2016-04-17

Completo. Todos um

in Bird Magazine

De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram. 
Um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Que faço eu ao tempo? 
Que me faz o tempo, enquanto me percorre de alto a baixo, zombando dos dias que ainda não vivi?
Sempre tive na noite minha companheira e confidente. Pessoa amiga das horas mais soturnas, dos meus momentos de solitude. À noite não sou boa companhia, levo comigo amizade e amor, no entanto, pouco falo, à noite não sou boa companhia.
Teve-me frio e medo, esperança e ilusão, amparo e sonho, choro e riso.
Teve-me sempre, sem reservas ou barreiras, no meio do nevoeiro, sob chuva intensa, iluminado pelas estrelas (que em Trás-os-Montes são mais estrelas), teve-me sempre.
Agora, à medida que também sou noite, começo a sentir que as estrelas que procuro estão bem perto, na palma da minha mão, na lombada da minha vida e ali, bem fundo em ti, em forma de coração.
Vamos deixando que os dias se preencham assim, como quem chove, um pouco aqui e um pouco ali e, nos intermédios do que somos, há sempre algo que secou, que tende a murchar, apenas e porque chove, mas não onde era necessário.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho. 
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho. 
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo. Sou este eu que me habita. Completo.

Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.

Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...

Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...

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