2014-05-27

Sem que me deite ou levante, vou colidindo com os dias que teimam em chover gotículas de degeneração social. Um fio depois do outro, tal como os dias, um quadrado congruente com o ecrã onde são projectadas as imagens que desejam que conheçamos. Fútil, assim chamo à mediocricidade de carácter, plausível de construir dias e eras de escravidão. Por isso, vou levando a vida empurrando este carrinho de mão, onde transporto argamassa, tijolos e pequenos instrumentos que me permitam construir um quotidiano sem fronteiras, um muro invisível, um recanto semi sofrível onde se possam abandonar as camisas lavadas e deixar apodrecer a um canto, na esperança que as fungicidades brotem, as agritudes amargas de quem se mede pelo modelo sem se aperceber que o modelo vai nu. Oh, tu, que nos carregas em braços, desde quando a vida te passou a ser disciplina de curto curso curtido em papirescos tecidos de um ténue entrelaçado que são as tuas mãos unidas em oração. Que pedes mais, meu pobre, além de um pouco de pão? Que pedes mais? Quem te ouça, cansado de te ouvir, saberá que tua fome vem de dentro, apercebida que está da insaciadade do ser, esse, que nunca nasceu, vê-se agora a morrer...
Descansa assim em paz, caro companheiro de viagem, dispo-me de ti, para me vestir em tons de barro e argila, não voltarei ao pó, que se desvanece e transforma em vácuo, mas pernoitarei na companhia de mim mesmo, o que sonha e não adormece, porque mesmo no frio o que sou me aquece.
E tu, quem de ramos se brota e embrutece. Saberás classificar o final do dia em meia dúzia de horas, quando o que se amanhece manhã adentro tem restos ainda de ontens e agoras?
Vai, volitai, entre uns quantos uis, um ai, bastará, verás, para te saboreares a cada nota que chova e colida contigo, de mim, tua pluviosidade, teu amigo.

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