoura velha que nunca encontrava no mesmo sítio.
Quando a porta automática se abre ao sentir a presença da funcionária, dispo o nevoeiro que me escondia do olhar dos outros, deixo-o pendurado no ar e é aí que, coitada, a rapariga dá um grito e do repentino gesticular sobram apenas as tostas na minha mão, a vassoura que evito cair com o pé no ar e um pires e chávena partidas, com o café fumegante a arrefecer chateado nas pequenas pedras de calçada portuguesa.
Há risos, meus e da senhora lá dentro do postigo que, vista agora, parece ser um troféu de caça animado, sorridente, e mais vivo, como vivos ficam os que são caçados e pescados no desporto pueril da humanidade cingida à egosfera.
Peço-lhe desculpa, as brincadeiras são engraçadas apenas e quando todos riem, mas no susto despreparado da moça custa-me o agora soluçar pela chávena partida e o café derramado, a meus pés. Ofereço-lhe ajuda ao tapar com o nevoeiro os cacos e o café e a permitir-me colocar-lhe a mão no ombro e dizer “pronto, não chores, não é nada, volta para dentro”, um pouco entristecido pela falta do café, quente e envolvente, a rilhar as tostas pequenas que durarão uma manhã inteira, pelo menos até o Sol romper a neblina e vier dar luz à luz que se esconde por detrás de mim.
Agarro a vassoura, começo a varrer as mesmas folhas de sempre, Outonos diferentes, mas árvores iguais. Mantenho o cuidado de, ao ver alguém, cobrir-me com o nevoeiro para que não me vejam e pensem ser normal, este frio, este calor, a palete de cores mornas e arrefecidas pelo silêncio, pela solidão, pelos cantares confusos dos pensamentos não sabidos pensar e ao verem admiradas o volitar sereno das folhas multicoloridas pensem, porque o ser humano é desatento: “isto é apenas o vento”.

2016-10-02

As ilhas morrem de pé

Crónica de Domingo, na Bird Magazine em 02/10/2016

“As ilhas morrem de pé”

Sento-me no banco de madeira, corrido, dos bons, em que o meu peso colocado num extremo não alavanca a outra extremidade para o ar, fazendo dele um baloiço em que a única criança sou eu. Há um quê de escutismo na construção, umas mãos habilidosas ou ávidas de o serem procuraram entrelaçar cordas, pregos e madeira, nalgo a que comparo com uma tenda de índio ou, apesar da imperfeição, das minhas antigas cabanas construídas à força de inocência e de muitos ramos de mimosas, fetos e, perdoe-nos o proprietário, algumas molhadas de palha seca.
Escolho este banco porque, a esta hora, é o único onde a sobra projectada pelos ramos dos sobreiros descansa do calor que assola na invulgar quente tarde de um Outono que, por este ritmo, só chegará na Primavera. Pouso os antebraços na mesa, tento perceber de que madeira se trata, mas falta-me o olhar resinoso que conhece os veios (parabéns Pai). Gosto do atrito, o caderno parece apreciar quando o abro com cuidado e lhe afago as folhas ainda imaculadas, uma espécie de solo poroso por onde se precipitam os espaços entre as letras desaparecendo a tinta e ficando aflorados, tão só e apenas, os caracteres que precisam ser lidos por mim.
Apesar de longe do litoral, aqui sob a sombra de um pé de laranja lima feito de sobreiro, ouço o marulhar do vento a cavalgar pequenas cristas de espuma e o ribombar seco da força com que a água mineralizada bate nas paredes da ilha onde vivo.
Há um círculo verde, erva não cortada, onde subsistem restos dos traços da passagem de humanos despreocupados, imagens aterradoras amassadas ao redor de maços de cigarros, tampas de plástico de garrafas, invólucros vazios de chicletes, restos de guardanapos, fios multicoloridos de apertar sacos de pão de forma e outros lixos lixizados que não consigo perceber a que não essencialidade pertenceram. Parecem olhar-me tristes, ali ao alcance do caixote do lixo vazio. Dou por mim a pensar que não só as pessoas cheiram mal dos pensamentos, como fazem com que a sua passagem por este planeta seja assinalada com o teor de lixo que deixam para trás por onde quer que passem.
Ergue-se no interior do círculo uma circunferência de pedras, com uma pedra no centro da circunferência onde está gravado um símbolo celta que é, por sua vez, um círculo com raios em semi-círculo e que me hipnotizam na razão de pi (π).
Ainda coloco a caneta entre o polegar, indicador e médio, mas a visão do símbolo celta começa a desviar-me a atenção. Paro quando algo me cai no ombro e escorrega pelas costas. Sacudo-me na repulsa de pensar ser um insecto que, coitado, saberá menos da minha existência que eu da importância dele. Outra batida e, agora, o estampido tímido na mesa. Solto-me da espiral torpe a que começo a habituar-me e vejo que o que caiu não foi qualquer bicho, mas uma letra. Um “S”.
Um “S” está deitado na mesa de madeira, como pequeno insecto indefeso de costas, a espernear sem perceber porque o céu está aos seus pés e o solo nas costas. Com a ponta da caneta volto-o e ele trepa para a esfera azul por onde se esvai a tinta indefesa. Fito-o por momentos e depois coloco-o na folha amarelada do caderno, ainda em branco, ou em vazio, para que nesta amálgama colorida não pareça o caderno padecer de uma enfermidade cutânea. Sobre a folha, o “S” parece familiarizar-se com o local onde está e, sem que o empurre, solta-se da esfera e vai alojar-se no canto superior esquerdo da folha. Um novo toque no ombro, nova letra sobre o tampo de madeira, um “e”. Faço o mesmo que fiz com o “S” e rio-me ao vê-lo correr folha acima para se encostar ao “S”. Agora um “n”, um “t”, um “o”, um “-“, um “m”, novo “e”.
Ainda as sombras se deslocam devagar, ainda o mar arrulha nas ameias da minha ilha, ainda a sonoridade celta orbita o meu mundo, ainda o canavial ao fundo se desloca à vontade da maré que o vento traz pelo ar, já eu vejo que o dia se foi desfiando rápido, certeiro e embaraçando noutros dias como se mãos cuidadosas do cesteiro tecessem os vimes espessos que são as vinte e quatro horas que nos tiquetaqueiam.
Acordo como quem não dormiu, sinto novo toque no ombro e quando me preparo para adivinhar qual a letra que tinha caído desta vez, vejo que a acompanhar parte do meu braço estava um ramo forte e vigoroso do sobreiro. Acomodou-se ao meu ombro, ao meu pescoço e, na cumplicidade das árvores frondosas, olhou-me e afastando e juntando folhas aqui e ali, formou um sorriso com a claridade que o Sol emanava.
Vejo as horas, levanto-me sobressaltado, atrasado para o que quer que tenha que ser feito depressa e antes de fechar o caderno não contenho o sorriso ao ver as primeiras palavras que vejo agora não ter escrito: “Sento-me no banco de madeira”.
Hei-de nascer de pé, como as árvores, nas ilhas.

