2017-03-05

Olhares

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Vou redireccionando o sono para regiões recônditas do meu ser, mas onde quer que vá acabo por me encontrar. Amanhã suceder-se-á a este momento e lá me encontrarei, não sei com que estado de espírito, mas estarei. Fico a percorrer caminhos que trilhei apenas na mente, não são palpáveis, mas saboreiam-se, como o sabor de uma guloseima que cobiçámos, embora hoje em dia a oferta seja tanta, que os nossos gostos são moldados pelo que nos chega aos sentidos e não ao contrário. E por ser tanta a oferta e tão inusitado o gesto de escolher, que me retenho na recordação de um dia, ou noite, como outro ou outra qualquer, num corredor igual a tantos outros, que pena pecarem pelo mesmo as grandes superfícies. 
Seriam quase 22 horas, hora de fecho ou próximo, percorro sem olhar as prateleiras das guloseimas com um misto de saudade pelos tempos em que algo doce era um rebuçado da tosse ou uma bomboca, quando muito um pacote de bolachas alfa ou, o top dos tops, um gelado.
Fico no final do corredor, rodeado de delícias, quando vejo um adulto, mais velho que eu, com um pacote de gomas na mão e a olhar para os restantes pacotes, com imensas variedades de sabores, dezenas de cores cuidadosamente seleccionadas para atrair os pobres insectos em que nos tornamos, quando não moscas atraídos pelos excrementos que nos tentam impingir. 
Chama-me a atenção para o rosto do rapaz (e o aspecto singelo e puro que possuem aqueles que a sociedade cataloga de deficientes), o penteado, as calças de ganga desbotadas e curtas, as meias brancas e as sapatilhas uns números acima do que certamente calça. 
O pacote de gomas na mão, o olhar nas outras, a indecisão, a certeza de um sabor conhecido pela aventura de um pacote mais colorido e com múltiplos sabores. Eu, disfarçando, demorando mais tempo que o necessário em torno de umas bolachas que não tenciono comprar. 
Olhou para mim, cruzou o olhar comigo, apercebeu-se que estaria a admirar a cena e, num movimento rápido, trocou o pacote por outro, não sem antes baixar a cabeça e me olhar, pela última vez, com uma expressão que se assemelhou a mescla de vergonha com tristeza. 
No final, enquanto relembrava esta imagem, vá-se lá saber porquê, surgiam-me lágrimas nos olhos, um misto de alegria e tristeza, um rememorar de momentos em que eu, talvez, em frente a uma prateleira com duas ou três sacas de rebuçados, decidia pela que mais se adequava à minha carteira, consciente que, tal como na vida, alguns doces estão caros de mais para o que desejamos, mas no final, nenhum dos desejados serviria para a nossa fome de Ser.
São estes olhares que me mantêm vivo.
Sempre os olhares.

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