2014-10-05

No lado de lá do chão

in Bird Magazine.

Não vou pensar nas voltas que dou em torno do eixo deste planeta. Hoje, ainda que adormecido, serei centro do que me rodeia, enquanto todos vociferam e, sem o saberem, desesperam.
A vida pertence à vida, eu que o viva, se vivo sou, para ser o local onde não estou e chegar lá sem me conhecer.
Somos aquilo que sabemos ser, ainda sem antes nos debruçarmos sobre o parapeito, por entre as cordas e o colorido das molas no estendal despido.
Seco transpirações e aquilo que me obrigo a vestir.
Tacteio teclas sem emitir notas, apenas o desejo de te ver atrás desta parede, adormecer, dormir, dormires e eu ser teu, sem nunca partires.
Não entres tão depressa no sonho, pouco me resta que o travo e aroma indistinguível de um medronho, sem embriaguez, sem qualquer cálice para onde escorrer a seiva, sem um carreiro, uma leira, para onde me dirigirei quando enfim me diluir... Eu, que nem sei para onde estás a ir.
Gosto de enganar o destino e caminhar cabisbaixo umas dezenas de passos, para depois olhar o céu de repente e ver uma pequena estrela luzidiamente cintilar enquanto uma nuvem juvenil e arisca tapa momentaneamente a luz do Sol reflectida na Lua.
De quando em vez uma flor inclina-se ostensivamente ao caminho e sussurra, sou tua.
Caminharia ad eternum, não fosse a omnipresença destino percorrido imemorado.
De obstáculo em precipício caminha um par de gente. Cegos, ninguém diria perfeitos, dobrando a escuridão sem medo, lado a lado.
Tento encriptar os murmúrios, mas de mim, que gosto, apenas a superficialidade de um profundo que não se conhece parece ser tudo o que neles acontece.
Enganou-me o destino, ao passar por mim cabisbaixo e atirar uma mão cheia de nada dizendo, eis o que de ti te salva, segue-te intuitivamente, os cardápios querem-se de madrugada.
Estafado, passo as costas da mão pela testa, limpo a boca arrastando os lábios pela manga da camisola e atiro um sorriso à gota de suor que caiu entre duas palavras formando uma vírgula personalizada.
As letras estão no forno.
A porta lacrada com dias preparados pelas minhas mãos quando aprendia a escutar.
O vento refresca-me quando coloco a cabeça fora do postigo e leva em movimentos errantes alguns pensamentos que andavam a germinar no resto das sementes empoeiradas.
Se chover e o olfacto for buscar odores a terra orvalhada, terei palavras prontas a cortar e letras a servir.
Falta-me um tição para avivar o lume e talvez por isso a cozedura ou assadura demore mais que o desejado.
Repousem no ventre aquecido, ainda que não escritas, o parágrafo não será esquecido.
Enrolo-me em mim, deixo-me levar pelo cansaço de me fingir acordado e colho-me então, quase maduro, no lado de lá do chão.
Se fossem vós, letras, meu pão... Mas há espaço em mim apenas para mais um ponto de interrogação.
Chovem latidos na noite. Algum cão responde a frequências que não ouço. O vento amainou e a imaginação não me deixa aceder aos confins do adormecer, não quer acordar amanhã, compreendo-a. Nada como viver no segundo, saltando a cada passagem dos ponteiros. Ou viver no primeiro, antes de nascer.
Chove, pelos cantos, aos cântaros, enquanto não me sei secar. O calor faz-se pela fricção de um dia a raspar sofregamente pelo tempo que demora o acordar de um segundo num minuto.
Sentado no cercado, vejo-os a guiar rebanhos cegos. Não têm cães, vara, cajado, nem vociferam. Atiram para o seu meio vestes, que não precisam pois já têm lã. Atiram para o seu meio ração, que não precisam pois já têm erva. Atiram para o seu meio espelhos, que não precisam pois têm-se umas às outras. E enquanto rodopiam, movidas umas pelas outras, sem que parem - pois se todas correm, porque há-de uma parar? - outros movem o cercado, primeiro uns passos, depois uns metros, até o último passo ser dado e elas, atónitas, perceberem que correram sem necessitar, egoificaram sem necessitar, gastaram energia sem necessitar, vestiram sem necessitar, para agora, findo o divertimento do lobo, serem um emaranhado de lã que ninguém vestirá.
Não sei o que me entristece mais, ser ovelha ou analogiar com a pureza que amo, perjuriando a santíssima trindade, o Pastor, a Ovelha e o Lobo.

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