2016-09-25

Feitas de sorrisos

in Bird Magazine, em 25/09/2016

Abro a porta do passageiro e iço-te, demoras a largar-te do meu pescoço, tens medo, compreendo. Sento-te no banco e o pó levanta-se, começas a tentar apanhá-lo com essas mãos pequenas e ris-te porque ele foge. Desistes pouco depois, não sei se pelo tempo em que estou simplesmente a ver-te, se por perceberes que vive-se melhor a apreciar a liberdade do pó, do que a tentar aprisioná-lo na nossa mão.
O Sol da manhã, na sua diagonalidade existencial, traça pequenos véus de luz onde, deste lado, faz parecer que até o pequeno movimento de sombra que se desprende de ti reluz.
Passo o cinto de segurança por ti, não sem um pequeno esforço para te fazer compreender que não é hora da papa, mas sim de viajar. O clique indica que a cegueira da minha mão encontrou o negro invólucro com as letras “PRESS” gravadas no botão vermelho. Fecho a porta com algum cuidado, se saíres a mim não gostas dos estampidos breves e altos das coisas (e pessoas) que se embatem. Embacio o vidro pela parte de fora e começo a desenhar pequenos círculos com o dedo, até que pelo aumentar do raio e o duplicar do diâmetro consegues ver-me a sorrir do outro lado e sorris também, com essa mão gordita a tocar o vidro, não pelo sorriso, mas porque és criança e as crianças sorriem porque é do que elas são feitas.
Rodeio a carrinha pela frente sempre a olhar-te, pensei que terias medo, não sei, talvez pensar que estaria a ir-me embora, mas continuas fascinado com o pó a salpicar o ar e o embaciado do vidro e, talvez, penso rindo-me sozinho, pela sujidade a que, normalmente, veto tudo o que é veículo.
Abro a porta, iço-me, sento-me com algum cuidado para que a vertebralidade não acorde e mais pó se levante. Bato a porta e o estampido faz-te olhar para mim, refeito da absortidade, sorris e imitas o meu gesto de colocar o cinto de segurança. Descobres o botão vermelho, não lês o “PRESS”, não sabes ler mais do que os sentidos, mas com o dedito tentas carregar. Perdes uns largos segundos a olhar o vermelho, a tentar carregar, mas despertas para outros sentidos quando ligo a carrinha, depois do laranja da luz da resistência se apagar, e todo o cangalho se abana, como que acordado sobressaltado de um pesado sono de sonhos metálicos e de fluidos petrolíferos e lubrificadores.
Olho e estás já a ensaiar o vrum vrum.
“Onde vamos?”, pergunto, mas tu não percebes ou porque percebes não respondes.
“A tua mãe faz anos amanhã e eu não sei o que dar-lhe”, mas não me parece ser tua preocupação.
Estendes-me os braços e, porque te habituei, desprendo o teu cinto de segurança e sento-te ao meu colo, prometendo que será a última vez que o faço. Agarras o volante e olhas para mim, talvez por perceberes que ainda sou eu quem comanda o veículo ou porque quando o fazes eu invariavelmente esboço uma careta, engato a primeira velocidade, baixo o travão de mão, desembraio e carrego um pouco no acelerador ao mesmo tempo que faço um pequeno rugido com o fundo da garganta, o mesmo que aprendeste a fazer com os lábios a tremerem num vrum, vrum que indica movimento.
Começamos a andar e ris-te, ou melhor, dás umas pequenas risadas, o piso faz vibrar o volante, saltitas de emoção, olhas para o caminho e para mim, encostando a cabeça ao meu peito. Chego ao fim do caminho, travo, embraio, engreno a marcha-atrás, desembraio, levanto o pé do travão e vamos indo às arrecuas, com cuidado. O Sol bate no espelho e vai ter com o teu olhar, levantas a mão e instintivamente tapas a cara. De volta ao início do caminho, uma viagem com trajectória, movimento, mas sem deslocação, quase como se estivéssemos ambos a um degrau de sermos centelha novamente, como se os milénios que passaram fossem o que são aos olhos da eternidade, uma infinita intemporalidade que se exponencia a cada divisão.
Desligo a carrinha, algures ficou um parágrafo por colocar, alguma pontuação errada, uma ambição não ambicionada e o pó, que foi e veio e também ele não saiu do lugar.
O Sol escalou uns graus no firmamento, na leveza astral de ser-se hidrogénio, alguém bate ao vidro, estremeço e abro os olhos. Sorrio e aceno, “Vou já sair”.
Penso “ainda bem que não te viram”.
Saio descendo o degrau com cuidado e contigo ao colo, demoras a desprender-te do volante. Fecho a porta da carrinha, dás-me uma espécie de abraço, coloco-te no chão e nos passos inseguros da fisicalidade etérea vais caminhando até te agarrares ao fio de arco-íris que se forma pela rarefação da luz na água das minhas órbitas. Viras-te e atiras-me um beijo com a mão toscamente aberta e encostada aos lábios, para depois desapareceres para um outro episódio.
Começo a pensar nas palavras, que as venderia, do quanto poderia empregar nos tempos verbais para fazer do menos mais, mas a chuva diz-me que se mas dá não será para as vender, “Dá-as também” choves dizendo e eu, que nem era para escrever isto, mas é Outono sabes, neste tempo onde tudo começa a tonalizar e a cair dos ramos eu, novamente, tronco, deixo-me escorregar languidamente pelo dia sem me aperceber que as minhas estações tardam a caminhar, apenas porque não sei falar.

2016-09-18

Palavras manuais, abraços artesanais

in Bird Magazine em 18/09/2016.

