2013-10-30

Resta-me pouco mais que o silêncio e o calor do corpo. Tenho as palavras a latejar no chão, dispersas, sem saber como as agregar e elas, abandonadas, sem se saberem soletrar. 
Nada mais que atropelos, dedadas fugidias no vidro do autocarro, corpos habitados por gente demente, que esbracejam e falam, vociferam, com fantasmas que, acredito, nem elas consigam ver. 
Cansa-me o cansaço, correr sem sequer levantar os pés, aprisionados pela calçada que, até ela, foge debaixo de quem se quer ser chão. Mas esse, chão, solo, litosfera, chamem-lhe o que quiserem, é-o apenas para lá, lá, longe, atrás da última colina, escondida sob um nevoeiro cerrado, onde não estou. 
Que nuvem torpe desce sobre nós? 
Há apenas uma criança, a cantarolar na paragem do autocarro, uma letra que desconheço, creio que apenas ela a conhece, nunca ouvi ou houve alguém a agregar sílabas daquela forma. 
Faz-se tarde, para dormir, descansar, para viver. 
Sinto por vezes que tropecei algures, entre uma raiz de eucalipto ou numa pedra mais elevada naquele caminho que não cheguei, ainda, a percorrer e, trôpego, deixei cair a bandeja onde trazia as letras prontas já, agrupadas em palavras que gostaria de deixar gravadas, senão no papel, pelo menos em mim, ou em ti, para que nunca me esqueça que fomos servidos em bandeja e não de bandeja, para que esta máquina grotesca, ferrugenta, crispada, liderada pela escumalha, pela escroquicidade do ser humano, funcionasse e se alimentasse dos nossos dedos gastos, de nós feridos, de sonhos, creio que perdidos.
Arrefece. 
O calor dilui-se na sonoridade.
Resta-me apenas o silêncio.

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