2015-08-02

Cantar de Emigração

Crónica de domingo na Bird Magazine.

O asfalto faz-se companhia, quente, nas listas alongadas e intermitentes, dum branco luzidio, por vezes apagado e esbatido, ao longo da distância que traduz a separação do ponto de partida ao de chegada, ainda que não se saiba bem qual, a partida, a chegada. O emigrante é um filho que não esquece a mãe. Ou o pai. Vai e volta no intervalo de duas lágrimas, uma pela ausência, outra pela presença. Costumo vê-los, os filhos deles, como a raiz derradeira de uma árvore que necessitou de outro sítio para crescer, florindo cá e lá, no malabarismo da saudade e da felicidade, do conforto e da necessidade, da velhice que chega antes da idade. Com eles, emigrantes, o mundo torna-se mais pequeno e mais nosso, há sempre uma voz lusa em qualquer esquina de uma cidade fora da nossa aldeia, um triunfo da perseverança, o troféu de uma travessia agreste que separa o filho do pai, a filha da mãe. 
- São portugueses?
- Sim, somos. 
- E assim se lança a recordação. 
- Saí de lá há 30 anos.
 - Não quer voltar lá? 
- Sim, quero, mas só para recordar, lá não tenho nada. 
Há uma umbilical ligação totalmente similar à simbiose mãe-filho, nunca nos afastamos dela, ainda que nos cortem a ligação física que vai do útero ao nosso coração, há uma sensação de retorno iminente à casa que nos viu crescer, quando o mundo se tornava grande e a distância era todo o caminho de brincadeira de casa à escola.
- De onde são?
- Do Porto. 
- Conheço bem, eu era de perto, de Amarante! 
- Ainda é um bocadinho longe. 
- Longe estou eu agora, ou estava, lá tudo é perto.
O que nos une é o que nos separa, a vida, a necessidade de viver, já os nossos frutos germinaram e criam raízes para eles próprios darem frutos, são árvores do nosso quintal, não os levemos a mal, mas já não se abrilhantam como se fosse dia de festa na aldeia, nem saberão nunca o saboroso nascer do Sol para este vale agrilhoado ao vazio.
A emigração parece um sonho, um adormecimento, que nasce quando nos vemos com os pés, encostados ao chão, a olhar para o futuro e imaginamos que o melhor para nós virá assim que desdobrarmos cumes e nos virmos algures onde o conforto mora, se tiver que esquecer o nome das plantas, que assim seja, e pés no caminho, ontem e hoje, se vão, um e outro, enquanto para trás ficam os ventres e uma terra por arar. 
Quantas das casas foram crescendo sem que as habitassem gentes, orgulhosamente sós como o paciente animal, a aguardar o seu dono fiel.
Repito, a emigração parece um sonho, apenas para quem sonha com o regresso, para que não o deseja, o regresso é feito todos os dias com a rememoração de uma amizade infantil, com a agrura da míngua. Todos emigramos, um dia, do lado de lá da vida, para o lado de cá do útero. O asfalto carcome-se, fica gasto e esburacado, regressamos a casa, para uma casa que não é nossa, mas onda mora o sentimento de voltar, para casa, qual delas? Nos bancos de trás dormem, crianças e desejos de férias no país dos pais ou avós, onde moram gentes de falas engraçadas. 
O cansaço se se fez forte esmorece agora, os faróis parecem querer correr mais e antecipam a curva iluminando a rampa de acesso, esverdeada pela erva que cresceu, os pneus comprimem-se contra o chão de pedras sobre terra e o carro esforça-se pela última vez, sobe a rampa e descansa, por fim, quando já debaixo do alpendre, onde moram apenas cadeiras vazias apontadas para o vale, parado na marcha, mas ainda a funcionar de motor, o condutor olha para o espelho e vê as rugas que não existiam em criança, quando saiu, olha para a frente e vê a noite iluminada tal como desejou vezes sem conta quando se decidiu a partir enquanto sonhava com isso nas noites escuras, ao lado um rosto mudo remói saudades de quem perto há muito partiu, coloca-lhe a mão sobre a perna, trocam um olhar, atrás dormem crianças ainda que adultas e crianças ainda que bebés. Não as acordam. Saem com o carro a trabalhar, colocam-se à frente dos faróis e a sua sombra projecta-se até se perder a distinção entre dois corpos, são agora uma sombra de contorno indistinto que se prolonga pelas árvores e acaba por se imiscuir no próprio luar. 
Lar. 
Chegamos.

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