“Palavras manuais, abraços artesanais”

Quando lhe perguntaram se tinha trazido lâmpadas apercebeu-se que, de facto, deveria ter lido melhor as instruções da feira de artesanato. Sorriu e perguntou onde as poderia comprar, não as queria trazer no carro, disse-lhes, tinha medo que se partissem na viagem, mentiu. Perguntaram se queria ajuda para descarregar, mas o seu encolher de ombros, o olhar para o pequeno veículo ligeiro sem bagageira para veleidades artísticas volumosas e a espécie de esgar envergonhado que lhe fez erguer apenas um canto dos lábios deram a entender que não só estavam na presença de um artesão atípico, como lhes fez crescer a curiosidade em ver, na manhã seguinte, o que estaria exposto para venda no stand C-4-D, (C de cubículo, quatro de área em metros quadrados, aproximadamente e D de tipologia, sem esquina, sem lona a improvisar alpendre, dois casquilhos a bailar no rodopio do fio eléctrico), onde estavam já coladas as letras em vinil, pretas, que ordenadas apresentavam “Palavras Manuais, Abraços Artesanais”.
Assinou uns papéis, os mesmos que tinha enviado por email, impressos, assinados, digitalizados e recebeu um recibo, uma espécie de declaração em como tinha feito o pagamento da inscrição e uns termos de responsabilidade que, como responsável que era, não leu.
Deixaram-no ali, noite tarde. A lua exibia orgulhosa uma tonalidade laranja e trajava uma espécie de neblina que, sedutora, deixava transparecer as suas formas redondas. Todos os outros stands estavam fechados e vazios de gente. Ao fundo da rua comungavam uma espécie de cumplicidade artesã entre ofícios diferentes, pouco azo havia a conversas sobre a mesma arte. Ficavam ali num burburinho, caminhando lentamente para o final do recinto e em direção às pensões onde se hospedariam, as faces iluminadas por música celta, fogos farruscos a crepitar das bocas de saltimbancos, vendedores de algodão doce desenquadrados na temática teciam nuvens coloridas e saborosas que se colavam à cara dos putos e permaneciam nos dedos mesmo depois de lambuzados repetidas vezes. Todos davam à língua, literalmente.
Deixou-se estar encostado ao carro, o calor da carroçaria, ainda quente, contrastava com os braços desnudos frios de noite a prometer orvalhar. Abanou as chaves do carro e de casa no bolso e tentou guardar a chave do stand, mas o quadrilátero de madeira onde estava gravado (ou seria pirografado?) era grande de mais, tal como era grande de mais a lua que iluminava esta parte do recinto mais afastado da feira. Decidiu que via bem e, para noite, sonhos conseguem ver melhor sem grandes luminescências. Entrou no stand ainda aberto para experimentar a chave por dentro, tudo funcionava, bem empregue a inscrição. Desloca-se ao carro, tira a mochila, fecha o carro que lhe parece piscar os olhos alaranjados (a imaginação será artesanal?), sobe o degrau do stand, aperta as laterais da lona às paredes frágeis do stand numa espécie de acasacar uma vestimenta e sente-se bem, como se fechasse sobre si um casaco de lã comprido de mais, como os que nos cobrem os pulsos e onde fechamos as mãos em punho prendendo as bordas das mangas. Estas noites seriam assim, dormiria por dentro das palavras manuais, embrulhado em si e no sonho.
No outro dia, que amanhecera torto sobre a sua verticalidade e que agora tentava endireitar com alongamentos torpes, desabotoou a lona dobrando-a num rolo, prendendo o cilindro plastificado no topo do stand imediatamente abaixo do nome, fazendo com que os casquilhos oscilassem em demasia, sem o peso das lâmpadas.
Estava nu, o stand, um pouco como ele. Haviam alguns cadernos de capa preta, sebentas de folhas finas e leves de mais, como percebeu quando as colocou desamparadas sobre o pano preto, tendo que as prender com pequenas pedras que estavam soltas na calçada. Não havia um preçário, um mostruário, peças soltas e uniformes na sua disformidade, nada pendurado nas paredes, nenhuma caixa com cartões de visita ou símbolos de redes sociais onde apregoar a arte. Eram os cadernos, o banco rosca de três pernas, canetas cristalizadas azuis e pretas e lápis amarelos e negros, com pontas vermelhas e uma ou duas afias de metal. O porta-lápis de ganga parecia prenhe, por isso era provável que por lá estivessem outros instrumentos de escrita.
Pela localização não favorável só lá passavam os distraídos ou quem lá ia realmente à procura de artesanato. O primeiro foi um incauti, viu que chegara à ponta da feira, levanta os olhos do ecrã do telemóvel inteligente, olha para ele, vê a montra, levanta a cabeça para o nome do stand e ri-se. Creio até que tirou uma fotografia mais à frente (pelo barulho do obturador) para mostrar aos amigos virtuais. As pessoas foram-se sucedendo, sem nada na montra não havia curiosidade.
Uma senhora traz um bebé ao colo e um puto em idade de primária escolaridade.
A mulher trajava tecido sobre tecido, num misto de cores e padrões que faziam lembrar índios norte americanos. Reparou nos olhares dos artesãos e algumas pessoas e ainda que não quisesse ouvir, escutou, alguém lamentava a sorte das crianças, que mulher solteira, nova e bonita, adoptaria filhos sem ter pai que os cuide?
O maior pergunta-lhe em cada stand o que está escrito quando não consegue juntar as sílabas, a mãe sorri e lê os nomes, ora dos artesãos, ora da abstraticidade dos mesmos.
- Ó mãe, e este?
- Palavras manuais, abraços artesanais. - respondeu ao filho, detendo-se a pensar no curioso nome e inusitada montra de nada a vender.
- Dás-me uma palavra? - pergunta-lhe o catraio, olhando-a lá do fundo com o inocente sorriso. O pequeno ao colo deu um surpiro e permaneceu no sono em que vinha.
A senhora olhou para ele, sorriu, olhou para o filho, sorriu.
- Bom dia. Desculpe. (a voz não era estranha) Que palavras vende? - a pergunta podia ter sido apenas um sorriso, ou um olhar, ou a forma como o liso cabelo negro lhe caía pela face e ela no malabarismo de dar a mão a um filho, segurar o outro ao colo, ainda conseguiu abanar a cabeça para que os finos fios negros de cabelo oscilassem e se depositassem sobre os outros, presos por momentos.
- Vendo todas. Mas para o pequeno é de graça. Em que papel queres? - e espalhou a mão num gesto que cobriu os cadernos dispostos na mesa e as sebentas, ainda debaixo das pequenas pedras.
O puto aponta para uma sebenta. Rasga uma folha, alisa as rugas laterais, senta o puto no colo, olha-o nos olhos e em quatro versos (Tens-te aí aos milhares/ Dias em que vida a teus pés cai/ O segredo que te sorri/ Quem sabe a palavra pudesse ser teu pai) manuscritos a tinta azul, deixa as pontas do fio de ariadne de regresso à casa que viu dentro do pequeno.
A mulher insiste em pagar, estende-lhe a mão fechada com algumas moedas, mas ele recusa com um educado e delicado toque na mão e, aí, no alcance de uma pele sobre outra, a distância encurtou-se numas palavras, “desculpe”, e um olhar envergonhado, embaraçado e enrubescido, ergueu-se naquela manhã.
Houve diálogo, mas as palavras encarregaram-se de abraçar o silêncio. Havia também história, mas novamente as palavras insistiram em escrever apenas aquilo que de inusitado poderia ser narrado. O dia passou-se sem que a mulher e os pequenos (o que era mesmo pequeno pequenino pequeninito ficou a dormitar na manta que tinha servido de colchão na noite anterior) saíssem do stand. O menos petiz ainda ia à rua e apregoava o nome do stand como quem chama a clientela para a entrada do bazar e a mulher, mãe, a quem sob a pele reluziam hieróglifos sorria atenta ao desenrolar do dia.
Venderam-se versos, deram-se palavras, tudo porque o preço era aquilo que a pessoa escrita lhe quisesse dar e também se trocaram vozes de escárnio e gente houve que foi embora sem palavra, tudo porque nada havia a relatar sobre o vazio que as ocupava na totalidade o interior. Outras, ainda, foram sem que o pagamento fosse aceite, bastou a troca de olhares para se fazer riqueza no interior de cada um.
- Quer que embrulhe? - perguntava às pessoas, invariavelmente atónitas pela situação, pelo escrito, pelo lido e, também, o que é que havia a embrulhar? e quando lhe respondiam que sim ele levantava-se e dava-lhes um abraço apertado, as folhas no peito entre escrito e escritor, a cabeça pousada por momentos no ombro. Palavras manuais, com abraços artesanais.

