2017-09-03

De mãos dadas

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Apenas o local se mantem igual, os lanços de escadas, a profundidade dos degraus, tudo mingou. Teria sido eu a crescer? Se o invólucro de base carbono que me serve de abrigo aumentou, continuo a ver o mundo sentado no pequeno banco de madeira ao qual dei o feminino nome de curiosidade, daí o meu espanto, estarei a relembrar-me no passado ou a visitar-me do futuro? Hoje Mini-mercado, antes era apenas a Loja, aliás era simplesmente o Senhor Moreira. 
As prateleiras ornamentavam-se com preços manuscritos em tiras de papel, sem preocupação marketeira de colocar determinados produtos a determinadas alturas para determinados olhares. Havia o que existia, comprava-se de forma pautada, “é para pôr na conta” no caderno alto e azul-escuro, com redondas e trabalhadas letras dispostas no contabilístico “T”.
Um “dou-lhe a minha palavra” era o quanto bastava para reduzir a lixo o rating das agências actuais. Os olhares não mentiam, quanto muito escondiam-se por detrás da humildade, quase como uma ligeira timidez de se ser honesto. Assim como a simplicidade, estes grandes pequenos mercados foram completamente aglutinados pelas quotidianas arenas onde se leva o que não se quer, o envernizado fruto, o colesterolizado doce e ainda nos gabamos, inocentes, de termos poupado 20 quando na verdade gastamos 30 a comprar o que não precisávamos.
Lá, no último degrau, quando inspirei e me arrepiei pela emoção, quase pude ouvir o barulho da cinzenta, alta e metálica caixa registadora, a mesma para a qual ficava a olhar na esperança de alguém carregar na longa tecla “Total” e, num sorridente plim, ver abrir a preta gaveta onde se guardava o que o de menos valor existia, o dinheiro. Quase consigo ver a bacia de metal, com água e gelo, onde boiavam sacos de plástico com leite. As bolas vermelhas de queijo, os raros chupas ou rebuçados que, geralmente, acompanhavam o troco. Os cadernos, lápis, afias, canetas ordenadas por cor, dois ou três tipos de estojos para o novo ano escolar e o bloco de folhas A4 para os felizardos que andavam já no liceu. Quando não era altura de levar as compras na seira, as compras surgiam em casa. A Morris cinzenta surgia de marcha-atrás, parava, o Sr. Moreira saudava e abrindo as velhas portas mostrava um mundo civilizado e disposto por ordem de visita e cliente. Passava-me o arroz, azeite, esparguete, umas latas de atum e salsichas, os ovos (quando os vizinhos não os tinham para vender), um pacote de bolachas Maria ou Torrada, o queijo e o fiambre envolvidos num papel que ainda saboreio com o tacto da imaginação. Recordo o momento em que a minha mãe lhe entregava o dinheiro e eu subia o muro para ver o interior da “Dona Chêpa”, o volante, a alavanca de velocidades e ele, no raro sorriso, me dava um aperto de mão. A mim, uma criança!
Saio agora da Loja do Sr. Moreira, do outro lado acaba-se um corpo de quem quando eu novo era já velho. Desvio o olhar, emudecido, por entre memórias que passam e me saúdam, sinto falta do aperto de mão e, talvez por isso, dê por mim a descer os degraus com olhos nublados e de mãos dadas atrás das costas.

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