2014-10-19

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Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Foco-me nas nuvens que se vão integrando na paisagem. Já lá tinha chegado o Sol, um matizado de cores derramou-se e escorreu pelo encortinado céu, cheio de pregas e rugas de énios e, depois, a luminosidade deixou-se arrefecer enquanto, juntos, se encolhiam no meu campo de visão.
A minha poltrona faz-se plateia, hoje estou cá eu, tenho casa cheia. Instalo-me comodamente, um ligeiro movimento de ombros e estou moldado às costas, da cadeira e às minhas. A nuca encontra o seu lugar na ligeira saliência que se faz encosto. Os braços pousam nos braços, meus no inanimado, o tecido está puído e nunca lhe soube a textura, o meu corpo sempre quis ter raízes, ser terra, dura. Cruzo as pernas. Descruzo as pernas. Não encontro posição para o prolongamento dos meus caminhos. Finalmente deixo-me ficar, relaxado, esquecendo músculos, fixo o olhar no tecto abobadado, calculo rapidamente o volume semi esférico daquilo que penso e, se existo, deixo-me obliviar para baixar o olhar, rapidamente, para o palco.
Não existem cortinas para descerrar, timidamente bato três vezes com o calcanhar no chão (seria útil estar calçado) e dou sinal para que entre em cena o principal actor da minha vida, eu.
Vi o céu impaciente, as nuvens ameaçam-se subindo de tom e cinzento, o colorido derramou-se por trás do Sol e este esvanece a claridade com que o olhei. A cena da minha vida é feita de múltiplos filmes de um só frame, cada sequência um piscar de olhos, pela mais sobranceira amplitude do que me esforço há sempre uma nova janela, uma oportunidade, um quadro mais velho que a própria idade.
Já o céu se pôs, o Sol, sentindo-se sozinho, segue-lhe as pisadas e vai descendo caminho até se sobrepôr ao horizonte de outro hemisfério. Que seria de si se fôssemos planisfério?
Gostava de me ver acordado, percorrer os canteiros em busca de um sentido aveludado, mas apenas a obiquidade das palavras se faz presente quando não estou ausente.
Em palco um vidro de um autocarro que se cruza com o horizonte de uma criança por trás de outra janela, outro autocarro. Há ruídos de fundo, mas não cabem no mesmo palco, remete-os para nova cena, um latejar que se há-de marejar, um latir dimensionado ao fundo de um torpe degrau a fugir. A criança, o puto, eu. Eu o puto. A criança, criança. Chove, antes e depois da cena, mas, de momento, apenas precipita em mim o culto da autonomia, eu, puto, sorria.
Várias gotas descem o vítreo cortinado e nós, ali, lado a lado, separados por centímetros e anos de distância, eu chuva e ele, inocente, a tentar parar as gotas que escorregam graviticamente com os dedos, cada um sua gota. Há nuvens por onde chove. Há crianças por onde a vida brota.
“Fim de linha”
Não me apercebi, passou-se a eternidade de um minuto e eu, levantando-me, cambaleio até à porta que se abre esbaforidamente e surgo na rua como vômito de um autocarro. Alguém sopra sobre mim um suspiro de impaciência.
Não demoro mais e abro o guarda-chuva já fora, sobre os paralelos submersos de uma rua diluviada pelas lágrimas de quem se quer gente e lamenta, alimenta, a vicissitude de ser pasto.
Abrigo-me junto a uma loja, vende artigos que nunca precisarei, todos a saldo, eu a soldo. A chuva passa, eu passo, a passadeira transforma-se em teclado de piano que nunca soube tocar, eu e ela, um pacote de leite abandonado que se pensa caravela.
Encosto-me à paragem transparente e tento fazer com que ninguém me veja. Algumas gotas escorrem em direcção ao solo, chão, são. Com um dedo tento, do lado de cá da transparência, suster a sua queda numa espécie de poder, super.
Há vitórias, como céus, que se vêem apenas junto de quem com um dedo tudo alcança.
Como um puto, criança.

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