2016-09-11

Que diferença existirá?

in Bird Magazine em 11/09/2016.

Contei três parágrafos, mas apaguei-os.
Há algo de incomum em escrever na praia, ainda que a areia seja o retro iluminado monitor, a água se resuma a maré que se esvai porque nada enche o peito de quem de vida se acumula e o Sol se faça de sombras espessas dispersas no alto da noite, subindo-me pelos braços, alojando-se nas olheiras e mirando-me, repetidamente, para verificar se já terminei de escrever para tomarem conta de mim.
De repente (por ser repentino e, também, porque não se espera que um parágrafo comece assim, mas perdoa-se tudo, ao menino e o mal escrito ao porque não escritor) sou apenas o reflexo de uma sala na penumbra, iluminada apenas pela música em tom baixo que ouço com o alto, esqueço-me que uso óculos, aproximo-me da janela esquecido da corpalidade e bato no vidro, óculos primeiro, cabeça depois.
Rio-me sozinho.
Talvez triste de me esquecer corpo.
Esquecimento. Corpo. Que diferença existirá?
O embaciado desaparece rápido pelo calor que o dia deixou e que se vai perdendo na frialdade, não confundir com fealdade, da noite caída, mas criança ainda.
Abro com pressa a janela e coloco três velas no parapeito. Acendo-as. Apagam-se. Acendo-as do lado de dentro da janela e permanecem acesas. Talvez precisassem do calor do interior de casa ou da proximidade do corpo.
O calor. O corpo. Que diferença existirá?
Um caminho de fé impôs-se na noite, como em todas as do início de Setembro. Traçam uma descontinuidade de risco bruxuleantes, pequenos pontos que iluminam a pouca noite que os circundam para, depois, servirem de guia imaginária para o ósculo religioso que se vai esbatendo em rítmicos pais nossos e avés marias.
O vento ora ao redor das velas, cada pavio o seu rosário, assim como cada busto acima das pernas de quem se procissiona.
Vejo, ou imagino, que diferença existirá?, um puto a inclinar a vela, a encostar a mão fechada ao invólucro de plástico que ornamenta e protege a chama do ar frio que se movimenta com particular rapidez hoje. Aquece-se a mão com a vela que escorre toco de cera abaixo, os pedidos ou pecados (que pecado uma criança poderá ter?) derretidos pelo calor fervoroso de uma labareda amarelo-azulada (ou seria azul-amarelada?) e entretém-se antes do calduço em forma de olhar da mãe, fiel depositária dos sonhos e ambições de quem nada mais além de criança sonha alcançar.
Entretém-se, recuperando narrativa, a oscilar o copo de plástico até que na sua diagnolidade se apresse a chegar à minúscula labareda que aviva propositadamente e ainda que não se toquem, à medida das boas paixões, proibidas ou não, se permitem viver assim, proximamente separados para que ambos se avivem, ora a vela a ganhar labareda na chama, ora o plástico a derreter-se de uma paixão assoberbada, na dimensão exacta da distância para se permitir ser calor.
Ou amor.
Ou oração,
Que diferença existirá?
Tento construir um quadro com diferentes pinceladas, mas nada me tolhe mais as mãos do que uma paleta sem cores, ainda que as possua a tonalidade parece-me igual, por isso deixo a tela em branco entregue a si mesma, acreditando que a própria noite poderá produzir, até pelo orvalho, um retrato daquilo que não consigo falar.
Ou voar.
Que diferença existirá?

