2005-08-01

Tales from August

O cão Cão

Quem nunca teve o seu fiel amigo?

Jazes na estrada,
na berma,
como se fosses um reles vadio
e olho-te, pela última vez,
com olhos de neblina molhada.

Tens aquele sorriso na cara,
sim, cara, para mim és mais que animal.
Sorrio porque sei que o tempo pára
e se antes acariciava o teu pelo engrenhado
surge agora húmus e dás vida à vida,
nasce de ti um vale
e visito-te num não muito longínquo passado.

Baptizo-te de cão,
és isso mesmo,
uma forma de voar quando agarrado ao teu pescoço descolava do chão,
apareces ainda atrás de mim,
saltando,
tentas segurar a minha mão,
lambes-me para que te acaricie,
para que sintas o amor que alguém já te deu
e somente agora,
quando te vejo morto,
compreendo que quem pedia carinho era eu.

Inveja hipócrita

A hipocrisia tem rosto...
Escondida nos sorrisos de simpatia
que amordaçam o belo cântico em pedras frias.
Sim, tem cara desbravada,
movimentos que parecem ser de cortesia
e são, no íntimo, acenos de falsas mordomias.

O olhar de lado denuncia a matriz,
já mira o alto da Lua o Sol
julgando ser estrela,
ou universo,
a dor que agudiza o cotovelo
e a voz que em escárnio diz:
Se fosse eu…

Inveja hipócrita que nasce em globos,
os olhares lampejam mágoa
do sentir da vida de outrem no papel,
servir-se de ementa alheia em tez de tábua,
em cortes de capa escura de estudante
nasce o trono de m*rd* para os lobos.

Ser alguém num papiro,
almejar o céu em riscos cor-de-rosa,
sina de pobreza crua e dura nos livros falsos,
o pobre que do mendigo se goza...

Não o é...

eu fui assim...

Encontro restos de mim mesmo,
uma qualquer sombra numa folha branca de um diário
e sei quem fui, quem sou, quem serei
na medida linear do tempo que não o é,
a espiral que para sempre retornará, as contas perdidas de um oco rosário,
um túmulo aberto num templo,
cálculos fictícios da distancia das Plêiades ao cume de Gize.

Chamam-me bruxo,
olham-me de soslaio com medo do eu que não existe
e eu sorrio, peço carinho, estendo as minhas mãos frias,
mas não querem,
negam o meu sentimento e ameaçam-me com a ironia em riste.
Cheguem-se! Aproximem-se!
Por favor, não tu!, não te rias…

Olha para mim!
Olha para mim!
Não, não sou um vulto, sou claridade perdendo a nitidez,
quero que saibam, antes de minha resistência sucumbir,
o que quanto vos amo, o quanto vos quero aqui,
mas vocês riem-se, porquê?, não vos trato mal, porquê?,
não agridam com essa rispidez.
Será possível, questiono-me vezes sem conta, perder o tempo que não o é,
olhando continuamente o que já vi?

Continuo a dobrar, dirigindo-me à minha origem,
um local secreto meu,
só meu!
Retorno ao ponto de partida, pois não existem destino ou origem,
são frutos de dogmas divergentes e assim sendo não posso voltar a lado algum,
estou onde vocês permanecem,
onde todos vós são eu,
onde sou vosso filho,
pai e irmão,
estranho pedinte sucumbindo sabedoria a dementes.

Pedras soltas num ribeiro,
descendo o tumultuoso declive da insanidade,
quantos paus necessitarei para construir minha canoa,
um refúgio contra a convergente maré,
com as mãos nos joelhos, cabeça cambaleando sentimentos,
pedindo convulsivamente um pouco de paz, tranquilidade.
E o mundo não pára, move-se, pula, deixa para trás o passado
no tempo que não o é.

Ouvem-me?
Ouvem-me?
Talvez o meu pedido seja inaudível,
ou meu lamento uma pena nos braços do vento...
As indagações continuam, a lágrima corre,
as primaveras passam e eu aqui, com frio,
abraço a solidão a que me sujeito,
pois não sei o que quero ser, o próximo mistério a desvendar,
sei apenas esboçar-te um sorriso quando no teu rosto vejo sofrimento,
mas isto não chega, não é suficiente aqui, onde vocês estão,
só sou feliz dentro do meu peito.

As pálpebras cerram-se, como o fecho de um acto,
numa lágrima de saudade no rosto de um palhaço,
o cansaço no corpo sucede ao abandono da alma,
a tristeza não é alegria, se eu sou não posso não ser,
a visão tolda-se, vultos conhecidos assolam,
são faces de quem comigo andou no regaço
e ninguém compreende que ao aprisionarem-me, soltem-me!,
estão a cortar rente a ânsia de lá chegar, a obsessão de me rever.

Lanço o último verso à escrita,
vejo-o formar palavras,
que pouco mais são que ilusões.
Miro o negro dos olhos,
dilata-se uma vontade de partir no fundo da miragem
e o sorriso,
outrora espontâneo, nada mais é que um disfarce, oculto a tristeza
que em mim corre aos tropeções.
Acabaste o caminho, a tinta secou e o sorriso desvaneceu,

Acordarei de novo nos teus sonhos…

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