2015-09-27

A última poda

Crónica de domingo na Bird Magazine.

O tempo invariavelmente colhe de nós próprios aquilo que semeou, tenhamos frutos ou folhagem descolorida pelo errático Outono, somos sempre sacudidos na volta do equinócio para deixarmos cair aquilo que fomos ventando ao longo das nossas próprias estações.
Confesso que a redacção de um punhado de letras me tolda a vista, pelas nuvens que descem nesta manhã e se confundem por entre o milho seco, o castanheiro, a figueira e as próprias pessoas. A própria manhã parece sentir frio, ao encostar-se a mim na procura de um calor que não transporto. Para cada época há um tempo, colher e semear, rir e chorar, dualizar neste mundo polarizado, ainda, onde vamos lavrando os dias como se deles dependesse o arado, coitados, sem saberem que a terra é dela mesma e o arado tem costas largas para a guerrilha a que lhe tentam impor.
Gasto linhas na descrição do indescritível, na esperança que ao escorrer o pensamento se assomem as ideias e os dedos ganhem o habitual bailar multidimensional, mas estou sozinho, em mim e no final de tarde. Os dedos, lentos, ostentam nas extremidades, ali bem ao jeito do sabugo, o resto de uma vindima matinal, com meias luas de sujidade e um negro que embora saia facilmente, vou fazendo por tê-lo como sinal de um cacho que não será mais colhido.
A casa, os muros, a rede, tudo pareceu-me gigante quando em tempos de outros tempos viviam entre mim e o quotidiano os sonhos de ser alguém, antes de saber que o alguém que sonhava era eu a ser vindima. A estrada, atarefada, vê caminharem sobra ela veículos e pessoas que se aceleram num misto de ansiedade e demência, a necessidade de se chegar ao ponto onde sabemos que voltar atrás é andar para a frente.
A escada não pesa tanto, os passais parecem mais curtos, mas percebo rápido que a distância ausente deve-se ao crescimento da videira que somos. Em dias de chuva cairiam por entre as mangas da camisola o pequeno dilúvio que nos arrepia o impropério, mas hoje está, ou esteve, sol porque até ele quis ver, pela última vez, a azáfama controlada de vindimadores, baldes e cestos ordenados antes que a grudenta gosma de vinho e mãos desnudas catadoras de uvas lhes toquem, tesouras de poda e de costura sobre o muro de pedra.
Emociona-me, não pela inevitabilidade da vida, mas a mão no meu ombro, a mão no peito, o respirar cansado e o sopro
- Já não posso mais, o que fazer?
E, claro, não pode mais, porque a vida é como a doença, vai-nos comendo, por dentro ou por fora, se não é o tempo que faz fora é o tempo que se desfaz dentro, e à idade em que escaparemos para outra vida o corpo não se permite aceitar tarefas que lhe façam faltam o ar.
Ando campo acima e campo abaixo, revezo-me entre cortar e comer as uvas frescas, como se tivessem sido orvalhadas pela vide, sacudir uma ou outra aranha que se pendure na minha cara, rir-me ao recordar a dificuldade, inexistente agora, em chegar aos cachos mais altos sem a ajuda de meia dúzia de passais, e acartar cestos e baldes por entre erva, carrajó, estrepes de milho, chão agora cimentado e depositar as uvas no ralador, manual, pousando o balde do lado de fora da dispensa onde está o lagar e começar, com a ajuda do corpo e da gravidade, a fazer rodar o volante de ferro, frio, para que as uvas, coitadas, desçam contrariadas de encontro aos rolos que as comprimem e esmagam, ouvindo cair abaixo o sumo que será vinho e o cangaço que, noutras vindimas, viu ser-se bagaço em noites vigiadas entre cobre, vapor e odor a velhos em taberna com histórias de outras estações, velhas também.
À medida que o campo é contornado numa espécie de olimpismo lento, chega ao fim a vindima e sela-se a ouro esta sobre as outras recordações. Não sei o que acontecerá ao lagar, se irão apagar a cinzel a data que foi cunhada quando o construíram, ainda eu era um pensamento com poucos anos de vida, a prensa, o hidráulico, os barrotes de madeira, as tesouras ou as memórias. As cubas ficaram ali onde não estorvam, debaixo do chão de cimento, outrora soalho, como que sepultadas para ulterior reconhecimento, o odor aos cabos de cebolas fará recordar que a vida tem sabores que o palato desconhece e eu, que sempre fui um sem sabor, alimento-me da recordação dos passos no soalho acima e do pó de madeira que caía a cada passada mais forte.
Hoje há um eclipse, por entre a vida e a idade passa a constatação de ambos serem mutáveis, em total umbra caminho como se a minha translação fosse perceber que dos meus olhos tudo sobra, incluindo a minha mão, nesta última poda.

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