2016-09-04

Pingos de mel

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

O Sol ainda que não vá a pique, mesmo na diagonal queima como não se lembra de o sentir ou talvez o sentisse antes, mas as memórias não parecem caber em quem vive do lado de fora do tempo e, por isso, não se apresentem sobrepostas como as camadas de pó indistinto que camuflam alguma da mobília. Tarda Agosto em fugir, Setembro impaciente promete calor no ventre e o Verão que se esvai apenas nas férias da canalhada, ávida dos mostruários das mercearias, mercados, minimercados e supermercados.
Detém-se sob o beiral, mira as traves de carvalho velho, oxidado, percorre os veios com o olhar e detém-se nos nódulos negros como se todo e qualquer aglomerado de vida seivada se detivesse naqueles círculos irregulares e o chamasse de volta a ser tronco. Sem que deixasse de chover este calor abafado, com nuvens negras altas prenhes de fumo, desprende o olhar da madeira, avalia a integridade das telhas vermelhas algo fendidas, mas sem que isso (ou, na verdade, nada) o preocupasse verdadeiramente.
Deitou a perna direita à frente, depois a outra e quando deu por si estava já a andar, percorrendo o caminho empedrado até ao pouco de verde onde semeava e plantava e, no percurso, se entretinha a ver crescer tomates, grandes e pequenos, alfaces, couves, batata, abóboras, vagens, ervilhas, curgetes, pepinos, cebolas e outras miudezas. Deu duas talhadelas num rego, desviou a água para os plantios desejados, colheu aqui e ali o que de maduro lhe pareceu e ainda piscou o olho à figueira que arfava sob o Agosto, sequiosa, para depois, mais talhadela, menos talhadela, fazer lá chegar a água corrente que espiralava até encher a pequena cratera de terra negra e a tornar mais negra com o salpicado negrume das gotas de suor. Com o calcanhar improvisa um rego, a água irrompe na brutalidade selvagem da frescura líquida e vai-se fazendo levada até ficar um pequeno espelho de água onde caem umas faúlhas.
Ri-se. Quase sem querer. Olhou em redor, ninguém o viu, mantem o semblante, calça a soca, verga-se para apanhar a enxada e vai desentalhar a barragem improvisada. Coloca-a na nascente do pequeno afluente artificial que vai maneando à sua maneira endeusada, este vai-se evaporando e sumindo pela sôfrega terra que, de fausta, prepara-se para matar a sede a tubérculos e raízes que, agradecidas como só as plantas, levarão caule, folhas, nervuras acima, os nutrientes com que banquetearão primeiro a bicharada da terra, depois a do ar, incluindo arejo, aves grandes e pequenas e apenas depois, caso a ratice não lhe chegue, o homem. Deus quando dá é para todos! Riu-se, outra vez.
As talhadeiras encolhem-se, também elas com a leveza do trabalho bem feito, e ficam prostradas a um canto, há-de alguém passar por ali perto, vê-las e não pegá-las apenas porque não lhes pertence. Fitarão o despreparo da sementeira, a geometria desregrada de um campo plantado sem lei, o descuido com as pragas, bichezas, ratices e pardalada. Comentarão e rir-se-ão de quem não se sabe promover, ao menos para encher duas caixas e colocar ali atrás do portão, com um letreiro que diga mais por vaidade que qualidade, “vende-se legumes”.
O prazo de se colher passará, a figueira, orgulhosa, encher-se-á de folhas, figos barrigudos e outros esventrados pela passarada, todos comerão, até o raio do gaio que os bica até meio e depois leva um inteiro sabe lá o deus dos pássaros (que deverá ser o dos homens também) para onde. A fruta come-se da árvore ou, quando muito, em casa e no mesmo dia da colheita, que se quer madura sim, mas ainda pulsante de seiva, como se a árvore arrancasse das suas penas e nos desse de comer, não porque sejamos senhores dela, mas pela gratidão do regadio. Ainda há quem pense que o homem é um baldio. Enfim.
Feita a lavoura, assim lhe chamemos o acto de amar a terra, toda a Terra, vai deter-se sob o beiral. Talvez um dia ali faça um alpendre. Encosta a enxada ao peito e com as ásperas mãos vai empurrar o portão, verde antes, ocre agora, cor de ferrugem e de tempo sobre ferro, onde não se detém a vida porque ali não se ouvem os tiques ou os taques, não há notícias nem das dos almanaques, há apenas um dia a seguir ao outro desde que o infinito se lembra de ser eternidade.
- Já vieste?
Sem responder aproxima-se no passo calmo de quem mede os dias em centímetros e sulca rios sem que os prenda, a mesma mão gretada no bolso das calças sujas tira um barrigudo figo, passa-o por água na torneira improvisada que é a rolha no tubo de plástico e, com a mão no cabelo dela, dá-o a saborear.
- Hum, que bom! – responde-lhe com o sorriso doce de um pingo de mel. – Ficou lá que chegue para outros?
- Sim Vida.

2016-08-28

Diálogos desprováveis

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

- E o que te disseram eles?
- Disseram-me para conferir o estado das acções.
- E tu viste?
- Antes quis que eles me mostrassem as deles.
- E eles mostraram?
- Sim, um foi ao computador, abriu o browser e andou para lá a conferir se tinham subido e descido.
- E o outro?
- O outro foi ao telemóvel, uma aplicação qualquer que lhe mostrou que ele estava mais pobre por ter perdido o que não tinha tido.
- E depois, mostraste as tuas?
- Sim. (risos)
- E então?
- Pousei o telemóvel, sentei-me em cima do muro, fechei os olhos e estive assim uns largos segundos.
- Porquê? O que é que te disseram?
- Quando abri os olhos e saltei do muro não disseram nada.
- A sério?
- Sim. Mas eu quebrei o silêncio, disse-lhes que já estava, que tinha consultado as acções.
- Tu, cum camandro… Haja quem te entenda.
- Disse que lembrando aquilo que ainda não esqueci, tinha um saldo positivo.
- Positivo?
- Sim. Entre tudo o que fiz o saldo era positivo.
- Mas positivo como?
- Olha. Positivo. As boas acções são mais que as más acções.
- Oh pá, tu… Carago pá.
- E ainda rematei com uma boa que me saiu na hora.
- Conta.
- Disse que tenho um mercado enorme de acções à minha frente, que as transformo no que quiser.
- Como assim?
- Então? As minhas acções dependem de mim, eu torno-as boas ou más, positivas ou negativas, lá preciso de alguém que me venha dizer se sou rico ou pobre?
- Sinceramente... E eles?
- Disseram-me que não dava para falar comigo.
- Eu avisei-te. Tu e as ideias estúpidas.
- Porquê estúpidas?
- Oh, porque são, quem pensa assim? Que estupidez.
- Olha, foi isso mesmo que me disseram, que era uma estupidez.
- E depois?
- Mandaram-me à merda (risos).
- Lá andam com a razão deles.
- Fiquei mais rico ali mesmo.
- Como assim?
- Entre responder igual ou perdoar, optei por perdoar, ganhei!
- Mas ganhaste o quê?
- Ganhei mais uma boa acção. (risos)
- Oh pá, vai à merda!
- (risos)

