2005-10-20

Quando chegar a hora...

A lareira crepita e o bailar das pequenas chamas inunda este espaço com uma luminosidade fugidia. As crianças brincam, alheias à apreensão, animando ainda que fugazmente os adultos que, pensativos, aguardam que eu lhes diga algo... E que hei-de eu dizer?
Ter encontrado este local foi sorte, ou talvez não, talvez estivesse escrito algures que isto me seria cedido, a título de empréstimo vitalício, com a intenção clara de não deixar morrer a terra, a casa e os animais...
Chamá-los para virem comigo foi o mais complicado, houve quem não acreditasse e ainda não acredite, mas vieram ao ver-me resolutamente abandonar tudo e voltar-me para aqui, convicto de que estariam para chegar... Os mais próximos, mesmo os mais cépticos, confiaram em mim e trouxeram algumas pessoas da mesma forma que eu os trouxe, porque tinha que ser, porque alguns tinham-se já predisposto a isto e porque, acima de tudo, a convicção profunda, serena, de ser o passo lógico, ainda que ilógico à luz do nosso conhecimento actual...
E cá estou, cá estamos... Esta casa e os restantes anexos são grandes o suficiente para todos e também para os animais. A comida é suficiente e a terra, ainda que tratada por nós, que pouco sabemos destas lides, brinda-nos com frutos, tubérculos, vegetais e toda uma variedade de comida que nos obriga, quase, a fazermos dieta (ainda bem!) forçada...
Agora alguma impaciência se levanta, chove há semanas, sem parar...

Algo faz-me levantar e ir para a varanda... Fico lá sem saber muito bem porquê, olhando a chuva cair, escorrer pelas telhas, cair no chão e cavar pequenos buracos que estão já cheios de água...
Tenho o pressentimento que chegam, devagar, quando tem que ser e não quando eu pensei que seria...

Das nuvens, ainda escuras, vejo formar-se um pequeno ponto de luz, foco a minha vista nele e ele parece aumentar... Aumenta, sim, exponencialmente, é luminoso, no entanto não ilumina, tem um brilho próprio que não ofusca, não se propaga... Ainda chove, sem parar...

Corro para dentro e digo, bem alto, para virem todos para fora... Alguns pararam com medo, outros de admiração, aquela luz, que não é mais que luz, tem algo que atemoriza, que nos torna pequenos, como será possível ter estado sempre cá e não termos visto?
Eles não apareceram, nós é que os conseguimos ver apenas agora...

Vão caminhando uns e outros, sem medo, em direcção àquela luz... Ouço um ou outro suspiro, um ou outro murmúrio de medo, um ou outro pequeno choro abafado à medida que os que se aventuraram primeiro desapareciam, aos nossos olhos, quando entravam naquela luz...

Um a um, lentamente, foram descendo as escadas e caminharam pela chuva em direcção à luz... Pareciam desvanecer à medida que se aproximavam daquela luz... Foram todos, apenas eu permaneço aqui... Esperam por mim, tal como esperei por eles, ou talvez por mim... Vou fechar este livro e deixá-lo com uma marca, um separador, hei-de continuar a história, com outras letras, com outros contos, com relatos desta viagem aos confins de nós mesmos... Mas agora, agora vou... Até breve...

1 comentário:

Patricia Ran disse...

Hoje os chuviscos caem... O tempo está semelhante, apesar de ser Primavera...
Esse caminho de Luz... ;)
Bjs do tamanho do Deserto