2016-08-21

Pessoa, se é que me posso chamar assim

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Volto a descer a estrada, se é que a posso chamar assim, com redobrado cuidado.
As pedras, se é que as posso chamar assim, resvalam e algumas esfarelam-se quando as calco na tentativa de me segurar ao ar vazio e quente que sobra ao largo desta tarde quase quase verão.
Sem querer agarro-me a um monte de ervas, sem saber, pela velocidade da descida, pelo suor que me faz arder os olhos, pelo monte verde que me pareceu todo igual, que por entre as folhas inocentes, se é que as posso chamar assim, estavam algumas verdes e afiadas silvas cujos espinhos espreitavam orgulhosos acima do caule.
Chego a correr ao fim da descida, calculando o espaço e tempo entre a velocidade, o limite de travagem e o leito do rio ali, ao fundo, ainda com um grosso fio de água e as rochas bolbosas, redondas, secas e quentes, imagino eu, pelo calor da tarde a ameaçarem partir os ossos de quem se deixe cair ali, como eu, temo.
Consigo parar a tempo, depois de mim algum cascalho chega também onde estou e bate-me nos calcanhares, uma pedra mais solta bate-me na perna direita e o barulho das pequenas pedras e terra confunde-se com a água que borbulha, se é que posso dizer assim.
A sombra que espreita por onde o sol não alcança projecta-se junto com os raios solares e ali, onde os fotões arrefeceram, formam o contraste perfeito para ver no ar a poeira que a terra atirou ao ar, não sei se a brincar, se a gozar comigo, enquanto desisto de me sacudir pois o suor atraiu o pó e este cobre-me, se é que posso dizer isto, daquilo que sou feito.
Penso na ironia e se seria isto que quereriam dizer quem afirmou, ao pó voltarás.
Estou a meio caminho, ironizo de volta.
Sem conseguir chegar tão longe como os bocados de xisto que me acompanharam na descida, o meu velho caderno fica a escassos centímetros da rampa inclinada, se é que me posso repetir assim.
Vergo-me e apanho-o.
É irónico, ainda, estar com o caderno comigo nesta viagem quando este está completamente sarrabiscado, sem espaço em branco onde escrever.
Rasurei, apaguei, escrevi e re-escrevi, por cima e em desacordo.
Já não me sobram folhas e, que sobrassem, jamais voltaria a pegar na caneta, no lápis, para desenhar as sequências de letras que, relutantemente, se viram transformar em regras operatórias para sucederem a um termo anterior, cada vez maior, até alcançarem, não sem antes me ultrapassarem, uma espécie de magnitude que nunca vi em mim.
Eis-me aqui, já longe de onde não estou, se é que posso afirmar isto, cada vez mais perto de escrever todo o silêncio que venero, a resiliência de umas pequenas flores, bonitas, não lhes sei o nome, que brotam, tal como a água, do granito frio e sombrio, agora, que o observo à sua sombra.
Não passará aqui vivalma, pudera, se as há que vivem e nem o sabem, não percorrerão caminho que se vê desaguar no leito de um fio de água seco onde só correm os seixos e descansam as fragas, cansadas.
Sento-me sem esforço, cansado, suado, com um ou outro arranhão cujo sangue empapou no contacto com a mistura de pó e suor, sem qualquer dor, se é que a posso chamar assim.
Ergo os joelhos, encosto-me à pedra fria que atrás de mim parecia aguardar um outro corpo.
Pouso o caderno e abro-o ao acaso, as folhas moídas, o papel amarelado e as letras descoloradas.
Nalguns locais já só o sulco por onde escrevi vezes sem conta, indistinguíveis as letras ou frases e um ou outro número parecem desenhar um conglomerado de estrelas e quando ergo o olhar e vejo o pó ainda no ar rio-me sozinho, se é que estou sozinho, a pensar em estrelas e a ver, à minha frente, uma estrela, um astro, que me mostra o pó e me inspira a ser tanto e tão pouco como ele, o pó, se é que o chamar assim.
Sem nada por escrever, com todas as claridades que consigo perscrutar à medida que o dia vai caindo para trás dos montes, fecho os olhos e imagino-me, sozinho, numa estação onde já não passam rostos conhecidos ou corpos desconhecidos e, de caderno aberto, apeio-me e faço-me pessoa, se é que me posso chamar assim.

2016-08-14

O homem sonha, despreocupado, na preocupação de existir

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Quando saio do emaranhado de árvores, mato e fetos, esbracejando para afastar os ramos como se vociferasse nos diálogos internos que mantenho com as vozes do passado, vejo uma clareira plana como o interior de uma margarida.
Até os tufos de erva irregulares se assemelham a pequenos nenúfares a flutuar despreocupados, abertos ao céu, num lago regular feito da irregularidade da ondulação lenta.
Questiono-me como desce o vento até aqui, bons trinta metros abaixo da crista das árvores mais altas. Aliás, nada me explica, até porque estou aqui sozinho, como neste botão de rosa as pequenas folhas espiralam içadas pelo vento, como se ele se entretivesse a experimentar novos truques para velhas audiências e, no entanto, as árvores lá no cimo permanecem imóveis como gigantes pacientes à espera que o orvalho se evapore e se deixe, posteriormente, cair de costas sobre o final de tarde trazendo sonhos molhados pela fresca molécula de um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogénio.
Parece ouvir-me o vento, as pequenas folhas e líquenes que orbitavam a invisibilidade do lugar permanecem suspensas por momentos, até que a gravidade ou despreparo para voar dos objectos inanimados as faz volitar até ao chão.
De repente aquela ventania infantil vem até mim como se me medisse o peso e as intenções, envolve-me numa fresquidão branda e parece ascender na tentativa, imagino-o eu, de me vestir com algo melhor que a roupa que me é imposta enquanto criança.
Tão depressa vem.
Tão depressa vai.
Tão depressa bem.
Sinto-me estranho, de tempo e espaço, como se este local não fosse destinado a ser visto por quem não se sabe volitar, mas eu transpiro sonhos sem valor ou agendas, talvez por isso o vento esteja lá por cima, porque vejo agora as cristas abanarem-se num compasso temporal que só o intemporal sabe tocar, a olhar para baixo, a avaliar-me, pela nudez do que penso, pela inconstância dos meus passos.
Materializa-se no meu olhar, porque não me lembro de ver aqui, à minha frente, na fisicalidade da dimensão, uma pequena cabana de madeira se assim se pode chamar às tábuas de madeira que desconheço, grave falha para o filho de um carpinteiro e marceneiro habituado a conhecer o galho da criação, sobrepostas, pregadas por ferrugem e hera que sustenta os espaços vagos, com um brilho de uma luz que não vejo como pode luzir sem que até lá longos fios negros de electrões a correr despreocupadamente transformem grilhões de água em luminosidade para quem não se sabe claridade.
Na solenidade ingénua camponesice tiro as sandálias e caminho descalço, calcando as folhas verdes que o vento deixou cair e trazendo coladas aos pés os líquenes amarrotados pela renascença. Percorro o interior desta flor e admiro-me com o que de sentidos sou feito, tacteio a rugosidade aveludada do tapete verde, olho o vento a mirar-me enquanto voa como árvore de rapina a vigiar a sua sombra, chega-me o odor de uma brisa marinha impossível, pelo palato alimento-me do sabor de uma vazio que escuto claro como o crepitar deste braseiro aqui dentro do peito.
Cinco idos, sobra-me um sentido, o infalível cunho pessoal da imaginação, onde me sento tantas vezes com o ronronar do vento a aninhar-se no meu colo, cansado das viagens em torno de si próprio.
Chego à cabana, continuo a ver uma luz que se bruxuleia sem que seja do atiçado lume por alguém que não surge à porta. Ergo a perna, pouso o pé direito no degrau tosco de madeira que, propositadamente, parece-me, se deixa quebrar para que eu caia de costas e na fracção de segundos que percorre o relógio que trago no pulso esquerdo, surja o vento sobre mim, espiralando-me com as folhas sorridentes ao meu redor e ali, no exacto momento em que me iço na esperança de encontrar as palavras certas para contar tudo o que não escrevo para que percebam, ouço o ronronar do vento a elevar-me a tempo de ver o lume impossível na cabana apagar-se, para se acender no meu olhar.

2016-08-07

O nome dos heróis

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

O ar frio que força entrada pelos buracos da persiana faz-me pensar noutras estações, mas acredito que o dia mais fresco que se sente seja apenas um apeadeiro nesta linha quente. Quando abro a persiana, gesto que associo ao descerrar de uma pálpebra do apartamento, como se este meu lar acordasse logo a seguir a mim, e a seguir a abrir as janelas, sem que ainda pudesse acreditar nos meus olhos embaciados, vejo os paralelos húmidos, com poças e semi-poças felizes, a chuva que cai envergonhada numa manhã de Verão e o cheiro a terra molhada que banha, figuradamente, e me transporta para a estação seguinte.
De quando em vez, assim permitindo o pós-operatório, percorro estradas próximas em busca de algumas coisas, entre elas vistas sobre penhascos e rios borbulhantes, sombras frescas onde não vagueie o bafo quente das tardes e o verdejante sobe e desce de pinheiros, eucaliptos, mato, silvado e o castanho ocre da terra por lavrar, xistos disformes, o voo de uma ave, o ruminar descomplexo de um ovil.
Infelizmente este Verão, embora eu queira não acreditar creio no propositado pavio, ao olhar em redor o cinzento que eu possa associar a nuvens, o que vejo é o negrume vaporizado como gritos de dor e pedidos de auxílio das diferentes tonalidades de verde que aprendi a admirar e respeitar. O ar torna-se irrespirável à medida que me aproximo, a sombra que queria desfrutar é apenas o espesso fumo que vai ascendendo em golfadas tapando o Sol que, a custo, tal como na vida real, se esforça para que a luz trespasse o negro fumegante e transforma o dia numa pincelada negra com tons laranja, sem o romanesco travo renascentista.
Os vidros são subidos para que o odor a tristeza que pigarreia as palavras que nem sabemos respeitar fique restrito ao que me rodeia, mas, agradecendo os outros sentidos, ao olhar colam-se labaredas que bruxuleiam com a fúria expressa de uma fome que alastra tronco acima, rugindo como o homem selvagem que vagueia pelos corredores das assembleias da vida, bufando e grunhindo para que não o entendam, e sobem acima das cristas das árvores como se o vermelho ensanguentando se esforçasse para pintar até o próprio céu.
Há um esvoaçar aflito dos pássaros, rastejantes formas de vida arderam já, quem pôde fugir o fez e quem não o pôde está, de momento, a estagiar húmus nos terrenos quase férteis de onde serão construídos proveitos obscuros para gente cinzenta a quem a única cor que interessa é o tom indistinto das cores do dinheiro.
Começo a ver colunas de heróis, felizmente há-os.
Deslocam-se em colunas de veículos, estes não voam, mas também os vejo nos céus, os grandes camiões têm luzes azuis que rodopiam e parecem querer contrariar o lume com aquele azul escuro a piscar na urgência da missão. De vez em quando anunciam a passagem com uivos, aflitos e estridentes, seguem roncando e fumegando estradas fora, enquanto lá dentro e às vezes pendurados, seguem heróis de vermelho, capacete, lanterna, viseira, botas e fardas pagas com suor, sangue e lágrimas, literalmente.
Os heróis são voluntários, como todos os que conheço, e não são perfeitos, como todos os que conheço, mas na fronteira entre o medo e a coragem, onde ficamos parados a ver labaredar a paisagem que não é nossa, eles saltam agarrados a abafadores, a vociferar, “Água! Água!”, pendurados por longas serpentes cuja força contrariam com pés fincados no chão ainda por queimar, répteis que cospem água que deveria servir apenas para saciar a sede, mas que agora lutam para matar o fogo que deveria, também ele, servir apenas para o calor que necessitamos quando o nosso outro corpo não está connosco.
A estrada está molhada, ardeu de ambos os lados, vejo outros heróis sem farda que correm com garrafões de água, há uma carrinha de um centro social e paroquial que corre a levar sacos de plástico com o que me parece ser pão, funcionárias e voluntários ajoelham-se e falam com heróis, cansados, prostrados, faces negras por onde espreita o esbranquiçado da pele nos sítios por onde escorreu o suor do corpo e dos olhos.
Continuo até onde posso. Já não arde, mas a sombra que procurava e a vida que ansiava não existe mais. Há um recente cemitério onde as árvores clorofílicas deram lugar a altas lápides, secas, finas e negras como longos braços de esqueletos decompostos num minuto apenas. Vejo um corpo retorcido por entre os estrepes queimados e fumegantes, fumega também como se todo o corpo respirasse os restos mortais. Dir-me-ão que é um animal, mas para mim está ali a extensão do que somos, respirando e vivendo os mesmos dias que nós.
Dou a volta. Ainda por lá estão os heróis. Dentro dos veículos, de todos os tamanhos, de todas as proveniências, sonam vozes metálicas, alguém segura uma peça negra e fala para a mesma. Começam a levantar-se os corpos cansados, esfregam a testa com a manga negra da fuligem, vão subindo para os veículos, que ronronam como se descansassem antes de nova batalha. Arrancam. Os heróis arrancam sem glória ou sem que ninguém aplauda, vão adormecidos na voluntariedade saindo dos holofotes que começam a ser erguidos e onde surgem engalanados edis e desgovernantes, que não sabem o que é ser herói, porque os heróis também morrem, como os animais queimados, mas deles, após os holofotes, já ninguém se lembrará além dos enlutados familiares, recordando a inconsolável perda dos seus heróis.
Recordo emocionado a saudação de uma freguesia nuestra hermana ao comboio de heróis portugueses que atravessava a sua avenida, um tapete de aplausos que, acredito, todos eles, mesmo os que não foram lá, devem ter gravado nos sentidos e que fazem por ouvir de cada vez que têm que saltar por cima do medo e galgar coragem acima para enfrentar os monstros dos incêndios, dos acidentes, dos gritos nervosos e aflitos de quem em perigo.
Os heróis vivem, andam entre nós e a prova disso é que não têm nome, individualidade, dão todos pelo mesmo nome: bombeiros voluntários.

2016-07-31

Vagamundo

Crónica de domingo na Bird Magazine.

O corpo tem sono, mas não consigo sequer chegar perto daquele torpor morno que nos aquece, como um Sol que raia no mundo dos sonhos.
Há episódios que fazem todo o sentido em épocas adequadas, como o Natal ou a Páscoa, no entanto, quando por irónico acaso do destino os mesmos se desenrolam fora dessas épocas festivamente convertidas a celebrações religiosas, os episódios transformam-se em quotidianas formas de ver diluírem-se, nas camadas invisíveis da sociedade, os vultos bem visíveis que a própria sociedade purga.
Sigo em pé no autocarro, não sei se o 701 ou 703. Há lugares vagos, mas não quero sentar-me, estou bem em pé, sem vontade de ler ou sonhar, apenas encostar a cabeça ao varão e olhar para a estrada, com olhos de apenas ver, sem pensar.
O autocarro para, entram várias pessoas ao som do aparelho que valida das senhas e passes de autocarro. Longe vão os tempos do tac-tac ou plim ou o mais avançado crrrrrzzztttcrrrrr, os amarelinhos "validadores" de senhas stcp ou andantes (nomes bonitos para os nossos títulos de transporte) conferem uma animação fora do vulgar.
No meio dos bips, há um que sobressai, é um biiiiiiiiiiip, sinal de que a senha ou passe não está válido, vá-se lá saber porquê, se por falta de provimento, leia-se dinheiro, se por falta de coerência tecnológica, que resolve avariar senhas aleatoriamente (a mim aconteceu-me uma vez em duas semanas). O biiiiiiiiiiip continua, novamente, mais uma ou duas vezes até que, por fim, acordo para a situação e olho para a frente do autocarro.
O termo vagabundo é geral demais para o descreve, no entanto, é assim que me irei referir a ele.
Alheio ao biiiiiiiiiiip insistente, dirige-se para o interior pelo corredor, eventualmente será defeito da máquina, penso eu por ele, que guarda a senha (neste momento ainda não sei que é um passe) no bolso interior do casaco e passa por mim.
Mesmo que estivesse a dormir, seria facilmente acordado pelo cheiro a corpo abandonado e alma perdida que exalava dele. O cabelo comprido, encaracolado pelo tempo e sujidade. O chapéu tem indícios de já ter sido branco, está enfiado na cabeça e o branco que eu referi só se vê no topo do chapéu, o restante é já da cor do cabelo, encardido, esbatido por força de muitas horas de suor e poucas de higiene pessoal.
Senta-se mesmo atrás de mim, num dos bancos ao lado da porta de saída e o cheiro é, de facto, intenso. As poucas vezes que o olhei nos olhos foi para me sentir cair num labirinto escuro, onde nem a mais forte luz poderia entrar. Rodopiava frequentemente e quando me tentava levantar, vários sonhos frustrados agarravam-me as pernas e braços e puxavam-me para baixo. Tinha os olhos azuis claros. De repente levanta-se, as calças ficaram coladas às pernas enquanto andava. Sentou-se no fundo do autocarro, num assento vago, apertado, mas que rapidamente fica largo, pois uma senhora sentada ao lado se levantou, veio para o meu lado, torceu o nariz, franziu a testa e olhou para mim, abanando negativamente com a cabeça, quase imperceptível. Que quereria dizer aquela negação?
Umas paragens à frente uma equipa de revisores/fiscais entra no autocarro. Ele levanta-se rapidamente e dirige-se para a porta, mas esta já estava fechada e ele não pode sair. As pessoas tiram passes e senhas, mostrando-as ao revisor, moço novo, alto e forte. "O seu bilhete por favor" e "obrigado", parecem ser as poucas palavras que consegue proferir. Os braços porcos entregam um passe que, como se adivinhava, não era válido desde o mês passado, coisa pouca. O que se passou a seguir não sei, a cara do "vagabundo" fez-me tropeçar pelos sonhos abaixo e cair de cara contra a vida actual.
Ainda ouvi umas risadas e o barulho pneumático das portas a abrirem e os meus passos que se perderam no alcatrão.